polegada #3
|tentativa de pendurar um cartaz a quase 2m de altura|
duas mulheres. uma cabajona, outra franzinita. uma parede fina, sem ligação ao tecto, com algumas vigas. fio de nylon. escadote do séc. XVII. um cartaz. duas galinhas doutoras.
cabajona: eu subo ao escadote do lado de cá. sobes para cima dos cacifos por detrás da parede e esperas que eu te mande o fio de nylon, prendes às vigas.
franzina olha os cacifos, são mais altos que ela. um banco do séc. XVII oferece pouca sustentação. sobe ao banco e continua a não chegar com mais que os braços aos cacifos. não tem força para se elevar só com bíceps e tríceps e restantes íceps. em frente aos cacifos está outra parede do séc XVII. que se lixe o património. pata na parede e trata de escalar quase paralela ao chão até se conseguir içar para cima dos cacifos. espera. espera. espera.
cabajona: polegaaaaaar. não consigo subir ao escadote. tenho medo. vem tu para aqui e eu vou para aí.
franzina olha o banco lá em baixo. suspira. pata na parede. outra pata pendurada na direcção do banco. escorrega escorrega. pata na parede já está ao nível do nariz. a outra pata a sentir o banco ao fundo. bendito ballet, serviu de alguma coisa ao fim destes anos todos. desce.
cabajona vai lá para trás. polegar mira o escadote, daqueles de encostar à parede. o espaço entre a parede e a bilheteira oferece muito pouca possibilidade de inclinação. franzina tem vertigens. suspira. um pé atrás do outro e maldizer o patrão que não lhe fez seguro. pensando bem, nem lhe pagou ainda. sobe de cartaz na mão. só com um braço seguro no escadote, em bicos de pés para inclinar-se mais para a frente. as duas galinhas cacarejam lá am baixo mas não se oferecem para ajudar até serem intimadas.
seguram o cartaz cá de baixo, mas depressa se fartam. dor nos braços e a cabajona que não diz que está pronta.
cabajona: polegaaaaaar. não consigo subir ao cacifo.
franzina: (do alto do escadote, dor nos pés, dor nos braços) apoia os pés na parede da frente e iça-te.
franzina pensa que a cabajona poderia com pouco esforço sentar-se nos cacifos. mas pronto.
franzina passa fio no cartaz, atira o rolo do fio à cabajona. as galinhas (que entre si se tratam por doutora esta e doutora aquela, de mise feita e saltinho agulha), de rabo para o ar andam a apanhar o rolo (que invariavelmente cai no chão) para, depois de cortado, devolvê-lo à franzina. cacarejam acerca de estar torto. de estar alto e de estar baixo. com o braço dormente, franzina corta o mal pela raiz:
franzina: tá bom.
tem de mudar o escadote de sítio. desce e dá uma joelhada num parafuso do séc XVII saído. as galinhas atendem telefones do lado de dentro da recepção, indiferentes ao facto de a cabajona estar petrificada no alto dos cacifos e de a franzina estar a desviar cadeiras e a transportar o escadote sozinha, fazendo slalom no galinheiro. franzina volta a subir.
mais galinhas de rabo para o ar, mais nylon a voar. quando começa o cacarejo sobre o torto e o direito, franzina ataca:
franzina: tá bom.
franzina desce do escadote, leva-o sozinha para o arrumar, e vai atrás da parede ajudar a despetrificar a cabajona.
assim se pendura um cartaz.

























