dois teclados #2
Regressaste numa manhã de nevoeiro. Parece pateta mas foi verdade, era inverno e era manhã e estava frio e chegaste leve e sorridente como te recordava, voltaste a ser a boneca apaixonada por quem todos os homens do mundo se deixavam aprisionar se te vissem sorrir. Quando o peso saiu dos teus ombros voltaste a pular sobre as nuvens e sorriste e voltaste a ser feliz. E lembrei-me daquele primeiro instante, um café roubado ao teu horário de trabalho, um cafézinho roubado ao fim de tarde num jardim da cidade, e aqueles primeiros sorrisos trocados, o teu rosto era mesmo mágico, soube logo ali.
|NC|
És tramado, tu. Nessa cara de menino sacana, de olhos inteligentes, a percorrerem-me por dentro como se não fosse boa educação perguntar antes de entrar. Aliás, fazes tudo sem perguntar, não é? Assim me raptaste pela primeira vez do bulício das contabilidades de fim de data de entrega de IRS. Não se faz. Mas tu fazes tão bem… “Estou cá fora. Desce que preciso de cafeína contigo”. Senti-me trapalhona, desengonçada, mal arranjada, um pouco irritada com o descaramento, e indefesa. Estupidamente indefesa. Mas defendi-me com a única arma que tenho e desci de sorriso em riste. Hoje tenho frio. E estou de arma na mão outra vez. Não sei o que esperar.
|P|
Agora voltaste voltaste segura, desta vez sabias ao que vinhas. O sorriso era o mesmo, imensamente acolhedor e bonito, mas desta vez não era uma máscara, era verdadeiro como o frio que entrava pela janela meio aberta. O fumo do cigarro embrulhava-se no ar sombrio do fim de tarde e enquanto contavas histórias engraçadas dos bastidores bebia o martini com gelo até ao fim. Eu ouvia, meio distraído como sempre, espreitava as pessoas e os pássaros e as cores e a noite que caía e ficava embriagado contigo.
|NC|
Miras-me assim, e parece que sim. Parece que tudo o que aconteceu antes não tem significado. Que agora sim, é o tempo e o espaço. Que houve apenas um desencontro dos fusos horários das almas, antes. E sabes que mais? Ou estou curada ou não quero saber do que nos fizemos. Porque agora, que podia dizer-te muita coisa, lembro-me apenas de que a tua pele sempre me soube bem, e de que a forma como ondulavas as mãos no meu corpo me faziam sentir mais mulher. E olho-te. Absorves as minhas parvoíces que preenchem os silêncios, interessado, entusiasmado com essa parte de mim. E as outras? Ao que vens? Porque eu estou aqui completa. Sei o que quero. E estou aqui. Mais não faço.
|P|
Acertamos os relógios e partilhamos tudo outra vez, desta vez verdadeiro. Lá fora há um candeeiro sozinho a iluminar a rua toda, é a única certeza que tenho neste momento e sei porque acabo de espreitar a janela, tu estás ainda escondida pelos lençóis, é cedo, demasiado cedo para o dia nascer, mas fico acordado a olhar para as curvas douradas da pele descoberta (é inverno mas a noite é quente), estou acordado e antes que volte a adormecer, com os braços a embrulhar-te inteira para mim, antes que volte a cerrar os olhos e a navegar na névoa dos sonhos, miro-te uma vez mais, beijo-te de mansinho (não acordes, bébé, não acordes) e sei que duas pessoas abraçadas é tudo o que existe, é quase palerma, é cor de rosa e é bonito e inocente como a madrugada que quer despertar, são cinco da manhã, até logo, até mais daqui a pouco, não te percas no sono, desperta-me com beijos.
|NC|
voltamos ao passado com a doçura do presente. envolve-me nesse calor e não me deixes ir. os relógios podem cantar. agora não me importo. nunca te esqueças. perdeste-me e ganhaste-me de novo. não jogues mais. absorve-me como se dá uma passa lenta num cigarro. não apagues. fecha a janela, o nevoeiro está a entrar e cobre-nos de geada. os dias são longos, mesmo no inverno. são assim porque os queremos. neste vício quente da nicotina quero acordar para me viciar um pouco mais no inconsciente do viver-te. bom dia.
|P|
texto partilhado por polegar e Nuno Catarino

























