quinta-feira, 8 de dezembro de 2005

vermelho

vermelho escuro. pequeno. divertido. diziam que era a minha cara. era, sem dúvida, um cacifo da minha vida.

um companheiro, sim, apesar de objecto. estranharão muitos este post, este estranho apego a uma coisa. mas essa coisa simplesmente foi a minha casa e a minha liberdade ao longo dos últimos 7 anos. nascido em Novembro de 1998, morreu em Novembro de 2005. morreu. porque não volta a andar, porque mo destruíram. durou 7 anos certinhos.
era meu por uso capião e por estima. estranhamente sentia que me passava emoções, que me percebia, e, sim, eu falava e cantava com o meu jipinho.

agora, entre pesquisas de valores comerciais em guias de automóveis, pergunto-me como vou pagar prestações de um novo carro. porque o que ele vale para os técnicos é pouco. e pergunto-me também quem me vai pagar as aventuras, as paisagens, os cheiros, as lágrimas e as risadas que aquele carro viveu?
ficam as recordações. das coisas boas e das coisas más. especialmente a nível de aderência ao chão e assistência técnica. grandes guerras com os senhores mecânicos... mas até isso neste momento me arranca um sorriso melancólico.
mais uma vez uma porta que se fecha com violência, uma corrente de ar vinda não sei de onde... uma vez um amigo disse-me que a maior capacidade do ser humano é a de adaptação. pois parece que vai ter de ser.
a ti, jipinho, amigo, querido e impulsivo, fica um adeus cheio de saudades e um obrigada pela cumplicidade e por toda a liberdade que me deste. acima de tudo, obrigada por me salvares a vida.

terça-feira, 6 de dezembro de 2005

e eu que acho que nao viajo o suficiente...

26 voltas ao Sol... tão fixe!

o Sol está a aproximadamente 8 minutos-luz da Terra (i.e., a luz demora t = 8' = 8* 60'' a chegar aqui, viajando à velocidade c = 3*10^8 m/s).

assim, o perímetro da circunferência descrita pela Terra durante uma volta ao Sol é (tudo aproximado, claro) dado por
1 volta = 2 * Pi * r = 2 * Pi * c * t = 2* Pi * (3 * 10^8 m/s) * (8 * 60 s) = 2,9 * 10^11 m = 3 * 10^8 km

26 voltas serão, então, 26 * 3 * 10^8 km = 7,8 * 10^9 km

conclusão: já viajaste, muito aproximadamente, 8.000.000.000 (oito biliões) de quilómetros pelo espaço. nada mau ;)

[informação gentilmente enviada por mail pelo querido Ni, que tem andado desaparecido mas não ausente]

segunda-feira, 5 de dezembro de 2005

sabe bem olhar para ela


[ms]

desembrulho-me.
ali como quem vai para o rio, duas ruas à esquerda, depois da viela adormecida nas luzes de uma porta, contam-se três candeeiros depois do início do quarteirão. fica bem perto da loja de brinquedos antigos de grades fechadas, de moldura de madeira azul escura. ali, onde se dispersam quentes no gelo do ar os laranjas dos prédios e dos seus recantos. onde a chuva pica na cara de tão fresca e se lambem os beiços húmidos para depois os deixar cantar com a senhora de voz cansada mas com trinado certo num labirinto de azulejos sujos do metro. ali, onde os telhados descobrem cortinas brancas e o recorte da mulher nua em contra-luz com sílabas afuniladas. ali, onde os teatros se deitam no colo, ao som do alaúde. ali, onde as sombras do rio são nenúfares azuis que sabem a geleia de morango e riem com os sinos da catedral.
encontro-me, sempre ali. em qualquer lado. nos pés doridos e satisfeitos.

terça-feira, 29 de novembro de 2005

no palco nunca estás sozinha


[ms]

os fantasmas vivem lá, habitam em cada grão de pó. os fantasmas de todos aqueles que vivem ali, e ali só.
que nascem em palavras da alma de algum escritor, brotando tinta escura no papel imaculado. são antigas, as letras, ou nem por isso. não interessa. ali repousam, as letras, as palavras, os espíritos transparentes.
um dia são acordados por umas mãos que lhes tocam ao de leve. depois soam as gargalhadas lá fora, ouvem-se falados. ouvem-se a si mesmos a respirar, a sofrer e a sorrir, entre conversas que não conhecem. assim, meio entaramelados, os fantasmas sentam-se na borda do papel, mirando aqueles seres de mãos quentes que acariciam as suas páginas, que seguem com dedos espetados os parágrafos das suas ruas. que evocam as suas letras, a sua tinta. vêem esses seres de olhos sérios, olhando-os dali sem os verem, fixando com dúvidas e ar confuso as frases que disseram. aos poucos as expressões mudam, parecem compreender. rabiscam novas letras ao lado das suas. que revelam sentires que acham que sentem as palavras e que sentem os fantasmas. e eles olham as novas letras. e riem, e choram, e acenam ou negam. ali, sentados em volta, os seres pintam a marcador flourescente as "deixas". e fica colorido o papel, a sua casinha, cheia de cores e riscos e rabiscos e palavras novas.

um dia os papéis voltam a passear, até um sítio muito grande. e neles, sentados, sempre os fantasmas. olham o novo espaço e vêem as luzes acenderem-se, quentes, lentas, lânguidas. vêem os seres de mãos quentes a subirem ali para cima. e gritar. as vozes com as suas palavras ecoam nas paredes e giram tantas vezes. os seres às vezes fazem grandes disparates, como gemer sem nexo, mover-se de formas estranhas, vestem roupas novas com alfinetes pendurados, saltam, parece que enlouquecem.
andam descalços naquele chão e é aí, enquanto falam as palavras dos fantasmas e se enraízam na madeira que os fantasmas se sentem atraídos, magnetizados. aos poucos, devagarinho. observam à sua volta outros, que já lá estavam, viajando sentados nos grãos de pó, agora levantados pelos pés descalços dos seres das mãos quentes.
um dia o papel cai das mãos do ser, espalhando-se no chão, branco no preto. um negativo das palavras. e o fantasma observa lá de baixo. na primeira lágrima que o primeiro ser de mãos quentes solta, de pés descalços, ao dizer a tinta, o fantasma sobe.
torna-se grande grande grande. e abraça-se ao ser. abraça-se com força e chora com ele. e assim o fantasma se entranha feito água, ar, riso, roupa, na pele do ser das mãos quentes. e ele próprio sente que tem mãos, que anda descalço no chão.
todos os dias os seres voltam. todos os dias os fantasmas os aguardam. e crescem e vivem ali dentro. depois voltam aos grãos de pó para descansar e de lá nunca mais saem. [nos papéis, se olhares com atenção, verás as pegadas dos fantasmas, de quando moravam ali.]
é assim até um dia o fantasma sentir o coração do ser a acelerar de forma estranha, no escuro. nesse dia, assim que a luz acende, explode num orgasmo dentro do ser em mil partículas que penetram bem fundo nele, escorrendo até aos pés calçados ou descalços. apenas uma dessas ínfimas partículas fica dentro do ser. uma só, ficará eternamente. as restantes reúnem-se, quando as trovoadas soam, aquelas das mãos quentes de outros seres que os vêm visitar e ouvir. voltam a cada trovão ao chão e esperam pelo dia seguinte.
aprendem que podem ir ter com os seres àquela sala estranha de luzes fortes onde o fumo do cigarro se mistura com o cheiro das lacas e dos cremes e com a poeira dos cabelos e o vapor do ferro de engomar. divertem-se no reboliço, nos gritos e corridas, nas gargalhadas e "merdas", saltitando dentro do pó de arroz das meninas, para lhes beijar as faces. enrolando-se bem fundo na capa dos rapazes, para lhes pregar um susto, espetando para fora um alfinete, desapertando um botão.

quando um dia o silêncio volta ao palco, os seres sossegam e dormem. passeiam um pouco pelos grãos de pó. cantam inaudivelmente as palavras aprendidas, partilhadas, como lenga-lengas a chamar os seres, celebração às vidas dentro deles e mensagens secretas à partícula que sempre viaja com eles.

aguardam com expectativa o dia em que outros seres ou aqueles mesmos voltem, com novos amigos.
ou apenas para dançar no palco escuro. aí dançam contigo. observam-te e vêm soprar-te ao ouvido sem ouvires que gostam de ti e que têm saudades quando não estás.
é aí que sentes o arrepio...

sexta-feira, 25 de novembro de 2005

morte no parque

desorientou-se na outra turba estranha de gente, onde rostos conhecidos lhe transmitiam apenas a dor da transparência. o caminho era o mesmo mas sentia-se outra desconhecida. media os passos na alcatifa e os cheiros possuíam-lhe os sentidos. passou pelo seu rosto e não se viu.
há dias assim, pensou. em que se confirmam apenas as feridas por cicatrizar.
no veludo vermelho deslizaram-lhe as curvas de arcos de pedra gravados na pele. ainda gravados. sentia-lhes de perto o toque, a respiração. das pedras, sim, das pedras cinzentas frias imóveis que respiravam nela. como respirava aquela cara que a mirara de olhos cerrados no sono eterno de duas dimensões. e um outro corpo nu de rosas no colo e pescoço atirado para trás. e luas roxas e fios vermelhos. e canos entupidos e calças arregaçadas e a capa preta num sofá bafiento.
indelével, contudo, também a transparência com que se sentava ali. não disse mais do que o necessário, não abraçou ninguém que não quisesse abraçar. ficou por sorrir tudo o que queria sorrir mas não deixavam. preso ao lado das lágrimas. choraria noutro dia, decerto. ou não. ou nem isso.
contas saldadas. com os restos da vida e um par de cabos num saco saiu para o ar frio da noite.
no cruzamento a caminho de casa a lua esperava-a, como de costume, amarela e desfocada.
no rosto o vento frio da noite não lhe amarrotava a pele tanto como a temperatura baça dos olhares ou suas ausências lhe tinham amarrotado a alma.
na cabeça as frases ecoavam, batendo de um lado ao outro do peito, latejando-lhe a tal queimadura que não sara: "obrigado por tudo" "por favor não desapareças" "fazes tanta falta aqui. que é feito de ti?" pena que as palavras tenham saído das bocas ao lado.

tenho saudades do meu sonho. algures entre Mishima e eu.

quarta-feira, 23 de novembro de 2005

desrespirado

a multidão condensava-se num vapor pegajoso e barulhento. luzes demasiado brancas, neons e cartazes. consumia-se em cada passa de cigarro para se tornar mais nítida depois do fumo se misturar na respiração do ar condicionado. duas amigas em gargalhadas, um grupinho discutia trabalhos e teorias, com cuidado para não sujar a gravata com o molho da maionese, se ela fosse lá ter agora não estava com essa em cima, ela tem de se desenrascar, onde compraste esse casaco?, o caderno em cima da mesa.
alheia de sons e vozes e suspirares, observa apenas, absorta, ouve sem fixar. alarme de loja dispara sozinho. a sério? mas achas que. fui ao centro comercial pipipipipipipi.
o pensar misturava-se com os sons sem nexo e sem nexo continuava o pensamento.
bocejou. desligou. o filme começa daqui a pouco

segunda-feira, 21 de novembro de 2005

no vidro


[ms]

sentou-se na cama asfixiada com o ar tão leve que quase não o sentia entrar dentro de si. levantou-se sem contar os passos, e o chão deixava-se pisar sem lhe arrefecer os pés. sem uma brisa que lhe arrepiasse a pele fina das costas. o inverno berrava lá fora, mas não, nem um sopro. foi até à janela e encostou a testa no vidro azul escuro de céu. olhou fixamente as lágrimas que choravam no vidro. escorriam sem caminho definido porque o vento contrariava a gravidade em andamentos musicais uivados, assobiados, fazendo dançar a água. nem na testa sentiu frio. encostou a bochecha, depois o peito que ondulava pelos botões desapertados de uma camisa velha, ainda arquejante na busca do ar fino. nem no peito sentiu o vidro. mas chovia lá fora. quis tocar no vidro choroso. estendeu os dedos e acompanhou dormentemente o descer descompassado de uma gota gorda, que logo se misturou com outra. e logo lhe caiu no dedo. não percebeu porquê, se estava do lado de cá e a mão... atravessara o vidro. mas o que mais a incomodou foi não sentir a gota. devia ser fria, devia ser molhada. mas se não a visse cair no dedo que atravessara a janela, não a saberia caída na ponta do dedo. o vento abanava-lhe os dedos mas não sentia os dedos. devia esse contorno do corpo, agora todo cá fora, notar-se no frio. que lhe enregelasse a pele. mas não. olhou para trás. dormia. quieta, no meio dos lençóis. distinguia-se com a luz de presença do aquecedor uma perna desnuda estendida, o corpo pequeno, enrolado, cabelos espalhados na almofada e o subir e descer ritmado de um sono franco. era bonita, aquela mulher. porque serena. por nada mais que não isso. porque era vulgar, apenas mulher. mas descansava.
virou as costas ao seu corpo e deixou-o repousar enquanto estendia de novo os dedos para a chuva, atravessando de novo a janela sem estranheza. estranhou não estranhar. viu a camisa enrugar-se, ajustar-se-lhe ao contorno que era seu, com o peso da água. viu-a agitar-se no vento que lhe roubava os cabelos, chicotes húmidos, tinha a certeza. via, apenas. e se fechasse os olhos? ouvia o segredar da tempestade.
fechou os olhos.
uma rajada de vento sugou-a. arrancou-a da suspensão com uma sacudidela e desapareceu, como folha pequena de árvore. agora o temporal rimbombava-lhe no peito. qual tambor. tremeu. de prazer, de frio. porque de frio de prazer. a água beijou-a e chicoteou-a. lambeu avidamente os lábios e engoliu aquela chuva e o sabor arrepiou-lhe o peito. estava fria. sabia, sentia. sorriu. sabia que sorria apesar de não ver. entre as vergastadas gélidas de vento, a água sacudia-a e enrolava-a. sentiu finalmente a roupa enrolada no corpo, aos encontrões na pele. sentiu o seu contorno no frio e no vento e achou-se bonita também.
um pé tocou no vidro da janela - sentia o vidro, bem frio, bem duro, bem liso - e começou a deslizar. estendendo-se para lá do que se conhecia como o seu pé.
e tinha a certeza que a pele também escorria, agora só líquido transparente, arrastada pela água, espalhada pela ventania.
tinha a certeza. enquanto escorria pelo vidro, agora lágrima envidraçada, e se entranhava num qualquer pedaço de terra.

sábado, 19 de novembro de 2005

espiral

agarro-me com força ao que é bom. abraço com os meus dedos pequenos, e a minha boca procura o ar calmo e fresco de uma manhã de sol.
mas já não me larga o pânico da perda.
perder até o discernimento para conseguir sorrir. aquele sorriso que sempre foi tão constante que se tornou um peso e um preço, para aos poucos regressar à sua natureza. porque sempre fui de sorrir.
tempos de espiral descendente. não quero cair outra vez. não assim. não tenho mais braços. não tenho mais músculos. não. sim. o corpo pede descanso. porque suportou dores de alma, está magoado, fraco, enlameado. o coração voltou a saltar, de vez em quando, à minha revelia. a assustar-me como já me assustou. não quero mais.
quero deitar a cabeça na almofada e adormecer-me. descansar-me, serenar-me.
quero enrolar-me no ar quente e deitar-me com o sossego. só por um bocadinho.

crash

só queria dizer ao senhor condutor que esta madrugada, na 2ª circular, resolveu vir contra o meu carro, fazer-me andar em peões e espetar-me contra um rail, enquanto fugia, que os polícias foram incansáveis e querem tanto vingança como eu.
assim, enquanto o meu jipinho fica à espera de diagnóstico ou mesmo de entrada no ferro-velho, o senhor ficará sem carta, e, pelo que depender de mim, vai pagar bem caro o facto de nem sequer ter olhado para trás, enquanto parava o A3 dele (que também não ficou em bom estado)depois de uma curva, bem escondido, trancava as portinhas e ia a pé (cambaleante, decerto) para casa.
senhor condutor: estamos bem, obrigada, por acaso não morremos.
a festa de anos da minha irmã, que é assombrada desde a morte da minha avó, vai correr da melhor forma.
e não se preocupe, eu arranjo maneira de ir trabalhar todos os dias.
tenha um soninho descansado.

quarta-feira, 16 de novembro de 2005

polegada #4

|quando pensamos que as coisas não podem ficar pior|

os carregadores não apareceram hoje. o patrão tinha-os avisado mas eles não tinham sido avisados.
eu e a minha colega (não a cabajona, a outra, do som, que também é franzina) tivemos de montar tudo sozinhas.
os actores foram beber cafés ou para os camarins. um deles pensava que estavam a gozar com ele quando tinham dito que os carregadores não tinham vindo. só se aperceberam da calamidade quando chegaram à sala, 5 minutos antes da hora do espectáculo, em vez da meia hora regulamentar. aí ajudaram.
se todos trabalhassem na montagem todos os dias, ganhávamos mais porque não se pagava aos carregadores. e eu e a minha colega podíamos chegar uma hora mais tarde, e eles só tinham de chegar meia hora mais cedo.
o espectáculo começou com 25 minutos de atraso. turmas barulhentas da Baixa da Banheira. ficaram histéricas quando um ex-morango apareceu à porta para a visita guiada.
como ao puxar o porta-paletes com parte do material, de manhã, íamos a rir de qualquer coisa para não chorar, o escritório recebeu uma queixa da direcção do monumento. porque fizemos demasiado barulho durante a missa.
como os actores só têm, além de representar, de trancar a porta de acesso à zona do camarim na torre, porque é interdita ao público, quando vêm fazer a peça, esqueceram-se. os turistas tiveram um passeio extra. e eu, antes de desmontar tudo, tive de ir falar com uma funcionária para saber que receberemos um parecer da direcção acerca do assunto.
a partir de amanhã, além de tudo, depois de começar o espectáculo, fui incumbida de subir à torre para me certificar de que trancam a porta.

terça-feira, 15 de novembro de 2005

polegada #3

|tentativa de pendurar um cartaz a quase 2m de altura|

duas mulheres. uma cabajona, outra franzinita. uma parede fina, sem ligação ao tecto, com algumas vigas. fio de nylon. escadote do séc. XVII. um cartaz. duas galinhas doutoras.

cabajona: eu subo ao escadote do lado de cá. sobes para cima dos cacifos por detrás da parede e esperas que eu te mande o fio de nylon, prendes às vigas.

franzina olha os cacifos, são mais altos que ela. um banco do séc. XVII oferece pouca sustentação. sobe ao banco e continua a não chegar com mais que os braços aos cacifos. não tem força para se elevar só com bíceps e tríceps e restantes íceps. em frente aos cacifos está outra parede do séc XVII. que se lixe o património. pata na parede e trata de escalar quase paralela ao chão até se conseguir içar para cima dos cacifos. espera. espera. espera.

cabajona: polegaaaaaar. não consigo subir ao escadote. tenho medo. vem tu para aqui e eu vou para aí.

franzina olha o banco lá em baixo. suspira. pata na parede. outra pata pendurada na direcção do banco. escorrega escorrega. pata na parede já está ao nível do nariz. a outra pata a sentir o banco ao fundo. bendito ballet, serviu de alguma coisa ao fim destes anos todos. desce.

cabajona vai lá para trás. polegar mira o escadote, daqueles de encostar à parede. o espaço entre a parede e a bilheteira oferece muito pouca possibilidade de inclinação. franzina tem vertigens. suspira. um pé atrás do outro e maldizer o patrão que não lhe fez seguro. pensando bem, nem lhe pagou ainda. sobe de cartaz na mão. só com um braço seguro no escadote, em bicos de pés para inclinar-se mais para a frente. as duas galinhas cacarejam lá am baixo mas não se oferecem para ajudar até serem intimadas.
seguram o cartaz cá de baixo, mas depressa se fartam. dor nos braços e a cabajona que não diz que está pronta.

cabajona: polegaaaaaar. não consigo subir ao cacifo.
franzina: (do alto do escadote, dor nos pés, dor nos braços) apoia os pés na parede da frente e iça-te.

franzina pensa que a cabajona poderia com pouco esforço sentar-se nos cacifos. mas pronto.

franzina passa fio no cartaz, atira o rolo do fio à cabajona. as galinhas (que entre si se tratam por doutora esta e doutora aquela, de mise feita e saltinho agulha), de rabo para o ar andam a apanhar o rolo (que invariavelmente cai no chão) para, depois de cortado, devolvê-lo à franzina. cacarejam acerca de estar torto. de estar alto e de estar baixo. com o braço dormente, franzina corta o mal pela raiz:

franzina: tá bom.

tem de mudar o escadote de sítio. desce e dá uma joelhada num parafuso do séc XVII saído. as galinhas atendem telefones do lado de dentro da recepção, indiferentes ao facto de a cabajona estar petrificada no alto dos cacifos e de a franzina estar a desviar cadeiras e a transportar o escadote sozinha, fazendo slalom no galinheiro. franzina volta a subir.
mais galinhas de rabo para o ar, mais nylon a voar. quando começa o cacarejo sobre o torto e o direito, franzina ataca:

franzina: tá bom.

franzina desce do escadote, leva-o sozinha para o arrumar, e vai atrás da parede ajudar a despetrificar a cabajona.

assim se pendura um cartaz.

segunda-feira, 14 de novembro de 2005

alvorada

vai passar a ser às 6:30 da manhã em 90% da minha vida laboral. vai ser não só a A8 e a Calçada de Carriche como também atravessar a 2ª circular e entrar em Belém.
vai ser montagem de espectáculos diária, quatro dias por semana. duas horas a carregar ferros, contrapesos, cadeiras, placas de madeira. juntar tudo num cenário. ir para a bilheteira e aturar as senhoras do monumento com a mania que são gralhas, as professoras nervosas, os adolescentes com a mania que são engraçados, tarados, destruidores de património e mais barulhentos que galinhas com gripe.
depois das matemáticas (se entretanto os actores não se tiverem deixado dormir), começa o espectáculo. rezar para que a colega já faça ideia de onde fica o botão do play. esperar para depois desmontar tudo e voltar a encaixar num cubículo com um metro de largo por metro e meio de fundo.
voltar para o escritório. de preferência de transportes públicos, já depois da hora de almoço.
comer uma sandes e ir para a frente do computador.
isto nos dias em que não houver espectáculo de tarde.
voltar a ir buscar o veículo ao fim do dia.

inspira, expira. inspira, expira...
tomorrow, tomorrow, I love ya tomorrow, you're only a day away...

mulheres

acordar cedo e entrar no carro com as irmâs. o sol a entrar pelos olhos, as vidas postas em dia, quase sem olhar a estrada porque era a caçula que conduzia.
a chuva fez o ritmo no tablier das palavras que escorriam de tema em tema. perdermo-nos e chegarmos, finalmente, a uma terra perdida nos montes de Leiria.
entrar na enorme loja e voltar em passos pequenos à infância. os tules, as organzas, sedas, e laçarotes. coisas muito foleiras, coisas muito bonitas. de repente ela já não era a figura que lhe conhecia. estava ali, longa, esguia, comprida, flutuando no branco da seda selvagem. entre gargalhadas, caretas, dúvidas e muitos arrepios de frio, os alfinetes entranhavam no tecido, dando forma ao desenho das palavras. palavras que saíam tremidas. do frio? aos poucos a confiança impôs-se, e meti-lhe os dedos no cabelo. também na minha cabeça desenhei linhas e contornos, que fui improvisando em concordância com o que havia à mão. já tenho a paleta de cores com que lhe vou salpicar o rosto bem definida, e o gancho de que gosta vai ficar como eu quero. de um punhado de ideias fiz-lhe o agasalho que faltava, e um adorno para o pescoço.
vais ficar bonita.
vais-me estragar a festa de passagem de ano. mas vais estragá-la em grande...

magusto

queríamos uma coisa típica. castanhas e água pé.
acabaram por ser castanhas de um bolo-rei (!), a água pé transformou-se em triestino, hot chocolate, chá de limão e um mocaccino ou algo com nomes italiano-americanizados do género.
estavam quentes e souberam bem. souberam a conversa comprida, mãos quentes e luz de velas. porque o chocolate é mais doce bebido a colheres de chá :)

sexta-feira, 11 de novembro de 2005

dois teclados #2

Regressaste numa manhã de nevoeiro. Parece pateta mas foi verdade, era inverno e era manhã e estava frio e chegaste leve e sorridente como te recordava, voltaste a ser a boneca apaixonada por quem todos os homens do mundo se deixavam aprisionar se te vissem sorrir. Quando o peso saiu dos teus ombros voltaste a pular sobre as nuvens e sorriste e voltaste a ser feliz. E lembrei-me daquele primeiro instante, um café roubado ao teu horário de trabalho, um cafézinho roubado ao fim de tarde num jardim da cidade, e aqueles primeiros sorrisos trocados, o teu rosto era mesmo mágico, soube logo ali.
|NC|
És tramado, tu. Nessa cara de menino sacana, de olhos inteligentes, a percorrerem-me por dentro como se não fosse boa educação perguntar antes de entrar. Aliás, fazes tudo sem perguntar, não é? Assim me raptaste pela primeira vez do bulício das contabilidades de fim de data de entrega de IRS. Não se faz. Mas tu fazes tão bem… “Estou cá fora. Desce que preciso de cafeína contigo”. Senti-me trapalhona, desengonçada, mal arranjada, um pouco irritada com o descaramento, e indefesa. Estupidamente indefesa. Mas defendi-me com a única arma que tenho e desci de sorriso em riste. Hoje tenho frio. E estou de arma na mão outra vez. Não sei o que esperar.
|P|
Agora voltaste voltaste segura, desta vez sabias ao que vinhas. O sorriso era o mesmo, imensamente acolhedor e bonito, mas desta vez não era uma máscara, era verdadeiro como o frio que entrava pela janela meio aberta. O fumo do cigarro embrulhava-se no ar sombrio do fim de tarde e enquanto contavas histórias engraçadas dos bastidores bebia o martini com gelo até ao fim. Eu ouvia, meio distraído como sempre, espreitava as pessoas e os pássaros e as cores e a noite que caía e ficava embriagado contigo.
|NC|
Miras-me assim, e parece que sim. Parece que tudo o que aconteceu antes não tem significado. Que agora sim, é o tempo e o espaço. Que houve apenas um desencontro dos fusos horários das almas, antes. E sabes que mais? Ou estou curada ou não quero saber do que nos fizemos. Porque agora, que podia dizer-te muita coisa, lembro-me apenas de que a tua pele sempre me soube bem, e de que a forma como ondulavas as mãos no meu corpo me faziam sentir mais mulher. E olho-te. Absorves as minhas parvoíces que preenchem os silêncios, interessado, entusiasmado com essa parte de mim. E as outras? Ao que vens? Porque eu estou aqui completa. Sei o que quero. E estou aqui. Mais não faço.
|P|
Acertamos os relógios e partilhamos tudo outra vez, desta vez verdadeiro. Lá fora há um candeeiro sozinho a iluminar a rua toda, é a única certeza que tenho neste momento e sei porque acabo de espreitar a janela, tu estás ainda escondida pelos lençóis, é cedo, demasiado cedo para o dia nascer, mas fico acordado a olhar para as curvas douradas da pele descoberta (é inverno mas a noite é quente), estou acordado e antes que volte a adormecer, com os braços a embrulhar-te inteira para mim, antes que volte a cerrar os olhos e a navegar na névoa dos sonhos, miro-te uma vez mais, beijo-te de mansinho (não acordes, bébé, não acordes) e sei que duas pessoas abraçadas é tudo o que existe, é quase palerma, é cor de rosa e é bonito e inocente como a madrugada que quer despertar, são cinco da manhã, até logo, até mais daqui a pouco, não te percas no sono, desperta-me com beijos.
|NC|
voltamos ao passado com a doçura do presente. envolve-me nesse calor e não me deixes ir. os relógios podem cantar. agora não me importo. nunca te esqueças. perdeste-me e ganhaste-me de novo. não jogues mais. absorve-me como se dá uma passa lenta num cigarro. não apagues. fecha a janela, o nevoeiro está a entrar e cobre-nos de geada. os dias são longos, mesmo no inverno. são assim porque os queremos. neste vício quente da nicotina quero acordar para me viciar um pouco mais no inconsciente do viver-te. bom dia.
|P|

texto partilhado por polegar e Nuno Catarino

serviço (do) público

soube aqui que se está a fazer um inquérito ao público sobre blogs e afins. vamos lá fazer serviço, senhores, toca a responder.

bom dia ou... tem de ser

expiro forte no ar frio, os passos contados pela calçada branca. o dia brilha-me no cabelo e o caminho prolonga-se até à chegada.
subo dois lanços de escadas e cumprimento a menina da recepção com um sorriso, ao que ela responde com outro, inclinando-se para a gaveta de onde tira uma chapa para a máquina do café. pago e sigo. passo as portas de onde já se entrevêem pessoas a circular entre computadores acesos, fundos de écrãs com criancinhas, dossiers e papeladas. quadros nas paredes e gráficos. vou ao chamado bar, onde está a máquina do café, ligo-a. abro a porta do meu escritório e cumprimento os actores nas paredes. ligo os computadores, pouso a mochila e dispo o casaco e o cachecol cor de rosa onde afundei o nariz no caminho.
volto à sala do bar e meto a chapinha na máquina. a bica é mais barata e apesar de a máquina ser muito antiga, o café sai espumoso, quente, forte.
volto com o copinho de plástico a fumegar, pouso-o no postal de um filme que serve de base, despejo o açúcar e acendo um cigarro. vamos ver os e-mails, juntar papelada para a advogada. enquanto o programa abre, ligo o rádio. tomem lá.

Generation sex respects the rights of girls
Who want to take their clothes off
As long as we can all watch that's o.k.
And generation sex elects the type of guys
You wouldn't leave your kids with
And shouts"off with their heads" if they get laid

Lovers watch their backs as hacks in macs
Take snaps through telephoto lenses
Chase Mercedes Benz' through the night
A mourning nation weeps and wails
But keeps the the sales of evil tabloids healthy
The poor protect the wealthy in this world

Generation sex injects the sperm of worms
Into the eggs of field-mice
So you can look real nice for the boys
And generation sex is me and you
And we should really all know better
It doesn't really matter what you say

generation sex | divine comedy | fin de siécle : 1998

quinta-feira, 10 de novembro de 2005

agruras da vida #2

a maré baixou e deixou expostas todas as fragilidades ao ar, a apodrecer.
basicamente, 6 meses de trabalho deitados fora. apesar de todos os conselhos, nós, as práticas (que ficaram por terras lusas), fomos acusadas de negativas pela garganeirice dos que achavam que do outro lado do Atlântico se resolveria por magia tudo o que devia ter ficado bem explícito ainda do lado de cá (e que não dependia de nós, as práticas). parceiros que deram a facada nas costas. burocracias intransponíveis. promessas de intermediários só se revelaram ainda mais ocas do que já pareciam quando já era ou vai ou racha. acharam que era de ir na mesma. duas semanas de trabalho intensivo aqui das práticas, e foram.
partir às cegas é giro, quando se é turista.

depois de tudo isto, voltarão, antes de tempo, com o rabo entre as pernas, de feitios intratáveis, e com a certeza das frases que já vamos ouvindo há uns tempos: "porque é que não fizeste/levaste/trouxeste/ligaste?" (a culpa é sempre de outros), "esta semana ainda não tenho como te pagar" (a minha preferida, ouvida em loop todas as semanas), "isto está complicado, se calhar vamos ter de repensar os ordenados" (ahahahah!).

a realização profissional já estava abaixo de zero, obrigada: trabalhar a recibos verdes por uns trocos ao mês (mês, pufff!) a fazer horários full time (e às vezes mais que isso), e inclusivé com funções múltiplas que valeriam contratar outra pessoa (ou seja, pagarem-me o dobro). a fazer produção (que não gosto) para espectáculos onde não entro, com as mesmas condições daqueles em que, ao menos, entrei. sem perspectivas de tábuas a pisar.

agora? agora é olhar em frente à espera do que a maré me trará. sair daqui ou não, esperar, continuar, não sei. só sei que tenho planos pendentes, dependentes, dos quais depende a minha saúde. mental e física. e que poderão ter de ser, mais uma vez, postos de parte.

...

alguém tem o contacto de uma bruxita?

bocas

desde miúda que vou ao dentista. no primeiro dia escondi-me atrás da cadeira a pedir por favor que não me arrancassem dentes. acabou por ser necessário, mas até que nem foi muito mau. o doutor, com nome arraçado de Caramelo, era bom.

arrancaram-me dentes de leite, dentes definitivos, acho que uns 10 dentes no total. porque, literalmente, I could'nt keep my teeth inside my mouth. tinha daqueles espaços entre os dois dentes da frente, que prontamente foram postos no sítio com um aparelho que tinha uma Tartaruga Ninja no céu da boca. aos 14 anos estava pronta. depois de todos estes arranjos, o doutor Caramelo foi para os States fazer um masters em implantologia, e só o via e aos seus mui calmantes olhos azuis de seis em seis meses, altura de limpezas simples. antes de partir fez-me um molde da obra acabada para mostrar aos seus alunos e colegas. e suspeito que para ter um pouco de mim sempre por perto.

ora bem, regressado dos States, veio megalómano. o consultório não lhe chegava. resolveu fazer uma mega empresa, com linha de montagem. basicamente, um médico para cada departamento dos dentes, consultórios state of the art, computadores com as marcações em rede ligados à recepção e registo informático com tudo, inclusive radiografias, um andar inteiro num super prédio da moda, estreia do seu "Instituto de Implantologia" com direito a foto na Caras. ficou mais caro. agora não via os seus olhos azuis. se queria limpeza, marcava para um higienista, se quisesse marcar com ele, teria de fazer um implante.
entretanto cresceram-me os sisos. e bem que resolveram, eles também, dar-me problemas. ia ter de arrancar um que estava a nascer torto. e já agora o outro que ficava por cima, para ficar simétrico. e já agora os outros dois, para completar a simetria, seriam extraídos posteriormente "porque é uma pena, essa dentição está perfeita". marca para o cirurgião.

a técnica deste senhor era sui géneris: logo a seguir a dar a anestesia, experimentava impacientemente com o bisturi na gengiva a ver se ainda sentia alguma coisa. ora como ele não esperava que fizesse efeito, eu sentia. então toma lá mais uma anestesia. ao fim de nove anestesias, a primeira começou a fazer efeito. já tinha um siso cá fora. quando a quinta fez efeito, já estava a levar pontos, depois de tido a mão do senhor na minha testa a prender-me contra a cadeira enquanto arrancava o dente de baixo à mão. além de tudo, era uma pessoa maravilhosa: apelidou-me de mariquinhas e mentirosa porque eu dizia doía.
a sétima anestesia estaria a fazer efeito enquanto, aos tropeções, de fala entaramelada (não só pela dormência, mas também pela trip que a overdose de analgésico provocou), contava ao doutor Caramelo (que encontrei no corredor, antes de pagar) como tinha sido a aventura, divertidíssima da vida porque via elefantes cor de rosa na sala de espera. o senhor ficou impressionado, segundo a minha mãe. eu não me lembro. o facto é que quando voltei para tirar os pontos o dito cirurgião já não trabalhava ali.

bem, posto isto, desisti do totoloto da linha de montagem e da revista Caras e fui para o médico da minha mãe, que tem nome arraçado de Carrasco. ainda não me inspira muita confiança, porque não gosta de usar máscara, e eu estava habituada aos topos de gama do Caramelo.
ora quando fui à primeira consulta, disse que os outros dois sisos que sobravam não precisavam de ser extraídos "que disparate, vai sofrer só para ficar simétrico! se incomodar, aí sim"
pois que da terceira vez que lá fui, chamou outra médica, andaram tempos infindáveis de volta de mim (eu a pensar que havia algo de grave, conte-me já, vou morrer, doutor?) e acabou por pedir autorização para fazer um molde da minha dentição "porque estamos a fazer apresentações sobre a estética e os seus dentes neste momento estão na moda. são um exemplo perfeito para fazer arranjos, placas"... errrrr. lá me engasguei toda com a massa para bem dos velhinhos desdentados.

desta última vez, quando me sentei para a limpeza, perguntou-me se vinha para extrair. extrair o quê, senhor? "os sisos, então..." e esfregava as mãozinhas... eu estranhei e perguntei porque é que queria extrair. ficou muito embaraçado, fez a dança do espelhinho, e, com muitas hesitações, acabou por dizer que "de facto, não é necessário..." mas ficou um "mas" no ar. o Carrasco também foi mordido pelo bicho-esteta e queria acabar de vez com a assimetria dos dois sisos que ainda me restam, que só se nota quando escancaro a boca deitada naquela cadeira.

e se fossem todos bugiar, não?

quarta-feira, 9 de novembro de 2005

agruras da vida

andei a correr passeio fora atrás de uma nota de 5 euros que o querido vento amigo queria levar para longe de mim. desesperada gritava-lhe, como se me pudesse ouvir, que não me deixasse.

agora desligo as máquinas e ponho a mochila às costas. vou ao dentista largar umas valentes centenas de euros, que ele não faz por menos, e ainda por cima tenta não passar recibo.

(suspiro)

ai...

terça-feira, 8 de novembro de 2005

girando em cima da mesa

"[...] A vida como uma moeda. Escolhes uma face ou uma face te há-de escolher. Avalia as possibilidades.
[...] O problema das montanhas é que só conseguimos ver o que está do outro lado quando lá chegamos. É fácil dizer hoje que não mudaríamos nada, ou que faríamos tudo diferente. É fácil porque não adianta".
A casa quieta, Rodigo Guedes de Carvalho

às vezes é complicado pensarmos em como só vemos a solução depois de já não haver problema. depois de já não se poder fazer nada. o meu maior problema. a minha maior luta. tentar fazer tudo para que as coisas não percam o controlo. não nos percam.

há muitos anos, a noite era de vigília silenciosa cansada ao teu quarto.
os fantasmas cirandavam e eu não queria que te perturbassem os sonhos de menina.
ficava de olhos abertos na escuridão até a escuridão me abraçar por desgaste. acredita, não aguentava mais do que o tempo que os olhos se mantinham alerta.
mas tinha a sensação de que nada te tocava. que te guardava.
hoje as portas do teu quarto ficam fechadas. não sei se para evitar os pesadelos ou se para os deixar só aí dentro.
se para ouvires melhor o espanta-espíritos da maçaneta, ou se para não ouvires nada. tremo.
e penso, enquanto te puxo o edredon para perto das orelhas, e miro essa cascata dourada na almofada, que voltaram os dias de vigília.
um peso aperta-me o peito. de novo.
desta vez não posso falhar.

[a porta] in o medo do escuro

segunda-feira, 7 de novembro de 2005

onde andas?

loira, tonta, de olhos grandes.
onde andam eles?
os olhos?
porque te dizes menos? porque te dizes longe?
sabes, maninha querida, que estás no casulo do meu coração?
e enquanto as estações passam, sinto-te quase borboleta...
quase a voar. não é para fora do meu coração. a esvoaçar, com as outras, dentro de mim.
minha pequenina, tonta, de olhos grandes e caracóis de sol.
põe pimenta nessa língua de pensares assim.
de não pensares também em tudo o que é nosso e bonito.
de que tu fazes parte.
esses pesos que carregas, usa-os como apenas raízes ao solo.
para poderes florescer.
com a água dos dias bons.
quero-te perto, maninha linda.
um beijo

sexta-feira, 4 de novembro de 2005

tricotando...

roubei este excerto descaradamente de uma conversa de msn q tive há uns minutos com a B...
foi alterado por forma a preservar o anonimato de quem tem de ser anonimizado...

B says:
Linda, fiz à hora de almoço a transferencia para ti (dos nossos mui recheados auferimentos do SAX)

Polegar says:
eheheheh boaaaaa

Polegar says:
vou comeeeeer!!!

Polegar says:
LOL

B  says:
e fiz tb para o (outro actor do espectáculo que é o tal totó insuportável), adivinha de quem é a conta?

Polegar says:
da pipipopótarecaxenica

B  says:
LOLOLOLOLOL

B  says:
(MUITO ALTO)

Polegar says:
matarruana, aquela

Polegar says:
como é q se chama?

Polegar says:
calhau? bulldozer?

B says:
DOUTORA xxx....

Polegar says:
ah, pronto, está bem...

Polegar says:
tinha ideia que ela tinha outro nome qq

B  says:
sim, acho que é calhau

Polegar says:
ora lá está

Polegar says:
sabia que era qq coisa geológica, mas não era xxx Rocha Sedimentar

B  says:
lol

B  says:
e ele mandou mesmo agora uma mensagem a pedir que não me esquecesse da transferencia "é poucochinho mas faz me falta!"

Polegar says:
ai coitadinha da sôdôna directora de marketing de uma empresa nacional que não dá a mesada ao menino...

bem... e isto seguia por ali adiante... gajas!

ou bem que sou assim...

... ou bem que não sou eu...
processem-me...
quero lá saber.

sou cor de rosa, às vezes, que fazer?
venha de lá a borrasca depois. agora? agora não consigo ser de outra maneira.

quinta-feira, 3 de novembro de 2005

olha!


My blog is worth $14,113.50.
How much is your blog worth?



quem quer comprar à polegarzinha, o blog na netzinha?

polegada #2

ontem, a caminho da cervejaria Trindade, passei obrigatoriamente pela sex shop ali do Cauteleiro.
olho sempre para a montra. confesso, acho graça ao imaginar senhoras a tentar reacender a paixão em casa, vestindo aquelas rendas com a banha a sair por entre os muitos buracos da fatiota. e a cara de surpresa de um qualquer alguém que acha que engatou uma miúda certinha para uma noite de simples engalfinhamento e de repente a menina angelical de artigos duvidosos a gritar "say my name, bitch". ou até o rapazola de livro na mão, com a namorada deitada na cama à espera, e ele "ora... 5 centímetros para nor-noroeste do ísquio, isso fica por... aqui!" "Ah! Oh sim!!...

bem, na vista de olhos pela dita montra, reparo num livro à venda. "Arte vs Sexo", do Miguel Ângelo. sim, o dos Delfins.

eu não sei quanto a vocês, mas... haverá coisa mais quebra-tesão do que o Miguel Ângelo?

elevador #2

entro. o condutor acaba o cigarro e sobe atrás de mim. sacudo a chuva do cabelo, pago e pico o bilhete.
fico mesmo à porta. perto, tão perto do condutor sisudo que quase sinto as pontas dos seus bigodes enormes, retorcidos, na minha bochecha.
observo calmamente o caminho, sempre o mesmo, em carris. mas cada momento diferente. a luz. gente, sempre gente, mas sempre pessoas diferentes.
um grupo daqueles de gente pequenina de olhos bem abertos e bibes coloridos desafia o passeio íngreme com as suas pernas curtinhas. aos pares, de mão dada.
olho em frente. quase a chegar. o senhor dos bigodes, o sisudo, levanta a cabeça, e de repente os seus bigodes saltitam e ele acena lá para cima.
espreito. outro grupo dessa gente pequenina de bibes às cores está de caras redondas encaixadas no gradeamento ao cimo da calçada. e agitam as mãozinhas a dizer adeus ao elevador.
estico o braço e sorrio-lhes com o sorriso parvo de "gente grande".
ouço um "adeeeeeuuus" de vozes fininhas de gente pequenina.
e ouço outro, de vozes grossas, constipadas, mulheres e homens. olho para a traseira do eléctrico. toda a gente está virada para as janelas, de braço no ar, a acenar de sorriso parvo na cara.

ora aí está uma coisa que não se vê todos os dias.

quarta-feira, 2 de novembro de 2005

abana ai

a cair de sono no trabalho.
na rádio canta-me agora o Jack Johnson. e diz ele: girl, I wanna lay you down...
é simpático...

pao por deeeeus

santa terrinha, 9 da manhã. tudo calmo. a luz entra preguiçosa por entre as portadas, o mundo parado debaixo do edredon azul, no borralho quente do corpo descansado, imerso nos sonhos sem sonhos de que a cabeça precisa, e que dure muitas horas para recuperar.

blém blém blém
tocam à sineta do portão (o meu pai gosta de coisas rústicas...) e um coro de vozes novinhas novinhas a estrear grita:
- pão por deeeeeeeus
silêncio. dentro do edredon o primeiro movimento. lento, atabalhoado, mas irritado. rezando para que este ano haja, de facto, alguém em casa, que vá à porta antes de os miúdos voltarem a to...
blém blém blém
- pão por deeeeeeeus
não, outra vez não. este feriado é maldito. é sim senhor. cabeça para debaixo da almofada, edredon até ao nariz.
trrrriiiiiim trrrrimmmm
- pão por deeeeeeeus
mudaram de estratégia. foram ao outro portão, que tem campainha normal. (sim, é rústico, o badalo, mas não se ouve na casa toda). oh não. sei perfeitamente o que vai acontecer. como ninguém aparece vão deixar o dedo na camp...
trrrrrrrrrriiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiimmmmmmmmmmmmm
raispartafilhadamãedosputosmaisoestaporquinventouestaporcariadeferiado
- pão por deeeeeeeus
o meu avô ajuda à feira e toca à campainha interna que usa para chamar a minha mãe (e restantes servos).

silêncio. desistiram. aaah. hmmm. mas, mas, mas... os meus olhos. não querem fechar! oh não! a insónia matinal não!
acender tv, pode ser que me embale.
missa ou clube das chaves.
dasse.
levanto-me e enrolo-me num casaco quente. estupor de quarto frio, o meu.
vou até à sala. daí a pouco, com a chávena de café na mão, vejo chegar os meus pais.
- tocaram uns miúdos. não me consegui levantar, desculpem.
- ah, deixa estar, já passaram por nós e já dissemos para volt...
trrrrriiiiiimmm
- pão por deeeeeeeus
já é mecânico. o meu pai sai, casaco em banda, perguntando alto
- quantos são?
vou à mesa de jantar.
ele grita para dentro.
- são sete
oh well...
conto seis saquinhos que já estão preparados. tiro outro do rolo, abro e recheio. três rebuçados às cores, dois chocolates em miniatura, uma pastilha.
o meu pai volta, o mesmo sorriso de leste a oeste que me deu no código genético. dou-lhe os saquinhos
- este ano vêm em alcateias, bolas! eheheheh

desde que vim morar para aqui é assim. a palavra espalha-se. de geração em geração. aqui há saquinhos às cores. aquelas cores que fazem mal aos dentes mas sarapintam os rostos de alegrias gulosas. e o senhor grande das barbas abre o portão a rir, com as mesmas sarapintas nos olhos que eles, e deixa fazer uma festa na cadela grande e gorda.

sem religião.

dantes, quando os tempos eram outros, fazíamos noitadas a preparar os "treats" rodeados de caixotes de chocolates e gomas. até separávamos umas moedas em montinhos.

agora o senhor das barbas coxeia um bocado, e os saquinhos são mais pequenos.
mas há sempre doces e um sorriso.

segunda-feira, 31 de outubro de 2005

thumbwork 1.0.1.

eu não me tinha esquecido...
cá vai, sem nenhuma ordem específica, a primeira dose de fotos pedidas...


um arrepio. é que arrepiei-me mesmo, hã?


as minhas chaves. estas são de casa. é que eu sou tipo guarda prisional. chaves do carro, de casa, do escritório, da casa da minha avó... etc etc...


um ensaio. do Sax, neste caso.


um espelho. do meu quarto.


a fachada da minha casa. desenhada por mim, há uns anos. a pastel.


a minha íris. esta teve de ser repescada dos arquivos.


o meu canto preferido do jardim. uma casinha que o meu pai construiu, primeiro para brincarmos às bonecas, depois para onde foram livros, candeeiros, almofadas e as minhas "pinturas". continua a luta campal lá em casa porque a minha mãe acha que aquilo é um óptimo armazém de coisas inúteis.


luz. a minha preferida. de velas.


um objecto. este é companheiro das mais puras e deliciosas batalhas da minha vida. ressalvo, no entanto, que sou (como diria o espanta-espíritos/estonteamento), uma materialista sentimental.


um olho da minha cadela. é complicado encontrá-lo, mas pronto, foi o que se conseguiu... terminei esta foto encharcada porque tive de me deitar no chão molhado. ela não levanta a cabeça nem implorando.


uma pessoa de quem gosto muito.


o meu polegar sem anel... na foto não se nota, mas asseguro que o anel já está tatuado no meu dedo... serve também como foto da minha tatuagem, visto que não tenho nenhuma além das naturais eheheh. há-de haver, mas por enquanto está só no papel.


o exercício em que acabei por compilar o preto, o branco, e a luz. dentro dos possíveis... aguardo a lição acerca do que fiz. devo ter feito asneira mas não foi por falta de esforço e dedicação. o mais difícil foi o branco.


a minha cadela a saltar acima de 30 cm, só em sonhos. por isso, mostro-a a dormir.


a Teresinha, ou Tessa, ou new-me ou o meu alter-ego no meu café preferido ao pé de casa. estas deram imenso gozo a tirar... é um café de quasi-aldeia, onde toda a gente me mirava com mais estranheza ainda do que o normal.


vodka. este pedido nunca percebi, mas cá está. podia ser a cadela do vizinho, que tem esse nome, mas é má como as cobras...


um pirilampo à noite. :P

e prontos. retomarei o thumbwork assim que possível, com as que faltam. e se quiserem acrescentar mais pedidos, estejam à vontade.

quinta-feira, 27 de outubro de 2005

levo-me daqui

fecho os olhos.
o tamborilar forte da água nas janelas, feito duche quente na pele fria, arrepiada.
desliza depois no vidro com a suavidade do suor num corpo.
um corpo... enroscado nu debaixo do edredon. os pés quentes, roçam um no outro, tique de preguiça.
uma música ao fundo... jazz, talvez.
letras, muitas. turbilhões de palavras. das páginas abertas de um livro o caminho para o lado encantado do edredon. percorrido com sossego. com o mesmo desprendimento guloso com que se estende o braço lânguidamente para abraçar com os dedos pequenos a caneca cor de laranja, fumegante, de chá aromático com uma casquinha de limão a flutuar. doce. quente.

...

nestes dias de completa ressaca de trabalho intenso, em que a cada toque do telefone se espera uma nova cascata de nervos, num escritório vazio e inactivo empalidecido pelas luzes de cozinha forçosamente acesas, com o rádio acidentalmente sintonizado numa lamechice da Marginal, não existe nada melhor do que a santa negação...

quarta-feira, 26 de outubro de 2005

viciada

roer as unhas. mas quando tenho as unhas apresentáveis, pinto-as quase todos os dias de cores diferentes, do vermelho escuro ao azul, passando pelo rosa discreto. doentio.
franzir a testa. preocupação, interrogação, mimo. tudo é uma desculpa para vir a ficar encarquilhada aos 35.
música. ter rádio ou um cd sempre a tocar. cantar por tudo e por nada no meio de tudo e de nada. a minha vida (e dos desgraçados à minha volta) é um estupor de um musical.
fumar.
cigarreiras. tenho uma que é o meu orgulho: tem uma pin-up. com cinzeiro de bolso a combinar. finíssimo...
andar pelos blogs.
os cheiros e sabores.
lugares, pontos, momentos, toques em que me sinto em casa.
as cores. mesmo que me apeteça vestir de preto, trago-as nas meias, na roupa interior, a mochila.
brincar com os dedos numa madeixa de cabelo.
pele.
doces.
dançar. mesmo que seja no meio da cozinha, sem música.
fotografar. com máquina ou com palavras. e ficar danada porque não consigo mostrar o que vi.
café. a bica da manhã, de preferência no café aqui do lado. café de saco ao pequeno-almoço (outro vício, mas que raramente cumpro) e à noite, com livros, tv, net, ou só pés quentes.
recordações. o meu moleskine está gordo e deformado.
o telemóvel.
sapatilhas de pontas.
abraços e beijos.
vento na cara.
ler. tantas vezes me interroguei como é que ainda não pisei um dos muitos "presentes" que florescem no passeio do Rato ao Príncipe Real, porque vou sempre com o nariz enfiado nas letras. a minha coluna queixa-se do peso extra.
comer pipocas no cinema. já sei, não é hype.
chorar no ballet.
chorar no teatro. se não antes, no arrepio dos aplausos finais, especialmente quando estou na plateia.
atrasar-me.
aninhar-me.
as pessoas.
corrigir erros ortográficos e orais. a minha nova dor de cabeça é o corrector automático do Mac, que transforma as palavras como quer, especiamente os à em á...
dizer o que me vem à cabeça.
censurar-me. especialmente ao espelho.

fazer teatro. alguém tem uma pizza para eu entregar em cena? estou de ressaca grave e não há metadona para o pó do palco.

terça-feira, 25 de outubro de 2005

polegada #1

tlec tlec tlec

um guião para entregar. não tenho dedos, não tenho músculos, não tenho horas de descanso. até às tantas da manhã, agarrada aos papelinhos manuscritos, ao teclado, ao rato. no trabalho, em casa.

tlec tlec tlec

boas vibrações chegam com a voz de David Fonseca. Come into my heart é bom para o sorriso cardio-vascular.

quero o novo álbum para os meus anos, faz favor...

segunda-feira, 24 de outubro de 2005

produtora à beira de um ataque de nervos

domingo

9:00 - acordar. vestir. pequeno almoço de torradas. cigarro antes de levantar o rabo da cadeira, com um "humpf, tem de ser".
9:45 - a caminho do escritório
10:00 - chegar ao escritório. ligar para todos os meninos mimados, para ter a certeza de que estão acordados. fazer sorrir:"serviço-não-perca-o-seu-avião, bom dia!" pensar: e eu que não tive quem me acordasse...
10:20 - a MP está atrasada, vou embrulhando o resto das coisas que faltam e tentar encafuar tudo nas malas que sobram.
10:25 - responder pacientemente ao 35º telefonema do patrão, e dizer que não, não estamos atrasados. ele continua em total histeria-coelho-da-alice-ótica, mas não agressiva. rir com ele e desligar.
10:35 - chega a MP. carregar os tubos de ferro de 20 kg, as 3 malas e os restantes itens escada abaixo. não cabe tudo no meu carro. o pai dela vai ter de nos seguir com o resto.
10:38 - última subida-descida, trancar escritório.
10:47 - ok, agora estamos atrasados. tenho de estar no aeroporto às 11:00... arranco.
11:00 - aeroporto, de telemóvel em riste e ar esgazeado-quasi-taxista, a pedir a alguém que venha com carrinhos para descarregar o carro.
11:15 - a descarregar o carro, chega o patrão, que afinal era o único atrasado. confirmar a suspeita de que quando diz "nós", quer dizer "eu". este exemplar de gente eléctrico-histérico-bem-disposta já perdeu um avião depois do check in... ir arrumar o carro.
11:25 - encontrá-los ás voltas à procura do chek-in. cumprimentos, abraços, brincadeiras, enquanto se espera que a fila diminua e sejam atendidos.
11:40 - evitar largar uma gargalhada quando a MP (nunca viajou de avião e a estreia dela é uma viagem intercontinental de 12 horas) diz que os comprimidos que lhe deram estão fora da validade.
11:42 - ir comprar uma garrafa de água à MP.
11:45 - reprimir gargalhada pelo ar solene da MP ao ingerir um Valdispert com a mesma gravidade de quem mete 2 xanaxs no bucho. explicar-lhe que aquilo não dá pedrada, pode tomar já os 6 de uma vez.
11:53 - rir a bom rir com o patrão que diz que se não tem um bom lugar tem um ataque de pânico no avião. informá-lo que os comprimidos estão fora da validade só para lhe ver os olhos a aumentar de tamanho e a carapinha a electrificar.
11:55 - rir a bom rir com o patrão a contar que da última vez tiveram de lhe bater em pleno voo porque andava aos berros a pedir "parem o avião! eu quero descer!"
11:58 - colar com fita-cola alguns elementos soltos num só volume para não pagar excesso de carga.
12:05 - abraço ternurento do patrão, com um surpreendente "obrigado por tudo".
12:10 - gritar alto: "vão-se embora, saiam da minha vida, acabaram-se os vistoa! vou fazer uma rave! agora vão e façam má figura que eu mando-vos prender com uma denúncia anónima! muita merda!" ouvir os risos de todos.
12:15 - sair com suspiro de alívio. "acabou"
12:35 - quase à porta de casa, 30 km percorridos. receber telefonema do patrão a dizer que a pessoa que levava armas de paintball (para a peça) na bagagem tinha sido chamado. foda-se. dar a volta à rotunda e ficar à espera de novidades.
12:45 - novo telefonema a dizer "vem a correr que eles dizem que a bagagem fica em Lisboa e destroem-na se não estiver ninguém para a vir buscar" explicar que tenho de fazer novamente os 30 km, eles que aguentem um bocado. dizer-lhe para não se armar em herói e embarcar com o resto do grupo.
13:07 - Calçada de Carriche, entrada de Lisboa (25 km percorridos). telefonema a dizer que conseguiram esclarecer a situação e que vão embarcar todos, com a bagagem.
13:15 - acabar o cigarro, parada na berma da Calçada de Carriche, de olhar perdido no mundo, a suar em bica, descarga de adrenalina.
13:16 - dar a volta, apanhar a auto-estrada a abrir, porque a carne assada da mãe fica pronta dentro de 20 minutos.

sábado, 22 de outubro de 2005

B

dela, à primeira impressão, temos um sorriso enorme do tamanho do mundo.
mulher de armas, determinada, trabalhadora. voz alta e límpida. quando nos direcciona O olhar, saiam de baixo que vem lá água.
não se deixa ficar, parece imparável, parece inquebrável.
no entanto, deixa-nos entrar de surpresa no olhar doce, de lágrima fácil, no toque meigo das festinhas que dá sem olhar a quem.

de ti trago as doçuras dos nossos primeiros passos, o parvo do NMH (que agora sozinho é um grupo). "às vezes a mentira da noite..." o nosso Pó de Palco, o enorme lençol no palco da Barraca, uns puffs onde aterramos para matar saudades, os risos entrecortados de conversas largas, as letras dos espessos guiões que nos passaram pelas mãos, juntas. "Sã' João é bem aventuraaaadoooo". de ti trago as madrugadas no teatro, os encontros naquele portão que tantas vezes nos abriste, as subidas ao escritório e os mailings intermináveis, os cortes de papel, entre cigarros, a bilheteira e a festa de máscaras no guarda-roupa. a peruca da Marylin, os sapatos sem alma, a cena sem roupa e a minha primeira digressão. "kiss, kiss me; say you miss, mis me..." o sumo de maçã (de que não gostas), as nossas trocas de olhares nos freezes, os abraços desesperados e os encantados. "in my place, in my place..." as batalhas travadas a quatro mãos, e as outras travadas a tantas, de telefone em riste, sobe e desce para ir á net. o (teu) verde, a Mãe Deo. o riso fácil, alto e pleno. a "sirene" da ama, e as outras "gajas" todas que andam por aí contigo. o facto de me obrigares a cantar. "libelinha, ajeita as asas..." e o facto de não teres piedade de uma asmática. "faz sol, está a chover..." o teu colchão, também o trago às costas e no jipinho, e o resto da casa. o calcorrear Lisboa de carrinha, à procura de óculos, dos sofás ás cores e da cama maldita. as noitadas e o cheiro do incenso que cheira ao Jota. a alma lavada numa semana de curso intenso. as horas infindáveis de trincha, parafusos, martelo, linha e agulha. a bebedeira de vinho tinto a roubar salgados, sentadas no chão, na estreia do "Vou-te...", a ouvir gargalhadas e aplausos do lado de lá da porta e a chorar de saudades. as percussões e a poesia.
e trago uma frase que nunca vou esquecer, e que dedico agora a ti: "faças o que fizeres, gosto muito de ti".

trago no peito uma amizade forte e preciosa.
obrigada, amiga, e parabéns.

ah, e desculpa o atraso, mas queria fazer isto como deve ser...

sexta-feira, 21 de outubro de 2005

outono

a passadas largas, recebeu o ar frio do fim de dia, húmido e cinzento.

a calçada brilhava pelos candeeiros, criando faixas de sombra através dos jacarandás nus. o silvo dos carros no asfalto molhado.
contrariou os passos depois de uma hesitação, e desceu. passou o jardim do miradouro com as folhas vermelhas a quebrar nos seus pés. passou o elevador sem parar, calcorreando o passeio estreito até chegar ao largo onde o rapaz vende eternamente as cautelas, na sua pose de mimo. continuou, passo rápido, encontrando o largo onde estivera de manhã. o do poeta. virou à esquerda. o velhote pedia sentado nas escadas da igreja. gente nova velha, ia e vinha de onde para onde.

estacou e abriu um sorriso de leste a oeste.
"é uma dúzia, por favor".

na neblina espessa cheirosa apetitosa, aqueceu as mãos frias no pacotinho irregular de feito de finas páginas amarelas com moradas de gente anónima conhecida vivida onde qual o número. fixou os olhos nas brasas do assador e esperou sem pressa as moedas do troco reluzirem. afastou-se ainda sorrindo de leste a oeste, afastou as folhas amarelas com nomes e meteu a mão sem olhar no pacotinho. agarrou com a mão toda uma castanha quente e deixou a casca estalar-lhe entre os dedos. retirou a castanha despida e levou-a, com os dedos cheios de fuligem salgada, aos lábios. trincou. na língua consumou-se o amor que faz o ar frio com o vento chuvado, os sacos a voar, as folhas encarnadas, o homem da chuva, o cinzento prateado, o aconchego do casaquinho de lã.

desceu, cumprimentando com o olhar o escritor-estátua que ainda escreve na mesa do café.
passada lenta gulosa, ao som dos estalidos das cascas e do restolhar das folhas com nomes, recebendo na cara o ar salpicado de água fria.

na boca, o sabor quente do Outono.

quinta-feira, 20 de outubro de 2005

aleatoriamente

...passou-se a manhã sem telemóvel. esteve-se no trânsito hora e meia só para entrar em Lisboa, à beira de lágrimas de frustração. perdeu-se 2€ na cabine. foi-se para o Consulado do Brasil enjoar com o cheiro abafado de filas intermináveis em dia de chuva, regressou-se pela calçada escorregadia e enfiou-se o nariz e a paciência em formulários e fotos de tamanhos duvidosos, almoçou-se na secretária, de uma embalagem metalizada, e continuou-se em desespero à espera do telefonema que leva daqui os actores e os cenários de uma vez por todas, levando os problemas de 6 meses para dar lugar aos novos.
quando as coisas acalmaram, na hora H, chegou o senhor realizador famoso com um novo guião e descrições de personagens em molhos de folhas A4 escrevinhadas, que residem agora nos meus dedos e dores lombares para terem bom aspecto rapidamente.

... agora, enquanto espero a hora de sair e continuar a busca do senhor das castanhas que me há-de trazer à boca e ao nariz a certeza do outono, vou espraiando à velocidade cruzeiro as palavras dos outros, os papéis dos outros, tentando não pensar em mais nada do que as palavras que não são minhas, embalada por Groove Armada e Massive Attack. daqui a pouco cantar-me-á Ella Fitzgerald ou Toranja. não sei, desliguei o rádio e escolhi o "tocar aleatoriamente"...

dao-se alvissaras...

... a quem encontrar o senhor das castanhas...

para abertura de temporada.

procura-se coluna de fumo perfumada, carro pitoresco com assador e chaminé, de venda sazonal de castanha assada embrulhada em papel de jornal ou folha das páginas amarelas. daqueles embrulhos que aquecem as mãos e cheiram a outono. o vendedor tem normalmente as mãos escuras e àsperas da fuligem e das cascas das castanhas, húmidas da chuva, onde contrastam as moedas, que rebrilham das brasas no assador e do céu de fim de dia ou de algum candeeiro de rua.

visto pela última vez ao pé do elevador da Glória, nos Restauradores. agora está só o carrinho estacionado. estava morno ontem às 20:00h.

à zona da Baixa, Príncipe Real, Chiado ou imediações.
disponibilidade total a partir das 19:00h.

valor pessoal inestimável. sabor de cada Outono de quase 26 anos.

terça-feira, 18 de outubro de 2005

imagens

saiu para a rua húmida e escura, sem pressa de sentir o ar frio.
no arrepio, um vento aromatizado abriu-lhe o sorriso.
entre carros e eléctricos, sombras, caras fechadas e sacos de plástico, um voa.

descendo

tomo a auto-estrada, saída do laranja quente.
sigo no azul escuro, molhado, prateado pela - ironia - lua cheia.
chego ao branco pálido de uma vila adormecida, encontro a igreja.
de novo o cheiro enjoativo das flores. coroas, cruzes, dedicatórias de nomes que conheço de infância.
de novo aquelas pessoas. os fatos e as gravatas, os saltos agulha.
um mundo que já não visitava há muito tempo.
a minha mãe está triste, o meu pai desorientado. está bonito, com a camisa preta e o blazer cinzento.
miro os rostos da minha adolescência, encontrando-os nas paredes de madeira elegante, iluminados pelos écrãs dos computadores. estão na mesma, há tanto tempo. uns mais velhos, um pouco. cabelos mais curtos ou mais compridos. o mesmo casaco dela. a mesma camisa aos quadrados, ruça dele, a gola alta da outra.
o estranho furor da menina pequenina, que lhes chegava às ancas. "estás bonita" "estás mulher" "lamento muito".
uma filha fala comigo e encontro nela traços delicados, a força e doçura interiores que admiro. o nariz é do pai.
o pai dela está ali, deitado.
não volto a ouvir a voz grave, poderosa. nem reverei aqueles olhos azul-água fortes e penetrantes. o fumo incessante do tabaco vorazmente absorvido nos dedos grossos.
recordo-o pelas pessoas, cá fora. uns amigos de fato que davam as pancadas nos ombros. os outros, os do escritório, que lhe tinham um respeito roçando o receio. suavam em bica quando tinham de lhe falar, cabeça baixa, olhar meio submisso.

morreu mais um da geração carreira. que desistiu quando a carreira acabou.
desta geração herdámos a vontade dos nossos pais de tirar o curso, remédio para todos os males deles, apenas mais um papel nos nossos recibos verdes.
não me encontro nesta vontade. vejo como a falta de sonhos nos pode tirar a outra vontade, de viver, quando a nossa função por nós (?) escolhida neste mundo termina.

diferenças, mágoas à parte, agora não vale a pena, não é?
descansa em paz, padrinho.

sexta-feira, 14 de outubro de 2005

espelho

não me encontro. ruído de estática. desfocada por outros olhares que nunca me viram. tento reconhecer-me naquilo que me reflectem. outra vez o preto e branco. outra vez o lado A, lado B.

a matilha ladra furiosa ao longe. a âmbulância passa aguda no estertor do asfalto. estou parada, à espera. passam e não me vêem. mas ladram e apita.

silêncio. silencio.

tento timidamente redescobrir-me. toco-me e sinto as curvas, profundidades e superficialidades, endérmico, epidérmico, pensar, agir, sentir.

há um ponto no peito que me faz chorar. é como um botão. há uma pinta no peito que me faz sorrir. é bonita.

nas horas vagas da noite alheio-me do outro lado. onde não me sentem e mesmo assim pensam de mim. penso de mim assim, duvido. redefinições, remix, adaptações, em loop, inspirado na obra de.

não me encontro em lado nenhum. posso ser só o que dizem as pontas dos meus dedos?

estou algures no meio.

quinta-feira, 13 de outubro de 2005

breathe

o trabalho não me deixa respirar.
há dois dias que não almoço, saio tardíssimo (ainda cá estou).
quando corre mal, é-se incompetente. quando corre bem, é-se transparente.
mais ansiosa estou de ver esta gente pelas costas, do que sinto o sabor da vitória suada, cujos louros nunca cairã na minha cabeça.
vidas cansadas, das quais pouco ou nada vejo concretizado.

nem tempo tenho para deixar aqui as imagens de lisboa que trago guardadas para contar.
espero melhores ventos, e que venham depressa.

hoje, promessa de outro jantar tardio. e de adormecer em frente à televisão.

quarta-feira, 12 de outubro de 2005

birthday # 1

ontem fez um ano que inseri aqui as primeiras baboseiras.
continuo sem saber bem porque o faço, sem estilo fixo ou forma. não sei de onde vim ou para onde vou.
recordo-me desreconheço-me, sorrio-me.
o vício está cá...

obrigada a quem anda por aí.

é bom falar convosco.

segunda-feira, 10 de outubro de 2005

stolen


[ms]

num dia de chuva, triste e mal disposto, entre claustros vazios apenas o chiar das rodas.
dores e pesos em mãos demasiado fracas para enfrentar o carrego. as costas gritam e os pés latejam. espera. ainda falta.

horas depois, fecha-se a porta e o cinza do céu espera do outro lado das pedras.
o corpo cede, treme, pede açúcar. moedas contadas, não vai dar para almoçar.

regresso, não quero. não mais telefones. não mais écrãs brancos à espera de palavras. as palavras não estão aqui. trago-as comigo. mas não as posso deixar aqui. são levadas no vento, que só ele as ouve e pode ouvir.

hoje não me sinto. talvez, se a chuva vier, eu sinta finalmente no seu bater o contorno do meu corpo.

penso na infância. nos dias de chuva, em que as gotas me pingavam do cabelo comprido, me manchavam a roupa e arrepiavam. e com um sorriso abria a boca e bebia da chuva a pureza encantada dos acreditares.
que a chuva deixava o cabelo mais brilhante. que a pele molhada me fazia bonita.
o chegar a casa e a toalha turca. o vapor na banheira, bolhas e um livro. sim, desde menina, o vapor na banheira, bolhas e um livro. a água quente a arrepiar-me de novo, no choque da pele arrefecida com o choro do céu. o cheiro a perfumes de rosas da Avon, que a avó comprava para mim.

depois cortei o cabelo. a avó não trouxe mais perfumes de rosas para o banho e apanhar chuva eram ataques de asma.

tenho uma gabardine vermelha e o cabelo voltou a crescer. estou à espera da próxima chuvada.

lavandaria

as paredes velhas da casa antiga caíram. sem pré-aviso.

de lá, uma ventania repentina. e o sal revolveu o pó parado.

no meio do cheiro a roupa engomada.

sexta-feira, 7 de outubro de 2005

avo actor

ali sentado, olhos brilhantes, molhados, miras o espaço de mãos no colo.
ainda és grande.
de vez em quando, a mão direita mexe-se, um pequeno tique de vida.
a tua voz, avô, é feita da profundidade da tua alma. grande, poderosa.
e ali, aos poucos, vais-te esquecendo que és ainda um menino de coração aos saltos - estranho, não é? pensava-te vivido, habituado - e viras menino deliciado, vibrante, empolgado. amas, ainda. ainda de paixão.
como consegues, avô?
como segues ainda ansioso como no primeiro dia. virtuoso como no primeiro dia, assim que te esqueces que as palavras às vezes nos enrolam, e as vives e vestes sem pudor. e abres os braços e evocas os fantasmas que vivem em ti - são tantos, avô, ainda os contas? - e de repente, no choro, colocas o nariz de palhaço e sorris.
como ainda sorris assim, avô? como na primeira vez que te vi, tão depois da tua primeira vez? aquela primeira vez que me fez querer ser como tu, ainda sem saber o que queria ser. vi-te tão grande, tão longe. tão doce e vivo, tão tangível. tudo de uma vez. assim.
cheio de luz, muito branca, muito plena, aura azul dos céus de verão, que nunca escurece, nunca enfraquece. apesar de tanta vida ter usado já esse corpo, de te teres entregue a tantas almas.
e assim agradeces, avô, depois de tudo passar. depois de viveres de novo fora de ti.
e mimas quem te vê, avô, com essa candura de menino, sem pressas, saboreando mais uma vez aquela trovoada mansa, emocionada. fazes-me chorar, avô.
e depois... depois de tudo... de flores na mão e livro na outra decoraste o meu nome, sem saberes que o meu coração deu um pulo quando te beijei. que a minha mão fez a festa mansa que queria tanto nesse teu cabelo branquinho e a minha pele reagiu de amor - esse amor que trazes e emanas, envolves - à tua barba de neve. áspera como as tuas mãos, de tanto pó que tens na pele. aquele pó dos espíritos, que eu também gosto de cheirar. não to contei, avô, tive vergonha. preferi ver-te apenas ali, a contar como te apetecia uma sandes, a tratar-nos por filhos, como se me sentasse na tua casa que não conheço, no calor do teu colo que apenas adivinho, a ouvir a tua voz grande e calma a contar-me as histórias que gostava de viver contigo. avô de olhos molhados, de vida de menino, de generosidade de homem que dá, apenas. e pede apenas aquele chão. homem - idoso ou velho? (sorrio) - que sabe tudo e não sabe nada. que vive tanto de tanto amor que espalha aos desconhecidos, que espalha em vendavais de voz grande, de braços abertos. avô de calças de ganga e colete, que há pouco vestia uma gola e vestes altivas, de rei, de alma, de grande senhor.
avô, queres ser meu avô?

um beijinho a ti, Ruy de Carvalho.
em cena no Teatro da Luz, "Palhaço de mim mesmo".

quinta-feira, 6 de outubro de 2005

I'm doing for music



perco-me entre letras e tons, que contam as histórias como se fossem minhas.
os meus momentos. os meus sons. os meus choros e risos.
em notas sopradas ao ouvido ou gritadas na estrada.
abandonadas para que sejam encontradas. lhes sejam dados os meus sentidos.

danço, perdida, ondulada, guiada no palco escuro. descalça, despida de razão. elevo-me sem céu ou terra, base apenas para o voo, chão onde apenas cai a minha água salgada, quente. e envolvo o ar comigo, envolvo-me no ar e pouco mais que as luzes dentro dos olhos fechados encandeia o meu planar. bailarina de pescoço alto, cabelos soltos e coup-de-pied ou menina na praceta feliz, saltitante, brilhante, sem medos. ou apenas o balanço que embala um corpo largado.

e no ar gravo o meu suor sem pesares. a voz no escuro, no oculto e anónimo, canta. saboreia palavras e vidas sem caras.
e até é bonita, segredada, trinada, aveludada, íntima, sozinha. porque pura e sem pudores, porque simplesmente na simplicidade de cantar. porque escondida.

gostava, às vezes, de ter nome de música.
mas o meu é só um nome. demasiado invulgar para ser poema ou canção. será único apenas na boca de alguém. como um beijo a duas salivas. não me dedicarão uma música.
mas na minha boca, o seu sabor especial vibra-me no corpo. como um arrepio. a um botão de distância.

terça-feira, 4 de outubro de 2005

especiarias

travo forte que se entranha nos sentidos.
aroma, voando entre cortinas indiscretas, contornando buzinas e sirenes.
entranha-se na língua, que, atrevida, quer mais.

o calor da canela salpica o doce com pintas de sensualidade.

segunda-feira, 3 de outubro de 2005

fast car

... is it fast enough so we can fly away?

hoje ao almoço cantou-me Tracy Chapman.
e cantou-me a alma do dia.

... leave tonight or live and die this way.

sexta-feira, 30 de setembro de 2005

se nao souberem de mim...


[ms]

... estou por aí, no meio dos fantasmas, a varrer as madeiras de amor e desejo.
a saltar por entre as bolinhas de luzes e pinturas.
a lamber as últimas gotas de alegria, a inspirar o pó que me alimenta.
a roçar-me nos lençóis de fingir, movida a elásticos invisíveis.
a beber das caras e risos e choros e palmas quentes.
a troçar nas luzes fortes que ainda me aquecem.
a suar no ar que me sustém.
a bater as palmas para as fadas não fugirem já.

se não souberem de mim, estou no palco, a desejar-me-nos-vos.

se não souberem de mim, estou no palco, a despir-me.

se não souberem de mim, estou no palco, a despedir-me...

colisao

ontem à noite fui perseguida por um pseudo-motard num aspirador com pretensão a mota. quando me apercebi, enquanto procurava estacionamento, que ele estava á minha espera, fui-me embora. dei uma volta ao quarteirão e dou com o dito tipo às voltas á minha procura. quando encostei, veio parar ao meu lado. voltei a arrancar, com a nítida noção que o meu tamanho não me permitia um conflito corpo-a-corpo e provavelmente se não saísse dali, teria vontade de lhe passar com o carro por cima. voltei a dar outra volta mais rebuscada e vejo-o a passar outra vez à minha procura. parei o carro, trancada lá dentro. quando começou a falar, percebi que estava bêbado. menos mal, era fácil empurrá-lo. saí. como também havia comigo um objecto pesado (à semelhança do capacete que ele mantinha em posição de arremesso) pronto a ser atirado à cabeça dele, resolveu-se tudo com três dedos de conversa, paciência para o ouvir repetitivo a contar que tinha uma mota melhor que aquela. avisei-o que perseguir pessoas não era bonito e se tinha arriscado a levar com o carro em cima.

hoje de manhã, estou na faixa certa para entrar no parque de estacionamento, e um tipo que quer mudar de faixa, atrás de mim, e apita-me como se eu tivesse feito alguma coisa. meto as mãos de fora a explicar que cada faixa tem uma direcção e que eu não tenho culpa de ele ser parvo. agora traduzo assim, na altura o léxico era do mais fino suburbano provençal...
o senhor também entrou no parque mas não me veio confrontar.

o meu parco metro e meio e uns trocos não me permite estrebuchar muito alto, mas na altura não me lembro. se tenho razão passo-me e depois começo a conjecturar as melhores formas me defender sem me aleijar.

parece o filme. sim. anda tudo com a mostarda no nariz. especialmente dentro da caixinha de metal.
como se a única forma de contacto que as pessoas institivamente conhecessem fosse o conflito.

amem-se, porra.

quinta-feira, 29 de setembro de 2005

contas feitas

esta é a minha última semana de palco.

sabe-me a sal, apesar do bolo antes do espectáculo.
apesar dos risos cúmplices que provoco.
apesar do calor das caras e mãos contra mãos, tão maior que o dos projectores.

Sábado bebo uma cerveja... ou duas... a ver se passa...

quarta-feira, 28 de setembro de 2005

ondular


[ms]

com os olhos, com as mãos, com o vento do respirar.
sensorial, sou. porque indelével na memória dos dedos ficam as curvas, os entretantos, a carícia do descer e do subir.
no suor e na suavidade, na ternura e na loucura, pele.
e deslizando entre pontos, pintas e colinas, parte-se do norte ao sul ou ao invés da bússola, do querer e da vontade.
e brisas mornas de desejo dançam novas curvas inventadas, como a dos lábios pedindo um beijo ou de umas pestanas nuns olhos fechados que escondem o tanto. ou até de uma pele arrepiada de uma humidade soprada ao ouvido.
se o arquejo tivesse cor, talvez soltasse pinceladas brilhantes, quentes, do grito contido.

terça-feira, 27 de setembro de 2005

isperto

a cada dia no trânsito, olhando em volta, reparo num sinal que nos diz a todos que essa coisa da crise é mito urbano. é uma cabala para subirem os assaltos e as seguradoras ganharem dinheiro.
todos os dias, milhares de carros brilhantes, saidinhos dos stands (ou standers, conforme a burgessisse de cada um), entopem as artérias da nossa capital, qual colestrol (ou castrol) que faz com que o trânsito não flua, não haja produção, e o coração pare de bombear rendimentos e lucros para as empresas, as pessoas sejam despedidas, façam greves, assaltem e esfaqueiem, etc.
nesses carros, vemos, em cada um, uma e só uma pessoa. o condutor. estamos numa sociedade de tristes, de solitários e estúpidos, que preferem entalar-se no trânsito a "conviver" com a plebe no metro ou nos autocarros.
onde está o dinheiro? das prestações, dos seguros, do combustível, das revisões, dos selos? tem de haver e não é pouco. é uma cabala, volto a dizer, isso de andarem a espalhar que estamos em crise! pois se há cada vez mais carrões!
engraçado é que se vêem mais motas com duas pessoas montadas que carros com dois passageiros. de realmente engraçado tem pouco, tem mais de foleiro, bimbo e idiota. mas não quero ofender ninguém.
e ainda mais curioso é o facto de esses carros serem todos enormes. os ditos carros familiares. os topos de gama pretos e cinza metalizado. como se fizesse muita falta aos condutores tanto ar dentro do cubículo de metal, só para um.
sou pelas portagens. passei a ser. eu venho de longe (de muito longe... lá lá lá). deixo o meu carro à porta de Lisboa num parque. e venho de carro porque na minha terra os autocarros para Lisboa são poucos, e acabam cedo, em nada combinam com os meus horários. sigo de metro e...oh! ah!... a pé.
sou pelos parques de dimensões espectaculares (mesmo que atentados à arquitectura paisagística) ao pé dos metros e comboios periféricos. que deviam ser de borla e ainda dar desconto no passe.
sou pelos smarts, que é o que essa gente toda devia ser permitida conduzir dentro de Lisboa. e com autorização expressa, depois de ter sido toda investigada a vida e necessidades efectivas de cada um. poupava. tínhamos o dobro do estacionamento, metade do trânsito, só com os ditos popós pequenitos.
irrita-me quem mora no príncipe real e faz 100m de carro para o escritório (y que los hay, los hay, trust me).
enerva-me os senhores exploradores de fossas nasais nos bê-émes, de ar altivo, que ali ficam parados, a parar o país. as tias que não sei como não morrem sufocadas com a laca e os químicos dos peelings a exalar dentro dos desportivos, e as betas e os betos com os carochas, um dossier no banco de trás e o telemóvel em cima do banco a pedir para ser roubado, para os papás comprarem outro mais caro.
eu queria morar em Lisboa. muito. para poder esquecer-me que tenho carro. que pago revisões a cada 3 meses por desgaste, que pago portagens, gasto horrores em gasóleo e ainda poluo o ambiente.
pergunto-me: serei a única?

segunda-feira, 26 de setembro de 2005

desperate theatrewives

sexta e domingo foram dias de trabalho físico, forçado, intenso.
preparar uma estreia de uma peça num monumento, com todas as limitações de tempo, burocracias estatais, cuidados com as paredes e azulejos, e uma enorme estrutura por montar, que abafaria o eco das paredes de pedra.
visto de fora: quatro mulheres todas com menos de 1,65m, de t-shirts tank top, calças práticas cheias de bolsos, de onde pendem x-actos, berbequins, blocos de notas, chaves de parafusos, telemóveis com auricular.
circulam no espaço de cabelos apanhados, suadas, carregando cadeiras, ferros, transportando roupas em pilhas, sacos cheios de estranhos artefactos como pedras e espadas, espalhando circuitos eléctricos e instalações de som, subindo e descendo escadas, percorrendo com um porta-paletes os claustros gigantescos de um conhecido monumento secular em Lisboa.
num dos dias, 2 carregadores ajudaram com parte do trabalho pesado, no outro foi um amigo providencial.
no entanto, foi curioso ver essas raparigas subirem as enormes escadas em caracol, carregadas com pesadas caixas de madeira, até à zona onde estavam instalados os camarins, para dar de caras com 5 actores machos, todos bem esculpidinhos dos ginásios, sentados à volta de uma mesa a fumar cigarros...

é hilário...
mas hoje não consigo rir, porque me dói até a respirar...

quinta-feira, 22 de setembro de 2005

entre parentesis

na procura eterna de ser uma pessoa melhor, uma profissional melhor, uma mulher melhor, tenho andado angustiada. não sei de mim. e sei que tenho sido, se calhar, demasiado angustiante também para quem me acompanha.
um dia disse a alguém: eu não sou só o que escrevo aqui. não sou só metáforas e futilidades. também não sou só tristezas.
às vezes não sei de mim, quando perco as lutas, os alicerces.
quando volto à tábua rasa e não sei se encontro forças ou sequer oportunidades para reconstruir, reescrever tudo. tudo aquilo de que dependo para ser feliz, para ser eu. e para levar comigo, no bolsinho, nos dedos, todos os polegares que não deixo para trás nunca. e que, sei-o, também precisam da minha alegria estúpida e do mau-feitio-beligerante-coração-de-manteiga ("cabeça em pé de guerra mansa...?") para saberem que as cores andam aí, que as fadas andam aí.
tenho saudades do colo da minha avó. e do tempo das papoilas. tenho saudades de quem me conte as histórias. de quem me leve pela mão nesse acto hoje em dia tão condenável de dar milho e correr atrás dos pombos com um sorriso na cara.
esta é uma daquelas fases ingratas para quem me acompanha, porque as dores cá dentro estão fora do meu controlo, do controlo de quem quer que seja. não tenho forma de mudar nada. e quando não controlo as minhas dores, quando faço de tudo o que é possível e mesmo assim não chega, fico... pronto, é verdade... de rastos.
por enquanto, peço desculpa. e peço tempo.
para me habituar ao regresso da actriz "sem-abrigo". sem projectos e de momento demasiado perdida na encruzilhada, demasiado fraca para sequer procurar uma estrela-guia.
mas não sou constantemente triste. sou de tudo. e aqui fica uma prendinha.
um "prometido é devido"...
ora, na senda das melhores roupas e marcas (cof cof) para vestir as nossas personagens, fomos a todas essas fantásticas lojas de Griffe da Baixa... e não resistimos (e já vi que o meu vício se pega) a experimentar e fotografar estes fabulosos exemplares... de propósito para depois partilhar convosco...

atenção: participação especial da perna da B.!

quarta-feira, 21 de setembro de 2005

do pensamento...

sou agulha e sou palheiro

terça-feira, 20 de setembro de 2005

puxei com mão firme o travão de mão

foi o último gesto decidido da noite, agora já não era preciso fingir.
começou devagar, apenas a dor a sair em água e sal, a manchar a pele e a roupa.
depois cresceu para o desconsolo convulsivo. até ficar apenas o gemido baixinho de dor, quando as lágrimas por ora já secaram. como quando perdemos alguém irremediavelmente.
porque é a mesma sensação. perdi-me a mim. perdi os sonhos. deixei-os cair nos estofos, um a um. enquanto revia as cadeiras de verga ocupadas, os ares comprometidos, os meus livros atirados para dentro de uma gaveta porque já não pertenciam ali. o acender a luz. o cantinho onde sempre pousei a minha mala. de repente, o espaço cheio de vida, de gente a entrar e a sair. até as lágrimas me obrigarem a apagar a luz. o subir e ver as cadeiras, que já foram velhas, e agora são veludo rubi. os rostos que de lá me miraram. saí.
puxei com mão firme o travão de mão.
no banco de trás os cds, os livros, a velinha.

depois a estrada levou-me. ao sítio onde as raízes se elevam do mundo e os seres celestes andam à solta. deixei as minhas mãos enterrarem as dores.

a caixa de fósforos da menina caiu no chão de neve húmida e fria. a pequena polegar está fechada na toca e não há sinais da andorinha. a fada está no chão, pequenina, sem força ou brilho nas asas, porque os meninos já não acreditam em fadas.

somos eternos até ao dia em que a luz do palco se apagar.

segunda-feira, 19 de setembro de 2005

em catadupa

estou à espera dos carregadores para ir para Alenquer.
portanto, oficialmente, a produtora executiva vai para fora em trabalho.
vê-los descarregar a camioneta para um armazém, ver se não partem nada.
o patrocínio teima em não pingar.
está tudo a praticar o brasileiro porque todos menos eu vão de "férias em trabalho" dois meses.
na altura em que andaram à procura de uma Julieta, não me deixaram tentar porque sou muito preciosa na produção. a ver vamos quanto tempo cá fico à espera de um casting em que me deixem participar. pode ser que me canse de esperar, ainda bem que tenho uma cadeirinha para passar os dias.
os meus "subalternos" teimam em ficar na cama na altura de trabalhar, mas vão passear em Outubro.
a minha colega, muito mais experiente que eu, está em part time para poder vender casas.
todos os dias me passam atestados de incompetência, porque afinal não era bem assim que queriam.
começo a duvidar da minha memória e sanidade mental.
é capaz de ainda se perder dinheiro com a tournée. ou seja, qual aumento?
ainda por cima talvez haja uma colaboração entre a minha empresa e o teatro que me deu um chuto no rabo. basicamente vou trabalhar para eles como produtora, de borla, e nem sequer precisam de me meter nas peças em troca.
tudo para ganhar uma mensal miséria. e desta vez só me pagaram metade do ordenado porque passei 15 dias de férias (forçadas). estamos a meio do mês e já vejo o fundo à carteira. tudo aos meios... copo meio vazio...
os meus pais parecem os velhos dos marretas e só passei meia dúzia de horas com eles. o suficiente para estar com a cabeça em água. a redoma estalou, mas ainda não partiu. e eu à espera.
a minha peça está a meio da temporada. depois desta, não sei o que é de mim. vou ter de inventar.
e estou cansada de inventar. queria por uma vez ter uma oportunidade de mão beijada.
tudo sabe melhor com luta, mas isto é ridículo.

quinta-feira, 15 de setembro de 2005

acreditas em fadas...?

... bate palmas, depressa...

fragil

como uma flor encolhida depois de o sol se apagar.
procurando na terra forças para aguentar-se viva até ele voltar.
as pétalas enroladas em volta do pescoço... caule... para amainar o vento frio.

a pele, sempre a pele.

quarta-feira, 14 de setembro de 2005

casa de bonecas


foto de C.Santana

viajo assim, entre recordações e cheiros. feito espírito e fantasma daquele silêncio que é meu porque não o deixo.
foi a minha primeira casa, passaram anos. e ainda lá estou.
conhece-me cada uma daquelas bambolinas. onde me escondia agarrada ao peito que fugia das mãos, antes de sair para o sorriso.
os projectores que me lamberam a pele.
aquela moldura de luzes onde prendo o rosto com pó de encantar.
o cabide onde dispo o meu corpo visto os outros, o chão onde largo os meus passos e calço os outros.
as cadeiras quentes onde vi acontecer a magia dos outros, de que fui parte.
o chão de madeira preta onde pintei as cores e as formas de textos.

não sei se é mais minha ou eu dela. se lá nas varas estará um elástico mágico que me puxa.

tenho medo, agora. mas vou deixar-me voar, até que as asas não nos suportem mais os sonhos.

terça-feira, 13 de setembro de 2005

aos saltinhos...



estou na tv7dias!
estou na tv7dias!
estou na tv7dias!

página inteira!
página inteira!
página inteira!

ímpar!
ímpar!
ímpar!

eheheheheheheheh

elevador

abro o casaco porque já começa o calor.
ajusto a mochila e saio da barafunda degradada e pseudo-civilizada dos restauradores para a estreita calçada da Glória. uma pequena fila espera que o elevador abra as portas. chineses, japoneses, alemães e demais nacionalidades olham de boca aberta para o peculiar rectângulo amarelo forrado a madeira que acabou de chegar à paragem, passeando-se nos carris. tiram fotos e nos seus olhos a pergunta (em línguas desconhecidas) "para que é que aquilo serve?" ou "onde é que se irá naquilo amarelo" ou até "que pitoresco, não?".
entro a seguir a um par de pessoas. aguarda-me o banco corrido de madeira às tiras e uma espera de alguns minutos. observo, de mochila no colo, quem passa por mim. à minha frente senta-se uma senhora reformada que olha para toda a gente como se medisse quem tem mais que ela. basicamente toda a gente tem algo mais que ela. há, portanto, muito para observar. um casal de velhotes entra e o velho pousa no chão os sacos do Continente. ela senta-se entre a outra reformada e a parede. o velhote anda às voltas com os trocos e depois de barafustar com a mulher, que é demasiado lenta para ele, lá paga do seu porta-moedas os 2,40€ que devem doer a desembolsar. ele tem bom aspecto, um colete verde cheio de bolsos, calças muito engomadas, camisa às riscas impecável. barafusta de novo com ela porque ela se sentou de forma a que terão de ficar separados. "és chato como a merda, tu", é a resposta. mas naquele azul dos olhos dela, uma dor calada e conformada fica por sair. ela estende-lhe o dinheiro que ele lhe tinha pedido e ele recusa, diz que agora não quer. mas depois volta a estender a mão. sovina... ela tem um ar gasto, cansado. as pernas enormes muito brancas têm riscos roxos, gordos, cada um de um esforço ou uma dor. cabelo por lavar, por pintar.
entra um grupo de turistas cor de rosa, gordos da comida típica portuguesa, os Mac Donalds de Lisboa, câmaras caras, telemóveis caros, para os quais gesticulam em risos altos em alemão.
mais duas ou três donas de casa de ar gasto e cansado. de carteiras velhas debaixo do braço e saco das compras. o banco corrido já não é banco, é uma amálgama de gente, rabos, calças e saias. duas telefonistas ou secretárias entram. falam pelos cotovelos, como convém. calças justas ao rabo demasiado grande, a barriga branca a sair de fora das blusas justas, muito ouro, bandolete, mala da moda e saquinho de plástico da boutique matilde. cheiram enjoativamente a perfume acabado de pulverizar. falam da filha de uma que não está, obviamente, presente.
mais turistas, também nórdicas, muito magras, com as caras achatadas e ar frágil. compram mas não picam o bilhete. a condutora do elevador não levanta os olhos da revista onde namora o Virgílio Castelo para as avisar. os apitos do Lisboa Viva e do Sete Colinas. na placa diz "4 lugares de pé", mas já estão umas 10 pessoas no corredor. os turistas incomodam toda a gente para tirar a foto da praxe. já vejo a moldura dourada em cima da tv e os sorrisos porcinos, as mochilas e as t-shirts com os galos de Barcelos.
entra um casal jovem, ele de calças de fato de treino, ela de calças de ganga justas, com um pequenito pela mão, que conseguem espremer no assento entre duas das reformadas. não se falam, só se dirigem ao miúdo, de boné e olhos doces. uma pequenita com um enorme totó repuxado, pele de chocolate e bibe de quadrados amarelos entra com o pai pela mão. é ela que diz ao senhor onde se devem acomodar para não incomodarem tanto a entrada, e é ela que passa o seu Lisboa Viva pendurado ao pescoço no leitor, e pica o bilhete ao pai. pacientemente, fura entre os enormes rabos e os cheiros de perfume acabado de pulverizar, puxando o pai.
finalmente a senhora condutora dá uma pausa ao namoro com o Virgílio e pede a quem está pendurado na entrada que feche a grade. mas chegou mais um metro e entra mais meia dúzia de reformadas. três ou quatro pessoas ficam de fora e olham o elevador e a calçada íngreme, indecisas, respirando fundo antes de desafiar a subida a pé.
tlim tlim. sobe devagarinho e amarelo a calçada, no seu puxar lento, duvidosamente eléctrico. pára quase lá em cima, talvez por falta de força. está cansado, também, o elevador. volta a arrancar e pára à beira das escadas. deixo sair quase toda a gente porque sei que os turistas ainda vão ficar parados lá ao fundo a fotografar mais um pouco.
saio para o ar do Bairro Alto e sou recebida pelas cores dos prédios e pelas janelas antigas. para trás ficaram o casal de velhotes, o sovina e a gasta, ele saiu antes dela e não olhou para trás para ver se ela vinha ali. certezas e conformações de tantos anos a dois, talvez. a menina do totó e do bibe amarelo atravessa o pai, e guia-o para dentro do Bairro Alto. viro á direita e reparo que à minha frente segue o casal que não se fala. ela vai em passo rápido, a esbracejar para o homem. o pequenito, arrastado por ela, tenta acompanhar a passada demasiado comprida até para mim e tropeça duas vezes. perco-os de vista depois do quiosque-bar, para deparar com mais bibes. vermelhos e amarelos, e panamás, muitos, de cores variadas. em fila indiana, dois a dois, de mão dada, olhos perdidos na luz do sol que ali não é filtrada pelas árvores do miradouro. riem, falam muito e as monitoras lá tentam organizá-los e assoá-los.
entro no "meu" café para ser recebida com o "Bom Dia" cantado de uma das raparigas. "é uma italiana, sim".

segunda-feira, 12 de setembro de 2005

... e agora?...

há coisas das quais provamos os sabores, sabendo-lhes o fim.
como um prato favorito, guloso.
no entretanto, o não saber quando se voltará a cozinhar assim. a saborear assim. a viver assim.
retornarei?
e o açucarado da minha saliva revolve a língua entre travos amargos de fumo de cigarro.
e agora...?

incongruencias

ontem, como não podia fazer há muito, pude ouvir música no meu quarto.
perdi-me nos cds antigos que andam lá pelas estantes, coisas que eu hoje em dia não seria capaz de ouvir. outras que me rasgam um sorriso na cara.
em mini-disc, tinha estranhas compilações gravadas, de há 10 anos atrás.
e lá saltei pelo quarto ao som de "Jump" de Van Halen, coladinho ao quase-gospel de Joshua Kadison.
e entre Metallica e Brian Adams, estava a musiquinha da "Bela e o Monstro"...

sexta-feira, 9 de setembro de 2005

ficou-me...

... o que será mais importante?
a percepção do acontecimento ou o acontecimento em si?