terça-feira, 3 de maio de 2005

coimbra tem mais encanto...

... na hora das festas académicas...
que é exactamente a altura para que está marcada a nossa digressão lá...
vai ser bonito, vai. estou mesmo a ver a minha colega lavada em lágrimas, de olhos semi-cerrados, mão na testa, aos berros ininteligíveis como é seu costume, frente a uma plateia de comas alcoólicos... isto se houver gente na plateia...
ou uma cena intimista de D. Pedro, a lamuriar-se da perda da sua Inês, a falar baixinho porque a dor lhe tolda a voz, e, ao fundo... uma banda sonora grátis de uma qualquer banda rock-punk lá fora... eheheheh

segunda-feira, 2 de maio de 2005

caixotes

de vez em quando lembro-me da promessa que te fiz. já tu não a ouviste, ou talvez sim. fi-la por mim, também.
veio-me do fundo da alma. veio-me com a vontade de te ter de volta. veio com a vontade de te guardar para mim.
veio com o cheiro a começar a ficar abafado, naquele corredor. não queria que ficasse abafado nunca. queria que cheirasse sempre a comida caseira, a alfazema e a amaciador de roupa.
veio há uns anos. veio à medida que empacotava tudo. tive de ser eu. sobrei eu. sobro eu. de certa forma foi melhor. preferi passar aquelas horas entre panelas e lençóis tristes sozinha, que como no primeiro dia em que a minha mãe ainda tentou fazer qualquer coisa e derretia os caixotes com as lágrimas. foi o dia em que se tornou ateia, acho eu...
de qualquer das formas, lá teve de ser. e sobrava eu. tive de atravessar a estrada onde especialistas ainda encontrariam vestígios de giz, das solas das minhas sandálias coloridas, de pele dos meus joelhos e de mercuriocromo. tive de subir as escadas frescas onde me abrigava do Verão com as amigas e as Barbies. onde dei o meu primeiro beijo ao Carlos dos olhos verdes, que depois foi para França. tive de dar a volta à chave, pensando em quando o fazia às 5 da manhã, depois de tu dizeres à minha mãe - piscando-me o olho enquanto me vias calçar as botas de salto alto - que eu tinha ido dormir às 10 da noite.
o corredor estava escuro, mas quase vislumbrei a tua figurinha pequenina de avental a movimentar-se pela cozinha, ao fundo. era engano, de certeza.
e lá estive de volta da tua cozinha, de onde se vê a "serra" onde íamos apanhar papoilas no dia da espiga... e noutros tantos... sabia que querias que ficasse com o escorredor, do aspira-migalhas e outras geringonças amarelas. olhei para as colheres de pau. trouxe-as comigo em honra das vezes que me ameaçavas com elas se eu não acabasse de comer a sopa. só ameaças... estou-me a rir. "olha que esta é especial, veio de Espanha! esta é mais dura e tudo", gritavas, agintando-a no ar. e eu lá ficava uma, duas horas em frente ao prato da sopa, porque não conseguia mesmo. chegávamos invariavelmente ao consenso do desgaste. eu engolia umas colheradas em sufoco e tu levantavas o prato. o que eu gostava era do bife com esparguete e muito ketchup. ou "kitchaipe", como tu dizias...
depois vieram os senhores da carrinha e levaram os sofás da sala onde eu acordava de madrugada sem saber como, [a fase sonâmbula], a Mafalda ficou com eles. e fiquei sentada no chão a olhar para as marcas de anos do seu peso na alcatifa escura. tantas horas ali a ver os "bonecos". ficou lá a mesa de jantar onde eu fazia as casas de bonecas. essa ficou. onde eu espalhava todas as almofadas da casa para fazer uma "cama de luxo". eram os jantares de quinta-feira, o cozido à portuguesa em que eu fazia bollycaos com o chouriço de sangue e pão. os meus pais ficavam até mais tarde e comíamos todos juntos. depois íamos à janela despedirmo-nos deles, que desciam a praceta a apitar.
era, era.
ainda vi [vi, pois] a tua sombra no quartinho da alegria, onde estava o nintendo. onde eu brincava com a Vanessa [coitada, casou com um taxista e já tem três filhos com nomes lindos como Ana Micaela e Rebeca Sofia...] horas a fio, às modas e aos escritórios. e onde eu dormia a sesta apesar do chato do galo da vizinha de baixo que mais parecia um cuco. onde adormecíamos as duas a ver televisão à noite, depois do chá com torradas. onde devorava as argolas de chocolate que me trazias às escondidas, para a minha mãe não vir com o discurso da "coitadinha da tua irmã não pode comer porque é alérgica, portanto ninguém deve comer para ela não ficar triste". a alergia dela passou. a minha descompensação de doces mantém-se até hoje. só tu me adoçavas a boca.
ali naquele armário do quarto guardavas-me a caixa de bolachas de chocolate. onde eu tinha os cadernos da escola, os meus livros preferidos, as "pinturas", as aguarelas e o giz para desenhar na rua. lembro-me dos lençóis de flanela, apesar de estarem num saco há uns 4 anos. tenho saudades dos lençóis de flanela. de te ver passar no corredor, de te ver espreitar pela frincha da porta a ver se eu estava a dormir. depois entravas pé ante pé e davas-me o beijinho-de-boa-noite-dos-sonhos. porque o outro davas quando me deitavas. deixei escrita uma frase do Mia Couto na minha gaveta. só para ti, que és a única que ainda lá anda e pode lê-la.
deixei ficar em cima da prateleira da casa de banho um dos teus batons em miniatura que eu às escondidas esfregava sofregamente nos lábios, com a minha mania de ser mulherzinha. e tranquei o teu quarto à chave com a bailarina e a caixa de música lá dentro. para eu poder lá voltar de vez em quando e dançar como em menina. fui fechando a porta, deixando aquilo assim. o ar pousar. como agora és mais leve que o ar, os teus passos não perturbarão o pó.
ouço-te a cantar os teus fados. só acontecia quando estávamos sozinhas. e isso é um tesouro. o outro é a memória da tua pele que está na minha.
um dia hei-de cumprir a promessa. e vou comprar a casa onde moraste. e nunca mais vou ter de encaixotar recordações.

meteorologia

hoje de manhã estava sol na minha terrinha. vesti uma camisola cor de rosa com um decote enorme em V.
agora tenho frio nos ombros...

sexta-feira, 29 de abril de 2005

ainda sobre lost in translation...

...descobri por um texto que me deliciou. gosto de quem escreve bem. infelizmente, este blog já terminou. felizmente continua no ar.

"a sala de embarque de um aeroporto é sempre demasiado fria quando se está só. um livro acompanha por um momento, mas a vontade de fugir para o sol lá de fora aumenta. ele aguarda-a no outro lado do mundo. ainda falta muito tempo até ao reencontro. ela relembra pormenorizadamente aquela noite no bar: os copos meio vazios, os joelhos demasiado próximos e as mãos com vontade própria. eles mal se conhecem e ela parte a caminho dele."

por [N], que suspeito quem seja e [se isso se confirmar] cujos textos sigo noutros blogs.

despertar

uma garrafa de anis partiu-se. foi deslizando devagarinho, aproximando-se imperceptivelmente da borda da prateleira onde descansava altiva. dos cacos, no chão, evaporou-se o líquido. ficaram os reflexos de luz espalhados por toda a parte. e o entorpecimento adormeceu.

quarta-feira, 27 de abril de 2005

contra-luz

respira fundo. o peito pequeno sobe e desce com calma. controla o ar até o coração amansar.
o seu corpo levanta-se da cadeira, indiferente ao escuro, ao frio.
está num espaço vazio, anónimo e intemporal. continua de olhos fechados e, na sua cabeça, o ritmo da respiração traz-lhe uma música.
deixa a cabeça deslizar para trás. levemente, avança um passo, depois outro. as ancas balançam. os braços levantam-se, e apanham as notas perdidas no ar. roda. roda. roda. salta e envolve o ar e o ar envolve-a.

[ms]
perde a noção do tempo. perde a noção.
já se descalçou, a camisola descaiu, revelando o ombro nu. os cabelos voam no ar despenteados e suados. não interessa.
abraça essa música que lhe chega sussurrada entre os estalidos da madeira. frenética, perde o controlo. agora não.

há-de acordar. arfante, desorientada. e ouvir os carros a passar.

alone in Kyoto [Air]

uma banda sonora sugerida para um post...
recordar algo que não recordo bem.
recordar uma viagem, duas vidas vazias e um encontro. mudou alguma coisa? isso fica para ponderar. mas acaba com um sorriso, não é?

numa capital cheia de luzes e movimento é estranhamente fácil o reconhecimento de duas solidões. num hotel luxuoso, num bar de meias luzes e glamours falsos. brilho. imagens cheias de brilho. e a tristeza infindável em dois pares de olhos. parecem sem rumo, apesar de trazerem agendas definidas. nem que o sejam por espaços em branco.
quando uma cidade grande se torna tão claustrofóbica e sufocante. e com tantos pontos de atenção que o olhar desfoca e não encontra um ponto certo. um porto de abrigo.
até encontrar. surpreendentemente, encontra-se noutro vazio. noutro desespero disfarçado.
não há histórias paralelas nesta história. encontros ou desencontros. aliás, já não se espera nada. apenas se vive um presente estranhamente familiar. estranhamente coincidente. estranhamente simples. com tanto lugar no mundo, o encontro de dois vazios é no meio do tal outro vazio cheio de brilhos, músicas, lantejoulas e neons.
e então faz-se realmente luz. nos olhos e nas almas. e não é preciso cenários fabulosos. não era preciso o destino exótico e cosmopolita. ou era?
falar de amor ou atracção. falar de destino ou coincidências. falar de viagens luxuosas. falar do que é cosmopolita ou charmoso, ou do fútil. falar de estilos de vida alternativos, do consumo, da imitação, dos ideiais estéticos. falar da loucura ou do desespero. falar do impulso ou do juízo de valores. falar de quando se perde o controlo ou simplesmente se deixa correr. falar de desejo e de intenção.
falar da simplicidade de um roçar de rostos, de uma troca de olhares, da sensualidade de uma pele, do fogo de um passeio à chuva, da embriaguez de uma porta aberta, de um intenso proteger aconchegante na cama, [tão] mais íntimo que o "será" do sexo. da simples simplicidade no meio da confusão. de quando tudo pára sem nada parar à volta.
tudo perdido em traduções. só sabemos que acaba com um sorriso.

para a V.
para Lost in Translation
não sei porquê. apeteceu-me.

terça-feira, 26 de abril de 2005

sex appeal ou uma forma de me deixarem a pensar o dia todo...

- que capa de telemóvel tão gira! é uma fotografia, não é?
- é. sou eu.
- ah. pensei que era a tua namorada...

... levo a mão ao buço, à procura de alterações hormonais galopantes...

sexta-feira, 22 de abril de 2005

untitled

disseca, corta, reinventa sem pesar no ar pesado sem saída.
estéril.
entra, aperta as cores em cinzentos obscuros.
não é nada.
ciclos de esferas entrecortadas sem colar.
atenta. mira. esguelha directa.
não é.
olhar em volta sem ver [querer?], fechar os olhos para ver no escuro. agarrar o cabelo no ar e puxá-lo.
não.

travagem. res...pi...ra...
água. redonda. macio de quente entre algodão e sons que chegam.
submerge, ondula, desenha. cores de sabores.
ligeira embriaguez. luzes e trancas.
noite. lua branca pintada às pintas de azul e amarelo.
dia. braços abertos. sol.
vida. tábuas e cheiro a espíritos. borboletas. pele. pincel.
relógio.

entretanto.
res...pi...ra...

bom fim de semana

merchandising ou narcisismo nouveau

hoje de manhã fui comprar tabaco a uma papelaria. dei de caras com uma cara conhecida na montra.
fui pressionada! foi mais forte que eu!...
pronto, tenho um estojo com a minha outra cara!...

quinta-feira, 21 de abril de 2005

verduras

percorria eu a R. da Escola Politécnica, e deparo-me com três coisas verdes com pernas e bonés.
e questiono:
mas quem raio é que se candidata a funcionário da EMEL???
só podem viver noutro planeta à parte.
ninguém que conheça o drama de quem precisa de trazer o carro para Lisboa (já sem falar dos pobrezinhos que vêm das Amoreiras para o Rato ou de Telheiras para o Rossio e precisam de deixar o BM à porta do escritório porque não cabe no hall de entrada) colabora nestas coisas!
andam o dia todo a pé, a imprimir papelinhos.
fazem o trabalho sujo da polícia mas não podem usar um pau, se se forem agredidos.
rogam-lhes pragas, são ameaçados de sodomia diariamente, têm de andar aos grupinhos por causa das coisas...
... e usam aqueles fatinhos verde-couve, de calças justas, que fazem o rabinho mais amaricado possível...

terça-feira, 19 de abril de 2005

centro

base
origem
atenção
espiral
perspectiva
círculo
encaixe
contexto
intenção
vácuo
ornamento
preenchimento
entendimento
umbigo

questionário

porque foi o meu querido Rantanplan que propôs, eu não me esquivo. cá vão as respostas. não esperem coisas demasiado profundas, que eu sou mesmo simples. ou básica, conforme as opiniões...

:: não podendo sair do contexto de "Fahrenheit 451", que livro gostarias de ser?
lamento, não conheço o contexto. mas respondo na mesma.
qualquer um da Laura Esquível.


:: já alguma vez ficaste apanhadinho(a) por uma personagem de ficcção?
em adolescente, tive uma fixação pela desequilibrada Catherine de “Herdeiros do Ódio” e “Pétalas ao Vento” de... bem, não me lembro da senhora que escreveu (sou péssima para fixar nomes) , mas não era boa da cabeça... li e reli “Apocalipse Nau” e “Hotel Lusitano” do Zink. a Francesca e o Robert de “As pontes de Madison County”.

:: qual o último livro que compraste?
eya... onde é que isso já vai... bem, acho que foi o “Homem que Mordeu o Cão - a irmandade do canídeo” do Markl. não é profundo, mas dá para umas boas gargalhadas...


:: qual o último livro que leste?
reli “As pontes de Madison County”...


:: que livro estás a ler?
“Afrodite” de Isabel Allende. e “Uma Aventura no Caminho do Javali”. uma colecção que comecei aos 8 anos e ainda hoje me oferecem. e eu divirto-me, que eu não sou esquisita.


:: que livros (cinco) levarias para uma ilha deserta?
só 5? não sei se levaria novos, mas “As pontes de Madison County” era certinho, Gabriel Garcia Marquez, Laura Esquível, Pedro Paixão, Allende e Rui Zink. ups, passou dos 5... posso levar um bloco e uma caneta?

:: a quem vais passar este testemunho (três pessoas) e porquê?
er... à Alien (minha querida, minha linda, meu geniozinho, para quando a nossa curta? grrrr), ao Nuno e ao Knuque. porque têm blogs e porque são loucos ao ponto de ainda andarem pelo polegadas... isto é uma máfia eheheh

segunda-feira, 18 de abril de 2005

post-adulthood depression

conheces-me? ainda sou eu? por vezes fazes-me duvidar.
porque não perguntas? porque não queres saber? porque não me olhas e dizes "como te sentes?" "como estás?" "que se passa contigo, aí dentro, filha?"
porque inventas o que não sabes e deitas ao chão o brilho dos olhos que sempre te fixaram de frente, sinceros e firmes?
vejo-te todos os dias, mas pareces-me outra.
tenho medo. tenho medo de que já não estejas lá.
e não percebo porquê.
porque te afastas? porque te pões expectante de atitudes que não adivinho? e de outras que não são minhas, e que tu sabes bem que não são?
porquê esses beijos secos logo de manhã? é tua intenção castigar-me por alguma coisa? se queres que mude, não o consegues. só me afastas. e sinto a tua falta.
porque me olhas assim? tenho medo de te falar. tenho sempre a sensação que não é a altura certa, sabes? e tenho medo que passe tempo demais.
porque não me respeitas como sou? Porque não tens orgulho nos meus passos, na força que sempre admiraste, na luta que abraço, no ar alegre e na mão estendida que sempre me chamaste?
eu sou eu. eu estou aqui. cresci, mas sou eu. já não sorrio tanto, eu sei. mas não mo cobres como se fosse obrigação. sabes que detesto isso, e perco ainda mais a vontade.
queria partilhar contigo novos sorrisos, pequenas coisas, mas agora tenho medo que já não sorrias comigo.
já tenho a vida que querias para mim. segui o meu caminho, não cedi um passo, mas consegui o tal equilíbrio. já não tens de ter medo. agora já não percebo. porque de cada vez que acho que consegui uma vitória, um motivo para te dar orgulho, o teu sorriso não dura mais que um momento. e depois volta a censura. falhei assim tanto?
sei que não estás bem. sei-o do fundo da alma. mas não queres ajuda, não deixas que te estendam a mão. fechas-te em ti mesma rodeada das tuas certezas baseadas em sei lá o quê. e deixas de fora quem somos. nós duas.
mãe e filha.

sexta-feira, 15 de abril de 2005

encantos e ruelas

fui almoçar a casa de uma amiga, um apartamento partilhado por muitos estudantes das mais diversas nacionalidades. no Bairro Alto... a dois passos do meu escritório.
uma casa deliciosa, com vários níveis, e um terracinho... uma delícia de chão de madeira corrido, quartos desarrumados, sofás desengonçados, posters e recortes e uma cozinha enorme, com uma mesa feita de uma porta antiga pintada de laranja.
no caminho desta experiência tão "Residência Espanhola" (sem cenas de lesbianismo, é certo), deparo-me com esta outra delícia.

adoro esta mistura. adoro o Bairro Alto. gostava mesmo de ir para lá morar.

quinta-feira, 14 de abril de 2005

nos entretantos

a minha colega voltou de Hong-Kong...
foi à China, às Filipinas e deu um salto a Macau...
fiquei a sonhar com viagens. nem que fosse ali à Costa da Caparica...
haja escritórios vazios, senhores...

quarta-feira, 13 de abril de 2005

à espera



quando é que chega a calma?

quando é que os ventos mudam?

quando...?

estreia vip

ontem fizemos uma sessão especial desta nossa peça, para uma plateia vip.
em colaboração com a Associação dos Amigos de D. Pedro e D. Inês, convocámos ilustres da nossa praça, que [pasme-se] atenderam ao chamamento. estava lá a comunicação social... principalmente revistas de sociedade, porque reportagens de tv e jornais que é bom, nada...
as Castros retocaram as raízes, chegámos todos mais cedo para fazer tudo com calma.

o técnico de som [se assim se pode chamar àquela espécie rara de amiba] passou a tarde toda a brincar com o sistema de som. as colunas não são boas e ele consegue "bring out the worst" do sistema. estourando paredes e ouvidos, agudos e graves, passámos a tarde a ouvir as belas musiquitas da peça, com as quais já não podemos.
de repente, coisa inesperada, não é?, risca-se o cd! lá vem a amiba, calmamente, da casa de banho, 5 minutos depois, [e nós a ouvir o tóin-óin-óin repetitivo, já antevendo uma Castro remix] e desata a correr para o computador para gravar um novo cd. ficaram por imprimir etiquetas que identificariam as fotos dos actores expostas à entrada... também, não há tinteiro preto há mais de um mês.

há uns tempos uma colega nossa recolheu uma cadela abandonada. foi adoptada pela amiba que opera o som e serve os cafés no bar da entrada. chama-se... Castro... faz chichi na alcatifa da sala de espera, e atravessa o palco quando lhe dá na veneta par vir pedir festas ao elenco. detesta ficar sozinha.
com uma plateia de vips, não convinha a Castro ficar deitadinha num recanto do bar, dava mau aspecto. a amiba da luz resolveu fechá-la na cabine técnica. a meia hora do espectáculo, a cadela, que detesta estar sozinha, uivava desesperada. com a sala de espera cheia de gente... e o encenador, já meio maquilhado, gritava que matassem a gaita da cadela. e a amiba servia cafés e não se mexia...

plateia cheia, tudo pronto, começa o espectáculo...
e que espectáculo!
estou deitadita para a primeira cena, e começa a música. e a luz não acende. a mesa de luz foi ao ar... é que esta amiba [em total oposição à outra, que rebenta com as colunas com desvelo] não testou a mesa, ocupado que estava em facturar. fizemos todo o espectáculo com metade das luzes, intensidade duvidosa...

o senhor encenador, que também entra no espectáculo, resolveu dar o exemplo de todas as aulas que nos dá acerca ética profissional e trabalho de equipa: quando chegou à cena dele, não cumpriu as marcações para não ficar na sombra. e ficou bem no centro do único recorte de luz disponível, fazendo com que o resto do elenco que contracena com ele ficasse na sombra e lá permanecesse [ou isso ou empurrá-lo para fora da luz, o que não seria agradável... é que ele é o Rei...].

eis senão quando, já saídos todos daquela cena, em ficando o senhor para fazer o seu monólogo, a amiba do som [que gosta de novelas] resolveu que a música de fundo estava muito baixa. e subiu o volume, como é seu costume, obrigando o nosso querido Rei a fazer a cena toda aos gritos... deus é grande, dizia-se nos camarins... e a amiba também...

resolvi vingar os meus colegas. na minha cena com el Re, açambarquei a luz toda para mim, obrigando-o a ginasticar-se para... como se diz... partilhar! é isso!

bem, findo o espectáculo, agradecimentos, preparamo-nos para sair... e o senhor encenador resolve ficar no meio do palco e fazer um discurso. ai... o elenco vê-se forçado a voltar ao palco e ficar ali a servir de moldura ao ponto mais baixo da noite. é que o senhor não se contém e adora fazer a cena do desgraçadinho. e aproveitou que tinha lá os senhores influentes e voltou a falar no tema tabu... el subsídio! (leia-se sussídio) e, jeitoso com as palavras como é, disse as coisas de tal maneira que o senhor ministro [ou o assessor, ou lá o que é] saiu zangadíssimo no fim a pensar que lhe tinham armado uma cabala para o envergonhar em público.
além do mais, o nosso queridíssimo director artístico parecia surdo ao comportamento do público, que se revolvia nas cadeiras e bufava de impaciência com o arrastar dos agradecimentos jocosos e da conversa d' el sussídio. tive de lhe fazer uma festinha no braço, e no meu melhor sorriso 33, a deitar chispas pelos olhos, dizer-lhe que teria de terminar.

saímos para socializar porque tinha de ser. a vontade era ficar nos camarins até os vips dispersarem, e desejar que aquela noite não tivesse acontecido.

ora eis senão quando vejo uma senhora sorridente a dirigir-se a mim com ar de quem me vai falar... uma pessoa que pessoalmente me desagrada por completo...
e o ponto alto da minha noite foi uma conversa simpatiquíssima, chiquérrima, com a Bobone, a cobrir-me de elogios...

ainda estive para lhe perguntar se queria combinar um cházinho na Suíça...

vazio #3

em resposta aos comentários do post anterior, peço desculpa. mas é complicado escrever coisas animadas quando tudo o que vejo todo o dia é o que vêem na foto... paredes, janelas e computadores. ah, e as minhas florinhas cor-de-laranja, claro!
passo dias inteiros sem ver viv'alma. para quem me conhece, sabem bem como isso me custa.
às vezes apetece pegar nas coisas e sair.
penso que só dariam pela minha falta vários dias depois, se bem que darem pela minha falta me é um bocado indiferente, nesta altura do campeonato.
salva-me o messenger, e a quantidade de gente que pode, como eu, aproveitar-se do computador do trabalho para pôr a conversa em dia... (e fazer transferências de ficheiros, claro, e transmitir informações válidas, e aproveitar esta nova sociedade de informação ao seu máximo para optimizar as relações profissionais... ehem ehem...)

mas descansem, isto passa-me! já me conhecem, é com as luas! pode ser que agora à hora de almoço apanhe outra senhora com o rabo de fora...

terça-feira, 12 de abril de 2005

vazio #2

saio para ir à casa de banho.
regresso ao escritório, e paro. os ombros descaem-me.

nada. nada.
uma sala grande, cheia de móveis, cheia de luz. mas nada.
o dia quente lá fora, promete um sol que só chega cortado pelas cortinas brancas. a carpete azul a arrefecer a sala. um secretária desarrumada, beatas no cinzeiro. folhas, processos, projectos. as outras estão lá, mas não estão.
começam a cansar-me estes dias sozinhos, que passam sem poder tocar-lhes.

ouve ouve

era a mensagem que tinha no meu mail.

outros dias há, que nos trazem novas bandas sonoras...
e fechando os olhos, vou a New York, para um desses bares de jazz, beber vinho tinto, com um vestido preto quase sem costas, apreciar as meias luzes das velas e dançar... (cosmopolita ou demasiado formatado por "Sex and the City"? não me interessa!)

obrigada, A., pela dica. é fabuloso! tens o cd?? quero quero quero!

e martelo as teclas, sozinha no escritório (que novidade)... gingo... e cantarolo...

it's gotta be yes or no...

now or never, Lisa Ekdahl + Peter Nordahl Trio

segunda-feira, 11 de abril de 2005

así son las cosas

a música é parte integrante da minha vida, todos os dias. não vivo sem os meus cds (mistura eclética rara e nunca vista) e sem rádio. sem as manhãs da antena 3, ou as velhinhas gingonas da marginal. pareço uma louca no meio do trânsito a cantar, a fazer playbacks no meio dos cafés, ou a entrar teatro adentro cantando musicais a plenos pulmões, fazendo as danças e tudo... há malucos para tudo...

e há aqueles dias em que se acorda com uma música, que nos acompanha para o trabalho, nos canta lá das profundezas ao almoço e passa a tarde molenga conosco.
não vale a pena fugir, ou tentar ouvir outras músicas. ligar o rádio no máximo. cantar músicas minimo-repetitivas, pimbalhices, sucessos de infância.
só essas imagens sonoras ecoam cá dentro, brincam com os sentidos e fazem esboçar um sorriso conformado, trazem memórias frescas, cheiros esquecidos, ventos quentes e noites infindáveis, risos ou choros...
há dias que insistem em ter banda sonora...

sexta-feira, 8 de abril de 2005

traseiros

MAS QUEM É QUE FOI A BESTA que se lembrou que era bonito uma mulher andar com o rabo a saltar de fora de calças de cintura descaída, de preferência com uns fios atravessados [vulgo string] ou um triângulozito de tecido [vulgo asa delta] a saír-lhe do referido...? hem???
meus senhores: produções de moda com cabides humanos é uma coisa. mulheres normais são outras.
haja noção de ridículo, de parte a parte.
haja pano, muito panejamento, que uma pessoa já não come uma fatia de cheesecake de frutos silvestres com a mesma vontade, se tiver de estar a olhar para um desses exemplares de calças muito curtas e muito apertadas, pneu saído e ainda mais salientado pela ganga opressora, e o belo do risquinho de tecido de cores fluorescentes a fazer sobressair [e prolongar] a lindíssima reentrância natural que deus lhe deu e que ela resolveu partilhar com os restantes comuns mortais que placidamente tentam deglutir as calorias mornas do seu almocinho!
e não, isto não é um post púdico. é um post em defesa do bom gosto!

vazio

há dias em que se senta, só. parada, amorfa. sem vontade nem contexto. o dia passa sem conseguir contactar o mundo, sem saber bem onde pode fazê-lo nem onde arranjar forças para o conseguir. ouve lá ao longe as vozes e sussurros mansos de algo. não sabe se é dali se é de além.
paraliza porque sim. porque não vai mais que ali. e espera que um desses sons a puxe pelos cabelos. como água a fluir a toda a volta, que lhe retire o peso da cabeça. que lhe desça pela pele, enroscando-a no conforto de um contacto físico, tão sequiosa que está num espaço tão aberto e sem nada.
e depois flutuar. elevar-se, ser levada. numa paz que lhe traga de novo os sentidos adormecidos.

quinta-feira, 7 de abril de 2005

curtas

"está a ligar para a câmara municipal de [alentejo], a sua chamada encontra-se em linha de espera. por favor aguarde"

"- ... e gostava de saber da possibilidade de levarmos este nosso espectáculo aí...
- poij, shabe, ijto aqui é uma terra piquena, shó consheguimoj arranjar-lhe lugari ashim nuns salõejitos de um par de freguejias ou ashim..."

new me


tenho um novo alter ego. chama-se teresa. é pequenina e rabina, e mete-se em sarilhos com as outras duas irmãs.
sempre quis fazer dobragens. e descobri que é tão engraçado como esperava que fosse.

quarta-feira, 6 de abril de 2005

saudade

tenho um amigo que diz que não sente saudades. mas quando me vê, o abraço é tão apertado que me deixa na dúvida.
eu tenho saudades. às vezes basta-me o silêncio turbulento dos carros a passar lá em baixo e a vista das minhas florinhas para me lembrar de onde me sinto bem e desejar poder correr para lá.
tenho saudades de colinho, daquela avó, de quem tanto falo. desta, que faleceu agora (falecer, que expressão tão vazia), não consigo ter saudades. mas tenho saudades de ver o meu pai bem disposto. e a minha mãe sem ar de zombie.
tenho saudades do meu cabelo.

posso ter saudades de um momento ou de um objecto. se calhar nem isso. de um respirar.
de poder respirar com calma.
hoje acordei com saudades. chama-se melancolia? sim, talvez seja isso.
andam todos a correr. vejo e sinto tudo a correr de um lado para o outro. este primeiro andar parece-me tão alto. sinto-me numa redoma de vidro, a querer fazer parte dessa correria.
apetece-me gritar: "esperem por mim!"
ou então acalmem-se. tenho medo de lá chegar a baixo e dar com tudo já ter passado.
tenho saudades de haver tempo e espaço para tudo. para mim.

terça-feira, 5 de abril de 2005

sensibilidade masculina

o mundo das artes é um mundo de sensibilidade, de emoções à flor da pele, dizem. os homens até passam por serem todos bichas só porque são actores, encenadores... artistas, pronto...
mas penso que trabalhar só com homens tem as suas particularidades. sejam eles das artes ou não.
hoje o meu tom de voz tem estado baixo, demasiado calmo. poucas vezes esbocei um sorriso, que é coisa estranha em mim. tenho noção que o meu corpo tem estado meio enrolado sobre si mesmo. suspiro de impaciência impassível (sim, isso existe! eu posso provar), e esfrego os olhos e as têmporas. reparei nestes pormenores ao longo do dia e até eu me estranhei. uma colega que passou por aqui a correr, reparou logo (e meteu logo o bedelho). até porque a minha paciência para as telefonistas não era das maiores.

estes dois patrõezinhos, mesmo que eu chegasse aqui de repente com o cabelo amarelo (eh pá, e cheguei!), não reparavam. passaram o dia a falar dos "há que" cá do sítio, das viagens ao Brasil, das digressões ao Porto, e outros eteceteras.

bem, se calhar repararam. são é mais discretos que as mulheres.

não gosto de dar nas vistas quando estou em baixo (fico até mais discreta que o costume), ter toda a gente de volta de mim só porque sim. "ai a coitadinha"... "tenham peninha de mim, digam-me lá que sou maravilhosa e que gostam muito de mim..." detesto. mas às vezes uma demonstração de presença, um toque e um olhar sincero e amigo davam jeito, caramba!

bem, ao menos já me pagaram...

pequeno-almoço

morreu a minha avó.
tenho a conta a descoberto.
fui eu que atendi os dois telefonemas.
how's that for a bright morning?

segunda-feira, 4 de abril de 2005

flores cor de laranja

neste momento começo a habituar-me à solidão.
com o computador e um maço de cigarros por companhia, e a rádio online ligada quando o modem está bem disposto e deixa que me cantem sem soluços.
ninguém põe os pés no escritório. da minha parte, também a vontade de trabalhar é pouca... só cá estou mesmo porque preciso. muito.
assim devagarinho já lá vai um mês. continuo a habituar-me a uma nova forma de desorganização. as minhas gavetas continuam vazias. à espera de tempo e dinheiro para as preencher.
no entanto, tenho uma nova companhia: um vaso de pequenas flores cor de laranja.
sempre gostei de flores. gosto tanto delas que não queria saber que por esquecimento meu (que eu sou cabeça no ar) acabariam por morrer de sede, sombra ou insolação... por isso nunca tive.
diz-se que primeiro estranha-se e depois entranha-se. até agora, tenho-as regado sempre, subo o cortinado para apanharem luz, desço o cortinado se o sol lhes bate de frente. parecem bem dispostas, todas bem abertas, e com muitos botõezinhos novos.
são de uma cor que agora não prescindo. dá energia e boa disposição, e isso quer-se aos quilos.
e olho em volta, neste espaço grande e renovado, de paredes brancas e mupis pendurados. 3 secretárias vazias e eu. os velhinhos Aerosmith perguntam "how high can you fly with broken wings".
miro as florinhas solitárias ao pé da janela.

o sol resolveu brilhar por um bocadinho. vou ali ao pé delas ver se aqueço. se faço a fotossíntese. se me preenchem de cor-de-laranja.

sexta-feira, 1 de abril de 2005

I just wanna live

só porque me apeteceu sorrir...

[ms]

dia das mentiras

porque há gente com muito talento para escrever, não me digno a postar nenhum texto sobre este dia. prefiro reencaminhar-vos.
miúda, tu és grande...

apagam-se as luzes...

ouve-se uma voz a pedir que se desliguem os telemóveis. blackout. entramos em cena e preparamo-nos. de repente, as luzes acendem ao som de música e começa. estreias é sempre um bocado estranho. há demasiados amigos na plateia. pessoal demasiado descontraído e demasiado desatento. na cabeça passa a vontade de vingança "riam, que depois vão chorar..."
houve enganos e imprevistos. há sempre.
mas contámos a história. de repente ando a dançar pelo palco. daí a pouco estou de espada à cintura a fazer voz grossa e a pedir uma morte ao rei. depois, lançada aos pés dele a pedir que não me mate. notamos que pararam de tossir, de comentar.
depois os aplausos. como há muitos amigos, a generosidade é muita. é o positivo das estreias. e também o negativo, porque não é uma amostra real da reacção do público "normal", ou seja, pagante...
depois tirar o estuque da cara e correr para a entrada. abraçar o pai, a irmã... a minha mãe não veio. ainda não está bem. e fez-me falta. costumo tê-la lá de olhos presos em mim, mãos apertadas. ela queria ser actriz. um dia (mas só nesse dia) assumiu que me admirava a coragem de ter dado o passo decisivo. cada um abdica do que sente necessário.
detesto palmadas nas costas, peço críticas.
de repente o bar está vazio. estou sentada numa cadeira abraçada aos joelhos, com uma cerveja. o grupo vai-se juntando naquele canto, a descomprimir. por mim, a noite está feita. o meu corpo adormeceu há muito. a minha cabeça estala.
mas fomos todos beber um copo, depois de um pão com chouriço.
lá estamos, nas Algemas (nome que demos ao bar "do costume" depois de num Carnaval um colega meu passar a noite toda a gritar pela vocalista da banda de música ao vivo, que estava mascarada de polícia). contámos una aos outros os pormenores escabrosos de bastidores que mais ninguém vê. rimos, rimos, rimos. hoje dói-me a barriga. e estou a cabecear para cima do teclado.
esta noite há mais...

quinta-feira, 31 de março de 2005

falta meia hora

estou ainda no escritório da produção, a tratar de coisas que pedem à última da hora. temos casa cheia. estou ao computador e a minha colega veio cá para cima com o ferro de frisar o cabelo, para me fazer os canudos...
"isto com paciência e cuspo não há nada que não se consiga..."estão para aqui a dizer.
ainda se ouve o escadote.
não há-de ser nada. hoje pisei bosta de cão.

to whom it may concern

conforme prometido, cá vai a publicidade descarada à minha peça.

tudo o que quiserem saber por um clic

segunda-feira, 28 de março de 2005

flores para Inês

à espera dos colegas e de alguns jornalistas à porta do mosteiro, acalma-se os nervos da viagem feita a 150 à hora entre o trânsito furioso dos muitos que foram de fim de semana grande. conversa-se com os colegas e tira-se as dúvidas com o relicário ali exposto: Inês era loira. dão-me para a mão uma geribéria branca, que cada um dos membros da equipa depositará em frente aos túmulos. brinca-se um bocadinho, chegam os jornalistas e fotografam - experiência nova e estranha, no mínimo.
depois entrámos no mosteiro. dou o braço a uma colega e vamos recitando baixinho o poema sobre o amor com que começa a nossa peça.
"quando amor nasceu, nasceu ao mundo vida
claros raios ao sol, luz às estrelas..."
quem está à volta vai-se juntado ao coro de vozes que murmuram essa ode ao amor, até que inesperadamente um arrepio me sobe pelas costas. não sei se pela evocação do poema, se pelo coro uníssono, murmurante, de pela imponência do mosteiro, se pela proximidade dela.
ali estava. Inês. deitada há mais de seis séculos, descansando com o seu rosto de pedra muito branco e redondo.
do outro lado da nave central, Pedro descansa também.
e só então me apercebi. estudei-os de trás para a frente. pormenores históricos e nuances romanceadas. mas eram personagens a criar.
não.
são duas pessoas. que se amaram de uma maneira muito bonita. que foram separadas de uma forma atroz. que sofreram um amor incompreendido. e eu tenho de viver as suas vidas.
perdi as forças, enquanto te olhava, Inês, esquecendo que tinha de sorrir para as câmaras.

a Inês do colo de garça, dos longos cabelos de oiro, da pele branca, da vida cortada por amor.
chorei. como se te tivesse conhecido. como se sofresse na pele as tuas dores. e agradeci-te o facto de teres lutado tanto, amado tanto, que permitisse seres tão digna de sobre ti, sobre vocês, escreverem.
a minha flor, como a das restantes mulheres da equipa, era para D. Pedro. mas sobrou uma, que pedi. olhei para ti, Pedro, e pensei em como somos todos tão pequeninos. foste rei. mas enquanto homem privaram-te do maior bem. ajoelhei-me e depus a tua flor.
depois fugi dos fotógrafos que ficaram de volta dos outros com os seus flashes frios e voltei para o pé de Inês. e lá lhe soprei um beijo, um obrigada, e lhe prometi que a defenderia no palco como não teve quem a defendesse em vida.

e deixei-lhe a minha geribéria branca.
[fotos de ms]

quinta-feira, 24 de março de 2005

é hoje, é hoje

ontem peguei no carro ao fim do dia e fui para Alcobaça. ensaio geral. vamos estrear lá, só depois vimos para Lisboa fazer temporada. cheguei já tarde, com outros colegas que ficaram também em Lisboa a trabalhar.

fui comprar àguas a um café em frente, e conheci a D. Maria Alice. reservou 11 bilhetes e está em pulgas para nos ver no palco. adora "essas coisas do teatro e da representação", até já fez figuração para um filme, e acabou por fazer um papelinho maior... prometido está um pequeno-almoço naquele cafézinho na manhã de 6ª para saber das críticas.

depois começou o ensaio.
não podia correr pior. o palco é metade do nosso e os nossos técnicos são dois patós preguiçosos que não atinam com nada. temos muitas mudanças de roupa, mas ali têm que ser feitas no corredor porque os camarins são no -2 (sim, tem de se ir de elevador, aquilo é um luxo... mas não dá jeitinho nenhum...).
saímos do cine-teatro à uma da manhã e fomos jantar, porque a organização oferece. fizemos um brinde à paciência dos técnicos do cine-teatro e um mais privado, ao refugo. ou seja àqueles cujo trabalho não é reconhecido nem à lei da bala, mas que são quem está lá a 100%, abdicando de descansos e copos, para por as coisas a andar.
barriga cheia e conversa posta em dia, voltei para Lisboa porque não deu para faltar ao trabalho. os outros lá ficaram, pedindo para avisar quando chegasse e que fizesse boa viagem.
hoje volto para lá. levo a minha mala de maquilhagem. vamos levar flores aos túmulos de D. Pedro e D. Inês de Castro, em homenagem a esse amor tão triste, que estudámos e conhecemos de trás para a frente, que inspirou autores e dá dores de cabeça aos actores, mas seduz e maravilha. Sim, vou fazer "A Castro".
vamos voltar ao cine-teatro, e fazer uns corridos técnicos para ver se atinam com as entradas de luz e som. depois, comer qualquer coisa e entrar no camarim. felizmente é enorme e decidimos ficar todos juntos. as luzes dos espelhos são fortes, mas nestas alturas, todo o calor humano faz falta. estamos fora de "casa", e temos lotação esgotada. organizar tudo, começar maquilhagem e cabelos, aquecer a voz e tentar dissipar os nervos com cigarros e piadolas. depois as luzes vão acender. e lá estamos, sem rede.

empty

ontem mudámos de instalações. o mesmo bloco de escitórios, uma sala diferente. na outra cabiam duas secretárias apertadas. aqui, temos espaço para quatro com um recanto para pôr um cadeirão, mais uma salinha de reuniões onde está tambéma a máquina de café, e um quartinho de arrumos onde estão todas as tralhas de peças antigas. é um espaço muito maior, com duas janelas enormes, e por isso, cheio de luz.
agora a minha secretária é só minha. depois de contas feitas, ocupada com teclado, rato, scanner, monitor, colunas impressora, calculadora e outras coisas "institucionais", apercebo-me que, excepção feita a um bloco que trouxe para apontamentos, não tenho nada meu por aqui.
as minhas gavetas estão vazias...

quarta-feira, 23 de março de 2005

dispersos

sento-me ofegante e ligo o computador. apago o cigarro que percorreu uma parte da rua e subiu a escada comigo. és asmática, estúpida, está humidade e fazes esforços físicos de cigarro na mão. estás a pedi-las.
vejo as mensagens, correio, pego no arquivador e tento escolher por onde começar. olho para o maço de tabaco outra vez. saí de casa a correr, não pude comprar tabaco. basicamente levantei-me, vesti-me, lavei a cara e os dentes, fiz duas tranças e agarrei num maço de mata-ratos que os meus pais fumam. também pela pressa, não trouxe o habitual pão de deus que como de manhã. um pacote de bolachas maria perdido na minha companheira, a mochila cor-de-rosa, vai ter de servir.
quando levo a primeira à boca, que me lembra sempre a única forma que a minha avó tinha de me fazer comer iogurtes, penso no itinerário de hoje. o mesmo. mas lembro-me das fotos que fui "tirando" com os olhos, porque a memória do telemóvel está cheia. aquela mercearia antiga que tinha à porta caxites de morangos ao lado de flores coloridas para vender. e das pastelarias. passei por várias. umas cromadas, umas com azulejos antigos, outras com forno de pão, outras pindéricas e douradas, outras ainda mais modernas com cores vivas e ácidas. aquele cheiro quente a doce que sai de todas e cada uma. as pessoas ao balcão, mas acima de tudo as pessoas sentadas com o jornal, o bolo e o café.
prometo a mim mesma: hoje vou-me sentar numa pastelaria a fazer lounging um bocadinho.

terça-feira, 22 de março de 2005

paragem

já vai sendo costume: de cada vez que tenho uma peça em cena, há um problema grave de saúde pelas bandas familiares. normalmente, tenho de andar entre teatro e hospitais e a correr para casa para o meu avô não ficar sozinho.
deta vez é a minha mãe. uma operação simples, segundo dizem, com um pós-operatório complicado. ela pediu para lhe darem anestesia geral porque tinha medo de se mexer quando lhe espetassem a agulha na coluna para a epidural... são escolhas.
por esta hora, amanhã, fará uma pausa no tempo. estará a dormir, num sono escuro e muito profundo. do qual quero que acorde bem. claro que já me fez a conversa do "se alguma coisa correr mal..." mas eu nem quis ouvir. agora não. mais não. vamos tentar afastar os espíritos feios e chamar a minha avózinha para lhe velar o sono e meter uma cunha com o "senhor lá de cima" para que ela fique bem...
claro que tenho medo. muito medo. mas isso não se pode passar a quem precisa de apoio, não é...? prefiro passar por durona. por tupperware, como lhe chamo...
o facto de estar a tremer enquanto escrevo este post é só para mim.

be carefull with what you wish for...

sigo rua fora, hoje já não chove, mas sente-se a humidade no ar. o vento está fresco. de repente, uma rajada mais forte atira-me contra a cara um molho de cabelos enormes loiros, ondulados.
mas que raio...?
ah, pois... confirmo no reflexo da montra mais próxima. cá está, o meu novo cabelo de "pequena sereia"...
foi uma transformação brutal. devo confessar que na fase em que tinha só o meu cabelo pintado de amarelo me custou muito, mas agora, com as extensões recém colocadas, já dá gosto...
o problema grave é que, se já saía de casa sempre um quarto de hora atrasada (e nãoi vale a pena por o despertador para mais cedo) agora, com todos os cuidados que tenho de ter, mais o secar este cabelo todo, demoro outra meia hora...

ontem fui buscar os postais da minha peça. a rapariga que me recebeu, que já conhecia pelo telefone, disse-me que me imaginava mais velha... baixo-me para apanhar o caixote pesado, e quando me viro para lhe agradecer mais uma vez, ela está a olhar para mim com uma cara muito estranha. penso "bem, se calhar tenho a cara suja... ou um letreiro na testa a dizer 'loira pintada'..." mas não. a rapariga sai-se com esta, com o ar mais embevecido do mundo, boca aberta, o pacote todo:
- Ai... a menina é tão bonita...

boa... agora que isto não sou eu, é que sou bonita...

sexta-feira, 18 de março de 2005

quando a igorância ajuda à intolerância

ontem corri para apanhar o 39. no entanto, ao entrar e passar o passe na maquineta, ouço as vozes de algumas mulheres completamente alteradas, a gritar com o motorista, que era uma vergonha, tinham estado mais de uma hora à espera da "carreira".
compreende-se as senhoras, até um certo ponto. estiveram a acumular irritação durante uma hora, a torrar ao sol dos Restauradores.
o motorista, nem particularmente simpático nem particularmente antipático, explica que não sabia, que a Carris não tinha registado nenhuma queixa.
aí, as "senhoras" passaram-se. à medida que iam avançando pelo corredor (vieram sentar-se perto de mim, para os lados da porta traseira) iam falando cada vez mais alto, dizendo que o que ele "merecia era uma pancada nos cornos" (normal, pelo aspecto que tinham acredito piamente que pudessem convocar um bairro inteiro para o arraial), que lhe deviam era tirar o ordenado, que merecia que lhe entrasse um grupo de ciganos e lhe partisse o autocarro todo "e a tromba também, o cabrão", e outras carícias que tais.
e continuaram, estrada fora, a falar em voz alta, a chamar nomes ao homem, que a cada paragem ouvia as queixas de outros passageiros, e no mesmo tom neutro respondia sempre a tal ladainha. as ameaças tornaram-se mais quentes, outros passageiros iam-se juntando ao coro feminino, protegidas pela distância que as separava do motorista, preso à sua função de serviço público, que fazia por ignorar. e assim devem ter continuado, porque saí antes das tais senhoras.

as pessoas às vezes são muito estúpidas. à má formação junta-se a ignorância. não sabem e não querem saber, porque é mais confortável, assim têm legitimidade. só vêem o que lhes apetece. e despejam numa pessoa que não tem culpa, que desempenha a sua função e foi apanhada no meio, toda a culpa do mundo, insultando, humilhando, agredindo, aproveitando que ele não pode responder por decoro e decência, para espicaçar mais, porque há que despejar as frustrações, não é?
e, por muita razão que tenham, perdem-na.

ecg holter

esta tarde vão colar-me uns eléctrodos no peito, que estarão ligados a uma maquininha, que andará comigo durante 24 horas, a medir-me as pulsações e saltos do peito, para depois dizer aos médicos se afinal ele anda ou não descoordenado do mundo e das batidas do relógio.
vai escutar-me o coração... para descobrir o meu mal, penso que deveriam ir mais fundo que os compassos. a tecnologia ainda não pode monitorizar a alma...

sol

dei-me conta que não tinha tabaco. passei a manhã toda sozinha e ainda faltava uma hora para sair do trabalho. não estava ninguém no escritório a quem cravar um cigarrinho. sentindo-me culpada por deixar o escritório vazio, peguei nas chaves e saí a correr. desci as escadas escuras e tão frias à pressa, com o único intuito de atravessar a estrada, entrar no café, meter três moedas na máquina e recolher o precioso pacotinho vermelho.
abro a porta da rua.
de repente, levo em cheio com uma luz intensa na cara, o vento quente beija-me a pele e todo o frio que senti toda a manhã começou a desaparecer, substituído por um torpor agradável e morno que se entranhava na pele e me penetrava até ao fundo da alma, abraçando-me com uns braços invisíveis, feitos de raios amarelos.
dei por mim parada no meio da rua de olhos fechados, braços abertos, corpo virado para a luz e meio sorriso no rosto.

quinta-feira, 17 de março de 2005

sinceridade

chamaram-me uma vez valquíria dos pés de barro...
obrigada

yellow

agora que tenho o cabelo amarelo, só me apetece pintar a cara de preto...

quarta-feira, 16 de março de 2005

music box

quando o calendário ainda era um cartão engraçado de números pequeninos, e a vida eram pulos entre desenhos de giz no asfalto da praceta, ia pelo corredor escuro até ao quarto de móveis antigos ver dançar a bailarina.
e naquela música pausada de xilofone a que dava corda, abria a tampa do pequeno teatro em que o público eram os anéis da avó.
no espelho dois olhos muito abertos, amendoados, brilhavam tanto como os pechisbeques e pequenas jóias desarrumadas, ao ver dançar aquela figurinha cor-de-rosa, imaginando os tules e tutus que não conhecia, passando depois a imitar a pequena boneca de braços rechonchudos no ar.
ainda lá está, na cómoda escura de um quarto fechado à chave para sempre, a caixa preta que contém os seus primeiros passos de dança.

bad hair day

peço desde já desculpa aos inúmeros fiéis seguidores da Palavra deste Blog pela insistência, mas a porcaria do meu cabelo está mesmo na ordem do dia.
ontem cheguei ao cabeleireiro, daqueles finos, bichésimas... ia por-me loira, a mim e à minha colega.
enquanto esperamos que ele se digne a prestar-nos alguma atenção, eu ia olhando-me no espelho e só me vinha à cabeça essa bela melodia de Demis Roussos "Goodbye my love goodbye...", em doce despedida à minha melena quase preta.
acontece que quando o dito artista capilar olha para nós, apercebe-se (finalmente e apesar das fichas que lhe enviei com fotos do elenco e desenhos dos penteados que precisamos) do quão morenas somos, e achou por bem alterar a ordem de trabalhos: vá, vão lá comprar o cabelo que vos vou coser (sim, coser) à cabeça, para depois vos descolorar (sim, descolorar) o vosso cabelo em consonância...
e manda-nos para a Damaia de Baixo (essa bela localidade). estando apeada, porque o carro está fora de Lisboa como convém a quem tem de entrar na urbe à hora de ponta, rachámos o táxi. já a fumegar - o que torna o nosso cabelo ainda mais carvão - lá chegamos e falamos com as raparigas da loja. ele tinha-nos mostrado uma madeixa daquele cabelo que queria, asseverando que tinha comprado no próprio dia na tal loja. pois que não, não foi ali. ele comprou, sim, cabelo, mas tons escuros. loiros não temos nada.
ponho o meu "assistente", que estava na base de operações (vulgo teatro) a tratar do assunto, que eu não tenho dinheiro no telemóvel para andar a ligar para cabeleireiros.
estivemos à espera de confirmação uma hora. durante a qual experimentámos postiços e afins, para gáudio das empregadas da loja, que se divertiam com a nossa cara desolada ao dizer que íamos ficar loiras e que queríamos ter um prognóstico da coisa, e tirámos um curso avançado de cabelos, perucas, postiços, tissagens, cabelo humano vs cabelo natural, apliques, sprays de brilho e outro que tais.
uma hora depois, confirma-se: afinal sempre era no Martim Moniz que havia a tal loja do cabelo, ele tinha-se enganado porque tinha ido a várias nessa manhã.
salvaram-nos do desespero as tais raparigas, que, fechando os olhos a concorrências, nos disseram que era provável que houvesse uma loja da mesma rede no metro do Colombo, a 3€ de táxi de distância.
lá chegámos. a minha colega levava meias de liga (grrau!), que por algum defeito de fabrico lhe caíam pernas abaixo a cada dois passos...
na loja: loiro platinado ou mel? hmmm... tough choice! a minha colega benze-se, porque já se estava a ver de cabeça albina, e assim podemos alegar que era o que havia...
com ela agarrada à liga, lá apanhamos o metro. depois, (esse foi o ponto alto do dia) fi-la correr para apanhar o 39, que ia a sair da paragem.
chegámos ao teatro ainda morenas, cansadíssimas, ela com uma meia pendurada na perna, com belos cabelos humanos cor de mel em bolsinhas de plástico.
um dia estranho, to say the least....

terça-feira, 15 de março de 2005

ai

vou ali pintar o cabelo de amarelo e já volto.

segunda-feira, 14 de março de 2005

e agora para um pouco de luz


[ms]

save as draft

so it shall be written, so it shall be done...

maroon 5

... look for the girl with the broken smile...

discoteca

entre fumos de música alta, que se dança sem querer-se entender o ondular do corpo, a linha dos ombros e do pescoço, ou onde flutua o cabelo.
sentir só os ritmos bem lá no fundo e deixar a massa de gente levar-me onde quiser.
e não pensar, só abandonar os pensamentos às palavras de outros que encaixam tão bem.
porque a cada música, uma nova letra, um novo estado de espírito que se vive, não se nega. que se canta alto porque ali ninguém ouve.
atirar a cabeça para trás e perder noção do tempo, dos mundos, das cores, dos brilhos a toda a volta. que envolvem e absorvem, mas que permitem o alheamento.
parar para uma cerveja e para um cigarro.
e voltar à inconsciência dormente em que só o corpo fala, e a mente já foi há muito silenciada pelas batidas.
e é ali, na distorção de imagens e sons, no enrolar o cabelo ao alto porque corre suor do pescoço, que desliza para o peito, nos gestos delicados e expansivos, no ondular de uma anca, num meio sorriso, que o corpo ganha liberdade para ser totalmente feminino. e, quem sabe, até bonito. até à exaustão.

sexta-feira, 11 de março de 2005

gestos


no teatro queixava-me que, no escritório, me faltava a luz do sol. tantas horas entre paredes frias, de pedra, com uma luz de cozinha... disse que gostava de ter nem que fosse uma velinha para aquecer o ambiente.
hoje tive uma surpresa...

telhados

aqui está a minha nova janela... ao som de Da Weasel...

nokia by thumbelina

quarta-feira, 9 de março de 2005

ensaios

vai-se chegando.
muitos depois de dias inteiros de trabalho.
cansados, olheirentos.
pede-se ajuda aos colegas para afinar o texto.
ajuda-se a mandar os faxes que faltam, atendem-se telefones, tiram-se bicas para quem cá está há muito tempo.
dá-se uma mão na serralharia para acabar aquele pedaço de cenário.
passa-se roupa a ferro, cose-se botões, enquanto a estagiária de moda nos faz ficar bonitos, com desenhos, trapos, cores e luz.
experimenta-se os fatos, com as calças vestidas porque está frio.



depois aquece-se o corpo dançando, rindo, comendo qualquer coisa enquanto o encenador, que chegou invariavelmente atrasado, bebe o seu café na entrada.

quando ele se decide, vamos lá ensaiar.



quem vem ver, vê, só naquele dia, o trabalho final.
não sabe o que está por detrás dos fatos compostos, das caras pintadas, dos cabelos arranjados, dos gestos trabalhados, das vozes emocionadas.
estão horas, dias, meses. corpos e almas. muito choro, muita frustração, muitos gritos e discussões. muito sono perdido, muita sensação de falhanço. é uma história cheia de gente.
[fotos de ms]

no tempo das papoilas

que linda falua
que lá vem, lá vem
é uma falua
que vem de Belém

vou pedir ao senhor barqueiro
que me deixe passar
tenho filhos pequeninos
não os posso sustentar

passará, passará
mas algum ficará
se não for a mãe da frente
é o filho lá de trás

dia da gaja

no dia da gaja, que decorreu ontem, algo estranho aconteceu por estas bandas.
de repente, estavam as raparigas a serrar madeira e os rapazes a passar a ferro e a coser...

don't ask...

dumb blonde

há que visualizar:
uma paixão que perdura até hoje, vinda de séculos antigos. um príncipe e uma quase princesa.
e como são as princesas? lindas, magras, compridas, de dedos finos e elegantes, cinturas finas ainda mais elegantes, olhos enormes, de preferência azuis, cabelos longos, ondulados, esvoaçantes, brilhantes... e loiros.

raios as partam, às loiras.

e porque é que no texto fazem tanta menção ao estupor dos cabelos loiros??? "esses teus cabelos d'ouro"... e não se pode alterar texto, que o Toni rebolava na tumba...

eu e a minha colega vamos partilhar o papel de protagonista. (bem, quer dizer, na prática, faço uma cena, ela três).
ambas somos baixinhas e muito morenas. eu sou mais estreita e tábua de engomar. ela é voluptuosa e tem um belo par de... amigas.

são maravilhosas as metamorfoses do teatro, mas há limites... é que uma pessoa tem vida própria e vai ter de andar na rua!...ora visualizemos a transformação... cabeça amarela, de pele baça e morena... lindo. só me faltam as argolas e falar pelo nariz... usar pestanas falsas, maquilhagem em excesso de cores que não combinam, ter pêlo no peito, maçã de adão e chamar-me "Marilu, a fabulosa"

quando era miúda, queria ter caracóis loiros e olhos azuis. saiu-me o cabelo liso, quase preto, e os olhos "maltesers". em miúda ainda andava com papelotes que a minha mãe (cheia de paciência) me punha. mais umas bodegas de uns líquidos para aclarar o cabelo. e conseguiram o que queriam: cheguei à conclusão óbvia. não é uma questão de poder, é uma questão de ridículo.

agora morde a língua e prepara-te, menina, que se já gostavas tanto de ir ao cabeleireiro como ao ginecologista, na próxima segunda feira vais bater recordes!

caixa

numa caixa vazia depositam-se os resquícios de emoções, sensações, pudores e encaixes.
não se sente, por vezes, o fundo. não se sente, por vezes, o topo.
e no fascínio da levitação, perde-se a noção do vazio.
para depois se encontrar um silêncio demasiado pesado.
para se ludibriar com música.
para se ficar inerte em frente à janela, a ver o mundo passar, sem certeza alguma de se ali se pertence.
mas ao menos o sol aquece um pouco.

terça-feira, 8 de março de 2005

ruas

novos percursos, com este novo trabalho, pelas ruas luminosas de Lisboa. hoje não está tanto frio, sabe bem o vento fresco na cara. vou pela rua sempre a direito, passo o jardim, e deixo-me vaguear entre o mar de casinhas baixas tão típicas e pitorescas. tão lisboetas. as caras ensonadas, fechadas do frio, parecem ter outra vida. compro um bolo e como-o no banco de jardim, ao sol.

gosto mesmo desta zona. era um sonho meu ter uma casinha por aqui. Bairro Alto, Bica, Alfama... já sei, sou demasiado exigente... e ainda por cima é difícil estacionar. mas gosto disto. até dispensava o carro...

gosto da sensação de bairro, acima de tudo. gosto de se adivinhar o rio a cada esquina, em cada ponto de luz. gosto que o sol entre pelas janelas a rodos, sem pedir licença. gosto de haver uma pastelaria onde as velhinhas vão comer a torradinha, gosto dos quiosques e das mercearias. dos prédios baixos e coloridos, da roupa branca ao sol, das conversas de janela a janela, das ruas empedradas. não sei se gostaria de viver num sítio onde as caras são tão cinzentas como os prédios impessoais onde vivem tantos que não se conhecem nem querem saber.

um destes dias fui jantar com uma amiga que mora num 5º andar minúsculo sem elevador em Alfama. uma delícia. o bairro a estender-se colina abaixo, preguiçoso, a ir beber ao rio lá ao fundo. a torre da igreja, de sinos a cantarem as horas. a lua muito redonda em dias limpos, de céu pontilhado e brilhante. logo ali, quase que se pode estender a mão e tocar-lhe. olhar para baixo e ver as ruelas de candeeiros acesos. não me demoveu o facto de terem tido de fazer entrar o sofá pela janela...

é pôr na lista... sonhar ainda não paga imposto!

segunda-feira, 7 de março de 2005

ar de produção

já estou no novo escritório. já tenho a nova janela. com vista para os telhados do Bairro Alto. não posso dizer que estou mal situada, não senhor...
já me deram as guidelines, agora é ver se me safo...
dinheiro fixo todos os meses. é nisso que tenho de pensar.
deixo de ter tempo para estar a 100% nas minhas peças, nos meus projectos.
mas dou vida a projectos de outros, e, quem sabe, daqui a uns meses, talvez me convidem para passar para a frente dos panos.
por enquanto é um dia de cada vez, cabecinha baixa para não sonhar demais...

quarta-feira, 2 de março de 2005

palco


nokia by thumbelina
vai-se construindo esse mundo. aos poucos.
vão-se descobrindo as emoções, os gestos, os passos. devagar.
com medo de não conseguir.
mas as peças vão-se encaixando, calmamente. tomam o seu tempo e há que respeitá-lo.

aqui nascem as histórias, as personagens, o desgaste e a adrenalina.
por enquanto, está um palco vazio. com alguns adereços espalhados no chão escuro.

nokia by thumbelina

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2005

banho

daqueles que não tomo há muitos meses.
com velas, cheiros doces e frutados, espuma e muito tempo.
desligar as luzes da casa de banho enquanto a água corre, quase a ferver, pelo chuveiro, para bater com força no gel cor-de-rosa e fazê-lo multiplicar-se em nuvens perfumadas.
acender meia dúzia de velas gordas, ligar o rádio na Marginal porque apetece jazz e músicas antigas que já ninguém ouve.
deixar a roupa cair pelo chão, muda, cúmplice do silêncio.
entrar no banho quente e sentir os músculos a perderem a batalha, a pele a passar do arrepio ao descanso, o cabelo a flutuar, bailarino lento, e, enfim, o silêncio da água meiga, que acaricia a pele com um toque tão suave que quase não se sente. que protege o corpo do frio, tão envolvido e tão exposto à transparência da àgua.
ficar assim. só ficar.
sem ventos nem manhãs arrogantes e cortantes. sem pressas nem dores nas costas. sem cansaço, sem cansaço...
suspirar. deixar os dedos passear, ali mesmo onde se sente o risco da água.
ver a pele liquidamente dourada das velas, a absorver os aromas do sabão. e apreciar o tom morno do nevoeiro.
o raspar do isqueiro, as folhas de tabaco do cigarro a crepitarem baixinho e lentamente. o fumo a misturar-se com o vapor que sobe da mão.
só as gotas que caem ritmadas da torneira estão autorizadas a quebrar o silêncio da melodia.

technical visit

acordar cedo, enregelar até ao carro, apanhar a carrinha alugada e virar táxi de turcos.
seguir para Setúbal, contra relógio, sem um cigarro para amenizar a paisagem porque um deles está constipado e resolvo não fumar no carro.
ser trespassada por ventos que cortam, aleijam e fazem o cabelo emaranhar-se e chicotear-me a cara.
descobrir as maravilhas da electricidade...
.
nokia by mesüt-o-turco
procurar um sítio onde se venda um abeto para o outro turco.
voltar ao trânsito, deixá-los nas compras e voar para o teatro.
e ter medo que a cabeça me caia com o peso do sono que me entorpece os olhos e o andar, e só não me neutraliza porque o frio já me paralizou há muito tempo.

do you feel lucky, punk? do ya?...

serei a única pessoa neste mundo a embirrar seriamente com o Clint Eastwood?
vou ter de ver o Million Dollar Baby, para tentar perceber... o homem para mim, continua o mesmo canastrão.
e quanto a realizador, tanta genialidade no Mystic River para na cena mais intensa e fantástica, só se poder adivinhar as expressões dos actores, porque tinham a cara completamente às escuras...
sem falar no completo suicídio que foi protagonizar uma das histórias mais bonitas de sempre, as Pontes de Madison County... essa é que eu não lhe perdoo mesmo...
mas pronto, lá a Academia é que sabe.

este ano, não gostei: de todas andarem vestidas com vestido de cauda-sereia, de não ter sido nomeado o Farenheit 9:11, de não ter sido nomeado para melhor filme o Eternal Sunshine of the Spotless Mind (justo prémio de melhor argumento), de teimarem em não reconhecer as capacidades do Jim Carrey quando não faz caretas, nem o do Johnny Depp por... tudo!, de o Shrek 2 não ser o melhor filme de animação do ano, de alguns desgraçados terem de ficar com cara de cu EM CIMA do palco, de outros desgraçados nem sequer poderem agradecer no palco, de as músicas não serem cantadas no seu original, mas todas pela Beyoncé (grande voz, mas à segunda música já enjoava), do pseudo-protagonismo da Hillary Swank, da atitude política da produção em insistir a torto e a direito em provar que "nós não somos racistas"... faltou-lhes naturalidade no gesto...

mas chorei na mesma... o Foxx e a sua avózinha bateram cá bem fundo... sou uma lamechona é o que é.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2005

mudanças

em breve haverá uma mudança. daqui a uma semana acaba o trabalho. e desta vez não vou voltar, pelo menos tão cedo. um novo escritório, uma nova janela.

aqui vou deixar os horários disconexos, os stresses, o aeroporto, a desorganização, os telefonemas à última hora, as filas para arranjar 30 passes de uma vez, as disfunções, as outras filas todas, os enjoos no metro, os passeios errantes que me obrigaram a um bacharelato em estudos das plantas de transportes públicos, das ruas de Lisboa e arredores, a conhecer o maporama, o multimap e o site da carris, dos tst e outros que tais. deixo o trabalho de secretária, os relatórios e pesquisas em inglês, a calçada íngreme que subo com dores e a arfar.


nokia by thumbelina

mas também deixo sorrisos, discussões, as manhãs só minhas, conversas idiotas sobre sexo e substâncias ilícitas (ou não), o "sindicato", a patroinha e a dótôra, almoçaradas cheias de gordura, os bolos de manteiga do senhor Abílio, os encontros no café para o pequeno almoço, os passeios de barco, os episódios do metro, o bairro típico, o homem que assobia fado à esquina, o grito de guerra dos miúdos às 2 da tarde, o convívio com gente diferente em quem entram raízes minhas, e de quem recebo as suas.

plutão está a atravessar o meu signo. lentamente, dizem que ainda demora uns anos. plutão significa morte: destruição e renascimento. mudança radical. como todas, implica adaptação. uma fase de dor e ressaca, para depois entrar na rotina, para quem sabe depois voltar à mudança.


nokia by thumbelina

logo se vê. aqui fica a minha janela sobre a calçada.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2005

eleições várias

o ps ganhou. boa, tudo menos o psd... pena é ser maioria absoluta, mas também compreendo que sem ela é mais difícil levar uma política (seja ela qual for) para a frente.
o portinhas demitiu-se. buhuhu, que peninha que tenho.
o jerónimo parou a queda. shim shenhorez, tenho é pena que já não se ouça falar do "pê chê pê", agora a dicção é muito correcta...
o bloco subiu em flecha. boa, votar serviu para alguma coisa. continuem a estrebuchar que vocês vão longe.

agora vêm outras eleições.

desde miúda que acompanho, e choro (sim, baba e ranho) com os vencedores, naquele pódium. é foleiro? é fútil? não tá in? não é freak? tá bem.
eu gosto dos óscares. todos os anos vejo quase todos os filmes, tendo em conta as nomeações de melhor filme, melhor actor e actriz (obviamente) e melhor argumento.
depois gosto de juntar-me com outros fanáticos desta celebração, noite dentro, com canecas de café e goluseimas várias, a assistir ao evento.
os meus apresentadores preferidos são o Billy Crystal e a Whoopi.
este ano só vi o finding neverland (grande filme, sim senhor, grande Johnny) e o eternal sunshine of the spotless mind (uma maravilha absoluta). não vou poder comentar ou torcer com justa causa...
se calhar tenho ensaio e nem sequer vejo o directo...
vamos lá ver, vamos lá ver...