quinta-feira, 11 de agosto de 2005

entre dois luckies

uma janela abriu-se.
e entrou um vento quente...

isso é...

quando o patrão nos liga a meio das férias a dizer que se lembrou que quer mandar duas curtas a concurso...
quando até vamos fazer o jeito de interromper as férias para dar uma mão e descobrimos que uma das curtas tem um argumento daqueles que mete medo ao susto...
quando o tal argumento tem tantos erros de português que se passa mais tempo a corrigi-los e a sentir vergonha alheia do que a escrever textos para o projecto...
quando o autor escreve "abajur", "fallow spot", "flashadas" e "vou prosseguir em procura da busca de..."
quando na dissertação técnica sobre o projecto, o senhor usa pontos de exclamação como se tivesse descoberto a pólvora...
quando não compreendemos o que passa na cabeça de um pseudo-realizador, pseudo-freak quando escreve diálogos em que se disserta sobre o amor das putas com uma psicóloga...
quando a protagonista do tal guião é "de formas generosas, lábios sensuais e misteriosa, com uma grande paixão pelo jogo da sedução" e o protagonista tem "rabo de cavalo escuro e usa luvas de pele escuras"...
quando a outra curta nem sequer está escrita...
quando as candidaturas abriram há um mês e não se falou nisso, e fecham daqui a 3 dias...
quando cada projecto tem de ir com mais 5 cópias, encadernadas, em papel, porque os senhores não devem ter computadores em casa...

template

um dia perguntaram-me porque é que o meu blog era preto.
se tinha tanta vida, disseram. se os textos foram aos poucos ganhando cores novas.
olha, não sei...

quarta-feira, 10 de agosto de 2005

tatuagem

não existes na pele, porque os dedos que te marcaram fundo ainda não te desenharam. não a cores, não a preto e branco, não ainda.
esperas no papel a materialização da aliança. com a noite. com a vida.
com o brilho forte de um ser que me penetrou e encantou.
sinto a volta, a curva perfeita que hás-de descrever em mim. como descreves em mim de cada vez que surges nua, exposta, suave e intensa, dançando fulgores e sonhos de criança de olhos postos em ti.
serás em mim o traço fino definido há tanto tempo, agora revelado. do preto para o branco, volta ao preto na pele dourada.
fundimo-nos em longos raios de serenidade para explodirmos na loucura.
ninguém te conhece. ninguém me conhece. assim não.
somos mulher. não tenho mistérios e melancolias tuas. tenho as minhas. e quero um pouco do teu brilho. do teu enigma.
ainda, no caderno preto, à tua espera. à espera que entres em mim.
serás assim no dia que marcar o dia que marcar a minha pele. aguardo o momento certo, sem pressas. agora já não.
crava-te. segura-me.
lua tatuada em quarto decrescente.

em resposta ao duende feliz

teaser #3

[de gajos, gajas e sinais...]

Francisco - Ligou-te e quer jantar contigo... Só falta pôr um outdoor daqueles bem grandes que cobrem os prédios!

Marques - Que é que queres dizer com isso!

Francisco - Ela quer voltar para ti, pá!

Marques - Chico... Nós estivemos casados 4 anos, 2 dos quais foram passados a preparar um divórcio doloroso, que já passou e estamos bem assim muito obrigado, há um ano e uns trocos...
...Próxima pergunta se faz favor!

Francisco - Estará ela interessada? É ela que te telefona, é ela que marca a data... só falta ser ela a pagar!

Marques - Dava jeito!

Francisco - Dava jeito... e depois nunca se sabe!

Marques - ...Ela quer é amizade.

Francisco - Ela está a dar sinais!... Isso significa que ela quer alguma coisa!

Marques - Porra! Não me venhas com essa agora dos sinais!... Se as mulheres querem uma coisa, que peçam essa coisa!...

Francisco - E estás à espera de quê? De um pedido formal autenticado pelo notário? Ela marca um jantar romântico e...

Marques - Ela quer ir ao rodízio, Chico!
É romântico, não é?...
“Querida, agora que estás a mastigar essa picanha ensanguentada... lembrei-me que tenho algo para te dizer...”
“Licença senhor... Maminha?”


Sax . 4 actores, 12 personagens, uma cama.

entre letras...

... me perco, sem nexos aparentes. não interessa. gosto de palavras.
gosto da palavra "palavra". os lábios tocam-se ao de leve. desliza na língua e brinca na saliva. outras duas palavras bonitas.
"bonita" é bonita porque se mastiga e degusta.
os arrepios dos cantos ao ouvido, sempre entre sussurros quentes, perdem-se-me e fazem-me levar os dedos ao pescoço. é pele, e "pele" também se saboreia. a palavra e o sentir.
gosto de sabores. dos doces. sou gulosa e gosto de coisas gulosas. gosto de palavras e doces, salpicados de canela.
e gosto de maçã, e morango. gosto de como ondula: mo-ran-go. o "g" também é guloso, toca no fundo da boca.
gosto de tocar com a língua no céu. da boca e do mundo.
e gosto de enfiar-me por desconexos momentos onde me enrolo e enrolo os cabelos. como a língua a falar francês.
e o ressoar do ar nas cordas. podiam ser violinos. ou um piano. é som. é, sim.
é a pequena brisa, o pequeno vento ("vennnnto") privativo que cada palavra tem. tem hálito quente, mas sabe a lábios frescos.
gosto de lábios. e sorrisos. sem sons de grande revelação, é das minhas palavras preferidas. porque se dão. só, assim.
e beijos e beijinhos. e carinhos. e "inhos" no geral. já me disseram que a minha Lisboa é "feita de diminutivos".
se calhar, como sou pequenina, também me encanto em encantamentos de tamanhos reduzidos. "encantamento". bonito, não é?
brincar assim, de letra em letra, como se de nada fosse feito o riso. como se descalça na cozinha, ouvindo o fervilhar do jantar, pudesse entre cigarros e cheiros de petiscos, ler Pessoa à janela. porque não? o Pessoa é boa pessoa, e escreveu para se ler. ler poesia como se lê um separador de livro. não precisa de ser grave. precisa de ser.
maravilhas da dicção, da palavra e do falar. não interessam as bocas, interessam as formas. que se moldam à nossa boca.

terça-feira, 9 de agosto de 2005

teaser #2

[pillow talk]

Ela dá um pulinho infantil em cima da cama, meio elétrica e dispara uma exigência:

Ela- Quero um elogio!

Ele-Hã?

Ela- Agora! Rápido...

Ele- (enrascado, improvisa) Errr... "És tão bonita...
cheiras a hortelã... gosto tanto de ti... hã..."

Ela - (risos) Que merda é essa?

Ele - Opá, foi o que saiu...

Ela- Vá lá, a sério. Usa a cabeça...

Ele-...E és lindíssima e tens umas belas mam...

Ela- A-ou-tra-ca-be-ça!

Ele- Ok! Ok!... Espera, Espera...

Ela- Siiiiim?

Ele- (compasso de espera) Ok! Tu és tão bela, tão importante e tão magnífica... tão preciosa para mim... que algo de muito chato está para acontecer na minha vida...


Sax - 4 actores, 12 personagens, uma cama. De 7 de Setembro a 1 de Outubro, de 4ª a Sábado, Auditório Carlos Paredes.

humor de padre

- o marido tem de ser sempre correcto e respeitoso com a esposa, não pode pôr e dispôr. desengana-te, meu caro, porque tens de te lembrar: Deus é teu pai, e é também pai dela, o que faz dele teu sogro... e com os sogros há sempre que ter cuidado...

sexta-feira, 5 de agosto de 2005

thumbwork

anda a circular um desafio na blogosfera a que achei imensa piada.

Think of 3 pictures you'd like to see. Things around my house or whatever... something I can take a picture of easily. Once I have enough requests, I'll start posting them. If I can't or won't take a picture of something you've requested, I'll let you know.

tendo em conta que tenho algum tempo extra em mãos, venham os pedidos.

ah, mas olhem o nível :P

too darn hot

escrevo isto no computador de casa, num sótão forrado a madeira onde não circula... nada.
só o suor que teima em encharcar-me e faz-me perguntar para que é que tomei banho hoje.
mas a questão não é o calor.
esse vem com o verão.
ontem saí dos ensaios no meio de uma neblina espessa e sufocante. não trazia aquela humidade que, em movimento, refresca.
era escura e estava por toda a cidade. por toda a auto-estrada. pela minha localidade e sabe-se lá por que outras zonas.
quando abri a porta de casa, ardiam-me os olhos, as narinas. o cheiro de terra perdida, morta, ainda quente esteve por toda a viagem. não vi chamas, brilhos incandescentes... mas estavam presentes pelos 30 km que percorri.
hoje está nublado por aqui. mas é a tal película de fumo feia, baça. e o cheiro mantém-se.
já há 3 casas per capita, não é o que dizem? já temos as aldeias descaracterizadas, as cidades cheias de casas vazias, algumas pejadas de prédios vazios para venda há anos... é o caso de uns à entrada da minha terrinha.
quem ganha? eu não sou.
quem é essa gente sem alma, que nunca respirou fundo o cheiro dos pinheiros e eucaliptos? que nunca brincou com uma pinha, que nunca apanhou flores e amoras no campo? que nunca teve nem se pôs no lugar de quem teve um pedaço de terra de onde retira o único sustento? onde tem a casa que demorou uma vida a pôr de pé?
somos pequeninos, pobres e moramos longe. todos. menos os que mandam e não se importam que ardamos vivos em fogueiras de vaidade.
só me apetece gritar: deixem o meu país em paz!

quinta-feira, 4 de agosto de 2005

clac clac

enquanto escrevo no teclado, as minhas unhas novas fazem aquele barulhinho esquisito, clac clac...
tenho umas unhas novas... apoio para o Sax...
tempo houve que eu fazia unhas de gel. pois... era técnica de unhas...
para muitos (os meus pais incluídos "tens tu um curso para isso!") é um trabalho menor... uma manicure.
ontem revivi os movimentos, as dores, os cheiros, e as emoções que nunca passam para quem está de mão estendida.
tem de haver jeito de mãos, noção da individualidade de cada um, de cada formato, de cada curva, defeito transformado em feitio.
é de dores e traumas musculares que é feito. horas seguidas sentada, as clientes a perguntarem se não dá para dar um jeitinho sem marcação "é só aqui esta unha", "é só pintar", sem terem noção de que estamos ali muito tempo, mão nova, unha nova, cola, corta, lima, esculpe, pinta, rebrilha.
é um trabalho quase artístico. lida com a auto-estima das pessoas. lida com pessoas.
é um trabalho que depende sempre do sorriso para os outros, mesmo cansado. foi ali que aprendi.
é um trabalho que implica o tão indesejado contacto físico... ali damos as mãos. ali, as tias dão as mãos às empregaduchas de centro comercial.
e surgem surpresas: gente que me chorou sentada no banco cor-de-rosa, gente que me obrigou a levantar e beber um café, comer um bolo. prendas, abraços e beijinhos perfumados.
uma miúda que tinha cotos em vez de dedos, e que saiu de lá, um mês depois, com umas unhas pequeninas, brilhantes como os olhos orgulhosos de uma batalha complicada vencida contra os vícios de anos.

ontem troquei experiências e dicas com a rapariga que me atendeu, que durante hora e meia teve as minhas mãos nas mãos.

e lembrámos a malograda D. Milú. a dona do estaminé onde trabalhei.
e onde me armei pela primeira vez em agente sindical. porque queria mais trabalho em menos tempo. porque queria que apontássemos cada lima que gastávamos, e que tivéssemos apenas meia hora de pausa. que não se fumasse de bata, e que não estivéssemos sem bata fora do stand para que não parecesse fechado. que não comêssemos de bata, que não comêssemos no stand, que não saíssemos do stand nas horas paradas.
ora eu passei-me, e com a claque das meninas da Parfois a assistirem à cena atrás da montra cheia de malas, pus a senhora habitualmente toda composta (no seu cabelo amarelo armado, a maquilhagem definitiva, a roupa sempre branca com sapatos e malas cor-de-rosa choque cheios de pindurezas) toda rosa-choque (a combinar com a mala e a agenda da Hello Kitty), com a veia do pescoço a saltar-lhe da maquilhagem definitiva, e as garras de 5 centímetros completamente cravadas na almofadinha. e quando me atira com o "ou é assim, ou não é", eu respondi "então não é. a minha carta de demissão chegar-lhe-à às mãos em menos de uma semana, não vou renovar o contrato". ficou em estado de choque, gaguejou, implorou. e lá ficou com a sua cara de rabiosque lipo-sugado.
é uma chatice perder uma das melhores funcionárias, ainda que as raparigas brasileiras façam turnos duplos, folgas e fins de semana sem se queixarem.
algumas clientes tiraram as unhas (de gel, hã...), porque não queriam outra pessoa. a D. Milú continua cor-de-rosa, rica, de BMW, casa na Av de Berna, a explorar (agora ucranianas). eu ganhei as cores que tinha perdido de passar tanto tempo sem teatro. a B ligou-me uma semana depois de eu me demitir para saber se eu queria ir fazer um Auto da Índia para o... Teatro Ibérico...
já lá vão mais de 2 anos e meio...

clac clac clac

dog battle in strangerland

há dias o Estranho fez um post para mim... desafiando-me...
aceitei o desafio...
e saiu isto: (não resisti a publicar)

" - Desculpa lá, Polegar...
...mas o meu cão (PUKI) é mais preguiçoso do que a tua cadela!"

- Polegar said...
ehehhe agora quanto a nós (arregaça as mangas, esfrega as mãos, estala os nós dos dedos)...
a minha cadela não se levanta, arrasta-se
a minha cadela não se baba, deixa descair as bochechas até ao chão.
a minha cadela mexe-se 10 minutos por dia: vai até à porta, sai para o jardim, e deita-se à porta do lado de fora...
a minha cadela não corre, dá dois passos e senta-se
I could be here the whole day... beat that!

- O Estranho said...
Ai é assim?! (franze o sobrolho e estala o pescoço)
O meu cão, quando quer entrar em casa, começa a ganir, deitado, a partir do cesto onde dorme
Quando lhe oferecemos um petisco, temos de o ir levar até ao dito cesto porque ele não se levanta
Passa a tarde toda a dormir no fresco da sala e levanta-se de hora em hora para andar um metro porque sente que aquele sítio está demasiado quente
Quando quer brincar com alguém, agarra-o pelo pulso e puxa-o até ao chão para poder estar deitado
Senta-se à cão preguiçoso, de lado, não directamente sobre o rabo
Vá lá, com certeza consegues melhor do que isso! (sorriso desafiador de Peter Pan...)

- Polegar said...
a minha cadela quando quer entrar em casa, tendo em conta que continua deitada à porta, a única coisa que faz é levantar as orelhas ou dar uma ligeira focinhada na porta.
ela também come deitada, e às vezes vira a taça para não ter de mexer tanto o pescoço.
a ideia dela de brincar com alguém é dar um saltinho no mesmo sítio de orelhas levantadas. depois deita-se e já está cansada.
quando quer ser agressiva ladra duas vezes e puxa uma manga com os dentes.
dantes corria em direcção ao portão e era tão preguiçosa que se esquecia de travar, parava mesmo NO portão.
só o sabíamos porque ouvíamos um estrondo.
ela também se senta de lado, mas só para ficar deitada, se possível com as patas apoiadas na parede.
se lhe fazem uma festa, cai no chão imediatamente, toda aberta. e se nos afastamos, mexe uma pata. isso quer dizer que quer mais festas...
(saltinhos de Sininho)

- O Estranho said...
ARGH!!!!(grito de derrota de Capitão Gancho)
Bolas, que cadela tão preguiçosa!;)

terça-feira, 2 de agosto de 2005

estava a pedi-las...

... e pronto, vou tê-las.
como pessoa abençoada pela Lei de Murphy (Ámen, Áwoman, Ágay), agora, que estou em ensaios e não posso ir a lado nenhum, vou ter 10 dias de férias.
começam daqui a... 10 minutos...

ainda por cima sabendo que o meu tio querido, lá no outro lado, no sul de Espanha, comprou o trespasse de uma gelataria... o que eu não dava por una agua cebada en aquel pueblo perdido de Hondon de las Nieves, con mi primita, e depois fugir para as águas quentes de Arenales... a dor...

como não posso ir a lado nenhum e eu gosto é de berbicachos, vou aproveitar para dar uma mão à B na produção do Sax.
e vou poder dormir... e ir sem olheiras ao abençoado casamento maná.
ao menos isso, não é?

ah! não pensem que se livram de mim... vou andar por aí na mesma, senão entro em descompensação.

segunda-feira, 1 de agosto de 2005

teaser

[ post-it

João - Minha Querida Futura Esposa, há coisas que tens de me explicar: Porque raio é que eu nunca consigo falar contigo quando quero e porque raio é que eu estou a olhar para uma lista de tarefas que mais parece as exigências da AL-QAEDA:
“Querido, limpa a casa.
Querido, vai às compras.
Querido, põe o lixo..."

O jantar em casa do Mário é às Oito, e como hoje é Domingo, e tu sais do trabalho quando quiseres, vais fazer tu esta merda TODA!

...”Querido, os meus sapatos estão no sapateiro, vais buscá-los?!”

Claro, minha rainha! E quando chegares a casa estarei algemado na cama com chantilly nos mamilos, ansiando pelo estalar do teu chicote!
Vou à BOLA!
...
Amo-te...

João volta a olhar para o post-it...

João
- ...pronto, pronto... ...vamos buscar o vestido da menina, vamos buscar o vestido da menina!]
[SAX - 4 actores, 12 personagens, uma cama... estreia a 7 de Setembro no Auditório Carlos Paredes, Benfica]
um novo espaço no Polegadas.
vou aproveitar-me descaradamente dos tais fiéis seguidores dA Palavra deste blog, essa vasta multidão.
vou mandar (se já não mandei ou não deram por isso) o anonimato dar uma curva.

porque já conhecem um pouco do que é a vida de quem faz teatro por amor, não é famoso, sabe articular, e não tem tachos nem subsídios.
porque preciso de público como de pão para a boca.
porque tenho uma (é forma de se dizer, são 13) história(s) para contar.
que acho que todos vão gostar de conhecer ou rever.
porque há sangue, sexo e lançamento de anões... not!

a partir de agora, de vez em quando, editarei aqui um trecho da minha próxima peça.
na esperança de que gostem do texto, ganhem curiosidade, e queiram vir ver.
e tragam gente.

Castro pela Cê D~eê... bolas... leiam!

fui intimada "porque no teu blog falas sempre de tudo, porque é que não hás-de falar disso?!?!?!" a dar a minha opinião sobre "Pedro e Inês, talvez..." pela Cê Dê Cê (ai a guerra que foi com o teclado para escrever isto) - Companhia de Dança Contemporânea de Alcobaça, a que assisti na 6ª feira.
... pronto, tá bem...
fui tansa: cheguei meia hora atrasada porque alguém no seu mail me disse que era às 21:30. mas pronto, devia ter confirmado...
quando cheguei, a D. Constança rebolava no chão indo ter com o D. Pedro cheia das vontades, mas ele dava-lhe um encontrão que a mandava para trás porque queria era rebolar com a D. Inês.
até aqui tudo bem.
o grande problema do Bailado, seja clássico ou contemporâneo, é que tem um linguagem que necessita de habituação. com a ausência das palavras, a única ajuda é da música e da expressão dos intérpretes. nem sempre é fácil. se comprarmos os programas (caros...!) ajuda muito. se não, apreciamos muitas vezes apenas a beleza estética e a qualidade técnica (vulgo "dasse, mas como é que ela mete a perna ali?" ou "como é ela foi para ali?" ou até "caramba, quem é que obriga os gajos a vestir aquelas lycras? oh por favor! aquilo não pode ser natural") dos bailarinos, até aprendermos os códigos.
eu sou fâ de dança. prefiro a clássica (I'm a sucker for tutus), mas também gosto muito de contemporânea. e aceito o desafio de conseguir perceber a mensagem sem palavras. às vezes é complicado.
nesta tínhamos a vantagem de já termos feito a peça, de termos levado durante 3 meses com todo o contexto histórico, bem como os fait divers todos... sabíamos a história, criámos a medo as personagens e recebemos de alma aberta as energias dos próprios em Alcobaça e Coimbra... e uns dos outros.
anyways... gostei. muito. porque é daquelas histórias que me apaixonaram e que faria de novo mil vezes (mesmo tendo de pintar o cabelo de amarelo outra vez). porque dançada tem um dramatismo que muitas vezes se perde com a facilidade das palavras. porque se descobrem formas de se dizer as coisas com um toque. porque lá no meio saltavam músicas de Carlos Paredes.

agora os contras (eheheh esfrega as mãos de contente e espera não morder na própria língua senão morre)...

os solos e pas de deux sim senhor, agora os corpos de baile vão-se mas é catar. falta de sincronização. e não venham dizer que "é suposto cada um ter um estilo, que é contemporâneo e assim é que é, não percebes nada, não és intelectual", porque é feio (tão simples como isso) estarem a fazer os mesmos passos com lapsos de centésimos de segundos que saltam à vista, e uns muito tesos e outros a rebolarem-se.

aquela amiba - tentativa de presença imponente do rei tipo assombração, que só aparecia em projecção multimedia - que declamava textos de olhos muito abertos e entoação absurdamente melodramática (boca muito aberta, voz cavernosa, fundo de chamas e o resto do pacote, a lembrar-me alguém...), com o plano fechado na cara, a notar-se que estava A LER. os olhinhos muito escancarados, saídos das órbitas, até aí, pronto, aceita-se, é um estilo. mau, mas um estilo. agora os olhinhos escancarados, saídos das órbitas a saltitar de um lado para o outro, dedurando que o tipo com as folhas de papel estava ali do lado direito... eeek!

a interrupção a meio do espectáculo, assumida com uma projecção que mostrava a palavra "publicidade". ora no meio da tragédia (acho que ela estava a ser morta, ou a ter o pesadelo da própria morte), aparece um senhor com uma tábua com um coração desenhado, põe-no no chão e faz-lhe sapateado em cima com um sorriso enorme. depois, aparece projectada a própria da Inês, sorridente, com uma caixa de detergente com o rótulo "Inês", e todos em conjunto dançam muito bem dispostos, cá à frente, ao estilo anúncio Tide, com a bendita caixa de detergente ao vivo. terminam a dança contentinha...
...passando o polegar pelo pescoço (único gesto que lhes saiu em uníssono em todo o espectáculo) e deitando a língua de fora, cabeça pendurada.
houve quem se risse. nós gelámos nas cadeiras. aquilo já nos passou na pele e não caiu bem aquela brincadeira. era comic relief, mas a mim não me aliviou.

o estupor da ideia que há agora de TUDO o que é peça/espectáculo ter dois actores para o mesmo papel... começou com "Morte de Romeu e Julieta" na Cornucópia e "Pedro e Inês" da CNB (mas esses podem fazer o que quiserem, eu deixo), e foi tristemente copiado pelo meu encenador (contra mim falo, que se não fosse assim, não teria sido Inês) e agora pelo senhor coreógrafo da CDC (eheheh safei-me)... ainda por cima tiveram dinheiro para vir para o Teatro Camões, mas para fazer dois vestidos tá quieto. eu bem que estranhei que a primeira Inês (na altura achava que única) tinha as alças sempre a cair, o que é feio e mau para a bailarina. depois percebi quando aparece a (outra) Inês morta (um único pas de deux, será que não dava para a outra, que era óptima, fazer tudo?) com umas mamas 3 números acima e sem problemas de alças a cair. e fez-se luz.

aquela coisa de enquanto morria Inês uma bailarina fazer playback (mas cantando por baixo e ouvia-se... eeek) do "Llorando", uma adaptação de Crying, cantada soberbamente em Mullholland Drive de David Lynch. havia outras músicas que se adaptariam melhor, e o playback foi muito mal feito. os bailarinos, na marioria dos casos, não cantam. aqui ficou explicado porquê.

ter visto o Paio (quem conhece sabe quem é) à saída... spooky.

faltar cá o resto do pessoal, para sairmos de lá a fazer pas de deux que, invariavelmente, acabam de nariz no chão e com o Guinho de pulsos abertos de nos levantar no ar.

e pronto. foi isto. satisfeita? :P

sexta-feira, 29 de julho de 2005

suor

amanheceu fresco e o vento salpicou-me a cara de cabelos (agora) pretos.
agora presos em dois pequenos totós e enfeitados de ganchos. menina.
o sol entra agora a jorros pela janela e a camisola não faz sentido. o ar aqui abafa-me o peito.
no escritório vazio, há tempo para fumar o cigarro agarrando o nada como companhia.



levo a mão ao pescoço. acompanho com os dedos as gotas de suor. não as apanho ainda. deixo-as passear, vaguear até aos ombros.
então aí, encontro com a ponta dos dedos o calor da pele e o prazer de olhar o sol lá fora.
ensaio os passos de dança descalços que por vezes não me deixam trabalhar.
logo à noite vou ao ballet e quero encontrar-me ali.
por agora, agarro nas cartas e vou ao correio. deixar o vento soprar-me arrepios na pele molhada.

let's go and meet the panzies!

andava à procura de alguma coisa que soltasse um sorriso.
daquelas coisas que, por muito chato que esteja a ser o dia, nos desarmem totalmente, e nos façam ostensiva e descaradamente "arreganhar a tacha"*...
ora para isso, temos sempre o King Julien. o rei dos Lémures de Madagascar. este "self proclamed king" é assim daquelas personagens secundárias que brilham filme fora e é a canção dele que se sai a cantar do cinema... sem desprimor para os pinguins que andam à estalada "- don't give me excuses, give me results!",

ou para Mort, o bichinho fofinho irritante por excelência, digna sátira aos Bambis da vida, que, de facto, de tão doce... apetece "mergulhar no café", como diria Gloria (a hipopótama delicada)...
e depois, é só assistir à recepção dos "giant panzies" para ganhar o dia.
- shame on you Maurice! did you not see you've insulted the freak? (ler com sotaque pseudo-jamaicano por favor)

e isto é só uma parte ínfima do filme...

ainda estou a bombar, e já consegui o tal do sorriso...


*expressão gentilmente cedida por B.

quarta-feira, 27 de julho de 2005

pára tudo! pára tudo!

então não é que descubro que há uma bolsa para blogs?!



e mais! o Polegadas está lá!
(parece-me que com uma boa cotação - cof cof, sopra nas unhas - mas não percebo um caracol daquilo... só barrinhas e quadros e gráficos... eu até sou de letras... e deixei a cadeira de economia a descansar na faculdade...)

e mais! alguns de vocês, bloggers amigos e fiéis seguidores d'A Palavra deste blog, também lá estão!
como? não faço puto, meus caros, não faço...

mas convenhamos que me valeu umas gargalhadas valentes. especialmente quando descobri que um blog meu conhecido, que está parado há meses (tsss tsss... e escrevia tão bem, o rapazito...) está mais bem cotado que o meu! isto não há direito...

terça-feira, 26 de julho de 2005

slow motion ou o strip-tease numa estrada do alentejo


the tree of us Ben Harper [welcome to the cruel world]

a estrada corre debaixo dos pneus, asfalto escurecido pelas sombras, ainda quente do fim do dia.
a promessa do mar lá ao fundo. muito ao fundo, onde acaba o céu. ainda falta. mas o percurso é também parte da viagem. sem pressas. não tenho pressas. o tempo só começará a contar quando tiver de voltar.

o silêncio dos estofos, do cigarro a crepitar entre os lábios. lá fora voam candeeiros alaranjados, recortando-se cada vez mais no azul-negro.

o sol foi descansar, vestindo o seu pijama laranja.

do outro lado, lentamente, surge, provocante, redonda, lá ao fundo, a lua. saída da mesma cama, veste o mesmo pijama.
e enquanto sobe lânguida pelo céu, vai despindo o pijama devagarinho, para passear nua a sua pele alva, noite adentro, céu afora, numa dança sensual com as copas das árvores.

iluminando o rosto cansado descansado dos viajantes na estrada.

segunda-feira, 25 de julho de 2005

23.07

praia não vigiada.
é proibido nadar.
correntes fortes.

não farei juízos de valores.

quando cheguei, improvisava-se uma corda, passavam polícias de calções e capacete de bicicleta, correndo na areia escaldante.

eram seis. estavam acampados na praia.
dois, agora, tremiam juntos, sentados nas rochas. outro, mais acima, de cabeça enterrada nas mãos, olhava o azul como se fosse negro e nada. outro, ainda, jazia inconsciente, deitado de lado, com o quinto elemento a tentar aquecê-lo, engolindo as lágrimas.

por entre um aglomerado de rochas, descobri que os anjos, às vezes, não são transparentes, não têm asas.
vestem fardas azuis ou vermelhas ou brancas.
e, incansáveis, de corpos esfolados, carne rasgada pela inconsciência dos outros, inconsciência de si, suores frios, de olhares impenetráveis, tentam soprar vida num corpo inerte, gelado, pescado de entre as pedras fundas e as ondas batidas. fazem das suas mãos coração forte e pujante, bomba de impulso que acorde (por favor) aqueles braços caídos, aqueles olhos perdidos.
e a outro prometem uma cerveja ao fim do dia, como se o pescoço entalado em amparos de plástico nada significasse, enquanto carregam as macas falésia acima.