quinta-feira, 24 de março de 2005

empty

ontem mudámos de instalações. o mesmo bloco de escitórios, uma sala diferente. na outra cabiam duas secretárias apertadas. aqui, temos espaço para quatro com um recanto para pôr um cadeirão, mais uma salinha de reuniões onde está tambéma a máquina de café, e um quartinho de arrumos onde estão todas as tralhas de peças antigas. é um espaço muito maior, com duas janelas enormes, e por isso, cheio de luz.
agora a minha secretária é só minha. depois de contas feitas, ocupada com teclado, rato, scanner, monitor, colunas impressora, calculadora e outras coisas "institucionais", apercebo-me que, excepção feita a um bloco que trouxe para apontamentos, não tenho nada meu por aqui.
as minhas gavetas estão vazias...

quarta-feira, 23 de março de 2005

dispersos

sento-me ofegante e ligo o computador. apago o cigarro que percorreu uma parte da rua e subiu a escada comigo. és asmática, estúpida, está humidade e fazes esforços físicos de cigarro na mão. estás a pedi-las.
vejo as mensagens, correio, pego no arquivador e tento escolher por onde começar. olho para o maço de tabaco outra vez. saí de casa a correr, não pude comprar tabaco. basicamente levantei-me, vesti-me, lavei a cara e os dentes, fiz duas tranças e agarrei num maço de mata-ratos que os meus pais fumam. também pela pressa, não trouxe o habitual pão de deus que como de manhã. um pacote de bolachas maria perdido na minha companheira, a mochila cor-de-rosa, vai ter de servir.
quando levo a primeira à boca, que me lembra sempre a única forma que a minha avó tinha de me fazer comer iogurtes, penso no itinerário de hoje. o mesmo. mas lembro-me das fotos que fui "tirando" com os olhos, porque a memória do telemóvel está cheia. aquela mercearia antiga que tinha à porta caxites de morangos ao lado de flores coloridas para vender. e das pastelarias. passei por várias. umas cromadas, umas com azulejos antigos, outras com forno de pão, outras pindéricas e douradas, outras ainda mais modernas com cores vivas e ácidas. aquele cheiro quente a doce que sai de todas e cada uma. as pessoas ao balcão, mas acima de tudo as pessoas sentadas com o jornal, o bolo e o café.
prometo a mim mesma: hoje vou-me sentar numa pastelaria a fazer lounging um bocadinho.

terça-feira, 22 de março de 2005

paragem

já vai sendo costume: de cada vez que tenho uma peça em cena, há um problema grave de saúde pelas bandas familiares. normalmente, tenho de andar entre teatro e hospitais e a correr para casa para o meu avô não ficar sozinho.
deta vez é a minha mãe. uma operação simples, segundo dizem, com um pós-operatório complicado. ela pediu para lhe darem anestesia geral porque tinha medo de se mexer quando lhe espetassem a agulha na coluna para a epidural... são escolhas.
por esta hora, amanhã, fará uma pausa no tempo. estará a dormir, num sono escuro e muito profundo. do qual quero que acorde bem. claro que já me fez a conversa do "se alguma coisa correr mal..." mas eu nem quis ouvir. agora não. mais não. vamos tentar afastar os espíritos feios e chamar a minha avózinha para lhe velar o sono e meter uma cunha com o "senhor lá de cima" para que ela fique bem...
claro que tenho medo. muito medo. mas isso não se pode passar a quem precisa de apoio, não é...? prefiro passar por durona. por tupperware, como lhe chamo...
o facto de estar a tremer enquanto escrevo este post é só para mim.

be carefull with what you wish for...

sigo rua fora, hoje já não chove, mas sente-se a humidade no ar. o vento está fresco. de repente, uma rajada mais forte atira-me contra a cara um molho de cabelos enormes loiros, ondulados.
mas que raio...?
ah, pois... confirmo no reflexo da montra mais próxima. cá está, o meu novo cabelo de "pequena sereia"...
foi uma transformação brutal. devo confessar que na fase em que tinha só o meu cabelo pintado de amarelo me custou muito, mas agora, com as extensões recém colocadas, já dá gosto...
o problema grave é que, se já saía de casa sempre um quarto de hora atrasada (e nãoi vale a pena por o despertador para mais cedo) agora, com todos os cuidados que tenho de ter, mais o secar este cabelo todo, demoro outra meia hora...

ontem fui buscar os postais da minha peça. a rapariga que me recebeu, que já conhecia pelo telefone, disse-me que me imaginava mais velha... baixo-me para apanhar o caixote pesado, e quando me viro para lhe agradecer mais uma vez, ela está a olhar para mim com uma cara muito estranha. penso "bem, se calhar tenho a cara suja... ou um letreiro na testa a dizer 'loira pintada'..." mas não. a rapariga sai-se com esta, com o ar mais embevecido do mundo, boca aberta, o pacote todo:
- Ai... a menina é tão bonita...

boa... agora que isto não sou eu, é que sou bonita...

sexta-feira, 18 de março de 2005

quando a igorância ajuda à intolerância

ontem corri para apanhar o 39. no entanto, ao entrar e passar o passe na maquineta, ouço as vozes de algumas mulheres completamente alteradas, a gritar com o motorista, que era uma vergonha, tinham estado mais de uma hora à espera da "carreira".
compreende-se as senhoras, até um certo ponto. estiveram a acumular irritação durante uma hora, a torrar ao sol dos Restauradores.
o motorista, nem particularmente simpático nem particularmente antipático, explica que não sabia, que a Carris não tinha registado nenhuma queixa.
aí, as "senhoras" passaram-se. à medida que iam avançando pelo corredor (vieram sentar-se perto de mim, para os lados da porta traseira) iam falando cada vez mais alto, dizendo que o que ele "merecia era uma pancada nos cornos" (normal, pelo aspecto que tinham acredito piamente que pudessem convocar um bairro inteiro para o arraial), que lhe deviam era tirar o ordenado, que merecia que lhe entrasse um grupo de ciganos e lhe partisse o autocarro todo "e a tromba também, o cabrão", e outras carícias que tais.
e continuaram, estrada fora, a falar em voz alta, a chamar nomes ao homem, que a cada paragem ouvia as queixas de outros passageiros, e no mesmo tom neutro respondia sempre a tal ladainha. as ameaças tornaram-se mais quentes, outros passageiros iam-se juntando ao coro feminino, protegidas pela distância que as separava do motorista, preso à sua função de serviço público, que fazia por ignorar. e assim devem ter continuado, porque saí antes das tais senhoras.

as pessoas às vezes são muito estúpidas. à má formação junta-se a ignorância. não sabem e não querem saber, porque é mais confortável, assim têm legitimidade. só vêem o que lhes apetece. e despejam numa pessoa que não tem culpa, que desempenha a sua função e foi apanhada no meio, toda a culpa do mundo, insultando, humilhando, agredindo, aproveitando que ele não pode responder por decoro e decência, para espicaçar mais, porque há que despejar as frustrações, não é?
e, por muita razão que tenham, perdem-na.

ecg holter

esta tarde vão colar-me uns eléctrodos no peito, que estarão ligados a uma maquininha, que andará comigo durante 24 horas, a medir-me as pulsações e saltos do peito, para depois dizer aos médicos se afinal ele anda ou não descoordenado do mundo e das batidas do relógio.
vai escutar-me o coração... para descobrir o meu mal, penso que deveriam ir mais fundo que os compassos. a tecnologia ainda não pode monitorizar a alma...

sol

dei-me conta que não tinha tabaco. passei a manhã toda sozinha e ainda faltava uma hora para sair do trabalho. não estava ninguém no escritório a quem cravar um cigarrinho. sentindo-me culpada por deixar o escritório vazio, peguei nas chaves e saí a correr. desci as escadas escuras e tão frias à pressa, com o único intuito de atravessar a estrada, entrar no café, meter três moedas na máquina e recolher o precioso pacotinho vermelho.
abro a porta da rua.
de repente, levo em cheio com uma luz intensa na cara, o vento quente beija-me a pele e todo o frio que senti toda a manhã começou a desaparecer, substituído por um torpor agradável e morno que se entranhava na pele e me penetrava até ao fundo da alma, abraçando-me com uns braços invisíveis, feitos de raios amarelos.
dei por mim parada no meio da rua de olhos fechados, braços abertos, corpo virado para a luz e meio sorriso no rosto.

quinta-feira, 17 de março de 2005

sinceridade

chamaram-me uma vez valquíria dos pés de barro...
obrigada

yellow

agora que tenho o cabelo amarelo, só me apetece pintar a cara de preto...

quarta-feira, 16 de março de 2005

music box

quando o calendário ainda era um cartão engraçado de números pequeninos, e a vida eram pulos entre desenhos de giz no asfalto da praceta, ia pelo corredor escuro até ao quarto de móveis antigos ver dançar a bailarina.
e naquela música pausada de xilofone a que dava corda, abria a tampa do pequeno teatro em que o público eram os anéis da avó.
no espelho dois olhos muito abertos, amendoados, brilhavam tanto como os pechisbeques e pequenas jóias desarrumadas, ao ver dançar aquela figurinha cor-de-rosa, imaginando os tules e tutus que não conhecia, passando depois a imitar a pequena boneca de braços rechonchudos no ar.
ainda lá está, na cómoda escura de um quarto fechado à chave para sempre, a caixa preta que contém os seus primeiros passos de dança.

bad hair day

peço desde já desculpa aos inúmeros fiéis seguidores da Palavra deste Blog pela insistência, mas a porcaria do meu cabelo está mesmo na ordem do dia.
ontem cheguei ao cabeleireiro, daqueles finos, bichésimas... ia por-me loira, a mim e à minha colega.
enquanto esperamos que ele se digne a prestar-nos alguma atenção, eu ia olhando-me no espelho e só me vinha à cabeça essa bela melodia de Demis Roussos "Goodbye my love goodbye...", em doce despedida à minha melena quase preta.
acontece que quando o dito artista capilar olha para nós, apercebe-se (finalmente e apesar das fichas que lhe enviei com fotos do elenco e desenhos dos penteados que precisamos) do quão morenas somos, e achou por bem alterar a ordem de trabalhos: vá, vão lá comprar o cabelo que vos vou coser (sim, coser) à cabeça, para depois vos descolorar (sim, descolorar) o vosso cabelo em consonância...
e manda-nos para a Damaia de Baixo (essa bela localidade). estando apeada, porque o carro está fora de Lisboa como convém a quem tem de entrar na urbe à hora de ponta, rachámos o táxi. já a fumegar - o que torna o nosso cabelo ainda mais carvão - lá chegamos e falamos com as raparigas da loja. ele tinha-nos mostrado uma madeixa daquele cabelo que queria, asseverando que tinha comprado no próprio dia na tal loja. pois que não, não foi ali. ele comprou, sim, cabelo, mas tons escuros. loiros não temos nada.
ponho o meu "assistente", que estava na base de operações (vulgo teatro) a tratar do assunto, que eu não tenho dinheiro no telemóvel para andar a ligar para cabeleireiros.
estivemos à espera de confirmação uma hora. durante a qual experimentámos postiços e afins, para gáudio das empregadas da loja, que se divertiam com a nossa cara desolada ao dizer que íamos ficar loiras e que queríamos ter um prognóstico da coisa, e tirámos um curso avançado de cabelos, perucas, postiços, tissagens, cabelo humano vs cabelo natural, apliques, sprays de brilho e outro que tais.
uma hora depois, confirma-se: afinal sempre era no Martim Moniz que havia a tal loja do cabelo, ele tinha-se enganado porque tinha ido a várias nessa manhã.
salvaram-nos do desespero as tais raparigas, que, fechando os olhos a concorrências, nos disseram que era provável que houvesse uma loja da mesma rede no metro do Colombo, a 3€ de táxi de distância.
lá chegámos. a minha colega levava meias de liga (grrau!), que por algum defeito de fabrico lhe caíam pernas abaixo a cada dois passos...
na loja: loiro platinado ou mel? hmmm... tough choice! a minha colega benze-se, porque já se estava a ver de cabeça albina, e assim podemos alegar que era o que havia...
com ela agarrada à liga, lá apanhamos o metro. depois, (esse foi o ponto alto do dia) fi-la correr para apanhar o 39, que ia a sair da paragem.
chegámos ao teatro ainda morenas, cansadíssimas, ela com uma meia pendurada na perna, com belos cabelos humanos cor de mel em bolsinhas de plástico.
um dia estranho, to say the least....

terça-feira, 15 de março de 2005

ai

vou ali pintar o cabelo de amarelo e já volto.

segunda-feira, 14 de março de 2005

e agora para um pouco de luz


[ms]

save as draft

so it shall be written, so it shall be done...

maroon 5

... look for the girl with the broken smile...

discoteca

entre fumos de música alta, que se dança sem querer-se entender o ondular do corpo, a linha dos ombros e do pescoço, ou onde flutua o cabelo.
sentir só os ritmos bem lá no fundo e deixar a massa de gente levar-me onde quiser.
e não pensar, só abandonar os pensamentos às palavras de outros que encaixam tão bem.
porque a cada música, uma nova letra, um novo estado de espírito que se vive, não se nega. que se canta alto porque ali ninguém ouve.
atirar a cabeça para trás e perder noção do tempo, dos mundos, das cores, dos brilhos a toda a volta. que envolvem e absorvem, mas que permitem o alheamento.
parar para uma cerveja e para um cigarro.
e voltar à inconsciência dormente em que só o corpo fala, e a mente já foi há muito silenciada pelas batidas.
e é ali, na distorção de imagens e sons, no enrolar o cabelo ao alto porque corre suor do pescoço, que desliza para o peito, nos gestos delicados e expansivos, no ondular de uma anca, num meio sorriso, que o corpo ganha liberdade para ser totalmente feminino. e, quem sabe, até bonito. até à exaustão.

sexta-feira, 11 de março de 2005

gestos


no teatro queixava-me que, no escritório, me faltava a luz do sol. tantas horas entre paredes frias, de pedra, com uma luz de cozinha... disse que gostava de ter nem que fosse uma velinha para aquecer o ambiente.
hoje tive uma surpresa...

telhados

aqui está a minha nova janela... ao som de Da Weasel...

nokia by thumbelina

quarta-feira, 9 de março de 2005

ensaios

vai-se chegando.
muitos depois de dias inteiros de trabalho.
cansados, olheirentos.
pede-se ajuda aos colegas para afinar o texto.
ajuda-se a mandar os faxes que faltam, atendem-se telefones, tiram-se bicas para quem cá está há muito tempo.
dá-se uma mão na serralharia para acabar aquele pedaço de cenário.
passa-se roupa a ferro, cose-se botões, enquanto a estagiária de moda nos faz ficar bonitos, com desenhos, trapos, cores e luz.
experimenta-se os fatos, com as calças vestidas porque está frio.



depois aquece-se o corpo dançando, rindo, comendo qualquer coisa enquanto o encenador, que chegou invariavelmente atrasado, bebe o seu café na entrada.

quando ele se decide, vamos lá ensaiar.



quem vem ver, vê, só naquele dia, o trabalho final.
não sabe o que está por detrás dos fatos compostos, das caras pintadas, dos cabelos arranjados, dos gestos trabalhados, das vozes emocionadas.
estão horas, dias, meses. corpos e almas. muito choro, muita frustração, muitos gritos e discussões. muito sono perdido, muita sensação de falhanço. é uma história cheia de gente.
[fotos de ms]

no tempo das papoilas

que linda falua
que lá vem, lá vem
é uma falua
que vem de Belém

vou pedir ao senhor barqueiro
que me deixe passar
tenho filhos pequeninos
não os posso sustentar

passará, passará
mas algum ficará
se não for a mãe da frente
é o filho lá de trás

dia da gaja

no dia da gaja, que decorreu ontem, algo estranho aconteceu por estas bandas.
de repente, estavam as raparigas a serrar madeira e os rapazes a passar a ferro e a coser...

don't ask...

dumb blonde

há que visualizar:
uma paixão que perdura até hoje, vinda de séculos antigos. um príncipe e uma quase princesa.
e como são as princesas? lindas, magras, compridas, de dedos finos e elegantes, cinturas finas ainda mais elegantes, olhos enormes, de preferência azuis, cabelos longos, ondulados, esvoaçantes, brilhantes... e loiros.

raios as partam, às loiras.

e porque é que no texto fazem tanta menção ao estupor dos cabelos loiros??? "esses teus cabelos d'ouro"... e não se pode alterar texto, que o Toni rebolava na tumba...

eu e a minha colega vamos partilhar o papel de protagonista. (bem, quer dizer, na prática, faço uma cena, ela três).
ambas somos baixinhas e muito morenas. eu sou mais estreita e tábua de engomar. ela é voluptuosa e tem um belo par de... amigas.

são maravilhosas as metamorfoses do teatro, mas há limites... é que uma pessoa tem vida própria e vai ter de andar na rua!...ora visualizemos a transformação... cabeça amarela, de pele baça e morena... lindo. só me faltam as argolas e falar pelo nariz... usar pestanas falsas, maquilhagem em excesso de cores que não combinam, ter pêlo no peito, maçã de adão e chamar-me "Marilu, a fabulosa"

quando era miúda, queria ter caracóis loiros e olhos azuis. saiu-me o cabelo liso, quase preto, e os olhos "maltesers". em miúda ainda andava com papelotes que a minha mãe (cheia de paciência) me punha. mais umas bodegas de uns líquidos para aclarar o cabelo. e conseguiram o que queriam: cheguei à conclusão óbvia. não é uma questão de poder, é uma questão de ridículo.

agora morde a língua e prepara-te, menina, que se já gostavas tanto de ir ao cabeleireiro como ao ginecologista, na próxima segunda feira vais bater recordes!

caixa

numa caixa vazia depositam-se os resquícios de emoções, sensações, pudores e encaixes.
não se sente, por vezes, o fundo. não se sente, por vezes, o topo.
e no fascínio da levitação, perde-se a noção do vazio.
para depois se encontrar um silêncio demasiado pesado.
para se ludibriar com música.
para se ficar inerte em frente à janela, a ver o mundo passar, sem certeza alguma de se ali se pertence.
mas ao menos o sol aquece um pouco.

terça-feira, 8 de março de 2005

ruas

novos percursos, com este novo trabalho, pelas ruas luminosas de Lisboa. hoje não está tanto frio, sabe bem o vento fresco na cara. vou pela rua sempre a direito, passo o jardim, e deixo-me vaguear entre o mar de casinhas baixas tão típicas e pitorescas. tão lisboetas. as caras ensonadas, fechadas do frio, parecem ter outra vida. compro um bolo e como-o no banco de jardim, ao sol.

gosto mesmo desta zona. era um sonho meu ter uma casinha por aqui. Bairro Alto, Bica, Alfama... já sei, sou demasiado exigente... e ainda por cima é difícil estacionar. mas gosto disto. até dispensava o carro...

gosto da sensação de bairro, acima de tudo. gosto de se adivinhar o rio a cada esquina, em cada ponto de luz. gosto que o sol entre pelas janelas a rodos, sem pedir licença. gosto de haver uma pastelaria onde as velhinhas vão comer a torradinha, gosto dos quiosques e das mercearias. dos prédios baixos e coloridos, da roupa branca ao sol, das conversas de janela a janela, das ruas empedradas. não sei se gostaria de viver num sítio onde as caras são tão cinzentas como os prédios impessoais onde vivem tantos que não se conhecem nem querem saber.

um destes dias fui jantar com uma amiga que mora num 5º andar minúsculo sem elevador em Alfama. uma delícia. o bairro a estender-se colina abaixo, preguiçoso, a ir beber ao rio lá ao fundo. a torre da igreja, de sinos a cantarem as horas. a lua muito redonda em dias limpos, de céu pontilhado e brilhante. logo ali, quase que se pode estender a mão e tocar-lhe. olhar para baixo e ver as ruelas de candeeiros acesos. não me demoveu o facto de terem tido de fazer entrar o sofá pela janela...

é pôr na lista... sonhar ainda não paga imposto!

segunda-feira, 7 de março de 2005

ar de produção

já estou no novo escritório. já tenho a nova janela. com vista para os telhados do Bairro Alto. não posso dizer que estou mal situada, não senhor...
já me deram as guidelines, agora é ver se me safo...
dinheiro fixo todos os meses. é nisso que tenho de pensar.
deixo de ter tempo para estar a 100% nas minhas peças, nos meus projectos.
mas dou vida a projectos de outros, e, quem sabe, daqui a uns meses, talvez me convidem para passar para a frente dos panos.
por enquanto é um dia de cada vez, cabecinha baixa para não sonhar demais...

quarta-feira, 2 de março de 2005

palco


nokia by thumbelina
vai-se construindo esse mundo. aos poucos.
vão-se descobrindo as emoções, os gestos, os passos. devagar.
com medo de não conseguir.
mas as peças vão-se encaixando, calmamente. tomam o seu tempo e há que respeitá-lo.

aqui nascem as histórias, as personagens, o desgaste e a adrenalina.
por enquanto, está um palco vazio. com alguns adereços espalhados no chão escuro.

nokia by thumbelina

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2005

banho

daqueles que não tomo há muitos meses.
com velas, cheiros doces e frutados, espuma e muito tempo.
desligar as luzes da casa de banho enquanto a água corre, quase a ferver, pelo chuveiro, para bater com força no gel cor-de-rosa e fazê-lo multiplicar-se em nuvens perfumadas.
acender meia dúzia de velas gordas, ligar o rádio na Marginal porque apetece jazz e músicas antigas que já ninguém ouve.
deixar a roupa cair pelo chão, muda, cúmplice do silêncio.
entrar no banho quente e sentir os músculos a perderem a batalha, a pele a passar do arrepio ao descanso, o cabelo a flutuar, bailarino lento, e, enfim, o silêncio da água meiga, que acaricia a pele com um toque tão suave que quase não se sente. que protege o corpo do frio, tão envolvido e tão exposto à transparência da àgua.
ficar assim. só ficar.
sem ventos nem manhãs arrogantes e cortantes. sem pressas nem dores nas costas. sem cansaço, sem cansaço...
suspirar. deixar os dedos passear, ali mesmo onde se sente o risco da água.
ver a pele liquidamente dourada das velas, a absorver os aromas do sabão. e apreciar o tom morno do nevoeiro.
o raspar do isqueiro, as folhas de tabaco do cigarro a crepitarem baixinho e lentamente. o fumo a misturar-se com o vapor que sobe da mão.
só as gotas que caem ritmadas da torneira estão autorizadas a quebrar o silêncio da melodia.

technical visit

acordar cedo, enregelar até ao carro, apanhar a carrinha alugada e virar táxi de turcos.
seguir para Setúbal, contra relógio, sem um cigarro para amenizar a paisagem porque um deles está constipado e resolvo não fumar no carro.
ser trespassada por ventos que cortam, aleijam e fazem o cabelo emaranhar-se e chicotear-me a cara.
descobrir as maravilhas da electricidade...
.
nokia by mesüt-o-turco
procurar um sítio onde se venda um abeto para o outro turco.
voltar ao trânsito, deixá-los nas compras e voar para o teatro.
e ter medo que a cabeça me caia com o peso do sono que me entorpece os olhos e o andar, e só não me neutraliza porque o frio já me paralizou há muito tempo.

do you feel lucky, punk? do ya?...

serei a única pessoa neste mundo a embirrar seriamente com o Clint Eastwood?
vou ter de ver o Million Dollar Baby, para tentar perceber... o homem para mim, continua o mesmo canastrão.
e quanto a realizador, tanta genialidade no Mystic River para na cena mais intensa e fantástica, só se poder adivinhar as expressões dos actores, porque tinham a cara completamente às escuras...
sem falar no completo suicídio que foi protagonizar uma das histórias mais bonitas de sempre, as Pontes de Madison County... essa é que eu não lhe perdoo mesmo...
mas pronto, lá a Academia é que sabe.

este ano, não gostei: de todas andarem vestidas com vestido de cauda-sereia, de não ter sido nomeado o Farenheit 9:11, de não ter sido nomeado para melhor filme o Eternal Sunshine of the Spotless Mind (justo prémio de melhor argumento), de teimarem em não reconhecer as capacidades do Jim Carrey quando não faz caretas, nem o do Johnny Depp por... tudo!, de o Shrek 2 não ser o melhor filme de animação do ano, de alguns desgraçados terem de ficar com cara de cu EM CIMA do palco, de outros desgraçados nem sequer poderem agradecer no palco, de as músicas não serem cantadas no seu original, mas todas pela Beyoncé (grande voz, mas à segunda música já enjoava), do pseudo-protagonismo da Hillary Swank, da atitude política da produção em insistir a torto e a direito em provar que "nós não somos racistas"... faltou-lhes naturalidade no gesto...

mas chorei na mesma... o Foxx e a sua avózinha bateram cá bem fundo... sou uma lamechona é o que é.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2005

mudanças

em breve haverá uma mudança. daqui a uma semana acaba o trabalho. e desta vez não vou voltar, pelo menos tão cedo. um novo escritório, uma nova janela.

aqui vou deixar os horários disconexos, os stresses, o aeroporto, a desorganização, os telefonemas à última hora, as filas para arranjar 30 passes de uma vez, as disfunções, as outras filas todas, os enjoos no metro, os passeios errantes que me obrigaram a um bacharelato em estudos das plantas de transportes públicos, das ruas de Lisboa e arredores, a conhecer o maporama, o multimap e o site da carris, dos tst e outros que tais. deixo o trabalho de secretária, os relatórios e pesquisas em inglês, a calçada íngreme que subo com dores e a arfar.


nokia by thumbelina

mas também deixo sorrisos, discussões, as manhãs só minhas, conversas idiotas sobre sexo e substâncias ilícitas (ou não), o "sindicato", a patroinha e a dótôra, almoçaradas cheias de gordura, os bolos de manteiga do senhor Abílio, os encontros no café para o pequeno almoço, os passeios de barco, os episódios do metro, o bairro típico, o homem que assobia fado à esquina, o grito de guerra dos miúdos às 2 da tarde, o convívio com gente diferente em quem entram raízes minhas, e de quem recebo as suas.

plutão está a atravessar o meu signo. lentamente, dizem que ainda demora uns anos. plutão significa morte: destruição e renascimento. mudança radical. como todas, implica adaptação. uma fase de dor e ressaca, para depois entrar na rotina, para quem sabe depois voltar à mudança.


nokia by thumbelina

logo se vê. aqui fica a minha janela sobre a calçada.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2005

eleições várias

o ps ganhou. boa, tudo menos o psd... pena é ser maioria absoluta, mas também compreendo que sem ela é mais difícil levar uma política (seja ela qual for) para a frente.
o portinhas demitiu-se. buhuhu, que peninha que tenho.
o jerónimo parou a queda. shim shenhorez, tenho é pena que já não se ouça falar do "pê chê pê", agora a dicção é muito correcta...
o bloco subiu em flecha. boa, votar serviu para alguma coisa. continuem a estrebuchar que vocês vão longe.

agora vêm outras eleições.

desde miúda que acompanho, e choro (sim, baba e ranho) com os vencedores, naquele pódium. é foleiro? é fútil? não tá in? não é freak? tá bem.
eu gosto dos óscares. todos os anos vejo quase todos os filmes, tendo em conta as nomeações de melhor filme, melhor actor e actriz (obviamente) e melhor argumento.
depois gosto de juntar-me com outros fanáticos desta celebração, noite dentro, com canecas de café e goluseimas várias, a assistir ao evento.
os meus apresentadores preferidos são o Billy Crystal e a Whoopi.
este ano só vi o finding neverland (grande filme, sim senhor, grande Johnny) e o eternal sunshine of the spotless mind (uma maravilha absoluta). não vou poder comentar ou torcer com justa causa...
se calhar tenho ensaio e nem sequer vejo o directo...
vamos lá ver, vamos lá ver...

decisões

os do topo andaram a engonhar decisões importantes. o refugo, a equipa propriamente dita, são pessoas dispersas, sem quem as dirija ou oriente, porque se está à espera de comportamentos que demoram muitos anos a estar intrínsecos. os ensaios já andam a empastelar há quase dois meses. para variar estavam com ideias de alterar a data de estreia. mas desta vez podíamos perder uma oportunidade importante por causa disso.
desta vez estou eu a produzir. desta vez falei eu com quem interessava. desta vez criei quase um lobby. e o encenador acabou por (espante-se) dirigir-se à equipa.
falta um mês. isto está mau. vamos em frente, empenhamos o couro, ou como é?
usou-se a palavra compromisso. usou-se a expressão "vestir a camisola".
todos falaram. e desta gente, uns com uns meses de palco, outros com anos, uns que trabalham durante o dia, outros que estudam, só recebemos "sim". vamos a isso.
foi um acto de coragem. talvez de loucura.
agora não podemos voltar atrás.
agora é esperar pelos milagres que acontecem muito por aqui...

não sei

às vezes não sei mesmo. e fico assim...

há dias assim

adormeci. podia morar num sítio em que, mesmo atrasando-me, se acelerasse muito, cumpriria o atraso normal, dito elegante, de 15 minutos. não é o meu caso. lá das berças onde moro, há sempre os 20 minutos de auto-estrada, o trânsito na entrada em Lisboa, o largar o carro num parque financeiramente suportável, o apanhar o metro para o Rossio, fazer toda a linha verde...
para melhorar as coisas, a minha colega que poderia estar no escritório para receber os turcos, hoje faltou e não me avisou. atravancada no trânsito, ligam-me a dar a bela notícia. apanhei um táxi mal larguei o carro.
e no carro deixei o passe e o telemóvel... bonito.
tento sacar dum cigarro, mas também me esqueci do isqueiro...
só passaram três horas desde que me levantei...
até tenho medo...

terça-feira, 22 de fevereiro de 2005

amarelinhas revisited

hoje acordei em cima da hora a que devia estar a chegar à Praça da Figueira, para apanhar os turcos - percurso que me toma normalmente hora e meia à hora de ponta.
por obra e graça do destino, só chegámos meia hora atrasados à visita marcada.
saída de lá, a cheirar a bomba de gasolina, de cabelo empestado em vapores peganhentos, com a sensação de que se fumasse um cigarro os meus pulmões explodiam, e com um curso intensivo em vávulas de injecção de combustível (nhami), deixo os turcos muito contentes no autocarro e aproveito que aquilo fica para os lados de Belém. fui almoçar às amarelinhas...
soube bem voltar ali, comer um mini-prato de almôndegas gordas coberto até cima de batatas fritas às rodelas, com as senhoras no seu habitual desvelo.
soube bem o rádio ligado na nostalgia, com o Elton John a cantar-me enquanto bebia o café.
soube bem ser tratada a torto e a direito por "filha", e voltar a ouvir os diminutivos.
soube bem aperceber-me que às vezes se volta a um sítio que já não faz parte da rotina e volta-se a sentir "casa" outra vez.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2005

tchillgan*

conheço gente de todo o lado, vinda dos lugares e culturas mais improváveis. gente a quem o sol fica 6 meses sem aparecer, gente que acha normal acordar às 5 da manhã e fazer jejuns, gente que pega no carro e vai conhecer Espanha e França sem querer saber patavina do país que os acolheu.

agora tenho os tais turcos à minha guarda.
tenho nome turco, e chamam-me "best sister from Portugal". agradecem um pacote de açúcar para o chá com um "thank you for yout high understanding". acham imensa piada ao facto de ser fisicamente parecida com as turcas (oh fado meu) mas ter um comportamento muito mais irreverente e descontraído. no outro dia adoraram o facto de levar umas calças verdes tropa curtas e umas meias às bolas por baixo... completamente fora para eles, está visto. só detestam que eu fume: "Inci, your lungs are hurting"...

há um que é mais desavergonhado e já tem idade e estatuto social (turco) para ter juízo. feio que dói, mas cheio de piadolas sem piada nenhuma. quer-me levar para a turquia na bagagem...

a) deixo de trabalhar e nunca mais têm guia para nada
b) convido-o para o meu casamento católico apostólico romano da semana que vem
c) digo-lhe que sim e deixo-o pendurado no aeroporto
d) largo os cigarros e adiro à burka

*maluco, em turco

interferências


em frente ao computador, com uma sandes de leitão por companhia.
há que trabalhar, há que conseguir apoios, há que bater a portas...
há que escrever cartas, enviar mails e faxes, pesquisar contactos.
fico a olhar para as teclas, para o monitor, para a folha de word com o cursor a piscar.
uma garrafa de água, canetas equilibradas numa taça de clips, a agenda cheia de post-its, de há ques... o cinzeiro com as primeiras beatas de actividade entre pedras tumulares e um desenho que fizeram de mim na parede.
às vezes paralizo. fico estática sem saber bem em que estou a pensar.
e não sei onde vai a minha mente, que me deixa aqui sozinha com a sandes de leitão.

despertares

acordei enrolada sobre mim mesma, com uma perna de fora, encharcada em suor, cabelo num nó espalhado na almofada, as mãos fechadas com tanta força que me custou a abriu-las, enrodilhada num edredon branco e numa manta azul turquesa.
a televisão (ainda) estava ligada...

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2005

olá avó!

ontem vi a minha primeira papoila do ano...


nokia by thumbelina

mal posso esperar pelos girassóis...

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2005

daddy valentine

chego de madrugada a casa. o ensaio demorou, como sempre. entro no quarto e dou de caras com um embrulho em cima da cama... tenho uma prenda do dia dos namorados. ai...

não posso com o apelo vermelho ao consumismo; com os coraçõezinhos vermelhos pendurados nas lojas; com a ideia pré-fabricada de escrever umas palavras (es)forçadas num postal vermelho - à semelhança dos aniversários em que nunca nos sai uma dedicatória de jeito mas tem de ser; com a prendinha vermelha foleira para pôr em cima da cama ou (deus nos livre) pendurar no retrovisor do carro.
criam-se aversões à medida das desilusões. fora a falta de jeito clássica de qualquer macho que se preze para escrever/ oferecer algo/ ter um gesto arrebatado e romântico de jeito, a mais chocante foi para aí no 9º ano: recebo na escola um ramo de rosas anónimo. além de muito curiosa (acreditem, não era de todo normal), fiquei louca, orgulhosa, inchada, enorme (tanto quanto o meu metro e cinquenta e pouco me permitia, claro). largos tempos depois descubro que foi a minha mãe quem mo mandou. vão lá explicar isso a uma adolescente borbulhenta e solitária cheia de filmes parvos na cabeça... é de ficar a destestar o dia dos namorados para o resto da vida!

mas esta prendinha foleira é uma delícia, porque quem ma deu está muito mal, muito triste e muito doente, mas foi à loja procurar um ursinho que me diz "gosto de ti".
obrigada papá.

querida alien...

tenho andado por aí... no outro dia vi o sol nascer, a caminho de Lisboa, quando quase nem conseguia manter os olhos abertos. larguei turcos na outra banda. e atravessei o rio de cacilheiro, sentada num banco a receber o vento frio na cara, a ver Lisboa a aproximar-se de mim, com o David Fonseca a cantar-me ao ouvido.
caramba, que cidade mais bonita. tenho pena de andar tão zombie que por vezes nem reparo.
de rádio sempre ligado, de carro ou de headphones, a música anda comigo, para preencher os silêncios do trânsito e das caras fechadas.
depois fecho-me no tal escritório no meio da pedra, hoje avaria o telefone, amanhã a ligação à net, depois o computador. fico horas à porta do teatro porque não tenho chave e quem tem está a dormir e não atende o telefone. já estipulei um sistema de multas, para me pagar as chamadas que inevitavelmente faço para acordar quem de direito. mas lá se vai trabalhando, tentando arranjar uns dinheiros para pôr uma peça de pé. escrevem-se cartas e faxes, mandam-se mails. logo se vê...
à noite perco-me em frases que já não se articulam assim, nos seus duplos sentidos e sentimentos arrebatados, nas fúrias dramáticas e gemidos de outras paixões cuja história teremos de contar. um elenco de qualidade... fantástico e empenhado (cof cof cof)... muito panejamento...
tenho andado por aí...
ah, e vestido trago sempre cuequinhas de algodão, umas calças confortáveis, uma camisola, um casaco quentinho, ténis e o meu cachecol cor de rosa... ;)

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2005

médias

horas de sono: 4 por dia
número de transbordos de comboios/metro: 6 por dia
número de metros percorridos a pé: 5 por dia
número de línguas faladas: 2 a 3 por dia
número de turcos estranhos: 7
número de chatices por desorganização: "ene" delas
número de chatices familiares: "ene" vezes "ene" delas
número de vezes que me foi permitido ir abaixo: zero
número de sorrisos: todos

chamem-lhe o que quiserem, eu chamo-lhe brio profissional.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2005

disfunções

vou ao médico esta semana... será que ele tem um teste destes para mim...? fiquei a saber que sou oficialmente chanfrada dos parafusos...
obrigada abóbora, pela sugestão ;)

ora cá vai o diagnóstico:

Paranoid: Low
Schizoid: Low
Schizotypal: Moderate
Antisocial: Low
Borderline: Moderate
Histrionic: High (yeeeha!)
Narcissistic: Moderate
Avoidant: Moderate
Dependent: Very High (double yeeeha!)
Obsessive-Compulsive: Moderate

segunda-feira, 31 de janeiro de 2005

no camarim

quem partilhe comigo visões de beleza (e sacrifícios...) que só nós é que sabemos... bem vindo à blogoesfera ;)
diverte-te e escreve muito que é para nos purgarmos que as teclas cá estão...

panejamento

ele é um visionário com muitas décadas de experiência. é encenador e director artístico. estamos em leituras há 2 semanas e "os papéis ainda não estão atribuídos"... ahahah, me engana que eu gosto... só aqui o refugo é que não sabe bem como é a distribuição do texto. falta um mês e meio para estrear e não se decide com nada... só sabe que, como é hábito, quer muito panejamento... a produtora que arranje patrocínios a uma semana da estreia, porque por enquanto, as ideias são apenas desenhos no papel, masturbações intelectuais, megalómanas e passadas de prazo... mas tem a sua piada, tem os seus encantos...
nós brincamos com ele e a senhora secretária de estado já o chama pelo nosso diminutivo...

nokia by thumbelina

E15


nokia by thumbelina

quando me sinto desfocada, obrigo-me a pensar que deve ser uma questão de perspectiva...

sábado, 29 de janeiro de 2005

glamour fora do prazo

entre ensaios e produção, há que (expressão muito utilizada por aqui) produzir um evento especial, importante... convidados vip... glamour, essas coisas...
tendo em conta que o espaço em si é bonito mas nota-se à légua a traça a esvoaçar e as carpetes remendadas, torna-se complicado...
tendo em conta que é suposto a produtora ter uma listagem de coisas a fazer, um orçamento e organizar as suas tarefas, mas que depois o senhor director vai para casa pensar na vida e resolve à última da hora alterar tudo sem avisar em tempo útil, porque só chega ao teatro ao fim do dia... melhor...
ou que não há mais ninguém para ajudar... pois...
como nessa célebre frase, no teatro...
"- it will all turn out well
- how?
- I don't know, it's a mistery"...
correu bem, contra todas as expectativas e relógios...
encheu-se de caras conhecidas, gente influente que normalmente não nos liga nenhuma, mas de bocas cheias de elogios e promessas, fotógrafos à procura da senhora doutora. música ambiente, recital de piano ao qual se acrescentou à última uma leitura de poemas (pelos ursos do costume, vulgo eu e o assistente de produção) muito aplaudida, discursos inflamados de um director artístico frustrado com a falta de apoios, e uma medalhinha para o Teatro...
que bom... não nos dão dinheiro, mas temos uma medalha de mérito cultural... quem sabe se no prego vale alguma coisa... ou derretendo... ali na feira da ladra...
no fim da santa noite, olho à volta.
lá estão, os ursos do costume, o director e poucos mais, cheios de frio porque a roupa de ocasião dá nisto, a comer bolachas de chocolate (que é o que há porque eu trouxe de casa), a dar as migalhas ao cão da pianista, a falar das vidas, que depois de tanto frisson, voltam ao que eram... muito pouco...

segunda-feira, 24 de janeiro de 2005

aliens

Ah... este é o meu assistente de produção...


nokia by thumbelina

tá tudo explicado, não tá?

boulevard of broken dreams

acordo atrasada, meu costume. arranjo-me e saio. está muito frio, mas está sol. pego no carro, ligo o auricular do telemóvel e o rádio, esse bom companheiro. faço-me à estrada. uns quilómetros depois, noto que há um banco de nevoeiro. mais à frente ainda, é o céu nublado que me espera. entro em Lisboa. carros e construções finas, os topos de gama de um país que não tem dinheiro para hospitais, reformas ou fomentar o emprego, mas gosta de estádios bonitos. sigo pela 2ª circular, entro numa estrada menos concorrida, com prédios altos e maltratados, de gente, e cito, "que não interessa ao menino jesus". whatever. mais abaixo, já quando se adivinha o rio, passo por edifícios muito antigos, quase ruínas, não fossem as cortinas nas janelas a evidenciar que ainda moram lá pessoas. não consigo evitar pensar como serão as suas vidas, idades, se terão frio, hoje está tanto... gosto de inventar as suas histórias, que não conheço, normalmente guardo-as para mim. já me julgam maluca o suficiente.
passo naquela curvinha da estrada onde normalmente, no meio do betão, nasce uma papoila na primavera.
depois do viaduto do comboio, viro para a rua do teatro. há um centro de recuperação de toxicodependentes. portanto, muito arrumador de carro, muito carro para arrumar, porque há por aqui escritórios e gente com os seus carros topo de gama que sempre dispensam umas moedinhas. normalmente, há porrada, também.
já assisti a um polícia que teve de meter uma rapariga pelos cabelos dentro do carro. no largo, normalmente, esses, que vivem no limbo da consciência, que abdicaram de sentir, sentam-se nos bancos e deixam-se ficar, catatónicos, ao sol, com a companhia de algum cão vagabundo e as garrafas de cerveja e vinho. havia um, que já morreu, que tinha um pombo que o seguia. o pombo agora está a morrer. às vezes têm as suas desavenças territoriais, de um contexto que nós, que vivemos de uma forma diferente, não conseguimos compreender. desatam ao murro. murros débeis de quem não tem força sequer para levantar a cabeça e seguir.
hoje não.
dois deles desencantaram um maço de tabaco vazio e jogavam à bola. como dois putos. sorriam e gargalhavam. outros, poucos, sentados, assistiam e torciam pela "equipa" que preferiam.
naquelas bocas degradadas, naqueles olhos sem vida, vi o brilho de uma vida que gostava que tivessem.
estaciono. quase não tenho dinheiro para o almoço, mas o medo que me risquem o carro faz-me dar o resto das moedas ao "crostas" que, de jornal enrolado, me avisou que havia lugar.
estão a abrir as portas do teatro. por minha causa, eu sei. se fosse por eles, começavam a trabalhar lá para as 4 da tarde.
o meu querido assistente de produção ainda não chegou. já lhe liguei duas vezes. é um rabo de sono. já sei que vou passar-me com ele.
subo para o escritório, acendo o computador e o aquecedor. vejo os mails, ligo a rádio online. recebo um telefonema de uma revista. boa, o trabalho já começa a compensar. imprimo uma carta, envelopo, ponho o post-it, tem de seguir esta tarde, correio azul.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2005

I'm not crazy, I'm just a little unwell...

sem tempo para nada. de repente, cai-me o carmo e a trindade em cima. não se pense que vou ganhar dinheiro com isso, não senhores... continuo a mesma pé-rapada, mas ocupada.
precisavam de produtora... arranjaram-me um papelucho no coro... interesseiros... e aqui a esfomeada lá aceitou. e cá estou, enterrada no teatro todo de pedra, fechada num escritório sem janelas, acompanhada pelos fantasminhas da casa. a tentar gerir um caos. a comer uma sandes por dia. depois desço as escadas e fico a ensaiar até às 2 da matina...

não me tirem é as tabuinhas, não é?
sou mesmo estúpida.
isto é pior que a droga...

ah, e a melhor... não fui seleccionada no tal casting que fiz... porque imitei o Ricardo Araújo Pereira bem demais!
a administração mudou de estratégia publicitária, e já não queriam imitações... então fui excluída!
positivo.

os ataques de ansiedade amainaram, talvez porque agora tenho algo com que me preocupar. não tenho tempo para ataques. depois, quando voltar a parar, caio para o lado um mês.

o problema é que não vejo a minha família...
mas se calhar não é problema... eheheh...

isto hoje tá pouco filosófico, com aspecto de diário de adolescente, mas é o que se arranja...

goodnight, dear voyd...

sexta-feira, 14 de janeiro de 2005

em pleno ataque de ansiedade

tento sentir freneticamente a minha pulsação. não sei do que é que estou à espera. se o coração tivesse parado eu não me podia mexer, estúpida. agora parece que está descompassado e a querer fugir-me do peito. não sei porquê. sei que dura há uns dias. acordo bem disposta e parece que está tudo bem. daí a bocado recomeça... já não tenho nós nos músculos. tenho músculos nos nós. só me lembro da madame Souza (Belleville Rendez-Vouz) a massajar o seu netinho... com um aspirador e um aparador de relva... é mesmo isso...
parece que se sentaram no meu peito (do lado esquerdo, claro, para ser mais assustador ainda) e lá montaram acampamento. a solidão e o estúpido do medo de morrer. nunca fui assim. já me irrito comigo mesma. nunca tive paciência para hipocondríacos e agora tenho de aturar uma 24 horas por dia.

nunca pensei que a alegria de viver e o medo de morrer pudessem estar tão estranhamente ligados...

segunda-feira, 10 de janeiro de 2005

considerações

voltei a precisar de deixar a tv acesa para conseguir adormecer...

quinta-feira, 6 de janeiro de 2005

sleeping in my car...


nokia by thumbelina no meio da autoestrada...
é uma canção foleira dos Roxette... mas é uma frase que se aplica a uma forma de vida. um pouco a minha.
este carro conhece-me há tantos anos... fui buscá-lo bebé à oficina, tinha uns poucos meses de carta (sim, ainda se vivia bem, nesta família. era suposto ser o carro da minha mãe mas ela tem medo de conduzir... temos pena ;)
é bordeaux, ou vermelho vinho, ou lá o que quiserem chamar. lembro-me que não simpatizei logo com a cor. it's something that started growing on me (porque é que há expressões que só saem em inglês?). acabei por em certas alturas usar as unhas da cor da pintura...
lembro-me que, no primeiro dia, tive medo de o conduzir. medo de o estragar.
depois tornou-se o meu melhor amigo. ganhou logo um diminutivo, que nessas coisas sou terrivelmente foleira. é o jippy... e nos dias maus é o cabrão do carro. fofinho, não?
foi comigo tirar o curso, dando um fim aos dias em que tinha de acordar às 5 da manhã para chegar às 8 à faculdade (para jogar matrecos, mas isso fica para outro post...)
tornou-se o táxi de toda a gente com quem antes me encontrava no metro do Campo Grande às 7 da manhã. passámos a ir todos de popó. de cuzinho tremido, como dizia a minha avó. e passámos a passear nele. e a fazer raves nele, no jardim da faculdade (lembras-te, V?).
a partir daí, fui 'boleieira' oficial de meio mundo. nele conheci Lisboa, Portugal, arredores...
este carro assistiu a todos os episódios da minha vida. nele tive ataques de choro convulsivo de que ninguém soube. nele tive o primeiro ataque de ansiedade. nele tive ataques de riso. nele estudei. nele bati texto. nele me deixaram bilhetes, e recados, e flores(!), e mensagens desenhadas nas janelas. nele me deixaram marcas de cigarro. nele andaram afixados todos os cartazes de peças em que entrei. nele andaram a balançar baldes de cola para andar a colar cartazes por Lisboa inteira. nele abri prendas. nele dormi. nele discuti. nele beijei. nele fui ombro. nele precisei de um ombro. nele cantei em plenos pulmões. nele dancei. nele carreguei cenários. nele andaram bolos e frangos assados. nele tive dois despistes. nele me maquilhei, penteei, mudei de roupa. nele andou areia e neve. nele ultrapassei os limites de velocidade. nele apanhei multas de estacionamento. nele apanhei desilusões. nele apanhei chuvadas, trovoadas, choques eléctricos, escaldões à camionista. nele aterrei noutros mundos. nele vi luas, estrelas, entardeceres e amanheceres. sozinha. acompanhada. nele trouxe a casa de uma amiga. nele trouxe turcos do aeroporto. nele trouxe a minha avó ao teatro. nele anda o meu perfume, o canivete suíço, a última multa, as chaves da casa da minha avó, o chapéu de chuva, o boné, a tenda, a agenda, os cds, a máquina fotográfica, livros... a minha casa. e os cheiros dos que fazem o meu mundinho.
nele sou independente. nele muitas vezes me apeteceu ignorar a tabuleta que indicava a saída da auto-estrada para minha casa e seguir. só seguir.
são quase 180.000kms. são 7 anos.

nokia by thumbelina
é muita música.

diário de uma wannabe

10:30 - acordar com um sms. pré-seleccionada para um casting. boa.
10:31 - casting????
10:32 - ligar a confirmar. devo ter ganho mais uns pontos porque fui forçada a usar a minha voz de almofada, que a outra ainda estava inactiva. casting às 15:40. ok
10:33 - epá, peraí! tou inscrita nesta agência há mais de um ano e nunca me chamaram... mas que raio...?
10:35 - duche.
10:36 - AAHHHH! pera lá, eu coloquei lá a estagiar um dos putos de um dos programas da empresa onde trabalho/ei! isto de se ser simpática deve render qualquer coisa... fez-se luz!
10:36:45 - champô nos olhos, champô nos olhos...
10:45 - roupa...? ok, porreiro, agora gostava de me chamar Athina Onassis...
10:50 - gorda
10:55 - sem formas
11:00 - sem (o pouco) peito (que tenho)
11:05 - baixa
11:10 - marco horácio
11:15 - não tenho sapatos para dar com isto
11:20 - the hell with it!
11:25 - imprimir o texto que mandaram. pera lá, eles querem que eu imite na perfeição o Ricardo Araújo Pereira... hmm... um génio da comédia... eu... hmm... peanuts...
11:26 a 14:00 - visualizar sem parar o sketch do homem-a-quem-parece-que-aconteceu-não-sei-o-quê (obrigada avôzinho, pela prenda de natal, és muito à frente). comer e essas coisas.
14:05 - claro, borbulhas... e manchas... e a pele ressequida do frio... claro... e eu tenho de maquilhar esta coisa que tenho ao espelho?!
14:30 - the hell with it! parte 2
14:35 - sair de casa, dar boleia ao pai.
15:20 - estacionar no centro de Lisboa. ahahahahahah!
15:35 - correr (a pé, sim) para a agência. ainda tenho tempo de beber um café e comer um cigarro. a maquilhagem já derreteu: tenho óleo de fritar a enaltecer-me o nariz e a testa e a sombra dos olhos é agora um belo par de olheiras.
15:40 - sou tão pontual... picar o ponto. receber a bela da folhinha que tem o número do gado, perdão, da candidata.
15:41 - sala de espera. encontrar mais uns wannabes conhecidos. conversa-fora. reparar nas duas miúdas que me calharam em sorte. nuances loiras, argolas, magras, mamas grandes... your basic nightmare. uma só dá risinhos nervosos, a outra manda toda a gente calar porque quer ouvir o-homem-a-quem-parece-que-aconteceu-não-sei-o-quê (que está em loop na tv da sala de espera). são amigazzzzz...
15:43 - corredor, fazer figuras parvas em frente ao espelho.
15:45 - um rapaz que nunca vi na vida reconhece-me. parece que foi o tal puto que lhe falou de mim. e por isso, parece que já sou a melhor amiga dele.
15:50 - nº27.
15:50:32 - Ah, sou eu!
15:51 - sala branca, vários projectores e uma câmara digital num tripé apontada aos presidiários. dois dedos de conversa com o tal novo melhor amigo, que afinal é o gajo que vai gravar o casting. olha o Manolo! muchas gracias, chico!
15:52 - mostrar o papelinho. sorrir. perfil, sorrir, outro lado. a câmara olha-me de alto a baixo (mais baixo que alto...). pronto, vamos gravar.
15:55 a 15:58 - não me lembro. a minha mente está em branco.
15:59 - chamam as outras tais das argolas para fazer outra cena, agora em grupo.
16:00 a 16:05 - não me lembro. a minha mente está em branco.
16:06 - tá feito, tá morto. dizem que depois ligam, aquelas tretas do costume...
16:07 - passo pela sala de espera e desejo muita merda a quem lá está a olhar para a tv e a roer as unhas. olham-me de alto a baixo (mais baixo que alto, apesar de estarem sentados) e murmuram um obrigado muito muito afectado.
16:07:25 - estúpidos. não sabem que não se agradece?

ser wannabe nesta terra é complicado.
não tenho nuances, mamas grandes, 1,90m... só borbulhas e unhas roídas.
não tenho tachos, só experiência e formação...
sei articular...

the hell with it!

terça-feira, 4 de janeiro de 2005

ressacas

não havia confettis.
poucas pessoas, as suficientes para fazer barulho sem irritar ninguém. e uma miúda amorosa a quem se tentou roubar a mesinha. só uma pessoa levou música, pelo que se passa a noite toda com a mesma banda sonora. amena cavaqueira, comidinha da boa, leva-se uns bolos e uns sumos para ajudar. um dos fondues pega fogo.
espera-se com a Júlia Pinheiro pela meia-noite, em cima de uma cadeira. grita-se, beija-se os amigos e recém-conhecidos, deseja-se tudo de bom. a miúda usa, finalmente, as tampas de tachos que trouxe consigo e que guardava religiosamente no sofá ao pé da janela.
quando o ambiente amorna, e o efeito do vinho alivia, vai-se a outra capelinha, a casa da M., e joga-se trivial até se adormecer em cima dos cartões com as perguntas.
passou-se bem, este ano.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2004

5, 4, 3, 2, 1...


imagem encontrada no google, ah pois...

já vesti, como manda a tradição da minha avózinha, umas cuequinhas azuis. para dar sorte.
agora, é esperar pela meia-noite e deixar a data mudar. espero que não usem confettis...
a minha banda sonora, como boa sagitariana com ascendente em aquário e lua em touro*:

don't look back, don't look back, don't look back, don't look back
I will buid my world,
I will sing my songs
I will keep my helmet on...
[The Gift - Am/Fm]


*(optimista, sonhadora e impulsiva, ascendente em lutadora e intuitiva, lua em esteta e pragmática)
*(ou: idiotamente crente, estouvada, ascendente em teimosa e tosca, lua em manienta e bruta)

quinta-feira, 30 de dezembro de 2004

entretantos

no ano novo todos fazem resoluções. que normalmente não cumprem. defendo que se deve lutar pelas coisas todos os dias do ano, fazer com que aconteçam. não vou fazer dieta, não vou deixar de fumar... e se achar que devo, fá-lo-ei... em qualquer dia do ano que resolva.
porque o novo ano não me resolve. hoje há sempre 365 dias fresquinhos para estrear.
dizem que há sempre esperança. tenho-a sempre e nunca a tive.
há sempre motivos para sorrir, todos os dias. por mais que a alma chore.
deixem-me chorar mais um pouco. os sorrisos vêm, por inerência, por contraste, por complemento, por afinidade.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2004

one big happy family


nokia by thumbelina
já é uma tradição tão cerrada como a roupa velha ou as fatias douradas do meu pai. quando cá está a família toda vamos ver as iluminações de Natal. com ou sem espírito, toda a gente se deixa vaguear por ali, ignorando o mau ambiente. de mão dada com a minha prima, e em amena cavaqueira com a minha irmã e a minha tia, fui disparando com um presente que ofereci a mim mesma (com pontos, muitos pontos)...

segunda-feira, 27 de dezembro de 2004

nota mental II:

se a mãezinha tem uma predisposição para inventar pratos estranhos e saudáveis (bleargh), NÃO lhe oferecer o Culinário da Assírio e Alvim...
ou então, comprar Kompensans...

domingo, 26 de dezembro de 2004

nota mental:

por mais que a mãezinha faça beicinho e tenha direito a gostar das suas músicas, NÃO oferecer o cd do Russel Watson, se ela tiver aparelhagem na cozinha...

sexta-feira, 24 de dezembro de 2004

aconchego

em desassossego percorreu o corredor e pôs-se em frente à janela...
- é quase meia-noite, o Pai Natal deve estar aí a chegar. vai ver se o vês...
as palavras aceleravam-lhe o coração e rebrilhavam-lhe nos olhos mil fantasias.
de olhos fixos no céu escuro e pontilhado, tentava adivinhar um movimento.
passou uma estrela cadente. fervorosamente, repetiu as palavras que a avó lhe ensinara.
- deus te guie, deus te guie, deus te guie.
para não cair na terra e dar um desejo, que pediu, de alma aberta. perdido nos entretantos de memórias de tantos sonhos e desejos por estrear.
e perdeu-se em fantasias cor-de-rosa em que as almofadas eram as nuvens e as lanternas as estrelas. no encantamento sentiu a lua a fazer-lhe festinhas no cabelo com as suas mãos de vento. era a avó, que vinha ver se ela estava sossegada. pôs-lhe a mão no ombro, respeitando o silêncio prescrutante. e ficaram as duas a ver se aparecia o Pai Natal.
de repente, do fundo dos seus sonhos soou uma campainha.
deu um salto e de mão dada com a avó, correu pelo corredor até ao sapatinho por baixo da árvore de Natal. mergulhou nas cores, que rasgou, de olhos gulosos...

quinta-feira, 23 de dezembro de 2004

mensagem de natal

independentemente de tudo, não custa nada e sabe bem desejar coisas boas.
aconchego, calor e paz.
para todos.
bom natal.

natal e lua cheia

deveria já sentir-se o cheiro da canela e dos fritos, da lenha a crepitar, o quentinho do forno sempre a funcionar, e da lareira. devia haver o sussurro das últimas prendas a serem embrulhadas, num vago secretismo maroto. devia sentir-se as vibrações de carinho e ansiedade pela chegada dos nossos tão queridos que chegam amanhã. que são inerentes a esta altura do ano, sempre, cá em casa. devia começar-se a espalhar velinhas pela casa. pôr as prendinhas pequeninas para aqueles que não estão debaixo da árvore. encher o frigorífico com o aprumo e dedicação, já salivando com a perspectiva dos pratos compostos. devia haver música, independentemente dos gostos. sorrir-se com a ideia de uma noite de natal com todos os que sempre importaram juntos de novo, sem hipocrisias, e com o facto de ser uma noite fria, límpida, de lua cheia, ou quase.
todos os anos o temos conseguido, bem ou mal.
este ano, a casa está fria. em todos os sentidos.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2004

tou-me nas tintas

cortei a banana e a pêra em pedaços não muito pequenos para ele não se engasgar. tudo num pires, um garfo e um guardanapo. o meu avô está a lanchar. a casa está vazia.
enchi uma taça com água, peguei nos pincéis e entrego-me.
deixo a tinta verter no pires, passo-lhe com o pincel, sinto-a esticar na superfície de madeira e cortiça, os cheiros suaves do acrílico. os dedos pequenos começam a ficar sarapintados.
misturo cores, criando o meu próprio arco-íris, a minha paleta.
enquanto tento fazer de um quadro de cortiça uma prenda de Natal bonita e original, ponho um cd a rodar. e ao ouvir o refrão lembro-me de um trocadilho...

...how are you doing?

I'm doing for music,
I'm doing for love
I'm doing for everyone around me
Music [The Gift - Am/Fm]

[m/p]erdas II

já que tou na mó de baixo, vou exorcizar as desgraças todas de uma vez. este blog também serve para isso. não interessa um pintelho, mas a mim também não.

há os clássicos:
o carro (única forma de comunicação com o mundo) que avaria a cada semana.
as operações multi-anuais ao meu pai, que de repente se vai abaixo com um problema qualquer novo (desde hérnias, a calcanhares desfeitos, a polipos).
a depressão da minha mãe, desde que a minha avó morreu.
a máquina de oxigénio do meu avô.
a casa que me tiraram.
a gata que não é minha.
a vida que não tenho.
o trabalho que faço por amor e não me dá dinheiro, e agora me descartou.
o trabalho que não tenho por querer poder fazer o que me descartou.
a desilusão para os pais de uma menina de notas máximas e quadro de honra que deixou a faculdade para fazer teatro.
o dinheiro que não tenho para sequer passar a passagem de ano com amigos.

agora há uma nova:
admiro imenso o meu pai. é um autodidacta e conseguiu uma distinta carreira de director comercial de uma empresa por mérito próprio, subindo a pulso e inteligência como poucos. a minha mãe também trabalhava lá. tinham uma vida desafogada. dedicaram-se mais de 20 anos àquela casa (outra...). há uns 4 ou 5 anos (no mesmo ano em que a minha avó morreu), o meu pai teve de fechar a empresa que geria. porque o sócio (que não percebeu nunca patavina de gestão) achou que era esperto e resolveu, um santo dia, começar a meter o bedelho nos negócios. fazia acordos estranhos. comprava presuntos pata-negra e fazia jantaradas com os clientes e tava-se a marimbar para os problemas financeiros. acabou por vender a empresa a uma multinacional, que a extinguiu. leis de mercado para os maus gestores. lei de murphy para os demasiado empenhados.
os meus pais estão desempregados. ainda não têm idade para reforma.
agora veio a notícia de que lhes vão congelar as contas todas.
por falcatruas que não fizeram.
o sócio? (e meu malfadado padrinho - ao estilo mafioso mesmo)
está de férias no brasil. gordo e rico.

merry fucking christmas.

[m/p]erdas

dois anos e meio. de dedicação. quando mais ninguém via ali uma ponta de interesse, eu estava lá. a batalhar, a tentar que evoluísse. falo de um lugar, mas também de um lar. que pensava que tinha. ali uni uma família desconstruída. consegui que muita coisa acontecesse apesar da grande percentagem de improbabilidade. apesar dos "o que é que estás lá a fazer". apesar de perder dinheiro de cada vez que ia para lá. fazia os 30 km com dedicação e noção de que tinha de ser, se quisesse que algo acontecesse. ensaiei até às 8 da manhã sem replicar. pintei chão. colei cartazes. lavei camarins. cosi panos. acendi luzes, carreguei no play nas alturas certas. subi e desci volumes. vendi o produto. vendi bilhetes. fiz os telefonemas todos. lutei com um computador no seu leito de morte e ganhei. fiz cartazes. textos de promoção. traduções. dirigi actores. dirigi alunos. dirigi desânimos. trouxe bolas de berlim de madrugada. dei boleias a quem não tinha como ir para casa.
tive de sair por dois meses. avisei com um ano de antecedência e honrei o compromisso de que voltaria de braços abertos. deixei também tudo preparado para agarrarem uma oportunidade que os poria de novo na mó de cima.
e agarraram.
mas chegou o momento de distribuírem papéis. e eu não estou na lista.

mais uma casa que mobilei, a que dei alma. e que perdi.
merry fucking christmas

portas de vidro

uma miúda só, no meio da multidão de sacos e músicas de Natal. paragens em lojas, sem olhar para as montras. já tenho o moleskine com pautas para o irmão músico... era a prenda maldita. resolvido. ainda em busca de um quadro de cortiça para pintar (que o dinheiro não dá para mais), recebo um telefonema. corro ao hospital, para dar apoio moral ao meu pai. a minha (outra) avó está no hospital. uma mulher com quem não tenho laços particularmente fortes. a quem desde sempre ouvimos queixas melodramáticas-hipocondríacas. o vizinho tinha uma doença e ela no dia a seguir também já a tinha. como na história do Pedro e o Lobo. agora é a sério. "problema grave nos intestinos, que provavelmente já chegou a outros lados". porque é que os médicos não dizem as palavras "cancro com metástases"? lá vem outro Natal daqueles, penso. cá em casa é assim, sempre assim. há sempre porcaria da grossa na altura das festividades. é sempre um Natal ensombrado, caraças. espero o meu pai, que está a resolver problemas com uma médica narcoléptica (fica para outro post, porque é realmente paranormal). observo tudo à minha volta. recebo o ar frio no rosto, encostada à parede, em frente à ambulância vazia. do outro lado das portas de vidro, gente disposta de frente para a televisão respira o mesmo ar rarefeito, suado, doente. numa sala fechada, em que todas as portas têm o sinal de sentido proibido. excepto a da casa de banho. de onde sai um homem com uma chucha, que entrega a uma mulher que tem uma bebé sorridente no colo. velhinhas, muitas. de ar cansado e olhos postos no nada. à espera. gente com a cabeça enterrada nas mãos, levantam-na de cada vez que há um movimento, na expectativa. ouço os seus suspiros sem som. estou (demasiado) habituada a hospitais. mas desta vez não fui capaz de entrar naquela sala.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2004

querido pai natal:

este ano gostava de te pedir
::umas meias às cores
::um dvd
::um livro
::capacidade de conformação

sexta-feira, 17 de dezembro de 2004

branding

depois de criar 114 envelopes no word, dizem-me que há 40 postais e envelopes disponíveis no escritório...

banda sonora para o momento em que carimbo os postais existentes e me marimbo nos restantes:
forever more [moloko - statues]


janela sobre a calçada

estou sozinha. não me apetece ir almoçar sozinha, mas eventualmente terá de ser. porque tenho fome. na janela do tal prédio em obras, mesmo aqui em frente, está um pombo a olhar para mim. está sol. mas o aquecedor está ligado. ainda não pus nenhum cd, e o silêncio agora incomoda.já fui 3 vezes à janela. [...]
um bairro em silêncio e ebulição. os putos devem estar a passar. hoje tenho uma surpresa para eles: as colegas ofereceram-me um frasquinho de bolas de sabão...

quinta-feira, 16 de dezembro de 2004

ah cão! - parte 5 e 20 da tarde

a patroinha deixou a lista de afazeres: enviar postais de Natal para todas as empresas que colaboraram conosco deste ano. tendo em conta que recebemos centenas de estagiários e fizemos dezenas de visitas técnicas, seria à partida um desafio light. mas depois há que ressalvar que a bosta da lista de contactos está completamente desorganizada (não me tiveram cá tempo suficiente, e, apesar de ter começado um tipo de organização, mal saí, recomeçou a balda) e elas não apontaram metade das pessoas com quem contactaram para conseguir as ditas visitas e estágios. tive de pescar os contactos um a um de documentos soltos, descobrir endereços e nomes de pessoas do ar. isto levou-me o dia todo. depois era imprimir os envelopes. só. vai daí, o assistente de impressão em envelopes crashou, e com ele os documentos word todos. recuperei o dos endereços, mas daí a a pouco, não sei como, o ficheiro estava em branco. tenho de recomeçar tudo de novo. são 5 e 20 da tarde... as cartas têm de seguir amanhã... mas porque é que neste escritório em que tudo se faz em computador e via net, não se manda um e-card????????????? e porque é que os sagrados* mecânicos não me ligam com novidades do meu carrinho? porquê eu, porquê???

*leia-se fdp