quarta-feira, 14 de dezembro de 2005

cup&cino

ao som de uma qualquer martelada e de Sting revisitado, a conversa foi fluindo durante horas que não chegaram a avisar que tinham passado por ali.
primeiro correm as fotos debaixo de uma tecla, e os cheiros mudam e o ar parece deliciosamente arrefecido, parece que das bocas se soltam nuvens pequenas de vapor, que nos pés correm outras pedras. partilham-se os ventos e as luzes, dando-lhes a terceira dimensão dos sorrisos.
depois as palavras descobrem novidades antigas, na língua humedecida por qualquer coisa quente e doce.
a medo, primeiro, depois com uma vontade apenas de partilhar.
são precisas umas queridas tareias com festinhas nas mãos e cigarros absorvidos de olhos brilhantes. uns passos reticentes entre uma bússola de cera e chama tremeluzente.
e o mundo pára quando alguém leva a mão à cabeça e diz 4 palavras:
- nunca tinha pensado nisso...
um bichinho de contas enrolado em cima do tampo da mesa, com medo do frio, do tempo que passa por ele e não quer que passe e quer que passe. que não se vê ali, enroladinho aconchegadinho, na plenitude da sua beleza. abre devagarinho o seu mundinho e espreita cá fora. e o brilho dos olhos inunda agora a vida e recebe-a de outra forma. é assim quando somos generosos.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2005

o duende feliz

não, não é nenhum post acerca do nosso amigo linkado aqui ao lado, esse mestre dos contos e das fantasias... se bem que merecia...
é que recebi uma prendinha de Natal e pude voltar às dobragens...
algures nesta quadra [ergh, detesto esta palavra] passará na TVI o filme de animação "O Duende Feliz", ou "The Happy Elf".
a Molly sou eu. [não tem que enganar é a miúda cuja primeira cena se passa a apedrejar o dito Duende, o Eubie... eheheheh]


e também sou eu [kind of] que abro o filme, com a Irmã... esta não tem nome próprio, mas é a ela e ao irmão [que ela entretanto transformou em árvore de Natal à pancada] que se vai contar a história do Duende.

sim, sim, calharam-me as miúdas reguilas e ainda por cima as duas dentro da mesma faixa etária... e agora fazer duas vozes distintas...?
seria cantado pelo Harry Connick Jr. [essa maravilhosa voz que me persegue com a banda sonora de When Harry Met Sally] mas agora deve ser o Quim Bé a cantar... também não está mal...

tu, jovem duende feliz [o do blog], senhoras e senhores, nesta vermelha, branca e aconchegada quadra [ergh, lá está ela outra vez], sentem os vossos filhos, sobrinhos, afilhados, enteados e outros que tais em frente à TV, e tenham um pouco de sossego.
esta longa metragem televisiva tem o certificado de qualidade da Polegar, que vos garante desde já que é recheada do espírito natalício que já perdemos, com muita fantasia, neve, tropelias, ninguém se aleija e não há cá Songokus nem coisas sangrentas do género.
um filme cor de rosa para toda a família.

[entra musiquinha irritante com sininhos de intervalo publicitário de Natal e... de volta à programação]

a epoca dos presentes

é sempre uma batalha esta época do Natal. não apenas por causa do Natal em si, mas por causa dos aniversários de uma família maioritariamente sagitariana. esta época das duplas dores no bolso começa em Novembro, dia 20 com a minha querida "mais nova", a menina dos caracóis loiros. no dia 1 de Dezembro é comigo que vêm ter as velas e as palmadas nas costas. dia 4 é o avô-polegar, que já fez os 90 sempre de tubinho de oxigénio como companheiro, tabuleiro à hora certa, chupa-chupas nos dias de bola e a campainha preparada para nos levar à loucura. um senhor que apesar de caprichoso, temos de reconhecer, é teso como já não se faz e insiste que velhos seremos nós todos antes dele... deseja sempre "que contes muitos e eu a ver"...
o papi-polegar faz anos hoje. o meu querido pai, auto-didacta, transmontano de costeleta, inteligente, brincalhão. está doentinho, calhou mal, mas não vai ser uma gripe a impedi-lo de sorrir.
depois vem um tempo de calma... ou seja, descobrir onde vamos encontrar o dinheirito para comprar as prendas para as mesmas pessoas e mais as outras que estarão conosco à lareira na consoada, mais as outras que não estarão mas são contempladas neste totoloto de barrete vermelho.
a única pessoa que saía deste baralho era a minha avózinha que fazia anos em Junho... portanto, quando já não podemos com fitas coloridas, pensariam que se podia respirar fundo... só até dia 24 de Janeiro, quando a mami-polegar celebra o seu aniversário e lá se volta aos corredores (agora mais vazios...?) dos saldos dos centros comerciais...
entretanto já ninguém estranha os embrulhos com pinheirinhos e os postais do fundo do caixote, porque nesta época ninguém pode contar com prendas bonitinhas e personalizadas. é tudo corrido a Merry Christmas...

quinta-feira, 8 de dezembro de 2005

vermelho

vermelho escuro. pequeno. divertido. diziam que era a minha cara. era, sem dúvida, um cacifo da minha vida.

um companheiro, sim, apesar de objecto. estranharão muitos este post, este estranho apego a uma coisa. mas essa coisa simplesmente foi a minha casa e a minha liberdade ao longo dos últimos 7 anos. nascido em Novembro de 1998, morreu em Novembro de 2005. morreu. porque não volta a andar, porque mo destruíram. durou 7 anos certinhos.
era meu por uso capião e por estima. estranhamente sentia que me passava emoções, que me percebia, e, sim, eu falava e cantava com o meu jipinho.

agora, entre pesquisas de valores comerciais em guias de automóveis, pergunto-me como vou pagar prestações de um novo carro. porque o que ele vale para os técnicos é pouco. e pergunto-me também quem me vai pagar as aventuras, as paisagens, os cheiros, as lágrimas e as risadas que aquele carro viveu?
ficam as recordações. das coisas boas e das coisas más. especialmente a nível de aderência ao chão e assistência técnica. grandes guerras com os senhores mecânicos... mas até isso neste momento me arranca um sorriso melancólico.
mais uma vez uma porta que se fecha com violência, uma corrente de ar vinda não sei de onde... uma vez um amigo disse-me que a maior capacidade do ser humano é a de adaptação. pois parece que vai ter de ser.
a ti, jipinho, amigo, querido e impulsivo, fica um adeus cheio de saudades e um obrigada pela cumplicidade e por toda a liberdade que me deste. acima de tudo, obrigada por me salvares a vida.

terça-feira, 6 de dezembro de 2005

e eu que acho que nao viajo o suficiente...

26 voltas ao Sol... tão fixe!

o Sol está a aproximadamente 8 minutos-luz da Terra (i.e., a luz demora t = 8' = 8* 60'' a chegar aqui, viajando à velocidade c = 3*10^8 m/s).

assim, o perímetro da circunferência descrita pela Terra durante uma volta ao Sol é (tudo aproximado, claro) dado por
1 volta = 2 * Pi * r = 2 * Pi * c * t = 2* Pi * (3 * 10^8 m/s) * (8 * 60 s) = 2,9 * 10^11 m = 3 * 10^8 km

26 voltas serão, então, 26 * 3 * 10^8 km = 7,8 * 10^9 km

conclusão: já viajaste, muito aproximadamente, 8.000.000.000 (oito biliões) de quilómetros pelo espaço. nada mau ;)

[informação gentilmente enviada por mail pelo querido Ni, que tem andado desaparecido mas não ausente]

segunda-feira, 5 de dezembro de 2005

sabe bem olhar para ela


[ms]

desembrulho-me.
ali como quem vai para o rio, duas ruas à esquerda, depois da viela adormecida nas luzes de uma porta, contam-se três candeeiros depois do início do quarteirão. fica bem perto da loja de brinquedos antigos de grades fechadas, de moldura de madeira azul escura. ali, onde se dispersam quentes no gelo do ar os laranjas dos prédios e dos seus recantos. onde a chuva pica na cara de tão fresca e se lambem os beiços húmidos para depois os deixar cantar com a senhora de voz cansada mas com trinado certo num labirinto de azulejos sujos do metro. ali, onde os telhados descobrem cortinas brancas e o recorte da mulher nua em contra-luz com sílabas afuniladas. ali, onde os teatros se deitam no colo, ao som do alaúde. ali, onde as sombras do rio são nenúfares azuis que sabem a geleia de morango e riem com os sinos da catedral.
encontro-me, sempre ali. em qualquer lado. nos pés doridos e satisfeitos.

terça-feira, 29 de novembro de 2005

no palco nunca estás sozinha


[ms]

os fantasmas vivem lá, habitam em cada grão de pó. os fantasmas de todos aqueles que vivem ali, e ali só.
que nascem em palavras da alma de algum escritor, brotando tinta escura no papel imaculado. são antigas, as letras, ou nem por isso. não interessa. ali repousam, as letras, as palavras, os espíritos transparentes.
um dia são acordados por umas mãos que lhes tocam ao de leve. depois soam as gargalhadas lá fora, ouvem-se falados. ouvem-se a si mesmos a respirar, a sofrer e a sorrir, entre conversas que não conhecem. assim, meio entaramelados, os fantasmas sentam-se na borda do papel, mirando aqueles seres de mãos quentes que acariciam as suas páginas, que seguem com dedos espetados os parágrafos das suas ruas. que evocam as suas letras, a sua tinta. vêem esses seres de olhos sérios, olhando-os dali sem os verem, fixando com dúvidas e ar confuso as frases que disseram. aos poucos as expressões mudam, parecem compreender. rabiscam novas letras ao lado das suas. que revelam sentires que acham que sentem as palavras e que sentem os fantasmas. e eles olham as novas letras. e riem, e choram, e acenam ou negam. ali, sentados em volta, os seres pintam a marcador flourescente as "deixas". e fica colorido o papel, a sua casinha, cheia de cores e riscos e rabiscos e palavras novas.

um dia os papéis voltam a passear, até um sítio muito grande. e neles, sentados, sempre os fantasmas. olham o novo espaço e vêem as luzes acenderem-se, quentes, lentas, lânguidas. vêem os seres de mãos quentes a subirem ali para cima. e gritar. as vozes com as suas palavras ecoam nas paredes e giram tantas vezes. os seres às vezes fazem grandes disparates, como gemer sem nexo, mover-se de formas estranhas, vestem roupas novas com alfinetes pendurados, saltam, parece que enlouquecem.
andam descalços naquele chão e é aí, enquanto falam as palavras dos fantasmas e se enraízam na madeira que os fantasmas se sentem atraídos, magnetizados. aos poucos, devagarinho. observam à sua volta outros, que já lá estavam, viajando sentados nos grãos de pó, agora levantados pelos pés descalços dos seres das mãos quentes.
um dia o papel cai das mãos do ser, espalhando-se no chão, branco no preto. um negativo das palavras. e o fantasma observa lá de baixo. na primeira lágrima que o primeiro ser de mãos quentes solta, de pés descalços, ao dizer a tinta, o fantasma sobe.
torna-se grande grande grande. e abraça-se ao ser. abraça-se com força e chora com ele. e assim o fantasma se entranha feito água, ar, riso, roupa, na pele do ser das mãos quentes. e ele próprio sente que tem mãos, que anda descalço no chão.
todos os dias os seres voltam. todos os dias os fantasmas os aguardam. e crescem e vivem ali dentro. depois voltam aos grãos de pó para descansar e de lá nunca mais saem. [nos papéis, se olhares com atenção, verás as pegadas dos fantasmas, de quando moravam ali.]
é assim até um dia o fantasma sentir o coração do ser a acelerar de forma estranha, no escuro. nesse dia, assim que a luz acende, explode num orgasmo dentro do ser em mil partículas que penetram bem fundo nele, escorrendo até aos pés calçados ou descalços. apenas uma dessas ínfimas partículas fica dentro do ser. uma só, ficará eternamente. as restantes reúnem-se, quando as trovoadas soam, aquelas das mãos quentes de outros seres que os vêm visitar e ouvir. voltam a cada trovão ao chão e esperam pelo dia seguinte.
aprendem que podem ir ter com os seres àquela sala estranha de luzes fortes onde o fumo do cigarro se mistura com o cheiro das lacas e dos cremes e com a poeira dos cabelos e o vapor do ferro de engomar. divertem-se no reboliço, nos gritos e corridas, nas gargalhadas e "merdas", saltitando dentro do pó de arroz das meninas, para lhes beijar as faces. enrolando-se bem fundo na capa dos rapazes, para lhes pregar um susto, espetando para fora um alfinete, desapertando um botão.

quando um dia o silêncio volta ao palco, os seres sossegam e dormem. passeiam um pouco pelos grãos de pó. cantam inaudivelmente as palavras aprendidas, partilhadas, como lenga-lengas a chamar os seres, celebração às vidas dentro deles e mensagens secretas à partícula que sempre viaja com eles.

aguardam com expectativa o dia em que outros seres ou aqueles mesmos voltem, com novos amigos.
ou apenas para dançar no palco escuro. aí dançam contigo. observam-te e vêm soprar-te ao ouvido sem ouvires que gostam de ti e que têm saudades quando não estás.
é aí que sentes o arrepio...

sexta-feira, 25 de novembro de 2005

morte no parque

desorientou-se na outra turba estranha de gente, onde rostos conhecidos lhe transmitiam apenas a dor da transparência. o caminho era o mesmo mas sentia-se outra desconhecida. media os passos na alcatifa e os cheiros possuíam-lhe os sentidos. passou pelo seu rosto e não se viu.
há dias assim, pensou. em que se confirmam apenas as feridas por cicatrizar.
no veludo vermelho deslizaram-lhe as curvas de arcos de pedra gravados na pele. ainda gravados. sentia-lhes de perto o toque, a respiração. das pedras, sim, das pedras cinzentas frias imóveis que respiravam nela. como respirava aquela cara que a mirara de olhos cerrados no sono eterno de duas dimensões. e um outro corpo nu de rosas no colo e pescoço atirado para trás. e luas roxas e fios vermelhos. e canos entupidos e calças arregaçadas e a capa preta num sofá bafiento.
indelével, contudo, também a transparência com que se sentava ali. não disse mais do que o necessário, não abraçou ninguém que não quisesse abraçar. ficou por sorrir tudo o que queria sorrir mas não deixavam. preso ao lado das lágrimas. choraria noutro dia, decerto. ou não. ou nem isso.
contas saldadas. com os restos da vida e um par de cabos num saco saiu para o ar frio da noite.
no cruzamento a caminho de casa a lua esperava-a, como de costume, amarela e desfocada.
no rosto o vento frio da noite não lhe amarrotava a pele tanto como a temperatura baça dos olhares ou suas ausências lhe tinham amarrotado a alma.
na cabeça as frases ecoavam, batendo de um lado ao outro do peito, latejando-lhe a tal queimadura que não sara: "obrigado por tudo" "por favor não desapareças" "fazes tanta falta aqui. que é feito de ti?" pena que as palavras tenham saído das bocas ao lado.

tenho saudades do meu sonho. algures entre Mishima e eu.

quarta-feira, 23 de novembro de 2005

desrespirado

a multidão condensava-se num vapor pegajoso e barulhento. luzes demasiado brancas, neons e cartazes. consumia-se em cada passa de cigarro para se tornar mais nítida depois do fumo se misturar na respiração do ar condicionado. duas amigas em gargalhadas, um grupinho discutia trabalhos e teorias, com cuidado para não sujar a gravata com o molho da maionese, se ela fosse lá ter agora não estava com essa em cima, ela tem de se desenrascar, onde compraste esse casaco?, o caderno em cima da mesa.
alheia de sons e vozes e suspirares, observa apenas, absorta, ouve sem fixar. alarme de loja dispara sozinho. a sério? mas achas que. fui ao centro comercial pipipipipipipi.
o pensar misturava-se com os sons sem nexo e sem nexo continuava o pensamento.
bocejou. desligou. o filme começa daqui a pouco

segunda-feira, 21 de novembro de 2005

no vidro


[ms]

sentou-se na cama asfixiada com o ar tão leve que quase não o sentia entrar dentro de si. levantou-se sem contar os passos, e o chão deixava-se pisar sem lhe arrefecer os pés. sem uma brisa que lhe arrepiasse a pele fina das costas. o inverno berrava lá fora, mas não, nem um sopro. foi até à janela e encostou a testa no vidro azul escuro de céu. olhou fixamente as lágrimas que choravam no vidro. escorriam sem caminho definido porque o vento contrariava a gravidade em andamentos musicais uivados, assobiados, fazendo dançar a água. nem na testa sentiu frio. encostou a bochecha, depois o peito que ondulava pelos botões desapertados de uma camisa velha, ainda arquejante na busca do ar fino. nem no peito sentiu o vidro. mas chovia lá fora. quis tocar no vidro choroso. estendeu os dedos e acompanhou dormentemente o descer descompassado de uma gota gorda, que logo se misturou com outra. e logo lhe caiu no dedo. não percebeu porquê, se estava do lado de cá e a mão... atravessara o vidro. mas o que mais a incomodou foi não sentir a gota. devia ser fria, devia ser molhada. mas se não a visse cair no dedo que atravessara a janela, não a saberia caída na ponta do dedo. o vento abanava-lhe os dedos mas não sentia os dedos. devia esse contorno do corpo, agora todo cá fora, notar-se no frio. que lhe enregelasse a pele. mas não. olhou para trás. dormia. quieta, no meio dos lençóis. distinguia-se com a luz de presença do aquecedor uma perna desnuda estendida, o corpo pequeno, enrolado, cabelos espalhados na almofada e o subir e descer ritmado de um sono franco. era bonita, aquela mulher. porque serena. por nada mais que não isso. porque era vulgar, apenas mulher. mas descansava.
virou as costas ao seu corpo e deixou-o repousar enquanto estendia de novo os dedos para a chuva, atravessando de novo a janela sem estranheza. estranhou não estranhar. viu a camisa enrugar-se, ajustar-se-lhe ao contorno que era seu, com o peso da água. viu-a agitar-se no vento que lhe roubava os cabelos, chicotes húmidos, tinha a certeza. via, apenas. e se fechasse os olhos? ouvia o segredar da tempestade.
fechou os olhos.
uma rajada de vento sugou-a. arrancou-a da suspensão com uma sacudidela e desapareceu, como folha pequena de árvore. agora o temporal rimbombava-lhe no peito. qual tambor. tremeu. de prazer, de frio. porque de frio de prazer. a água beijou-a e chicoteou-a. lambeu avidamente os lábios e engoliu aquela chuva e o sabor arrepiou-lhe o peito. estava fria. sabia, sentia. sorriu. sabia que sorria apesar de não ver. entre as vergastadas gélidas de vento, a água sacudia-a e enrolava-a. sentiu finalmente a roupa enrolada no corpo, aos encontrões na pele. sentiu o seu contorno no frio e no vento e achou-se bonita também.
um pé tocou no vidro da janela - sentia o vidro, bem frio, bem duro, bem liso - e começou a deslizar. estendendo-se para lá do que se conhecia como o seu pé.
e tinha a certeza que a pele também escorria, agora só líquido transparente, arrastada pela água, espalhada pela ventania.
tinha a certeza. enquanto escorria pelo vidro, agora lágrima envidraçada, e se entranhava num qualquer pedaço de terra.

sábado, 19 de novembro de 2005

espiral

agarro-me com força ao que é bom. abraço com os meus dedos pequenos, e a minha boca procura o ar calmo e fresco de uma manhã de sol.
mas já não me larga o pânico da perda.
perder até o discernimento para conseguir sorrir. aquele sorriso que sempre foi tão constante que se tornou um peso e um preço, para aos poucos regressar à sua natureza. porque sempre fui de sorrir.
tempos de espiral descendente. não quero cair outra vez. não assim. não tenho mais braços. não tenho mais músculos. não. sim. o corpo pede descanso. porque suportou dores de alma, está magoado, fraco, enlameado. o coração voltou a saltar, de vez em quando, à minha revelia. a assustar-me como já me assustou. não quero mais.
quero deitar a cabeça na almofada e adormecer-me. descansar-me, serenar-me.
quero enrolar-me no ar quente e deitar-me com o sossego. só por um bocadinho.

crash

só queria dizer ao senhor condutor que esta madrugada, na 2ª circular, resolveu vir contra o meu carro, fazer-me andar em peões e espetar-me contra um rail, enquanto fugia, que os polícias foram incansáveis e querem tanto vingança como eu.
assim, enquanto o meu jipinho fica à espera de diagnóstico ou mesmo de entrada no ferro-velho, o senhor ficará sem carta, e, pelo que depender de mim, vai pagar bem caro o facto de nem sequer ter olhado para trás, enquanto parava o A3 dele (que também não ficou em bom estado)depois de uma curva, bem escondido, trancava as portinhas e ia a pé (cambaleante, decerto) para casa.
senhor condutor: estamos bem, obrigada, por acaso não morremos.
a festa de anos da minha irmã, que é assombrada desde a morte da minha avó, vai correr da melhor forma.
e não se preocupe, eu arranjo maneira de ir trabalhar todos os dias.
tenha um soninho descansado.

quarta-feira, 16 de novembro de 2005

polegada #4

|quando pensamos que as coisas não podem ficar pior|

os carregadores não apareceram hoje. o patrão tinha-os avisado mas eles não tinham sido avisados.
eu e a minha colega (não a cabajona, a outra, do som, que também é franzina) tivemos de montar tudo sozinhas.
os actores foram beber cafés ou para os camarins. um deles pensava que estavam a gozar com ele quando tinham dito que os carregadores não tinham vindo. só se aperceberam da calamidade quando chegaram à sala, 5 minutos antes da hora do espectáculo, em vez da meia hora regulamentar. aí ajudaram.
se todos trabalhassem na montagem todos os dias, ganhávamos mais porque não se pagava aos carregadores. e eu e a minha colega podíamos chegar uma hora mais tarde, e eles só tinham de chegar meia hora mais cedo.
o espectáculo começou com 25 minutos de atraso. turmas barulhentas da Baixa da Banheira. ficaram histéricas quando um ex-morango apareceu à porta para a visita guiada.
como ao puxar o porta-paletes com parte do material, de manhã, íamos a rir de qualquer coisa para não chorar, o escritório recebeu uma queixa da direcção do monumento. porque fizemos demasiado barulho durante a missa.
como os actores só têm, além de representar, de trancar a porta de acesso à zona do camarim na torre, porque é interdita ao público, quando vêm fazer a peça, esqueceram-se. os turistas tiveram um passeio extra. e eu, antes de desmontar tudo, tive de ir falar com uma funcionária para saber que receberemos um parecer da direcção acerca do assunto.
a partir de amanhã, além de tudo, depois de começar o espectáculo, fui incumbida de subir à torre para me certificar de que trancam a porta.

terça-feira, 15 de novembro de 2005

polegada #3

|tentativa de pendurar um cartaz a quase 2m de altura|

duas mulheres. uma cabajona, outra franzinita. uma parede fina, sem ligação ao tecto, com algumas vigas. fio de nylon. escadote do séc. XVII. um cartaz. duas galinhas doutoras.

cabajona: eu subo ao escadote do lado de cá. sobes para cima dos cacifos por detrás da parede e esperas que eu te mande o fio de nylon, prendes às vigas.

franzina olha os cacifos, são mais altos que ela. um banco do séc. XVII oferece pouca sustentação. sobe ao banco e continua a não chegar com mais que os braços aos cacifos. não tem força para se elevar só com bíceps e tríceps e restantes íceps. em frente aos cacifos está outra parede do séc XVII. que se lixe o património. pata na parede e trata de escalar quase paralela ao chão até se conseguir içar para cima dos cacifos. espera. espera. espera.

cabajona: polegaaaaaar. não consigo subir ao escadote. tenho medo. vem tu para aqui e eu vou para aí.

franzina olha o banco lá em baixo. suspira. pata na parede. outra pata pendurada na direcção do banco. escorrega escorrega. pata na parede já está ao nível do nariz. a outra pata a sentir o banco ao fundo. bendito ballet, serviu de alguma coisa ao fim destes anos todos. desce.

cabajona vai lá para trás. polegar mira o escadote, daqueles de encostar à parede. o espaço entre a parede e a bilheteira oferece muito pouca possibilidade de inclinação. franzina tem vertigens. suspira. um pé atrás do outro e maldizer o patrão que não lhe fez seguro. pensando bem, nem lhe pagou ainda. sobe de cartaz na mão. só com um braço seguro no escadote, em bicos de pés para inclinar-se mais para a frente. as duas galinhas cacarejam lá am baixo mas não se oferecem para ajudar até serem intimadas.
seguram o cartaz cá de baixo, mas depressa se fartam. dor nos braços e a cabajona que não diz que está pronta.

cabajona: polegaaaaaar. não consigo subir ao cacifo.
franzina: (do alto do escadote, dor nos pés, dor nos braços) apoia os pés na parede da frente e iça-te.

franzina pensa que a cabajona poderia com pouco esforço sentar-se nos cacifos. mas pronto.

franzina passa fio no cartaz, atira o rolo do fio à cabajona. as galinhas (que entre si se tratam por doutora esta e doutora aquela, de mise feita e saltinho agulha), de rabo para o ar andam a apanhar o rolo (que invariavelmente cai no chão) para, depois de cortado, devolvê-lo à franzina. cacarejam acerca de estar torto. de estar alto e de estar baixo. com o braço dormente, franzina corta o mal pela raiz:

franzina: tá bom.

tem de mudar o escadote de sítio. desce e dá uma joelhada num parafuso do séc XVII saído. as galinhas atendem telefones do lado de dentro da recepção, indiferentes ao facto de a cabajona estar petrificada no alto dos cacifos e de a franzina estar a desviar cadeiras e a transportar o escadote sozinha, fazendo slalom no galinheiro. franzina volta a subir.
mais galinhas de rabo para o ar, mais nylon a voar. quando começa o cacarejo sobre o torto e o direito, franzina ataca:

franzina: tá bom.

franzina desce do escadote, leva-o sozinha para o arrumar, e vai atrás da parede ajudar a despetrificar a cabajona.

assim se pendura um cartaz.

segunda-feira, 14 de novembro de 2005

alvorada

vai passar a ser às 6:30 da manhã em 90% da minha vida laboral. vai ser não só a A8 e a Calçada de Carriche como também atravessar a 2ª circular e entrar em Belém.
vai ser montagem de espectáculos diária, quatro dias por semana. duas horas a carregar ferros, contrapesos, cadeiras, placas de madeira. juntar tudo num cenário. ir para a bilheteira e aturar as senhoras do monumento com a mania que são gralhas, as professoras nervosas, os adolescentes com a mania que são engraçados, tarados, destruidores de património e mais barulhentos que galinhas com gripe.
depois das matemáticas (se entretanto os actores não se tiverem deixado dormir), começa o espectáculo. rezar para que a colega já faça ideia de onde fica o botão do play. esperar para depois desmontar tudo e voltar a encaixar num cubículo com um metro de largo por metro e meio de fundo.
voltar para o escritório. de preferência de transportes públicos, já depois da hora de almoço.
comer uma sandes e ir para a frente do computador.
isto nos dias em que não houver espectáculo de tarde.
voltar a ir buscar o veículo ao fim do dia.

inspira, expira. inspira, expira...
tomorrow, tomorrow, I love ya tomorrow, you're only a day away...

mulheres

acordar cedo e entrar no carro com as irmâs. o sol a entrar pelos olhos, as vidas postas em dia, quase sem olhar a estrada porque era a caçula que conduzia.
a chuva fez o ritmo no tablier das palavras que escorriam de tema em tema. perdermo-nos e chegarmos, finalmente, a uma terra perdida nos montes de Leiria.
entrar na enorme loja e voltar em passos pequenos à infância. os tules, as organzas, sedas, e laçarotes. coisas muito foleiras, coisas muito bonitas. de repente ela já não era a figura que lhe conhecia. estava ali, longa, esguia, comprida, flutuando no branco da seda selvagem. entre gargalhadas, caretas, dúvidas e muitos arrepios de frio, os alfinetes entranhavam no tecido, dando forma ao desenho das palavras. palavras que saíam tremidas. do frio? aos poucos a confiança impôs-se, e meti-lhe os dedos no cabelo. também na minha cabeça desenhei linhas e contornos, que fui improvisando em concordância com o que havia à mão. já tenho a paleta de cores com que lhe vou salpicar o rosto bem definida, e o gancho de que gosta vai ficar como eu quero. de um punhado de ideias fiz-lhe o agasalho que faltava, e um adorno para o pescoço.
vais ficar bonita.
vais-me estragar a festa de passagem de ano. mas vais estragá-la em grande...

magusto

queríamos uma coisa típica. castanhas e água pé.
acabaram por ser castanhas de um bolo-rei (!), a água pé transformou-se em triestino, hot chocolate, chá de limão e um mocaccino ou algo com nomes italiano-americanizados do género.
estavam quentes e souberam bem. souberam a conversa comprida, mãos quentes e luz de velas. porque o chocolate é mais doce bebido a colheres de chá :)

sexta-feira, 11 de novembro de 2005

dois teclados #2

Regressaste numa manhã de nevoeiro. Parece pateta mas foi verdade, era inverno e era manhã e estava frio e chegaste leve e sorridente como te recordava, voltaste a ser a boneca apaixonada por quem todos os homens do mundo se deixavam aprisionar se te vissem sorrir. Quando o peso saiu dos teus ombros voltaste a pular sobre as nuvens e sorriste e voltaste a ser feliz. E lembrei-me daquele primeiro instante, um café roubado ao teu horário de trabalho, um cafézinho roubado ao fim de tarde num jardim da cidade, e aqueles primeiros sorrisos trocados, o teu rosto era mesmo mágico, soube logo ali.
|NC|
És tramado, tu. Nessa cara de menino sacana, de olhos inteligentes, a percorrerem-me por dentro como se não fosse boa educação perguntar antes de entrar. Aliás, fazes tudo sem perguntar, não é? Assim me raptaste pela primeira vez do bulício das contabilidades de fim de data de entrega de IRS. Não se faz. Mas tu fazes tão bem… “Estou cá fora. Desce que preciso de cafeína contigo”. Senti-me trapalhona, desengonçada, mal arranjada, um pouco irritada com o descaramento, e indefesa. Estupidamente indefesa. Mas defendi-me com a única arma que tenho e desci de sorriso em riste. Hoje tenho frio. E estou de arma na mão outra vez. Não sei o que esperar.
|P|
Agora voltaste voltaste segura, desta vez sabias ao que vinhas. O sorriso era o mesmo, imensamente acolhedor e bonito, mas desta vez não era uma máscara, era verdadeiro como o frio que entrava pela janela meio aberta. O fumo do cigarro embrulhava-se no ar sombrio do fim de tarde e enquanto contavas histórias engraçadas dos bastidores bebia o martini com gelo até ao fim. Eu ouvia, meio distraído como sempre, espreitava as pessoas e os pássaros e as cores e a noite que caía e ficava embriagado contigo.
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Miras-me assim, e parece que sim. Parece que tudo o que aconteceu antes não tem significado. Que agora sim, é o tempo e o espaço. Que houve apenas um desencontro dos fusos horários das almas, antes. E sabes que mais? Ou estou curada ou não quero saber do que nos fizemos. Porque agora, que podia dizer-te muita coisa, lembro-me apenas de que a tua pele sempre me soube bem, e de que a forma como ondulavas as mãos no meu corpo me faziam sentir mais mulher. E olho-te. Absorves as minhas parvoíces que preenchem os silêncios, interessado, entusiasmado com essa parte de mim. E as outras? Ao que vens? Porque eu estou aqui completa. Sei o que quero. E estou aqui. Mais não faço.
|P|
Acertamos os relógios e partilhamos tudo outra vez, desta vez verdadeiro. Lá fora há um candeeiro sozinho a iluminar a rua toda, é a única certeza que tenho neste momento e sei porque acabo de espreitar a janela, tu estás ainda escondida pelos lençóis, é cedo, demasiado cedo para o dia nascer, mas fico acordado a olhar para as curvas douradas da pele descoberta (é inverno mas a noite é quente), estou acordado e antes que volte a adormecer, com os braços a embrulhar-te inteira para mim, antes que volte a cerrar os olhos e a navegar na névoa dos sonhos, miro-te uma vez mais, beijo-te de mansinho (não acordes, bébé, não acordes) e sei que duas pessoas abraçadas é tudo o que existe, é quase palerma, é cor de rosa e é bonito e inocente como a madrugada que quer despertar, são cinco da manhã, até logo, até mais daqui a pouco, não te percas no sono, desperta-me com beijos.
|NC|
voltamos ao passado com a doçura do presente. envolve-me nesse calor e não me deixes ir. os relógios podem cantar. agora não me importo. nunca te esqueças. perdeste-me e ganhaste-me de novo. não jogues mais. absorve-me como se dá uma passa lenta num cigarro. não apagues. fecha a janela, o nevoeiro está a entrar e cobre-nos de geada. os dias são longos, mesmo no inverno. são assim porque os queremos. neste vício quente da nicotina quero acordar para me viciar um pouco mais no inconsciente do viver-te. bom dia.
|P|

texto partilhado por polegar e Nuno Catarino

serviço (do) público

soube aqui que se está a fazer um inquérito ao público sobre blogs e afins. vamos lá fazer serviço, senhores, toca a responder.

bom dia ou... tem de ser

expiro forte no ar frio, os passos contados pela calçada branca. o dia brilha-me no cabelo e o caminho prolonga-se até à chegada.
subo dois lanços de escadas e cumprimento a menina da recepção com um sorriso, ao que ela responde com outro, inclinando-se para a gaveta de onde tira uma chapa para a máquina do café. pago e sigo. passo as portas de onde já se entrevêem pessoas a circular entre computadores acesos, fundos de écrãs com criancinhas, dossiers e papeladas. quadros nas paredes e gráficos. vou ao chamado bar, onde está a máquina do café, ligo-a. abro a porta do meu escritório e cumprimento os actores nas paredes. ligo os computadores, pouso a mochila e dispo o casaco e o cachecol cor de rosa onde afundei o nariz no caminho.
volto à sala do bar e meto a chapinha na máquina. a bica é mais barata e apesar de a máquina ser muito antiga, o café sai espumoso, quente, forte.
volto com o copinho de plástico a fumegar, pouso-o no postal de um filme que serve de base, despejo o açúcar e acendo um cigarro. vamos ver os e-mails, juntar papelada para a advogada. enquanto o programa abre, ligo o rádio. tomem lá.

Generation sex respects the rights of girls
Who want to take their clothes off
As long as we can all watch that's o.k.
And generation sex elects the type of guys
You wouldn't leave your kids with
And shouts"off with their heads" if they get laid

Lovers watch their backs as hacks in macs
Take snaps through telephoto lenses
Chase Mercedes Benz' through the night
A mourning nation weeps and wails
But keeps the the sales of evil tabloids healthy
The poor protect the wealthy in this world

Generation sex injects the sperm of worms
Into the eggs of field-mice
So you can look real nice for the boys
And generation sex is me and you
And we should really all know better
It doesn't really matter what you say

generation sex | divine comedy | fin de siécle : 1998