terça-feira, 31 de maio de 2005

shakespeare

se os seus olhos estivessem no céu
lançariam pelas regiões etéreas raios
de tal forma que os pássaros,
esquecendo que era noite,
cantariam

R+J

perdoem-me, mas ando a levar com isto todos os dias e nunca deixa de me emocionar...

na passadeira

à espera que me deixem atravessar. passa um carro (ailerons, rebaixado, cd a balançar do retrovisor, e os etceteras todos), não me deixa atravessar. mas abranda em cima da passadeira e abre-se o vidro.
- ganda naaaaco!
- e se deixasses o naco passar ó esfomeado!
did I just say that...?

segunda-feira, 30 de maio de 2005

sei que soa uma tempestade algures. caem relâmpagos frios, soam trovões e o vento uiva daquela forma que sempre me arrepiou.
a força das águas verga as árvores. a água ensurdece.
fico. não procuro abrigo. à espera que caia de uma vez. que desabe no meu corpo pequeno. sou pequena. sou. ínfima. já nem estou.

estranhas formas de comum.

dever

quando a força é encontrar forças para se permanecer invisível.

domingo, 29 de maio de 2005

pequeno

sopra o fumo do cigarro.
não está aí ninguém?
não.
a madeira estala.
as sombras.
são nuvens alaranjadas.
não, são bichos.
quem?
estão a dormir. deixa-os sossegados. vai para a cama.
e se me apanham no caminho?
tens medo?
tenho.
está a uivar, é um lobo.
não, é o vento.
agora tocou-me. sentiste?
cala-te.
dói muito?
sim. mas cala-te. vai dormir.

choro

há dias em que as palavras não.

sexta-feira, 27 de maio de 2005

moinho

hoje está chuviscante. fresco, acinzentado.
mas o ar da manhã trazia o aroma da terra agradecida, das giestas e de flores selvagens, mesmo ali ao pé do eixo norte-sul.
trouxe-me as férias de infância num moinho no topo de um monte. dias de joelhos esfolados e escorregas de areia.

quarta-feira, 25 de maio de 2005

fragmentos


[ms]

"à minha frente vai um homem de duas cabeças. por uma delas, atravessam árvores, edificios, luzes"
ou algo assim, de Para averiguar do seu grau de pureza de Jacinto Lucas Pires

sugerido por um novo amigo

si...

no quiero estar
si
me quema el aire
no quiero andar así
si
la gente se hace nadie
si
no se
que diablos hago
si
que dios no va a entender
porque
no quiero andar asi
si
me sobra el aire

segunda-feira, 23 de maio de 2005

coisas simples

gosto...

[ms]
de escrever cartas, em papel, num bloco, numa folha, num guardanapo de mesa. deixar no papel os meus traços, a minha respiração, os cheiros. e receber em casa um envelope manuscrito, com selo, com carimbos [de lugares distantes que se calhar não vou visitar] que traz o vento do caminho nas fibras. abri-lo e receber o aroma do quarto, do jardim, da mesa de plástico onde foi escrita. e ver as letras, imaginar uma mão, uma expressão em cada palavra, em cada curva de caneta. a cor, a textura. tudo é um elo físico.

e gosto...

[ms]
de lençóis brancos. que convidam ao descanso num qualquer quarto anónimo em que o sol entra por frestas dos cortinados corridos. gosto de hotéis pelo facto de os lençóis, muitas vezes, estarem gastos, amaciados pelo uso. não dispenso o meu edredon de cores vivas, mas o lençóis brancos têm em mim um efeito mole, lânguido, solarengo...

passa a outro e não ao mesmo

Este foi um desafio que veio daqui, de um texto que começou aqui... e espero que continue por toda a blogoesfera... não lanço o desafio a ninguém em específico. é de quem o apanhar. o primeiro blogger que nos comments manifestar interesse, que pegue no texto. eu vou continuar a segui-lo por aí...

Maribel era uma rapariga de 30 anos, casada, mas infeliz. O seu sonho era fugir a cavalo da Bobadela, transportada pelo seu príncipe encantado. Mas eles não apareciam; nem o cavalo, nem o príncipe.O seu marido Adalberto era uma pessoa fria, de mãos rudes, que não a compreendia. Afinal, toda ela era uma pessoa muito complexa, que exigia um grau mínimo de atenção e carinho. Mas longas eram as noites em que Maribel ia de robe, à janela, olhar a lua e amaldiçoar o homem com quem tinha casado.Certo dia, no hipermercado, foi de encontro a um belo jovem...

..., de ombros largos e porte helénico, que Maribel já tinha visto na construção da nova torre em frente à sua janela. Era o António José, que já ousara comentários que a coravam. Maribel, que amava a vida, sentia a solidão como uma faca espetada na alma. Era uma mulher que aquecia até à febre da paixão, e o termómetro eram os seus vizinhos, que exasperavam com os suspiros nocturnos de Maribel.Mas a vida é uma só, e ela queria agarrá-la com as duas mãos, com toda a força que nem sabia existir dentro de si. António José, que estava agora à sua frente, pagava cervejas para dividir com os colegas de trabalho. Havia alturas em que Maribel se queria atirar da janela para um amor viril, mas, ali, na fila do hipermercado, bastava-lhe esticar a mão. E foi assim que viu o anel que lhe apertava o dedo, a aliança de uma vida, e se lembrou do dia em que deu o sim...

... de véu transparente, recebia a aliança com as estrelas nos olhos de quem encara o futuro cheia de esperança. num amor fresco e sem cálculos a não ser os da profissão de Adalberto, contabilista. que atraente lhe era Adalberto. magro, alto, de mãos masculinas, porte circunspecto, responsável. um homem às direitas, o Adalberto. tudo o que uma “mulherzinha” devia desejar. e ela desejara. mas depois da desilusão da noite de núpcias, vieram outras noites de núpcias desiludidas. mãos caladas, que não a sentiam. não sentiam a mulher, não a faziam sentir mulher. beijos envergonhados, sempre envergonhados. quarto fechado às escuras, sons abafados, palavras encolhidas. olhos ausentes. conversas sem interior. sorrisos escassos. diminuíam com o passar dos anos, porque a vida “está difícil lá na empresa”. porque os seus impulsos e risos de menina já não eram deslumbrantes, aliás, “ó rapariga, não podes ser sempre tão infantil, acalma-te”. é mesmo assim. tem de se crescer.
- Ó menina, quer-me bater? Ou por no bolso e levar para casa? Estou em promoção!
Aquele sorriso...

metamorfoses

voltei à morenice...
os longos cabelos de sereia estão em casa, num saquinho, à espera de novos dias de transformação.
acabei por me aperceber de uma forma mais intensa de como o meu corpo é um precioso instrumento de trabalho. foi a primeira transformação radical da minha "carreira". as outras sempre se conseguiram com menos esforço. cada vez sinto mais necessidade de estar num ginásio, de criar em mim estrutura para poder receber as personagens. o corpo tem de estar tão ginasticado como a alma.
saber dançar, cantar, sapatear, ler muito, ter aulas de história outra vez (agora que me interesso), de caracterização, de produção... tantas tantas coisas que me faltam... vou aprendendo às pinguinhas com a prática e a necessidade. mas precisava de me preparar melhor. quem sabe, se as coisas melhorarem, me possa meter num Holmes Place ou contratar um personal trainer... eheheheh

sexta-feira, 20 de maio de 2005

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estou há 3 dias com o nariz encostado ao ecrã do computador. pesquiso cada cidade por onde vai passar a digressão de uma das minhas peças preferidas, de um dos meus encenadores de eleição. sei de cor cada teatro onde vão, a lotação da sala, as linhas arquitectónicas, os bairros, a população residente, a demanda cultural. estou a elaborar um complicado dossier, um projecto para atrair patrocinadores que paguem a viagem.
depois, provavelmente, vão passar 2 meses e tal de puro paraíso, a saltitar de cidade em cidade, a visitar as praias, e, ao fim do dia, palco com eles...
eu, a produtora, fico-me em terras lusas. já estará de chuva por aqui. e é preciso alguém que atenda os telefones enquanto eles vão lá... trabalhar... em princípio vão precisar de uma actriz para o papel principal. estudam-se as formas mais comerciais de substituição.
o meu crédito é pouco. sou só mesmo a miúda das teclas. às vezes é complicado estar do lado de cá e ter o sangue do lado de lá... ver passar as vidas de outros, os brilhos de outros, as oportunidades de outros, e, porque não dizê-lo, os cheques de outros.
as costas estão a latejar, os olhos só vêem uma mistura estranha de nuvens e um código indecifrável de cores, o cérebro pede descanso. hoje não dou mais.
bom fim de semana.

quinta-feira, 19 de maio de 2005

manifestação

as manifestações de carinho que surgem dos mais inusitados peitos, são das mais preciosas.
manifesto, por isso, o meu agrado, o meu sorriso, porque no meio da tempestade beijaram-me com sol.

quarta-feira, 18 de maio de 2005

injusto

é injusto, estou revoltada, de cabeça a ferver. há pessoas muito más e estúpidas, mesquinhas e ignorantes. que têm poder de decisão onde não deviam ter.
há talento, muito talento, muita capacidade de trabalho, muita entrega total. tudo desperdiçado.
mas, como me disseram, what goes around comes around e vão ver. não é desta. mas será de outra. e que venham as travessias todas que tiverem de vir, os moinhos de vento que tiverem de aparecer, não quero saber. muitos acham que sou muito forte. poucos me viram as fragilidades ou tristezas. ou quiseram saber que as tivesse. e é para estas coisas que serve essa carapaça. vou chorar, vou gritar de dor. mas vou-me levantar. e levantar os pés de vento todos que tiverem de ser levantados. porque assim não.

e se realmente me rogaram pragas, cuidado... elas retornam...

e, em honra disso, vou comer uma pastilha gorila.

terça-feira, 17 de maio de 2005

informação aos leigos e pobrezinhos

o prazo de entrega via internet do modelo 3 de IRS para o ano de 2004 foi prolongado para 25 de Maio.
aproveitem para tratar da burocracia [esse nosso dever patriótico de "encher os cofres do estado com os nossos parcos rendimentos para evitar que incomodem os ricos por fuga ao fisco, ou então vamos todos presos por meia dúzia de tostões"].
atenção que para quem não está já inscrito na net, devem pedir a vossa senha até amanhã, dia 18! [não, não é senha de vez, graças ao Senhor!!, é "password" em português, como eles chamam, que é para o Zé Tuga perceber alguma coisa, já que não se percebe patavina das alíneas e quadros para preencher... é que eles preocupam-se!]

estou a recibos verdes [e reparei que fiz de tudo, desde colaborar com uma revista, ser produtora e guia-intérprete, e auferi menos de 2000€!], devo uma batelada à segurança social porque ganhei menos do que o que me pedem para pagar-lhes, e as minhas despesas de saúde são quase maiores que o rendimento anual [ainda me vêm bater à porta e logo quero ver como explico que sou asmática, tenho ataques de ansiedade e sofri de acne grave até meados do ano passado], além de que por muito que se tente explicar, morar longe e trabalhar em Lisboa NÃO é motivo para deduzir a gasolina nem o passe social, e a maquilhagem profissional [para a cara não ficar aos buracos e cair, porque dá jeito tê-la para a próxima peça] JÁ NÃO é uma despesa justificada de actor...

estou convosco neste momento de dor.

momentos

na estrada, onde sinto que pertenço, onde não há censura e cada bifurcação é nada mais que um sorriso pleno de possibilidades, deixo-me ir de alma aberta. olhos brilhantes, fixos no caminho, perdidos na paisagem. não penso, não me deixo ficar presa. absorvo o que cada pedra no caminho me vai dando.

dou um grito, travo, encosto, saio a correr do carro. é aqui.


[ms]

ouvem-se gargalhadas a ecoar nos montes... fui eu? corro a abraçar a doçura das asas esvoaçantes de borboletas delicadas, que salpicam de vermelho aquele campo suave. ainda há sítios assim, onde o ar é mais leve, as cores mais brilhantes, e o dia corre devagar só porque apeteceu parar o carro.


[ms]

e deixo-me ficar, entre pétalas ondulantes, a preencher-me de vida e luz, de simplicidade. não sei quanto tempo fiquei. fiquei até sentir a alma plena de vermelho. depois, suspirando de contente, entrei no carro e arranquei, de sorriso aberto, mirando as paisagens em movimento, os autênticos quadros que Monet pintou para mim e não sabe...


[ms]

inspira

não temas. não esperes o pior. sempre te prontificaste a receber a vida que aí vem de braços abertos, e dispuseste-te a tentar mudar quando as coisas estavam mal.
não tremas.
não gosto de te ver esse olhar triste, inseguro. não vai acontecer nada. neste momento, acredito, com fé, que as notícias serão boas. a travessia no deserto foi longa e sofrida. mereces agora um perídodo longo de dias verdejantes, cheios de brilhos e cores fortes. mereces descansar. e por isso, cabeça erguida, e, se tiver mesmo de ser, que saias de ombros levantados. que a tua fragilidade conheça apenas quem gosta de ti e te aceita como és.
se mais não te posso dar, fica com isto...

segunda-feira, 16 de maio de 2005

raíz


[ms]
deitada, bebi água da chuva, a única verdadeira testemunha, que no seu ciclo eterno tudo percebe, em tudo entranha.
chorada, cai na terra onde semeia vida, para depois voltar mais leve que o ar ao céu, e correr com o vento por uma qualquer nuvem até uma fonte de pedra onde fica retida apenas o tempo que o sol demora a beijá-la e chamá-la de novo até si.
ali estão as raízes de inês.