quinta-feira, 20 de outubro de 2005

dao-se alvissaras...

... a quem encontrar o senhor das castanhas...

para abertura de temporada.

procura-se coluna de fumo perfumada, carro pitoresco com assador e chaminé, de venda sazonal de castanha assada embrulhada em papel de jornal ou folha das páginas amarelas. daqueles embrulhos que aquecem as mãos e cheiram a outono. o vendedor tem normalmente as mãos escuras e àsperas da fuligem e das cascas das castanhas, húmidas da chuva, onde contrastam as moedas, que rebrilham das brasas no assador e do céu de fim de dia ou de algum candeeiro de rua.

visto pela última vez ao pé do elevador da Glória, nos Restauradores. agora está só o carrinho estacionado. estava morno ontem às 20:00h.

à zona da Baixa, Príncipe Real, Chiado ou imediações.
disponibilidade total a partir das 19:00h.

valor pessoal inestimável. sabor de cada Outono de quase 26 anos.

terça-feira, 18 de outubro de 2005

imagens

saiu para a rua húmida e escura, sem pressa de sentir o ar frio.
no arrepio, um vento aromatizado abriu-lhe o sorriso.
entre carros e eléctricos, sombras, caras fechadas e sacos de plástico, um voa.

descendo

tomo a auto-estrada, saída do laranja quente.
sigo no azul escuro, molhado, prateado pela - ironia - lua cheia.
chego ao branco pálido de uma vila adormecida, encontro a igreja.
de novo o cheiro enjoativo das flores. coroas, cruzes, dedicatórias de nomes que conheço de infância.
de novo aquelas pessoas. os fatos e as gravatas, os saltos agulha.
um mundo que já não visitava há muito tempo.
a minha mãe está triste, o meu pai desorientado. está bonito, com a camisa preta e o blazer cinzento.
miro os rostos da minha adolescência, encontrando-os nas paredes de madeira elegante, iluminados pelos écrãs dos computadores. estão na mesma, há tanto tempo. uns mais velhos, um pouco. cabelos mais curtos ou mais compridos. o mesmo casaco dela. a mesma camisa aos quadrados, ruça dele, a gola alta da outra.
o estranho furor da menina pequenina, que lhes chegava às ancas. "estás bonita" "estás mulher" "lamento muito".
uma filha fala comigo e encontro nela traços delicados, a força e doçura interiores que admiro. o nariz é do pai.
o pai dela está ali, deitado.
não volto a ouvir a voz grave, poderosa. nem reverei aqueles olhos azul-água fortes e penetrantes. o fumo incessante do tabaco vorazmente absorvido nos dedos grossos.
recordo-o pelas pessoas, cá fora. uns amigos de fato que davam as pancadas nos ombros. os outros, os do escritório, que lhe tinham um respeito roçando o receio. suavam em bica quando tinham de lhe falar, cabeça baixa, olhar meio submisso.

morreu mais um da geração carreira. que desistiu quando a carreira acabou.
desta geração herdámos a vontade dos nossos pais de tirar o curso, remédio para todos os males deles, apenas mais um papel nos nossos recibos verdes.
não me encontro nesta vontade. vejo como a falta de sonhos nos pode tirar a outra vontade, de viver, quando a nossa função por nós (?) escolhida neste mundo termina.

diferenças, mágoas à parte, agora não vale a pena, não é?
descansa em paz, padrinho.

sexta-feira, 14 de outubro de 2005

espelho

não me encontro. ruído de estática. desfocada por outros olhares que nunca me viram. tento reconhecer-me naquilo que me reflectem. outra vez o preto e branco. outra vez o lado A, lado B.

a matilha ladra furiosa ao longe. a âmbulância passa aguda no estertor do asfalto. estou parada, à espera. passam e não me vêem. mas ladram e apita.

silêncio. silencio.

tento timidamente redescobrir-me. toco-me e sinto as curvas, profundidades e superficialidades, endérmico, epidérmico, pensar, agir, sentir.

há um ponto no peito que me faz chorar. é como um botão. há uma pinta no peito que me faz sorrir. é bonita.

nas horas vagas da noite alheio-me do outro lado. onde não me sentem e mesmo assim pensam de mim. penso de mim assim, duvido. redefinições, remix, adaptações, em loop, inspirado na obra de.

não me encontro em lado nenhum. posso ser só o que dizem as pontas dos meus dedos?

estou algures no meio.

quinta-feira, 13 de outubro de 2005

breathe

o trabalho não me deixa respirar.
há dois dias que não almoço, saio tardíssimo (ainda cá estou).
quando corre mal, é-se incompetente. quando corre bem, é-se transparente.
mais ansiosa estou de ver esta gente pelas costas, do que sinto o sabor da vitória suada, cujos louros nunca cairã na minha cabeça.
vidas cansadas, das quais pouco ou nada vejo concretizado.

nem tempo tenho para deixar aqui as imagens de lisboa que trago guardadas para contar.
espero melhores ventos, e que venham depressa.

hoje, promessa de outro jantar tardio. e de adormecer em frente à televisão.

quarta-feira, 12 de outubro de 2005

birthday # 1

ontem fez um ano que inseri aqui as primeiras baboseiras.
continuo sem saber bem porque o faço, sem estilo fixo ou forma. não sei de onde vim ou para onde vou.
recordo-me desreconheço-me, sorrio-me.
o vício está cá...

obrigada a quem anda por aí.

é bom falar convosco.

segunda-feira, 10 de outubro de 2005

stolen


[ms]

num dia de chuva, triste e mal disposto, entre claustros vazios apenas o chiar das rodas.
dores e pesos em mãos demasiado fracas para enfrentar o carrego. as costas gritam e os pés latejam. espera. ainda falta.

horas depois, fecha-se a porta e o cinza do céu espera do outro lado das pedras.
o corpo cede, treme, pede açúcar. moedas contadas, não vai dar para almoçar.

regresso, não quero. não mais telefones. não mais écrãs brancos à espera de palavras. as palavras não estão aqui. trago-as comigo. mas não as posso deixar aqui. são levadas no vento, que só ele as ouve e pode ouvir.

hoje não me sinto. talvez, se a chuva vier, eu sinta finalmente no seu bater o contorno do meu corpo.

penso na infância. nos dias de chuva, em que as gotas me pingavam do cabelo comprido, me manchavam a roupa e arrepiavam. e com um sorriso abria a boca e bebia da chuva a pureza encantada dos acreditares.
que a chuva deixava o cabelo mais brilhante. que a pele molhada me fazia bonita.
o chegar a casa e a toalha turca. o vapor na banheira, bolhas e um livro. sim, desde menina, o vapor na banheira, bolhas e um livro. a água quente a arrepiar-me de novo, no choque da pele arrefecida com o choro do céu. o cheiro a perfumes de rosas da Avon, que a avó comprava para mim.

depois cortei o cabelo. a avó não trouxe mais perfumes de rosas para o banho e apanhar chuva eram ataques de asma.

tenho uma gabardine vermelha e o cabelo voltou a crescer. estou à espera da próxima chuvada.

lavandaria

as paredes velhas da casa antiga caíram. sem pré-aviso.

de lá, uma ventania repentina. e o sal revolveu o pó parado.

no meio do cheiro a roupa engomada.

sexta-feira, 7 de outubro de 2005

avo actor

ali sentado, olhos brilhantes, molhados, miras o espaço de mãos no colo.
ainda és grande.
de vez em quando, a mão direita mexe-se, um pequeno tique de vida.
a tua voz, avô, é feita da profundidade da tua alma. grande, poderosa.
e ali, aos poucos, vais-te esquecendo que és ainda um menino de coração aos saltos - estranho, não é? pensava-te vivido, habituado - e viras menino deliciado, vibrante, empolgado. amas, ainda. ainda de paixão.
como consegues, avô?
como segues ainda ansioso como no primeiro dia. virtuoso como no primeiro dia, assim que te esqueces que as palavras às vezes nos enrolam, e as vives e vestes sem pudor. e abres os braços e evocas os fantasmas que vivem em ti - são tantos, avô, ainda os contas? - e de repente, no choro, colocas o nariz de palhaço e sorris.
como ainda sorris assim, avô? como na primeira vez que te vi, tão depois da tua primeira vez? aquela primeira vez que me fez querer ser como tu, ainda sem saber o que queria ser. vi-te tão grande, tão longe. tão doce e vivo, tão tangível. tudo de uma vez. assim.
cheio de luz, muito branca, muito plena, aura azul dos céus de verão, que nunca escurece, nunca enfraquece. apesar de tanta vida ter usado já esse corpo, de te teres entregue a tantas almas.
e assim agradeces, avô, depois de tudo passar. depois de viveres de novo fora de ti.
e mimas quem te vê, avô, com essa candura de menino, sem pressas, saboreando mais uma vez aquela trovoada mansa, emocionada. fazes-me chorar, avô.
e depois... depois de tudo... de flores na mão e livro na outra decoraste o meu nome, sem saberes que o meu coração deu um pulo quando te beijei. que a minha mão fez a festa mansa que queria tanto nesse teu cabelo branquinho e a minha pele reagiu de amor - esse amor que trazes e emanas, envolves - à tua barba de neve. áspera como as tuas mãos, de tanto pó que tens na pele. aquele pó dos espíritos, que eu também gosto de cheirar. não to contei, avô, tive vergonha. preferi ver-te apenas ali, a contar como te apetecia uma sandes, a tratar-nos por filhos, como se me sentasse na tua casa que não conheço, no calor do teu colo que apenas adivinho, a ouvir a tua voz grande e calma a contar-me as histórias que gostava de viver contigo. avô de olhos molhados, de vida de menino, de generosidade de homem que dá, apenas. e pede apenas aquele chão. homem - idoso ou velho? (sorrio) - que sabe tudo e não sabe nada. que vive tanto de tanto amor que espalha aos desconhecidos, que espalha em vendavais de voz grande, de braços abertos. avô de calças de ganga e colete, que há pouco vestia uma gola e vestes altivas, de rei, de alma, de grande senhor.
avô, queres ser meu avô?

um beijinho a ti, Ruy de Carvalho.
em cena no Teatro da Luz, "Palhaço de mim mesmo".

quinta-feira, 6 de outubro de 2005

I'm doing for music



perco-me entre letras e tons, que contam as histórias como se fossem minhas.
os meus momentos. os meus sons. os meus choros e risos.
em notas sopradas ao ouvido ou gritadas na estrada.
abandonadas para que sejam encontradas. lhes sejam dados os meus sentidos.

danço, perdida, ondulada, guiada no palco escuro. descalça, despida de razão. elevo-me sem céu ou terra, base apenas para o voo, chão onde apenas cai a minha água salgada, quente. e envolvo o ar comigo, envolvo-me no ar e pouco mais que as luzes dentro dos olhos fechados encandeia o meu planar. bailarina de pescoço alto, cabelos soltos e coup-de-pied ou menina na praceta feliz, saltitante, brilhante, sem medos. ou apenas o balanço que embala um corpo largado.

e no ar gravo o meu suor sem pesares. a voz no escuro, no oculto e anónimo, canta. saboreia palavras e vidas sem caras.
e até é bonita, segredada, trinada, aveludada, íntima, sozinha. porque pura e sem pudores, porque simplesmente na simplicidade de cantar. porque escondida.

gostava, às vezes, de ter nome de música.
mas o meu é só um nome. demasiado invulgar para ser poema ou canção. será único apenas na boca de alguém. como um beijo a duas salivas. não me dedicarão uma música.
mas na minha boca, o seu sabor especial vibra-me no corpo. como um arrepio. a um botão de distância.

terça-feira, 4 de outubro de 2005

especiarias

travo forte que se entranha nos sentidos.
aroma, voando entre cortinas indiscretas, contornando buzinas e sirenes.
entranha-se na língua, que, atrevida, quer mais.

o calor da canela salpica o doce com pintas de sensualidade.

segunda-feira, 3 de outubro de 2005

fast car

... is it fast enough so we can fly away?

hoje ao almoço cantou-me Tracy Chapman.
e cantou-me a alma do dia.

... leave tonight or live and die this way.

sexta-feira, 30 de setembro de 2005

se nao souberem de mim...


[ms]

... estou por aí, no meio dos fantasmas, a varrer as madeiras de amor e desejo.
a saltar por entre as bolinhas de luzes e pinturas.
a lamber as últimas gotas de alegria, a inspirar o pó que me alimenta.
a roçar-me nos lençóis de fingir, movida a elásticos invisíveis.
a beber das caras e risos e choros e palmas quentes.
a troçar nas luzes fortes que ainda me aquecem.
a suar no ar que me sustém.
a bater as palmas para as fadas não fugirem já.

se não souberem de mim, estou no palco, a desejar-me-nos-vos.

se não souberem de mim, estou no palco, a despir-me.

se não souberem de mim, estou no palco, a despedir-me...

colisao

ontem à noite fui perseguida por um pseudo-motard num aspirador com pretensão a mota. quando me apercebi, enquanto procurava estacionamento, que ele estava á minha espera, fui-me embora. dei uma volta ao quarteirão e dou com o dito tipo às voltas á minha procura. quando encostei, veio parar ao meu lado. voltei a arrancar, com a nítida noção que o meu tamanho não me permitia um conflito corpo-a-corpo e provavelmente se não saísse dali, teria vontade de lhe passar com o carro por cima. voltei a dar outra volta mais rebuscada e vejo-o a passar outra vez à minha procura. parei o carro, trancada lá dentro. quando começou a falar, percebi que estava bêbado. menos mal, era fácil empurrá-lo. saí. como também havia comigo um objecto pesado (à semelhança do capacete que ele mantinha em posição de arremesso) pronto a ser atirado à cabeça dele, resolveu-se tudo com três dedos de conversa, paciência para o ouvir repetitivo a contar que tinha uma mota melhor que aquela. avisei-o que perseguir pessoas não era bonito e se tinha arriscado a levar com o carro em cima.

hoje de manhã, estou na faixa certa para entrar no parque de estacionamento, e um tipo que quer mudar de faixa, atrás de mim, e apita-me como se eu tivesse feito alguma coisa. meto as mãos de fora a explicar que cada faixa tem uma direcção e que eu não tenho culpa de ele ser parvo. agora traduzo assim, na altura o léxico era do mais fino suburbano provençal...
o senhor também entrou no parque mas não me veio confrontar.

o meu parco metro e meio e uns trocos não me permite estrebuchar muito alto, mas na altura não me lembro. se tenho razão passo-me e depois começo a conjecturar as melhores formas me defender sem me aleijar.

parece o filme. sim. anda tudo com a mostarda no nariz. especialmente dentro da caixinha de metal.
como se a única forma de contacto que as pessoas institivamente conhecessem fosse o conflito.

amem-se, porra.

quinta-feira, 29 de setembro de 2005

contas feitas

esta é a minha última semana de palco.

sabe-me a sal, apesar do bolo antes do espectáculo.
apesar dos risos cúmplices que provoco.
apesar do calor das caras e mãos contra mãos, tão maior que o dos projectores.

Sábado bebo uma cerveja... ou duas... a ver se passa...

quarta-feira, 28 de setembro de 2005

ondular


[ms]

com os olhos, com as mãos, com o vento do respirar.
sensorial, sou. porque indelével na memória dos dedos ficam as curvas, os entretantos, a carícia do descer e do subir.
no suor e na suavidade, na ternura e na loucura, pele.
e deslizando entre pontos, pintas e colinas, parte-se do norte ao sul ou ao invés da bússola, do querer e da vontade.
e brisas mornas de desejo dançam novas curvas inventadas, como a dos lábios pedindo um beijo ou de umas pestanas nuns olhos fechados que escondem o tanto. ou até de uma pele arrepiada de uma humidade soprada ao ouvido.
se o arquejo tivesse cor, talvez soltasse pinceladas brilhantes, quentes, do grito contido.

terça-feira, 27 de setembro de 2005

isperto

a cada dia no trânsito, olhando em volta, reparo num sinal que nos diz a todos que essa coisa da crise é mito urbano. é uma cabala para subirem os assaltos e as seguradoras ganharem dinheiro.
todos os dias, milhares de carros brilhantes, saidinhos dos stands (ou standers, conforme a burgessisse de cada um), entopem as artérias da nossa capital, qual colestrol (ou castrol) que faz com que o trânsito não flua, não haja produção, e o coração pare de bombear rendimentos e lucros para as empresas, as pessoas sejam despedidas, façam greves, assaltem e esfaqueiem, etc.
nesses carros, vemos, em cada um, uma e só uma pessoa. o condutor. estamos numa sociedade de tristes, de solitários e estúpidos, que preferem entalar-se no trânsito a "conviver" com a plebe no metro ou nos autocarros.
onde está o dinheiro? das prestações, dos seguros, do combustível, das revisões, dos selos? tem de haver e não é pouco. é uma cabala, volto a dizer, isso de andarem a espalhar que estamos em crise! pois se há cada vez mais carrões!
engraçado é que se vêem mais motas com duas pessoas montadas que carros com dois passageiros. de realmente engraçado tem pouco, tem mais de foleiro, bimbo e idiota. mas não quero ofender ninguém.
e ainda mais curioso é o facto de esses carros serem todos enormes. os ditos carros familiares. os topos de gama pretos e cinza metalizado. como se fizesse muita falta aos condutores tanto ar dentro do cubículo de metal, só para um.
sou pelas portagens. passei a ser. eu venho de longe (de muito longe... lá lá lá). deixo o meu carro à porta de Lisboa num parque. e venho de carro porque na minha terra os autocarros para Lisboa são poucos, e acabam cedo, em nada combinam com os meus horários. sigo de metro e...oh! ah!... a pé.
sou pelos parques de dimensões espectaculares (mesmo que atentados à arquitectura paisagística) ao pé dos metros e comboios periféricos. que deviam ser de borla e ainda dar desconto no passe.
sou pelos smarts, que é o que essa gente toda devia ser permitida conduzir dentro de Lisboa. e com autorização expressa, depois de ter sido toda investigada a vida e necessidades efectivas de cada um. poupava. tínhamos o dobro do estacionamento, metade do trânsito, só com os ditos popós pequenitos.
irrita-me quem mora no príncipe real e faz 100m de carro para o escritório (y que los hay, los hay, trust me).
enerva-me os senhores exploradores de fossas nasais nos bê-émes, de ar altivo, que ali ficam parados, a parar o país. as tias que não sei como não morrem sufocadas com a laca e os químicos dos peelings a exalar dentro dos desportivos, e as betas e os betos com os carochas, um dossier no banco de trás e o telemóvel em cima do banco a pedir para ser roubado, para os papás comprarem outro mais caro.
eu queria morar em Lisboa. muito. para poder esquecer-me que tenho carro. que pago revisões a cada 3 meses por desgaste, que pago portagens, gasto horrores em gasóleo e ainda poluo o ambiente.
pergunto-me: serei a única?

segunda-feira, 26 de setembro de 2005

desperate theatrewives

sexta e domingo foram dias de trabalho físico, forçado, intenso.
preparar uma estreia de uma peça num monumento, com todas as limitações de tempo, burocracias estatais, cuidados com as paredes e azulejos, e uma enorme estrutura por montar, que abafaria o eco das paredes de pedra.
visto de fora: quatro mulheres todas com menos de 1,65m, de t-shirts tank top, calças práticas cheias de bolsos, de onde pendem x-actos, berbequins, blocos de notas, chaves de parafusos, telemóveis com auricular.
circulam no espaço de cabelos apanhados, suadas, carregando cadeiras, ferros, transportando roupas em pilhas, sacos cheios de estranhos artefactos como pedras e espadas, espalhando circuitos eléctricos e instalações de som, subindo e descendo escadas, percorrendo com um porta-paletes os claustros gigantescos de um conhecido monumento secular em Lisboa.
num dos dias, 2 carregadores ajudaram com parte do trabalho pesado, no outro foi um amigo providencial.
no entanto, foi curioso ver essas raparigas subirem as enormes escadas em caracol, carregadas com pesadas caixas de madeira, até à zona onde estavam instalados os camarins, para dar de caras com 5 actores machos, todos bem esculpidinhos dos ginásios, sentados à volta de uma mesa a fumar cigarros...

é hilário...
mas hoje não consigo rir, porque me dói até a respirar...

quinta-feira, 22 de setembro de 2005

entre parentesis

na procura eterna de ser uma pessoa melhor, uma profissional melhor, uma mulher melhor, tenho andado angustiada. não sei de mim. e sei que tenho sido, se calhar, demasiado angustiante também para quem me acompanha.
um dia disse a alguém: eu não sou só o que escrevo aqui. não sou só metáforas e futilidades. também não sou só tristezas.
às vezes não sei de mim, quando perco as lutas, os alicerces.
quando volto à tábua rasa e não sei se encontro forças ou sequer oportunidades para reconstruir, reescrever tudo. tudo aquilo de que dependo para ser feliz, para ser eu. e para levar comigo, no bolsinho, nos dedos, todos os polegares que não deixo para trás nunca. e que, sei-o, também precisam da minha alegria estúpida e do mau-feitio-beligerante-coração-de-manteiga ("cabeça em pé de guerra mansa...?") para saberem que as cores andam aí, que as fadas andam aí.
tenho saudades do colo da minha avó. e do tempo das papoilas. tenho saudades de quem me conte as histórias. de quem me leve pela mão nesse acto hoje em dia tão condenável de dar milho e correr atrás dos pombos com um sorriso na cara.
esta é uma daquelas fases ingratas para quem me acompanha, porque as dores cá dentro estão fora do meu controlo, do controlo de quem quer que seja. não tenho forma de mudar nada. e quando não controlo as minhas dores, quando faço de tudo o que é possível e mesmo assim não chega, fico... pronto, é verdade... de rastos.
por enquanto, peço desculpa. e peço tempo.
para me habituar ao regresso da actriz "sem-abrigo". sem projectos e de momento demasiado perdida na encruzilhada, demasiado fraca para sequer procurar uma estrela-guia.
mas não sou constantemente triste. sou de tudo. e aqui fica uma prendinha.
um "prometido é devido"...
ora, na senda das melhores roupas e marcas (cof cof) para vestir as nossas personagens, fomos a todas essas fantásticas lojas de Griffe da Baixa... e não resistimos (e já vi que o meu vício se pega) a experimentar e fotografar estes fabulosos exemplares... de propósito para depois partilhar convosco...

atenção: participação especial da perna da B.!

quarta-feira, 21 de setembro de 2005

do pensamento...

sou agulha e sou palheiro