segunda-feira, 29 de agosto de 2005

torre

subo as escadas de madeira e chego ao topo da torre de marfim, de onde olho o mundo nesta última janela. telhados e copas de árvores. nada mais. entre tantos pássaros escolho um onde me escondo. peço-lhe que mande um recado ao mundo.
um dia falei a alguém de torres de marfim. e de um grito que partiria a redoma de vidro.
há pouco tempo acordei numa cascata onde misturei no doce o salgado das lágrimas e me lavei da tristeza. não espero mais, agora. posso abrir a porta. o cadeado estava congelado com o choro frio nas noites longas de luzes veladas. bastou um toque e partiu. a espera do toque é que travou a vida. será recuperável?

sexta-feira, 26 de agosto de 2005

não explodi...

apenas estarei de folga três dias para ver se acabo o resto das "férias" que me tiraram. obviamente que surgem sempre coisas para fazer e descansar é mentira...
ontem fui com a B. comprar sapatos para as personagens... assim que voltar ao bulício do Príncipe Real prometo inserir as fotos da nossa expedição imperdível... as coisas que se descobrem quando andamos às pechinchas nas lojas da Baixa... considerámos repensar algumas personagens para incluir alguns do apetrechos que nos foram aparecendo pela frente... ainda estou a considerar aquele fato de cabedal com correntes para a sensual Ana... vou também aproveitar para actualizar o meu projecto de thumbwork... não está esquecido, caros leitores d'A Palavra deste Blog... ;)

entretanto, ontem houve Gift, conforme planeado há uns meses... ombros e cabeças à discrição. mas aquele som, aquelas batidas a entrarem dentro de mim... obrigada a quem arranjou maneira de acabar o ensaio mais cedo. apesar de quase 1 hora à procura de estacionamento, aquele pedaço de música foi um prémio bem ganho...

quarta-feira, 24 de agosto de 2005

ainda sobre a cola...

tenho medo de acender um cigarro...

onde tá?

fiz um refresh no blog e eis senão quando percebo que a minha side bar não está presente! alguém a viu? deve ter fugido, coitadinha, afugentada pelo cheiro a cola que se espalha nos corredores deste multicentro de escritórios, onde estão a haver obras. se há pouco gostei de sentir o cheirinho quando entrei, agora já me arde o nariz...
... esperem lá...
e se o desaparecimento da side bar tiver a ver com o facto de eu ter inalado estes vapores e já não estar a ver a direito...?

colorida de fresco

a nossa casinha é de cores frescas, pistachio e tangerina. altamente comestível, doce e salgado.
a aventura no reino dos sofás, puffs e cadeirões começou na fila da segunda circular, na antecipação do que "dava jeito"..."dava jeito, e depois nunca se sabe!"
quando nos deram mais uma vez carta branca para subir e escolher à vontade, (muitos anos que passemos a ir lá, ficaremos sempre atónitos), entrámos no reino das "linhas", do "tem a ver com a personagem", no "encaixa", no "preenche demasiado espaço visual", no "olha pra mim toda boa a dar consultas" e no "este ficava bem era na minha sala"... de repente, tínhamos uns quantos selccionados, e portanto havia que proceder a eliminações. ora assentando o rabiosque nos mais variados tecidos e formatos, procedemos aos test drives e combinações de formas e cores, e as possibilidades foram-se estreitando. no final, foi fazer o pandã das cores para "equilibrar a cena" (que nós, os pobrezinhos, também usamos termos técnicos...) voltar a experimentar as poses das personagens e a imaginar o tamanho do colega, que não foi, encaixado na selecção. esta dança do traseiro é fundamental, porque, afinal, queremos a nossa casa bonita e confortável. é que vão ser os nossos rabinhos ali "assentados" durante um mês.
embalar tudo com celofane e encaixar na carrinha foi mais fácil que no ano passado. o compasso de espera no escritório à espera da guia de autorização foi passado em amena cavaqueira com a rapariga da loja, bebendo café e partilhando um cigarro, em que uma dizia que gostava de ser presa por fraude para ter férias uns meses, e o outro dizia que o sofá-cama tinha de ser bom porque passávamos o tempo todo lá... a rapariga ria-se.
depois foi levar para o teatro e experimentar. e que delícia ficou. uma casa gulosa, diferente das cores sóbrias do ano passado, mas clean e hype, como deve ser o ambiente da coisa.
ontem os ensaios correram de olhos brilhantes, faltando muito pouco para ter perfeita noção do aspecto final. ainda vou raspando os joelhos na alcatifa, que a nossa cama ainda é uma pilha de almofadas, mas a piéce de resistance está para chegar em breve...
entretanto, tenho a certeza que a minha mãe vai achar que fui eu que obriguei o pessoal a escolher o cenário. eheheheh...

terça-feira, 23 de agosto de 2005

próxima estação: cenário

off we go, to furnitureland!
vamos pegar na carrinha escamocada, encaixar-nos nos lugares da frente, e, depois de um dia inteiro de trabalho, debaixo deste calor peganhento, fazer a ronda da mobília para a nossa casa encantada. déjà-vu.
ele vai ser escolher e embalar os mais diversos formatos de sofás, cadeirões, puffs... carregá-los para a carrinha e da carrinha para o teatro onde estamos a ensaiar. a sorte que é encontrar lojas que vendem mobília de contos e contos de reis mas que praticam O Bem, emprestando o material de exposição aos pobres artistas que não conseguiram uma borla da Tribo... "Azioni, sofás com um toque de classe" obrigada!
para a semana, apanhamos o resto da tralha e levamos tudo para a morada fixa, o Auditório Carlos Paredes.
e vamos remontar tudo, reviver cada pedaço de madeira, cada cheiro de tinta, cada marca nos lençóis brancos que não saiu depois de 3 lavagens. ainda soam na minha cabeça as marteladas, a lixa a raspar na madeira, as risadas e as discussões, o barulhinho dos parafusos espalhados no chão. e a imagem daquele branco imenso.
vai ser bom reviver isso, mesmo com os músculos das costas a pedirem piedade.
saio mais cedo, com outro sorriso, hoje. vou "comprar mobília para a nossa casinha"...

companhia

no peso destes dias sem gente, dei por mim a ir ao Extra comprar uma revista foleira só para não almoçar com as paredes.

pessoas

gosto de pessoas. sempre o disse. gosto dos seus rostos, expressões, histórias, estórias, e pequenos sorrisos que surgem do nada. gosto de ter surpresas. gosto de ser ombro e que surjam do nada gestos engraçados. acho que seria uma boa profiler e já me atestaram qualidades como psicóloga. gosto de imaginar, no metro, quem será aquele desconhecido, de onde vem, para onde vai, porque é que coça a cabeça assim.
adoro brincar com tipões. apesar de saber que cada indivíduo é único, as caricaturas apaixonam-me.
no entanto, todos têm defeitos, todos a certa altura desiludem.
acredito piamente na mudança, na regeneração. dou sempre segunda, terceira hipóteses. nunca fecho portas.
apesar disso, há pequenas desilusões diárias que me magoam às vezes mais que as grandes. não sei como explicar.
as pessoas falham redondamente nos seus objectivos, na sua maneira de ser até, talvez porque não contam com a teoria do caos, com os factores externos, porque estão demasiado certas das suas virtudes e verdades absolutas. com isso eu conto. conto com o contexto, o background emocional e profissional, com a temperatura ambiente, com as pessoas que estão à volta e o que se comeu ao almoço.
até conto previamente com certos defeitos... ou feitios... quem tenta virar o bico ao prego, quem açambarca créditos alheios, quem é naturalmente convencido, quem se descarta, quem não assume incapacidades, quem não reconhece qualidades alheias, quem é pedante e critica os outros de o serem com observações tristes, quem é tão umbilical que conta histórias deturpadas para se poupar da culpa.
há momentos em que engolir custa. normalmente não consigo.
(há, inclusivé, quem conte com esse meu defeito... ou feitio... e não me leve a mal ou até me consulte para ser mandado à merda)
outros momentos há em que tento fazer de conta que nada se passa. porque gosto da pessoa, porque é comigo (e não o contrário), porque são coisas a que, pensando ponderadamente (ui, coisa complicada) eu sei que não se deve dar valor.
mas fica aquela moinha, aquela mágoa... aquele bichinho a moer...
depois pode acontecer uma de duas coisas: afastamento natural, ou explosão emocional.
bicho estranho, este do eu de cada um...

segunda-feira, 22 de agosto de 2005

adenda

contando comigo, são 4 gajas a habitar-me o corpo e a mente...
senhores, imaginem o galinheiro!
imaginem como não é quando se avizinha a TPM!

ela

ela é indescritível em palavras ou metáforas. ela não consegue ser pintada de mulher, porque tem pouco de real. ela é tão bonita como só os anjos e as fadas.
por isso ela é etérea, volátil e deliciosa.

ela tem de menina o beicinho e de mulher o olhar provocante. ela está sempre bem disposta.ela é o sorriso guloso, o olhar divertido, o brilho comprometedor de uma vela solitária.
ela desliza nos lençóis brancos entre a dança e o desejo.
porque ela é a languidez dos lençóis quentes num dia de chuva. mas também a sofreguidão do querer.
ela é a sensação de beijos doces, do abraço interminável.
e ela salta nessa cama e brinca sem pudores, em roupa interior que revela a pele nua.
ela apetece.
ela são cabelos compridos espalhados na almofada e uma silhueta feminina em contra-luz, espalhando nas palavras a brisa da janela aberta.
ela disserta sobre homens e mulheres como se não fosse nenhum deles.
ela é impulso.
ela é pele na pele dele. é a vida do amor soprado em golfadas mornas preenchentes. ela é uma cascata. de água pura e doce. é uma banheira de espuma e água quente. é gelo deslizado pelas costas num dia de calor. é todos os clichés bons da vida, todas as coisas simples. todas as coisas especiais, únicas. como um sopro naquela gota de suor que escorre do pescoço.
ela enrola as suas pernas à volta da cintura dele e deixa-se ficar na sensação de completo.
ela completa-se no abraço terno e dá de beber a sua pele.
porque ela é yin e só existe porque há o yang.
ela é conversa de almofada.
ela existe em todas as mulheres naqueles minutos em que se joga conversa fora depois de fazer amor. em que ainda se está embriagado de cheiros doces e plenitude. em que só há duas pessoas no mundo. nesses momentos, a mulher perfeita é ela.
eu sou ela.

Ana, Rita, Ela... as três mulheres da minha vida...

Sax - 4 actores, 12 personagens, 1 cama . de 7 de Setembro a 1 de Outubro no Auditório Carlos Paredes . Benfica

sexta-feira, 19 de agosto de 2005

moinho de vento

voei por entre verdes e cinzas e riscas brancas.

cheguei lá e o coração levou-me ao topo do monte.
onde fui menina e apanhava amoras e fazia de canas os meus cavalos de pau e esfolava joelhos e, bebé ainda, brincava numa banheira insuflável com caixas de colgate. com uma baía como cenário, mato cerrado à volta e bancos de areia, onde rebolei.
onde comia as bolas de berlim na praia.
sentei-me na mó e voltei a ver o meu pai de faca do mato à cintura, a desbravar o caminho no primeiro dia de férias.
e a minha mãe de caracóis pretos a ondular ao vento.
a minha avó comigo ao colo.
e o velhinho Bugui a dormir à sombra da mesa de pedra onde comíamos as saladas de atum num tupperware, quando não havia mais dinheiro que o suficiente. quando não havia mais que tantos, tantos sorrisos.
agora está fechado, mas sei que sei voltar. e sei que aquelas paredes foram brancas, as janelas estavam abertas, cheirava a mar, pinheiros, eucaliptos e doce de amora e ainda lá deve estar a minha cama de bebé no andar de cima, ao cimo de umas escadas de pedra em caracol.
trouxe uma pinha comigo, daquelas que se usavam para acender a fogueira.
e nessa noite dormi embalada com os sons do vento no moinho.

V., para ti

apesar de ter andado a falar de pessoas-personagens, que vivem em mim e numa caixa gigante com um quarto iluminado por holofotes e esperança de vida de hora e meia, hoje vou falar de uma pessoa-pessoa.
V. era a beta que me irritava nos primeiros tempos da faculdade. mas estávamos sempre juntos, todos, naquele grupo heterogéneo de gente que vinha da mesma zona e apanhava o mesmo metro das 7 da manhã. e, apesar das diferenças, da fase da vida por que eu estava a passar, a V. entranhou-se em mim. devagar.
a V. mudou e eu mudei, somos assim, gente, pessoas, e a formação da personalidade é diária. e assim nos entranhámos uma na outra, fugindo das aulas para jogar matraquilhos, indo para o café fumar os primeiros cigarros ás claras, gozando com o "Manel" e partilhando ideiais de esquerda fomentados ainda mais pela faculdade reaccionária onde aprendemos as teorias todas de livros anteriores (obviamente) a 1974.
a V. já não é beta e eu já não uso sempre calças de ganga... agora eu também gosto de marcas e a V. está mais doce e vamos as duas ao "horroroso" Colombo.
os "loucos anos" passaram-me despercebidos, porque ser louca era normal. afinal, estava acompanhada de outros. e V. destacou-se. pela preserverança. pelas certezas absolutas do que queria. e pelo acompanhar do crescimento e decisões da minha vida. com as opiniões muito próprias e muitas vezes diferentes das minhas. que aprendemos a respeitar uma na outra. sem que, espantosamente, isso nos afastasse.
já aqui falei dela. dos nossos disparates.
mas recordo também as infinitas conversas sérias. nas piscinas e no carro antes e depois das aulas de step, para onde me arrastou.
V. tem uma personalidade muito muito muito vincada. desde sempre soube o que queria e ainda acredito, depois destes anos todos, que um dia ainda a vou ver num Iraque da vida de camuflado, no meio do pó, a falar do avanço das tropas, debaixo de fogo cerrado. e a imagem da rapariga de nariz arrebitado cheia de sardas de capacete cheio de folhagens maior que a cabeça faz-me sorrir.
a vida levou-te onde precisavas de estar. tenho a certeza disso.
gostei de entrar na SIC de braço dado contigo para o teu primeiro estágio. de dar-te bateria para o velhinho Y10, de fazer-te "as unhas" à borla quando saías do trabalho para bebermos café. de apanhar a minha única bebedeira pública contigo, enquanto esperávamos que o teu destino se viesse encontrar conosco daí a pouco.
gostei que me mandasses aquela primeira carta, que estivesses sempre na plateia, que gozasses com o meu cabelo amarelo, que me desses umas dicas sobre uns certos bruxedos, que me lesses o tarot, que me preparasses aquela fantástica surpresa no aniversário, e que me fizesses chorar no messenger quando me forçaste a admitir que não, ainda não estava bem.
V. é carisma, sentido de humor tramado, inteligência, sangue quente boca fora e sangue frio no trabalho, V. é amor à camisola e noitadas de conversa num sofá qualquer. V. é Londres e Camden Town. E a V. é a única que conseguiu ser, de facto, aquilo para que tirou o curso. V. é capricho e, lá bem no fundinho, a ver se escapa, um coração muito muito grande. V. é uma daquelas amigas.
parabéns, querida. um beijinho

quinta-feira, 18 de agosto de 2005

esta juventude...

o encontro de afinidades moderno já ultrapassou largamente o "não me digas que também frequentaste essa piscina nessa altura?!" ou "não acredito: também andaste nessa faculdade?!" ou até "também tens pancada por esse filme?"

hoje em dia é mais intenso, mais arrebatado, mais fashion, mais trendy, mais... tudo:
"não me digas que também tens ataques de ansiedade?!"

caros amigos e leitores e seguidores fiéis d'A Palavra deste blog: conheçam a praga do século XXI!

quarta-feira, 17 de agosto de 2005

rita

rita é menina. menina-mulher.
rita ama ferozmente, com a candura da primeira vez. põe em pedestal e acredita de braços abertos, alma estendida ao sol a secar.
rita veste-se de azul, o azul da sua inocência, dos céus brilhantes que adivinham um novo dia.
rita tem sapatos macios, perto das sapatilhas das bailarinas e das pantufas confortáveis.
rita usa rabo de cavalo desprendido.
rita faz beicinho, finge a dor que finge fingir.
porque acredita, a rita, na vida e no seu amor. e o resto vai passado, bem disposto.
rita é mulher, mas deixa-se ficar menina porque assim é mais bonita que a rita-mulher para o homem da sua vida.
rita tem a voz fina, afinada e doce. rita não diz palavrões. rita faz a cama todos os dias, lava a loiça e sorri ao fim do dia.
rita queria ser psicóloga. mas nos corredores da faculdade encontrou outro destino.
que lhe trará entre sorrisos e beijos soltos no ar uma rita-mulher.
rita costura as suas prendas com as mãos pequenas cheias de sorrisos que espera encontrar do outro lado.
nos pequenos momentos de gestos vagos, rita não vê, não quer ver a evasão.
rita fica em casa todo o dia e estuda, e sabe, às escondidas, o que Freud dizia. não sabe para que o faz, mas rita diz que é rato dos livros. só. porque não importa o que sabe, prefere perder-se noutras palavras.
rita às vezes tinha vontade de se vestir com saias justas, perfumar-se com cheiros quentes e sentir-se voluptuosa, num baton vermelho. e de sair para a rua e ser levada em danças arrebatadas de bar em bar, entre as luzes das velas.
outras, gostava de sentir uma vida quente e companheira dentro de si, um ser pequenino para envolver nos seus braços, agora fracos, mas que tem a certeza, ganhariam a força do amor protector. da muher-guia.
rita gosta de bolas de berlim e de cozinhar. rita gosta de se aninhar.
a rita só gritará uma vez na vida.
a rita sou eu.

Sax

sexta-feira, 12 de agosto de 2005

último cigarro antes de fugir

sentou-se. meia Lisboa já gravada nas solas dos sapatos, à hora quente do suor incontrolado.
era o último cigarro antes de fugir.
para lado nenhum. mas podia sair daquele abafado. das paredes brancas e da nudez da alcatifa, tão solitária como o Romeu triste do cartaz.

os recados estavam feitos, e já conhecia os tempos biológicos da menstruação da senhora da segurança social que ia de férias nessa tarde. até lhe preencheu o formulário cheia de boa vontade, para que a tinta da bic cristal lhe levasse mais uns segundos ao relógio.
depois lembrou a menina do metro de olhos cheios de lágrimas sonolentas que fixara, até ser vencida pelo João Pestana, as suas unhas dos pés pintadas do laranja quente do sol lá fora.
e a senhora dos brinquedos de lata que, fechada na loja vazia - porque cara - desarrumara a montra para cima do balcão só para poder conversar mais um pouco, só para ver um sorriso desconhecido e interessado por um bocado.
toda a gente à espera que o tempo passe para chegar a algo.

era só pegar nas chaves e na mala que lhe doía nos músculos para poder sair. no entanto, a inércia. o mirar sem ver a ponta dos dedos, os rasgões definidos das palmas das mãos. o encontro dos olhos com um nada que lhe sugava as forças e lhe tremia nos braços. o tal último cigarro desnecessário.

lançou a última golfada de fumo com a força de quem expira dentro de água salgada, entre braçadas. saudades do mar. do sal que não o do seu suor. do sal que não o seu.

this side up

frágil.
hoje talvez chore...

lamechas



ela estava feita princesa, vestida de nuvens.
ele muito nervoso não parava de falar.
ele é trapalhão, mas até acedeu dançar.
foi um momento bonito, muito bonito.

hoje estou lamechas. processem-me.

quinta-feira, 11 de agosto de 2005

ana

ana é psicóloga, e está nos vintes e uns trocos. ana veste de preto. ana ouve jazz. ana anda sempre de saltos altos. ana fuma muito. ana usa óculos. pretos.

ana passa os dias sentada no seu consultório, em casa, a ouvir as tristezas dos outros.
ana passa os dias a ver a felicidade ao alcance de uma palavra, um gesto, de uns. e a ouvir os estonteamentos de outros, perdidos, completamente perdidos.
ana ouve. ana analisa. ana pergunta e disseca. ana receita-lhes esperanças e prozacs, na sua caligrafia angulosa que criei só para ela.
ana é prática. ana é calmamente explosiva. ana hostiliza o paciente que não é paciente, é só chato, grunho e egocêntrico. e, para ele, a sua receita é um "deixe-se de merdas". porque ele pode não gostar de jazz, pode não comer sushi nem saber o que é a DKNY, mas tem a sua vidinha. vá vivê-la. ele pode.

ana é sensual. ana é volátil. ana tem andar felino. olhar inteligente. irónico. poderoso. luxurioso. e poucos reparam que triste. porque ana é uma caçadora-recolectora. para ana o amor não é, não é? e isso é típico da ana.
ana passa as noites em casa descalça a ouvir a sua música com um whiskey. puro. porque poucos sabem que ela gosta de sentir o frio do chão nos pés. a ligação à terra que só sente nos mosaicos. ou então, noutras noites de fumo e fogo, vai consumir um homem vazio até se alimentar completamente do seu suor, dos gemidos e dos braços viris, do ritmo cadente que a leva ao esquecimento. ana não é possuída, ana possui. para ana os homens são como os cigarros: "sabem bem, consomem-se rápido, e deitam-se fora". diz, na sua voz profunda, que me custa porque arranha cá dentro. como arranha dizer aquilo e saber que ana se arranha quando o diz.
é que ana morreu menina. e ana mulher chora sozinha. quando ninguém está a ver. e as lágrimas caem no mosaico do chão.
mas isso, só eu sei. porque eu sei quem é a ana. eu sou a ana.

Sax

entre dois luckies

uma janela abriu-se.
e entrou um vento quente...

isso é...

quando o patrão nos liga a meio das férias a dizer que se lembrou que quer mandar duas curtas a concurso...
quando até vamos fazer o jeito de interromper as férias para dar uma mão e descobrimos que uma das curtas tem um argumento daqueles que mete medo ao susto...
quando o tal argumento tem tantos erros de português que se passa mais tempo a corrigi-los e a sentir vergonha alheia do que a escrever textos para o projecto...
quando o autor escreve "abajur", "fallow spot", "flashadas" e "vou prosseguir em procura da busca de..."
quando na dissertação técnica sobre o projecto, o senhor usa pontos de exclamação como se tivesse descoberto a pólvora...
quando não compreendemos o que passa na cabeça de um pseudo-realizador, pseudo-freak quando escreve diálogos em que se disserta sobre o amor das putas com uma psicóloga...
quando a protagonista do tal guião é "de formas generosas, lábios sensuais e misteriosa, com uma grande paixão pelo jogo da sedução" e o protagonista tem "rabo de cavalo escuro e usa luvas de pele escuras"...
quando a outra curta nem sequer está escrita...
quando as candidaturas abriram há um mês e não se falou nisso, e fecham daqui a 3 dias...
quando cada projecto tem de ir com mais 5 cópias, encadernadas, em papel, porque os senhores não devem ter computadores em casa...