à saída do escritório, para ir almoçar, encontro na entrada um rapaz e uma rapariga a olharem para a lista de empresas que co-habitam neste multicentro como se estivessem a consultar um menu...
- desculpe, queria uma informação...
sempre disponível, preparei-me para ajudar... nunca me pensei que me fosse cortar a digestão...
- aquela empresa, a XPTO Filmes, aceitam actores aprendizes?
mas mas mas... como actores aprendizes...? contive-me e respondi o mais polidamente:
- por acaso faço parte dessa empresa, o que lhe posso dizer é que normalmente trabalhamos com uma carteira de actores profissionais e, se estiver interessada, pode mandar currículo para o nosso e-mail. se andarmos á procura entramos em contacto...
- sim, mas e assim pessoas que queiram aprender...?
então... pera lá... tzzzt... tou em curto-circuito...
- é que nós queríamos começar a fazer umas coisas, aprender, e queríamos informações sobre se aceitam aprendizes.
mas o que é que ela quer que eu responda...? mas mas mas...?
- olhe, mas tem formação? o que lhe posso dizer é que se calhar o mais indicado era talvez começar por fazer cursos na área, há imensa coisa na agenda cult...
- pois, mas eu queria já ir fazendo coisas
suspiro, desespero... muito...
- bem, então pode inscrever-se na agência XXXX, também têm escritórios aqui, deve conhecer porque são muito solicitados no meio...
sai-se o outro, que tinha estado calado:
- sim, eu já fiz imensos castings para eles...
- p... pois... inscreve-se e pode ser que a chamem e que tenha sorte...
ficaram com cara de parvos a olhar para a ementa.
- e aquela XXXX ali, também faz espectáculos? tem um nome que parece que sim. se calhar aceitam aprendizes...
claro que sim, minha querida... é só facilidades!
- olhe, isso não sei, são tudo empresas diferentes, se calhar é melhor falar directamente com eles, mas parece-me que é uma produtora de televisão, não tem muito a ver co...
- e a XXXX, ali - de dedo espetado - se calhar aceitam. eu tenho um curso de jornalismo...
poizolhequenãoparece....
- errrr... acho que não há nenhuma empresa aqui que trabalhe com jornalistas...
- pois, se calhar... então obrigada...
continuaram com cara de otários a olhar para o quadro como se lhes fosse cair dali uma letrinha que se transformasse em grande produtor dos morangos com açúcar a oferecer-lhes o contrato milionário, fama e casacos de pele.
saíram dali ao mesmo tempo que eu, sem ter entrado nem falado com ninguém, de nariz no ar com a mesma cara taralhoca, talvez à procura de alguma porta com um telão a dizer: "procuram-se aprendizes para grande novela da TVI. pagamos à hora, refeições e transportes por conta. venha aprender e fazer umas coisas."
eu considerei voltar a subir e pedir no gabinete de psicólogos aqui do lado um Xanax...
aviso à navegação:
ando a tentar vingar neste meio há uma porrada de anos. tenho formação em várias áreas. faço teatro. faço dobragens. tive de aprender a fazer produção para pôr os espectáculos de pé. vou a castings. rebento-me toda para ganhar a vida e poder fazer mais qualquer coisa, nem que seja uma peça de vão de escada.
já fiz peças, dessas de vão de escada, em que acreditava para 5 macacos. já cancelei espectáculos. já chorei de frustração por ter de cancelar espectáculos. já arrumei muita casa que tive de deixar. já fui preterida pelo número do soutien.
já apresentei um programa de tv. numa das vezes estava afónica. sujeitei-me à coisa do "vota-na-apresentadora-de-quem-mais-gostas-tipo-miss". apesar do metro e meio e uns trocos, da barriguinha, das borbulhas e da afonia, era a preferida do público. mas não da produção. já fiz uma peça em que tinha de cantar, dançar, ter o maldito sex-appeal, usar peruca loira, mostrar quase tudo [ou nada eheheh] e ainda assim ser levada a sério, com ensaios feitos em casa em frente à televisão porque a equipa dos "profissionais" não estava com paciência para ensaios de substituição. já tive de fazer um espectáculo uma semana depois de a minha avó morrer. já fiz castings onde fui elogiada para descobrir que afinal já tinham escolhido a trinca-espinhas e era só manobra de marketing.
andamos todos os dias lado a lado com manequins de sorrisos assépticos e medidas impecáveis. veneramos aqueles que às vezes ninguém conhece, vêmo-los bater no fundo e perguntamo-nos se valerá a pena continuar. imploramos por uma oportunidade para mostrarmos que sabemos o que estamos a fazer, que não somos só mais um iludido. tentamos levar avante projectos nossos sem um cêntimo para um cartaz. vemos o lixo que passa na tv e perguntamo-nos porquê. vemos a facilidade com que surgem as oportunidades para tanta gente que no fundo só quer "experimentar" e acaba a abrir um bar ou uma loja de decoração ou a casar com um futebolista.
isto custa, senhores. dói. na alma. todos os dias em que não temos trabalho, em que todos os ossos do corpo dizem que somos capazes mas o espelho, a auto-estima, o "mercado" não nos deixam acreditar.
o mínimo [e o máximo] que podemos fazer é lutar, à séria, por isso.
isto é um vício. é muito bom. mas requer trabalho. entrega. devoção. chorar muito. não dormir. suar. e ter respeito, caramba.