sexta-feira, 12 de agosto de 2005

último cigarro antes de fugir

sentou-se. meia Lisboa já gravada nas solas dos sapatos, à hora quente do suor incontrolado.
era o último cigarro antes de fugir.
para lado nenhum. mas podia sair daquele abafado. das paredes brancas e da nudez da alcatifa, tão solitária como o Romeu triste do cartaz.

os recados estavam feitos, e já conhecia os tempos biológicos da menstruação da senhora da segurança social que ia de férias nessa tarde. até lhe preencheu o formulário cheia de boa vontade, para que a tinta da bic cristal lhe levasse mais uns segundos ao relógio.
depois lembrou a menina do metro de olhos cheios de lágrimas sonolentas que fixara, até ser vencida pelo João Pestana, as suas unhas dos pés pintadas do laranja quente do sol lá fora.
e a senhora dos brinquedos de lata que, fechada na loja vazia - porque cara - desarrumara a montra para cima do balcão só para poder conversar mais um pouco, só para ver um sorriso desconhecido e interessado por um bocado.
toda a gente à espera que o tempo passe para chegar a algo.

era só pegar nas chaves e na mala que lhe doía nos músculos para poder sair. no entanto, a inércia. o mirar sem ver a ponta dos dedos, os rasgões definidos das palmas das mãos. o encontro dos olhos com um nada que lhe sugava as forças e lhe tremia nos braços. o tal último cigarro desnecessário.

lançou a última golfada de fumo com a força de quem expira dentro de água salgada, entre braçadas. saudades do mar. do sal que não o do seu suor. do sal que não o seu.

this side up

frágil.
hoje talvez chore...

lamechas



ela estava feita princesa, vestida de nuvens.
ele muito nervoso não parava de falar.
ele é trapalhão, mas até acedeu dançar.
foi um momento bonito, muito bonito.

hoje estou lamechas. processem-me.

quinta-feira, 11 de agosto de 2005

ana

ana é psicóloga, e está nos vintes e uns trocos. ana veste de preto. ana ouve jazz. ana anda sempre de saltos altos. ana fuma muito. ana usa óculos. pretos.

ana passa os dias sentada no seu consultório, em casa, a ouvir as tristezas dos outros.
ana passa os dias a ver a felicidade ao alcance de uma palavra, um gesto, de uns. e a ouvir os estonteamentos de outros, perdidos, completamente perdidos.
ana ouve. ana analisa. ana pergunta e disseca. ana receita-lhes esperanças e prozacs, na sua caligrafia angulosa que criei só para ela.
ana é prática. ana é calmamente explosiva. ana hostiliza o paciente que não é paciente, é só chato, grunho e egocêntrico. e, para ele, a sua receita é um "deixe-se de merdas". porque ele pode não gostar de jazz, pode não comer sushi nem saber o que é a DKNY, mas tem a sua vidinha. vá vivê-la. ele pode.

ana é sensual. ana é volátil. ana tem andar felino. olhar inteligente. irónico. poderoso. luxurioso. e poucos reparam que triste. porque ana é uma caçadora-recolectora. para ana o amor não é, não é? e isso é típico da ana.
ana passa as noites em casa descalça a ouvir a sua música com um whiskey. puro. porque poucos sabem que ela gosta de sentir o frio do chão nos pés. a ligação à terra que só sente nos mosaicos. ou então, noutras noites de fumo e fogo, vai consumir um homem vazio até se alimentar completamente do seu suor, dos gemidos e dos braços viris, do ritmo cadente que a leva ao esquecimento. ana não é possuída, ana possui. para ana os homens são como os cigarros: "sabem bem, consomem-se rápido, e deitam-se fora". diz, na sua voz profunda, que me custa porque arranha cá dentro. como arranha dizer aquilo e saber que ana se arranha quando o diz.
é que ana morreu menina. e ana mulher chora sozinha. quando ninguém está a ver. e as lágrimas caem no mosaico do chão.
mas isso, só eu sei. porque eu sei quem é a ana. eu sou a ana.

Sax

entre dois luckies

uma janela abriu-se.
e entrou um vento quente...

isso é...

quando o patrão nos liga a meio das férias a dizer que se lembrou que quer mandar duas curtas a concurso...
quando até vamos fazer o jeito de interromper as férias para dar uma mão e descobrimos que uma das curtas tem um argumento daqueles que mete medo ao susto...
quando o tal argumento tem tantos erros de português que se passa mais tempo a corrigi-los e a sentir vergonha alheia do que a escrever textos para o projecto...
quando o autor escreve "abajur", "fallow spot", "flashadas" e "vou prosseguir em procura da busca de..."
quando na dissertação técnica sobre o projecto, o senhor usa pontos de exclamação como se tivesse descoberto a pólvora...
quando não compreendemos o que passa na cabeça de um pseudo-realizador, pseudo-freak quando escreve diálogos em que se disserta sobre o amor das putas com uma psicóloga...
quando a protagonista do tal guião é "de formas generosas, lábios sensuais e misteriosa, com uma grande paixão pelo jogo da sedução" e o protagonista tem "rabo de cavalo escuro e usa luvas de pele escuras"...
quando a outra curta nem sequer está escrita...
quando as candidaturas abriram há um mês e não se falou nisso, e fecham daqui a 3 dias...
quando cada projecto tem de ir com mais 5 cópias, encadernadas, em papel, porque os senhores não devem ter computadores em casa...

template

um dia perguntaram-me porque é que o meu blog era preto.
se tinha tanta vida, disseram. se os textos foram aos poucos ganhando cores novas.
olha, não sei...

quarta-feira, 10 de agosto de 2005

tatuagem

não existes na pele, porque os dedos que te marcaram fundo ainda não te desenharam. não a cores, não a preto e branco, não ainda.
esperas no papel a materialização da aliança. com a noite. com a vida.
com o brilho forte de um ser que me penetrou e encantou.
sinto a volta, a curva perfeita que hás-de descrever em mim. como descreves em mim de cada vez que surges nua, exposta, suave e intensa, dançando fulgores e sonhos de criança de olhos postos em ti.
serás em mim o traço fino definido há tanto tempo, agora revelado. do preto para o branco, volta ao preto na pele dourada.
fundimo-nos em longos raios de serenidade para explodirmos na loucura.
ninguém te conhece. ninguém me conhece. assim não.
somos mulher. não tenho mistérios e melancolias tuas. tenho as minhas. e quero um pouco do teu brilho. do teu enigma.
ainda, no caderno preto, à tua espera. à espera que entres em mim.
serás assim no dia que marcar o dia que marcar a minha pele. aguardo o momento certo, sem pressas. agora já não.
crava-te. segura-me.
lua tatuada em quarto decrescente.

em resposta ao duende feliz

teaser #3

[de gajos, gajas e sinais...]

Francisco - Ligou-te e quer jantar contigo... Só falta pôr um outdoor daqueles bem grandes que cobrem os prédios!

Marques - Que é que queres dizer com isso!

Francisco - Ela quer voltar para ti, pá!

Marques - Chico... Nós estivemos casados 4 anos, 2 dos quais foram passados a preparar um divórcio doloroso, que já passou e estamos bem assim muito obrigado, há um ano e uns trocos...
...Próxima pergunta se faz favor!

Francisco - Estará ela interessada? É ela que te telefona, é ela que marca a data... só falta ser ela a pagar!

Marques - Dava jeito!

Francisco - Dava jeito... e depois nunca se sabe!

Marques - ...Ela quer é amizade.

Francisco - Ela está a dar sinais!... Isso significa que ela quer alguma coisa!

Marques - Porra! Não me venhas com essa agora dos sinais!... Se as mulheres querem uma coisa, que peçam essa coisa!...

Francisco - E estás à espera de quê? De um pedido formal autenticado pelo notário? Ela marca um jantar romântico e...

Marques - Ela quer ir ao rodízio, Chico!
É romântico, não é?...
“Querida, agora que estás a mastigar essa picanha ensanguentada... lembrei-me que tenho algo para te dizer...”
“Licença senhor... Maminha?”


Sax . 4 actores, 12 personagens, uma cama.

entre letras...

... me perco, sem nexos aparentes. não interessa. gosto de palavras.
gosto da palavra "palavra". os lábios tocam-se ao de leve. desliza na língua e brinca na saliva. outras duas palavras bonitas.
"bonita" é bonita porque se mastiga e degusta.
os arrepios dos cantos ao ouvido, sempre entre sussurros quentes, perdem-se-me e fazem-me levar os dedos ao pescoço. é pele, e "pele" também se saboreia. a palavra e o sentir.
gosto de sabores. dos doces. sou gulosa e gosto de coisas gulosas. gosto de palavras e doces, salpicados de canela.
e gosto de maçã, e morango. gosto de como ondula: mo-ran-go. o "g" também é guloso, toca no fundo da boca.
gosto de tocar com a língua no céu. da boca e do mundo.
e gosto de enfiar-me por desconexos momentos onde me enrolo e enrolo os cabelos. como a língua a falar francês.
e o ressoar do ar nas cordas. podiam ser violinos. ou um piano. é som. é, sim.
é a pequena brisa, o pequeno vento ("vennnnto") privativo que cada palavra tem. tem hálito quente, mas sabe a lábios frescos.
gosto de lábios. e sorrisos. sem sons de grande revelação, é das minhas palavras preferidas. porque se dão. só, assim.
e beijos e beijinhos. e carinhos. e "inhos" no geral. já me disseram que a minha Lisboa é "feita de diminutivos".
se calhar, como sou pequenina, também me encanto em encantamentos de tamanhos reduzidos. "encantamento". bonito, não é?
brincar assim, de letra em letra, como se de nada fosse feito o riso. como se descalça na cozinha, ouvindo o fervilhar do jantar, pudesse entre cigarros e cheiros de petiscos, ler Pessoa à janela. porque não? o Pessoa é boa pessoa, e escreveu para se ler. ler poesia como se lê um separador de livro. não precisa de ser grave. precisa de ser.
maravilhas da dicção, da palavra e do falar. não interessam as bocas, interessam as formas. que se moldam à nossa boca.

terça-feira, 9 de agosto de 2005

teaser #2

[pillow talk]

Ela dá um pulinho infantil em cima da cama, meio elétrica e dispara uma exigência:

Ela- Quero um elogio!

Ele-Hã?

Ela- Agora! Rápido...

Ele- (enrascado, improvisa) Errr... "És tão bonita...
cheiras a hortelã... gosto tanto de ti... hã..."

Ela - (risos) Que merda é essa?

Ele - Opá, foi o que saiu...

Ela- Vá lá, a sério. Usa a cabeça...

Ele-...E és lindíssima e tens umas belas mam...

Ela- A-ou-tra-ca-be-ça!

Ele- Ok! Ok!... Espera, Espera...

Ela- Siiiiim?

Ele- (compasso de espera) Ok! Tu és tão bela, tão importante e tão magnífica... tão preciosa para mim... que algo de muito chato está para acontecer na minha vida...


Sax - 4 actores, 12 personagens, uma cama. De 7 de Setembro a 1 de Outubro, de 4ª a Sábado, Auditório Carlos Paredes.

humor de padre

- o marido tem de ser sempre correcto e respeitoso com a esposa, não pode pôr e dispôr. desengana-te, meu caro, porque tens de te lembrar: Deus é teu pai, e é também pai dela, o que faz dele teu sogro... e com os sogros há sempre que ter cuidado...

sexta-feira, 5 de agosto de 2005

thumbwork

anda a circular um desafio na blogosfera a que achei imensa piada.

Think of 3 pictures you'd like to see. Things around my house or whatever... something I can take a picture of easily. Once I have enough requests, I'll start posting them. If I can't or won't take a picture of something you've requested, I'll let you know.

tendo em conta que tenho algum tempo extra em mãos, venham os pedidos.

ah, mas olhem o nível :P

too darn hot

escrevo isto no computador de casa, num sótão forrado a madeira onde não circula... nada.
só o suor que teima em encharcar-me e faz-me perguntar para que é que tomei banho hoje.
mas a questão não é o calor.
esse vem com o verão.
ontem saí dos ensaios no meio de uma neblina espessa e sufocante. não trazia aquela humidade que, em movimento, refresca.
era escura e estava por toda a cidade. por toda a auto-estrada. pela minha localidade e sabe-se lá por que outras zonas.
quando abri a porta de casa, ardiam-me os olhos, as narinas. o cheiro de terra perdida, morta, ainda quente esteve por toda a viagem. não vi chamas, brilhos incandescentes... mas estavam presentes pelos 30 km que percorri.
hoje está nublado por aqui. mas é a tal película de fumo feia, baça. e o cheiro mantém-se.
já há 3 casas per capita, não é o que dizem? já temos as aldeias descaracterizadas, as cidades cheias de casas vazias, algumas pejadas de prédios vazios para venda há anos... é o caso de uns à entrada da minha terrinha.
quem ganha? eu não sou.
quem é essa gente sem alma, que nunca respirou fundo o cheiro dos pinheiros e eucaliptos? que nunca brincou com uma pinha, que nunca apanhou flores e amoras no campo? que nunca teve nem se pôs no lugar de quem teve um pedaço de terra de onde retira o único sustento? onde tem a casa que demorou uma vida a pôr de pé?
somos pequeninos, pobres e moramos longe. todos. menos os que mandam e não se importam que ardamos vivos em fogueiras de vaidade.
só me apetece gritar: deixem o meu país em paz!

quinta-feira, 4 de agosto de 2005

clac clac

enquanto escrevo no teclado, as minhas unhas novas fazem aquele barulhinho esquisito, clac clac...
tenho umas unhas novas... apoio para o Sax...
tempo houve que eu fazia unhas de gel. pois... era técnica de unhas...
para muitos (os meus pais incluídos "tens tu um curso para isso!") é um trabalho menor... uma manicure.
ontem revivi os movimentos, as dores, os cheiros, e as emoções que nunca passam para quem está de mão estendida.
tem de haver jeito de mãos, noção da individualidade de cada um, de cada formato, de cada curva, defeito transformado em feitio.
é de dores e traumas musculares que é feito. horas seguidas sentada, as clientes a perguntarem se não dá para dar um jeitinho sem marcação "é só aqui esta unha", "é só pintar", sem terem noção de que estamos ali muito tempo, mão nova, unha nova, cola, corta, lima, esculpe, pinta, rebrilha.
é um trabalho quase artístico. lida com a auto-estima das pessoas. lida com pessoas.
é um trabalho que depende sempre do sorriso para os outros, mesmo cansado. foi ali que aprendi.
é um trabalho que implica o tão indesejado contacto físico... ali damos as mãos. ali, as tias dão as mãos às empregaduchas de centro comercial.
e surgem surpresas: gente que me chorou sentada no banco cor-de-rosa, gente que me obrigou a levantar e beber um café, comer um bolo. prendas, abraços e beijinhos perfumados.
uma miúda que tinha cotos em vez de dedos, e que saiu de lá, um mês depois, com umas unhas pequeninas, brilhantes como os olhos orgulhosos de uma batalha complicada vencida contra os vícios de anos.

ontem troquei experiências e dicas com a rapariga que me atendeu, que durante hora e meia teve as minhas mãos nas mãos.

e lembrámos a malograda D. Milú. a dona do estaminé onde trabalhei.
e onde me armei pela primeira vez em agente sindical. porque queria mais trabalho em menos tempo. porque queria que apontássemos cada lima que gastávamos, e que tivéssemos apenas meia hora de pausa. que não se fumasse de bata, e que não estivéssemos sem bata fora do stand para que não parecesse fechado. que não comêssemos de bata, que não comêssemos no stand, que não saíssemos do stand nas horas paradas.
ora eu passei-me, e com a claque das meninas da Parfois a assistirem à cena atrás da montra cheia de malas, pus a senhora habitualmente toda composta (no seu cabelo amarelo armado, a maquilhagem definitiva, a roupa sempre branca com sapatos e malas cor-de-rosa choque cheios de pindurezas) toda rosa-choque (a combinar com a mala e a agenda da Hello Kitty), com a veia do pescoço a saltar-lhe da maquilhagem definitiva, e as garras de 5 centímetros completamente cravadas na almofadinha. e quando me atira com o "ou é assim, ou não é", eu respondi "então não é. a minha carta de demissão chegar-lhe-à às mãos em menos de uma semana, não vou renovar o contrato". ficou em estado de choque, gaguejou, implorou. e lá ficou com a sua cara de rabiosque lipo-sugado.
é uma chatice perder uma das melhores funcionárias, ainda que as raparigas brasileiras façam turnos duplos, folgas e fins de semana sem se queixarem.
algumas clientes tiraram as unhas (de gel, hã...), porque não queriam outra pessoa. a D. Milú continua cor-de-rosa, rica, de BMW, casa na Av de Berna, a explorar (agora ucranianas). eu ganhei as cores que tinha perdido de passar tanto tempo sem teatro. a B ligou-me uma semana depois de eu me demitir para saber se eu queria ir fazer um Auto da Índia para o... Teatro Ibérico...
já lá vão mais de 2 anos e meio...

clac clac clac

dog battle in strangerland

há dias o Estranho fez um post para mim... desafiando-me...
aceitei o desafio...
e saiu isto: (não resisti a publicar)

" - Desculpa lá, Polegar...
...mas o meu cão (PUKI) é mais preguiçoso do que a tua cadela!"

- Polegar said...
ehehhe agora quanto a nós (arregaça as mangas, esfrega as mãos, estala os nós dos dedos)...
a minha cadela não se levanta, arrasta-se
a minha cadela não se baba, deixa descair as bochechas até ao chão.
a minha cadela mexe-se 10 minutos por dia: vai até à porta, sai para o jardim, e deita-se à porta do lado de fora...
a minha cadela não corre, dá dois passos e senta-se
I could be here the whole day... beat that!

- O Estranho said...
Ai é assim?! (franze o sobrolho e estala o pescoço)
O meu cão, quando quer entrar em casa, começa a ganir, deitado, a partir do cesto onde dorme
Quando lhe oferecemos um petisco, temos de o ir levar até ao dito cesto porque ele não se levanta
Passa a tarde toda a dormir no fresco da sala e levanta-se de hora em hora para andar um metro porque sente que aquele sítio está demasiado quente
Quando quer brincar com alguém, agarra-o pelo pulso e puxa-o até ao chão para poder estar deitado
Senta-se à cão preguiçoso, de lado, não directamente sobre o rabo
Vá lá, com certeza consegues melhor do que isso! (sorriso desafiador de Peter Pan...)

- Polegar said...
a minha cadela quando quer entrar em casa, tendo em conta que continua deitada à porta, a única coisa que faz é levantar as orelhas ou dar uma ligeira focinhada na porta.
ela também come deitada, e às vezes vira a taça para não ter de mexer tanto o pescoço.
a ideia dela de brincar com alguém é dar um saltinho no mesmo sítio de orelhas levantadas. depois deita-se e já está cansada.
quando quer ser agressiva ladra duas vezes e puxa uma manga com os dentes.
dantes corria em direcção ao portão e era tão preguiçosa que se esquecia de travar, parava mesmo NO portão.
só o sabíamos porque ouvíamos um estrondo.
ela também se senta de lado, mas só para ficar deitada, se possível com as patas apoiadas na parede.
se lhe fazem uma festa, cai no chão imediatamente, toda aberta. e se nos afastamos, mexe uma pata. isso quer dizer que quer mais festas...
(saltinhos de Sininho)

- O Estranho said...
ARGH!!!!(grito de derrota de Capitão Gancho)
Bolas, que cadela tão preguiçosa!;)

terça-feira, 2 de agosto de 2005

estava a pedi-las...

... e pronto, vou tê-las.
como pessoa abençoada pela Lei de Murphy (Ámen, Áwoman, Ágay), agora, que estou em ensaios e não posso ir a lado nenhum, vou ter 10 dias de férias.
começam daqui a... 10 minutos...

ainda por cima sabendo que o meu tio querido, lá no outro lado, no sul de Espanha, comprou o trespasse de uma gelataria... o que eu não dava por una agua cebada en aquel pueblo perdido de Hondon de las Nieves, con mi primita, e depois fugir para as águas quentes de Arenales... a dor...

como não posso ir a lado nenhum e eu gosto é de berbicachos, vou aproveitar para dar uma mão à B na produção do Sax.
e vou poder dormir... e ir sem olheiras ao abençoado casamento maná.
ao menos isso, não é?

ah! não pensem que se livram de mim... vou andar por aí na mesma, senão entro em descompensação.

segunda-feira, 1 de agosto de 2005

teaser

[ post-it

João - Minha Querida Futura Esposa, há coisas que tens de me explicar: Porque raio é que eu nunca consigo falar contigo quando quero e porque raio é que eu estou a olhar para uma lista de tarefas que mais parece as exigências da AL-QAEDA:
“Querido, limpa a casa.
Querido, vai às compras.
Querido, põe o lixo..."

O jantar em casa do Mário é às Oito, e como hoje é Domingo, e tu sais do trabalho quando quiseres, vais fazer tu esta merda TODA!

...”Querido, os meus sapatos estão no sapateiro, vais buscá-los?!”

Claro, minha rainha! E quando chegares a casa estarei algemado na cama com chantilly nos mamilos, ansiando pelo estalar do teu chicote!
Vou à BOLA!
...
Amo-te...

João volta a olhar para o post-it...

João
- ...pronto, pronto... ...vamos buscar o vestido da menina, vamos buscar o vestido da menina!]
[SAX - 4 actores, 12 personagens, uma cama... estreia a 7 de Setembro no Auditório Carlos Paredes, Benfica]
um novo espaço no Polegadas.
vou aproveitar-me descaradamente dos tais fiéis seguidores dA Palavra deste blog, essa vasta multidão.
vou mandar (se já não mandei ou não deram por isso) o anonimato dar uma curva.

porque já conhecem um pouco do que é a vida de quem faz teatro por amor, não é famoso, sabe articular, e não tem tachos nem subsídios.
porque preciso de público como de pão para a boca.
porque tenho uma (é forma de se dizer, são 13) história(s) para contar.
que acho que todos vão gostar de conhecer ou rever.
porque há sangue, sexo e lançamento de anões... not!

a partir de agora, de vez em quando, editarei aqui um trecho da minha próxima peça.
na esperança de que gostem do texto, ganhem curiosidade, e queiram vir ver.
e tragam gente.

Castro pela Cê D~eê... bolas... leiam!

fui intimada "porque no teu blog falas sempre de tudo, porque é que não hás-de falar disso?!?!?!" a dar a minha opinião sobre "Pedro e Inês, talvez..." pela Cê Dê Cê (ai a guerra que foi com o teclado para escrever isto) - Companhia de Dança Contemporânea de Alcobaça, a que assisti na 6ª feira.
... pronto, tá bem...
fui tansa: cheguei meia hora atrasada porque alguém no seu mail me disse que era às 21:30. mas pronto, devia ter confirmado...
quando cheguei, a D. Constança rebolava no chão indo ter com o D. Pedro cheia das vontades, mas ele dava-lhe um encontrão que a mandava para trás porque queria era rebolar com a D. Inês.
até aqui tudo bem.
o grande problema do Bailado, seja clássico ou contemporâneo, é que tem um linguagem que necessita de habituação. com a ausência das palavras, a única ajuda é da música e da expressão dos intérpretes. nem sempre é fácil. se comprarmos os programas (caros...!) ajuda muito. se não, apreciamos muitas vezes apenas a beleza estética e a qualidade técnica (vulgo "dasse, mas como é que ela mete a perna ali?" ou "como é ela foi para ali?" ou até "caramba, quem é que obriga os gajos a vestir aquelas lycras? oh por favor! aquilo não pode ser natural") dos bailarinos, até aprendermos os códigos.
eu sou fâ de dança. prefiro a clássica (I'm a sucker for tutus), mas também gosto muito de contemporânea. e aceito o desafio de conseguir perceber a mensagem sem palavras. às vezes é complicado.
nesta tínhamos a vantagem de já termos feito a peça, de termos levado durante 3 meses com todo o contexto histórico, bem como os fait divers todos... sabíamos a história, criámos a medo as personagens e recebemos de alma aberta as energias dos próprios em Alcobaça e Coimbra... e uns dos outros.
anyways... gostei. muito. porque é daquelas histórias que me apaixonaram e que faria de novo mil vezes (mesmo tendo de pintar o cabelo de amarelo outra vez). porque dançada tem um dramatismo que muitas vezes se perde com a facilidade das palavras. porque se descobrem formas de se dizer as coisas com um toque. porque lá no meio saltavam músicas de Carlos Paredes.

agora os contras (eheheh esfrega as mãos de contente e espera não morder na própria língua senão morre)...

os solos e pas de deux sim senhor, agora os corpos de baile vão-se mas é catar. falta de sincronização. e não venham dizer que "é suposto cada um ter um estilo, que é contemporâneo e assim é que é, não percebes nada, não és intelectual", porque é feio (tão simples como isso) estarem a fazer os mesmos passos com lapsos de centésimos de segundos que saltam à vista, e uns muito tesos e outros a rebolarem-se.

aquela amiba - tentativa de presença imponente do rei tipo assombração, que só aparecia em projecção multimedia - que declamava textos de olhos muito abertos e entoação absurdamente melodramática (boca muito aberta, voz cavernosa, fundo de chamas e o resto do pacote, a lembrar-me alguém...), com o plano fechado na cara, a notar-se que estava A LER. os olhinhos muito escancarados, saídos das órbitas, até aí, pronto, aceita-se, é um estilo. mau, mas um estilo. agora os olhinhos escancarados, saídos das órbitas a saltitar de um lado para o outro, dedurando que o tipo com as folhas de papel estava ali do lado direito... eeek!

a interrupção a meio do espectáculo, assumida com uma projecção que mostrava a palavra "publicidade". ora no meio da tragédia (acho que ela estava a ser morta, ou a ter o pesadelo da própria morte), aparece um senhor com uma tábua com um coração desenhado, põe-no no chão e faz-lhe sapateado em cima com um sorriso enorme. depois, aparece projectada a própria da Inês, sorridente, com uma caixa de detergente com o rótulo "Inês", e todos em conjunto dançam muito bem dispostos, cá à frente, ao estilo anúncio Tide, com a bendita caixa de detergente ao vivo. terminam a dança contentinha...
...passando o polegar pelo pescoço (único gesto que lhes saiu em uníssono em todo o espectáculo) e deitando a língua de fora, cabeça pendurada.
houve quem se risse. nós gelámos nas cadeiras. aquilo já nos passou na pele e não caiu bem aquela brincadeira. era comic relief, mas a mim não me aliviou.

o estupor da ideia que há agora de TUDO o que é peça/espectáculo ter dois actores para o mesmo papel... começou com "Morte de Romeu e Julieta" na Cornucópia e "Pedro e Inês" da CNB (mas esses podem fazer o que quiserem, eu deixo), e foi tristemente copiado pelo meu encenador (contra mim falo, que se não fosse assim, não teria sido Inês) e agora pelo senhor coreógrafo da CDC (eheheh safei-me)... ainda por cima tiveram dinheiro para vir para o Teatro Camões, mas para fazer dois vestidos tá quieto. eu bem que estranhei que a primeira Inês (na altura achava que única) tinha as alças sempre a cair, o que é feio e mau para a bailarina. depois percebi quando aparece a (outra) Inês morta (um único pas de deux, será que não dava para a outra, que era óptima, fazer tudo?) com umas mamas 3 números acima e sem problemas de alças a cair. e fez-se luz.

aquela coisa de enquanto morria Inês uma bailarina fazer playback (mas cantando por baixo e ouvia-se... eeek) do "Llorando", uma adaptação de Crying, cantada soberbamente em Mullholland Drive de David Lynch. havia outras músicas que se adaptariam melhor, e o playback foi muito mal feito. os bailarinos, na marioria dos casos, não cantam. aqui ficou explicado porquê.

ter visto o Paio (quem conhece sabe quem é) à saída... spooky.

faltar cá o resto do pessoal, para sairmos de lá a fazer pas de deux que, invariavelmente, acabam de nariz no chão e com o Guinho de pulsos abertos de nos levantar no ar.

e pronto. foi isto. satisfeita? :P

sexta-feira, 29 de julho de 2005

suor

amanheceu fresco e o vento salpicou-me a cara de cabelos (agora) pretos.
agora presos em dois pequenos totós e enfeitados de ganchos. menina.
o sol entra agora a jorros pela janela e a camisola não faz sentido. o ar aqui abafa-me o peito.
no escritório vazio, há tempo para fumar o cigarro agarrando o nada como companhia.



levo a mão ao pescoço. acompanho com os dedos as gotas de suor. não as apanho ainda. deixo-as passear, vaguear até aos ombros.
então aí, encontro com a ponta dos dedos o calor da pele e o prazer de olhar o sol lá fora.
ensaio os passos de dança descalços que por vezes não me deixam trabalhar.
logo à noite vou ao ballet e quero encontrar-me ali.
por agora, agarro nas cartas e vou ao correio. deixar o vento soprar-me arrepios na pele molhada.

let's go and meet the panzies!

andava à procura de alguma coisa que soltasse um sorriso.
daquelas coisas que, por muito chato que esteja a ser o dia, nos desarmem totalmente, e nos façam ostensiva e descaradamente "arreganhar a tacha"*...
ora para isso, temos sempre o King Julien. o rei dos Lémures de Madagascar. este "self proclamed king" é assim daquelas personagens secundárias que brilham filme fora e é a canção dele que se sai a cantar do cinema... sem desprimor para os pinguins que andam à estalada "- don't give me excuses, give me results!",

ou para Mort, o bichinho fofinho irritante por excelência, digna sátira aos Bambis da vida, que, de facto, de tão doce... apetece "mergulhar no café", como diria Gloria (a hipopótama delicada)...
e depois, é só assistir à recepção dos "giant panzies" para ganhar o dia.
- shame on you Maurice! did you not see you've insulted the freak? (ler com sotaque pseudo-jamaicano por favor)

e isto é só uma parte ínfima do filme...

ainda estou a bombar, e já consegui o tal do sorriso...


*expressão gentilmente cedida por B.

quarta-feira, 27 de julho de 2005

pára tudo! pára tudo!

então não é que descubro que há uma bolsa para blogs?!



e mais! o Polegadas está lá!
(parece-me que com uma boa cotação - cof cof, sopra nas unhas - mas não percebo um caracol daquilo... só barrinhas e quadros e gráficos... eu até sou de letras... e deixei a cadeira de economia a descansar na faculdade...)

e mais! alguns de vocês, bloggers amigos e fiéis seguidores d'A Palavra deste blog, também lá estão!
como? não faço puto, meus caros, não faço...

mas convenhamos que me valeu umas gargalhadas valentes. especialmente quando descobri que um blog meu conhecido, que está parado há meses (tsss tsss... e escrevia tão bem, o rapazito...) está mais bem cotado que o meu! isto não há direito...

terça-feira, 26 de julho de 2005

slow motion ou o strip-tease numa estrada do alentejo


the tree of us Ben Harper [welcome to the cruel world]

a estrada corre debaixo dos pneus, asfalto escurecido pelas sombras, ainda quente do fim do dia.
a promessa do mar lá ao fundo. muito ao fundo, onde acaba o céu. ainda falta. mas o percurso é também parte da viagem. sem pressas. não tenho pressas. o tempo só começará a contar quando tiver de voltar.

o silêncio dos estofos, do cigarro a crepitar entre os lábios. lá fora voam candeeiros alaranjados, recortando-se cada vez mais no azul-negro.

o sol foi descansar, vestindo o seu pijama laranja.

do outro lado, lentamente, surge, provocante, redonda, lá ao fundo, a lua. saída da mesma cama, veste o mesmo pijama.
e enquanto sobe lânguida pelo céu, vai despindo o pijama devagarinho, para passear nua a sua pele alva, noite adentro, céu afora, numa dança sensual com as copas das árvores.

iluminando o rosto cansado descansado dos viajantes na estrada.

segunda-feira, 25 de julho de 2005

23.07

praia não vigiada.
é proibido nadar.
correntes fortes.

não farei juízos de valores.

quando cheguei, improvisava-se uma corda, passavam polícias de calções e capacete de bicicleta, correndo na areia escaldante.

eram seis. estavam acampados na praia.
dois, agora, tremiam juntos, sentados nas rochas. outro, mais acima, de cabeça enterrada nas mãos, olhava o azul como se fosse negro e nada. outro, ainda, jazia inconsciente, deitado de lado, com o quinto elemento a tentar aquecê-lo, engolindo as lágrimas.

por entre um aglomerado de rochas, descobri que os anjos, às vezes, não são transparentes, não têm asas.
vestem fardas azuis ou vermelhas ou brancas.
e, incansáveis, de corpos esfolados, carne rasgada pela inconsciência dos outros, inconsciência de si, suores frios, de olhares impenetráveis, tentam soprar vida num corpo inerte, gelado, pescado de entre as pedras fundas e as ondas batidas. fazem das suas mãos coração forte e pujante, bomba de impulso que acorde (por favor) aqueles braços caídos, aqueles olhos perdidos.
e a outro prometem uma cerveja ao fim do dia, como se o pescoço entalado em amparos de plástico nada significasse, enquanto carregam as macas falésia acima.

sexta-feira, 22 de julho de 2005

lacuna



sentir que falta o evidente.
tantos pedaços sem encaixe, tantos pedaços a deambular, sem pouso, sem lugar.

sempre ausente, presente divino com dois cordéis de seda de cor indefinida do espectro universal. símbolo gravado num círculo de luz, gaveta de pó brilhante, envolve num laço sem nó.

o laranja pincela em ondas, acompanha o corpo sedento de música. volátil, brinca no ar, rodopia e flutua, branco, deserto, na gravidade ambígua de um saco vazio (cheio de ar) a voar. coup-de-pied, sapatilha cor-de-rosa, fita de cetim, tule flutuante, costas finas, pescoço de graça (garça), sonho de menina em caixa de música, agora quente de suor que soltou as voltas do corpo enrodilhado. assim muda o compasso, sem recuperar o passo.

é quente, a cor da vela, que apanha de surpresa com cafeína. desperta dentro do sonho premente, gritante, que lateja nas mãos que podiam ser pés de firmes e seguros. cai o chão.
na pele, a gota que se faz língua, percorre o mundo redondo. quer norte, quer sul. costa e mar e ventos de açúcar.
o sorriso de este a oeste em forma de lua branca, curva suave de anca, corpo de mel e paz.

não sem guerras.
somos todos assim. humano sem perdão, sem botão de comando. estende a mão. não. tem de cair. sabor do impacto, acre e molhado. calca a punhos o tempo. na palma aberta, rasgão de linhas, sem nexo aparente, caminho sem volta, dor latente. cicatriz e chaga de ventos que sopraram e deixaram a chuva nos olhos. nos actos as cordas.
nas guerras do peito não perdoa os entantos. salga o rosto. inevitável, irreversível, indelével, inevoltável.
estende a mão. lacuna.

quinta-feira, 21 de julho de 2005

writer's block

considerando o Polegadas, imaginem que faziam um post para aqui.
sobre o que seria e porquê?
se quiserem, enviem mesmo um texto. quem sabe não sai publicado... ;)

quarta-feira, 20 de julho de 2005

túnel

já alguma vez tiveram o impulso violento de abraçar com força uma pessoa completamente desconhecida, apenas pelo olhar profundamente triste que trazia consigo?

terça-feira, 19 de julho de 2005

something old, something new


... something borrowed, something blue
and a silver sixpence in your shoe...

quando era miúda, e, devo confessar, até muito tarde, queria ser princesa por um dia. queria casar-me como manda a regra e os filmes românticos todos. ia desenhar o meu vestido, escolher as flores, ter uma banda a tocar a minha banda sonora, fazer um passeio a cavalo na praia para as fotos, e o meu marido ia chorar desalmadamente quando me visse entrar na igreja.

depois apercebi-me que sou agnóstica.

depois comecei realmente a ir casamentos.

e a fazer uma lista do que não queria no meu.

começou com a lista das pessoas que se "tem de convidar":
> as tias-avós gordas de blusas às flores, que riem histéricas e choram feitas carpideiras, falam mal de toda a gente presente num raio de 2km, borram a maquilhagem da noiva com beijos pegajosos e andam atrás dos putos pequenos todos para lhes fazer o mesmo.
> os putos pequenos, demónios birrentos de laçarotes foleiros que fazem fita em frente ao carrinho dos doces e não páram de correr durante a cerimónia, que se quer uma coisa bonita, poética, não é?
> os tios bêbados da terrinha que batem nos pratos e nos copos, quando chamam os empregados dizem "Ói!", mandam bocas porcas aos noivos, aos pais dos noivos, aos padrinhos dos noivos, falam alto, quase andam à porrada por causa do Benfica, quando não saem a meio para ver a bola.
> as amigas desesperadas que afinal não são lá muito amigas, oferecem naperons e bonequinhos com corações, fazem-se aos solteiros e aos casados, e gritam, saltam, rebolam no chão de perna aberta, esgadanham-se todas só para apanhar o bouquet...
> as amigas que fumaram charros conosco e foram para os festivais acampar só com uma muda de cuecas e agora casaram com um advogado rico, vivem na Lapa, olham de lado para as tias-avós e demais inconvenientes, falam pelo nariz e peguntam puqué que escolheste este chef? s'eu sóbesse dava-to contácto do Julien, qué um crido. olha lá, essa tua mania de fazêzas coisas à tua manara dá buraco, crida, dvias tê lido as tendências de Nu Iórke primaro...
> os conhecidos que emprestaram um alguidar quando os nossos pais foram morar juntos e por isso, coitadinhos, gostam tanto dos noivos, só mais sete pessoas também não faz mal.
> o padrinho fascista que foi designado quando ainda não tinha nascido.

depois a lista dos eventos que "é costume":
> o carro da noiva. eu queria um jipe da tropa, e conduzi-lo eu. o normal é o mercedes, conduzido pelo pai preocupado. de preferência com uma almofadinha de cetim à vista.
> o itinerário maravilhoso da igreja à quintarola de tendas, de Peniche à Quinta do Conde, com os pedacinhos de tule a adejar ao vento nas antenas dos carros, o apitar, passandos pelas localidades.
> o pessoal a perder-se no caminho, o telemóvel do noivo, o único que está no croqui ininteligível, desligado, os carros parados na auto-estrada para fazerem a filinha-pirilau.
> por falar em pirilau: as despedidas de solteira com as épicas bandoletes de tule verde-florescente e os pirilaus, as prendas de algemas e restante equipamento "hot hot hot". e as despedidas de solteiro com as mamalhudas oleadas, o coma alcoólico do primo e o ataque de dúvidas que assola o noivo quando vê a stripper e ouve o padrinho dele sussurrar-lhe "vês no que te vais meter? depois acabou-se...."
> a cerimónia oficial, religiosa ou não. entre o "fica bem" e o "foleiro de todo" há uma linha muito ténue.
> as fotografias. matem a gaja de uma vez... com aqueles folhos todos, a derreter a base para cima do véu, tem de se posar antes de sair de casa, deitadinha na cama de solteira, em frente aos bibelots e a cristaleira da mãe e das medalhas do pai. depois umas 3 horas a morrer de fome num jardim com patinhos e os sapatos de salto a rasgarem os tornozelos e a encravar as unhas, e as tias e tios e outros que tais acima referidos, a sorrir feita boneca de cera, cachimónia ao sol, a levar com o véu na cara por causa do vento, de braço dado com o recém-marido, ex-mais-que-tudo, teso que nem um carapau e a desejar que ela não tivesse escolhido aquela gravata. a foto da liga com celulite, do ombro com triplo queixo, do bouquet, da criancinha ranhosa agarrada ao vestido (outrora) branco, do beija-mão no jardim bucólico, do olhar apaixonado através do espelho do mercedes...
> a banda. mesmo em casamentos de amigos jovens e modernos e hypes e tudo, a banda foi um choque. claro que se pode brincar com a coisa (já me aconteceu) e pôr a sala a dançar ao som do "morango do nordeste". mas é, no mínimo, desgastante. e humilhante para os desgraçados que organizaram aquilo...
> os convites. as aliançazinhas cruzadas? uma flor? um laço? "fulano de tal e sicrano de oliveira convidam v. exa. para a união dos espíritos entre beltrano e altrânia, que 'vão deixar a casa dos pais para se unirem no seu seio de amor eterno, abdicando da vida terrena para uma elevação das almas em uníssono' Gregório, Salmo XPTO.21"
passar o resto do mês a tirar grãos de arroz do cabelo e do soutien.
> os bifinhos com cogumelos, os filetes de peixe e o creme de marisco. o ananás esculpido em forma de tubarão.
> as cadeiras de plástico com as capas brancas e os laços às cores.
> as mesas com nomes de flores, de grupos mal distribuídos,juntando gente que afinal se zangou na terra e deviam ter ficado separados, e os solteiros que não se conhecem e ficaram todos ao molho numa só mesa, "a mesa dos solteiros", claro, para os marcar ainda mais.
> o não poder estar com os amigos porque se está na "Mesa dos Noivos" (aquela com o centro de mesa gigante cheio de ramagens e couves), com os pais, os padrinhos, e as velhas todas à volta.
> leiloar a liga... (sem comentários, não consigo, não consigo)

bem, é só uma amostra, hei-de lembrar-me de mais coisas...
parece que, no fim, a única coisa positiva é poder fazer-se lista de casamento e recheiam-nos a casa à pala, e ainda nos mandam durante 15 dias para as Canárias...

nota-se que o meu irmão, maná de gema, vai casar-se em breve...?

segunda-feira, 18 de julho de 2005

preencher-me


[ms]

de mar. de azul e verde e castanho-rocha e amarelo-sol. do rosa-choque da toalha e da mochila, descansadas, finalmente.

comer gelados, ler e adormecer embalada pelas ondas lá ao longe.

andar sem relógio. o vento no corpo foi o meu despertador.

a pele a cantar de sal e suor. o cheiro do protector solar. o sabor da maresia pelos lábios.

precisava disto.

mesmo com um escaldão no rabiosque :)

beijos... #2

... trago na pele sol e sal...

sexta-feira, 15 de julho de 2005

beijos...

... vou roer uma laranja na falésia...

quinta-feira, 14 de julho de 2005

visualizem

parte da tarde do dia.
apesar de ela estar no trabalho desde as 10, o patronato chegou às 13 a querer fazer ditados de 15 páginas em cima da hora de almoço dela. ela teve de apontar em letra de médico - que não sabia que tinha - os ditados intermitentes, recheados de "coiso" e "prontos, tu sabes" às quais teria de dar definições específicas quando voltasse.

assim que regressa de comer, senta-se com o intuito de despachar as tais 15 páginas de projecto alterado, com tabelas, contas e imagens. tudo por decifrar e a enviar dentro de meia hora. tenta concentrar os olhos e os dedos, que a dor de cabeça já lhe assou o cérebro. já está de olhos em bico.

o patrão neguinho, de pança saliente, carapinha e calções, sentado no outro computador, começa a declamar Shakespeare. alto, que ele só tem dois volumes: alto e muito alto.
ela pede-lhe suavemente que a poupe.
ele ri-se e continua.
ela faz uma careta que desenvolve, muito rapida e detalhadamente, para o queixume trémulo em crescendo de criança mimada a quem caiu o gelado no chão. fita de centro comercial mesmo. e no choro grita:
- Alexaaaaaaaaaaaa-an-an-an-dreeeeee! ele não se caaaa-aaa-aaa-aa-laaaa

surge o outro patrão da sala de reuniões, que está escura e fresca. de pança maior, lentamente com o seu ar de Porthos. o patrão neguinho ri-se desalmadamente e continua a recitar a sua peça. o patrão Porthos dirige-se à secretária do outro, e tira-lhe o tabaco. sai.

o queixinho do patrão neguinho começa a tremer.

a menina de olhos em bico, agora, ri à gargalhada.

...

dasse!

quarta-feira, 13 de julho de 2005

lucidez

não é todos os dias que nos oferecem uma história de amor.
obrigada, Paulo.

blank

o cursor olha para mim, expectante.
a companhia de Ella tenta abraçar-me.
a folha está em branco. dizem que o branco é a união de todas as cores.
as palavras às vezes são tantas que sufocam à saída.
gostava de dizer muita coisa. aos pedacinhos. em torrentes.
saído de mim. bem do fundo. do que tenho de bonito e de feio.
do sincero e perfeito porque real.
perco-me em meias frases. a monotonia das metáforas.
o monocromático. há por aqui uma bruma. ardem os olhos.
a voz não solta a língua. não solta o suor preso à pele. não solta a vida dos dedos.
vão. fechado. preso. oculto. entupido. vedado.
não vale a pena. pouco há a fazer.

agora, as letras doem.

segunda-feira, 11 de julho de 2005

nevermind

estou a precisar de férias. durante bastante tempo estar longe de tudo.
preciso de um sítio meu. só meu. onde possa descansar. e desligar.
onde possa ler umas horas, apanhar sol, molhar-me na água fresca, ouvir música e adormecer a contar estrelas, descobrir constelações inventadas, com a luz de presença da minha lua. crescente, minguante, nova ou cheia. preciso da lua. e de ventos quentes que me embalem as angústias e me tragam as noites compridas de menina.
esquecer-me de dias como este. de temperamentos sem sentido. de umbilicalismos.
preciso de não ter de desmembrar-me.
quero ver o pôr-do-sol às 9 e tal da noite. sentada na areia ou no topo do monte. mas sem relógios por perto, sem nada que me lembre que tenho de ir a correr para algum lado. que não tenho tempo. que o tempo me tem presa.
preciso de dançar descalça na relva. de largar as energias negativas na tontura das piruetas.
preciso urgentemente de gritar. alto, muito alto. até a vibração da voz desfazer o nó que tenho na garganta. e deixar sair as lágrimas que tenho por chorar e depois as que ainda não sabia que ia chorar. perder o pudor até perder as forças. e depois dormir.
quero limpar a alma. deste suor poluído que me anda a esgotar os olhos.

perdoem o desabafo.

sexta-feira, 8 de julho de 2005

london, 07.07.'05

sweetheart:
went to work. I left you asleep, lying on our bed, dreaming.
I love you so much. days and nights spent with you are paradise in this crazy world.
oh, I wish I could stay, even for a few more seconds, lying there, nesting beside you.
well, gotta go now, into the subway like everyone else. but at least I'm smiling, with the memory of you always with me.

luv ya. see you later.

p.s.: don't worry about supper. I'll arrange it for us today

esta nota é ficção, cedida pelo querido Bufas. quantas terão ficado em cima de uma almofada ao lado de cabelos espalhados e cheiros quentes?
a homenagem merecida a quem não vai voltar a casa.

cavalheiro évora

aqui ao escritório costuma vir um senhor, colaborador da empresa. entra sempre com o seu andar pesado dos cabelos brancos e da barriga enorme. sorriso em riste para o que der e vier. saquinho do pingo doce com fruta fresca, porque as compras são feitas antes de passar por cá às 10 da manhã. demorou cerca de 2 meses a deixar de me chamar Simone ou Yolanda...
começou a pedir-me ajuda para ver os mails dele. ainda não percebe disso dos computadores, e a secretária dele está de férias. mas já se inscreveu em informática na universidade da terceira idade.
descobri que também colabora com colegas meus de há uns anos, e é amigo do meu encenador.
anyways, hoje cá entrou logo de manhãzinha, com o seu "quem é uma flor?" com que me cumprimenta todos os dias, e, penso, para colmatar o facto de nem sempre se lembrar do meu nome.
estendeu-me um embrulho.
agora tenho o cd de Humanos, que apenas ouvia no site deles.
há gestos que deixam uma pessoa desarmada...

sonhos

percorri a rua da Escola Politécnica com Louis Armstrong e "A kiss to build a dream on".
a pensar na minha noite. em como o subconsciente nos prega rasteiras e nos avisa que, apesar de tudo, ainda acredita (ele, coitado) em certos finais felizes.

quarta-feira, 6 de julho de 2005

corrida de obstáculos

chegar a casa tarde, cansaço. entrar pela porta que faz mais barulho na casa toda e está de frente para o quarto dos pais. roda chave, roda chave, sobe tranca. clanc clanc.
abrir porta do corredor. atravessar o corredor.
passar por cima do cão de guarda.

que dorme.
pesadamente.
ronca.
muito alto.
completamente espojada no chão, muitas vezes toda esparramada de barriga para cima, de beiços descaídos para trás...
ó menina, compõe-te! isso é forma de guardar a casa?
vidas... de cão!

terça-feira, 5 de julho de 2005

shoe sale

numa pessoa de baixas finanças, gaja, muito gaja, que gosta do seu saldozinho, da sua bagatela, da sua espiadela de montra, ir passear para um centro comercial cheio de oferta e sem um tostão no bolso é coisa de loucos...
e dá nisto!



entrei na loja onde havia mais fatos de treino e sacos do continente per capita e experimentei os sapatos mais pirosos que encontrei!

estas são umas sandálias de salto agulha em verniz azul, de tiras cruzadas ao lado, adornado por um maravilhoso coração em strass atravessado por uma seta. um mimo!

encontrei-me!

é como quem diz... encontrei a minha Teresinha! na SIC generalista, aos Sábados às 6 da manhã...
(belas horas para se chegar a casa, mas pronto... eheheheh)

sun, moon and the stars


num quarto de céu e luas, nada melhor que um sol a rir-se para mim todos os dias...

sexta-feira, 1 de julho de 2005

humanos











só para partilhar um pouco das imagens que trouxeram os sons.

quinta-feira, 30 de junho de 2005

dois teclados

um encontro imprevisto levou-nos ao desafio de partilhar um texto. eu sou amadora nisto, peço desde já desculpa. Nuno: escreves tão bem que não te consegues desperdiçar em palavras. um beijinho.

chá gelado

o saco está tão pesado como o meu vazio. o vazio arrasta-me os passos. não quero pensar. agora não. quero um chá gelado. mas não queria daqueles de lata. era mesmo um chá com açúcar saído do frigorífico num jarro qualquer. sento-me e entre os pares de cuecas e calções encontro o livro. peço um sumo de laranja e acendo um cigarro. a mulher que me atende é muito lenta. tudo se arrasta como os meus pés. doem-me os pés. tenho de seguir caminho. mas agora doem-me os pés.
P

o sumo de laranja sabe bem, mas a partida dói tanto como os pés, as partidas são sempre dolorosas como são todos os momentos que implicam uma separação de alguém. fecho os olhos e tento esquecer tudo o que me leva a fugir, não consigo. tento fugir ao pensamentos com o livro, abro na página marcada mas as palavras não passam de uma confusão de letras. está quase na hora da partida e recordo as tardes amarelas no jardim do príncipe real.
N

olho essas tardes de longe mas o sol ainda me acarinha a pele, o vento ainda me enrola o cabelo nos dedos de ar. os beijos são sempre mais reais quando na barriga ainda saltam as borboletas. está tudo queimado. o jardim, quero dizer. alguém numa noite quente de embriaguês adormeceu e deixou cair um cigarro que queimou tudo. se calhar é melhor assim. mas o castelo ainda se vê. os velhos ainda lá andam, os putos ainda jogam futebol. o elevador ainda sobe e desce. as mãos... ainda me tocam... vou ter de apanhar aquele elevador. sempre gostei daquela rua. mas esta será a última vez que a desço. quando tiver forças para me levantar. preciso de um beijo.
P

sim, um beijo. um beijo que desliza e voa sozinho e acaba por pousar no pescoço. a pele morena é mais doce nas tardes quentes de verão e queria permanecer abrigada do resto da vida nesta almofada. ainda agora nos conhecemos, digo-te. as mãos sentem a ternura da pele e o fim de tarde insinua-se sobre nós. não quero descer o elevador, quero ficar aqui muito tempo até a chuva voltar. lá fora a cidade arde selvagem e eu preciso de um chá gelado.
N

será que o chá me ia saber tão doce como os teus lábios? como os lábios de seda e vinho tinto que me aqueciam e queimavam em prazeres tão lentos que dóia saber que tinham de acabar? onde estás? vens-me buscar? vem, eu deixo tudo, deixo a mala aqui, o livro em cima da mesa e o sumo por pagar. deixo-me aqui para fugir contigo. não posso. demoras demais. ainda queres a minha pele? como querias como um tesouro terno a tocar com a ponta dos dedos, a possuir com os braços todos do mundo? estou tonta. é do calor. estão a olhar para mim. sinto-o na nuca.
P

é possível ser-se feliz numa noite de nevoeiro? estes olhos que me vigiam como câmaras dizem-me que é hora de fugir. tu não vens, há ali uma cerejeira que me sorri. decidida, levanto-me, saio, mergulho na lava do desconhecido. não olho para trás porque o passado é demasiado pesado para uma menina frágil com uma saia às cores.
N

pego na mala. não quero saber. largo as moedas em cima da mesa. não quero saber. meto o livro no saco. não quero saber. levanto-me. não quero saber. estou a chorar. convulsivamente. não quero saber. caí no chão. não quero saber. sabe-me a sal. o sal do teu corpo suado, de tempos em que o calor era uma desculpa para nos colarmos como o frio, que purgo nos meus olhos. os meus olhos que te eram tão fascinantese amoráveis como o mundo de elfos e folhas verdes onde vivíamos. não quero saber. agarram-me o braço. não quero saber.
P

um arrepio na pele. que fazes aqui? é demasiado tarde, deves estar enganado, já te tinha riscado do meu caderno preto, não podes aparecer do nada para me levares toda outra vez. que lábios são esses que me prendem? eu não quero, estou colada a ti mas não quero, a minha pele grita pelo teu calor mas eu não quero, dissolvo o meu corpo no teu mas não quero, não quero saber, hão-de haver noites escuras em que o manto de estrelas nos diga no meio do silêncio de que cor é a perfeição mas hoje o tempo é demasiado imperfeito, não quero saber, desculpa a lamechice, sempre gostei de finais felizes.
N

quarta-feira, 29 de junho de 2005

do querer

notas soltas que se acumulam no peito e no caderno.
sem ordem, orientação, direito ou esquerdo, só interiores.
tocava alto entre espuma fresca, recordação de azul ou verde. ou todas as cores ou nenhumas.
alheamento sem causa-efeito, apenas uma flutuação necessária.
porque a pele pede. sua e canta baixinho.
porque a pele é permeável à voz. não só ao vento arrepia. não só ao doce aquece.
o piano toca. podia não ser um piano. mas é um piano.
e as notas deslizam. são voluptuosas, envolventes, mimosas. ao toque essas notas, essas músicas, arrepiam, lambem.
feridas e pescoço.
e aos ouvidos o sabor soa mais salgado. ou mais doce ou mais macio.
o travo da lua na ponta dos dedos.
onde está?

a culpa é da vontade

de sandocha de leitão no bucho e o bilhete orgulhosamente seguro na mão, entro no coliseu.

fiquei a uma fila do palco. chão, paredes, tudo branco. uma panóplia de guitarras e outras derivadas, bateria, um piano lindíssimo, um órgão descomunal lá ao fundo, microfones à boca de cena, colunas tapadas com pano branco, amplificadores parecia que saídos dos anos 50, e uma maravilhosa caixinha estranha de madeira que já vi nas mãos do David Fonseca noutras ocasiões. tive tempo para absorver os pormenores que me circundavam porque cheguei cedo. nunca estive tão perto dos artistas e delirei só de pensar que ia poder ver cada expressão, cada tique, cada olhar cúmplice que sei que acontece em palco, qualquer que seja o contexto. já calculava que a única desvantagem seria não poder levantar-me aos saltos... coliseu é assim.

de repente olho para trás e no lugar das cadeiras estava quem as pintou de vermelho no site da ticketline. um mar de gente, tão diferente como velhotas que gostam do Camané, pessoal de meia idade que não ligava ao Variações mas que achava piada ao "Maria Albertina", malta novinha que nem sabia quem era o Variações antes do disco, pessoas como o meu pai - geração António, que o ouviram e admiraram a sua genialidade apesar dos tempos - e gente como eu, que cresceu com o pai a ouvir os LPs, e gostava de Clã e David Fonseca... ou não, mas gostou do disco.

conhecendo a sua música, sei que respeitando-o deram novas vozes e adaptações, arranjos e um toque deste século que o quis, finalmente, abraçar. não se limitaram mas não imitariam. já sabia que não tinham convidado músicos externos ao projecto, que se iam revezar entre os mil instrumentos, que inseririam músicas contemporâneas e provavelmente influências de António Variações. mas não sabia nada e esperei de alma aberta... até te escutar

entraram os músicos, uma das 4 componentes da alma de Variações. eram eles a representação das melodias que ecoariam na sua cabeça ao compôr. branco era a cor de eleição das roupas. depois as 3 vozes, 3 outras partes de António. a sensualidade e infantilidade feminina de Manuela, a loucura e desespero de David e as raízes bem portuguesas de Camané.
começou com um hino a António.

depois seguiu. sem desafinar, sem falhar, sempre a brincar. com a música, com o público, entre eles. em músicos normalmente depressivos encontrava-se uma expressão leve, sorrisos e gargalhadas. o prazer de tocar. a alma de António. aquele homem que nos seus concertos se isolava na roulotte porque ninguém queria conviver com ele, que sofreu na pele a incompreensão da sua pessoa, da sua música, da sua poesia, aqui era livre. para a época era um génio - outcast mas um génio. porque fazia música à frente de si e dos que o rodeavam. hoje seria mais um.
mas foi resguardado, numa caixa de cassetes. até que voltou em forma de novos sons, que, sem dúvida o honrariam e horaram as suas palavras.
escusado será dizer que o rabo não resistiu pregado à cadeira com as batidas irreverentes de músicas como Maria Albertina, Muda de Vida, A Teia, na Lama, Não me Consumas... o público estava louco, inclusive as velhotas arranjadas de laca da zona da orquestra.

em Gelado de Verão vi um rapaz aproximar-se da rapariga que o acompanhava e sussurrar-lhe qualquer coisa ao ouvido que a fez lançar-se-lhe aos braços e de sorriso emocionado dizer que sim com a cabeça. fez-me sentir como é bom testemunhar coisas raras, momentos únicos, mesmo que no anonimato, e saber que a paz e as coisas bonitas nos rodeiam sob as mais diferentes formas. espero que vivam um amor de conserva...

chorei muito quando a minha avó me veio beijar pela Manuela Azevedo em Anjo da Guarda.

saltei em fúria louca com O Corpo é que Paga...

o Camané saía de palco depois das suas actuações e deixava os "putos" brincarem com as músicas com mais pedalada. This town ain't big enough for the both of us foi assim uma loucura de ouvir e ver na interpretação furiosa dramática de David e Manuela. um dueto disputado à antiga.
a caixinha de madeira do David voltou a fazer magia, entranhando-se na perfeição nesta palpitação única de sons e luzes de António. António a milhares de vozes, a uma voz só.

entre recordações, novos sons e muito boa companhia daqueles maravilhosos sete amigos, foram duas horas de pura magia, roçando mas não entrando no revivalismo.

obrigada António Variações. vais viver.

terça-feira, 28 de junho de 2005

musicóle vs. carestia

entra jigle > "interrompemos a emissão de nadas deste blog para prestar um serviço público:

ainda na onda dos concertos...
... olhem lá...
agora alguém me explica como é que vou fazer para ainda ir ao hype @ tejo dia 9 de Julho e ao Iber Rock de 14 a 17 de Julho??? ah, sem falar na Casa de Bernarda Alba que tenho de visitar no S. Luís, apesar das datas manhosas.
bem haja o belo e caridoso evento que reúne músicos portugueses todos os anos nos jardins do Casino Estoril. é à borla e isso basta-me. agora é escolher consoante o gosto de cada um. ora Junho já passou, temos aqui as próximas:

Agosto
04 - Luís Represas
11 - Delfins
18 - Fingertips
25 - The Gift

Setembro
01 - Jorge Palma
08 - Santos & Pecadores
15 - Maria João & Mário Laginha
22 - Vitorino
29 - Mafalda Veiga

De certeza, mas de certezinha, apanham-me lá a 1 de Setembro.
Se não for a 25 de Agosto, bato em alguém.

e a partir de agora finou-se a agenda cultural. a ela voltaremos se se verificar essa necessidade de deprimir financeiramente por parte da blogger que vos fala. por ora, voltemos à formatação original deste blog. é sobre nadas e assim continuará." > entra jingle

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> pára jingle

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... olhem lá... haverá algum chãozinho para lavar em vossas casas?.. cobro baratinho...

e é lá que eu vou estar até te escutar

chega o verão... (quer dizer, diz que já é, eu não sinto nada... bem, mas assim não dá para seguir o raciocínio, voltemos à vaca fria...)
chega o verão... chegam os carros de janelas abertas a espalhar música pelo ar. chegam as tardes longas, a vontade de ficar no lounging depois do trabalho num barzinho a ouvir música. num escritório vazio sem rádio, a única companhia é mesmo a música que me chega da rádio online.
e chegam os concertos, festivais, eventos ao ar livre...
contra mim falo, que quando quero fazer peças no verão me queixo que não há público, mas chega esta altura e há que laurear a pevide... e também não há público em altura nenhuma, que se dane.
mas pronto. com o calor a música bem disposta toma-nos.
uma pessoa abre os sites, as agendas culturais, liga a tv, e a oferta é demasiada para bolsos à beira dos 21%.
que se dane a carestia de vida, ao menos suporta-se a pobreza a cantar.
ontem estive no masoquismo puro: passei a tarde no site da ticketline a ver as cadeirinhas azuis tornarem-se vermelhas (ao ritmo dos refresh) para estas duas noites de Humanos no Coliseu.

cresci a ouvir o Variações, um bom amigo do meu pai. a sala é uma bosta. tenho pouco dinheiro. mas são dois concertos únicos, não voltam. e tenho um carinho especial pelo David Fonseca, processem-me. mas é caro. olha, acabaram os bilhetes do balcão. agora só uns espalhados na 2ª plateia, na primei.... não, na primeira já acabaram. para 4ª feira então há mesmo pouca coisa... sobra a visibilidade reduzida e a orquestra. aieeee.... olha, na orquestra para o segundo dia já não há. são quê, umas 10 cadeiras na orquestra ainda livres? não vás, estúpida, tens mais onde gastar o dinheiro. não não vou, claro que não. só estou a ver. é uma terça-feira, tens de acordar cedo na 4ª. mas mas mas... eheheheh ainda por cima nunca está ninguém no escritório, se adormecer nem dão pela minha falta... visibilidade reduzida é muito mau. visibilidade reduzida é o coliseu inteiro. só se vê cabeças... e a orquestra... quer dizer... esquece lá isso... mas o que é que o meu dedo está a fazer? onde é que vai o cursor do rato?? pára! não! não! pára! aaaaaaaaaaaahhhh!

hoje vou ver Humanos.

... a culpa é da vontade.