terça-feira, 6 de setembro de 2005

pontas soltas de vesperas de estreia

Sábado:
mobília já no auditório. fase de montar projectores, afinar. fase de começar a pensar nas merdinhas que faltam.
sair de casa, dar dois dedos de conversa para cravar uns salgados e doces de borla para a estreia à pastelaria do amigo. tomar o pequeno almoço. ir à drogaria cravar o lavatório de cozinha (que a casa de bonecas tem cozinha). conferir o conteúdo da mala de maquilhagem, acomodar os tarecos no carro, voar para Lisboa.
ir fazer as unhas porque já passou um mês sem manutenção e as mãos estão uma lástima. voar para o Colombo. boxers do outro, cabo de aço, tinta para o cabelo, calças vermelhas a 5 euros (o mac não me deixa meter o símbolo, bolas), cola de tecido para as bainhas, linha, toalha e correr as lojas à procura de umas outras calças que ainda não é desta que se encontram.
na azáfama de sacos e telefonemas, o lavatório que nos emprestaram este ano é mais pequeno que o do ano passado. vamos ter de fazer obras
voar para o Auditório. tirar as medidas e estudar a melhor forma de re-transformar o móvel-cozinha. vestir a Ana e o Chico, maquilhar a Ana, recordar o texto. chega a Alien. vamos gravar.
ir a Telheiras buscar o carro emprestado para a gravação. procurar uma rua com luz e pouco barulho.
- queres um cigarro?
vrrrrrrruuuuum
corta
- dás as tuas consultas em casa?
bonc bonc bonc bonc (três putos a saltar em cima de uma chapa de metal)
corta
- feliz dia dos...
ratatatatatata (camião do lixo)
corta
- queres su vvvvvvvv ir vvvv pou vvvv? (ventoinha de carro estacionado)
corta
- como?
beeep beeep (alarme de carro)
corta
11 da noite. levar a Alien a casa. voar para o Aki. não há tempo para mudar de roupa.
imagem dos vídeos de vigilância: um casal entra vestido de preto. ela de vestido justo de seda com grande parte da perna direita à mostra, saltos altos e óculos da moda. desfilam pelos corredores dos parafusos. ela tenta não escorregar no chão polido. saem com uma placa de madeira.
regressar ao Auditório. desmaquilhar. as luzes estão quase montadas. três piadas com quem lá está há horas de volta de filtros, racs e lâmpadas. vestir umas calças e começar a tirar as medidas. cortar a placa de madeira com um canivete suíço. no chão estava uma pastilha que se colou à placa. tentar com uma serra velha. pregar a placa no móvel. encastrar o lavatório. canção de vitória:
"já sei martelar, já sei bater no prego sem no meu dedo acertar"
pegar no rolo e acabar de pintar os elementos de cenário, fechados num armazém há um ano.
parar. olhar em volta. a desarrumação. os cheiros de tinta, palco e serradura. os olhares de cansaço orgulhoso. são 2 da manhã. não se parou para comer.

Domingo voltamos. para coser lençóis, fazer as bainhas, acertar outros tantos pormenores, acrescentar os novos vídeos ao multimedia e ensaiar. que também dá jeito.

ontem chorei. é complicado querer ajudar quem não quer ser ajudado. quem nos olha com indiferença como se o que dizemos não passasse de um chorrilho de disparates. quem não percebe que devia ouvir porque se há alguém que conhece aquela peça e as personagens são aqueles olhos que o miram com incredulidade. engolir os sapos e permanecer ali a insistir, à espera que se faça luz, porque se vê a colega a desesperar porque a cena está má devido a tanta falta de vontade. de sensibilidade. a essa aversão à direcção. as mesmas discussões que já tinham sido esclarecidas. as mesmas marcações que agora voltam a ser esquecidas deliberadamente. e a angústia de querer ver o espectáculo bom, muito bom. bem interpretado por todos, sem destaque para nenhum. podíamos já estar nos pormenores. as cenas de uns foram pouco ensaiadas para se insistir no outro. a sensação de que nada o demove, a dois dias da estreia. teimoso, insensível, com um grave problema em ser dirigido por mulheres, e estranhos curtos-circuitos.
a sorte é que o autor vivo tem tido tempo de lá passar e parece que aquela coisa "entre machos" resulta um pouco melhor.
a insegurança de não saber o que vai sair daquela cabeça lisa nos dias de espectáculo, em que não se vai poder parar as cenas e dizer que não é assim que está combinado. a sensação que algumas coisas foram passadas para segundo plano e a noção de que muito do trabalho podia estar fantástico se tivesse tido um bocadinho de atenção.
a sensação de falhanço. de exaustão. o abraço a duas, depois a três, depois a quatro, depois a cinco. a bonequinha-directora-de-cena acerta os últimos pormenores, enche os copos, prepara a roupa. esperar-nos-á entre cada cena de cabide e peruca em riste, para ajudar nas mudanças de personagem.
começar ensaio de luzes às 11 da noite.

"- it will all turn out well.
- how?
- I don't know, it's a mistery..."

segunda-feira, 5 de setembro de 2005

toma la mais 5... sem pensar

(isto vem do Run Away Man - não posso pôr o link, procurem "Os Porquês" aí ao lado)

Idiossincracias - as 5 menos
- egocentrismos e umbilicalismos
- maldade deliberada e gratuita
- mania de que um sorriso custa dinheiro ou provoca cancro
- incapacidade de se pôr nos sapatos dos outros, querer ouvir ou compreender, ou aceitar que toda a gente erra. a estupidez e as verdades absolutas dão-me engulhos
- desperdício de dinheiro e outras energias não renováveis e consequente subaproveitamento dos valores renováveis que há por aí em bruto

Idiossincracias - as 5 mais
- a minha família
- os meus "polegares"
- o palco
- música
- viagens e livros (outra forma de viajar)

5 Álbuns (bolas... olha, ganham os que vierem primeiro à cabeça)
- Canções Subterrâneas - A Naifa
- Swing when you're winning - Robbie Williams (ouçam antes de gozar, fashavor. é o álbum das oldies...)
- Mezzannine - Massive Attack
- AM-FM - The Gift
- Welcome to the Cruel World - Ben Harper

5 Canções (ou o que é que acordei a cantar hoje - se me perguntarem amanhã já mudou)
- I could write a book - Ella Fitzgerald
- numb - U2
- os milagres acontecem - A Naifa
- unfinished sympathy - Massive Attack
- 11:33 - The Gift
- sexual healing - Ben Harper
- crabbucket - K-os
(já passei? escolham um e eliminem :P)

5 Álbuns no IPod ou outro
- oh, e tenho lá dinheiro para essas coisas! uma pen foleira de meia dúzia de Euros com umas quantas músicas, mas não um álbum toooodo, quanto mais muitos. no carro circula uma mala cheia de cds... é o meu Ipod. mas não me obriguem a pensar no que lá tenho... gravo muitos cds de selecções minhas. olha, gosto de bandas sonoras de filmes. e sim, adoro musicais. não me falem no Chicago e no Moulin Rouge que correm o risco de me ouvir cantar durante horas... e é mau, muito mau...

5 MP3 na playlist
(pois eu, há uma semana, tinha rádio online... ouvia antena 3, e no carro a Radar. agora tenho mesmo de ter as músicas gravadas aqui. grrrr para o Mac e as incompatibilidades autistas.)
- letter to S. e The 80's - David Fonseca
- let's call the whole thing off - Louis Armstrong e Ella Fitzgerald
- unwell - matchbox 20
- take me away - lifehouse
- forever more - moloko

e a listinha vai paaaara:
Espanta-Espíritos (a ver se assim mete um raio de um post e actualiza o blog dele)
Colher de Chá (ou a boneca de sardas dos Cariocas de Limão que vê as vedetas abanarem-se)
Miak (o Duende Feliz que também tem Medo do Escuro)
Nuno Catarino (do Alquimia Submersa, e Chá de Magnólia e Forma do Jazz)
Cassiopeia (tenho saudades tuas!)
O Estranho (bienregressé)

já passei o limite, mas estou-me a marimbar. passava ao Nuno mas ele acabou com o blog (parvo).

num lar...

he tells her
"I wanna paint you naked on a big brass bed,
with bright orange poppies all around your head"
and she says
"you crazy old man, I'm not young any more"
"well that's allright", he whispers,"I've never painted before"

do you love me lady Jane, lady Jane?
do you love me lady Jane, lady Jane?
you've got me talking to the moon
you've got me walking in the rain
do you love me, do you love me
lady Jane?

"oh, and I wanna read you tea leaves by candle light
on a fat red velvet sofa I wanna be with you all night
I wanna tickle your feet with a peacock plume"
and she says
"can you talk a little softer?
there are people in the room"

do you love me lady Jane, lady Jane?
do you love me lady Jane, lady Jane?
you've got me talking to the moon
you've got me walking in the rain
do you love me, do you love me
lady Jane

and she says
"my children brought me here and promised me they'd call
but you know kids forget that's just the way of it all"

and he says
"well that makes us both footloose and fancy-free
so Jane do you wanna come see the painted desert with me?"

do you love me lady Jane, lady Jane?
do you love me lady Jane, lady Jane?
you've got me talking to the moon
you've got me walking in the rain
do you love me, do you love me
lady Jane

do you love me like I love you, lady Jane...?

. Painted Desert Serenade - Joshua Kadison, 1993 .

sexta-feira, 2 de setembro de 2005

orgulho

não quero questionar.
não quero pensar no que vai custar. o tempo vai passar e aquelas pedras seculares serão então uma recordação. a seu tempo.
não volto atrás. agora não. a última corda partiu-se. foi cortada à revelia.

agora resta-me ir à que, cinicamente me diziam, ainda era a "minha casa". pegar nos livros que levei para lá para aprender a ajudar-nos melhor, nos cds de músicas que usava para ter companhia mais presente que os fantasmas. cheirar aquele ar pela última vez e recuperar na boca o sabor da amargura. ouvir os ecos dos risos daqueles corredores cheios dos espíritos que lá andaram. que estrearam sozinhos num teatro inundado, que fizeram de madeiras podres algo digno, que se cansaram em dedicação, que pentearam e montaram, desenharam, pintaram, viveram, deram e receberam.
porque, apesar de tudo, de saber de tudo, eu queria continuar a lutar, saber que faria parte daquele grupo de pessoas cujos braços tinham ajudado a fazer algo de bom, de melhor. e por tantos momentos presenciei e saboreei essa possibilidade materializada. vi um grupo de gente unida à volta de um objectivo maior. era palpável, esteve ali. quando já muito poucos acreditavam, e quando ninguém apoiava, havia quem lá estivesse e fizesse acontecer.
perderam. perderam o que de melhor tinham. a juventude, a alegria, o empenho e a paixão foram eliminados da lista, um por um. eu fui mais uma. mas as opções não eram minhas.
as circunstâncias são de rir. gostava de ser mosca para ver um certo elenco agora reduzido a um fetiche, um janado, uma fumadora manienta, um miserabilista indeciso e duas bichas espampanantes. quem vai carregar com o cenário?

já tinha caído uma vez no erro de voltar a acreditar.
aprendo, agora, a baixar os braços.
eu podia apenas provar que sabia e conseguia. e provei. ao menos fico com isto.
adeus, Teatro Ibérico.

quinta-feira, 1 de setembro de 2005

vertigo

os sofás são uma mancha de cores gulosas no corredor.
hoje vamos para a nossa casa. montá-la.
o computador já tem os tesouros guardados, retalhos das vidas que oportunamente se reproduzirão (também) numa tela branca. a teia de pessoas, de vidas e estórias de cada um daquelas 13 pessoas tecida, em sintonia, entre o preto e branco e as cores.
as músicas voltaram a tocar na nossa cabeça e os sentidos misturam-se com as recordações.
corpos cansados de dias completos, sem paragens, sem descansos. nunca mais é dia... e no entanto falta tão pouco...
agora começam os retoques, os pormenores, aquela lista infindável de pormenores.
cabos, cordas, tintas, pregos, tecidos, agulhas, papéis, projectores, telas, copos, pratos, coraçõezinhos, almas, pôr um visto em cada palavra.
à hora de contar a história para o veludo frio e ver se as personagens já chegaram, o corpo já não está para nada nem ninguém. a cabeça explode. o medo...
as caras conhecidas que aparecem para completar aquele pequeno núcleo duro, trazendo as suas artes e os seus amores, unindo-os aos nossos sem pedir nada em troca. porque, no fim, se só sobrar para um café, tomá-lo-emos juntos com um sorriso de missão cumprida. a história estará contada. todas e cada noite.
o resto, fica nas mãos de quem comprar bilhete.

quarta-feira, 31 de agosto de 2005

inocencia...?

acredito em cada um. e que muitos são mais e melhores. e que todos podem ser mais e melhores.
acredito no caminho. acredito no objectivo. acredito na vontade.
acredito nisto porque preciso de acreditar. acredito demais.

terça-feira, 30 de agosto de 2005

imac-ginem esta!

os homens, no geral, são umas crianças grandes. depois dá nisto: estou neste momento a tentar descobrir o admirável mundo novo do enorme IMAC que tenho à minha frente, muito bonitinho e branquinho (estas teclas vão ficar pretas num instante)...
vai uma pessoa três dias de folga e regressa para dar de caras com isto...

ora o senhor patrão Porthos há uns dias resolveu que precisávamos de um computador novo, de preferência um Macintosh por causa dos vírus.
enquanto que para pagar as contas temos de esperar meses até que nos cortem o telefone e ele se resolva a fazer os pagamentos, neste caso o menino quis porque quis ir buscar o brinquedo novo... imediatamente.
meu dito, meu feito: fala-se em ter computador novo na 3ª, na 4ª faço os backups, na 2ª chego ao escritório e que é do meu querido velhinho lento e pacholas PC? que eu demorei 2 meses a conhecer de trás para a frente e do avesso para o direito? cujo sistema operativo é o único que conheço desde que comecei a dar os primeiros passos na área da informática, com o qual tirei os dezassetes e os dezoitos?

agora ando às voltas com as teclas das maçãzinhas e o raio que o parta, porque tudo tem de ser um bocadinho diferente, só para chatear o utilizador. os textos aqui do blog vão aparecer na formatação que bem der na veneta deste MAC porque os menus aparecem alterados, já não posso fazer links, ou um ajustamento do texto que seja e muito mais coisas hão-de haver... não estranhem as alterações de personalidade deste pobre blog... pelo menos enquanto eu não perceber como é que funciona esta magnífica máquina infernal.

ai, mas fui logo à cata do messenger para MAC... e eu agora ficava info-excluída, não? é que, cá por mim, eu sou muito gaija!

e os gajos, realmente, quando querem, fazem o que têm a fazer. tomam iniciativas, vão às coisas, lutam, desunham-se...
o problema é quererem...

segunda-feira, 29 de agosto de 2005

torre

subo as escadas de madeira e chego ao topo da torre de marfim, de onde olho o mundo nesta última janela. telhados e copas de árvores. nada mais. entre tantos pássaros escolho um onde me escondo. peço-lhe que mande um recado ao mundo.
um dia falei a alguém de torres de marfim. e de um grito que partiria a redoma de vidro.
há pouco tempo acordei numa cascata onde misturei no doce o salgado das lágrimas e me lavei da tristeza. não espero mais, agora. posso abrir a porta. o cadeado estava congelado com o choro frio nas noites longas de luzes veladas. bastou um toque e partiu. a espera do toque é que travou a vida. será recuperável?

sexta-feira, 26 de agosto de 2005

não explodi...

apenas estarei de folga três dias para ver se acabo o resto das "férias" que me tiraram. obviamente que surgem sempre coisas para fazer e descansar é mentira...
ontem fui com a B. comprar sapatos para as personagens... assim que voltar ao bulício do Príncipe Real prometo inserir as fotos da nossa expedição imperdível... as coisas que se descobrem quando andamos às pechinchas nas lojas da Baixa... considerámos repensar algumas personagens para incluir alguns do apetrechos que nos foram aparecendo pela frente... ainda estou a considerar aquele fato de cabedal com correntes para a sensual Ana... vou também aproveitar para actualizar o meu projecto de thumbwork... não está esquecido, caros leitores d'A Palavra deste Blog... ;)

entretanto, ontem houve Gift, conforme planeado há uns meses... ombros e cabeças à discrição. mas aquele som, aquelas batidas a entrarem dentro de mim... obrigada a quem arranjou maneira de acabar o ensaio mais cedo. apesar de quase 1 hora à procura de estacionamento, aquele pedaço de música foi um prémio bem ganho...

quarta-feira, 24 de agosto de 2005

ainda sobre a cola...

tenho medo de acender um cigarro...

onde tá?

fiz um refresh no blog e eis senão quando percebo que a minha side bar não está presente! alguém a viu? deve ter fugido, coitadinha, afugentada pelo cheiro a cola que se espalha nos corredores deste multicentro de escritórios, onde estão a haver obras. se há pouco gostei de sentir o cheirinho quando entrei, agora já me arde o nariz...
... esperem lá...
e se o desaparecimento da side bar tiver a ver com o facto de eu ter inalado estes vapores e já não estar a ver a direito...?

colorida de fresco

a nossa casinha é de cores frescas, pistachio e tangerina. altamente comestível, doce e salgado.
a aventura no reino dos sofás, puffs e cadeirões começou na fila da segunda circular, na antecipação do que "dava jeito"..."dava jeito, e depois nunca se sabe!"
quando nos deram mais uma vez carta branca para subir e escolher à vontade, (muitos anos que passemos a ir lá, ficaremos sempre atónitos), entrámos no reino das "linhas", do "tem a ver com a personagem", no "encaixa", no "preenche demasiado espaço visual", no "olha pra mim toda boa a dar consultas" e no "este ficava bem era na minha sala"... de repente, tínhamos uns quantos selccionados, e portanto havia que proceder a eliminações. ora assentando o rabiosque nos mais variados tecidos e formatos, procedemos aos test drives e combinações de formas e cores, e as possibilidades foram-se estreitando. no final, foi fazer o pandã das cores para "equilibrar a cena" (que nós, os pobrezinhos, também usamos termos técnicos...) voltar a experimentar as poses das personagens e a imaginar o tamanho do colega, que não foi, encaixado na selecção. esta dança do traseiro é fundamental, porque, afinal, queremos a nossa casa bonita e confortável. é que vão ser os nossos rabinhos ali "assentados" durante um mês.
embalar tudo com celofane e encaixar na carrinha foi mais fácil que no ano passado. o compasso de espera no escritório à espera da guia de autorização foi passado em amena cavaqueira com a rapariga da loja, bebendo café e partilhando um cigarro, em que uma dizia que gostava de ser presa por fraude para ter férias uns meses, e o outro dizia que o sofá-cama tinha de ser bom porque passávamos o tempo todo lá... a rapariga ria-se.
depois foi levar para o teatro e experimentar. e que delícia ficou. uma casa gulosa, diferente das cores sóbrias do ano passado, mas clean e hype, como deve ser o ambiente da coisa.
ontem os ensaios correram de olhos brilhantes, faltando muito pouco para ter perfeita noção do aspecto final. ainda vou raspando os joelhos na alcatifa, que a nossa cama ainda é uma pilha de almofadas, mas a piéce de resistance está para chegar em breve...
entretanto, tenho a certeza que a minha mãe vai achar que fui eu que obriguei o pessoal a escolher o cenário. eheheheh...

terça-feira, 23 de agosto de 2005

próxima estação: cenário

off we go, to furnitureland!
vamos pegar na carrinha escamocada, encaixar-nos nos lugares da frente, e, depois de um dia inteiro de trabalho, debaixo deste calor peganhento, fazer a ronda da mobília para a nossa casa encantada. déjà-vu.
ele vai ser escolher e embalar os mais diversos formatos de sofás, cadeirões, puffs... carregá-los para a carrinha e da carrinha para o teatro onde estamos a ensaiar. a sorte que é encontrar lojas que vendem mobília de contos e contos de reis mas que praticam O Bem, emprestando o material de exposição aos pobres artistas que não conseguiram uma borla da Tribo... "Azioni, sofás com um toque de classe" obrigada!
para a semana, apanhamos o resto da tralha e levamos tudo para a morada fixa, o Auditório Carlos Paredes.
e vamos remontar tudo, reviver cada pedaço de madeira, cada cheiro de tinta, cada marca nos lençóis brancos que não saiu depois de 3 lavagens. ainda soam na minha cabeça as marteladas, a lixa a raspar na madeira, as risadas e as discussões, o barulhinho dos parafusos espalhados no chão. e a imagem daquele branco imenso.
vai ser bom reviver isso, mesmo com os músculos das costas a pedirem piedade.
saio mais cedo, com outro sorriso, hoje. vou "comprar mobília para a nossa casinha"...

companhia

no peso destes dias sem gente, dei por mim a ir ao Extra comprar uma revista foleira só para não almoçar com as paredes.

pessoas

gosto de pessoas. sempre o disse. gosto dos seus rostos, expressões, histórias, estórias, e pequenos sorrisos que surgem do nada. gosto de ter surpresas. gosto de ser ombro e que surjam do nada gestos engraçados. acho que seria uma boa profiler e já me atestaram qualidades como psicóloga. gosto de imaginar, no metro, quem será aquele desconhecido, de onde vem, para onde vai, porque é que coça a cabeça assim.
adoro brincar com tipões. apesar de saber que cada indivíduo é único, as caricaturas apaixonam-me.
no entanto, todos têm defeitos, todos a certa altura desiludem.
acredito piamente na mudança, na regeneração. dou sempre segunda, terceira hipóteses. nunca fecho portas.
apesar disso, há pequenas desilusões diárias que me magoam às vezes mais que as grandes. não sei como explicar.
as pessoas falham redondamente nos seus objectivos, na sua maneira de ser até, talvez porque não contam com a teoria do caos, com os factores externos, porque estão demasiado certas das suas virtudes e verdades absolutas. com isso eu conto. conto com o contexto, o background emocional e profissional, com a temperatura ambiente, com as pessoas que estão à volta e o que se comeu ao almoço.
até conto previamente com certos defeitos... ou feitios... quem tenta virar o bico ao prego, quem açambarca créditos alheios, quem é naturalmente convencido, quem se descarta, quem não assume incapacidades, quem não reconhece qualidades alheias, quem é pedante e critica os outros de o serem com observações tristes, quem é tão umbilical que conta histórias deturpadas para se poupar da culpa.
há momentos em que engolir custa. normalmente não consigo.
(há, inclusivé, quem conte com esse meu defeito... ou feitio... e não me leve a mal ou até me consulte para ser mandado à merda)
outros momentos há em que tento fazer de conta que nada se passa. porque gosto da pessoa, porque é comigo (e não o contrário), porque são coisas a que, pensando ponderadamente (ui, coisa complicada) eu sei que não se deve dar valor.
mas fica aquela moinha, aquela mágoa... aquele bichinho a moer...
depois pode acontecer uma de duas coisas: afastamento natural, ou explosão emocional.
bicho estranho, este do eu de cada um...

segunda-feira, 22 de agosto de 2005

adenda

contando comigo, são 4 gajas a habitar-me o corpo e a mente...
senhores, imaginem o galinheiro!
imaginem como não é quando se avizinha a TPM!

ela

ela é indescritível em palavras ou metáforas. ela não consegue ser pintada de mulher, porque tem pouco de real. ela é tão bonita como só os anjos e as fadas.
por isso ela é etérea, volátil e deliciosa.

ela tem de menina o beicinho e de mulher o olhar provocante. ela está sempre bem disposta.ela é o sorriso guloso, o olhar divertido, o brilho comprometedor de uma vela solitária.
ela desliza nos lençóis brancos entre a dança e o desejo.
porque ela é a languidez dos lençóis quentes num dia de chuva. mas também a sofreguidão do querer.
ela é a sensação de beijos doces, do abraço interminável.
e ela salta nessa cama e brinca sem pudores, em roupa interior que revela a pele nua.
ela apetece.
ela são cabelos compridos espalhados na almofada e uma silhueta feminina em contra-luz, espalhando nas palavras a brisa da janela aberta.
ela disserta sobre homens e mulheres como se não fosse nenhum deles.
ela é impulso.
ela é pele na pele dele. é a vida do amor soprado em golfadas mornas preenchentes. ela é uma cascata. de água pura e doce. é uma banheira de espuma e água quente. é gelo deslizado pelas costas num dia de calor. é todos os clichés bons da vida, todas as coisas simples. todas as coisas especiais, únicas. como um sopro naquela gota de suor que escorre do pescoço.
ela enrola as suas pernas à volta da cintura dele e deixa-se ficar na sensação de completo.
ela completa-se no abraço terno e dá de beber a sua pele.
porque ela é yin e só existe porque há o yang.
ela é conversa de almofada.
ela existe em todas as mulheres naqueles minutos em que se joga conversa fora depois de fazer amor. em que ainda se está embriagado de cheiros doces e plenitude. em que só há duas pessoas no mundo. nesses momentos, a mulher perfeita é ela.
eu sou ela.

Ana, Rita, Ela... as três mulheres da minha vida...

Sax - 4 actores, 12 personagens, 1 cama . de 7 de Setembro a 1 de Outubro no Auditório Carlos Paredes . Benfica

sexta-feira, 19 de agosto de 2005

moinho de vento

voei por entre verdes e cinzas e riscas brancas.

cheguei lá e o coração levou-me ao topo do monte.
onde fui menina e apanhava amoras e fazia de canas os meus cavalos de pau e esfolava joelhos e, bebé ainda, brincava numa banheira insuflável com caixas de colgate. com uma baía como cenário, mato cerrado à volta e bancos de areia, onde rebolei.
onde comia as bolas de berlim na praia.
sentei-me na mó e voltei a ver o meu pai de faca do mato à cintura, a desbravar o caminho no primeiro dia de férias.
e a minha mãe de caracóis pretos a ondular ao vento.
a minha avó comigo ao colo.
e o velhinho Bugui a dormir à sombra da mesa de pedra onde comíamos as saladas de atum num tupperware, quando não havia mais dinheiro que o suficiente. quando não havia mais que tantos, tantos sorrisos.
agora está fechado, mas sei que sei voltar. e sei que aquelas paredes foram brancas, as janelas estavam abertas, cheirava a mar, pinheiros, eucaliptos e doce de amora e ainda lá deve estar a minha cama de bebé no andar de cima, ao cimo de umas escadas de pedra em caracol.
trouxe uma pinha comigo, daquelas que se usavam para acender a fogueira.
e nessa noite dormi embalada com os sons do vento no moinho.

V., para ti

apesar de ter andado a falar de pessoas-personagens, que vivem em mim e numa caixa gigante com um quarto iluminado por holofotes e esperança de vida de hora e meia, hoje vou falar de uma pessoa-pessoa.
V. era a beta que me irritava nos primeiros tempos da faculdade. mas estávamos sempre juntos, todos, naquele grupo heterogéneo de gente que vinha da mesma zona e apanhava o mesmo metro das 7 da manhã. e, apesar das diferenças, da fase da vida por que eu estava a passar, a V. entranhou-se em mim. devagar.
a V. mudou e eu mudei, somos assim, gente, pessoas, e a formação da personalidade é diária. e assim nos entranhámos uma na outra, fugindo das aulas para jogar matraquilhos, indo para o café fumar os primeiros cigarros ás claras, gozando com o "Manel" e partilhando ideiais de esquerda fomentados ainda mais pela faculdade reaccionária onde aprendemos as teorias todas de livros anteriores (obviamente) a 1974.
a V. já não é beta e eu já não uso sempre calças de ganga... agora eu também gosto de marcas e a V. está mais doce e vamos as duas ao "horroroso" Colombo.
os "loucos anos" passaram-me despercebidos, porque ser louca era normal. afinal, estava acompanhada de outros. e V. destacou-se. pela preserverança. pelas certezas absolutas do que queria. e pelo acompanhar do crescimento e decisões da minha vida. com as opiniões muito próprias e muitas vezes diferentes das minhas. que aprendemos a respeitar uma na outra. sem que, espantosamente, isso nos afastasse.
já aqui falei dela. dos nossos disparates.
mas recordo também as infinitas conversas sérias. nas piscinas e no carro antes e depois das aulas de step, para onde me arrastou.
V. tem uma personalidade muito muito muito vincada. desde sempre soube o que queria e ainda acredito, depois destes anos todos, que um dia ainda a vou ver num Iraque da vida de camuflado, no meio do pó, a falar do avanço das tropas, debaixo de fogo cerrado. e a imagem da rapariga de nariz arrebitado cheia de sardas de capacete cheio de folhagens maior que a cabeça faz-me sorrir.
a vida levou-te onde precisavas de estar. tenho a certeza disso.
gostei de entrar na SIC de braço dado contigo para o teu primeiro estágio. de dar-te bateria para o velhinho Y10, de fazer-te "as unhas" à borla quando saías do trabalho para bebermos café. de apanhar a minha única bebedeira pública contigo, enquanto esperávamos que o teu destino se viesse encontrar conosco daí a pouco.
gostei que me mandasses aquela primeira carta, que estivesses sempre na plateia, que gozasses com o meu cabelo amarelo, que me desses umas dicas sobre uns certos bruxedos, que me lesses o tarot, que me preparasses aquela fantástica surpresa no aniversário, e que me fizesses chorar no messenger quando me forçaste a admitir que não, ainda não estava bem.
V. é carisma, sentido de humor tramado, inteligência, sangue quente boca fora e sangue frio no trabalho, V. é amor à camisola e noitadas de conversa num sofá qualquer. V. é Londres e Camden Town. E a V. é a única que conseguiu ser, de facto, aquilo para que tirou o curso. V. é capricho e, lá bem no fundinho, a ver se escapa, um coração muito muito grande. V. é uma daquelas amigas.
parabéns, querida. um beijinho

quinta-feira, 18 de agosto de 2005

esta juventude...

o encontro de afinidades moderno já ultrapassou largamente o "não me digas que também frequentaste essa piscina nessa altura?!" ou "não acredito: também andaste nessa faculdade?!" ou até "também tens pancada por esse filme?"

hoje em dia é mais intenso, mais arrebatado, mais fashion, mais trendy, mais... tudo:
"não me digas que também tens ataques de ansiedade?!"

caros amigos e leitores e seguidores fiéis d'A Palavra deste blog: conheçam a praga do século XXI!