quinta-feira, 10 de novembro de 2005

bocas

desde miúda que vou ao dentista. no primeiro dia escondi-me atrás da cadeira a pedir por favor que não me arrancassem dentes. acabou por ser necessário, mas até que nem foi muito mau. o doutor, com nome arraçado de Caramelo, era bom.

arrancaram-me dentes de leite, dentes definitivos, acho que uns 10 dentes no total. porque, literalmente, I could'nt keep my teeth inside my mouth. tinha daqueles espaços entre os dois dentes da frente, que prontamente foram postos no sítio com um aparelho que tinha uma Tartaruga Ninja no céu da boca. aos 14 anos estava pronta. depois de todos estes arranjos, o doutor Caramelo foi para os States fazer um masters em implantologia, e só o via e aos seus mui calmantes olhos azuis de seis em seis meses, altura de limpezas simples. antes de partir fez-me um molde da obra acabada para mostrar aos seus alunos e colegas. e suspeito que para ter um pouco de mim sempre por perto.

ora bem, regressado dos States, veio megalómano. o consultório não lhe chegava. resolveu fazer uma mega empresa, com linha de montagem. basicamente, um médico para cada departamento dos dentes, consultórios state of the art, computadores com as marcações em rede ligados à recepção e registo informático com tudo, inclusive radiografias, um andar inteiro num super prédio da moda, estreia do seu "Instituto de Implantologia" com direito a foto na Caras. ficou mais caro. agora não via os seus olhos azuis. se queria limpeza, marcava para um higienista, se quisesse marcar com ele, teria de fazer um implante.
entretanto cresceram-me os sisos. e bem que resolveram, eles também, dar-me problemas. ia ter de arrancar um que estava a nascer torto. e já agora o outro que ficava por cima, para ficar simétrico. e já agora os outros dois, para completar a simetria, seriam extraídos posteriormente "porque é uma pena, essa dentição está perfeita". marca para o cirurgião.

a técnica deste senhor era sui géneris: logo a seguir a dar a anestesia, experimentava impacientemente com o bisturi na gengiva a ver se ainda sentia alguma coisa. ora como ele não esperava que fizesse efeito, eu sentia. então toma lá mais uma anestesia. ao fim de nove anestesias, a primeira começou a fazer efeito. já tinha um siso cá fora. quando a quinta fez efeito, já estava a levar pontos, depois de tido a mão do senhor na minha testa a prender-me contra a cadeira enquanto arrancava o dente de baixo à mão. além de tudo, era uma pessoa maravilhosa: apelidou-me de mariquinhas e mentirosa porque eu dizia doía.
a sétima anestesia estaria a fazer efeito enquanto, aos tropeções, de fala entaramelada (não só pela dormência, mas também pela trip que a overdose de analgésico provocou), contava ao doutor Caramelo (que encontrei no corredor, antes de pagar) como tinha sido a aventura, divertidíssima da vida porque via elefantes cor de rosa na sala de espera. o senhor ficou impressionado, segundo a minha mãe. eu não me lembro. o facto é que quando voltei para tirar os pontos o dito cirurgião já não trabalhava ali.

bem, posto isto, desisti do totoloto da linha de montagem e da revista Caras e fui para o médico da minha mãe, que tem nome arraçado de Carrasco. ainda não me inspira muita confiança, porque não gosta de usar máscara, e eu estava habituada aos topos de gama do Caramelo.
ora quando fui à primeira consulta, disse que os outros dois sisos que sobravam não precisavam de ser extraídos "que disparate, vai sofrer só para ficar simétrico! se incomodar, aí sim"
pois que da terceira vez que lá fui, chamou outra médica, andaram tempos infindáveis de volta de mim (eu a pensar que havia algo de grave, conte-me já, vou morrer, doutor?) e acabou por pedir autorização para fazer um molde da minha dentição "porque estamos a fazer apresentações sobre a estética e os seus dentes neste momento estão na moda. são um exemplo perfeito para fazer arranjos, placas"... errrrr. lá me engasguei toda com a massa para bem dos velhinhos desdentados.

desta última vez, quando me sentei para a limpeza, perguntou-me se vinha para extrair. extrair o quê, senhor? "os sisos, então..." e esfregava as mãozinhas... eu estranhei e perguntei porque é que queria extrair. ficou muito embaraçado, fez a dança do espelhinho, e, com muitas hesitações, acabou por dizer que "de facto, não é necessário..." mas ficou um "mas" no ar. o Carrasco também foi mordido pelo bicho-esteta e queria acabar de vez com a assimetria dos dois sisos que ainda me restam, que só se nota quando escancaro a boca deitada naquela cadeira.

e se fossem todos bugiar, não?

quarta-feira, 9 de novembro de 2005

agruras da vida

andei a correr passeio fora atrás de uma nota de 5 euros que o querido vento amigo queria levar para longe de mim. desesperada gritava-lhe, como se me pudesse ouvir, que não me deixasse.

agora desligo as máquinas e ponho a mochila às costas. vou ao dentista largar umas valentes centenas de euros, que ele não faz por menos, e ainda por cima tenta não passar recibo.

(suspiro)

ai...

terça-feira, 8 de novembro de 2005

girando em cima da mesa

"[...] A vida como uma moeda. Escolhes uma face ou uma face te há-de escolher. Avalia as possibilidades.
[...] O problema das montanhas é que só conseguimos ver o que está do outro lado quando lá chegamos. É fácil dizer hoje que não mudaríamos nada, ou que faríamos tudo diferente. É fácil porque não adianta".
A casa quieta, Rodigo Guedes de Carvalho

às vezes é complicado pensarmos em como só vemos a solução depois de já não haver problema. depois de já não se poder fazer nada. o meu maior problema. a minha maior luta. tentar fazer tudo para que as coisas não percam o controlo. não nos percam.

há muitos anos, a noite era de vigília silenciosa cansada ao teu quarto.
os fantasmas cirandavam e eu não queria que te perturbassem os sonhos de menina.
ficava de olhos abertos na escuridão até a escuridão me abraçar por desgaste. acredita, não aguentava mais do que o tempo que os olhos se mantinham alerta.
mas tinha a sensação de que nada te tocava. que te guardava.
hoje as portas do teu quarto ficam fechadas. não sei se para evitar os pesadelos ou se para os deixar só aí dentro.
se para ouvires melhor o espanta-espíritos da maçaneta, ou se para não ouvires nada. tremo.
e penso, enquanto te puxo o edredon para perto das orelhas, e miro essa cascata dourada na almofada, que voltaram os dias de vigília.
um peso aperta-me o peito. de novo.
desta vez não posso falhar.

[a porta] in o medo do escuro

segunda-feira, 7 de novembro de 2005

onde andas?

loira, tonta, de olhos grandes.
onde andam eles?
os olhos?
porque te dizes menos? porque te dizes longe?
sabes, maninha querida, que estás no casulo do meu coração?
e enquanto as estações passam, sinto-te quase borboleta...
quase a voar. não é para fora do meu coração. a esvoaçar, com as outras, dentro de mim.
minha pequenina, tonta, de olhos grandes e caracóis de sol.
põe pimenta nessa língua de pensares assim.
de não pensares também em tudo o que é nosso e bonito.
de que tu fazes parte.
esses pesos que carregas, usa-os como apenas raízes ao solo.
para poderes florescer.
com a água dos dias bons.
quero-te perto, maninha linda.
um beijo

sexta-feira, 4 de novembro de 2005

tricotando...

roubei este excerto descaradamente de uma conversa de msn q tive há uns minutos com a B...
foi alterado por forma a preservar o anonimato de quem tem de ser anonimizado...

B says:
Linda, fiz à hora de almoço a transferencia para ti (dos nossos mui recheados auferimentos do SAX)

Polegar says:
eheheheh boaaaaa

Polegar says:
vou comeeeeer!!!

Polegar says:
LOL

B  says:
e fiz tb para o (outro actor do espectáculo que é o tal totó insuportável), adivinha de quem é a conta?

Polegar says:
da pipipopótarecaxenica

B  says:
LOLOLOLOLOL

B  says:
(MUITO ALTO)

Polegar says:
matarruana, aquela

Polegar says:
como é q se chama?

Polegar says:
calhau? bulldozer?

B says:
DOUTORA xxx....

Polegar says:
ah, pronto, está bem...

Polegar says:
tinha ideia que ela tinha outro nome qq

B  says:
sim, acho que é calhau

Polegar says:
ora lá está

Polegar says:
sabia que era qq coisa geológica, mas não era xxx Rocha Sedimentar

B  says:
lol

B  says:
e ele mandou mesmo agora uma mensagem a pedir que não me esquecesse da transferencia "é poucochinho mas faz me falta!"

Polegar says:
ai coitadinha da sôdôna directora de marketing de uma empresa nacional que não dá a mesada ao menino...

bem... e isto seguia por ali adiante... gajas!

ou bem que sou assim...

... ou bem que não sou eu...
processem-me...
quero lá saber.

sou cor de rosa, às vezes, que fazer?
venha de lá a borrasca depois. agora? agora não consigo ser de outra maneira.

quinta-feira, 3 de novembro de 2005

olha!


My blog is worth $14,113.50.
How much is your blog worth?



quem quer comprar à polegarzinha, o blog na netzinha?

polegada #2

ontem, a caminho da cervejaria Trindade, passei obrigatoriamente pela sex shop ali do Cauteleiro.
olho sempre para a montra. confesso, acho graça ao imaginar senhoras a tentar reacender a paixão em casa, vestindo aquelas rendas com a banha a sair por entre os muitos buracos da fatiota. e a cara de surpresa de um qualquer alguém que acha que engatou uma miúda certinha para uma noite de simples engalfinhamento e de repente a menina angelical de artigos duvidosos a gritar "say my name, bitch". ou até o rapazola de livro na mão, com a namorada deitada na cama à espera, e ele "ora... 5 centímetros para nor-noroeste do ísquio, isso fica por... aqui!" "Ah! Oh sim!!...

bem, na vista de olhos pela dita montra, reparo num livro à venda. "Arte vs Sexo", do Miguel Ângelo. sim, o dos Delfins.

eu não sei quanto a vocês, mas... haverá coisa mais quebra-tesão do que o Miguel Ângelo?

elevador #2

entro. o condutor acaba o cigarro e sobe atrás de mim. sacudo a chuva do cabelo, pago e pico o bilhete.
fico mesmo à porta. perto, tão perto do condutor sisudo que quase sinto as pontas dos seus bigodes enormes, retorcidos, na minha bochecha.
observo calmamente o caminho, sempre o mesmo, em carris. mas cada momento diferente. a luz. gente, sempre gente, mas sempre pessoas diferentes.
um grupo daqueles de gente pequenina de olhos bem abertos e bibes coloridos desafia o passeio íngreme com as suas pernas curtinhas. aos pares, de mão dada.
olho em frente. quase a chegar. o senhor dos bigodes, o sisudo, levanta a cabeça, e de repente os seus bigodes saltitam e ele acena lá para cima.
espreito. outro grupo dessa gente pequenina de bibes às cores está de caras redondas encaixadas no gradeamento ao cimo da calçada. e agitam as mãozinhas a dizer adeus ao elevador.
estico o braço e sorrio-lhes com o sorriso parvo de "gente grande".
ouço um "adeeeeeuuus" de vozes fininhas de gente pequenina.
e ouço outro, de vozes grossas, constipadas, mulheres e homens. olho para a traseira do eléctrico. toda a gente está virada para as janelas, de braço no ar, a acenar de sorriso parvo na cara.

ora aí está uma coisa que não se vê todos os dias.

quarta-feira, 2 de novembro de 2005

abana ai

a cair de sono no trabalho.
na rádio canta-me agora o Jack Johnson. e diz ele: girl, I wanna lay you down...
é simpático...

pao por deeeeus

santa terrinha, 9 da manhã. tudo calmo. a luz entra preguiçosa por entre as portadas, o mundo parado debaixo do edredon azul, no borralho quente do corpo descansado, imerso nos sonhos sem sonhos de que a cabeça precisa, e que dure muitas horas para recuperar.

blém blém blém
tocam à sineta do portão (o meu pai gosta de coisas rústicas...) e um coro de vozes novinhas novinhas a estrear grita:
- pão por deeeeeeeus
silêncio. dentro do edredon o primeiro movimento. lento, atabalhoado, mas irritado. rezando para que este ano haja, de facto, alguém em casa, que vá à porta antes de os miúdos voltarem a to...
blém blém blém
- pão por deeeeeeeus
não, outra vez não. este feriado é maldito. é sim senhor. cabeça para debaixo da almofada, edredon até ao nariz.
trrrriiiiiim trrrrimmmm
- pão por deeeeeeeus
mudaram de estratégia. foram ao outro portão, que tem campainha normal. (sim, é rústico, o badalo, mas não se ouve na casa toda). oh não. sei perfeitamente o que vai acontecer. como ninguém aparece vão deixar o dedo na camp...
trrrrrrrrrriiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiimmmmmmmmmmmmm
raispartafilhadamãedosputosmaisoestaporquinventouestaporcariadeferiado
- pão por deeeeeeeus
o meu avô ajuda à feira e toca à campainha interna que usa para chamar a minha mãe (e restantes servos).

silêncio. desistiram. aaah. hmmm. mas, mas, mas... os meus olhos. não querem fechar! oh não! a insónia matinal não!
acender tv, pode ser que me embale.
missa ou clube das chaves.
dasse.
levanto-me e enrolo-me num casaco quente. estupor de quarto frio, o meu.
vou até à sala. daí a pouco, com a chávena de café na mão, vejo chegar os meus pais.
- tocaram uns miúdos. não me consegui levantar, desculpem.
- ah, deixa estar, já passaram por nós e já dissemos para volt...
trrrrriiiiiimmm
- pão por deeeeeeeus
já é mecânico. o meu pai sai, casaco em banda, perguntando alto
- quantos são?
vou à mesa de jantar.
ele grita para dentro.
- são sete
oh well...
conto seis saquinhos que já estão preparados. tiro outro do rolo, abro e recheio. três rebuçados às cores, dois chocolates em miniatura, uma pastilha.
o meu pai volta, o mesmo sorriso de leste a oeste que me deu no código genético. dou-lhe os saquinhos
- este ano vêm em alcateias, bolas! eheheheh

desde que vim morar para aqui é assim. a palavra espalha-se. de geração em geração. aqui há saquinhos às cores. aquelas cores que fazem mal aos dentes mas sarapintam os rostos de alegrias gulosas. e o senhor grande das barbas abre o portão a rir, com as mesmas sarapintas nos olhos que eles, e deixa fazer uma festa na cadela grande e gorda.

sem religião.

dantes, quando os tempos eram outros, fazíamos noitadas a preparar os "treats" rodeados de caixotes de chocolates e gomas. até separávamos umas moedas em montinhos.

agora o senhor das barbas coxeia um bocado, e os saquinhos são mais pequenos.
mas há sempre doces e um sorriso.

segunda-feira, 31 de outubro de 2005

thumbwork 1.0.1.

eu não me tinha esquecido...
cá vai, sem nenhuma ordem específica, a primeira dose de fotos pedidas...


um arrepio. é que arrepiei-me mesmo, hã?


as minhas chaves. estas são de casa. é que eu sou tipo guarda prisional. chaves do carro, de casa, do escritório, da casa da minha avó... etc etc...


um ensaio. do Sax, neste caso.


um espelho. do meu quarto.


a fachada da minha casa. desenhada por mim, há uns anos. a pastel.


a minha íris. esta teve de ser repescada dos arquivos.


o meu canto preferido do jardim. uma casinha que o meu pai construiu, primeiro para brincarmos às bonecas, depois para onde foram livros, candeeiros, almofadas e as minhas "pinturas". continua a luta campal lá em casa porque a minha mãe acha que aquilo é um óptimo armazém de coisas inúteis.


luz. a minha preferida. de velas.


um objecto. este é companheiro das mais puras e deliciosas batalhas da minha vida. ressalvo, no entanto, que sou (como diria o espanta-espíritos/estonteamento), uma materialista sentimental.


um olho da minha cadela. é complicado encontrá-lo, mas pronto, foi o que se conseguiu... terminei esta foto encharcada porque tive de me deitar no chão molhado. ela não levanta a cabeça nem implorando.


uma pessoa de quem gosto muito.


o meu polegar sem anel... na foto não se nota, mas asseguro que o anel já está tatuado no meu dedo... serve também como foto da minha tatuagem, visto que não tenho nenhuma além das naturais eheheh. há-de haver, mas por enquanto está só no papel.


o exercício em que acabei por compilar o preto, o branco, e a luz. dentro dos possíveis... aguardo a lição acerca do que fiz. devo ter feito asneira mas não foi por falta de esforço e dedicação. o mais difícil foi o branco.


a minha cadela a saltar acima de 30 cm, só em sonhos. por isso, mostro-a a dormir.


a Teresinha, ou Tessa, ou new-me ou o meu alter-ego no meu café preferido ao pé de casa. estas deram imenso gozo a tirar... é um café de quasi-aldeia, onde toda a gente me mirava com mais estranheza ainda do que o normal.


vodka. este pedido nunca percebi, mas cá está. podia ser a cadela do vizinho, que tem esse nome, mas é má como as cobras...


um pirilampo à noite. :P

e prontos. retomarei o thumbwork assim que possível, com as que faltam. e se quiserem acrescentar mais pedidos, estejam à vontade.

quinta-feira, 27 de outubro de 2005

levo-me daqui

fecho os olhos.
o tamborilar forte da água nas janelas, feito duche quente na pele fria, arrepiada.
desliza depois no vidro com a suavidade do suor num corpo.
um corpo... enroscado nu debaixo do edredon. os pés quentes, roçam um no outro, tique de preguiça.
uma música ao fundo... jazz, talvez.
letras, muitas. turbilhões de palavras. das páginas abertas de um livro o caminho para o lado encantado do edredon. percorrido com sossego. com o mesmo desprendimento guloso com que se estende o braço lânguidamente para abraçar com os dedos pequenos a caneca cor de laranja, fumegante, de chá aromático com uma casquinha de limão a flutuar. doce. quente.

...

nestes dias de completa ressaca de trabalho intenso, em que a cada toque do telefone se espera uma nova cascata de nervos, num escritório vazio e inactivo empalidecido pelas luzes de cozinha forçosamente acesas, com o rádio acidentalmente sintonizado numa lamechice da Marginal, não existe nada melhor do que a santa negação...

quarta-feira, 26 de outubro de 2005

viciada

roer as unhas. mas quando tenho as unhas apresentáveis, pinto-as quase todos os dias de cores diferentes, do vermelho escuro ao azul, passando pelo rosa discreto. doentio.
franzir a testa. preocupação, interrogação, mimo. tudo é uma desculpa para vir a ficar encarquilhada aos 35.
música. ter rádio ou um cd sempre a tocar. cantar por tudo e por nada no meio de tudo e de nada. a minha vida (e dos desgraçados à minha volta) é um estupor de um musical.
fumar.
cigarreiras. tenho uma que é o meu orgulho: tem uma pin-up. com cinzeiro de bolso a combinar. finíssimo...
andar pelos blogs.
os cheiros e sabores.
lugares, pontos, momentos, toques em que me sinto em casa.
as cores. mesmo que me apeteça vestir de preto, trago-as nas meias, na roupa interior, a mochila.
brincar com os dedos numa madeixa de cabelo.
pele.
doces.
dançar. mesmo que seja no meio da cozinha, sem música.
fotografar. com máquina ou com palavras. e ficar danada porque não consigo mostrar o que vi.
café. a bica da manhã, de preferência no café aqui do lado. café de saco ao pequeno-almoço (outro vício, mas que raramente cumpro) e à noite, com livros, tv, net, ou só pés quentes.
recordações. o meu moleskine está gordo e deformado.
o telemóvel.
sapatilhas de pontas.
abraços e beijos.
vento na cara.
ler. tantas vezes me interroguei como é que ainda não pisei um dos muitos "presentes" que florescem no passeio do Rato ao Príncipe Real, porque vou sempre com o nariz enfiado nas letras. a minha coluna queixa-se do peso extra.
comer pipocas no cinema. já sei, não é hype.
chorar no ballet.
chorar no teatro. se não antes, no arrepio dos aplausos finais, especialmente quando estou na plateia.
atrasar-me.
aninhar-me.
as pessoas.
corrigir erros ortográficos e orais. a minha nova dor de cabeça é o corrector automático do Mac, que transforma as palavras como quer, especiamente os à em á...
dizer o que me vem à cabeça.
censurar-me. especialmente ao espelho.

fazer teatro. alguém tem uma pizza para eu entregar em cena? estou de ressaca grave e não há metadona para o pó do palco.

terça-feira, 25 de outubro de 2005

polegada #1

tlec tlec tlec

um guião para entregar. não tenho dedos, não tenho músculos, não tenho horas de descanso. até às tantas da manhã, agarrada aos papelinhos manuscritos, ao teclado, ao rato. no trabalho, em casa.

tlec tlec tlec

boas vibrações chegam com a voz de David Fonseca. Come into my heart é bom para o sorriso cardio-vascular.

quero o novo álbum para os meus anos, faz favor...

segunda-feira, 24 de outubro de 2005

produtora à beira de um ataque de nervos

domingo

9:00 - acordar. vestir. pequeno almoço de torradas. cigarro antes de levantar o rabo da cadeira, com um "humpf, tem de ser".
9:45 - a caminho do escritório
10:00 - chegar ao escritório. ligar para todos os meninos mimados, para ter a certeza de que estão acordados. fazer sorrir:"serviço-não-perca-o-seu-avião, bom dia!" pensar: e eu que não tive quem me acordasse...
10:20 - a MP está atrasada, vou embrulhando o resto das coisas que faltam e tentar encafuar tudo nas malas que sobram.
10:25 - responder pacientemente ao 35º telefonema do patrão, e dizer que não, não estamos atrasados. ele continua em total histeria-coelho-da-alice-ótica, mas não agressiva. rir com ele e desligar.
10:35 - chega a MP. carregar os tubos de ferro de 20 kg, as 3 malas e os restantes itens escada abaixo. não cabe tudo no meu carro. o pai dela vai ter de nos seguir com o resto.
10:38 - última subida-descida, trancar escritório.
10:47 - ok, agora estamos atrasados. tenho de estar no aeroporto às 11:00... arranco.
11:00 - aeroporto, de telemóvel em riste e ar esgazeado-quasi-taxista, a pedir a alguém que venha com carrinhos para descarregar o carro.
11:15 - a descarregar o carro, chega o patrão, que afinal era o único atrasado. confirmar a suspeita de que quando diz "nós", quer dizer "eu". este exemplar de gente eléctrico-histérico-bem-disposta já perdeu um avião depois do check in... ir arrumar o carro.
11:25 - encontrá-los ás voltas à procura do chek-in. cumprimentos, abraços, brincadeiras, enquanto se espera que a fila diminua e sejam atendidos.
11:40 - evitar largar uma gargalhada quando a MP (nunca viajou de avião e a estreia dela é uma viagem intercontinental de 12 horas) diz que os comprimidos que lhe deram estão fora da validade.
11:42 - ir comprar uma garrafa de água à MP.
11:45 - reprimir gargalhada pelo ar solene da MP ao ingerir um Valdispert com a mesma gravidade de quem mete 2 xanaxs no bucho. explicar-lhe que aquilo não dá pedrada, pode tomar já os 6 de uma vez.
11:53 - rir a bom rir com o patrão que diz que se não tem um bom lugar tem um ataque de pânico no avião. informá-lo que os comprimidos estão fora da validade só para lhe ver os olhos a aumentar de tamanho e a carapinha a electrificar.
11:55 - rir a bom rir com o patrão a contar que da última vez tiveram de lhe bater em pleno voo porque andava aos berros a pedir "parem o avião! eu quero descer!"
11:58 - colar com fita-cola alguns elementos soltos num só volume para não pagar excesso de carga.
12:05 - abraço ternurento do patrão, com um surpreendente "obrigado por tudo".
12:10 - gritar alto: "vão-se embora, saiam da minha vida, acabaram-se os vistoa! vou fazer uma rave! agora vão e façam má figura que eu mando-vos prender com uma denúncia anónima! muita merda!" ouvir os risos de todos.
12:15 - sair com suspiro de alívio. "acabou"
12:35 - quase à porta de casa, 30 km percorridos. receber telefonema do patrão a dizer que a pessoa que levava armas de paintball (para a peça) na bagagem tinha sido chamado. foda-se. dar a volta à rotunda e ficar à espera de novidades.
12:45 - novo telefonema a dizer "vem a correr que eles dizem que a bagagem fica em Lisboa e destroem-na se não estiver ninguém para a vir buscar" explicar que tenho de fazer novamente os 30 km, eles que aguentem um bocado. dizer-lhe para não se armar em herói e embarcar com o resto do grupo.
13:07 - Calçada de Carriche, entrada de Lisboa (25 km percorridos). telefonema a dizer que conseguiram esclarecer a situação e que vão embarcar todos, com a bagagem.
13:15 - acabar o cigarro, parada na berma da Calçada de Carriche, de olhar perdido no mundo, a suar em bica, descarga de adrenalina.
13:16 - dar a volta, apanhar a auto-estrada a abrir, porque a carne assada da mãe fica pronta dentro de 20 minutos.

sábado, 22 de outubro de 2005

B

dela, à primeira impressão, temos um sorriso enorme do tamanho do mundo.
mulher de armas, determinada, trabalhadora. voz alta e límpida. quando nos direcciona O olhar, saiam de baixo que vem lá água.
não se deixa ficar, parece imparável, parece inquebrável.
no entanto, deixa-nos entrar de surpresa no olhar doce, de lágrima fácil, no toque meigo das festinhas que dá sem olhar a quem.

de ti trago as doçuras dos nossos primeiros passos, o parvo do NMH (que agora sozinho é um grupo). "às vezes a mentira da noite..." o nosso Pó de Palco, o enorme lençol no palco da Barraca, uns puffs onde aterramos para matar saudades, os risos entrecortados de conversas largas, as letras dos espessos guiões que nos passaram pelas mãos, juntas. "Sã' João é bem aventuraaaadoooo". de ti trago as madrugadas no teatro, os encontros naquele portão que tantas vezes nos abriste, as subidas ao escritório e os mailings intermináveis, os cortes de papel, entre cigarros, a bilheteira e a festa de máscaras no guarda-roupa. a peruca da Marylin, os sapatos sem alma, a cena sem roupa e a minha primeira digressão. "kiss, kiss me; say you miss, mis me..." o sumo de maçã (de que não gostas), as nossas trocas de olhares nos freezes, os abraços desesperados e os encantados. "in my place, in my place..." as batalhas travadas a quatro mãos, e as outras travadas a tantas, de telefone em riste, sobe e desce para ir á net. o (teu) verde, a Mãe Deo. o riso fácil, alto e pleno. a "sirene" da ama, e as outras "gajas" todas que andam por aí contigo. o facto de me obrigares a cantar. "libelinha, ajeita as asas..." e o facto de não teres piedade de uma asmática. "faz sol, está a chover..." o teu colchão, também o trago às costas e no jipinho, e o resto da casa. o calcorrear Lisboa de carrinha, à procura de óculos, dos sofás ás cores e da cama maldita. as noitadas e o cheiro do incenso que cheira ao Jota. a alma lavada numa semana de curso intenso. as horas infindáveis de trincha, parafusos, martelo, linha e agulha. a bebedeira de vinho tinto a roubar salgados, sentadas no chão, na estreia do "Vou-te...", a ouvir gargalhadas e aplausos do lado de lá da porta e a chorar de saudades. as percussões e a poesia.
e trago uma frase que nunca vou esquecer, e que dedico agora a ti: "faças o que fizeres, gosto muito de ti".

trago no peito uma amizade forte e preciosa.
obrigada, amiga, e parabéns.

ah, e desculpa o atraso, mas queria fazer isto como deve ser...

sexta-feira, 21 de outubro de 2005

outono

a passadas largas, recebeu o ar frio do fim de dia, húmido e cinzento.

a calçada brilhava pelos candeeiros, criando faixas de sombra através dos jacarandás nus. o silvo dos carros no asfalto molhado.
contrariou os passos depois de uma hesitação, e desceu. passou o jardim do miradouro com as folhas vermelhas a quebrar nos seus pés. passou o elevador sem parar, calcorreando o passeio estreito até chegar ao largo onde o rapaz vende eternamente as cautelas, na sua pose de mimo. continuou, passo rápido, encontrando o largo onde estivera de manhã. o do poeta. virou à esquerda. o velhote pedia sentado nas escadas da igreja. gente nova velha, ia e vinha de onde para onde.

estacou e abriu um sorriso de leste a oeste.
"é uma dúzia, por favor".

na neblina espessa cheirosa apetitosa, aqueceu as mãos frias no pacotinho irregular de feito de finas páginas amarelas com moradas de gente anónima conhecida vivida onde qual o número. fixou os olhos nas brasas do assador e esperou sem pressa as moedas do troco reluzirem. afastou-se ainda sorrindo de leste a oeste, afastou as folhas amarelas com nomes e meteu a mão sem olhar no pacotinho. agarrou com a mão toda uma castanha quente e deixou a casca estalar-lhe entre os dedos. retirou a castanha despida e levou-a, com os dedos cheios de fuligem salgada, aos lábios. trincou. na língua consumou-se o amor que faz o ar frio com o vento chuvado, os sacos a voar, as folhas encarnadas, o homem da chuva, o cinzento prateado, o aconchego do casaquinho de lã.

desceu, cumprimentando com o olhar o escritor-estátua que ainda escreve na mesa do café.
passada lenta gulosa, ao som dos estalidos das cascas e do restolhar das folhas com nomes, recebendo na cara o ar salpicado de água fria.

na boca, o sabor quente do Outono.

quinta-feira, 20 de outubro de 2005

aleatoriamente

...passou-se a manhã sem telemóvel. esteve-se no trânsito hora e meia só para entrar em Lisboa, à beira de lágrimas de frustração. perdeu-se 2€ na cabine. foi-se para o Consulado do Brasil enjoar com o cheiro abafado de filas intermináveis em dia de chuva, regressou-se pela calçada escorregadia e enfiou-se o nariz e a paciência em formulários e fotos de tamanhos duvidosos, almoçou-se na secretária, de uma embalagem metalizada, e continuou-se em desespero à espera do telefonema que leva daqui os actores e os cenários de uma vez por todas, levando os problemas de 6 meses para dar lugar aos novos.
quando as coisas acalmaram, na hora H, chegou o senhor realizador famoso com um novo guião e descrições de personagens em molhos de folhas A4 escrevinhadas, que residem agora nos meus dedos e dores lombares para terem bom aspecto rapidamente.

... agora, enquanto espero a hora de sair e continuar a busca do senhor das castanhas que me há-de trazer à boca e ao nariz a certeza do outono, vou espraiando à velocidade cruzeiro as palavras dos outros, os papéis dos outros, tentando não pensar em mais nada do que as palavras que não são minhas, embalada por Groove Armada e Massive Attack. daqui a pouco cantar-me-á Ella Fitzgerald ou Toranja. não sei, desliguei o rádio e escolhi o "tocar aleatoriamente"...

dao-se alvissaras...

... a quem encontrar o senhor das castanhas...

para abertura de temporada.

procura-se coluna de fumo perfumada, carro pitoresco com assador e chaminé, de venda sazonal de castanha assada embrulhada em papel de jornal ou folha das páginas amarelas. daqueles embrulhos que aquecem as mãos e cheiram a outono. o vendedor tem normalmente as mãos escuras e àsperas da fuligem e das cascas das castanhas, húmidas da chuva, onde contrastam as moedas, que rebrilham das brasas no assador e do céu de fim de dia ou de algum candeeiro de rua.

visto pela última vez ao pé do elevador da Glória, nos Restauradores. agora está só o carrinho estacionado. estava morno ontem às 20:00h.

à zona da Baixa, Príncipe Real, Chiado ou imediações.
disponibilidade total a partir das 19:00h.

valor pessoal inestimável. sabor de cada Outono de quase 26 anos.

terça-feira, 18 de outubro de 2005

imagens

saiu para a rua húmida e escura, sem pressa de sentir o ar frio.
no arrepio, um vento aromatizado abriu-lhe o sorriso.
entre carros e eléctricos, sombras, caras fechadas e sacos de plástico, um voa.

descendo

tomo a auto-estrada, saída do laranja quente.
sigo no azul escuro, molhado, prateado pela - ironia - lua cheia.
chego ao branco pálido de uma vila adormecida, encontro a igreja.
de novo o cheiro enjoativo das flores. coroas, cruzes, dedicatórias de nomes que conheço de infância.
de novo aquelas pessoas. os fatos e as gravatas, os saltos agulha.
um mundo que já não visitava há muito tempo.
a minha mãe está triste, o meu pai desorientado. está bonito, com a camisa preta e o blazer cinzento.
miro os rostos da minha adolescência, encontrando-os nas paredes de madeira elegante, iluminados pelos écrãs dos computadores. estão na mesma, há tanto tempo. uns mais velhos, um pouco. cabelos mais curtos ou mais compridos. o mesmo casaco dela. a mesma camisa aos quadrados, ruça dele, a gola alta da outra.
o estranho furor da menina pequenina, que lhes chegava às ancas. "estás bonita" "estás mulher" "lamento muito".
uma filha fala comigo e encontro nela traços delicados, a força e doçura interiores que admiro. o nariz é do pai.
o pai dela está ali, deitado.
não volto a ouvir a voz grave, poderosa. nem reverei aqueles olhos azul-água fortes e penetrantes. o fumo incessante do tabaco vorazmente absorvido nos dedos grossos.
recordo-o pelas pessoas, cá fora. uns amigos de fato que davam as pancadas nos ombros. os outros, os do escritório, que lhe tinham um respeito roçando o receio. suavam em bica quando tinham de lhe falar, cabeça baixa, olhar meio submisso.

morreu mais um da geração carreira. que desistiu quando a carreira acabou.
desta geração herdámos a vontade dos nossos pais de tirar o curso, remédio para todos os males deles, apenas mais um papel nos nossos recibos verdes.
não me encontro nesta vontade. vejo como a falta de sonhos nos pode tirar a outra vontade, de viver, quando a nossa função por nós (?) escolhida neste mundo termina.

diferenças, mágoas à parte, agora não vale a pena, não é?
descansa em paz, padrinho.

sexta-feira, 14 de outubro de 2005

espelho

não me encontro. ruído de estática. desfocada por outros olhares que nunca me viram. tento reconhecer-me naquilo que me reflectem. outra vez o preto e branco. outra vez o lado A, lado B.

a matilha ladra furiosa ao longe. a âmbulância passa aguda no estertor do asfalto. estou parada, à espera. passam e não me vêem. mas ladram e apita.

silêncio. silencio.

tento timidamente redescobrir-me. toco-me e sinto as curvas, profundidades e superficialidades, endérmico, epidérmico, pensar, agir, sentir.

há um ponto no peito que me faz chorar. é como um botão. há uma pinta no peito que me faz sorrir. é bonita.

nas horas vagas da noite alheio-me do outro lado. onde não me sentem e mesmo assim pensam de mim. penso de mim assim, duvido. redefinições, remix, adaptações, em loop, inspirado na obra de.

não me encontro em lado nenhum. posso ser só o que dizem as pontas dos meus dedos?

estou algures no meio.

quinta-feira, 13 de outubro de 2005

breathe

o trabalho não me deixa respirar.
há dois dias que não almoço, saio tardíssimo (ainda cá estou).
quando corre mal, é-se incompetente. quando corre bem, é-se transparente.
mais ansiosa estou de ver esta gente pelas costas, do que sinto o sabor da vitória suada, cujos louros nunca cairã na minha cabeça.
vidas cansadas, das quais pouco ou nada vejo concretizado.

nem tempo tenho para deixar aqui as imagens de lisboa que trago guardadas para contar.
espero melhores ventos, e que venham depressa.

hoje, promessa de outro jantar tardio. e de adormecer em frente à televisão.

quarta-feira, 12 de outubro de 2005

birthday # 1

ontem fez um ano que inseri aqui as primeiras baboseiras.
continuo sem saber bem porque o faço, sem estilo fixo ou forma. não sei de onde vim ou para onde vou.
recordo-me desreconheço-me, sorrio-me.
o vício está cá...

obrigada a quem anda por aí.

é bom falar convosco.

segunda-feira, 10 de outubro de 2005

stolen


[ms]

num dia de chuva, triste e mal disposto, entre claustros vazios apenas o chiar das rodas.
dores e pesos em mãos demasiado fracas para enfrentar o carrego. as costas gritam e os pés latejam. espera. ainda falta.

horas depois, fecha-se a porta e o cinza do céu espera do outro lado das pedras.
o corpo cede, treme, pede açúcar. moedas contadas, não vai dar para almoçar.

regresso, não quero. não mais telefones. não mais écrãs brancos à espera de palavras. as palavras não estão aqui. trago-as comigo. mas não as posso deixar aqui. são levadas no vento, que só ele as ouve e pode ouvir.

hoje não me sinto. talvez, se a chuva vier, eu sinta finalmente no seu bater o contorno do meu corpo.

penso na infância. nos dias de chuva, em que as gotas me pingavam do cabelo comprido, me manchavam a roupa e arrepiavam. e com um sorriso abria a boca e bebia da chuva a pureza encantada dos acreditares.
que a chuva deixava o cabelo mais brilhante. que a pele molhada me fazia bonita.
o chegar a casa e a toalha turca. o vapor na banheira, bolhas e um livro. sim, desde menina, o vapor na banheira, bolhas e um livro. a água quente a arrepiar-me de novo, no choque da pele arrefecida com o choro do céu. o cheiro a perfumes de rosas da Avon, que a avó comprava para mim.

depois cortei o cabelo. a avó não trouxe mais perfumes de rosas para o banho e apanhar chuva eram ataques de asma.

tenho uma gabardine vermelha e o cabelo voltou a crescer. estou à espera da próxima chuvada.

lavandaria

as paredes velhas da casa antiga caíram. sem pré-aviso.

de lá, uma ventania repentina. e o sal revolveu o pó parado.

no meio do cheiro a roupa engomada.

sexta-feira, 7 de outubro de 2005

avo actor

ali sentado, olhos brilhantes, molhados, miras o espaço de mãos no colo.
ainda és grande.
de vez em quando, a mão direita mexe-se, um pequeno tique de vida.
a tua voz, avô, é feita da profundidade da tua alma. grande, poderosa.
e ali, aos poucos, vais-te esquecendo que és ainda um menino de coração aos saltos - estranho, não é? pensava-te vivido, habituado - e viras menino deliciado, vibrante, empolgado. amas, ainda. ainda de paixão.
como consegues, avô?
como segues ainda ansioso como no primeiro dia. virtuoso como no primeiro dia, assim que te esqueces que as palavras às vezes nos enrolam, e as vives e vestes sem pudor. e abres os braços e evocas os fantasmas que vivem em ti - são tantos, avô, ainda os contas? - e de repente, no choro, colocas o nariz de palhaço e sorris.
como ainda sorris assim, avô? como na primeira vez que te vi, tão depois da tua primeira vez? aquela primeira vez que me fez querer ser como tu, ainda sem saber o que queria ser. vi-te tão grande, tão longe. tão doce e vivo, tão tangível. tudo de uma vez. assim.
cheio de luz, muito branca, muito plena, aura azul dos céus de verão, que nunca escurece, nunca enfraquece. apesar de tanta vida ter usado já esse corpo, de te teres entregue a tantas almas.
e assim agradeces, avô, depois de tudo passar. depois de viveres de novo fora de ti.
e mimas quem te vê, avô, com essa candura de menino, sem pressas, saboreando mais uma vez aquela trovoada mansa, emocionada. fazes-me chorar, avô.
e depois... depois de tudo... de flores na mão e livro na outra decoraste o meu nome, sem saberes que o meu coração deu um pulo quando te beijei. que a minha mão fez a festa mansa que queria tanto nesse teu cabelo branquinho e a minha pele reagiu de amor - esse amor que trazes e emanas, envolves - à tua barba de neve. áspera como as tuas mãos, de tanto pó que tens na pele. aquele pó dos espíritos, que eu também gosto de cheirar. não to contei, avô, tive vergonha. preferi ver-te apenas ali, a contar como te apetecia uma sandes, a tratar-nos por filhos, como se me sentasse na tua casa que não conheço, no calor do teu colo que apenas adivinho, a ouvir a tua voz grande e calma a contar-me as histórias que gostava de viver contigo. avô de olhos molhados, de vida de menino, de generosidade de homem que dá, apenas. e pede apenas aquele chão. homem - idoso ou velho? (sorrio) - que sabe tudo e não sabe nada. que vive tanto de tanto amor que espalha aos desconhecidos, que espalha em vendavais de voz grande, de braços abertos. avô de calças de ganga e colete, que há pouco vestia uma gola e vestes altivas, de rei, de alma, de grande senhor.
avô, queres ser meu avô?

um beijinho a ti, Ruy de Carvalho.
em cena no Teatro da Luz, "Palhaço de mim mesmo".

quinta-feira, 6 de outubro de 2005

I'm doing for music



perco-me entre letras e tons, que contam as histórias como se fossem minhas.
os meus momentos. os meus sons. os meus choros e risos.
em notas sopradas ao ouvido ou gritadas na estrada.
abandonadas para que sejam encontradas. lhes sejam dados os meus sentidos.

danço, perdida, ondulada, guiada no palco escuro. descalça, despida de razão. elevo-me sem céu ou terra, base apenas para o voo, chão onde apenas cai a minha água salgada, quente. e envolvo o ar comigo, envolvo-me no ar e pouco mais que as luzes dentro dos olhos fechados encandeia o meu planar. bailarina de pescoço alto, cabelos soltos e coup-de-pied ou menina na praceta feliz, saltitante, brilhante, sem medos. ou apenas o balanço que embala um corpo largado.

e no ar gravo o meu suor sem pesares. a voz no escuro, no oculto e anónimo, canta. saboreia palavras e vidas sem caras.
e até é bonita, segredada, trinada, aveludada, íntima, sozinha. porque pura e sem pudores, porque simplesmente na simplicidade de cantar. porque escondida.

gostava, às vezes, de ter nome de música.
mas o meu é só um nome. demasiado invulgar para ser poema ou canção. será único apenas na boca de alguém. como um beijo a duas salivas. não me dedicarão uma música.
mas na minha boca, o seu sabor especial vibra-me no corpo. como um arrepio. a um botão de distância.

terça-feira, 4 de outubro de 2005

especiarias

travo forte que se entranha nos sentidos.
aroma, voando entre cortinas indiscretas, contornando buzinas e sirenes.
entranha-se na língua, que, atrevida, quer mais.

o calor da canela salpica o doce com pintas de sensualidade.

segunda-feira, 3 de outubro de 2005

fast car

... is it fast enough so we can fly away?

hoje ao almoço cantou-me Tracy Chapman.
e cantou-me a alma do dia.

... leave tonight or live and die this way.

sexta-feira, 30 de setembro de 2005

se nao souberem de mim...


[ms]

... estou por aí, no meio dos fantasmas, a varrer as madeiras de amor e desejo.
a saltar por entre as bolinhas de luzes e pinturas.
a lamber as últimas gotas de alegria, a inspirar o pó que me alimenta.
a roçar-me nos lençóis de fingir, movida a elásticos invisíveis.
a beber das caras e risos e choros e palmas quentes.
a troçar nas luzes fortes que ainda me aquecem.
a suar no ar que me sustém.
a bater as palmas para as fadas não fugirem já.

se não souberem de mim, estou no palco, a desejar-me-nos-vos.

se não souberem de mim, estou no palco, a despir-me.

se não souberem de mim, estou no palco, a despedir-me...

colisao

ontem à noite fui perseguida por um pseudo-motard num aspirador com pretensão a mota. quando me apercebi, enquanto procurava estacionamento, que ele estava á minha espera, fui-me embora. dei uma volta ao quarteirão e dou com o dito tipo às voltas á minha procura. quando encostei, veio parar ao meu lado. voltei a arrancar, com a nítida noção que o meu tamanho não me permitia um conflito corpo-a-corpo e provavelmente se não saísse dali, teria vontade de lhe passar com o carro por cima. voltei a dar outra volta mais rebuscada e vejo-o a passar outra vez à minha procura. parei o carro, trancada lá dentro. quando começou a falar, percebi que estava bêbado. menos mal, era fácil empurrá-lo. saí. como também havia comigo um objecto pesado (à semelhança do capacete que ele mantinha em posição de arremesso) pronto a ser atirado à cabeça dele, resolveu-se tudo com três dedos de conversa, paciência para o ouvir repetitivo a contar que tinha uma mota melhor que aquela. avisei-o que perseguir pessoas não era bonito e se tinha arriscado a levar com o carro em cima.

hoje de manhã, estou na faixa certa para entrar no parque de estacionamento, e um tipo que quer mudar de faixa, atrás de mim, e apita-me como se eu tivesse feito alguma coisa. meto as mãos de fora a explicar que cada faixa tem uma direcção e que eu não tenho culpa de ele ser parvo. agora traduzo assim, na altura o léxico era do mais fino suburbano provençal...
o senhor também entrou no parque mas não me veio confrontar.

o meu parco metro e meio e uns trocos não me permite estrebuchar muito alto, mas na altura não me lembro. se tenho razão passo-me e depois começo a conjecturar as melhores formas me defender sem me aleijar.

parece o filme. sim. anda tudo com a mostarda no nariz. especialmente dentro da caixinha de metal.
como se a única forma de contacto que as pessoas institivamente conhecessem fosse o conflito.

amem-se, porra.

quinta-feira, 29 de setembro de 2005

contas feitas

esta é a minha última semana de palco.

sabe-me a sal, apesar do bolo antes do espectáculo.
apesar dos risos cúmplices que provoco.
apesar do calor das caras e mãos contra mãos, tão maior que o dos projectores.

Sábado bebo uma cerveja... ou duas... a ver se passa...

quarta-feira, 28 de setembro de 2005

ondular


[ms]

com os olhos, com as mãos, com o vento do respirar.
sensorial, sou. porque indelével na memória dos dedos ficam as curvas, os entretantos, a carícia do descer e do subir.
no suor e na suavidade, na ternura e na loucura, pele.
e deslizando entre pontos, pintas e colinas, parte-se do norte ao sul ou ao invés da bússola, do querer e da vontade.
e brisas mornas de desejo dançam novas curvas inventadas, como a dos lábios pedindo um beijo ou de umas pestanas nuns olhos fechados que escondem o tanto. ou até de uma pele arrepiada de uma humidade soprada ao ouvido.
se o arquejo tivesse cor, talvez soltasse pinceladas brilhantes, quentes, do grito contido.

terça-feira, 27 de setembro de 2005

isperto

a cada dia no trânsito, olhando em volta, reparo num sinal que nos diz a todos que essa coisa da crise é mito urbano. é uma cabala para subirem os assaltos e as seguradoras ganharem dinheiro.
todos os dias, milhares de carros brilhantes, saidinhos dos stands (ou standers, conforme a burgessisse de cada um), entopem as artérias da nossa capital, qual colestrol (ou castrol) que faz com que o trânsito não flua, não haja produção, e o coração pare de bombear rendimentos e lucros para as empresas, as pessoas sejam despedidas, façam greves, assaltem e esfaqueiem, etc.
nesses carros, vemos, em cada um, uma e só uma pessoa. o condutor. estamos numa sociedade de tristes, de solitários e estúpidos, que preferem entalar-se no trânsito a "conviver" com a plebe no metro ou nos autocarros.
onde está o dinheiro? das prestações, dos seguros, do combustível, das revisões, dos selos? tem de haver e não é pouco. é uma cabala, volto a dizer, isso de andarem a espalhar que estamos em crise! pois se há cada vez mais carrões!
engraçado é que se vêem mais motas com duas pessoas montadas que carros com dois passageiros. de realmente engraçado tem pouco, tem mais de foleiro, bimbo e idiota. mas não quero ofender ninguém.
e ainda mais curioso é o facto de esses carros serem todos enormes. os ditos carros familiares. os topos de gama pretos e cinza metalizado. como se fizesse muita falta aos condutores tanto ar dentro do cubículo de metal, só para um.
sou pelas portagens. passei a ser. eu venho de longe (de muito longe... lá lá lá). deixo o meu carro à porta de Lisboa num parque. e venho de carro porque na minha terra os autocarros para Lisboa são poucos, e acabam cedo, em nada combinam com os meus horários. sigo de metro e...oh! ah!... a pé.
sou pelos parques de dimensões espectaculares (mesmo que atentados à arquitectura paisagística) ao pé dos metros e comboios periféricos. que deviam ser de borla e ainda dar desconto no passe.
sou pelos smarts, que é o que essa gente toda devia ser permitida conduzir dentro de Lisboa. e com autorização expressa, depois de ter sido toda investigada a vida e necessidades efectivas de cada um. poupava. tínhamos o dobro do estacionamento, metade do trânsito, só com os ditos popós pequenitos.
irrita-me quem mora no príncipe real e faz 100m de carro para o escritório (y que los hay, los hay, trust me).
enerva-me os senhores exploradores de fossas nasais nos bê-émes, de ar altivo, que ali ficam parados, a parar o país. as tias que não sei como não morrem sufocadas com a laca e os químicos dos peelings a exalar dentro dos desportivos, e as betas e os betos com os carochas, um dossier no banco de trás e o telemóvel em cima do banco a pedir para ser roubado, para os papás comprarem outro mais caro.
eu queria morar em Lisboa. muito. para poder esquecer-me que tenho carro. que pago revisões a cada 3 meses por desgaste, que pago portagens, gasto horrores em gasóleo e ainda poluo o ambiente.
pergunto-me: serei a única?

segunda-feira, 26 de setembro de 2005

desperate theatrewives

sexta e domingo foram dias de trabalho físico, forçado, intenso.
preparar uma estreia de uma peça num monumento, com todas as limitações de tempo, burocracias estatais, cuidados com as paredes e azulejos, e uma enorme estrutura por montar, que abafaria o eco das paredes de pedra.
visto de fora: quatro mulheres todas com menos de 1,65m, de t-shirts tank top, calças práticas cheias de bolsos, de onde pendem x-actos, berbequins, blocos de notas, chaves de parafusos, telemóveis com auricular.
circulam no espaço de cabelos apanhados, suadas, carregando cadeiras, ferros, transportando roupas em pilhas, sacos cheios de estranhos artefactos como pedras e espadas, espalhando circuitos eléctricos e instalações de som, subindo e descendo escadas, percorrendo com um porta-paletes os claustros gigantescos de um conhecido monumento secular em Lisboa.
num dos dias, 2 carregadores ajudaram com parte do trabalho pesado, no outro foi um amigo providencial.
no entanto, foi curioso ver essas raparigas subirem as enormes escadas em caracol, carregadas com pesadas caixas de madeira, até à zona onde estavam instalados os camarins, para dar de caras com 5 actores machos, todos bem esculpidinhos dos ginásios, sentados à volta de uma mesa a fumar cigarros...

é hilário...
mas hoje não consigo rir, porque me dói até a respirar...

quinta-feira, 22 de setembro de 2005

entre parentesis

na procura eterna de ser uma pessoa melhor, uma profissional melhor, uma mulher melhor, tenho andado angustiada. não sei de mim. e sei que tenho sido, se calhar, demasiado angustiante também para quem me acompanha.
um dia disse a alguém: eu não sou só o que escrevo aqui. não sou só metáforas e futilidades. também não sou só tristezas.
às vezes não sei de mim, quando perco as lutas, os alicerces.
quando volto à tábua rasa e não sei se encontro forças ou sequer oportunidades para reconstruir, reescrever tudo. tudo aquilo de que dependo para ser feliz, para ser eu. e para levar comigo, no bolsinho, nos dedos, todos os polegares que não deixo para trás nunca. e que, sei-o, também precisam da minha alegria estúpida e do mau-feitio-beligerante-coração-de-manteiga ("cabeça em pé de guerra mansa...?") para saberem que as cores andam aí, que as fadas andam aí.
tenho saudades do colo da minha avó. e do tempo das papoilas. tenho saudades de quem me conte as histórias. de quem me leve pela mão nesse acto hoje em dia tão condenável de dar milho e correr atrás dos pombos com um sorriso na cara.
esta é uma daquelas fases ingratas para quem me acompanha, porque as dores cá dentro estão fora do meu controlo, do controlo de quem quer que seja. não tenho forma de mudar nada. e quando não controlo as minhas dores, quando faço de tudo o que é possível e mesmo assim não chega, fico... pronto, é verdade... de rastos.
por enquanto, peço desculpa. e peço tempo.
para me habituar ao regresso da actriz "sem-abrigo". sem projectos e de momento demasiado perdida na encruzilhada, demasiado fraca para sequer procurar uma estrela-guia.
mas não sou constantemente triste. sou de tudo. e aqui fica uma prendinha.
um "prometido é devido"...
ora, na senda das melhores roupas e marcas (cof cof) para vestir as nossas personagens, fomos a todas essas fantásticas lojas de Griffe da Baixa... e não resistimos (e já vi que o meu vício se pega) a experimentar e fotografar estes fabulosos exemplares... de propósito para depois partilhar convosco...

atenção: participação especial da perna da B.!

quarta-feira, 21 de setembro de 2005

do pensamento...

sou agulha e sou palheiro

terça-feira, 20 de setembro de 2005

puxei com mão firme o travão de mão

foi o último gesto decidido da noite, agora já não era preciso fingir.
começou devagar, apenas a dor a sair em água e sal, a manchar a pele e a roupa.
depois cresceu para o desconsolo convulsivo. até ficar apenas o gemido baixinho de dor, quando as lágrimas por ora já secaram. como quando perdemos alguém irremediavelmente.
porque é a mesma sensação. perdi-me a mim. perdi os sonhos. deixei-os cair nos estofos, um a um. enquanto revia as cadeiras de verga ocupadas, os ares comprometidos, os meus livros atirados para dentro de uma gaveta porque já não pertenciam ali. o acender a luz. o cantinho onde sempre pousei a minha mala. de repente, o espaço cheio de vida, de gente a entrar e a sair. até as lágrimas me obrigarem a apagar a luz. o subir e ver as cadeiras, que já foram velhas, e agora são veludo rubi. os rostos que de lá me miraram. saí.
puxei com mão firme o travão de mão.
no banco de trás os cds, os livros, a velinha.

depois a estrada levou-me. ao sítio onde as raízes se elevam do mundo e os seres celestes andam à solta. deixei as minhas mãos enterrarem as dores.

a caixa de fósforos da menina caiu no chão de neve húmida e fria. a pequena polegar está fechada na toca e não há sinais da andorinha. a fada está no chão, pequenina, sem força ou brilho nas asas, porque os meninos já não acreditam em fadas.

somos eternos até ao dia em que a luz do palco se apagar.

segunda-feira, 19 de setembro de 2005

em catadupa

estou à espera dos carregadores para ir para Alenquer.
portanto, oficialmente, a produtora executiva vai para fora em trabalho.
vê-los descarregar a camioneta para um armazém, ver se não partem nada.
o patrocínio teima em não pingar.
está tudo a praticar o brasileiro porque todos menos eu vão de "férias em trabalho" dois meses.
na altura em que andaram à procura de uma Julieta, não me deixaram tentar porque sou muito preciosa na produção. a ver vamos quanto tempo cá fico à espera de um casting em que me deixem participar. pode ser que me canse de esperar, ainda bem que tenho uma cadeirinha para passar os dias.
os meus "subalternos" teimam em ficar na cama na altura de trabalhar, mas vão passear em Outubro.
a minha colega, muito mais experiente que eu, está em part time para poder vender casas.
todos os dias me passam atestados de incompetência, porque afinal não era bem assim que queriam.
começo a duvidar da minha memória e sanidade mental.
é capaz de ainda se perder dinheiro com a tournée. ou seja, qual aumento?
ainda por cima talvez haja uma colaboração entre a minha empresa e o teatro que me deu um chuto no rabo. basicamente vou trabalhar para eles como produtora, de borla, e nem sequer precisam de me meter nas peças em troca.
tudo para ganhar uma mensal miséria. e desta vez só me pagaram metade do ordenado porque passei 15 dias de férias (forçadas). estamos a meio do mês e já vejo o fundo à carteira. tudo aos meios... copo meio vazio...
os meus pais parecem os velhos dos marretas e só passei meia dúzia de horas com eles. o suficiente para estar com a cabeça em água. a redoma estalou, mas ainda não partiu. e eu à espera.
a minha peça está a meio da temporada. depois desta, não sei o que é de mim. vou ter de inventar.
e estou cansada de inventar. queria por uma vez ter uma oportunidade de mão beijada.
tudo sabe melhor com luta, mas isto é ridículo.

quinta-feira, 15 de setembro de 2005

acreditas em fadas...?

... bate palmas, depressa...

fragil

como uma flor encolhida depois de o sol se apagar.
procurando na terra forças para aguentar-se viva até ele voltar.
as pétalas enroladas em volta do pescoço... caule... para amainar o vento frio.

a pele, sempre a pele.

quarta-feira, 14 de setembro de 2005

casa de bonecas


foto de C.Santana

viajo assim, entre recordações e cheiros. feito espírito e fantasma daquele silêncio que é meu porque não o deixo.
foi a minha primeira casa, passaram anos. e ainda lá estou.
conhece-me cada uma daquelas bambolinas. onde me escondia agarrada ao peito que fugia das mãos, antes de sair para o sorriso.
os projectores que me lamberam a pele.
aquela moldura de luzes onde prendo o rosto com pó de encantar.
o cabide onde dispo o meu corpo visto os outros, o chão onde largo os meus passos e calço os outros.
as cadeiras quentes onde vi acontecer a magia dos outros, de que fui parte.
o chão de madeira preta onde pintei as cores e as formas de textos.

não sei se é mais minha ou eu dela. se lá nas varas estará um elástico mágico que me puxa.

tenho medo, agora. mas vou deixar-me voar, até que as asas não nos suportem mais os sonhos.

terça-feira, 13 de setembro de 2005

aos saltinhos...



estou na tv7dias!
estou na tv7dias!
estou na tv7dias!

página inteira!
página inteira!
página inteira!

ímpar!
ímpar!
ímpar!

eheheheheheheheh

elevador

abro o casaco porque já começa o calor.
ajusto a mochila e saio da barafunda degradada e pseudo-civilizada dos restauradores para a estreita calçada da Glória. uma pequena fila espera que o elevador abra as portas. chineses, japoneses, alemães e demais nacionalidades olham de boca aberta para o peculiar rectângulo amarelo forrado a madeira que acabou de chegar à paragem, passeando-se nos carris. tiram fotos e nos seus olhos a pergunta (em línguas desconhecidas) "para que é que aquilo serve?" ou "onde é que se irá naquilo amarelo" ou até "que pitoresco, não?".
entro a seguir a um par de pessoas. aguarda-me o banco corrido de madeira às tiras e uma espera de alguns minutos. observo, de mochila no colo, quem passa por mim. à minha frente senta-se uma senhora reformada que olha para toda a gente como se medisse quem tem mais que ela. basicamente toda a gente tem algo mais que ela. há, portanto, muito para observar. um casal de velhotes entra e o velho pousa no chão os sacos do Continente. ela senta-se entre a outra reformada e a parede. o velhote anda às voltas com os trocos e depois de barafustar com a mulher, que é demasiado lenta para ele, lá paga do seu porta-moedas os 2,40€ que devem doer a desembolsar. ele tem bom aspecto, um colete verde cheio de bolsos, calças muito engomadas, camisa às riscas impecável. barafusta de novo com ela porque ela se sentou de forma a que terão de ficar separados. "és chato como a merda, tu", é a resposta. mas naquele azul dos olhos dela, uma dor calada e conformada fica por sair. ela estende-lhe o dinheiro que ele lhe tinha pedido e ele recusa, diz que agora não quer. mas depois volta a estender a mão. sovina... ela tem um ar gasto, cansado. as pernas enormes muito brancas têm riscos roxos, gordos, cada um de um esforço ou uma dor. cabelo por lavar, por pintar.
entra um grupo de turistas cor de rosa, gordos da comida típica portuguesa, os Mac Donalds de Lisboa, câmaras caras, telemóveis caros, para os quais gesticulam em risos altos em alemão.
mais duas ou três donas de casa de ar gasto e cansado. de carteiras velhas debaixo do braço e saco das compras. o banco corrido já não é banco, é uma amálgama de gente, rabos, calças e saias. duas telefonistas ou secretárias entram. falam pelos cotovelos, como convém. calças justas ao rabo demasiado grande, a barriga branca a sair de fora das blusas justas, muito ouro, bandolete, mala da moda e saquinho de plástico da boutique matilde. cheiram enjoativamente a perfume acabado de pulverizar. falam da filha de uma que não está, obviamente, presente.
mais turistas, também nórdicas, muito magras, com as caras achatadas e ar frágil. compram mas não picam o bilhete. a condutora do elevador não levanta os olhos da revista onde namora o Virgílio Castelo para as avisar. os apitos do Lisboa Viva e do Sete Colinas. na placa diz "4 lugares de pé", mas já estão umas 10 pessoas no corredor. os turistas incomodam toda a gente para tirar a foto da praxe. já vejo a moldura dourada em cima da tv e os sorrisos porcinos, as mochilas e as t-shirts com os galos de Barcelos.
entra um casal jovem, ele de calças de fato de treino, ela de calças de ganga justas, com um pequenito pela mão, que conseguem espremer no assento entre duas das reformadas. não se falam, só se dirigem ao miúdo, de boné e olhos doces. uma pequenita com um enorme totó repuxado, pele de chocolate e bibe de quadrados amarelos entra com o pai pela mão. é ela que diz ao senhor onde se devem acomodar para não incomodarem tanto a entrada, e é ela que passa o seu Lisboa Viva pendurado ao pescoço no leitor, e pica o bilhete ao pai. pacientemente, fura entre os enormes rabos e os cheiros de perfume acabado de pulverizar, puxando o pai.
finalmente a senhora condutora dá uma pausa ao namoro com o Virgílio e pede a quem está pendurado na entrada que feche a grade. mas chegou mais um metro e entra mais meia dúzia de reformadas. três ou quatro pessoas ficam de fora e olham o elevador e a calçada íngreme, indecisas, respirando fundo antes de desafiar a subida a pé.
tlim tlim. sobe devagarinho e amarelo a calçada, no seu puxar lento, duvidosamente eléctrico. pára quase lá em cima, talvez por falta de força. está cansado, também, o elevador. volta a arrancar e pára à beira das escadas. deixo sair quase toda a gente porque sei que os turistas ainda vão ficar parados lá ao fundo a fotografar mais um pouco.
saio para o ar do Bairro Alto e sou recebida pelas cores dos prédios e pelas janelas antigas. para trás ficaram o casal de velhotes, o sovina e a gasta, ele saiu antes dela e não olhou para trás para ver se ela vinha ali. certezas e conformações de tantos anos a dois, talvez. a menina do totó e do bibe amarelo atravessa o pai, e guia-o para dentro do Bairro Alto. viro á direita e reparo que à minha frente segue o casal que não se fala. ela vai em passo rápido, a esbracejar para o homem. o pequenito, arrastado por ela, tenta acompanhar a passada demasiado comprida até para mim e tropeça duas vezes. perco-os de vista depois do quiosque-bar, para deparar com mais bibes. vermelhos e amarelos, e panamás, muitos, de cores variadas. em fila indiana, dois a dois, de mão dada, olhos perdidos na luz do sol que ali não é filtrada pelas árvores do miradouro. riem, falam muito e as monitoras lá tentam organizá-los e assoá-los.
entro no "meu" café para ser recebida com o "Bom Dia" cantado de uma das raparigas. "é uma italiana, sim".

segunda-feira, 12 de setembro de 2005

... e agora?...

há coisas das quais provamos os sabores, sabendo-lhes o fim.
como um prato favorito, guloso.
no entretanto, o não saber quando se voltará a cozinhar assim. a saborear assim. a viver assim.
retornarei?
e o açucarado da minha saliva revolve a língua entre travos amargos de fumo de cigarro.
e agora...?

incongruencias

ontem, como não podia fazer há muito, pude ouvir música no meu quarto.
perdi-me nos cds antigos que andam lá pelas estantes, coisas que eu hoje em dia não seria capaz de ouvir. outras que me rasgam um sorriso na cara.
em mini-disc, tinha estranhas compilações gravadas, de há 10 anos atrás.
e lá saltei pelo quarto ao som de "Jump" de Van Halen, coladinho ao quase-gospel de Joshua Kadison.
e entre Metallica e Brian Adams, estava a musiquinha da "Bela e o Monstro"...

sexta-feira, 9 de setembro de 2005

ficou-me...

... o que será mais importante?
a percepção do acontecimento ou o acontecimento em si?

quinta-feira, 8 de setembro de 2005

foi bommm

as borboletas na barriga fizeram-se sentir muito cedo, mas baixinho.
foram-me acompanhando, durante o dia, lembrando-me que depois dos berreiros e das chatices, ia ter um dos meus momentos maravilhosos.
chegar ao auditório e beber o café, tentar engolir um bolinho porque o açúcar faz falta e sorrir à cara angustiada da B. aí as borboletas começaram a esvoaçar mais rápido.
as mensagens de merda e beijos de todos os lados. os telefonemas inesperados.
entrar, ajustar os últimos pormenores. rever os adereços, o relógio, o coração. os óculos...

a pausa: um duche quente para lavar o dia do corpo. a combinação fresca desliza pela pele. creme amansa-me, o pente a deslizar nos cabelos molhados. no burburinho das conversas sobre os preparativos, chegavam os outros amigos, os outros pedaços da peça. creme no rosto, esponja da base, toques suaves de pó com o pincel gordo. atenção mais cerrada nos olhos, a linha de eyeliner e o lápis escuro. rímel preto para as pestanas ficarem enormes. passar o baton como se hoje não estreasse, apenas uma carícia de cor nos lábios, pressionando-os um no outro em beijos sós. deixar o cabelo voar no calor e passar-lhe a escova. já está. o cigarro deitada no palco a observar o sossego fresco dos projectores apagados, sempre acompanhada das vozes e da ansiedade dos outros.

a "rádio táxi", um clássico do intercomunicador que liga a bilheteira aos camarins e a cabine técnica. cantou-se José Cid...
os abraços emocionados "é agora, muita merda". as borboletas em voos picados de montanha russa. pareciam querer fazer saltar o lençol que me cobria, onde tinha de ficar imóvel a ouvir tanta gente entrar. as vozes. pensar na gente que me faltava na plateia e agradecer pela (outra) pequena família que estava ali, entre bastidores e cadeiras vermelhas, que não me deixaram sentir-me sozinha. a primeira lágrima caiu no lençol, antes de começar o espectáculo.

depois a música. explodiu a luz e o meu coração. e os doze que eram quatro começaram a mostrar-se.
os risos, os risos. e de repente...
- um homem só é um homem que não sabe... não sei, pá...
pronto, tudo estragado. o tipo leva as mãos à careca, que escorre. e continua a dizer que não sabe.
as minhas mãos lutavam contra os nervos, porque tinha de estar em freeze. a B. engolia em seco fora de cena, à espera de entrar. segundos... e aí vem o M, todo-poderoso, driblando o texto (que o driblava no ano passado) e as brancas sucessivas do colega. o pessoal das luzes folheava desesperadamente o texto, sem saber onde estavam... e foi parar... à deixa do corte! não sabemos como... foi um mistério (o tal). o público não deu por nada. siga para bingo...
criámos um monstro! e há muito orgulho naquele que agora é um sucesso de gargalhadas e surpresas.
saiu de cena a tremer, a despir-se para voltar lá para dentro. e toda a gente a tremer mudava de roupa para voltar.

e entra o sushi, e come-se sushi. e risos, os risos.
os polegares da boneca-directora de cena espetados entre cada cena, um enorme sorriso no escuro entre as cortinas pretas, a profusão de roupas e sapatos, o mexe-mexe silencioso, invisível.
e os murros no estômago de cada par de olhos que nos fixava, quando a menina-mulher chorou. saio a tremer, limpando as lágrimas, tenho de despir-me para a Ela voltar a fazê-los rir.
primeiros acordes de Coldplay. fim.

aplausos, flores. abraço a 4, depois a 5, depois a 7 ou 8. depois sair. para o mar de gente que nos sorria, à espera de um beijo. até assinámos autógrafos...

obrigada a vocês, que estão lá todos os dias. e aos que foram, e irão lá. aos que querem que contemos a história.

quarta-feira, 7 de setembro de 2005

no bolso

vais naquele bolsinho aconchegado entre a pele e o motor do amor.
e vais sentir aquele cheiro. vais ser o espírito que passa pelos outros, encontrando-lhes as almas cor de pó nas linhas vagas das luzes. vais sentir nos teus pés a madeira fresca e no pescoço o suor quente. nos olhos as luzes dos projectores. e vais ver o quadro de caras expectantes, ora sorridentes ora graves, emolduradas pelo forro das cadeiras vermelhas e as luzes de presença (sempre elas) das escadas. vais pintar cada alma com a sua cor, vais pincelar de ser cada um dos que só vivem ali.
e murmurar as músicas e palavras que sabes de cor.

trocar a perna com a Ana, saltitar na cama como o Ele, ouvir rádio com a Francisca, dissertar com o Mário, apertar o anti-stress com o Marques, sorrir com a Rita, esbracejar com o João, deitar a língua de fora com a Ela, ler o jornal com o António, ser pescada com o Chico, discutir com a Helena, cortar legumes com a Marília e chorar com o Sempre-Noivo. vais porque és parte de cada um deles.
e quando as palmas trovejarem, a ovação é também para ti.

este é só mais um dia e mais um projecto. no próximo estarei eu de cabide na mão à tua espera, e viajarei pelos teus olhos no bolsinho do teu peito para "ver-te-nos" na casa de bonecas.

um beijinho, boneca-directora-de-cena-colher-de-chá...

. Sempre-Noivo . algures na Baixa de madrugada .

Não voltarás. Eu sei que nunca voltarás. E isso dói.

Eu tenho saudades de ti... De tudo o que tu foste para mim e eu guardei bem fechado na memória, como o cheiro das velas e da madeira de cedro envernizada onde tu estavas.
Como o altar mórbido da igreja onde acharam por bem deitar-te.
A igreja onde nesse dia estaríamos a casar.

Sei que nunca voltarás...
E dói muito... porque estás perfeita aqui dentro.
Dói como se te tivesse tirado uma fotografia a tudo o que havia de melhor em ti, e de repente ficasse só com essa fotografia.

Da última vez que te vi, tinhas provado o vestido... lembras-te?
Vestiste-o sozinha e puseste-te a olhar ao espelho, lá no teu sótão, onde em segredo fazias as tuas brincadeiras secretas...

Eu subi à tua procura... vi-te pela porta entre-aberta... Sorrias.
Sorrias tanto!
E a magia daquele sorriso iluminava todo o quarto.

Estavas feliz, estavas tão feliz....
E eu teria entrado no quarto e teria feito amor contigo, uma e outra e outra vez!.... E teriamos suado os dois o vestido, e teríamos sujo os dois o vestido...
E depois arranjaríamos uma desculpa para a asneira, pois afinal o casamento era no dia seguinte.

Mas tive a certeza.
Tive a certeza que daí a dois dias estaria lá à tua espera e tu aparecerias.

E depois tu não vieste.

Aquela tua certeza de que ias ser tão feliz estampada no teu rosto... essa certeza que me encheu de orgulho por saber que te deixava assim. Ficou gravada aqui...
Tu estás aqui... E eu agora não te posso abraçar ou beijar ou sentir o teu perfume, ou ouvir a tua respiração mais e mais e mais forte.... Não posso!

E dói... Dói muito. Muito mais do que eu posso aguentar.

(in Sax)

hoje estreio.
hoje vamos lá estar: 4 actores, 12 personagens, o sempre-noivo, o técnico de luz e o de som, a directora de cena, o encenador/autor-vivo, e os espíritos...
e uma sala cheia de gente que vai ouvir-nos falar de amor.

www.sax.pt.to

terça-feira, 6 de setembro de 2005

pontas soltas de vesperas de estreia

Sábado:
mobília já no auditório. fase de montar projectores, afinar. fase de começar a pensar nas merdinhas que faltam.
sair de casa, dar dois dedos de conversa para cravar uns salgados e doces de borla para a estreia à pastelaria do amigo. tomar o pequeno almoço. ir à drogaria cravar o lavatório de cozinha (que a casa de bonecas tem cozinha). conferir o conteúdo da mala de maquilhagem, acomodar os tarecos no carro, voar para Lisboa.
ir fazer as unhas porque já passou um mês sem manutenção e as mãos estão uma lástima. voar para o Colombo. boxers do outro, cabo de aço, tinta para o cabelo, calças vermelhas a 5 euros (o mac não me deixa meter o símbolo, bolas), cola de tecido para as bainhas, linha, toalha e correr as lojas à procura de umas outras calças que ainda não é desta que se encontram.
na azáfama de sacos e telefonemas, o lavatório que nos emprestaram este ano é mais pequeno que o do ano passado. vamos ter de fazer obras
voar para o Auditório. tirar as medidas e estudar a melhor forma de re-transformar o móvel-cozinha. vestir a Ana e o Chico, maquilhar a Ana, recordar o texto. chega a Alien. vamos gravar.
ir a Telheiras buscar o carro emprestado para a gravação. procurar uma rua com luz e pouco barulho.
- queres um cigarro?
vrrrrrrruuuuum
corta
- dás as tuas consultas em casa?
bonc bonc bonc bonc (três putos a saltar em cima de uma chapa de metal)
corta
- feliz dia dos...
ratatatatatata (camião do lixo)
corta
- queres su vvvvvvvv ir vvvv pou vvvv? (ventoinha de carro estacionado)
corta
- como?
beeep beeep (alarme de carro)
corta
11 da noite. levar a Alien a casa. voar para o Aki. não há tempo para mudar de roupa.
imagem dos vídeos de vigilância: um casal entra vestido de preto. ela de vestido justo de seda com grande parte da perna direita à mostra, saltos altos e óculos da moda. desfilam pelos corredores dos parafusos. ela tenta não escorregar no chão polido. saem com uma placa de madeira.
regressar ao Auditório. desmaquilhar. as luzes estão quase montadas. três piadas com quem lá está há horas de volta de filtros, racs e lâmpadas. vestir umas calças e começar a tirar as medidas. cortar a placa de madeira com um canivete suíço. no chão estava uma pastilha que se colou à placa. tentar com uma serra velha. pregar a placa no móvel. encastrar o lavatório. canção de vitória:
"já sei martelar, já sei bater no prego sem no meu dedo acertar"
pegar no rolo e acabar de pintar os elementos de cenário, fechados num armazém há um ano.
parar. olhar em volta. a desarrumação. os cheiros de tinta, palco e serradura. os olhares de cansaço orgulhoso. são 2 da manhã. não se parou para comer.

Domingo voltamos. para coser lençóis, fazer as bainhas, acertar outros tantos pormenores, acrescentar os novos vídeos ao multimedia e ensaiar. que também dá jeito.

ontem chorei. é complicado querer ajudar quem não quer ser ajudado. quem nos olha com indiferença como se o que dizemos não passasse de um chorrilho de disparates. quem não percebe que devia ouvir porque se há alguém que conhece aquela peça e as personagens são aqueles olhos que o miram com incredulidade. engolir os sapos e permanecer ali a insistir, à espera que se faça luz, porque se vê a colega a desesperar porque a cena está má devido a tanta falta de vontade. de sensibilidade. a essa aversão à direcção. as mesmas discussões que já tinham sido esclarecidas. as mesmas marcações que agora voltam a ser esquecidas deliberadamente. e a angústia de querer ver o espectáculo bom, muito bom. bem interpretado por todos, sem destaque para nenhum. podíamos já estar nos pormenores. as cenas de uns foram pouco ensaiadas para se insistir no outro. a sensação de que nada o demove, a dois dias da estreia. teimoso, insensível, com um grave problema em ser dirigido por mulheres, e estranhos curtos-circuitos.
a sorte é que o autor vivo tem tido tempo de lá passar e parece que aquela coisa "entre machos" resulta um pouco melhor.
a insegurança de não saber o que vai sair daquela cabeça lisa nos dias de espectáculo, em que não se vai poder parar as cenas e dizer que não é assim que está combinado. a sensação que algumas coisas foram passadas para segundo plano e a noção de que muito do trabalho podia estar fantástico se tivesse tido um bocadinho de atenção.
a sensação de falhanço. de exaustão. o abraço a duas, depois a três, depois a quatro, depois a cinco. a bonequinha-directora-de-cena acerta os últimos pormenores, enche os copos, prepara a roupa. esperar-nos-á entre cada cena de cabide e peruca em riste, para ajudar nas mudanças de personagem.
começar ensaio de luzes às 11 da noite.

"- it will all turn out well.
- how?
- I don't know, it's a mistery..."

segunda-feira, 5 de setembro de 2005

toma la mais 5... sem pensar

(isto vem do Run Away Man - não posso pôr o link, procurem "Os Porquês" aí ao lado)

Idiossincracias - as 5 menos
- egocentrismos e umbilicalismos
- maldade deliberada e gratuita
- mania de que um sorriso custa dinheiro ou provoca cancro
- incapacidade de se pôr nos sapatos dos outros, querer ouvir ou compreender, ou aceitar que toda a gente erra. a estupidez e as verdades absolutas dão-me engulhos
- desperdício de dinheiro e outras energias não renováveis e consequente subaproveitamento dos valores renováveis que há por aí em bruto

Idiossincracias - as 5 mais
- a minha família
- os meus "polegares"
- o palco
- música
- viagens e livros (outra forma de viajar)

5 Álbuns (bolas... olha, ganham os que vierem primeiro à cabeça)
- Canções Subterrâneas - A Naifa
- Swing when you're winning - Robbie Williams (ouçam antes de gozar, fashavor. é o álbum das oldies...)
- Mezzannine - Massive Attack
- AM-FM - The Gift
- Welcome to the Cruel World - Ben Harper

5 Canções (ou o que é que acordei a cantar hoje - se me perguntarem amanhã já mudou)
- I could write a book - Ella Fitzgerald
- numb - U2
- os milagres acontecem - A Naifa
- unfinished sympathy - Massive Attack
- 11:33 - The Gift
- sexual healing - Ben Harper
- crabbucket - K-os
(já passei? escolham um e eliminem :P)

5 Álbuns no IPod ou outro
- oh, e tenho lá dinheiro para essas coisas! uma pen foleira de meia dúzia de Euros com umas quantas músicas, mas não um álbum toooodo, quanto mais muitos. no carro circula uma mala cheia de cds... é o meu Ipod. mas não me obriguem a pensar no que lá tenho... gravo muitos cds de selecções minhas. olha, gosto de bandas sonoras de filmes. e sim, adoro musicais. não me falem no Chicago e no Moulin Rouge que correm o risco de me ouvir cantar durante horas... e é mau, muito mau...

5 MP3 na playlist
(pois eu, há uma semana, tinha rádio online... ouvia antena 3, e no carro a Radar. agora tenho mesmo de ter as músicas gravadas aqui. grrrr para o Mac e as incompatibilidades autistas.)
- letter to S. e The 80's - David Fonseca
- let's call the whole thing off - Louis Armstrong e Ella Fitzgerald
- unwell - matchbox 20
- take me away - lifehouse
- forever more - moloko

e a listinha vai paaaara:
Espanta-Espíritos (a ver se assim mete um raio de um post e actualiza o blog dele)
Colher de Chá (ou a boneca de sardas dos Cariocas de Limão que vê as vedetas abanarem-se)
Miak (o Duende Feliz que também tem Medo do Escuro)
Nuno Catarino (do Alquimia Submersa, e Chá de Magnólia e Forma do Jazz)
Cassiopeia (tenho saudades tuas!)
O Estranho (bienregressé)

já passei o limite, mas estou-me a marimbar. passava ao Nuno mas ele acabou com o blog (parvo).

num lar...

he tells her
"I wanna paint you naked on a big brass bed,
with bright orange poppies all around your head"
and she says
"you crazy old man, I'm not young any more"
"well that's allright", he whispers,"I've never painted before"

do you love me lady Jane, lady Jane?
do you love me lady Jane, lady Jane?
you've got me talking to the moon
you've got me walking in the rain
do you love me, do you love me
lady Jane?

"oh, and I wanna read you tea leaves by candle light
on a fat red velvet sofa I wanna be with you all night
I wanna tickle your feet with a peacock plume"
and she says
"can you talk a little softer?
there are people in the room"

do you love me lady Jane, lady Jane?
do you love me lady Jane, lady Jane?
you've got me talking to the moon
you've got me walking in the rain
do you love me, do you love me
lady Jane

and she says
"my children brought me here and promised me they'd call
but you know kids forget that's just the way of it all"

and he says
"well that makes us both footloose and fancy-free
so Jane do you wanna come see the painted desert with me?"

do you love me lady Jane, lady Jane?
do you love me lady Jane, lady Jane?
you've got me talking to the moon
you've got me walking in the rain
do you love me, do you love me
lady Jane

do you love me like I love you, lady Jane...?

. Painted Desert Serenade - Joshua Kadison, 1993 .

sexta-feira, 2 de setembro de 2005

orgulho

não quero questionar.
não quero pensar no que vai custar. o tempo vai passar e aquelas pedras seculares serão então uma recordação. a seu tempo.
não volto atrás. agora não. a última corda partiu-se. foi cortada à revelia.

agora resta-me ir à que, cinicamente me diziam, ainda era a "minha casa". pegar nos livros que levei para lá para aprender a ajudar-nos melhor, nos cds de músicas que usava para ter companhia mais presente que os fantasmas. cheirar aquele ar pela última vez e recuperar na boca o sabor da amargura. ouvir os ecos dos risos daqueles corredores cheios dos espíritos que lá andaram. que estrearam sozinhos num teatro inundado, que fizeram de madeiras podres algo digno, que se cansaram em dedicação, que pentearam e montaram, desenharam, pintaram, viveram, deram e receberam.
porque, apesar de tudo, de saber de tudo, eu queria continuar a lutar, saber que faria parte daquele grupo de pessoas cujos braços tinham ajudado a fazer algo de bom, de melhor. e por tantos momentos presenciei e saboreei essa possibilidade materializada. vi um grupo de gente unida à volta de um objectivo maior. era palpável, esteve ali. quando já muito poucos acreditavam, e quando ninguém apoiava, havia quem lá estivesse e fizesse acontecer.
perderam. perderam o que de melhor tinham. a juventude, a alegria, o empenho e a paixão foram eliminados da lista, um por um. eu fui mais uma. mas as opções não eram minhas.
as circunstâncias são de rir. gostava de ser mosca para ver um certo elenco agora reduzido a um fetiche, um janado, uma fumadora manienta, um miserabilista indeciso e duas bichas espampanantes. quem vai carregar com o cenário?

já tinha caído uma vez no erro de voltar a acreditar.
aprendo, agora, a baixar os braços.
eu podia apenas provar que sabia e conseguia. e provei. ao menos fico com isto.
adeus, Teatro Ibérico.

quinta-feira, 1 de setembro de 2005

vertigo

os sofás são uma mancha de cores gulosas no corredor.
hoje vamos para a nossa casa. montá-la.
o computador já tem os tesouros guardados, retalhos das vidas que oportunamente se reproduzirão (também) numa tela branca. a teia de pessoas, de vidas e estórias de cada um daquelas 13 pessoas tecida, em sintonia, entre o preto e branco e as cores.
as músicas voltaram a tocar na nossa cabeça e os sentidos misturam-se com as recordações.
corpos cansados de dias completos, sem paragens, sem descansos. nunca mais é dia... e no entanto falta tão pouco...
agora começam os retoques, os pormenores, aquela lista infindável de pormenores.
cabos, cordas, tintas, pregos, tecidos, agulhas, papéis, projectores, telas, copos, pratos, coraçõezinhos, almas, pôr um visto em cada palavra.
à hora de contar a história para o veludo frio e ver se as personagens já chegaram, o corpo já não está para nada nem ninguém. a cabeça explode. o medo...
as caras conhecidas que aparecem para completar aquele pequeno núcleo duro, trazendo as suas artes e os seus amores, unindo-os aos nossos sem pedir nada em troca. porque, no fim, se só sobrar para um café, tomá-lo-emos juntos com um sorriso de missão cumprida. a história estará contada. todas e cada noite.
o resto, fica nas mãos de quem comprar bilhete.

quarta-feira, 31 de agosto de 2005

inocencia...?

acredito em cada um. e que muitos são mais e melhores. e que todos podem ser mais e melhores.
acredito no caminho. acredito no objectivo. acredito na vontade.
acredito nisto porque preciso de acreditar. acredito demais.

terça-feira, 30 de agosto de 2005

imac-ginem esta!

os homens, no geral, são umas crianças grandes. depois dá nisto: estou neste momento a tentar descobrir o admirável mundo novo do enorme IMAC que tenho à minha frente, muito bonitinho e branquinho (estas teclas vão ficar pretas num instante)...
vai uma pessoa três dias de folga e regressa para dar de caras com isto...

ora o senhor patrão Porthos há uns dias resolveu que precisávamos de um computador novo, de preferência um Macintosh por causa dos vírus.
enquanto que para pagar as contas temos de esperar meses até que nos cortem o telefone e ele se resolva a fazer os pagamentos, neste caso o menino quis porque quis ir buscar o brinquedo novo... imediatamente.
meu dito, meu feito: fala-se em ter computador novo na 3ª, na 4ª faço os backups, na 2ª chego ao escritório e que é do meu querido velhinho lento e pacholas PC? que eu demorei 2 meses a conhecer de trás para a frente e do avesso para o direito? cujo sistema operativo é o único que conheço desde que comecei a dar os primeiros passos na área da informática, com o qual tirei os dezassetes e os dezoitos?

agora ando às voltas com as teclas das maçãzinhas e o raio que o parta, porque tudo tem de ser um bocadinho diferente, só para chatear o utilizador. os textos aqui do blog vão aparecer na formatação que bem der na veneta deste MAC porque os menus aparecem alterados, já não posso fazer links, ou um ajustamento do texto que seja e muito mais coisas hão-de haver... não estranhem as alterações de personalidade deste pobre blog... pelo menos enquanto eu não perceber como é que funciona esta magnífica máquina infernal.

ai, mas fui logo à cata do messenger para MAC... e eu agora ficava info-excluída, não? é que, cá por mim, eu sou muito gaija!

e os gajos, realmente, quando querem, fazem o que têm a fazer. tomam iniciativas, vão às coisas, lutam, desunham-se...
o problema é quererem...

segunda-feira, 29 de agosto de 2005

torre

subo as escadas de madeira e chego ao topo da torre de marfim, de onde olho o mundo nesta última janela. telhados e copas de árvores. nada mais. entre tantos pássaros escolho um onde me escondo. peço-lhe que mande um recado ao mundo.
um dia falei a alguém de torres de marfim. e de um grito que partiria a redoma de vidro.
há pouco tempo acordei numa cascata onde misturei no doce o salgado das lágrimas e me lavei da tristeza. não espero mais, agora. posso abrir a porta. o cadeado estava congelado com o choro frio nas noites longas de luzes veladas. bastou um toque e partiu. a espera do toque é que travou a vida. será recuperável?

sexta-feira, 26 de agosto de 2005

não explodi...

apenas estarei de folga três dias para ver se acabo o resto das "férias" que me tiraram. obviamente que surgem sempre coisas para fazer e descansar é mentira...
ontem fui com a B. comprar sapatos para as personagens... assim que voltar ao bulício do Príncipe Real prometo inserir as fotos da nossa expedição imperdível... as coisas que se descobrem quando andamos às pechinchas nas lojas da Baixa... considerámos repensar algumas personagens para incluir alguns do apetrechos que nos foram aparecendo pela frente... ainda estou a considerar aquele fato de cabedal com correntes para a sensual Ana... vou também aproveitar para actualizar o meu projecto de thumbwork... não está esquecido, caros leitores d'A Palavra deste Blog... ;)

entretanto, ontem houve Gift, conforme planeado há uns meses... ombros e cabeças à discrição. mas aquele som, aquelas batidas a entrarem dentro de mim... obrigada a quem arranjou maneira de acabar o ensaio mais cedo. apesar de quase 1 hora à procura de estacionamento, aquele pedaço de música foi um prémio bem ganho...

quarta-feira, 24 de agosto de 2005

ainda sobre a cola...

tenho medo de acender um cigarro...

onde tá?

fiz um refresh no blog e eis senão quando percebo que a minha side bar não está presente! alguém a viu? deve ter fugido, coitadinha, afugentada pelo cheiro a cola que se espalha nos corredores deste multicentro de escritórios, onde estão a haver obras. se há pouco gostei de sentir o cheirinho quando entrei, agora já me arde o nariz...
... esperem lá...
e se o desaparecimento da side bar tiver a ver com o facto de eu ter inalado estes vapores e já não estar a ver a direito...?

colorida de fresco

a nossa casinha é de cores frescas, pistachio e tangerina. altamente comestível, doce e salgado.
a aventura no reino dos sofás, puffs e cadeirões começou na fila da segunda circular, na antecipação do que "dava jeito"..."dava jeito, e depois nunca se sabe!"
quando nos deram mais uma vez carta branca para subir e escolher à vontade, (muitos anos que passemos a ir lá, ficaremos sempre atónitos), entrámos no reino das "linhas", do "tem a ver com a personagem", no "encaixa", no "preenche demasiado espaço visual", no "olha pra mim toda boa a dar consultas" e no "este ficava bem era na minha sala"... de repente, tínhamos uns quantos selccionados, e portanto havia que proceder a eliminações. ora assentando o rabiosque nos mais variados tecidos e formatos, procedemos aos test drives e combinações de formas e cores, e as possibilidades foram-se estreitando. no final, foi fazer o pandã das cores para "equilibrar a cena" (que nós, os pobrezinhos, também usamos termos técnicos...) voltar a experimentar as poses das personagens e a imaginar o tamanho do colega, que não foi, encaixado na selecção. esta dança do traseiro é fundamental, porque, afinal, queremos a nossa casa bonita e confortável. é que vão ser os nossos rabinhos ali "assentados" durante um mês.
embalar tudo com celofane e encaixar na carrinha foi mais fácil que no ano passado. o compasso de espera no escritório à espera da guia de autorização foi passado em amena cavaqueira com a rapariga da loja, bebendo café e partilhando um cigarro, em que uma dizia que gostava de ser presa por fraude para ter férias uns meses, e o outro dizia que o sofá-cama tinha de ser bom porque passávamos o tempo todo lá... a rapariga ria-se.
depois foi levar para o teatro e experimentar. e que delícia ficou. uma casa gulosa, diferente das cores sóbrias do ano passado, mas clean e hype, como deve ser o ambiente da coisa.
ontem os ensaios correram de olhos brilhantes, faltando muito pouco para ter perfeita noção do aspecto final. ainda vou raspando os joelhos na alcatifa, que a nossa cama ainda é uma pilha de almofadas, mas a piéce de resistance está para chegar em breve...
entretanto, tenho a certeza que a minha mãe vai achar que fui eu que obriguei o pessoal a escolher o cenário. eheheheh...

terça-feira, 23 de agosto de 2005

próxima estação: cenário

off we go, to furnitureland!
vamos pegar na carrinha escamocada, encaixar-nos nos lugares da frente, e, depois de um dia inteiro de trabalho, debaixo deste calor peganhento, fazer a ronda da mobília para a nossa casa encantada. déjà-vu.
ele vai ser escolher e embalar os mais diversos formatos de sofás, cadeirões, puffs... carregá-los para a carrinha e da carrinha para o teatro onde estamos a ensaiar. a sorte que é encontrar lojas que vendem mobília de contos e contos de reis mas que praticam O Bem, emprestando o material de exposição aos pobres artistas que não conseguiram uma borla da Tribo... "Azioni, sofás com um toque de classe" obrigada!
para a semana, apanhamos o resto da tralha e levamos tudo para a morada fixa, o Auditório Carlos Paredes.
e vamos remontar tudo, reviver cada pedaço de madeira, cada cheiro de tinta, cada marca nos lençóis brancos que não saiu depois de 3 lavagens. ainda soam na minha cabeça as marteladas, a lixa a raspar na madeira, as risadas e as discussões, o barulhinho dos parafusos espalhados no chão. e a imagem daquele branco imenso.
vai ser bom reviver isso, mesmo com os músculos das costas a pedirem piedade.
saio mais cedo, com outro sorriso, hoje. vou "comprar mobília para a nossa casinha"...

companhia

no peso destes dias sem gente, dei por mim a ir ao Extra comprar uma revista foleira só para não almoçar com as paredes.

pessoas

gosto de pessoas. sempre o disse. gosto dos seus rostos, expressões, histórias, estórias, e pequenos sorrisos que surgem do nada. gosto de ter surpresas. gosto de ser ombro e que surjam do nada gestos engraçados. acho que seria uma boa profiler e já me atestaram qualidades como psicóloga. gosto de imaginar, no metro, quem será aquele desconhecido, de onde vem, para onde vai, porque é que coça a cabeça assim.
adoro brincar com tipões. apesar de saber que cada indivíduo é único, as caricaturas apaixonam-me.
no entanto, todos têm defeitos, todos a certa altura desiludem.
acredito piamente na mudança, na regeneração. dou sempre segunda, terceira hipóteses. nunca fecho portas.
apesar disso, há pequenas desilusões diárias que me magoam às vezes mais que as grandes. não sei como explicar.
as pessoas falham redondamente nos seus objectivos, na sua maneira de ser até, talvez porque não contam com a teoria do caos, com os factores externos, porque estão demasiado certas das suas virtudes e verdades absolutas. com isso eu conto. conto com o contexto, o background emocional e profissional, com a temperatura ambiente, com as pessoas que estão à volta e o que se comeu ao almoço.
até conto previamente com certos defeitos... ou feitios... quem tenta virar o bico ao prego, quem açambarca créditos alheios, quem é naturalmente convencido, quem se descarta, quem não assume incapacidades, quem não reconhece qualidades alheias, quem é pedante e critica os outros de o serem com observações tristes, quem é tão umbilical que conta histórias deturpadas para se poupar da culpa.
há momentos em que engolir custa. normalmente não consigo.
(há, inclusivé, quem conte com esse meu defeito... ou feitio... e não me leve a mal ou até me consulte para ser mandado à merda)
outros momentos há em que tento fazer de conta que nada se passa. porque gosto da pessoa, porque é comigo (e não o contrário), porque são coisas a que, pensando ponderadamente (ui, coisa complicada) eu sei que não se deve dar valor.
mas fica aquela moinha, aquela mágoa... aquele bichinho a moer...
depois pode acontecer uma de duas coisas: afastamento natural, ou explosão emocional.
bicho estranho, este do eu de cada um...