segunda-feira, 2 de maio de 2005

caixotes

de vez em quando lembro-me da promessa que te fiz. já tu não a ouviste, ou talvez sim. fi-la por mim, também.
veio-me do fundo da alma. veio-me com a vontade de te ter de volta. veio com a vontade de te guardar para mim.
veio com o cheiro a começar a ficar abafado, naquele corredor. não queria que ficasse abafado nunca. queria que cheirasse sempre a comida caseira, a alfazema e a amaciador de roupa.
veio há uns anos. veio à medida que empacotava tudo. tive de ser eu. sobrei eu. sobro eu. de certa forma foi melhor. preferi passar aquelas horas entre panelas e lençóis tristes sozinha, que como no primeiro dia em que a minha mãe ainda tentou fazer qualquer coisa e derretia os caixotes com as lágrimas. foi o dia em que se tornou ateia, acho eu...
de qualquer das formas, lá teve de ser. e sobrava eu. tive de atravessar a estrada onde especialistas ainda encontrariam vestígios de giz, das solas das minhas sandálias coloridas, de pele dos meus joelhos e de mercuriocromo. tive de subir as escadas frescas onde me abrigava do Verão com as amigas e as Barbies. onde dei o meu primeiro beijo ao Carlos dos olhos verdes, que depois foi para França. tive de dar a volta à chave, pensando em quando o fazia às 5 da manhã, depois de tu dizeres à minha mãe - piscando-me o olho enquanto me vias calçar as botas de salto alto - que eu tinha ido dormir às 10 da noite.
o corredor estava escuro, mas quase vislumbrei a tua figurinha pequenina de avental a movimentar-se pela cozinha, ao fundo. era engano, de certeza.
e lá estive de volta da tua cozinha, de onde se vê a "serra" onde íamos apanhar papoilas no dia da espiga... e noutros tantos... sabia que querias que ficasse com o escorredor, do aspira-migalhas e outras geringonças amarelas. olhei para as colheres de pau. trouxe-as comigo em honra das vezes que me ameaçavas com elas se eu não acabasse de comer a sopa. só ameaças... estou-me a rir. "olha que esta é especial, veio de Espanha! esta é mais dura e tudo", gritavas, agintando-a no ar. e eu lá ficava uma, duas horas em frente ao prato da sopa, porque não conseguia mesmo. chegávamos invariavelmente ao consenso do desgaste. eu engolia umas colheradas em sufoco e tu levantavas o prato. o que eu gostava era do bife com esparguete e muito ketchup. ou "kitchaipe", como tu dizias...
depois vieram os senhores da carrinha e levaram os sofás da sala onde eu acordava de madrugada sem saber como, [a fase sonâmbula], a Mafalda ficou com eles. e fiquei sentada no chão a olhar para as marcas de anos do seu peso na alcatifa escura. tantas horas ali a ver os "bonecos". ficou lá a mesa de jantar onde eu fazia as casas de bonecas. essa ficou. onde eu espalhava todas as almofadas da casa para fazer uma "cama de luxo". eram os jantares de quinta-feira, o cozido à portuguesa em que eu fazia bollycaos com o chouriço de sangue e pão. os meus pais ficavam até mais tarde e comíamos todos juntos. depois íamos à janela despedirmo-nos deles, que desciam a praceta a apitar.
era, era.
ainda vi [vi, pois] a tua sombra no quartinho da alegria, onde estava o nintendo. onde eu brincava com a Vanessa [coitada, casou com um taxista e já tem três filhos com nomes lindos como Ana Micaela e Rebeca Sofia...] horas a fio, às modas e aos escritórios. e onde eu dormia a sesta apesar do chato do galo da vizinha de baixo que mais parecia um cuco. onde adormecíamos as duas a ver televisão à noite, depois do chá com torradas. onde devorava as argolas de chocolate que me trazias às escondidas, para a minha mãe não vir com o discurso da "coitadinha da tua irmã não pode comer porque é alérgica, portanto ninguém deve comer para ela não ficar triste". a alergia dela passou. a minha descompensação de doces mantém-se até hoje. só tu me adoçavas a boca.
ali naquele armário do quarto guardavas-me a caixa de bolachas de chocolate. onde eu tinha os cadernos da escola, os meus livros preferidos, as "pinturas", as aguarelas e o giz para desenhar na rua. lembro-me dos lençóis de flanela, apesar de estarem num saco há uns 4 anos. tenho saudades dos lençóis de flanela. de te ver passar no corredor, de te ver espreitar pela frincha da porta a ver se eu estava a dormir. depois entravas pé ante pé e davas-me o beijinho-de-boa-noite-dos-sonhos. porque o outro davas quando me deitavas. deixei escrita uma frase do Mia Couto na minha gaveta. só para ti, que és a única que ainda lá anda e pode lê-la.
deixei ficar em cima da prateleira da casa de banho um dos teus batons em miniatura que eu às escondidas esfregava sofregamente nos lábios, com a minha mania de ser mulherzinha. e tranquei o teu quarto à chave com a bailarina e a caixa de música lá dentro. para eu poder lá voltar de vez em quando e dançar como em menina. fui fechando a porta, deixando aquilo assim. o ar pousar. como agora és mais leve que o ar, os teus passos não perturbarão o pó.
ouço-te a cantar os teus fados. só acontecia quando estávamos sozinhas. e isso é um tesouro. o outro é a memória da tua pele que está na minha.
um dia hei-de cumprir a promessa. e vou comprar a casa onde moraste. e nunca mais vou ter de encaixotar recordações.

meteorologia

hoje de manhã estava sol na minha terrinha. vesti uma camisola cor de rosa com um decote enorme em V.
agora tenho frio nos ombros...

sexta-feira, 29 de abril de 2005

ainda sobre lost in translation...

...descobri por um texto que me deliciou. gosto de quem escreve bem. infelizmente, este blog já terminou. felizmente continua no ar.

"a sala de embarque de um aeroporto é sempre demasiado fria quando se está só. um livro acompanha por um momento, mas a vontade de fugir para o sol lá de fora aumenta. ele aguarda-a no outro lado do mundo. ainda falta muito tempo até ao reencontro. ela relembra pormenorizadamente aquela noite no bar: os copos meio vazios, os joelhos demasiado próximos e as mãos com vontade própria. eles mal se conhecem e ela parte a caminho dele."

por [N], que suspeito quem seja e [se isso se confirmar] cujos textos sigo noutros blogs.

despertar

uma garrafa de anis partiu-se. foi deslizando devagarinho, aproximando-se imperceptivelmente da borda da prateleira onde descansava altiva. dos cacos, no chão, evaporou-se o líquido. ficaram os reflexos de luz espalhados por toda a parte. e o entorpecimento adormeceu.

quarta-feira, 27 de abril de 2005

contra-luz

respira fundo. o peito pequeno sobe e desce com calma. controla o ar até o coração amansar.
o seu corpo levanta-se da cadeira, indiferente ao escuro, ao frio.
está num espaço vazio, anónimo e intemporal. continua de olhos fechados e, na sua cabeça, o ritmo da respiração traz-lhe uma música.
deixa a cabeça deslizar para trás. levemente, avança um passo, depois outro. as ancas balançam. os braços levantam-se, e apanham as notas perdidas no ar. roda. roda. roda. salta e envolve o ar e o ar envolve-a.

[ms]
perde a noção do tempo. perde a noção.
já se descalçou, a camisola descaiu, revelando o ombro nu. os cabelos voam no ar despenteados e suados. não interessa.
abraça essa música que lhe chega sussurrada entre os estalidos da madeira. frenética, perde o controlo. agora não.

há-de acordar. arfante, desorientada. e ouvir os carros a passar.

alone in Kyoto [Air]

uma banda sonora sugerida para um post...
recordar algo que não recordo bem.
recordar uma viagem, duas vidas vazias e um encontro. mudou alguma coisa? isso fica para ponderar. mas acaba com um sorriso, não é?

numa capital cheia de luzes e movimento é estranhamente fácil o reconhecimento de duas solidões. num hotel luxuoso, num bar de meias luzes e glamours falsos. brilho. imagens cheias de brilho. e a tristeza infindável em dois pares de olhos. parecem sem rumo, apesar de trazerem agendas definidas. nem que o sejam por espaços em branco.
quando uma cidade grande se torna tão claustrofóbica e sufocante. e com tantos pontos de atenção que o olhar desfoca e não encontra um ponto certo. um porto de abrigo.
até encontrar. surpreendentemente, encontra-se noutro vazio. noutro desespero disfarçado.
não há histórias paralelas nesta história. encontros ou desencontros. aliás, já não se espera nada. apenas se vive um presente estranhamente familiar. estranhamente coincidente. estranhamente simples. com tanto lugar no mundo, o encontro de dois vazios é no meio do tal outro vazio cheio de brilhos, músicas, lantejoulas e neons.
e então faz-se realmente luz. nos olhos e nas almas. e não é preciso cenários fabulosos. não era preciso o destino exótico e cosmopolita. ou era?
falar de amor ou atracção. falar de destino ou coincidências. falar de viagens luxuosas. falar do que é cosmopolita ou charmoso, ou do fútil. falar de estilos de vida alternativos, do consumo, da imitação, dos ideiais estéticos. falar da loucura ou do desespero. falar do impulso ou do juízo de valores. falar de quando se perde o controlo ou simplesmente se deixa correr. falar de desejo e de intenção.
falar da simplicidade de um roçar de rostos, de uma troca de olhares, da sensualidade de uma pele, do fogo de um passeio à chuva, da embriaguez de uma porta aberta, de um intenso proteger aconchegante na cama, [tão] mais íntimo que o "será" do sexo. da simples simplicidade no meio da confusão. de quando tudo pára sem nada parar à volta.
tudo perdido em traduções. só sabemos que acaba com um sorriso.

para a V.
para Lost in Translation
não sei porquê. apeteceu-me.

terça-feira, 26 de abril de 2005

sex appeal ou uma forma de me deixarem a pensar o dia todo...

- que capa de telemóvel tão gira! é uma fotografia, não é?
- é. sou eu.
- ah. pensei que era a tua namorada...

... levo a mão ao buço, à procura de alterações hormonais galopantes...

sexta-feira, 22 de abril de 2005

untitled

disseca, corta, reinventa sem pesar no ar pesado sem saída.
estéril.
entra, aperta as cores em cinzentos obscuros.
não é nada.
ciclos de esferas entrecortadas sem colar.
atenta. mira. esguelha directa.
não é.
olhar em volta sem ver [querer?], fechar os olhos para ver no escuro. agarrar o cabelo no ar e puxá-lo.
não.

travagem. res...pi...ra...
água. redonda. macio de quente entre algodão e sons que chegam.
submerge, ondula, desenha. cores de sabores.
ligeira embriaguez. luzes e trancas.
noite. lua branca pintada às pintas de azul e amarelo.
dia. braços abertos. sol.
vida. tábuas e cheiro a espíritos. borboletas. pele. pincel.
relógio.

entretanto.
res...pi...ra...

bom fim de semana

merchandising ou narcisismo nouveau

hoje de manhã fui comprar tabaco a uma papelaria. dei de caras com uma cara conhecida na montra.
fui pressionada! foi mais forte que eu!...
pronto, tenho um estojo com a minha outra cara!...

quinta-feira, 21 de abril de 2005

verduras

percorria eu a R. da Escola Politécnica, e deparo-me com três coisas verdes com pernas e bonés.
e questiono:
mas quem raio é que se candidata a funcionário da EMEL???
só podem viver noutro planeta à parte.
ninguém que conheça o drama de quem precisa de trazer o carro para Lisboa (já sem falar dos pobrezinhos que vêm das Amoreiras para o Rato ou de Telheiras para o Rossio e precisam de deixar o BM à porta do escritório porque não cabe no hall de entrada) colabora nestas coisas!
andam o dia todo a pé, a imprimir papelinhos.
fazem o trabalho sujo da polícia mas não podem usar um pau, se se forem agredidos.
rogam-lhes pragas, são ameaçados de sodomia diariamente, têm de andar aos grupinhos por causa das coisas...
... e usam aqueles fatinhos verde-couve, de calças justas, que fazem o rabinho mais amaricado possível...

terça-feira, 19 de abril de 2005

centro

base
origem
atenção
espiral
perspectiva
círculo
encaixe
contexto
intenção
vácuo
ornamento
preenchimento
entendimento
umbigo

questionário

porque foi o meu querido Rantanplan que propôs, eu não me esquivo. cá vão as respostas. não esperem coisas demasiado profundas, que eu sou mesmo simples. ou básica, conforme as opiniões...

:: não podendo sair do contexto de "Fahrenheit 451", que livro gostarias de ser?
lamento, não conheço o contexto. mas respondo na mesma.
qualquer um da Laura Esquível.


:: já alguma vez ficaste apanhadinho(a) por uma personagem de ficcção?
em adolescente, tive uma fixação pela desequilibrada Catherine de “Herdeiros do Ódio” e “Pétalas ao Vento” de... bem, não me lembro da senhora que escreveu (sou péssima para fixar nomes) , mas não era boa da cabeça... li e reli “Apocalipse Nau” e “Hotel Lusitano” do Zink. a Francesca e o Robert de “As pontes de Madison County”.

:: qual o último livro que compraste?
eya... onde é que isso já vai... bem, acho que foi o “Homem que Mordeu o Cão - a irmandade do canídeo” do Markl. não é profundo, mas dá para umas boas gargalhadas...


:: qual o último livro que leste?
reli “As pontes de Madison County”...


:: que livro estás a ler?
“Afrodite” de Isabel Allende. e “Uma Aventura no Caminho do Javali”. uma colecção que comecei aos 8 anos e ainda hoje me oferecem. e eu divirto-me, que eu não sou esquisita.


:: que livros (cinco) levarias para uma ilha deserta?
só 5? não sei se levaria novos, mas “As pontes de Madison County” era certinho, Gabriel Garcia Marquez, Laura Esquível, Pedro Paixão, Allende e Rui Zink. ups, passou dos 5... posso levar um bloco e uma caneta?

:: a quem vais passar este testemunho (três pessoas) e porquê?
er... à Alien (minha querida, minha linda, meu geniozinho, para quando a nossa curta? grrrr), ao Nuno e ao Knuque. porque têm blogs e porque são loucos ao ponto de ainda andarem pelo polegadas... isto é uma máfia eheheh

segunda-feira, 18 de abril de 2005

post-adulthood depression

conheces-me? ainda sou eu? por vezes fazes-me duvidar.
porque não perguntas? porque não queres saber? porque não me olhas e dizes "como te sentes?" "como estás?" "que se passa contigo, aí dentro, filha?"
porque inventas o que não sabes e deitas ao chão o brilho dos olhos que sempre te fixaram de frente, sinceros e firmes?
vejo-te todos os dias, mas pareces-me outra.
tenho medo. tenho medo de que já não estejas lá.
e não percebo porquê.
porque te afastas? porque te pões expectante de atitudes que não adivinho? e de outras que não são minhas, e que tu sabes bem que não são?
porquê esses beijos secos logo de manhã? é tua intenção castigar-me por alguma coisa? se queres que mude, não o consegues. só me afastas. e sinto a tua falta.
porque me olhas assim? tenho medo de te falar. tenho sempre a sensação que não é a altura certa, sabes? e tenho medo que passe tempo demais.
porque não me respeitas como sou? Porque não tens orgulho nos meus passos, na força que sempre admiraste, na luta que abraço, no ar alegre e na mão estendida que sempre me chamaste?
eu sou eu. eu estou aqui. cresci, mas sou eu. já não sorrio tanto, eu sei. mas não mo cobres como se fosse obrigação. sabes que detesto isso, e perco ainda mais a vontade.
queria partilhar contigo novos sorrisos, pequenas coisas, mas agora tenho medo que já não sorrias comigo.
já tenho a vida que querias para mim. segui o meu caminho, não cedi um passo, mas consegui o tal equilíbrio. já não tens de ter medo. agora já não percebo. porque de cada vez que acho que consegui uma vitória, um motivo para te dar orgulho, o teu sorriso não dura mais que um momento. e depois volta a censura. falhei assim tanto?
sei que não estás bem. sei-o do fundo da alma. mas não queres ajuda, não deixas que te estendam a mão. fechas-te em ti mesma rodeada das tuas certezas baseadas em sei lá o quê. e deixas de fora quem somos. nós duas.
mãe e filha.

sexta-feira, 15 de abril de 2005

encantos e ruelas

fui almoçar a casa de uma amiga, um apartamento partilhado por muitos estudantes das mais diversas nacionalidades. no Bairro Alto... a dois passos do meu escritório.
uma casa deliciosa, com vários níveis, e um terracinho... uma delícia de chão de madeira corrido, quartos desarrumados, sofás desengonçados, posters e recortes e uma cozinha enorme, com uma mesa feita de uma porta antiga pintada de laranja.
no caminho desta experiência tão "Residência Espanhola" (sem cenas de lesbianismo, é certo), deparo-me com esta outra delícia.

adoro esta mistura. adoro o Bairro Alto. gostava mesmo de ir para lá morar.

quinta-feira, 14 de abril de 2005

nos entretantos

a minha colega voltou de Hong-Kong...
foi à China, às Filipinas e deu um salto a Macau...
fiquei a sonhar com viagens. nem que fosse ali à Costa da Caparica...
haja escritórios vazios, senhores...

quarta-feira, 13 de abril de 2005

à espera



quando é que chega a calma?

quando é que os ventos mudam?

quando...?

estreia vip

ontem fizemos uma sessão especial desta nossa peça, para uma plateia vip.
em colaboração com a Associação dos Amigos de D. Pedro e D. Inês, convocámos ilustres da nossa praça, que [pasme-se] atenderam ao chamamento. estava lá a comunicação social... principalmente revistas de sociedade, porque reportagens de tv e jornais que é bom, nada...
as Castros retocaram as raízes, chegámos todos mais cedo para fazer tudo com calma.

o técnico de som [se assim se pode chamar àquela espécie rara de amiba] passou a tarde toda a brincar com o sistema de som. as colunas não são boas e ele consegue "bring out the worst" do sistema. estourando paredes e ouvidos, agudos e graves, passámos a tarde a ouvir as belas musiquitas da peça, com as quais já não podemos.
de repente, coisa inesperada, não é?, risca-se o cd! lá vem a amiba, calmamente, da casa de banho, 5 minutos depois, [e nós a ouvir o tóin-óin-óin repetitivo, já antevendo uma Castro remix] e desata a correr para o computador para gravar um novo cd. ficaram por imprimir etiquetas que identificariam as fotos dos actores expostas à entrada... também, não há tinteiro preto há mais de um mês.

há uns tempos uma colega nossa recolheu uma cadela abandonada. foi adoptada pela amiba que opera o som e serve os cafés no bar da entrada. chama-se... Castro... faz chichi na alcatifa da sala de espera, e atravessa o palco quando lhe dá na veneta par vir pedir festas ao elenco. detesta ficar sozinha.
com uma plateia de vips, não convinha a Castro ficar deitadinha num recanto do bar, dava mau aspecto. a amiba da luz resolveu fechá-la na cabine técnica. a meia hora do espectáculo, a cadela, que detesta estar sozinha, uivava desesperada. com a sala de espera cheia de gente... e o encenador, já meio maquilhado, gritava que matassem a gaita da cadela. e a amiba servia cafés e não se mexia...

plateia cheia, tudo pronto, começa o espectáculo...
e que espectáculo!
estou deitadita para a primeira cena, e começa a música. e a luz não acende. a mesa de luz foi ao ar... é que esta amiba [em total oposição à outra, que rebenta com as colunas com desvelo] não testou a mesa, ocupado que estava em facturar. fizemos todo o espectáculo com metade das luzes, intensidade duvidosa...

o senhor encenador, que também entra no espectáculo, resolveu dar o exemplo de todas as aulas que nos dá acerca ética profissional e trabalho de equipa: quando chegou à cena dele, não cumpriu as marcações para não ficar na sombra. e ficou bem no centro do único recorte de luz disponível, fazendo com que o resto do elenco que contracena com ele ficasse na sombra e lá permanecesse [ou isso ou empurrá-lo para fora da luz, o que não seria agradável... é que ele é o Rei...].

eis senão quando, já saídos todos daquela cena, em ficando o senhor para fazer o seu monólogo, a amiba do som [que gosta de novelas] resolveu que a música de fundo estava muito baixa. e subiu o volume, como é seu costume, obrigando o nosso querido Rei a fazer a cena toda aos gritos... deus é grande, dizia-se nos camarins... e a amiba também...

resolvi vingar os meus colegas. na minha cena com el Re, açambarquei a luz toda para mim, obrigando-o a ginasticar-se para... como se diz... partilhar! é isso!

bem, findo o espectáculo, agradecimentos, preparamo-nos para sair... e o senhor encenador resolve ficar no meio do palco e fazer um discurso. ai... o elenco vê-se forçado a voltar ao palco e ficar ali a servir de moldura ao ponto mais baixo da noite. é que o senhor não se contém e adora fazer a cena do desgraçadinho. e aproveitou que tinha lá os senhores influentes e voltou a falar no tema tabu... el subsídio! (leia-se sussídio) e, jeitoso com as palavras como é, disse as coisas de tal maneira que o senhor ministro [ou o assessor, ou lá o que é] saiu zangadíssimo no fim a pensar que lhe tinham armado uma cabala para o envergonhar em público.
além do mais, o nosso queridíssimo director artístico parecia surdo ao comportamento do público, que se revolvia nas cadeiras e bufava de impaciência com o arrastar dos agradecimentos jocosos e da conversa d' el sussídio. tive de lhe fazer uma festinha no braço, e no meu melhor sorriso 33, a deitar chispas pelos olhos, dizer-lhe que teria de terminar.

saímos para socializar porque tinha de ser. a vontade era ficar nos camarins até os vips dispersarem, e desejar que aquela noite não tivesse acontecido.

ora eis senão quando vejo uma senhora sorridente a dirigir-se a mim com ar de quem me vai falar... uma pessoa que pessoalmente me desagrada por completo...
e o ponto alto da minha noite foi uma conversa simpatiquíssima, chiquérrima, com a Bobone, a cobrir-me de elogios...

ainda estive para lhe perguntar se queria combinar um cházinho na Suíça...

vazio #3

em resposta aos comentários do post anterior, peço desculpa. mas é complicado escrever coisas animadas quando tudo o que vejo todo o dia é o que vêem na foto... paredes, janelas e computadores. ah, e as minhas florinhas cor-de-laranja, claro!
passo dias inteiros sem ver viv'alma. para quem me conhece, sabem bem como isso me custa.
às vezes apetece pegar nas coisas e sair.
penso que só dariam pela minha falta vários dias depois, se bem que darem pela minha falta me é um bocado indiferente, nesta altura do campeonato.
salva-me o messenger, e a quantidade de gente que pode, como eu, aproveitar-se do computador do trabalho para pôr a conversa em dia... (e fazer transferências de ficheiros, claro, e transmitir informações válidas, e aproveitar esta nova sociedade de informação ao seu máximo para optimizar as relações profissionais... ehem ehem...)

mas descansem, isto passa-me! já me conhecem, é com as luas! pode ser que agora à hora de almoço apanhe outra senhora com o rabo de fora...

terça-feira, 12 de abril de 2005

vazio #2

saio para ir à casa de banho.
regresso ao escritório, e paro. os ombros descaem-me.

nada. nada.
uma sala grande, cheia de móveis, cheia de luz. mas nada.
o dia quente lá fora, promete um sol que só chega cortado pelas cortinas brancas. a carpete azul a arrefecer a sala. um secretária desarrumada, beatas no cinzeiro. folhas, processos, projectos. as outras estão lá, mas não estão.
começam a cansar-me estes dias sozinhos, que passam sem poder tocar-lhes.

ouve ouve

era a mensagem que tinha no meu mail.

outros dias há, que nos trazem novas bandas sonoras...
e fechando os olhos, vou a New York, para um desses bares de jazz, beber vinho tinto, com um vestido preto quase sem costas, apreciar as meias luzes das velas e dançar... (cosmopolita ou demasiado formatado por "Sex and the City"? não me interessa!)

obrigada, A., pela dica. é fabuloso! tens o cd?? quero quero quero!

e martelo as teclas, sozinha no escritório (que novidade)... gingo... e cantarolo...

it's gotta be yes or no...

now or never, Lisa Ekdahl + Peter Nordahl Trio