quarta-feira, 23 de fevereiro de 2005

decisões

os do topo andaram a engonhar decisões importantes. o refugo, a equipa propriamente dita, são pessoas dispersas, sem quem as dirija ou oriente, porque se está à espera de comportamentos que demoram muitos anos a estar intrínsecos. os ensaios já andam a empastelar há quase dois meses. para variar estavam com ideias de alterar a data de estreia. mas desta vez podíamos perder uma oportunidade importante por causa disso.
desta vez estou eu a produzir. desta vez falei eu com quem interessava. desta vez criei quase um lobby. e o encenador acabou por (espante-se) dirigir-se à equipa.
falta um mês. isto está mau. vamos em frente, empenhamos o couro, ou como é?
usou-se a palavra compromisso. usou-se a expressão "vestir a camisola".
todos falaram. e desta gente, uns com uns meses de palco, outros com anos, uns que trabalham durante o dia, outros que estudam, só recebemos "sim". vamos a isso.
foi um acto de coragem. talvez de loucura.
agora não podemos voltar atrás.
agora é esperar pelos milagres que acontecem muito por aqui...

não sei

às vezes não sei mesmo. e fico assim...

há dias assim

adormeci. podia morar num sítio em que, mesmo atrasando-me, se acelerasse muito, cumpriria o atraso normal, dito elegante, de 15 minutos. não é o meu caso. lá das berças onde moro, há sempre os 20 minutos de auto-estrada, o trânsito na entrada em Lisboa, o largar o carro num parque financeiramente suportável, o apanhar o metro para o Rossio, fazer toda a linha verde...
para melhorar as coisas, a minha colega que poderia estar no escritório para receber os turcos, hoje faltou e não me avisou. atravancada no trânsito, ligam-me a dar a bela notícia. apanhei um táxi mal larguei o carro.
e no carro deixei o passe e o telemóvel... bonito.
tento sacar dum cigarro, mas também me esqueci do isqueiro...
só passaram três horas desde que me levantei...
até tenho medo...

terça-feira, 22 de fevereiro de 2005

amarelinhas revisited

hoje acordei em cima da hora a que devia estar a chegar à Praça da Figueira, para apanhar os turcos - percurso que me toma normalmente hora e meia à hora de ponta.
por obra e graça do destino, só chegámos meia hora atrasados à visita marcada.
saída de lá, a cheirar a bomba de gasolina, de cabelo empestado em vapores peganhentos, com a sensação de que se fumasse um cigarro os meus pulmões explodiam, e com um curso intensivo em vávulas de injecção de combustível (nhami), deixo os turcos muito contentes no autocarro e aproveito que aquilo fica para os lados de Belém. fui almoçar às amarelinhas...
soube bem voltar ali, comer um mini-prato de almôndegas gordas coberto até cima de batatas fritas às rodelas, com as senhoras no seu habitual desvelo.
soube bem o rádio ligado na nostalgia, com o Elton John a cantar-me enquanto bebia o café.
soube bem ser tratada a torto e a direito por "filha", e voltar a ouvir os diminutivos.
soube bem aperceber-me que às vezes se volta a um sítio que já não faz parte da rotina e volta-se a sentir "casa" outra vez.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2005

tchillgan*

conheço gente de todo o lado, vinda dos lugares e culturas mais improváveis. gente a quem o sol fica 6 meses sem aparecer, gente que acha normal acordar às 5 da manhã e fazer jejuns, gente que pega no carro e vai conhecer Espanha e França sem querer saber patavina do país que os acolheu.

agora tenho os tais turcos à minha guarda.
tenho nome turco, e chamam-me "best sister from Portugal". agradecem um pacote de açúcar para o chá com um "thank you for yout high understanding". acham imensa piada ao facto de ser fisicamente parecida com as turcas (oh fado meu) mas ter um comportamento muito mais irreverente e descontraído. no outro dia adoraram o facto de levar umas calças verdes tropa curtas e umas meias às bolas por baixo... completamente fora para eles, está visto. só detestam que eu fume: "Inci, your lungs are hurting"...

há um que é mais desavergonhado e já tem idade e estatuto social (turco) para ter juízo. feio que dói, mas cheio de piadolas sem piada nenhuma. quer-me levar para a turquia na bagagem...

a) deixo de trabalhar e nunca mais têm guia para nada
b) convido-o para o meu casamento católico apostólico romano da semana que vem
c) digo-lhe que sim e deixo-o pendurado no aeroporto
d) largo os cigarros e adiro à burka

*maluco, em turco

interferências


em frente ao computador, com uma sandes de leitão por companhia.
há que trabalhar, há que conseguir apoios, há que bater a portas...
há que escrever cartas, enviar mails e faxes, pesquisar contactos.
fico a olhar para as teclas, para o monitor, para a folha de word com o cursor a piscar.
uma garrafa de água, canetas equilibradas numa taça de clips, a agenda cheia de post-its, de há ques... o cinzeiro com as primeiras beatas de actividade entre pedras tumulares e um desenho que fizeram de mim na parede.
às vezes paralizo. fico estática sem saber bem em que estou a pensar.
e não sei onde vai a minha mente, que me deixa aqui sozinha com a sandes de leitão.

despertares

acordei enrolada sobre mim mesma, com uma perna de fora, encharcada em suor, cabelo num nó espalhado na almofada, as mãos fechadas com tanta força que me custou a abriu-las, enrodilhada num edredon branco e numa manta azul turquesa.
a televisão (ainda) estava ligada...

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2005

olá avó!

ontem vi a minha primeira papoila do ano...


nokia by thumbelina

mal posso esperar pelos girassóis...

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2005

daddy valentine

chego de madrugada a casa. o ensaio demorou, como sempre. entro no quarto e dou de caras com um embrulho em cima da cama... tenho uma prenda do dia dos namorados. ai...

não posso com o apelo vermelho ao consumismo; com os coraçõezinhos vermelhos pendurados nas lojas; com a ideia pré-fabricada de escrever umas palavras (es)forçadas num postal vermelho - à semelhança dos aniversários em que nunca nos sai uma dedicatória de jeito mas tem de ser; com a prendinha vermelha foleira para pôr em cima da cama ou (deus nos livre) pendurar no retrovisor do carro.
criam-se aversões à medida das desilusões. fora a falta de jeito clássica de qualquer macho que se preze para escrever/ oferecer algo/ ter um gesto arrebatado e romântico de jeito, a mais chocante foi para aí no 9º ano: recebo na escola um ramo de rosas anónimo. além de muito curiosa (acreditem, não era de todo normal), fiquei louca, orgulhosa, inchada, enorme (tanto quanto o meu metro e cinquenta e pouco me permitia, claro). largos tempos depois descubro que foi a minha mãe quem mo mandou. vão lá explicar isso a uma adolescente borbulhenta e solitária cheia de filmes parvos na cabeça... é de ficar a destestar o dia dos namorados para o resto da vida!

mas esta prendinha foleira é uma delícia, porque quem ma deu está muito mal, muito triste e muito doente, mas foi à loja procurar um ursinho que me diz "gosto de ti".
obrigada papá.

querida alien...

tenho andado por aí... no outro dia vi o sol nascer, a caminho de Lisboa, quando quase nem conseguia manter os olhos abertos. larguei turcos na outra banda. e atravessei o rio de cacilheiro, sentada num banco a receber o vento frio na cara, a ver Lisboa a aproximar-se de mim, com o David Fonseca a cantar-me ao ouvido.
caramba, que cidade mais bonita. tenho pena de andar tão zombie que por vezes nem reparo.
de rádio sempre ligado, de carro ou de headphones, a música anda comigo, para preencher os silêncios do trânsito e das caras fechadas.
depois fecho-me no tal escritório no meio da pedra, hoje avaria o telefone, amanhã a ligação à net, depois o computador. fico horas à porta do teatro porque não tenho chave e quem tem está a dormir e não atende o telefone. já estipulei um sistema de multas, para me pagar as chamadas que inevitavelmente faço para acordar quem de direito. mas lá se vai trabalhando, tentando arranjar uns dinheiros para pôr uma peça de pé. escrevem-se cartas e faxes, mandam-se mails. logo se vê...
à noite perco-me em frases que já não se articulam assim, nos seus duplos sentidos e sentimentos arrebatados, nas fúrias dramáticas e gemidos de outras paixões cuja história teremos de contar. um elenco de qualidade... fantástico e empenhado (cof cof cof)... muito panejamento...
tenho andado por aí...
ah, e vestido trago sempre cuequinhas de algodão, umas calças confortáveis, uma camisola, um casaco quentinho, ténis e o meu cachecol cor de rosa... ;)

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2005

médias

horas de sono: 4 por dia
número de transbordos de comboios/metro: 6 por dia
número de metros percorridos a pé: 5 por dia
número de línguas faladas: 2 a 3 por dia
número de turcos estranhos: 7
número de chatices por desorganização: "ene" delas
número de chatices familiares: "ene" vezes "ene" delas
número de vezes que me foi permitido ir abaixo: zero
número de sorrisos: todos

chamem-lhe o que quiserem, eu chamo-lhe brio profissional.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2005

disfunções

vou ao médico esta semana... será que ele tem um teste destes para mim...? fiquei a saber que sou oficialmente chanfrada dos parafusos...
obrigada abóbora, pela sugestão ;)

ora cá vai o diagnóstico:

Paranoid: Low
Schizoid: Low
Schizotypal: Moderate
Antisocial: Low
Borderline: Moderate
Histrionic: High (yeeeha!)
Narcissistic: Moderate
Avoidant: Moderate
Dependent: Very High (double yeeeha!)
Obsessive-Compulsive: Moderate

segunda-feira, 31 de janeiro de 2005

no camarim

quem partilhe comigo visões de beleza (e sacrifícios...) que só nós é que sabemos... bem vindo à blogoesfera ;)
diverte-te e escreve muito que é para nos purgarmos que as teclas cá estão...

panejamento

ele é um visionário com muitas décadas de experiência. é encenador e director artístico. estamos em leituras há 2 semanas e "os papéis ainda não estão atribuídos"... ahahah, me engana que eu gosto... só aqui o refugo é que não sabe bem como é a distribuição do texto. falta um mês e meio para estrear e não se decide com nada... só sabe que, como é hábito, quer muito panejamento... a produtora que arranje patrocínios a uma semana da estreia, porque por enquanto, as ideias são apenas desenhos no papel, masturbações intelectuais, megalómanas e passadas de prazo... mas tem a sua piada, tem os seus encantos...
nós brincamos com ele e a senhora secretária de estado já o chama pelo nosso diminutivo...

nokia by thumbelina

E15


nokia by thumbelina

quando me sinto desfocada, obrigo-me a pensar que deve ser uma questão de perspectiva...

sábado, 29 de janeiro de 2005

glamour fora do prazo

entre ensaios e produção, há que (expressão muito utilizada por aqui) produzir um evento especial, importante... convidados vip... glamour, essas coisas...
tendo em conta que o espaço em si é bonito mas nota-se à légua a traça a esvoaçar e as carpetes remendadas, torna-se complicado...
tendo em conta que é suposto a produtora ter uma listagem de coisas a fazer, um orçamento e organizar as suas tarefas, mas que depois o senhor director vai para casa pensar na vida e resolve à última da hora alterar tudo sem avisar em tempo útil, porque só chega ao teatro ao fim do dia... melhor...
ou que não há mais ninguém para ajudar... pois...
como nessa célebre frase, no teatro...
"- it will all turn out well
- how?
- I don't know, it's a mistery"...
correu bem, contra todas as expectativas e relógios...
encheu-se de caras conhecidas, gente influente que normalmente não nos liga nenhuma, mas de bocas cheias de elogios e promessas, fotógrafos à procura da senhora doutora. música ambiente, recital de piano ao qual se acrescentou à última uma leitura de poemas (pelos ursos do costume, vulgo eu e o assistente de produção) muito aplaudida, discursos inflamados de um director artístico frustrado com a falta de apoios, e uma medalhinha para o Teatro...
que bom... não nos dão dinheiro, mas temos uma medalha de mérito cultural... quem sabe se no prego vale alguma coisa... ou derretendo... ali na feira da ladra...
no fim da santa noite, olho à volta.
lá estão, os ursos do costume, o director e poucos mais, cheios de frio porque a roupa de ocasião dá nisto, a comer bolachas de chocolate (que é o que há porque eu trouxe de casa), a dar as migalhas ao cão da pianista, a falar das vidas, que depois de tanto frisson, voltam ao que eram... muito pouco...

segunda-feira, 24 de janeiro de 2005

aliens

Ah... este é o meu assistente de produção...


nokia by thumbelina

tá tudo explicado, não tá?

boulevard of broken dreams

acordo atrasada, meu costume. arranjo-me e saio. está muito frio, mas está sol. pego no carro, ligo o auricular do telemóvel e o rádio, esse bom companheiro. faço-me à estrada. uns quilómetros depois, noto que há um banco de nevoeiro. mais à frente ainda, é o céu nublado que me espera. entro em Lisboa. carros e construções finas, os topos de gama de um país que não tem dinheiro para hospitais, reformas ou fomentar o emprego, mas gosta de estádios bonitos. sigo pela 2ª circular, entro numa estrada menos concorrida, com prédios altos e maltratados, de gente, e cito, "que não interessa ao menino jesus". whatever. mais abaixo, já quando se adivinha o rio, passo por edifícios muito antigos, quase ruínas, não fossem as cortinas nas janelas a evidenciar que ainda moram lá pessoas. não consigo evitar pensar como serão as suas vidas, idades, se terão frio, hoje está tanto... gosto de inventar as suas histórias, que não conheço, normalmente guardo-as para mim. já me julgam maluca o suficiente.
passo naquela curvinha da estrada onde normalmente, no meio do betão, nasce uma papoila na primavera.
depois do viaduto do comboio, viro para a rua do teatro. há um centro de recuperação de toxicodependentes. portanto, muito arrumador de carro, muito carro para arrumar, porque há por aqui escritórios e gente com os seus carros topo de gama que sempre dispensam umas moedinhas. normalmente, há porrada, também.
já assisti a um polícia que teve de meter uma rapariga pelos cabelos dentro do carro. no largo, normalmente, esses, que vivem no limbo da consciência, que abdicaram de sentir, sentam-se nos bancos e deixam-se ficar, catatónicos, ao sol, com a companhia de algum cão vagabundo e as garrafas de cerveja e vinho. havia um, que já morreu, que tinha um pombo que o seguia. o pombo agora está a morrer. às vezes têm as suas desavenças territoriais, de um contexto que nós, que vivemos de uma forma diferente, não conseguimos compreender. desatam ao murro. murros débeis de quem não tem força sequer para levantar a cabeça e seguir.
hoje não.
dois deles desencantaram um maço de tabaco vazio e jogavam à bola. como dois putos. sorriam e gargalhavam. outros, poucos, sentados, assistiam e torciam pela "equipa" que preferiam.
naquelas bocas degradadas, naqueles olhos sem vida, vi o brilho de uma vida que gostava que tivessem.
estaciono. quase não tenho dinheiro para o almoço, mas o medo que me risquem o carro faz-me dar o resto das moedas ao "crostas" que, de jornal enrolado, me avisou que havia lugar.
estão a abrir as portas do teatro. por minha causa, eu sei. se fosse por eles, começavam a trabalhar lá para as 4 da tarde.
o meu querido assistente de produção ainda não chegou. já lhe liguei duas vezes. é um rabo de sono. já sei que vou passar-me com ele.
subo para o escritório, acendo o computador e o aquecedor. vejo os mails, ligo a rádio online. recebo um telefonema de uma revista. boa, o trabalho já começa a compensar. imprimo uma carta, envelopo, ponho o post-it, tem de seguir esta tarde, correio azul.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2005

I'm not crazy, I'm just a little unwell...

sem tempo para nada. de repente, cai-me o carmo e a trindade em cima. não se pense que vou ganhar dinheiro com isso, não senhores... continuo a mesma pé-rapada, mas ocupada.
precisavam de produtora... arranjaram-me um papelucho no coro... interesseiros... e aqui a esfomeada lá aceitou. e cá estou, enterrada no teatro todo de pedra, fechada num escritório sem janelas, acompanhada pelos fantasminhas da casa. a tentar gerir um caos. a comer uma sandes por dia. depois desço as escadas e fico a ensaiar até às 2 da matina...

não me tirem é as tabuinhas, não é?
sou mesmo estúpida.
isto é pior que a droga...

ah, e a melhor... não fui seleccionada no tal casting que fiz... porque imitei o Ricardo Araújo Pereira bem demais!
a administração mudou de estratégia publicitária, e já não queriam imitações... então fui excluída!
positivo.

os ataques de ansiedade amainaram, talvez porque agora tenho algo com que me preocupar. não tenho tempo para ataques. depois, quando voltar a parar, caio para o lado um mês.

o problema é que não vejo a minha família...
mas se calhar não é problema... eheheh...

isto hoje tá pouco filosófico, com aspecto de diário de adolescente, mas é o que se arranja...

goodnight, dear voyd...

sexta-feira, 14 de janeiro de 2005

em pleno ataque de ansiedade

tento sentir freneticamente a minha pulsação. não sei do que é que estou à espera. se o coração tivesse parado eu não me podia mexer, estúpida. agora parece que está descompassado e a querer fugir-me do peito. não sei porquê. sei que dura há uns dias. acordo bem disposta e parece que está tudo bem. daí a bocado recomeça... já não tenho nós nos músculos. tenho músculos nos nós. só me lembro da madame Souza (Belleville Rendez-Vouz) a massajar o seu netinho... com um aspirador e um aparador de relva... é mesmo isso...
parece que se sentaram no meu peito (do lado esquerdo, claro, para ser mais assustador ainda) e lá montaram acampamento. a solidão e o estúpido do medo de morrer. nunca fui assim. já me irrito comigo mesma. nunca tive paciência para hipocondríacos e agora tenho de aturar uma 24 horas por dia.

nunca pensei que a alegria de viver e o medo de morrer pudessem estar tão estranhamente ligados...

segunda-feira, 10 de janeiro de 2005

considerações

voltei a precisar de deixar a tv acesa para conseguir adormecer...

quinta-feira, 6 de janeiro de 2005

sleeping in my car...


nokia by thumbelina no meio da autoestrada...
é uma canção foleira dos Roxette... mas é uma frase que se aplica a uma forma de vida. um pouco a minha.
este carro conhece-me há tantos anos... fui buscá-lo bebé à oficina, tinha uns poucos meses de carta (sim, ainda se vivia bem, nesta família. era suposto ser o carro da minha mãe mas ela tem medo de conduzir... temos pena ;)
é bordeaux, ou vermelho vinho, ou lá o que quiserem chamar. lembro-me que não simpatizei logo com a cor. it's something that started growing on me (porque é que há expressões que só saem em inglês?). acabei por em certas alturas usar as unhas da cor da pintura...
lembro-me que, no primeiro dia, tive medo de o conduzir. medo de o estragar.
depois tornou-se o meu melhor amigo. ganhou logo um diminutivo, que nessas coisas sou terrivelmente foleira. é o jippy... e nos dias maus é o cabrão do carro. fofinho, não?
foi comigo tirar o curso, dando um fim aos dias em que tinha de acordar às 5 da manhã para chegar às 8 à faculdade (para jogar matrecos, mas isso fica para outro post...)
tornou-se o táxi de toda a gente com quem antes me encontrava no metro do Campo Grande às 7 da manhã. passámos a ir todos de popó. de cuzinho tremido, como dizia a minha avó. e passámos a passear nele. e a fazer raves nele, no jardim da faculdade (lembras-te, V?).
a partir daí, fui 'boleieira' oficial de meio mundo. nele conheci Lisboa, Portugal, arredores...
este carro assistiu a todos os episódios da minha vida. nele tive ataques de choro convulsivo de que ninguém soube. nele tive o primeiro ataque de ansiedade. nele tive ataques de riso. nele estudei. nele bati texto. nele me deixaram bilhetes, e recados, e flores(!), e mensagens desenhadas nas janelas. nele me deixaram marcas de cigarro. nele andaram afixados todos os cartazes de peças em que entrei. nele andaram a balançar baldes de cola para andar a colar cartazes por Lisboa inteira. nele abri prendas. nele dormi. nele discuti. nele beijei. nele fui ombro. nele precisei de um ombro. nele cantei em plenos pulmões. nele dancei. nele carreguei cenários. nele andaram bolos e frangos assados. nele tive dois despistes. nele me maquilhei, penteei, mudei de roupa. nele andou areia e neve. nele ultrapassei os limites de velocidade. nele apanhei multas de estacionamento. nele apanhei desilusões. nele apanhei chuvadas, trovoadas, choques eléctricos, escaldões à camionista. nele aterrei noutros mundos. nele vi luas, estrelas, entardeceres e amanheceres. sozinha. acompanhada. nele trouxe a casa de uma amiga. nele trouxe turcos do aeroporto. nele trouxe a minha avó ao teatro. nele anda o meu perfume, o canivete suíço, a última multa, as chaves da casa da minha avó, o chapéu de chuva, o boné, a tenda, a agenda, os cds, a máquina fotográfica, livros... a minha casa. e os cheiros dos que fazem o meu mundinho.
nele sou independente. nele muitas vezes me apeteceu ignorar a tabuleta que indicava a saída da auto-estrada para minha casa e seguir. só seguir.
são quase 180.000kms. são 7 anos.

nokia by thumbelina
é muita música.

diário de uma wannabe

10:30 - acordar com um sms. pré-seleccionada para um casting. boa.
10:31 - casting????
10:32 - ligar a confirmar. devo ter ganho mais uns pontos porque fui forçada a usar a minha voz de almofada, que a outra ainda estava inactiva. casting às 15:40. ok
10:33 - epá, peraí! tou inscrita nesta agência há mais de um ano e nunca me chamaram... mas que raio...?
10:35 - duche.
10:36 - AAHHHH! pera lá, eu coloquei lá a estagiar um dos putos de um dos programas da empresa onde trabalho/ei! isto de se ser simpática deve render qualquer coisa... fez-se luz!
10:36:45 - champô nos olhos, champô nos olhos...
10:45 - roupa...? ok, porreiro, agora gostava de me chamar Athina Onassis...
10:50 - gorda
10:55 - sem formas
11:00 - sem (o pouco) peito (que tenho)
11:05 - baixa
11:10 - marco horácio
11:15 - não tenho sapatos para dar com isto
11:20 - the hell with it!
11:25 - imprimir o texto que mandaram. pera lá, eles querem que eu imite na perfeição o Ricardo Araújo Pereira... hmm... um génio da comédia... eu... hmm... peanuts...
11:26 a 14:00 - visualizar sem parar o sketch do homem-a-quem-parece-que-aconteceu-não-sei-o-quê (obrigada avôzinho, pela prenda de natal, és muito à frente). comer e essas coisas.
14:05 - claro, borbulhas... e manchas... e a pele ressequida do frio... claro... e eu tenho de maquilhar esta coisa que tenho ao espelho?!
14:30 - the hell with it! parte 2
14:35 - sair de casa, dar boleia ao pai.
15:20 - estacionar no centro de Lisboa. ahahahahahah!
15:35 - correr (a pé, sim) para a agência. ainda tenho tempo de beber um café e comer um cigarro. a maquilhagem já derreteu: tenho óleo de fritar a enaltecer-me o nariz e a testa e a sombra dos olhos é agora um belo par de olheiras.
15:40 - sou tão pontual... picar o ponto. receber a bela da folhinha que tem o número do gado, perdão, da candidata.
15:41 - sala de espera. encontrar mais uns wannabes conhecidos. conversa-fora. reparar nas duas miúdas que me calharam em sorte. nuances loiras, argolas, magras, mamas grandes... your basic nightmare. uma só dá risinhos nervosos, a outra manda toda a gente calar porque quer ouvir o-homem-a-quem-parece-que-aconteceu-não-sei-o-quê (que está em loop na tv da sala de espera). são amigazzzzz...
15:43 - corredor, fazer figuras parvas em frente ao espelho.
15:45 - um rapaz que nunca vi na vida reconhece-me. parece que foi o tal puto que lhe falou de mim. e por isso, parece que já sou a melhor amiga dele.
15:50 - nº27.
15:50:32 - Ah, sou eu!
15:51 - sala branca, vários projectores e uma câmara digital num tripé apontada aos presidiários. dois dedos de conversa com o tal novo melhor amigo, que afinal é o gajo que vai gravar o casting. olha o Manolo! muchas gracias, chico!
15:52 - mostrar o papelinho. sorrir. perfil, sorrir, outro lado. a câmara olha-me de alto a baixo (mais baixo que alto...). pronto, vamos gravar.
15:55 a 15:58 - não me lembro. a minha mente está em branco.
15:59 - chamam as outras tais das argolas para fazer outra cena, agora em grupo.
16:00 a 16:05 - não me lembro. a minha mente está em branco.
16:06 - tá feito, tá morto. dizem que depois ligam, aquelas tretas do costume...
16:07 - passo pela sala de espera e desejo muita merda a quem lá está a olhar para a tv e a roer as unhas. olham-me de alto a baixo (mais baixo que alto, apesar de estarem sentados) e murmuram um obrigado muito muito afectado.
16:07:25 - estúpidos. não sabem que não se agradece?

ser wannabe nesta terra é complicado.
não tenho nuances, mamas grandes, 1,90m... só borbulhas e unhas roídas.
não tenho tachos, só experiência e formação...
sei articular...

the hell with it!

terça-feira, 4 de janeiro de 2005

ressacas

não havia confettis.
poucas pessoas, as suficientes para fazer barulho sem irritar ninguém. e uma miúda amorosa a quem se tentou roubar a mesinha. só uma pessoa levou música, pelo que se passa a noite toda com a mesma banda sonora. amena cavaqueira, comidinha da boa, leva-se uns bolos e uns sumos para ajudar. um dos fondues pega fogo.
espera-se com a Júlia Pinheiro pela meia-noite, em cima de uma cadeira. grita-se, beija-se os amigos e recém-conhecidos, deseja-se tudo de bom. a miúda usa, finalmente, as tampas de tachos que trouxe consigo e que guardava religiosamente no sofá ao pé da janela.
quando o ambiente amorna, e o efeito do vinho alivia, vai-se a outra capelinha, a casa da M., e joga-se trivial até se adormecer em cima dos cartões com as perguntas.
passou-se bem, este ano.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2004

5, 4, 3, 2, 1...


imagem encontrada no google, ah pois...

já vesti, como manda a tradição da minha avózinha, umas cuequinhas azuis. para dar sorte.
agora, é esperar pela meia-noite e deixar a data mudar. espero que não usem confettis...
a minha banda sonora, como boa sagitariana com ascendente em aquário e lua em touro*:

don't look back, don't look back, don't look back, don't look back
I will buid my world,
I will sing my songs
I will keep my helmet on...
[The Gift - Am/Fm]


*(optimista, sonhadora e impulsiva, ascendente em lutadora e intuitiva, lua em esteta e pragmática)
*(ou: idiotamente crente, estouvada, ascendente em teimosa e tosca, lua em manienta e bruta)

quinta-feira, 30 de dezembro de 2004

entretantos

no ano novo todos fazem resoluções. que normalmente não cumprem. defendo que se deve lutar pelas coisas todos os dias do ano, fazer com que aconteçam. não vou fazer dieta, não vou deixar de fumar... e se achar que devo, fá-lo-ei... em qualquer dia do ano que resolva.
porque o novo ano não me resolve. hoje há sempre 365 dias fresquinhos para estrear.
dizem que há sempre esperança. tenho-a sempre e nunca a tive.
há sempre motivos para sorrir, todos os dias. por mais que a alma chore.
deixem-me chorar mais um pouco. os sorrisos vêm, por inerência, por contraste, por complemento, por afinidade.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2004

one big happy family


nokia by thumbelina
já é uma tradição tão cerrada como a roupa velha ou as fatias douradas do meu pai. quando cá está a família toda vamos ver as iluminações de Natal. com ou sem espírito, toda a gente se deixa vaguear por ali, ignorando o mau ambiente. de mão dada com a minha prima, e em amena cavaqueira com a minha irmã e a minha tia, fui disparando com um presente que ofereci a mim mesma (com pontos, muitos pontos)...

segunda-feira, 27 de dezembro de 2004

nota mental II:

se a mãezinha tem uma predisposição para inventar pratos estranhos e saudáveis (bleargh), NÃO lhe oferecer o Culinário da Assírio e Alvim...
ou então, comprar Kompensans...

domingo, 26 de dezembro de 2004

nota mental:

por mais que a mãezinha faça beicinho e tenha direito a gostar das suas músicas, NÃO oferecer o cd do Russel Watson, se ela tiver aparelhagem na cozinha...

sexta-feira, 24 de dezembro de 2004

aconchego

em desassossego percorreu o corredor e pôs-se em frente à janela...
- é quase meia-noite, o Pai Natal deve estar aí a chegar. vai ver se o vês...
as palavras aceleravam-lhe o coração e rebrilhavam-lhe nos olhos mil fantasias.
de olhos fixos no céu escuro e pontilhado, tentava adivinhar um movimento.
passou uma estrela cadente. fervorosamente, repetiu as palavras que a avó lhe ensinara.
- deus te guie, deus te guie, deus te guie.
para não cair na terra e dar um desejo, que pediu, de alma aberta. perdido nos entretantos de memórias de tantos sonhos e desejos por estrear.
e perdeu-se em fantasias cor-de-rosa em que as almofadas eram as nuvens e as lanternas as estrelas. no encantamento sentiu a lua a fazer-lhe festinhas no cabelo com as suas mãos de vento. era a avó, que vinha ver se ela estava sossegada. pôs-lhe a mão no ombro, respeitando o silêncio prescrutante. e ficaram as duas a ver se aparecia o Pai Natal.
de repente, do fundo dos seus sonhos soou uma campainha.
deu um salto e de mão dada com a avó, correu pelo corredor até ao sapatinho por baixo da árvore de Natal. mergulhou nas cores, que rasgou, de olhos gulosos...

quinta-feira, 23 de dezembro de 2004

mensagem de natal

independentemente de tudo, não custa nada e sabe bem desejar coisas boas.
aconchego, calor e paz.
para todos.
bom natal.

natal e lua cheia

deveria já sentir-se o cheiro da canela e dos fritos, da lenha a crepitar, o quentinho do forno sempre a funcionar, e da lareira. devia haver o sussurro das últimas prendas a serem embrulhadas, num vago secretismo maroto. devia sentir-se as vibrações de carinho e ansiedade pela chegada dos nossos tão queridos que chegam amanhã. que são inerentes a esta altura do ano, sempre, cá em casa. devia começar-se a espalhar velinhas pela casa. pôr as prendinhas pequeninas para aqueles que não estão debaixo da árvore. encher o frigorífico com o aprumo e dedicação, já salivando com a perspectiva dos pratos compostos. devia haver música, independentemente dos gostos. sorrir-se com a ideia de uma noite de natal com todos os que sempre importaram juntos de novo, sem hipocrisias, e com o facto de ser uma noite fria, límpida, de lua cheia, ou quase.
todos os anos o temos conseguido, bem ou mal.
este ano, a casa está fria. em todos os sentidos.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2004

tou-me nas tintas

cortei a banana e a pêra em pedaços não muito pequenos para ele não se engasgar. tudo num pires, um garfo e um guardanapo. o meu avô está a lanchar. a casa está vazia.
enchi uma taça com água, peguei nos pincéis e entrego-me.
deixo a tinta verter no pires, passo-lhe com o pincel, sinto-a esticar na superfície de madeira e cortiça, os cheiros suaves do acrílico. os dedos pequenos começam a ficar sarapintados.
misturo cores, criando o meu próprio arco-íris, a minha paleta.
enquanto tento fazer de um quadro de cortiça uma prenda de Natal bonita e original, ponho um cd a rodar. e ao ouvir o refrão lembro-me de um trocadilho...

...how are you doing?

I'm doing for music,
I'm doing for love
I'm doing for everyone around me
Music [The Gift - Am/Fm]

[m/p]erdas II

já que tou na mó de baixo, vou exorcizar as desgraças todas de uma vez. este blog também serve para isso. não interessa um pintelho, mas a mim também não.

há os clássicos:
o carro (única forma de comunicação com o mundo) que avaria a cada semana.
as operações multi-anuais ao meu pai, que de repente se vai abaixo com um problema qualquer novo (desde hérnias, a calcanhares desfeitos, a polipos).
a depressão da minha mãe, desde que a minha avó morreu.
a máquina de oxigénio do meu avô.
a casa que me tiraram.
a gata que não é minha.
a vida que não tenho.
o trabalho que faço por amor e não me dá dinheiro, e agora me descartou.
o trabalho que não tenho por querer poder fazer o que me descartou.
a desilusão para os pais de uma menina de notas máximas e quadro de honra que deixou a faculdade para fazer teatro.
o dinheiro que não tenho para sequer passar a passagem de ano com amigos.

agora há uma nova:
admiro imenso o meu pai. é um autodidacta e conseguiu uma distinta carreira de director comercial de uma empresa por mérito próprio, subindo a pulso e inteligência como poucos. a minha mãe também trabalhava lá. tinham uma vida desafogada. dedicaram-se mais de 20 anos àquela casa (outra...). há uns 4 ou 5 anos (no mesmo ano em que a minha avó morreu), o meu pai teve de fechar a empresa que geria. porque o sócio (que não percebeu nunca patavina de gestão) achou que era esperto e resolveu, um santo dia, começar a meter o bedelho nos negócios. fazia acordos estranhos. comprava presuntos pata-negra e fazia jantaradas com os clientes e tava-se a marimbar para os problemas financeiros. acabou por vender a empresa a uma multinacional, que a extinguiu. leis de mercado para os maus gestores. lei de murphy para os demasiado empenhados.
os meus pais estão desempregados. ainda não têm idade para reforma.
agora veio a notícia de que lhes vão congelar as contas todas.
por falcatruas que não fizeram.
o sócio? (e meu malfadado padrinho - ao estilo mafioso mesmo)
está de férias no brasil. gordo e rico.

merry fucking christmas.

[m/p]erdas

dois anos e meio. de dedicação. quando mais ninguém via ali uma ponta de interesse, eu estava lá. a batalhar, a tentar que evoluísse. falo de um lugar, mas também de um lar. que pensava que tinha. ali uni uma família desconstruída. consegui que muita coisa acontecesse apesar da grande percentagem de improbabilidade. apesar dos "o que é que estás lá a fazer". apesar de perder dinheiro de cada vez que ia para lá. fazia os 30 km com dedicação e noção de que tinha de ser, se quisesse que algo acontecesse. ensaiei até às 8 da manhã sem replicar. pintei chão. colei cartazes. lavei camarins. cosi panos. acendi luzes, carreguei no play nas alturas certas. subi e desci volumes. vendi o produto. vendi bilhetes. fiz os telefonemas todos. lutei com um computador no seu leito de morte e ganhei. fiz cartazes. textos de promoção. traduções. dirigi actores. dirigi alunos. dirigi desânimos. trouxe bolas de berlim de madrugada. dei boleias a quem não tinha como ir para casa.
tive de sair por dois meses. avisei com um ano de antecedência e honrei o compromisso de que voltaria de braços abertos. deixei também tudo preparado para agarrarem uma oportunidade que os poria de novo na mó de cima.
e agarraram.
mas chegou o momento de distribuírem papéis. e eu não estou na lista.

mais uma casa que mobilei, a que dei alma. e que perdi.
merry fucking christmas

portas de vidro

uma miúda só, no meio da multidão de sacos e músicas de Natal. paragens em lojas, sem olhar para as montras. já tenho o moleskine com pautas para o irmão músico... era a prenda maldita. resolvido. ainda em busca de um quadro de cortiça para pintar (que o dinheiro não dá para mais), recebo um telefonema. corro ao hospital, para dar apoio moral ao meu pai. a minha (outra) avó está no hospital. uma mulher com quem não tenho laços particularmente fortes. a quem desde sempre ouvimos queixas melodramáticas-hipocondríacas. o vizinho tinha uma doença e ela no dia a seguir também já a tinha. como na história do Pedro e o Lobo. agora é a sério. "problema grave nos intestinos, que provavelmente já chegou a outros lados". porque é que os médicos não dizem as palavras "cancro com metástases"? lá vem outro Natal daqueles, penso. cá em casa é assim, sempre assim. há sempre porcaria da grossa na altura das festividades. é sempre um Natal ensombrado, caraças. espero o meu pai, que está a resolver problemas com uma médica narcoléptica (fica para outro post, porque é realmente paranormal). observo tudo à minha volta. recebo o ar frio no rosto, encostada à parede, em frente à ambulância vazia. do outro lado das portas de vidro, gente disposta de frente para a televisão respira o mesmo ar rarefeito, suado, doente. numa sala fechada, em que todas as portas têm o sinal de sentido proibido. excepto a da casa de banho. de onde sai um homem com uma chucha, que entrega a uma mulher que tem uma bebé sorridente no colo. velhinhas, muitas. de ar cansado e olhos postos no nada. à espera. gente com a cabeça enterrada nas mãos, levantam-na de cada vez que há um movimento, na expectativa. ouço os seus suspiros sem som. estou (demasiado) habituada a hospitais. mas desta vez não fui capaz de entrar naquela sala.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2004

querido pai natal:

este ano gostava de te pedir
::umas meias às cores
::um dvd
::um livro
::capacidade de conformação

sexta-feira, 17 de dezembro de 2004

branding

depois de criar 114 envelopes no word, dizem-me que há 40 postais e envelopes disponíveis no escritório...

banda sonora para o momento em que carimbo os postais existentes e me marimbo nos restantes:
forever more [moloko - statues]


janela sobre a calçada

estou sozinha. não me apetece ir almoçar sozinha, mas eventualmente terá de ser. porque tenho fome. na janela do tal prédio em obras, mesmo aqui em frente, está um pombo a olhar para mim. está sol. mas o aquecedor está ligado. ainda não pus nenhum cd, e o silêncio agora incomoda.já fui 3 vezes à janela. [...]
um bairro em silêncio e ebulição. os putos devem estar a passar. hoje tenho uma surpresa para eles: as colegas ofereceram-me um frasquinho de bolas de sabão...

quinta-feira, 16 de dezembro de 2004

ah cão! - parte 5 e 20 da tarde

a patroinha deixou a lista de afazeres: enviar postais de Natal para todas as empresas que colaboraram conosco deste ano. tendo em conta que recebemos centenas de estagiários e fizemos dezenas de visitas técnicas, seria à partida um desafio light. mas depois há que ressalvar que a bosta da lista de contactos está completamente desorganizada (não me tiveram cá tempo suficiente, e, apesar de ter começado um tipo de organização, mal saí, recomeçou a balda) e elas não apontaram metade das pessoas com quem contactaram para conseguir as ditas visitas e estágios. tive de pescar os contactos um a um de documentos soltos, descobrir endereços e nomes de pessoas do ar. isto levou-me o dia todo. depois era imprimir os envelopes. só. vai daí, o assistente de impressão em envelopes crashou, e com ele os documentos word todos. recuperei o dos endereços, mas daí a a pouco, não sei como, o ficheiro estava em branco. tenho de recomeçar tudo de novo. são 5 e 20 da tarde... as cartas têm de seguir amanhã... mas porque é que neste escritório em que tudo se faz em computador e via net, não se manda um e-card????????????? e porque é que os sagrados* mecânicos não me ligam com novidades do meu carrinho? porquê eu, porquê???

*leia-se fdp

ah cão!

acordo cedinho, que a vida não está para menos. saio a correr porque quero estar cedo na paragem do autocarro. o autocarro chega 15 minutos depois da hora, por causa do trânsito. por causa de se ter atrasado foi apanhando o dobro das pessoas pelas paragens. chega à da minha terrinha (que é a última antes da autoestrada) e "só entram 5 pessoas, peço desculpa". tuuudo bem. espero mais um cigarro, chega a outra camioneta, vazia, claro. chego a Lisboa. apanho o metro. o meu carro está pronto, tenho de o ir buscar ao Areeiro. chego lá. ainda apanho um pedaço de conversa: "e depois ela foi a um desses médicos naturais..." "naturalista." "sim, isso". pago pouco, parece que foi só um fusível. saio contentinha. na 2ª circular o carro pára. outra vez. não, outra vez não... ligo para a oficina, pergunto se é para os apanhados. mandam lá um senhor (por sinal num carro de um cliente, com os plásticos no assento). ele troca o fusível e segue-me de volta à oficina. armo outro escabeche, eles que nem pensem cobrar arranjo nenhum, deviam ter-se lembrado de ver qual era o motivo de os fusíveis rebentarem antes. lá baixa os olhos e escreve "reclamação". saio a fumegar. o pequeno almoço já desceu há horas, mas estou atrasada. metro. Martim Moniz. subo as escadinhas de calçada com laranjeiras e desço a rua. aceno ao dono do cafézinho, mas hoje não dá para segundo pequeno-almoço, de bica e bolinho de manteiga. subo as escadas do prédio. ligo o computador, escancaro a janela. cheguei...

quarta-feira, 15 de dezembro de 2004

serendipity

provavelmente a palavra mais bonita do inglês.

penso no cigarro que não tenho porque é de noite e o maço acabou. não tenho onde ou como ir comprar mais. leio-me e desreconheço-me. mas também não.
como umbigos mais altos se impõem, vou ter de acordar cedo, mais cedo do que preciso. vou onde fui indispensável e me dispensaram até ver. suspenderam a dispensabilidade porque há reunião em Sevilha e eu dou jeito. chama-se capacidade de desencaixe. raios, detesto almoçar sozinha. lá vai ter de ser. vou ver se almoço tarde para ver se os putos sobem a rua aos berros e me fazem sorrir. costuma resultar. ao menos vou poder usar o computador grande. tenho de levar um cd giro. o silêncio esmaga. deve estar frio lá em cima. espero que esteja sol. sempre aquece a vista. ainda tenho umas compras para fazer. não tenho tempo. mas tem de ser. pode ser que encontre as tais pantufas.
bem, ao menos estou fora de casa...

1.5. comente a imagem



esta é a Maria. a Maria é a minha gata. nunca gostei particularmente de gatos, (always been a dog person) mas sempre lhes achei piada... acho-os estúpidos, que é a minha forma de dizer cómicos. porque é que a Maria é a minha gata e os outros não? não sei. sei que me apaixonei por ela quando a vi. síndroma de Garfield, se calhar... é amarela, minúscula, gordinha, tem os olhos da cor do pêlo, mais arredondados que o normal. tem 4 meses, e é metade do irmão. tem o pêlo muito muito suave, tipo angorá. é meiga e brincalhona, e não é agressiva.
era a Maria que eu ia levar para a minha-casa-que-não-é-minha-e-que-já-não-vai-ser.
a Maria está a crescer. já não vai aprender a ir ao caixote e metê-la dentro de casa agora, depois de se ter habituado à vida livre e selvagem, parece-me maldoso.
talvez um dia a Maria tenha uma filhota ou filhote, mais pequeno que o normal, amarelo e brincalhão, macio e meigo, de olhos mais arredondados que o costume. e eu já tenha uma casa-minha-só-minha.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2004

kidding, right?


desculpa lá Roy Lichtenstein

ora estou a 300 e tal km de casa, onde, convenientemente, deixei a carteira esquecida. é fim de semana e estou em trabalho. já vai alta a noite, como na canção do outro. estou perdida no meio de Oliveira do Douro. à procura de um salão de festas, numa quinta dessas finórias, onde vou animar 200 macacos de gravatas e/ou saltos agulha no dia seguinte. tenho de os ensinar a fazer ritmos e tocar xilofone... não perguntem... a equipa que deveria preparar o evento tá dispersa, atrasada, metade deles ainda vem a caminho. quero chegar depressa, para preparar tudo o que me diz respeito, voltar depressa e dormir um par de horas, já que no dia a seguir tenho de estar aos saltos e muuuuito animada. ando às voltas, e voltas e voltas, e o estupor da terrinha parece cada vez maior e mais labiríntica. já não sinto o rabo. dói-me o joelho porque sou pequena e não consigo pousar o pé confortavelmente no acelerador. o mapa só ensina um caminho, com o qual não dou. já passei 3 vezes pelo talho. e outra 2 pelo presépio e pelo cemitério.
o carro pura e simplesmente pára.
no meio de uma rua perdida em Oliveira do Douro.
e não lhe apetece mexer mais.
está um grizo que não se pode.
o reboque chega antes do gajo que anda perdido em Oliveira do Douro à minha procura para me dar boleia de volta. não sinto os pés.
fiquei sem carro.

demoram 3 a 4 dias a trazê-lo para Lisboa. (mais outros tantos para justificar as horas e horas de mão de obra que me vão cobrar pelo arranjo). tenho os dedos dos pés azuis.
fiquei sem carro.
voltei para Lisboa de boleia com a B. os macacos gostaram dos xilofones.
é a semana antes do Natal, tenho montes de tralha para comprar.
fiquei sem carro.
moro a 30 km de Lisboa e a última camioneta para casa é às 10 da noite. não há comboios, metro ou amigos nas redondezas.
o carro veio da revisão há um mês. passou na inspecção há 3 semanas.
...
pausa para respirar
...
tenho de ir à bruxa, arranjar uma pata de coelho, uma ferradura, um trevo de 4 folhas...
ou um carro novo.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2004

pente 0

detesto ir ao cabeleireiro. prefiro ir à ginecologista ou ao dentista, a sério.
a saga é inexplicável. já experimentei os cabeleireiros de bairro, os da moda, os gays, as senhoras com madeixas suspeitas e mola na cabeça... o problema deve ser meu, só pode.
começam por me olhar de alto a baixo... o meu cabelo escuro, liso, escorrido e oleoso não representa (como deveria!) um desafio. perguntam-se antes porque raio é que fui ali e não ao barbeiro fazer um pente 0.
tentam impingir mil e um produtos para lavar o cabelo que, por mais que eu diga que não tenho dinheiro para comprar, acham sempre indispensáveis. a parte porreira é lavar a cabeça... sabe tão bem. porque é que nunca têm cotonetes?
"como é que vai ser?" aaaahhh! esqueça, vou andando!
já experimentei dizer para fazerem o que quisessem. já tentei levar uma foto. já estudei o léxico. já fiz por gestos. já usei metáforas (a melhorzinha ainda é "queria assim um corte bem-disposto", ao menos saco um sorriso). sai sempre ao lado. suspeito que sofro de uma terrível incapacidade de comunicação crónica com os cabeleireiros.
ao som das tesouradas, vai-se-me apertando o coração com aquela sensação do irremediável. agora já não há nada a fazer. ai senhores que não era nada disto. se calhar seco fica bem.. mas... mas... eu não pedi... mas... mas... aiiii tem aí fita-cola?
eu queria ter o cabelo compridão, sedoso... mas não há dinheiro para extensões e esperar anos não me parece. já que não posso ser elfa, lembro-me dos cortes drásticos que já fiz, que me dão um ar de hobbit rebelde, com a vantagem de ter pés bonitos. por falar nisso tenho de voltar a pintar as unhas dos pés de azulão. e deixar de roer as das mãos. é que assim os dedos parecem tortos. estes dedos não servem para tocar piano, tão pequenos. sempre quis tocar piano. ou guitarra ou bateria. eu até tinha jeito para os ditados melódicos...
isto é o que passa na cabeça de uma pessoa que está a ouvir as tesouradas e tenta não as ouvir. tento não olhar para o espelho. mas os meus olhos não fazem o que mando. não querem ler a Maria.
depois ficam surpreendidos porque não pinto o cabelo, nem tenho permanentes. da última vez disseram-me que tinha um cabelo "selvagem... assim em estado selvagem, percebe, menina? é todo natural, não tem coloração nem nada... é mais complicado de moldar"
ah.
depois secam. enrola, puxa, cai cabelo, cai, já tenho muito, não é?... eu sei o que vai acontecer a seguir, eu avisei-a... pois... o meu cabelo começa a ficar com electricidade estática e a colar-se à minha cara. aí puxam da artilharia pesada - gotas, cera, espuma, creme... - e dizem "pois, isto em casa você com ele molhado põe-lhe disto e depois dá-le um jeitinho com o secador e escova, é um instante"(leia-se "estante"). ó minha senhora eu não sei, não quero saber. eu expliquei assim que me sentei que tinha de ser uma coisa prática, que desse para lavar, secar e já 'tá... "ó menina, mas é fácil". isto enquanto fazem o balletzinho do espelho à nossa volta e nos passam a escova para tirar os cabelos que não caíram no chão. ainda me apetece ajoelhar, e atacar a senhora que vem aí com a vassoura... "nnnãooo! é meu, todo meu, larguem-me! vou pô-lo numa caixa e vou tirar um curso de química por correspondência, e descobrir uma fórmula para o voltar a colar! vocês vão ver!!!" penso, enquanto com um sorriso amarelo vou dizendo que 'tá óptimo.
saio de lá, enfio-me na casa de banho do primeiro café a molhar o cabelo, para ver se remedeia. a mentalizar-me que "aquilo" que vejo no espelho sou a nova eu. é só mais uns meses e logo ganha uns jeitos engraçados... meses?!?!?!? AAAAHHHH!
só queria cortar as pontinhas...

segunda-feira, 6 de dezembro de 2004

centro comerciargh!

é natal, é natal, tralalalalá... uma pessoa enche o peito de ar, inspira o ar frio, recebe o sol brilhante no rosto, e pensa em lareiras acesas, a família reunida, as azevias, as fatias douradas, o bacalhau, o bolo-rei, os sorrisos das crianças iluminados pela árvore de Natal e pelas cores dos embrulhos que rasgam com um ar possuído pelo demo.
como de costume, as boas intenções esvaem-se e deixa-se as compras para Dezembro... meados de Dezembro na melhor das hipóteses.
a minha família (leia-se núcleo familiar, a malta cá de casa, tipo 6 pessoas) faz TODA anos nesta altura (excepção feita para a minha mãe, que faz em Janeiro...). Começa a 20 de Novembro e só pára no Natal... eu estou desempregada. e moro longe...
pensei em fazer umas coisitas manualmente, aquilo dos presentes feitos com amor, a tal da "intenção é que conta"... claro que depois vejo as listas de cada um (sim, temos de fazer listas porque ninguém nunca faz ideia do que é que as pessoas com quem se vive o ano todo gostam - "tu és muito esquisita, é melhor fazeres uma lista") e percebo que vou ter mesmo de gastar dinheiro, porque ficava mal, não é...?
ainda por cima somos poucos... reduzidas as pessoas ao mínimo, ficam 12... não estão todos conosco no dia, alguns durante o ano não lhes pomos a vista em cima, mas temos de gastar dinheiro com eles na mesma...
isto a uma média de uns ridículos 15€ (suspiro... quem me dera) por pessoa já ficaria anedótico de insustentável.
hoje, estava num shopping à espera da V e do M, para jantarmos.
observei o mundo, um defeito que tenho...
lá estão... as decorações vermelhas e amarelas, os verdes falsos, as luzinhas a piscar, o Kenny G. e a sua gaita, os casais jovens - elas bexigosas e maltrapilhas, eles pançudos e carecas -, as grávidas com ar de mártir, os gajos a fumar à porta das lojas, ou de bigodes colados à montra da uma loja de electrodomésticos a ver a Sport TV, as avós perfumadas com mata-ratos e os netos ranhosos a arrastarem-se no chão e a darem caneladas no mundo porque querem o "Action Man missão na Floresta" e não o "Action Man missão no Bosque" com aqueles berros finiiiiiinhos e aguuuudos, as mulheres com olhares demoníacos agarradas aos caixotes da Zara, as filas intermináveis, inclusivé para embrulhar os chouriços do Continente...
gosto do Natal. a sério... em Outubro já começa a enjoar, mas antes até é fixe...
gosto de entrar numa loja e demorar 2 horas para pagar um gancho para cabelo. gosto que cada loja de roupa tenha as suas medidas (agora tenho de ter uma tabela para anotar as medidas das pessoas por loja E por modelo). gosto dos encontrões. gosto dos paizinhos que usam os carrinhos dos bebés para passar à frente na fila ou pura e simplesmente atropelar e fugir no corredor. gosto de ir com uma ideia bem congeminada do que quero e estar esgotado. gosto do novo conceito de "recebemos sem falta para a semana". gosto que atirem com o papel de embrulho ou caixas "do-it-yourself" para dentro do saco da prenda. gosto de as caixas multibanco nunca terem dinheiro e as lojas estarem com sobrecarga nas ligações à Unicre. gosto dos alarmes que deixam ficar na roupa e nos livros. gosto do espírito de natal nas filas de trânsito para entrar e sair dos centros, e das lojas, e das casas de banho. gosto de ir ao supermercado, e ver uma família de 6 pessoas agarrada a um carrinho com um pacote de pilhas, a passear pelo meio dos corredores como se o WCPato tivesse raios hipnóticos. gosto de receber bibelots. gosto de nunca poder estrear um par de calças no dia 25 porque têm sempre 50 cm a mais de tecido. gosto de ir para casa a trautear Kenny G...

domingo, 5 de dezembro de 2004

word

sentou-se de cigarro na boca. não era particularmente feminina a fumar. deu uma passa prolongada, deixando o fumo sair-lhe dos pulmões para a enrolar em mais um pouco de propaganda anti-tabagista. parecia neblina.
pousou os dedos no teclado, onde escreve mais rapidamente que se for de papel e caneta. apesar do prazer que o papel e caneta sempre lhe darão. não é à toa que, desde miúda, tinha uma pancada por blocos.
pensou em território. pensou em politicamente correcto. pensou em desistir. pensou em colaborar na fantasia diária da sua redoma-do-vamos-fazer-de-conta-que-a-vida-é-assim-e-que-estamos-bem-assim.
pensou com tempo. afinal, não tinha nada para fazer. estava farta de tanta inactividade, mas nem sempre das suas vontades dependiam os acontecimentos. a força falha quando não há motivação. a motivação falha quando não há entrega. os sorrisos amarelam porque tem de se sorrir. é suposto. não interessa a vontade.
sorriu. porque sim. um esgar é sorrir? não se lembrava de nada, mas tinha de ocupar os dedos. tinha uma missão. e as missões dão alento. alguém lhe tinha falado de escrita intuitiva.
mas esperava um apito. estava à beira da paranóia. apagou o cigarro. pôs as ideias em ordem e em poucos minutos organizou-se.
estava feito. por ora, a sua parte estava feita, em 3 folhas de word. agora, era acreditar.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2004

vê se pode?

como explicar a uma mãe que é mais do tempo da máquinas de escrever o que é um i-pod?

"é como teres uma estante cheia de dossiers com documentos importantes.... e muitos cds com músicas... e queres andar com isso contigo ou levar para outro lado. o i-pod é o carrinho de mão com auriculares..."

acreditem, resulta...

quinta-feira, 2 de dezembro de 2004

gift

saí porta fora. fiz o meu papel. depois, fui à deriva... afinal, estava cinzento, frio e caiu uma chuvada.
mas abriram-me o chapéu de chuva... via sms...
abriu-se uma caixa de algodão.
e a conversa morna prolongou-se pela noite fora.
fumei cigarros(!)
mostrei as minhas meias novas.
o café aqueceu as mãos frias.
a lua apareceu.

obrigada a todos.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2004


terça-feira, 30 de novembro de 2004

#1

igual a todos os últimos. vai ser amarelento.
por causa dos sorrisos amarelos. do peso e da lentidão.
talvez vista umas calças novas.
era sempre giro. mas não. agora não.
as caras que se distorcem e contorcem para me sorrir numa palmadinha nas costas, entre fogo falso, e ideias deturpadas do que é a alegria dos outros. faz de conta. hoje também? sim. faz-nos rir, fazes? faço. assim está bem?
sopra...
o vento passa, o tempo passa. há-de ser diferente.
hei-de ser eu.

segunda-feira, 29 de novembro de 2004

fundi o chip

às vezes não sei porquê começo a pensar na vida... como é normal, só pode sair merda, não é?

comecei a pensar muito a sério neste blog. para que é que serve? para nada, basicamente... isto parece os sermões do outro aos peixes... ou uma viagem ao meu umbigo...
estou para aqui com as minhas so-called crónicas de rotina... ou dores crónicas, ou cólicas da rotina...
mas, let's face it... não tenho grande poesia. não sei falar por metáforas. não tenho histórias interessantes para contar. não tenho uma acutilância ou ironia daquelas que dá gosto ler. desisti de saber os nomes dos políticos. não vejo a quinta das celebridades. tenho uma vidinha daquelas que não interessa ao menino Jesus...
é uma vida, como tantas outras.
que contributo presto aqui a quem me lê? sim, tu, ó pessoa...
não presto, não é?

um dia páro de escrever aqui.

gaveta

(de)parei nesta frase.

"Cada beijo redondo, cada promessa de amor eterno, cada riso excêntrico, valem bem cada gaveta da minha mesinha de cabeceira."

e lembrei-me que às vezes o local para se guardar um tesouro é um tesouro em si...

prenda de anos

ainda não fiz anos, mas este ano a prenda veio antes do dia...

qual foi a última vez que experimentaram olhar profundamente nos olhos de um desconhecido?
abrir-lhe o coração só porque sim, sem uma palavra... só de o olhar.
e contar a nossa história sem abrir a boca, e conhecer a história dessa pessoa sem um som...
e dar conosco com lágrimas a rolar cara abaixo. porquê? não sei.
emoção, só.
e os olhos das pessoas são tão bonitos quanto diferentes e plenos de vida e carinho.

este foi o primeiro exercício do "workshop" (não gosto de lhe chamar assim, foi... uma "vivência") que consegui convencer a minha família a oferecer-me... como prenda de anos e Natal... da próxima década...
chegou hoje ao fim.

dizem-me que de cada vez que ia para lá, ia encher o peito de sorrisos.

e era verdade.
foi uma experiência maravilhosa.
chorei todos os dias, faz parte do processo. porque ali a entrega é total, não há medo ou auto-censura. só simplicidade, generosidade, abertura e confiança.
em pessoas que se calhar nem temos a certeza do nome.

e sinto que cresci.
obrigada.

"Cada ser tem sonhos a sua maneira"

domingo, 28 de novembro de 2004

A de A tipo 2

pois acontece que eu tenho gatos...
dentro de casa, fora de casa... e nos pulmões...
sim, tenho asma
sim, sou fumadora.
sim, já sei, já sei...
uma simples constipação neste meu corpito degenera sempre numa garraiada de gatos a miar... os pulmões parece que mingam... e o ar parece que não quer entrar... ó amigo, preciso de oxigénio, não fuja!
ando a xarope, porque não posso tomar bombas (daria em algo como um A de A tipo 1... pois...)
adoro ser "doentinha"... já não me bastava ter 1,58m, ser pobre e morar longe!

mas o que tem piada são os meus colegas (queridos, tão amorosos) aflitos com as minhas travadinhas de tísica (Eça de Queirós Revisited)...
eu bem lhes tentei explicar que não há copinho de água que resulte... à pala deles, já me tinham nascido guelras... eheheh

e ainda me dizem: "para asmática, tens muita pica!".
então n'ávera de ter?
miauuuuu

P.S.: Há dois dias que não fumo... quero um cigarroooooooooooo

quinta-feira, 25 de novembro de 2004

A de A

dores fortes e contínuas nos músculos do ombro e peito do lado esquerdo.
sensação de pulsação fraca ou desregulada.
tonturas e ligeira náusea.
fraqueza e prostração.
peso no peito.
respiração ofegante mas fraca.
pontadas ocasionais no peito.
descargas de adrenalina, em que o corpo todo treme descontrolado.
eventualidade de começar a ficar com o braço esquerdo dormente (esta então é particularmente simpática).

sensação de que qualquer que seja a posição em que se ponha o corpo, aquilo não passa.
sensação de pânico.
sensação de que se vai morrer já ali.

basicamente são também sintomas de enfarte...
mas é um Ataque de Ansiedade. distingui-los é obra, mas já tou farta de chatear os médicos das urgências... (se calhar um dia é a história do Pedro e o Lobo, mas pronto)

cura? na cabeça, dizem.
mas entretanto, Cloxans ou a alternativa da ervanária, Fórmula 137.
comer bem, a horas, domir tudo o que se precisa de forma continuada, parar com a nicotina e cafeína, tomar Valdisperts (ahahah, esta é para rir) para dormir.

ter motivação, esperança e estabilidade também dá jeito.
mas o stock tá em falta.

terça-feira, 23 de novembro de 2004

mundo paralelo

há muitos mundos paralelos ao mundo. eu vivo num deles.

esse mundo cheira a madeiras, tintas, colas, cigarros, velas, maquilhagens, roupas, naftalinas, cordas, e a algo que não se sabe bem o que é... acho que cheira a espíritos...
porque ali anda gente que se materializa em corpos emprestados.
saem de uma cabeça para viver num papel até poderem transferir-se para um corpo. que os recebe. que cria os seus outros mundos. que lhes dá uma casa, uma voz, um sorrir, um andar, um pensar.
e esses espíritos apoderam-se de nós. e batalhamos para contar as suas histórias, e as suas histórias fazem-nos viver mil vezes, e chorar, e rir, e andar de formas que não são nossas.
falo num "nós", porque este mundo é sempre colectivo. é sempre fruto de muitas mãos, muitos suores, muitas dores, muitas olheiras. e não existe sem eles.

é obra... implica entrega. incondicional. implica trabalho redobrado. horas de sono que não se dormem. investimento. emocional, também. e quem pisa o palco também pode acender a luz na cara do colega, varrer as casas de banho e pintar, e coser, e ir comprar bolos à padaria de madrugada porque a malta tem fome e não há nada aberto. trazer um simples abraço para combater o desânimo. trazer um cd porque é a banda sonora perfeita daquela história... e adrenalina, toda. a qual só percebemos e conhecemos inteiramente ali. teorizar sobre não vale a pena. e da qual só nos rimos muuuuito depois...

este mundo cruza muitos mundos. imaginários e bem reais. e desse cruzamento nascem outros. voam, materializam-se, para depois rebentar. fica no ar o cheiro. fica na pele a emoção. ficam na cabeça os negativos. fica na boca o "gostinho de quero mais". fica no sangue o bicho...

sacana do bicho... eu devia estar a ganhar dinheiro, raios...


segunda-feira, 22 de novembro de 2004

Quarto virado a norte

durmo enroscada num edredon espesso, com uma manta polar por cima.
estou a tentar curar os músculos do ombro esquerdo, cansados de carregar a mala e as ansiedades. como durmo de lado, tenho de me tentar virar para a direita. (não, isto não é uma metáfora política, são ordens do doutor).
detesto usar meias para dormir, mas os pés teimam em não aquecer.
mantenho as mãos fechadas, debaixo do pescoço ou da almofada.
uso pijamas de mangas compridas e calças, de materiais fofos e quentes.
tenho um recuperador de calor supra-sumo no quarto.
tapo-me de tal maneira que tenho de escavar um túnel para meter o nariz de fora.
aninho-me, enrosco-me, afundo-me nas 4 almofadas macias.
mesmo assim tenho frio.

Goodnight dear void

I'm not words anymore. I'm me, but I'm not there.
That's why these fragments will never tell the difference
between what fell on the floor and what hit me.
Sometimes pain is just pain
sometimes pain is just me
sometimes I'm just a smile
sometimes I can't be me.
I wish I could I wish I could I wish I could
Take care of me.

sábado, 20 de novembro de 2004

nikey ou a loira

lembro-me de estar a dormir e a nossa mãe, com a sua barrigona, me acordar e dizer-me que está na hora. lembro-me que devia estar frio, porque me atafulhei de casacos e cachecóis. dizem que com olhar de pânico tratei de pôr as tuas roupinhas numa mala, mas só me lembro de sair com um único objecto: um anjinho. em casa da avó, dormi com ela, no quartinho da alegria, e rezámos ao anjinho para nasceres bem.
passámos um infância tramada. entre ataques de asma, pontapés, barbies, mordidelas e pazes forçadas. mas acho que chegámos a um acordo...
e cá estás... 19 anos depois... com os teus caracóis loiros que sempre foram a minha perdição e orgulho. magrinha, nervosa, com esse sorriso maravilhoso que, por muito "castor" que te chamem, eu acho do maior charme. e cheia de poesia, esta menina...
cheia de sonhos, mas com ainda mais medos. menina... sonha, sonha. os medos são inerentes. mas só lá chegas se tentares.
dá as cabeçadas que tiveres que dar nos números e fórmulas, se és feita de letras mas não é nas letras que queres ficar.
faz sempre falta uma psicóloga na família para me curar os ataques de ansiedade...
só não cantes, pode ser...?
beijos e parabéns, mana!

sexta-feira, 19 de novembro de 2004

office

Tou cá, mas por pouco tempo. Basicamente chamaram-me para fazer 60km para almoçar com elas... porreiro...
mas pronto, valeu o gesto.
E discutiu-se política com um senhor da mesa do lado... E uma velhota atravessou a rua de propósito para nos mostrar os medicamentos - genéricos - que dobraram de preço graças aos políticos do "caralho, que é o pai da humanidade, não é uma palavra feia pois não?"
acho que é uma palavra feia e bem aplicada, minha senhora!

... (suspiro)...

tenho saudades das minhas tabuinhas...

Notification:

Your computer clock may be wrong.
No, mister. My computer clock is perfectly fine, thank you.
The time is the one mistaken.

Let it be light.

quinta-feira, 18 de novembro de 2004

bacalhau


Procedemos agora a uma curta interrupção da emissão, para um momento de poesia insular, da exclusiva responsabilidade de Codfish Michael, com o apoio da Banana da Madeira e autorização do tio Alberto João.
...(ehem, ehem)...

És tã benuita, cheiras a hortlã
Góst tãnt de tui, hã?

;)
Beijuinhes


quarta-feira, 17 de novembro de 2004

Flores e Cheiros


Hoje ando a pensar em coisas bonitas... Que me punham bem disposta em menina...
As papoilas, as azedas, os malmequeres para os amores. Os girassóis (sempre bem-dispostos, os sacanas), as frésias brancas e as túlipas.
Os meus sonhos com bailarinas e fadas, transparências e fragilidades, eternuridades e magia.
O cheiro das torradas à noite, do chá doce saído do termo dos Marretas, da roupa acabada de lavar, do batom que eu tinha escondido, da minha boneca preta, da terra molhada da praceta, da cebola a refogar e do "frango à maricas" no forno.
O som do vento a passear nas árvores da tal Praceta, os gritos e os risos dos putos, o "homem da chuva", a água a ferver para o chá, os talheres a bater, a minha mochila da escola (sempre maior que eu) com as canetas a chocalhar no estojo, os amigos a mandarem pedrinhas à janela para eu deixar os trabalhos de casa, o tilintar dos pequenos tesouros da minha caixa secreta, a buzinadela que os meus pais davam quando iam embora, a mota do Zé das Cautelas, a fogueira a crepitar nos santos, o meu cão a correr.
Costumo queixar-me da minha memória. Mas estes pedaços de mim estão entranhados na pele.

Papoilas


A esta hora, há 4 anos atrás, ainda não tinhas partido.
Mas também já não estavas cá.
Um sopro de um qualquer anjo (tenho a certeza) fez-te entrar nesse estado que para nós é ainda um mistério. Dormias. Mas não voltaste a acordar.
Eu tinha falado contigo, nessa cama de hospital, e disse-te, baixinho: "Se quiseres ir, descansar, vai, avó. Nós gostamos muito de ti". Umas horas depois, na manhã seguinte, tinhas voado.
Mas ficaste comigo. Eu sei.
Ainda tenho os pés frios. Ainda me lembro de ti de cada vez que calço umas peúgas. Que faço uma gemada quando não consigo dormir. Que ando de baloiço na Praceta. Que masco uma pastilha Gorila. Que vejo pombos no Rossio. Que encontro a forma de um coração nem que seja num bolo mordido. Que vejo uma papoila no meio do nada.
Estão aqueles dias de Inverno que adoras. Frios e brilhantes.
Estou diferente daquela menina que deixaste. Fui menina até me deixares. Durante 20 anos fui menina.
E se sorrio e brinco e rio, é graças a ti. À doçura que deixaste no meu peito. E de cada vez que sou doce, és tu em mim. Isso e a tua postura. Levantar a cabeça, sempre...
Chorei por ti há pouco tempo. Com saudades. Queria-te aqui. Foste a minha cúmplice. Queria partilhar contigo os meus dias tristes e as minhas doideiras, as minhas batalhas. Queria poder ouvir-te a cantar fado enquanto lavavas a loiça. Queria sentir os teus passos ligeiros no corredor e a tua pele tão macia no beijinho de boa noite. Queria colinho...
Mas estás aí, não estás?
Sinto que sim.
Gosto de ti.