sexta-feira, 18 de março de 2005

sol

dei-me conta que não tinha tabaco. passei a manhã toda sozinha e ainda faltava uma hora para sair do trabalho. não estava ninguém no escritório a quem cravar um cigarrinho. sentindo-me culpada por deixar o escritório vazio, peguei nas chaves e saí a correr. desci as escadas escuras e tão frias à pressa, com o único intuito de atravessar a estrada, entrar no café, meter três moedas na máquina e recolher o precioso pacotinho vermelho.
abro a porta da rua.
de repente, levo em cheio com uma luz intensa na cara, o vento quente beija-me a pele e todo o frio que senti toda a manhã começou a desaparecer, substituído por um torpor agradável e morno que se entranhava na pele e me penetrava até ao fundo da alma, abraçando-me com uns braços invisíveis, feitos de raios amarelos.
dei por mim parada no meio da rua de olhos fechados, braços abertos, corpo virado para a luz e meio sorriso no rosto.

quinta-feira, 17 de março de 2005

sinceridade

chamaram-me uma vez valquíria dos pés de barro...
obrigada

yellow

agora que tenho o cabelo amarelo, só me apetece pintar a cara de preto...

quarta-feira, 16 de março de 2005

music box

quando o calendário ainda era um cartão engraçado de números pequeninos, e a vida eram pulos entre desenhos de giz no asfalto da praceta, ia pelo corredor escuro até ao quarto de móveis antigos ver dançar a bailarina.
e naquela música pausada de xilofone a que dava corda, abria a tampa do pequeno teatro em que o público eram os anéis da avó.
no espelho dois olhos muito abertos, amendoados, brilhavam tanto como os pechisbeques e pequenas jóias desarrumadas, ao ver dançar aquela figurinha cor-de-rosa, imaginando os tules e tutus que não conhecia, passando depois a imitar a pequena boneca de braços rechonchudos no ar.
ainda lá está, na cómoda escura de um quarto fechado à chave para sempre, a caixa preta que contém os seus primeiros passos de dança.

bad hair day

peço desde já desculpa aos inúmeros fiéis seguidores da Palavra deste Blog pela insistência, mas a porcaria do meu cabelo está mesmo na ordem do dia.
ontem cheguei ao cabeleireiro, daqueles finos, bichésimas... ia por-me loira, a mim e à minha colega.
enquanto esperamos que ele se digne a prestar-nos alguma atenção, eu ia olhando-me no espelho e só me vinha à cabeça essa bela melodia de Demis Roussos "Goodbye my love goodbye...", em doce despedida à minha melena quase preta.
acontece que quando o dito artista capilar olha para nós, apercebe-se (finalmente e apesar das fichas que lhe enviei com fotos do elenco e desenhos dos penteados que precisamos) do quão morenas somos, e achou por bem alterar a ordem de trabalhos: vá, vão lá comprar o cabelo que vos vou coser (sim, coser) à cabeça, para depois vos descolorar (sim, descolorar) o vosso cabelo em consonância...
e manda-nos para a Damaia de Baixo (essa bela localidade). estando apeada, porque o carro está fora de Lisboa como convém a quem tem de entrar na urbe à hora de ponta, rachámos o táxi. já a fumegar - o que torna o nosso cabelo ainda mais carvão - lá chegamos e falamos com as raparigas da loja. ele tinha-nos mostrado uma madeixa daquele cabelo que queria, asseverando que tinha comprado no próprio dia na tal loja. pois que não, não foi ali. ele comprou, sim, cabelo, mas tons escuros. loiros não temos nada.
ponho o meu "assistente", que estava na base de operações (vulgo teatro) a tratar do assunto, que eu não tenho dinheiro no telemóvel para andar a ligar para cabeleireiros.
estivemos à espera de confirmação uma hora. durante a qual experimentámos postiços e afins, para gáudio das empregadas da loja, que se divertiam com a nossa cara desolada ao dizer que íamos ficar loiras e que queríamos ter um prognóstico da coisa, e tirámos um curso avançado de cabelos, perucas, postiços, tissagens, cabelo humano vs cabelo natural, apliques, sprays de brilho e outro que tais.
uma hora depois, confirma-se: afinal sempre era no Martim Moniz que havia a tal loja do cabelo, ele tinha-se enganado porque tinha ido a várias nessa manhã.
salvaram-nos do desespero as tais raparigas, que, fechando os olhos a concorrências, nos disseram que era provável que houvesse uma loja da mesma rede no metro do Colombo, a 3€ de táxi de distância.
lá chegámos. a minha colega levava meias de liga (grrau!), que por algum defeito de fabrico lhe caíam pernas abaixo a cada dois passos...
na loja: loiro platinado ou mel? hmmm... tough choice! a minha colega benze-se, porque já se estava a ver de cabeça albina, e assim podemos alegar que era o que havia...
com ela agarrada à liga, lá apanhamos o metro. depois, (esse foi o ponto alto do dia) fi-la correr para apanhar o 39, que ia a sair da paragem.
chegámos ao teatro ainda morenas, cansadíssimas, ela com uma meia pendurada na perna, com belos cabelos humanos cor de mel em bolsinhas de plástico.
um dia estranho, to say the least....

terça-feira, 15 de março de 2005

ai

vou ali pintar o cabelo de amarelo e já volto.

segunda-feira, 14 de março de 2005

e agora para um pouco de luz


[ms]

save as draft

so it shall be written, so it shall be done...

maroon 5

... look for the girl with the broken smile...

discoteca

entre fumos de música alta, que se dança sem querer-se entender o ondular do corpo, a linha dos ombros e do pescoço, ou onde flutua o cabelo.
sentir só os ritmos bem lá no fundo e deixar a massa de gente levar-me onde quiser.
e não pensar, só abandonar os pensamentos às palavras de outros que encaixam tão bem.
porque a cada música, uma nova letra, um novo estado de espírito que se vive, não se nega. que se canta alto porque ali ninguém ouve.
atirar a cabeça para trás e perder noção do tempo, dos mundos, das cores, dos brilhos a toda a volta. que envolvem e absorvem, mas que permitem o alheamento.
parar para uma cerveja e para um cigarro.
e voltar à inconsciência dormente em que só o corpo fala, e a mente já foi há muito silenciada pelas batidas.
e é ali, na distorção de imagens e sons, no enrolar o cabelo ao alto porque corre suor do pescoço, que desliza para o peito, nos gestos delicados e expansivos, no ondular de uma anca, num meio sorriso, que o corpo ganha liberdade para ser totalmente feminino. e, quem sabe, até bonito. até à exaustão.

sexta-feira, 11 de março de 2005

gestos


no teatro queixava-me que, no escritório, me faltava a luz do sol. tantas horas entre paredes frias, de pedra, com uma luz de cozinha... disse que gostava de ter nem que fosse uma velinha para aquecer o ambiente.
hoje tive uma surpresa...

telhados

aqui está a minha nova janela... ao som de Da Weasel...

nokia by thumbelina

quarta-feira, 9 de março de 2005

ensaios

vai-se chegando.
muitos depois de dias inteiros de trabalho.
cansados, olheirentos.
pede-se ajuda aos colegas para afinar o texto.
ajuda-se a mandar os faxes que faltam, atendem-se telefones, tiram-se bicas para quem cá está há muito tempo.
dá-se uma mão na serralharia para acabar aquele pedaço de cenário.
passa-se roupa a ferro, cose-se botões, enquanto a estagiária de moda nos faz ficar bonitos, com desenhos, trapos, cores e luz.
experimenta-se os fatos, com as calças vestidas porque está frio.



depois aquece-se o corpo dançando, rindo, comendo qualquer coisa enquanto o encenador, que chegou invariavelmente atrasado, bebe o seu café na entrada.

quando ele se decide, vamos lá ensaiar.



quem vem ver, vê, só naquele dia, o trabalho final.
não sabe o que está por detrás dos fatos compostos, das caras pintadas, dos cabelos arranjados, dos gestos trabalhados, das vozes emocionadas.
estão horas, dias, meses. corpos e almas. muito choro, muita frustração, muitos gritos e discussões. muito sono perdido, muita sensação de falhanço. é uma história cheia de gente.
[fotos de ms]

no tempo das papoilas

que linda falua
que lá vem, lá vem
é uma falua
que vem de Belém

vou pedir ao senhor barqueiro
que me deixe passar
tenho filhos pequeninos
não os posso sustentar

passará, passará
mas algum ficará
se não for a mãe da frente
é o filho lá de trás

dia da gaja

no dia da gaja, que decorreu ontem, algo estranho aconteceu por estas bandas.
de repente, estavam as raparigas a serrar madeira e os rapazes a passar a ferro e a coser...

don't ask...

dumb blonde

há que visualizar:
uma paixão que perdura até hoje, vinda de séculos antigos. um príncipe e uma quase princesa.
e como são as princesas? lindas, magras, compridas, de dedos finos e elegantes, cinturas finas ainda mais elegantes, olhos enormes, de preferência azuis, cabelos longos, ondulados, esvoaçantes, brilhantes... e loiros.

raios as partam, às loiras.

e porque é que no texto fazem tanta menção ao estupor dos cabelos loiros??? "esses teus cabelos d'ouro"... e não se pode alterar texto, que o Toni rebolava na tumba...

eu e a minha colega vamos partilhar o papel de protagonista. (bem, quer dizer, na prática, faço uma cena, ela três).
ambas somos baixinhas e muito morenas. eu sou mais estreita e tábua de engomar. ela é voluptuosa e tem um belo par de... amigas.

são maravilhosas as metamorfoses do teatro, mas há limites... é que uma pessoa tem vida própria e vai ter de andar na rua!...ora visualizemos a transformação... cabeça amarela, de pele baça e morena... lindo. só me faltam as argolas e falar pelo nariz... usar pestanas falsas, maquilhagem em excesso de cores que não combinam, ter pêlo no peito, maçã de adão e chamar-me "Marilu, a fabulosa"

quando era miúda, queria ter caracóis loiros e olhos azuis. saiu-me o cabelo liso, quase preto, e os olhos "maltesers". em miúda ainda andava com papelotes que a minha mãe (cheia de paciência) me punha. mais umas bodegas de uns líquidos para aclarar o cabelo. e conseguiram o que queriam: cheguei à conclusão óbvia. não é uma questão de poder, é uma questão de ridículo.

agora morde a língua e prepara-te, menina, que se já gostavas tanto de ir ao cabeleireiro como ao ginecologista, na próxima segunda feira vais bater recordes!

caixa

numa caixa vazia depositam-se os resquícios de emoções, sensações, pudores e encaixes.
não se sente, por vezes, o fundo. não se sente, por vezes, o topo.
e no fascínio da levitação, perde-se a noção do vazio.
para depois se encontrar um silêncio demasiado pesado.
para se ludibriar com música.
para se ficar inerte em frente à janela, a ver o mundo passar, sem certeza alguma de se ali se pertence.
mas ao menos o sol aquece um pouco.

terça-feira, 8 de março de 2005

ruas

novos percursos, com este novo trabalho, pelas ruas luminosas de Lisboa. hoje não está tanto frio, sabe bem o vento fresco na cara. vou pela rua sempre a direito, passo o jardim, e deixo-me vaguear entre o mar de casinhas baixas tão típicas e pitorescas. tão lisboetas. as caras ensonadas, fechadas do frio, parecem ter outra vida. compro um bolo e como-o no banco de jardim, ao sol.

gosto mesmo desta zona. era um sonho meu ter uma casinha por aqui. Bairro Alto, Bica, Alfama... já sei, sou demasiado exigente... e ainda por cima é difícil estacionar. mas gosto disto. até dispensava o carro...

gosto da sensação de bairro, acima de tudo. gosto de se adivinhar o rio a cada esquina, em cada ponto de luz. gosto que o sol entre pelas janelas a rodos, sem pedir licença. gosto de haver uma pastelaria onde as velhinhas vão comer a torradinha, gosto dos quiosques e das mercearias. dos prédios baixos e coloridos, da roupa branca ao sol, das conversas de janela a janela, das ruas empedradas. não sei se gostaria de viver num sítio onde as caras são tão cinzentas como os prédios impessoais onde vivem tantos que não se conhecem nem querem saber.

um destes dias fui jantar com uma amiga que mora num 5º andar minúsculo sem elevador em Alfama. uma delícia. o bairro a estender-se colina abaixo, preguiçoso, a ir beber ao rio lá ao fundo. a torre da igreja, de sinos a cantarem as horas. a lua muito redonda em dias limpos, de céu pontilhado e brilhante. logo ali, quase que se pode estender a mão e tocar-lhe. olhar para baixo e ver as ruelas de candeeiros acesos. não me demoveu o facto de terem tido de fazer entrar o sofá pela janela...

é pôr na lista... sonhar ainda não paga imposto!

segunda-feira, 7 de março de 2005

ar de produção

já estou no novo escritório. já tenho a nova janela. com vista para os telhados do Bairro Alto. não posso dizer que estou mal situada, não senhor...
já me deram as guidelines, agora é ver se me safo...
dinheiro fixo todos os meses. é nisso que tenho de pensar.
deixo de ter tempo para estar a 100% nas minhas peças, nos meus projectos.
mas dou vida a projectos de outros, e, quem sabe, daqui a uns meses, talvez me convidem para passar para a frente dos panos.
por enquanto é um dia de cada vez, cabecinha baixa para não sonhar demais...

quarta-feira, 2 de março de 2005

palco


nokia by thumbelina
vai-se construindo esse mundo. aos poucos.
vão-se descobrindo as emoções, os gestos, os passos. devagar.
com medo de não conseguir.
mas as peças vão-se encaixando, calmamente. tomam o seu tempo e há que respeitá-lo.

aqui nascem as histórias, as personagens, o desgaste e a adrenalina.
por enquanto, está um palco vazio. com alguns adereços espalhados no chão escuro.

nokia by thumbelina