terça-feira, 14 de fevereiro de 2006

formiga atomica


cortesia de espanta-espíritos

é preto, piquenito, arredondado, tem bochechinhas [diz que sim], orelhas grandes [como em retrovisores], olhos amendoados, e cara [pois está claro que tem cara] de sorriso maroto e atrevido. lá dentro é só negrume misterioso e laranja bem disposto à minha volta, em bolinhas [sim, bolinhas] estilizadas com números de lettering catita. ah, dizem ainda [e eu concordo] que tem muita pinta, ali entre o desportivo e o cosmopolita, o chique e o descontraído, o elegante e o intelectual... trendy, portanto. diz que é charmoso, diz que sim, e diz que me assenta que nem uma luva... ora está bem...
rosna quando se mete a primeira mas depois é suave e desliza, ainda cheira a parafina queimada, não tem cinzeiro, o porta-bagagens é basicamente um envelope [isso não estranhei, que o Jippy era a mesma coisa... uma questão de tetris!], tem um acelerador ansioso por prego a fundo e é baixinho [eu, ex-dominatrix do todo-o-terreno e agora tenho de ter medo dos passeios! bah]...

foi a sensação estranha de que, agora sim, não voltaria a conduzir o Jippy. porque eu tenho a mania de acreditar numa grande reviravolta até levar em cima com as provas todas provadas e testadas em laboratório do ponto sem retorno. só me apercebi disso, realmente, no momento em que dava o meu autógrafo ao senhor do stand, em pilhas de papéis e seus duplicados que me endividarão para o resto da minha vida.

e foi isso que lhe expliquei, ao carrito: que sou um bocado doida da cabeça, que me apego às coisas e que ia demorar a habituar-me a esta nova relação, que tinha de me dar um tempinho para me ajustar, mas que já lhe achava muita piada e que queria mesmo dar-me bem com ele por muitos e longos anos, como foi com o Jippy. de preferência sem cortes abruptos nem prazo de validade. fui avisando o popó para não se espantar se desatasse a largar o mais profundo português suburbano que tenho dentro de mim no trânsito [que eu até sou um doce de pessoa], que muito provavelmente iria rir à maluca, chorar feita maria madalena e cantar em plenos pulmões com ele sem qualquer pudor... só para ele não levar de chofre com uma das minhas reacções um destes dias.

pois que já lhe estreei os ouvidos, entre o stand e as dobragens, apesar de os nervos ao princípio me tirarem a voz. ao fim de um bocado, dei comigo em coro com Joy Division e "love will tear us apart", logo a seguir dei-lhe com o "come into my heart" do David Fonseca. no regresso das dobragens, foi o "here comes your man" dos Pixies, que adaptei para "here comes you car". testei o leitor de cds com a prenda de aniversário de um amigo, Jack Johnson e "better together"... as nossas primeiras músicas, aqui registadas para a posteridade...

fui buscá-lo ontem, tinha apenas 6 Km... hoje já passa dos 100 porque deu-me para ir, depois das dobragens, lá para as 11 da noite, mostrá-lo aos papás...
o meu pai ria-se que nem um perdido e dizia lá do alto do seu Jipão "é tão pequenino, que engraçado". a minha mãe, que não liga a carros, dizia que é lindo e a minha irmã basicamente enfiou-se lá dentro... está estreado também numa das suas funções mais importantes que é encher de gente em boleias de manhã... ai que saudades que tinha disso...

por enquanto, e apesar da total paranóia em conduzir desde o acidente, só servirá para situações pontuais em que não possa mesmo usar transportes públicos. mas já me está a dar o nervoso miudinho de me fazer à estrada com os bancos rebatidos cheios de mochilas e pacotes de bolachas e garrafas de água em direcção a algum destino assinalado no mapa ou sem qualquer destino definido... afinal, a liberdade do asfalto cola-se à pele...

There is no combination of words I could put on the back of a postcard
And no song that I could sing but I can try for your heart
And our dreams and they are made out of real things
Like a shoebox of photographs with sepia-toned loving
Love is the answer at least for most of the questions in my heart
Like why are we here? And where do we go? And how come it’s so hard?
It’s not always easy and sometimes life can be deceiving
I’ll tell you one thing, it’s always better when we’re together
It’s always better when we’re together
We’ll look at the stars when we’re together
It’s always better when we’re together
It’s always better when we’re together

And all of these moments just might find their way into my dreams tonight
But I know that they’ll be gone when the morning light sings
Or brings new things for tomorrow night you see
That they’ll be gone too, too many things I have to do
But if all of these dreams might find their way into my day to day scene
I’d be under the impression I was somewhere in between
With only two, just me and you, not so many things we got to do
Or places we got to be we’ll sit beneath the mango tree now

It’s always better when we’re together
We’re somewhere in between together
Well it’s always better when we’re together
It’s always better when we’re together

I believe in memories they look so pretty when I sleep
And when I wake up you look so pretty sleeping next to me
But there is not enough time
And there is no song I could sing
And there is no combination of words I could say
But I will still tell you one thing
We’re better together

better together | Jack Johnson | in between dreams

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2006

rugas da parede



ouve-se no silêncio um pequeno percalço. um suspiro. não tem dono, apenas ao ar onde regressa pertence. o suspiro das paredes. são antigas e foram ali deixadas quietas, em abandono descrente. estranho santuário do pó dos dias, sem sombra que lhes alimentasse a alma para além da sombra que lhes contava da mudança das horas. ali ficaram, guardando as fotos velhas e as células mortas e os bichos do papel. velhas e desencontradas de sentido, a tristeza fizera-as perder a luz e a firmeza, despedaçando-se em pequenos pós brancos e beges e azuis no chão sem pés.
uma lágrima caiu pé-ante-pé, sem aviso, em grito sufocado. não compreenderam, as paredes, o que lhes quereria a lágrima. timidamente taparam as faces, deixando no entanto uma frincha entre os dedos para espreitar a lágrima, que lhes escorria e se enrolava com o pó em pigmento egípcio, cada vez mais espessa, misturada na humidade e nos rolos de cotão. deslizava silenciosa, furtiva, absorvendo em si o negrume dos anos, acariciando-lhes as rugas. arredondava-se a mancha que engrandecia. e as paredes coraram, pincelando naquela estranha sombra húmida um laivo de rubor em que de um prisma se encontraria todas as cores e cor nenhuma.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2006

funny little frog

vá lá, é entrar no fim de semana a saltar.
apesar dos lenços de papel, do cérebro a querer sair pelos olhos, da garganta arranhada e de falar à bom fanhoso ali dos becos atrás do Mercado da Ribeira.

um sapinho engraçado dos belle & sebastian. quentinho a sair do forno, cheio de mimo do bom, para quem, como eu precisa de mantas e descanso este fim de semana.

com um beijinho especial e euphons para a colherzinha que está, como eu, de molho.

estrada


[seguindo, a voar por teclas e papéis, deixando o leitor cantar-me o que lhe apetecer, um som antigo...porque viagens, essas, haverão sempre. no asfalto e na vida. así son las cosas...]


Estrada fora estrada dentro, de Bayonne a Milão,
coração ao relento, mundos e fundos na mão.
Corpo negro macadame, de Milão a Budapeste,
voar, "chercher la femme", norte, sul, oeste, leste.
Polaroid, pôr do sol, vénus na concha da Shell,
Sexo, sonho e rock'n'roll, noite branca no motel.

Anjo perdido na bruma, leva-me ao sétimo céu,
abre o teu manto de espuma, deixa cair o teu véu,
deixa cair o teu véu, deixa cair o teu véu,
deixa cair o teu véu...

Chuva, bréu e gasolina, bar aberto, companhia,
cheiro a erva na latrina, chá, café e fantasia.
Ultrapasso um camião, passo fronteira e portagem.
O écran do alcatrão devorou a tua imagem.
Estou tão longe, estou tão perto, sei que nunca
hei-de chegar
onde vou não sei ao certo, já não posso mais parar.

Refrão

Contigo leio o futuro nas gotas do pára brisas,
coração inseguro, mãos vazias, indecisas.
Néon pálido, luar, Via Láctea, solidão,
tenho ganas de beijar o espelho da escuridão.
A grande roda da sorte é uma curva sem fim,
do outro lado da morte há uma estrada só p'ra mim.

estrada | pedro abrunhosa . regina guimarães | viagens | 1994

salvados

- a senhora desculpe, mas já agora queria fazer uma pergunta... por uma questão pessoal, gostava de saber o que é que vão fazer com o carro... é que se for para abate eu queria ficar com a matrícula...
- olhe, tendo em conta a empresa que comprou os salvados, suponho que seja para o voltar a pôr em condições de ser comercializado.
- ai não me diga...
- sim, é o mais provável.
- boa, era só o que me faltava... daqui a uns tempos dar de caras com um fantasma na rua...
- desculpe?
- nada, nada. olhe, muito obrigada.

[entretanto, aqui nos arquivos do computador dou com o "é preciso ter calma" do Abrunhosa... ah pois...]

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2006

transparente sem possessivo


[ms]

deitada, enleada nos pensamentos que não tinham relevância para o quadro pintado em sangues vivos, ocres e ceras. apenas a simples nudez. uma entrega aos sentidos aos lençóis aos silêncios e à luz das velas. ao embalar emocional de uma qualquer música na aparelhagem. o total desprendimento da noção de despida. da noção de pudor. porque ali jazia, deitada, viajando para longe, sem se lembrar ou esquecendo a pele ao ar, as suas curvas e recantos despojados de qualquer pedaço de opacidade. transparente, na pele que estendia pelo lençol. nos cabelos espalhados sem ordem ou vaidade. na linha do pescoço delicada. no requebrar suave dos músculos entre cada respiração. nas cores quentes que entornavam o corpo diante dos olhos. e no agudo ondular do suor num pequeno friso da parede.

era só um carro



já está. não resta comigo qualquer vestígio físico de ti. entreguei hoje o teu coraçãozinho. e - estupidamente, eu sei - choro.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2006

à porta da loja

todos os dias lá está. veste roupa escura e suja, indescrita. tem um corpo estreito e seco, alto, do qual parece estar sempre a cair. o olhar parece não passar além dos olhos. cansaço. puro cansaço e tristeza. e um brilho febril de um qualquer ente deformado e reptilíneo que lhe rasga a vontade de ser, comendo-lhe a vida pelas veias. às vezes traz uma fita cor de rosa alegre que lhe prende desajeitadamente os cabelos limpos mas despenteados. o rosto moreno e comprido já foi bonito, salpicado de sardas e de lábios bem delineados que entretanto perderam a forma do sorriso. jovem, terá se tanto a minha idade. a voz sai-lhe grave e arrastada.
senta-se na caixa da electricidade e dali pergunta a quem entra na loja se à saída não pode dar uma moedinha. passam por ela todos os dias muitas caras de sempre. no entanto parece nunca reconhecer nenhuma. fala a cada um com a mesma ladainha, o mesmo olhar vazio e desencontrado do simples reconhecimento. lê revistas e jornais que alguém lhe dá e partilha com o arrumador os cigarros que lhe vão arranjando em jeito de moedas que não aparecem. deseja saúde e um bom ano a quem lhe estende alguma ajuda, em Janeiro ou em Agosto.

mais uma. só mais uma. torna-se desagradável entrar na loja porque se sabe que invariavelmente se vai ouvir o "menina, se tiver uma moedinha que me possa dispensar à saída agradeço. obrigada, saúde e bom ano."

é fácil pensar em como seria. ela. onde beberia o café de manhã, onde pousaria os olhos ao atravessar a estrada, que cheiros a fariam sorrir, que tipo de mala gostaria de usar, se preferiria botas ou ténis. se gostaria de ler. se preferiria comédias ou filmes de terror. se gostaria de andar por Lisboa antiga a pé ou se preferiria os grandes espaços brancos e cimentados do Parque das Nações. se a chuva na cara a faria lamber os lábios ou baixar o rosto. se um homem alto de olhos verdes a faria perder de amores ou se preferiria o tímido franzino da mesa do fundo do restaurante. como seria ao conversar com os amigos sobre a sua banda preferida. que quadros ou imagens teria nas paredes do quarto. qual a disciplina preferida na escola. se teria complexos com a celulite, com as sardas ou com os dedos dos pés. se preferiria gatos ou cães. o campo ou a cidade. rosas ou margaridas. laranjas ou morangos.
se ao menos sentisse.

há umas noites atrás, estou à janela ao telefone. e vejo-a como todos os dias. mas nessa noite ela estava em pé, ao lado da caixa da electricidade, e todo o corpo estremecia desajeitadamente. ignorava quem passava, quem saía ou entrava na loja. apenas estremecia. virado para ela, à altura da sua coxa, um miúdo ria deliciado e desafiante, de espada do zorro em riste. e ela desengonçava-se fingindo uma morte arquejante sob o gume afiado do garboso cavaleiro.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2006

esa mujer loca

dos 0 aos 100 numa palavra. na voz, decibeis acima do normal. capacidade para falar muito, discorrer ao pormenor sobre assuntos e abordar de uma forma quase autopsiante cada argumento, unindo-os numa elaborada e completa trama, difícil de acompanhar de tão longa, sempre apresentada num discurso fluido e alterado.
com isto poderia ter ido para direito. ou para a política [then again... no. ergh!]. por parte disto já me perguntaram porque não segui psicologia.
este é, basicamente, um dos meus milhares de defeitos.

por amor sou capaz de me exaltar desta maneira completamente absurda.
sou aguerrida nas coisas de que gosto, nas coisas em que acho que tenho razão, pelo bem dos objectivos que prossigo ou das pessoas que me são especiais.

por esta minha estranha mania de me lançar ao ar "em defesa da causa" [expressão de colher de chá] sou conhecida no sítio a que mais me dediquei e ao qual trouxe [tenho plena consciência] grandes frutos como "esa loca".
a minha forma demasiado apaixonada de defender as pessoas que amo [em todo o seu sentido] dos seus próprios erros [erros no meu ponto de vista, claro] pode inclusive levar as pessoas, depois de uma discussão acesa mas para mim sem danos colaterais, a perguntar-me se ainda gosto delas.
... gosto, se não gostasse simplesmente dizia "pois" e passava à frente...

no entanto, encontro-me mais serena do que alguma vez fui. o copo demora mais a encher. estou menos explosiva. vejo sempre os dois lado da moeda. peso-os, disseco-os [lá vem a autópsia]. normalmente acabo por deixar a minha observação "claro que compreendo. mas posso não concordar?". se não levo a minha avante fico aborrecida, mas lá está... passa-me pouco depois e não me chateio mais com isso. o que se diz numa altura não fica marcado daquela forma trágico-indelével que não me permita ultrapassar com um sorriso. estou sempre à espera das boas notícias, mesmo de gente que à partida não me pareça muito boa onda. não me apercebo imediatamente de que os outros podem ser diferentes e ruminem eternamente no mesmo. a minha boa disposição permite-me estar de bem com todos, deixar que me desiludam muitas vezes. e só perder a fé quando a desilusão atinge aquele único ponto, aquele contorno específico que não sei definir, apenas sentir.

por isso apenas num sítio sigo "la loca". e aí sou "la loca" pero no saben la pena que me da, chicos...

segunda-feira, 30 de janeiro de 2006

blue



nu. puro. intenso. quente. profundo. sonho. descanso. sensual. sorriso.

pianissimo

hoje há casting na agência de actores/modelos/manequins/qualquer coisas aqui do lado.
mais um dia em que não se consegue ir à casa de banho porque estão entupidas com meninas a retocar a maquilhagem ou a despejar as 3 garrafas de litro e meio de água obrigatórias para a hidratação da pele e para a dieta. vejo os rosto jovens, muitos muito novinhos mesmo. meninas, na sua maioria bonitas, de peles de porcelana, pernas compridas, cabelos num apanhado casual, com pontas estrategicamente soltas, dedos compridos e unhas impecáveis, roupa da moda em que, apesar de encasacadas, ficam lindas e nunca parecem chouriças com andar de pinguim...
meninos altos e atléticos, de folhas na mão, sorrisos de aparelho acabado de tirar.
meninos feitos à imagem e semelhança do mercado que pré-formata o nosso consumo. meninos mesmo dentro dos padrões que vendem ou se compram ou sei lá o quê, independentemente do que vai dentro da cabeça.
olhares de esperança sabe-se lá em que futuro...

tenho um casting [noutro sítio] e devia sair para lá daqui a meia hora. o meu cabelo está num só nó, apesar do brilho. tenho roupa quente de todos os dias que me engorda e botas de montanha. não tenho um pingo de base para disfarçar as olheiras. as unhas já se foram há semanas, entre falhas, ferramentas e nervoso. não há "charme natural" [ahahahah] que me valha e reparo que a motivação já não é a mesma de há uns tempos. falta-me qualquer coisa... talvez a inconsciência e o sentido de aventura que me permitiam jogar com a auto-estima de outra forma.

... ai...

domingo, 29 de janeiro de 2006

decorria o mui nobre e jovem ano de 2006

uma pacata família, na periferia saloia da capital, tomava a sua tradicional refeição almoçadeira de Domingo, dia santo de reunião de todos os seus elementos, dispersos pelos afazeres da semana.
de narizinhos enterrados na frugal refeição de carninha grelhada, os vários elementos faziam as suas considerações acerca da vida e do seu sentido. num momento de algum silêncio compenetrado no alimento santo, a mai'nova levanta os olhos e larga num pequeno sussuro de espanto um "olha, está a nevar". os restantes elementos direccionam os gloos oculares na direcção que provocara tal altercação. no mesmo momento a mai'velha solta o seu suave manifesto de alegria e incredulidade:
- FODA-SE tá a nevar!
levantam-se todos de um salto e o patriarca ainda consegue ter a presença de espírito, entre o atordoado da situação, de assertivar uma reprimenda demasiado frouxa à filha mais velha:
- ó Polegar, francamente, olham'essa língua...
- desculpem, desculpem mas tá a nevar!
mas o espanto tomou todos os intervenientes e todos saíram para o jardim para admirar o inédito acontecimento natural. a matriarca ria e chorava ao mesmo tempo, a mai'nova, no seu habitual recato, observava tudo sorrindo, o patriarca saiu a correr para gravar tudo na sua câmara de filmar, a mai'velha, já de gorro às riscas, saltava que nem uma cabrinha montesa, guinchava e ria à gargalhada, de braços e boca abertos, língua de fora, a apreciar o primeiro nevão da sua vida. quando lhe sugeriram que voltasse para dentro por um instante porque estava frio respondeu com um delicado:
- tás bêbado? tá a nevar!
custou a estes nossos amigáveis protagonistas voltar para dentro para terminar o repasto. e o que fizeram de seguida? claro que voltaram para a rua, vestidos a preceito, todos de língua de fora, para no caminho do café, fazerem a sua hidratação das papilas gustativas.
os flocos em turbilhão, tão vulgares para tanto habitante do interior norte deste país à beira-mar plantado, fascinaram os nossos intrépidos amigos que foram incapazes de regressar ao aconchego do lar e abandonar o primeiro nevão dos últimos 52 anos.

o primeiro instinto que tive foi de chamar a minha avó para vir ver aquele cenário que tanto pressagiara nos dias frios daqueles anos lá em casa. o segundo foi um suspiro descansado em que me certifiquei que não era preciso, ela estava ali, de sorriso aberto, a sentir também a espuma fresca gelar-lhe as bochechas macias.

de facto, os milagres acontecem...

sexta-feira, 27 de janeiro de 2006

polaroide

o patrão entrou numa escura tarde de Novembro com um caixote dos cds da banda sonora do espectáculo que levámos ao Brasil, onde se lançou a dita B.S.O.... o meu queixo caiu ao chão quando leio na parte dos agradecimentos o meu nome... pois que não estava à espera, confesso... peguei no cd e desde então raramente saía do Mac quando queria pica para trabalhar nos projectos.
pois que pouco tempo depois volta ele ao fim de outra tarde escura e olheirenta com o seu I-pod, e de olhos esbugalhados, sorriso rasgado e carapinha de antenas no ar me revela um ultra-segredo... "tenho aqui um álbum que ainda não foi lançado. não podes contar a ninguém... mas ouve lá..."

ora foi abanar o capacete até não poder mais. foi interromper o trabalho só para pôr mais alto e parar para ouvir e degustar. agora pergunto-lhe sempre pelo I-pod onde ainda descansa o tal segredo, que respeito e só ouço acompanhada por um adulto responsável... eeeer... bem, mais ou menos responsável...
no entanto, há uns tempos pareceu-me reconhecer a música na rádio e delirei quando consegui seguir a letra...

hoje, mais uma vez vem pela rádio ter comigo o som inconfundível dos senhores (que para mim eram o P. e o J. e faziam a música do espectáculo, sem qualquer associação de nomes para além disso, porque eu para nomes sou terrível) e estendo um sorriso:
ele é show cases exclusivos de A Naifa tão privados quanto o momento do cigarro entre o fim da montagem e o ir buscar as escolas à entrada...
ele é tratar as vedetas por tu...
ele é conhecer as músicas antes de toda a gente e depois descobrir que até é hype e tudo...
ele é ter o meu nome num cd desses senhores que até são hypes e tudo...

...isto de me dar com gente importante tem um quê de cool...!

quarta-feira, 25 de janeiro de 2006

o lado errado da avenida

caminhava ininterruptamente há muito tempo, não sabia quanto. caminhava entre palavras por dizer, entaladas no beco sem saída que o grito rasga. caminhava entre grãos de areia, minúsculos, que lhe massajavam os pés para depois lhos ferir em chagas sangrentas. sentou-se sem o suspiro do alívio. os passos seguir-se-iam, de novo.
não lhe interessou olhar em volta. não lhe interessou os cheiros nem os rostos.
pediu uma água e esperou. quando levou os dedos ao copo um reflexo no tampo de vidro riscado prendeu-lhe os olhos. um qualquer desassossego no cabelo comprido. um qualquer esgar perdido na pele sem sinais. prendeu-lhe os olhos.
permaneceu em sombria atenção ao reflexo no vidro riscado. com medo, talvez, de levantar os olhos para se deparar com uma figura diferente daquela ali gravada a duas dimensões, recortada pela luz demasiado forte do exterior.
os olhos pareciam límpidos à primeira impressão, mas algo se escondia por detrás da serenidade, demasiado transparente, demasiado simples. um travo morno subiu-lhe à lingua, abafou-lhe a frescura da água enquanto fixava os pormenores do cabelo preso numa trança comprida e escura, emoldurando o pescoço, o nariz espevitado, as mãos pousadas ao lado de um copo com um líquido amarelado. a roupa sem qualquer desígnio de tribo urbana ou moda. não marcava posição ou mania. vestida para agasalhar. vestida para despir.

estás do lado errado da avenida. sei-o nesses dedos inertes que de vez em quando fechas num punho pequeno, nesse olhar suavizado para não dizeres nada. há quanto tempo estás aí? vês-me? sim, vês, mas não me viste porque não olhaste. como eu não olho para ti mas para o teu reflexo. a que cheiras quando te deitas? ao creme que passas na testa em gestos desprendidos ou ao suor de um dia comprido? dormes nua? ouves música ou preferes que o silêncio não te tolde os pensamentos para que entres nos sonhos sem enganos? quanto tempo dura o teu sono? é sereno ou tens insónias? porque nessa pele sem mácula encontro sombras. não se vêem se te olhar de frente, eu sei. dissimulas bem, mesmo quando achas que ninguém te observa. sorris muito? e dessas, quantas vezes sorris com vontade? gritas quando fazes sexo ou choras no fim? e depois? tremes de frio e enrolas-te ou estendes-te de corpo abandonado a fumar um cigarro? fumas? a que sabe a tua boca quando acordas? sabes dançar? esse pescoço diz que sim. as tuas mãos dizem que não. porque é que não és como as outras? porque é que não tentas mostrar o que sabes o que conheces o que ouves o que lês o que fazes e repetes? estás aí parada, só parada, e só tentas mostrar que estás serena. quando todos à volta se queixam da vida em altos suspiros de desgosto tu calas. reage. se te morder a orelha para te guardar o sabor, deixas? tem um orgasmo para mim. chora-o na minha cara. sentes-te bem?

agarrou o peito e os olhos alteraram-se da serenidade para um pequeno nanossegundo de desamparo. olhou em volta sem ver e voltou à redoma de abstracção. ele levantou o corpo da cadeira sem o suspiro do sacrifício. largou uma moeda no rosto riscado. e levantou os olhos do vidro.

- olha, vem comigo, vens?
- ... desculpa?
- anda, vamos correr. se te cansares enganas a dor.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2006

porque é que as produtoras andam aos pares?

para carregar os calhamaços do IA em quadruplicado.

ausência

falhei, outra vez.
sem explicação que vá além de que as horas não esticam e que a cabeça não tem direito a parar um pouco em si. agora não. mas nem por um momento consegui associar um dia a uma data a um acontecimento especial na vida de uma pessoa especial. não há falta de sono que o justifique, não há afazeres que o justifiquem.

faço agora uma pausa, sem tabaco. porque de repente aqui está o branco e eu e o Romeu na parede. uma ficou doente, os outros tinham compromissos incontornáveis. e eu sobro. mais uma vez. a papelada tem de estar em quintuplicado, sem falhas, encadernada até às 17:30 nas mãos de um qualquer funcionário que quer ir de fim de semana mais cedo.
e ficou a lista do que falta terminar.
eu encarrego-me disso. por uma questão de ética, da minha ética, mais do que de dever profissional a quem me paga mas depois me abandona na hora H. não vai ser por minha causa que falha. mais esse fardo não.

mas fiz uma pausa, e um segundo de lembrança chega para escrever em parangonas nos olhos o que de realmente importante falhou. de repente, num flash. que devia ter chegado ontem.

apesar da dificuldade em conseguir conter o choro neste momento, por cansaço, desgaste, incredulidade, revolta, desorientação, sensação de injustiça, impotência e obrigação de conseguir, tive de tirar um bocadinho para, aqui, poder dizer: desculpa.
falhei-te. devo-te, agora e sempre, ao menos um beijinho e o calor de uma presença inventada em palavras ao longe para um aconchego extra na hora das borboletas. e sei o que dói essa ausência e por isso sei o que te dói. aí, ao pé do bolsinho, que sentes vazio de qualquer coisa.

para uma bonequinha.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2006

caros senhores do IA:

muito obrigada por me tramarem mais uma noite. uma noite que tinha excepcionalmente livre para dedicar a mim e ao meu futuro e às minhas cores.
menos uma. mas cumprirei os prazos... os vossos e os meus. apesar de os vossos, oh, meus caros, por favor... deixam tudo a desejar... eu percebo-vos. os amigos já estavam informados de antemão e portanto já têm tudo feito. não se preocupam com timings. o resto se organizará conforme a Vossa palavra, alterada num decreto-lei feito à pressa na véspera da abertura do concurso.
hoje ficarei, então, muitas horas depois do jantar e da caminha onde estarão as vossas queridas e frígidas esposas de máscara de pepino na cara, no escritório, que não tem café, a dedicar-me aos textos do projecto que querem que o pessoal apresente conforme os novos objectivos [diferentes a cada concurso], à coordenação do cérebro disléxico e disperso do meu patrão com as teclas. enquanto os outros dois se dedicam aos números.
espero conseguir ser lesta com esta coordenação como sou a verborrear num teclado, porque amanhã, senhores, tenho de me levantar cedo. o meu trabalho não pára. vossas excelências ficarão, concerteza, até tarde na caminha. claro, faz bem à saúde. sabem, depois de passar o dia de amanhã [como fiz hoje, por sinal] a trabalhar [como em a acartar com ferros, aparafusar estruturas de madeira, desenrolar e enrolar carpetes de dezenas de metros... coisa ligeira], à noite vou para um estúdio gravar as vozes dos bonequinhos que os vossos filhotes tanto gostam de ver enquanto as vossas empregadas vos limpam a casa, passam a roupa da vernissage a ferro e vos preparam o martini de fim de dia...
e, caros senhores, tenho de me conseguir manter em pé na sexta-feira, para ir de novo, logo pela fresca, para o tal trabalho ligeiro, seguido de retorno ao escritório para a correria de último dia de entrega dos projectos, onde vai faltar sempre qualquer coisa.
por ora, já comprei uma caixa de donuts, um pacote de bolachas, e uma caixa de aspirinas.
a colega assaltou o cofre da empresa para comprar oito chapas para café. a pedido especial, a máquina do bar ficará ligada.
imprimimos um aviso para a porta, onde se lê: "proibida a entrada a quem não tiver o maço de tabaco cheio".

agradeço-vos, portanto, por preencherem a minha vida de uma forma tão interessante, saudável e pouco calórica.

terça-feira, 17 de janeiro de 2006

numero 87

ao fundo dos degraus de madeira já gasta dos passos uma porta de madeira e vidro. mais dois degraus, de pedra, um pouco mais largos, para o passeio. no segundo, de pés direitos assentes na calçada, sentava-se aquele homem. todos os dias, à mesma hora. de roupa tão neutra que não se conseguia descrever. não marcava por ser de um estilo, ser velha, nova, escura, colorida, quente ou fresca. o rosto era talvez monocromático. sem nada que o descrevesse ou tornasse único, aos olhares esquivos dos muitos que ali passavam. invisível como os passos que marcavam as pedras dos degraus, uma parte do degrau, talvez, que ocupava. uma parte da fachada do edifício que lhe servia de moldura. estático, como uma gárgula de carne e nervos desfocada da erosão dos dias. ficava direito, as costas largas apoiadas no vidro. um contraste de sombra perfeitamente delineado na luz errante do meio da tarde. poder-se-ia jurar que deixara já queimado no vidro esse seu contorno das costas. as mãos, nem curtas nem compridas, nem bonitas nem feias, nem peludas nem lisas, nem enrugadas ou jovens - assentes nos joelhos com uma precisão simétrica. ficava. estava. fantasma quieto das pedras. parecia aguardar. esperar por alguém. por vezes quebrava essa quietude com um gesto seguro em que os dedos da mão direita se esgueiravam para o tal casaco sem descrição e tiravam do bolso um cigarro. sem maço. e um fósforo. sem caixa. entre o indicador e o médio o cigarro levado aos lábios. entre o polegar e o anelar prendia o fósforo. depois fechava os dedos em torno do pauzinho e raspava-o rapidamente na pedra do degrau. a faísca e a chama, o puxar do primeiro bafo, a primeira nuvem de fumo. os dedos recolhiam ao bolso, largavam o fósforo queimado, retornavam ao joelho. e ali ficava. a deixar a nicotina desfazer-se em cinza entre os lábios, consumindo o único ar que parecia dar-lhe forma aos pulmões. e o único cheiro que o distinguiria, o do fósforo queimado, esvaía-se nos ventos, jacarandás, perfumes, suores, vozes, roçares de casacos.
não parecia reconhecido aos raios de sol quentes ou desagradado ao vento frio ou à chuva. estava. o momento em que se levantava, ninguém nunca se dera ao trabalho de contar. apenas que quando desciam as escadas, ele já lá não estava. onde ia, também não se questionavam. os outros.
dizia um condutor da carris que às vezes, em descendo a calçada ao fim da tarde, se ouvia um homem murmurar, sentado na caixa verde de metal do fundo do elevador - se era o mesmo não se sabe mas era também anónimo demais para se desenhar um maxilar ou apenas um esboço de expressão. parecia gemer e chorar. mas o rosto permanecia assim. igual. nunca lhe perguntou se chorava ou se falava apenas com as vozes da cabeça. nunca lhe perguntou como, apesar do rosto sintético e gemidos estranhos, comprava o passe todos os meses, acto tão corriqueiro. também nunca lhe perguntaram onde comprava tabaco e os fósforos. se a menina que lhos vendia lhe conhecia a cara ou também a fixara por ser a única impossível de fixar.
no dia em que desistisse de esperar, o relevo na pedra teria já abraçado a forma do seu sentar?

segunda-feira, 16 de janeiro de 2006

da pressa

desejando estar noutro qualquer sítio, vendo as árvores e os candeeiros a fugirem dos olhos nervosos.
as mãos fechadas, estáticas, cravadas em tensão nos estofos do carro e as pernas completamente rígidas carregavam num travão invisível, na desesperança de ver chegar uma curva cheia de poças de água e temendo o descontrole de uma coisa tão falível como uma caixa de metal com rodas conduzida por um louco furioso.
as horas escorregavam nos vidros de forma dolorosa e nem a música cantada alto - desavergonhada porque desesperadamente - espantava os medos obscuros e as visões de uma noite escura em que o som da chuva soou demasiado alto e só parou num estrondo ensurdecedor.
o homem ao volante, de cenho franzido e movimentos incertos, tomava agora - tenho a certeza - contornos quase monstruosos, de ser mutante, umas horas atrás pessoa normal, agora quasi-homicida.
às vezes não percebo as pessoas, juro que não percebo. o desprendimento com que se toma responsabilidade sobre a vida dos outros. numa boleia ou numa viagem sozinho, em que se cruzam centenas de vidas à nossa volta.
a possibilidade de se curtir uma viagem de paisagens nocturnas de cortar a respiração, dignas de uma paragem para um cigarro e contemplação, completamente esmagada por um pé num pedal em nome de sabe-se lá que alívio de uma estranha frustração.
hesitava-se entre o não se lhe dizer nada para não o distrair das curvas demasiado apertadas e o falar com ele a ver se por estar na conversa abrandava. corria-se o risco, no entanto, de ele, entusiasmado com a conversa, tirar as mãos do volante para esbracejar as palavras...
demasiado tétrico para ser irónico foram as incontáveis vezes que se falou do meu acidente, em que não tive culpa nenhuma e ia devagarinho [como é que se admite esses malucos que aí andam, pá?!], e de fulano e sicrano terem morrido ou ficado com uma perna enfiada na testa por excesso de velocidade. porque o tom que circulava era o do "coitados, realmente ele há gente que não pensa... mas isso só acontece aos outros e eu posso continuar nesta desculpa esfarrapada de estrada a 150 à hora que nada me acontecerá, porque sou eu, o Rei, o Senhor do Asfalto e conduzo muita bem - olham'esta beleza a curvar e a entrar em contramão no cruzamento [e ele chateado com o cruzamento, porque não devia estar ali e devia ser mais largo], olham'esta qualidade de reacção a acelerar para ultrapassar em cima do traço contínuo [porque a fila lá à frente sempre é lá à frente], olham'estes travões que nem preciso de manter uma distância de segurança de 50 centímetros [e o lembrar-se de lá meter o pé, senhor?]. eu tenho um carro que inexplicavelmente se mantém em cima das quatro rodas mesmo quando faço as maiores barbaridades - que não são barbaridades, porque sou eu que as faço, hem?".
naquele limbo do temer pela vida e do não ter pago a viagem para me por com exigências [como faço num táxi] ou ter confiança suficiente com o senhor para lhe mandar um berro e dizer-lhe que ou ia devagar ou levava um pontapé na boca [note-se que seria em palavras menos simpáticas, mais escatológicas e anatómicas e de vogais bem abertas], mantinha-me em choque catártico, a tentar lembrar-me de respirar, a tentar não reparar de cada vez que o pobre carrinho, tão inteligente, coitadinho, apitava a avisar que se ia em excesso de velocidade [coisa frequente que se tornou ensurdecedora. mas o triste apito acabava por desistir, cheguei a pensar que de afonia], a tentar ignorar a minha cabeça feita chocalho, as minhas costas num monte de ossos sem ordem. e a pensar na desgraça que seria se o senhor em vez do carro dele estivesse a conduzir o meu falecido... e a fazer, bastaria, um terço do que estava a fazer com o dele... é que nem tinha andado 100 metros.
cheguei ao ponto de, no pânico, antever a minha morte já ali naquela curva, sendo o fantástico tecto de abrir - que me mostrava de vez em quando uma lua cheia maravilhosa - o meu voraz assassino, na pessoa de estilhaços cravados no meu pescoço...
...
... de repente, alguém se lembra que se esqueceu de uma mala. ora portanto... uma hora de tortura feita, agora mais uma para ir buscar a mala e outra para voltar ao ponto onde estávamos, mais umas duas e tal até chegar o momento em que sentiria [se realmente conseguíssemos lá chegar] o chão seguro debaixo dos meus pés. acho que nesse momento os meus olhos caíram das órbitas e os meus dedos, já dormentes, perderam o fôlego.

ainda em busca do meu carro novo-semi-novo-usado-sem-estar-muito-ao-menos-com-as-peças-todas-fashavor, dou comigo a pôr de parte a cor, o design e o consumo e a imprimir as páginas do testes de colisão, a analisar as velocidades máximas que atingem, como serão os pneus, se têm tecto de abrir... e a fazer uma lista de pessoas que nunca deixarei que peguem nele, nem para o tirar do estacionamento...

quinta-feira, 12 de janeiro de 2006

maldisse

o dia cinzento com o sol mesmo ali, do lado de lá, mas na mesma cinzento.
o frio ainda maior que fazia nos claustros toda a manhã.
o facto de o trabalho começar cedo demais para tomar o pequeno almoço e acabar tarde demais para almoçar.
o peso das coisas que tinha de carregar.
as unhas partidas, agora que conseguira deixar de as roer, por causa dos ferros, tapetes e parafusos.
os irresponsáveis institucionais com que tinha de lidar que tinham perdido uma chave e já a queriam acusar a ela.
o tempo que demorava a chegar depois de tudo ao escritório.
o facto de ter de ir para o escritório depois de tudo.
o facto de lhe apetecer ficar sentada a olhar para a parede sem produzir a uma semana da entrega dos projectos.
a incapacidade de se sentar a comer como deve ser sem companhia.
a incapacidade de se sentar a comer como deve ser.
a torrada com demasiado sal, sal só nas batatas fritas.
o galão demasiado amargo.
o estado letárgico que a impedia de se levantar e pegar noutro pacote de açúcar.
a gulodice que lhe ia de certeza trazer crises de diabetes aos 30.
o facto de ter de atravessar a estrada e entrar de novo no escritório vazio.
o facto de ter mais trabalho noite dentro.
o facto de não ter carro.
o facto de não ter tempo para tratar do carro.
o facto de não ter tempo para despachar as suas coisas para andar a despachar as dos outros.
a noite mal dormida, de sono demasiado pesado.
a manhã mal acordada, o duche mal tomado, o espelho de olhos desanimados e olheirentos.
o cabelo espigado.
a preguiça de sequer por um creme na cara.
a roupa mal amanhada, nova mas já a borbotar dos carregos, que a fazia sentir-se mais trapo-fêmea que mulher.
o facto de não ter ouvido nenhuma música durante todo o dia.
a rapariga do café que, de bata branca e touca na cabeça, brincara com um cão bebé às pintas e voltara para trás do balcão sem lavar as mãos.
o facto de ter reparado mais nisso que no cão bebé às pintas.
o facto de isso a fazer sentir-se cada vez mais parecida com a mãe.
a mulher que a olhava com um sorriso-pensativo-quase-paternalista na mesa do fundo.
a máquina do café que não tinha Luckies nem Detroits.
o ter de ir gastar dinheiro em tabaco.
as miúdas estragadas que à porta do Extra todos os dias pediam uma moedinha como se nunca a tivessem visto.
o facto de lhe ser inevitável dar-lhes mesmo uns trocos ou um cigarro à saída.
o sorriso demasiado apagado quando viu um menino chinês a perguntar "quanto custa buáxás" ao senhor do Extra.
o taxista que quase a atropelou na passagem de peões.

maldisse o ter acordado com os pés de fora ou com o rabo virado para a lua ou nem carne nem peixe ou lá o que foi que a deixou o dia todo a maldizer tudo.
detesto estes dias cinzentos.