terça-feira, 17 de janeiro de 2006

numero 87

ao fundo dos degraus de madeira já gasta dos passos uma porta de madeira e vidro. mais dois degraus, de pedra, um pouco mais largos, para o passeio. no segundo, de pés direitos assentes na calçada, sentava-se aquele homem. todos os dias, à mesma hora. de roupa tão neutra que não se conseguia descrever. não marcava por ser de um estilo, ser velha, nova, escura, colorida, quente ou fresca. o rosto era talvez monocromático. sem nada que o descrevesse ou tornasse único, aos olhares esquivos dos muitos que ali passavam. invisível como os passos que marcavam as pedras dos degraus, uma parte do degrau, talvez, que ocupava. uma parte da fachada do edifício que lhe servia de moldura. estático, como uma gárgula de carne e nervos desfocada da erosão dos dias. ficava direito, as costas largas apoiadas no vidro. um contraste de sombra perfeitamente delineado na luz errante do meio da tarde. poder-se-ia jurar que deixara já queimado no vidro esse seu contorno das costas. as mãos, nem curtas nem compridas, nem bonitas nem feias, nem peludas nem lisas, nem enrugadas ou jovens - assentes nos joelhos com uma precisão simétrica. ficava. estava. fantasma quieto das pedras. parecia aguardar. esperar por alguém. por vezes quebrava essa quietude com um gesto seguro em que os dedos da mão direita se esgueiravam para o tal casaco sem descrição e tiravam do bolso um cigarro. sem maço. e um fósforo. sem caixa. entre o indicador e o médio o cigarro levado aos lábios. entre o polegar e o anelar prendia o fósforo. depois fechava os dedos em torno do pauzinho e raspava-o rapidamente na pedra do degrau. a faísca e a chama, o puxar do primeiro bafo, a primeira nuvem de fumo. os dedos recolhiam ao bolso, largavam o fósforo queimado, retornavam ao joelho. e ali ficava. a deixar a nicotina desfazer-se em cinza entre os lábios, consumindo o único ar que parecia dar-lhe forma aos pulmões. e o único cheiro que o distinguiria, o do fósforo queimado, esvaía-se nos ventos, jacarandás, perfumes, suores, vozes, roçares de casacos.
não parecia reconhecido aos raios de sol quentes ou desagradado ao vento frio ou à chuva. estava. o momento em que se levantava, ninguém nunca se dera ao trabalho de contar. apenas que quando desciam as escadas, ele já lá não estava. onde ia, também não se questionavam. os outros.
dizia um condutor da carris que às vezes, em descendo a calçada ao fim da tarde, se ouvia um homem murmurar, sentado na caixa verde de metal do fundo do elevador - se era o mesmo não se sabe mas era também anónimo demais para se desenhar um maxilar ou apenas um esboço de expressão. parecia gemer e chorar. mas o rosto permanecia assim. igual. nunca lhe perguntou se chorava ou se falava apenas com as vozes da cabeça. nunca lhe perguntou como, apesar do rosto sintético e gemidos estranhos, comprava o passe todos os meses, acto tão corriqueiro. também nunca lhe perguntaram onde comprava tabaco e os fósforos. se a menina que lhos vendia lhe conhecia a cara ou também a fixara por ser a única impossível de fixar.
no dia em que desistisse de esperar, o relevo na pedra teria já abraçado a forma do seu sentar?

segunda-feira, 16 de janeiro de 2006

da pressa

desejando estar noutro qualquer sítio, vendo as árvores e os candeeiros a fugirem dos olhos nervosos.
as mãos fechadas, estáticas, cravadas em tensão nos estofos do carro e as pernas completamente rígidas carregavam num travão invisível, na desesperança de ver chegar uma curva cheia de poças de água e temendo o descontrole de uma coisa tão falível como uma caixa de metal com rodas conduzida por um louco furioso.
as horas escorregavam nos vidros de forma dolorosa e nem a música cantada alto - desavergonhada porque desesperadamente - espantava os medos obscuros e as visões de uma noite escura em que o som da chuva soou demasiado alto e só parou num estrondo ensurdecedor.
o homem ao volante, de cenho franzido e movimentos incertos, tomava agora - tenho a certeza - contornos quase monstruosos, de ser mutante, umas horas atrás pessoa normal, agora quasi-homicida.
às vezes não percebo as pessoas, juro que não percebo. o desprendimento com que se toma responsabilidade sobre a vida dos outros. numa boleia ou numa viagem sozinho, em que se cruzam centenas de vidas à nossa volta.
a possibilidade de se curtir uma viagem de paisagens nocturnas de cortar a respiração, dignas de uma paragem para um cigarro e contemplação, completamente esmagada por um pé num pedal em nome de sabe-se lá que alívio de uma estranha frustração.
hesitava-se entre o não se lhe dizer nada para não o distrair das curvas demasiado apertadas e o falar com ele a ver se por estar na conversa abrandava. corria-se o risco, no entanto, de ele, entusiasmado com a conversa, tirar as mãos do volante para esbracejar as palavras...
demasiado tétrico para ser irónico foram as incontáveis vezes que se falou do meu acidente, em que não tive culpa nenhuma e ia devagarinho [como é que se admite esses malucos que aí andam, pá?!], e de fulano e sicrano terem morrido ou ficado com uma perna enfiada na testa por excesso de velocidade. porque o tom que circulava era o do "coitados, realmente ele há gente que não pensa... mas isso só acontece aos outros e eu posso continuar nesta desculpa esfarrapada de estrada a 150 à hora que nada me acontecerá, porque sou eu, o Rei, o Senhor do Asfalto e conduzo muita bem - olham'esta beleza a curvar e a entrar em contramão no cruzamento [e ele chateado com o cruzamento, porque não devia estar ali e devia ser mais largo], olham'esta qualidade de reacção a acelerar para ultrapassar em cima do traço contínuo [porque a fila lá à frente sempre é lá à frente], olham'estes travões que nem preciso de manter uma distância de segurança de 50 centímetros [e o lembrar-se de lá meter o pé, senhor?]. eu tenho um carro que inexplicavelmente se mantém em cima das quatro rodas mesmo quando faço as maiores barbaridades - que não são barbaridades, porque sou eu que as faço, hem?".
naquele limbo do temer pela vida e do não ter pago a viagem para me por com exigências [como faço num táxi] ou ter confiança suficiente com o senhor para lhe mandar um berro e dizer-lhe que ou ia devagar ou levava um pontapé na boca [note-se que seria em palavras menos simpáticas, mais escatológicas e anatómicas e de vogais bem abertas], mantinha-me em choque catártico, a tentar lembrar-me de respirar, a tentar não reparar de cada vez que o pobre carrinho, tão inteligente, coitadinho, apitava a avisar que se ia em excesso de velocidade [coisa frequente que se tornou ensurdecedora. mas o triste apito acabava por desistir, cheguei a pensar que de afonia], a tentar ignorar a minha cabeça feita chocalho, as minhas costas num monte de ossos sem ordem. e a pensar na desgraça que seria se o senhor em vez do carro dele estivesse a conduzir o meu falecido... e a fazer, bastaria, um terço do que estava a fazer com o dele... é que nem tinha andado 100 metros.
cheguei ao ponto de, no pânico, antever a minha morte já ali naquela curva, sendo o fantástico tecto de abrir - que me mostrava de vez em quando uma lua cheia maravilhosa - o meu voraz assassino, na pessoa de estilhaços cravados no meu pescoço...
...
... de repente, alguém se lembra que se esqueceu de uma mala. ora portanto... uma hora de tortura feita, agora mais uma para ir buscar a mala e outra para voltar ao ponto onde estávamos, mais umas duas e tal até chegar o momento em que sentiria [se realmente conseguíssemos lá chegar] o chão seguro debaixo dos meus pés. acho que nesse momento os meus olhos caíram das órbitas e os meus dedos, já dormentes, perderam o fôlego.

ainda em busca do meu carro novo-semi-novo-usado-sem-estar-muito-ao-menos-com-as-peças-todas-fashavor, dou comigo a pôr de parte a cor, o design e o consumo e a imprimir as páginas do testes de colisão, a analisar as velocidades máximas que atingem, como serão os pneus, se têm tecto de abrir... e a fazer uma lista de pessoas que nunca deixarei que peguem nele, nem para o tirar do estacionamento...

quinta-feira, 12 de janeiro de 2006

maldisse

o dia cinzento com o sol mesmo ali, do lado de lá, mas na mesma cinzento.
o frio ainda maior que fazia nos claustros toda a manhã.
o facto de o trabalho começar cedo demais para tomar o pequeno almoço e acabar tarde demais para almoçar.
o peso das coisas que tinha de carregar.
as unhas partidas, agora que conseguira deixar de as roer, por causa dos ferros, tapetes e parafusos.
os irresponsáveis institucionais com que tinha de lidar que tinham perdido uma chave e já a queriam acusar a ela.
o tempo que demorava a chegar depois de tudo ao escritório.
o facto de ter de ir para o escritório depois de tudo.
o facto de lhe apetecer ficar sentada a olhar para a parede sem produzir a uma semana da entrega dos projectos.
a incapacidade de se sentar a comer como deve ser sem companhia.
a incapacidade de se sentar a comer como deve ser.
a torrada com demasiado sal, sal só nas batatas fritas.
o galão demasiado amargo.
o estado letárgico que a impedia de se levantar e pegar noutro pacote de açúcar.
a gulodice que lhe ia de certeza trazer crises de diabetes aos 30.
o facto de ter de atravessar a estrada e entrar de novo no escritório vazio.
o facto de ter mais trabalho noite dentro.
o facto de não ter carro.
o facto de não ter tempo para tratar do carro.
o facto de não ter tempo para despachar as suas coisas para andar a despachar as dos outros.
a noite mal dormida, de sono demasiado pesado.
a manhã mal acordada, o duche mal tomado, o espelho de olhos desanimados e olheirentos.
o cabelo espigado.
a preguiça de sequer por um creme na cara.
a roupa mal amanhada, nova mas já a borbotar dos carregos, que a fazia sentir-se mais trapo-fêmea que mulher.
o facto de não ter ouvido nenhuma música durante todo o dia.
a rapariga do café que, de bata branca e touca na cabeça, brincara com um cão bebé às pintas e voltara para trás do balcão sem lavar as mãos.
o facto de ter reparado mais nisso que no cão bebé às pintas.
o facto de isso a fazer sentir-se cada vez mais parecida com a mãe.
a mulher que a olhava com um sorriso-pensativo-quase-paternalista na mesa do fundo.
a máquina do café que não tinha Luckies nem Detroits.
o ter de ir gastar dinheiro em tabaco.
as miúdas estragadas que à porta do Extra todos os dias pediam uma moedinha como se nunca a tivessem visto.
o facto de lhe ser inevitável dar-lhes mesmo uns trocos ou um cigarro à saída.
o sorriso demasiado apagado quando viu um menino chinês a perguntar "quanto custa buáxás" ao senhor do Extra.
o taxista que quase a atropelou na passagem de peões.

maldisse o ter acordado com os pés de fora ou com o rabo virado para a lua ou nem carne nem peixe ou lá o que foi que a deixou o dia todo a maldizer tudo.
detesto estes dias cinzentos.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2006

arrepios

numa dessas longas noites de trabalho, quando o cigarro à porta não sabe tão bem porque o vento enregela os dedos, quando apenas algumas luzes se mantêm acesas nas janelas da rua escura, num pequeno estúdio dos arredores de Lisboa, o trabalho tem de ser feito. doa a quem doer...


care bears | ep. 28 | personagem "arrepios" | take 1

nota: não recomendável a pessoas algo sensíveis. não ouvir com o patrão por perto.

terça-feira, 10 de janeiro de 2006

thumbelina's law

uma colega teve um pequeno acidente. culpada por azar, porque o outro é que ia a abrir.
ouço-a a manhã toda, enquanto enrolamos cabos e espalhamos panos e aparafusamos, ao telefone com a mãe, que está na seguradora por ela.
de regresso ao escritório, ela dá-me boleia. chamadas insistentes de um número desconhecido. pára na berma e atende. do outro lado berreiro. touro com ascendente em virgem já se sabe... exalta-se, responde já sem paciência porque a senhora esposa do condutor telefona com acusações, depois de o próprio ter passado a semana a ligar-lhe com ameaças. desliga o telefone na cara da mulher e acende um cigarro. eu acendo outro e sorrio quando o telefone volta a tocar. estendo a mão perante a cara estupefacta da minha colega e atendo, piscando-lhe o olho e com uma longa inspiração. endireito as costas, traço a perna, voz colocada e extremamente calma. vou-me divertir...

- muito boa tarde.
ouço uma respiração como se fosse começar um ataque e ficasse desarmada.
- ... b-b-boa t-t-tarde...? estou a falar com quem?
- com a advogada da Dona M. presumo que seja a esposa do senhor com quem houve a colisão...?
- s..s...sim... - pequena recuperação, retoma o registo de berreiro - mas você é advogada o quê, hem? tou mesmo a ver, e atendia agora, se ainda agora falei com ela! dê-me já o seu nome, se é advogada! olhe que eu também tenho advogado!
- minha senhora, acredite no que quiser. por acaso, além de advogada sou amiga da Dona M. e estava no carro com ela e pude assistir à vossa conversa. não lhe dou o meu nome porque prefiro manter-me apenas como amiga da Dona M. até ao momento em que se verifique a necessidade de levarmos esta situação a tribunal, o que penso que seria um disparate, uma vez que me parece que apenas há um mal-entendido...
- pois, mal-entendido! o mal-entendido é a Dona M. ter carta, sabia? pessoas dessas a conduzir como é que se admite! nunca vi! escorregou-lhe o pé no tapete, tá bem! era só o que faltava!
- minha senhora, as condições em que aconteceu o acidente foram devidamente explanadas na declaração amigável de acidente. neste momento o que há a fazer é dar seguimento ao processo com as seguradoras.
- pois mas a Dona M. não meteu os papéis! ela pensa que nos engana mas não meteu, que eu sei, porque a minha seguradora já me deu os recados de que ela não meteu. e ainda por cima é malcriada comigo ao telefone, desliga-me assim e diz que não tem nada que falar comigo!?!
- como deve imaginar, minha senhora, é complicado para a Dona M. ter recebido toda esta semana chamadas do seu marido para o telemóvel pessoal com ameaças... especialmente depois de já ter tratado de tudo, conforme a informou... qualquer pessoa fica alterada e enervada com tanta insistência em acusá-la erroneamente.
- mas não tratou nada, então não sei que não tratou?! veio com conversas que tratava de tudo mas eu tenho os recados da seguradora em como não tratou, que eu ligo para lá todos os dias e foi o que me disseram! nós somos pessoas de bem, honestas e trabalhadoras minha senhora! - aqui, falava já em metade das rotações e eu já podia manter o telemóvel perto da orelha.
- somos todos, minha senhora. mas porque é que parte do princípio que a Dona M. não é? posso garantir-lhe que ela tratou pessoalmente de tudo, tal e qual lhe disse. eu acompanhei tudo. ela deu logo andamento ao processo. depois de receber o recado do seu marido, visto que estava a trabalhar, pediu à mãe dela para lá ir esta manhã e está tudo conforme os trâmites necessários.
- então porque é que...?
- minha senhora, o que se passa é muito simples. neste momento são as duas seguradoras que têm de tratar da situação. o que suspeito que esteja a acontecer, e não seria novidade, é que estão com algum problema burocrático ou de passagem de informação, e como sabe tão bem como eu, neste país, é mais fácil culpar o cliente que assumir a responsabilidade da empresa...
- p-p-pois... se calhar. hoje em dia é tudo assim...
- o que eu lhe sugiro é que passe a pressionar a sua seguradora, e, se quiser, a dela.
- pois... se calhar é melhor eu começar a chatear a seguradora em vez da Dona M...
- e não se esqueça que isto envolve muita papelada, demora sempre algum tempo a resolver.
- pois... olhe, então desculpe lá o incómodo, sim? desculpe lá. muito boa tarde.
- muito boa tarde para si também, minha senhora. cumprimentos ao marido.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2006

a girl has got to do what a girl has got to do


[ms]

na sequência do abrupto falecimento do meu jippy, depois das mentiras mal mastigadas do outro senhor - que nem a companhia de seguros dele convenceu -, depois da vitória do Bem sobre o Mal, depois de ter recebido oficialmente e peremptoriamente a confirmação do perito de que foi "perda total", e dado que o processo burocrático todo está a chegar ao fim, vejo-me perante a necessidade de comprar um novo carro.
não novo-novo, claro, porque o montante não dá para tanto, mas um usado em bom estado.
pensei muito em guardar este dinheiro e comprar uma vespa, mas infelizmente preciso mesmo de quatro rodas com chapa à volta para os meus carregos em dias de chuva, para não ter de viver em função de empréstimos da boa vontade alheia, que tem limite de paciência e vida própria...

por isso, venho pedir ajuda a todos os polegares que por aqui passam:
um carro recente [tipo 2002 - 2003] que beba pouco, que seja de confiança a conduzir, que não tenha revisões [normais] muito caras, que dê para dar boleia aos amigos [não necessariamente 5 portas] e seja bonitinho.
até 8000€, à venda em Lisboa.
não estou interessada em compra ao próprio porque preciso de garantia. portanto, indiquem o stand.

suggestions anyone...?

sábado, 7 de janeiro de 2006

a noiva



abre os olhos ainda não acordou o mundo. na janela ainda sem cortina passam pequenos raios de luz, tímidos, dando-lhe os solitários bons dias. a cama demasiado grande sem o outro corpo que a escolheu, revolvida da noite sem sono de borboletas na barriga, as paredes ainda largando o cheiro da tinta pintada a dois há poucos dias. larga os lençóis e a preguiça hesitante. ele já terá acordado? a água escorre fervente pelo corpo que teima em manter-se arrepiado e tenso. perde mais tempo no creme com o cheiro do perfume que a pele absorve, sedenta. umas calças de ganga, um casaquinho e rabo de cavalo. acende as luzes da cozinha e engole sem vontade uma torrada.

o telefone toca pela primeira vez. não é ele, hoje recusa-se a falar com ela. a amiga está lá em baixo à espera. desce com a carteira e telemóvel no bolso do casaco e chaves atrapalhadas na mão. a conversa amena distrai-a e as revistas no cabeleireiro também. ele ter-se-á lembrado da flor para a lapela ou irá levar a teima dele avante? o ferro queima-lhe ao de leve uma orelha e o cheiro do spray fixante para as ondas no cabelo dá-lhe alguma náusea. quando levanta a cabeça e se mira ao espelho, ainda com a roupa do dia a dia, não se percepciona.

regressa e o telefone toca de novo, abre a porta e entra a irmã de mala prateada na mão, recheada de pincéis e frascos brilhantes. senta-se à janela e vai dando dicas à amiga para escolher uns cds tentando não se mexer. será que ele gosta deste castanho nos olhos? atende mais meia dúzia de telefonemas, explica caminhos e horários. depois de meia hora de risos calmos e algumas caretas, o espelho volta a sorrir-lhe, ainda atordoado.

vai ao quarto que será escritório mas onde por agora a única coisa que o tem é um cabide com um vestido branco pendurado no puxador da janela. as mãos tremem-lhe ao subir as meias de vidro pelas pernas. não serão demais? aos dedos escapa o caminho do fecho do soutien que conhecem de cor. o verniz já secou, de certeza? o saiote que já ensaiou parece-lhe maior e a saia demasiado apertada. o top não tem aqui uma linha solta? enrola-se na pequena estola de plumas que parece não assentar nos ombros como da última vez, no atelier da costureira. a irmã dele telefona à gargalhada e diz que ele nem dormiu. será verdade? a amiga tem de lhe calçar as sandálias e a irmã ajeita-lhe os caracóis soltos perto do ganchinho.

dobra a roupa e faz a cama. será que ele já chegou? estará à minha espera? novo telefonema. parece que ele já está a roer os cotovelos, à falta de unhas. coitadinho. mas ele estava tão calmo ontem. mete numa malinha o baton e perfuma-se. pergunta três vezes se cheira bem. que horas são?

de cabide na mão sem se saber ao lado do armário, estaca em frente ao espelho. uma última vez. e rodopia. larga uma gargalhada e um sorriso ansioso. já está.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2006

still in rebounce

hoje fiz uma coisa que me espantou a mim própria. recusei um trabalho em teatro.
os motivos são meus. muito meus. mas pela primeira vez inspirei fundo e disse que não. depois de experimentar, claro.
as forças já não são as que eram, e curiosamente as ilusões também não.
pesei na balança os prós e os contras, as pálpebras pesaram-me e o peito pesou-me. senti-me estranha, diferente e tive medo de me sentir injusta. com os outros e comigo. entre o "há-de aparecer qualquer coisa que valha a pena", o "estás a ficar velha, oportunidades não caem do céu" e "ainda achas que vais chegar a algum lado assim?" ou até "mais vale saíres agora do que não teres coragem para sair depois" puxei de uma golfada de ar sem cigarro e no suspiro deixei sair a razão.
assim não, por desespero não. por amor. por orgulho. como sempre foi.

...

se calhar estou mesmo a ficar velha...
mas nesse caso com a idade não vem a sanidade, senhores...

quarta-feira, 4 de janeiro de 2006

do sono ou como enlouquecer uma produtora

deixo-me dormir mais 20 minutos e chego os mesmo 20 atrasada ao tal do monumento para a montagem. os carregadores já lá estão e começamos a labuta. da colega [substituta, esta semana, mas igualmente franzina, só que mais nervosa e caótica] nem sombra. começo logo a remoer, ela no dia anterior tinha-me pedido para a acordar, o que fiz, contrariada e avisando que isso é favor que só faço uma vez. pego no telefone pronta a ouvir a coisa do "está trânsito" ou "adormeci mas já tou a caminho". ouço uma voz de almofada que me arrepia toda. "então, V.?" "então o quê?" "espectáculo... remember?" "mas que horas são?" aieee "9:30" "ai, desculpa, vou já para aí".
chegou estava quase tudo montado. uma hora e dez depois de mim. com a loucura da confusão de berbequins e porcas e panejamento, nem dei conta das horas nem das pessoas que já estavam. entra uma das actrizes a cantar "lágrima" e o mundo pára um bocadinho. não é toda a gente que tem direito a show case de A Naifa com o seu fado preferido... mesmo entre carpetes imundas e parafusos.
o momento zen termina quando, às 10:45, dou pela falta de dois actores... com espectáculo a começar às 11:00.
um foi acordado aos primeiros toques de telefone. o outro devia estar com uma moca tão grande que só acordou depois de várias tentativas. às professoras foi dito que um dos actores tinha tido um acidente de carro e estava a resolver o problema. pedimos à M que começasse a visita guiada com os 50 miúdos e que enchesse chouriços para os dois ramelas chegarem. ao contrário das piores previsões [o espírito de equipa nos bons actores é, de facto, sintomático], ela prontificou-se a fazer uma longa visita guiada por todos os meandros do dito monumento e disse que se necessário até recitava Pessoa.
assim se conseguiu evitar o desastre, e os meus joelhos fraquejaram quando o último rameloso entrou a correr nos claustros.
eu não sei... eu acho que um atraso é normal. e chego quase sempre atrasada. mas... assim? sempre trabalhei com gente que brasicamente pagava do seu bolso para poder ir ensaiar e representar... e nunca tive destas agonias! não havia a coisa [a que eu me recusei quando me passaram a pasta] de ligar aos meninos para os acordar. para fazerem 2 horas de trabalhinho pago ao mês, asseguradinho... e ainda é preciso coordenar as coisas entre o respeito pelo colega que lá esta desde manhã e o respeito pelo espectáculo em si.
o mundo, está, de facto, ao contrário...

terça-feira, 3 de janeiro de 2006

imagens

de um branco leitoso e sorrisos de luzes. de pincéis desenhando meigos com pó as linhas da alegria. de orgulhos alheios e cumplicidades. divago algo alheia, satisfeita com as mãos dadas e o sim das certezas, com banda sonora fraterna. crenças à parte. teorias à parte. amor é universal e a lei que gosto de seguir. de lágrimas nos olhos, pois que chorona sempre serei quando chega a altura em que o filme é delico-doce e escorre nos meus olhos em toque de realidade.
e sigo com os olhos e a câmara para mais tarde recordar, os passos decididos num caminho de pedras sem dores.
o arrulhar dos talheres, os fumos, os goles embriagados e as conversas dispersas não me prendem. anseio pelo momento prometido em que os sons serão outros, compassados, trementes e suados. e assim entro na nova data, no novo número. dançando voraz cada nota bem disposta, rodando e arrancando sorrisos meus. ao som de uma qualquer música velhinha de rock and roll.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2005

paginas ou o proximo acto

os dias entretecem-se uns nos outros e as pessoas umas nas outras. momentos que passam a correr e momentos que demoram a passar. querer apanhar o tempo bom e querer despachar o mau. querer ter tempo para saborear.
há muitos anos atrás não me conhecia como sou. não me conheço amanhã.
falar de ano novo e de dia novo e de segundo seguinte novo. de vida por estrear por construir com os cimentos dos passados.
de laços improváveis de laços estranhos de laços simples de laços quebrados e laços desatados. de partilhas corrompidas. de calmarias e tormentas.
os balanços são sempre feitos com pólos negativos e positivos, balanças mais ou menos umbilicais. medos, riscos e petiscos.
levantar a cabeça e seguir em frente. a minha avó na minha cabeça, a cada passo.

ganhei desejos de boas festas, bom natal, bom ano. digo ganhei porque do outro lado de cada um estava uma quente mão estendida. generosa. porque confiante, porque confia em mim. sensação de um abraço, de uma entrega. uma partilha inacreditável de coisas tão diferentes. muitas destas mãos são novas no meu mundo e todas são valiosas. a todas e cada uma tenho a dizer apenas pequenas coisas que me deram outras mãos e que guardo como tesouros:

sê feliz . um dia de cada vez, mas começa já . agarra-te ao que gostas, não esperes . faças o que fizeres, gosto de ti na mesma . levanta a cabeça e segue em frente . todos os dias dói menos um bocadinho . azul com uma lua . laranja . a vida é tua doa a quem doer . é bom falar contigo . há, no entanto, no meio de tanto caos, constantes . sorri .

não faço resoluções de ano novo [esta passagem de ano até vai ser... sui géneris] , vou tentando fazê-las a cada dia. a ver se a vida e eu melhoramos mais depressa mas com objectivos adaptados a cada situação e prazos mais elásticos...

por isso até segunda! ;)

quinta-feira, 29 de dezembro de 2005

aha

The Movie Of Your Life Is A Black Comedy

In your life, things are so twisted that you just have to laugh.
You may end up insane, but you'll have fun on the way to the asylum.

Your best movie matches: Being John Malkovich, The Royal Tenenbaums, American Psycho

tacto

procurou o conforto do assento atapetado meio curvo da carruagem, onde as suas costas não encaixavam bem. deixou-se embalar pelos roncos ecoantes da velocidade e pelos espasmos de cada paragem. os cheiros e vozes à sua volta contavam-lhe as histórias de cada um e de ninguém ao certo. também não interessava. a cada zumbido de portas deslizantes a azáfama dos pés apressados e rabugentos. os encontrões surdos e as malas das senhoras a baterem nas cadeiras. "com licença" "desculpe" "quer-se sentar?". os sacos de plástico numa restolhada. os anéis a tinir nos ferros.
de súbito, um perfume. não se mexeu, mas os seus músculos retesaram-se sem clemência para os sentidos assustados. nos solavancos ritmados subiu a música há muito adormecida, desperta pelo aroma que agora lhe trazia à lingua o sabor amargo e revitalizante do perfume acabado de pôr. ao seu lado o calor de uma perna. mesmo ao lado da sua. uma simples perna, um membro do corpo humano. que transportava em si o perfume mas não o cheiro. e um calor, uma queimadura.
as imagens assolavam-na em rasgos de luz que esquecera. que arrumara numa prateleira juntamente com o olhar. o calor do corpo dele em doses de loucura e maciez. um pescoço moreno e aquele ponto no centro do peito. zonas onde se acumulavam. as mãos dela, o perfume e o cheiro dele. e o odor do amor acabado de fazer, de partilhar, de lamber, de gritar e de segredar.
as imagens desvaneceram-se quando quis lembrar-se. lembrar-se do brilho dos olhos dele, aquele brilho que a levara sempre. e que levara sempre com ela. mas que não conseguia visualizar. era demasiada luz, talvez.
abranda o comboio. o movimento da perna masculina ao seu lado confessando-lhe que tinha de se ir embora. um toque de mão grande e perfumada inusitado no seu ombro por um solavanco encurvado que provocou um desequilíbrio. continuou sem se mexer. ao pedido de desculpas respondeu um sorriso aterrorizado.
porque agora o comboio não a embalava. eram de novo as vergastadas no carro no dia em que o perdera. em que o vira pela última vez. deitado ao seu lado num qualquer monte de entulho e ervas daninhas.
desorientada, afastou os pensamentos, inclinou-se para a presença à sua frente e perguntou em que paragem estavam. a sua era a próxima. uma qualquer mão caridosa de pele fina de menina nova ajudou-a a levantar-se e a aliviar a sua pressa. de um gesto mecânico, abriu a mão e na bengala o chão ganhou contornos de pés e sacos de plástico. o vazio entre a carruagem e o cais. tacteou os óculos escuros e compôs o cabelo. e concentrou os sentidos no ritmo da bengala, cantando-lhe para os dedos o caminho na triste melodia de cada dia que passa igual.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2005

frases para o dia

"eu olho para ti [no escritório a trabalhar sem gosto] e definho"
"agarra-te ao que gostas, não esperes"
[JB . actor . in charcutaria francesa]

"you can feel my lips undress your eyes"
[franz ferdinand . in darts of pleasure]

terça-feira, 27 de dezembro de 2005

faz-me "espece"...

à saída do escritório, para ir almoçar, encontro na entrada um rapaz e uma rapariga a olharem para a lista de empresas que co-habitam neste multicentro como se estivessem a consultar um menu...
- desculpe, queria uma informação...
sempre disponível, preparei-me para ajudar... nunca me pensei que me fosse cortar a digestão...
- aquela empresa, a XPTO Filmes, aceitam actores aprendizes?
mas mas mas... como actores aprendizes...? contive-me e respondi o mais polidamente:
- por acaso faço parte dessa empresa, o que lhe posso dizer é que normalmente trabalhamos com uma carteira de actores profissionais e, se estiver interessada, pode mandar currículo para o nosso e-mail. se andarmos á procura entramos em contacto...
- sim, mas e assim pessoas que queiram aprender...?
então... pera lá... tzzzt... tou em curto-circuito...
- é que nós queríamos começar a fazer umas coisas, aprender, e queríamos informações sobre se aceitam aprendizes.
mas o que é que ela quer que eu responda...? mas mas mas...?
- olhe, mas tem formação? o que lhe posso dizer é que se calhar o mais indicado era talvez começar por fazer cursos na área, há imensa coisa na agenda cult...
- pois, mas eu queria já ir fazendo coisas
suspiro, desespero... muito...
- bem, então pode inscrever-se na agência XXXX, também têm escritórios aqui, deve conhecer porque são muito solicitados no meio...
sai-se o outro, que tinha estado calado:
- sim, eu já fiz imensos castings para eles...
- p... pois... inscreve-se e pode ser que a chamem e que tenha sorte...
ficaram com cara de parvos a olhar para a ementa.
- e aquela XXXX ali, também faz espectáculos? tem um nome que parece que sim. se calhar aceitam aprendizes...
claro que sim, minha querida... é só facilidades!
- olhe, isso não sei, são tudo empresas diferentes, se calhar é melhor falar directamente com eles, mas parece-me que é uma produtora de televisão, não tem muito a ver co...
- e a XXXX, ali - de dedo espetado - se calhar aceitam. eu tenho um curso de jornalismo...
poizolhequenãoparece....
- errrr... acho que não há nenhuma empresa aqui que trabalhe com jornalistas...
- pois, se calhar... então obrigada...
continuaram com cara de otários a olhar para o quadro como se lhes fosse cair dali uma letrinha que se transformasse em grande produtor dos morangos com açúcar a oferecer-lhes o contrato milionário, fama e casacos de pele.
saíram dali ao mesmo tempo que eu, sem ter entrado nem falado com ninguém, de nariz no ar com a mesma cara taralhoca, talvez à procura de alguma porta com um telão a dizer: "procuram-se aprendizes para grande novela da TVI. pagamos à hora, refeições e transportes por conta. venha aprender e fazer umas coisas."
eu considerei voltar a subir e pedir no gabinete de psicólogos aqui do lado um Xanax...

aviso à navegação:
ando a tentar vingar neste meio há uma porrada de anos. tenho formação em várias áreas. faço teatro. faço dobragens. tive de aprender a fazer produção para pôr os espectáculos de pé. vou a castings. rebento-me toda para ganhar a vida e poder fazer mais qualquer coisa, nem que seja uma peça de vão de escada.
já fiz peças, dessas de vão de escada, em que acreditava para 5 macacos. já cancelei espectáculos. já chorei de frustração por ter de cancelar espectáculos. já arrumei muita casa que tive de deixar. já fui preterida pelo número do soutien.
já apresentei um programa de tv. numa das vezes estava afónica. sujeitei-me à coisa do "vota-na-apresentadora-de-quem-mais-gostas-tipo-miss". apesar do metro e meio e uns trocos, da barriguinha, das borbulhas e da afonia, era a preferida do público. mas não da produção. já fiz uma peça em que tinha de cantar, dançar, ter o maldito sex-appeal, usar peruca loira, mostrar quase tudo [ou nada eheheh] e ainda assim ser levada a sério, com ensaios feitos em casa em frente à televisão porque a equipa dos "profissionais" não estava com paciência para ensaios de substituição. já tive de fazer um espectáculo uma semana depois de a minha avó morrer. já fiz castings onde fui elogiada para descobrir que afinal já tinham escolhido a trinca-espinhas e era só manobra de marketing.
andamos todos os dias lado a lado com manequins de sorrisos assépticos e medidas impecáveis. veneramos aqueles que às vezes ninguém conhece, vêmo-los bater no fundo e perguntamo-nos se valerá a pena continuar. imploramos por uma oportunidade para mostrarmos que sabemos o que estamos a fazer, que não somos só mais um iludido. tentamos levar avante projectos nossos sem um cêntimo para um cartaz. vemos o lixo que passa na tv e perguntamo-nos porquê. vemos a facilidade com que surgem as oportunidades para tanta gente que no fundo só quer "experimentar" e acaba a abrir um bar ou uma loja de decoração ou a casar com um futebolista.
isto custa, senhores. dói. na alma. todos os dias em que não temos trabalho, em que todos os ossos do corpo dizem que somos capazes mas o espelho, a auto-estima, o "mercado" não nos deixam acreditar.
o mínimo [e o máximo] que podemos fazer é lutar, à séria, por isso.
isto é um vício. é muito bom. mas requer trabalho. entrega. devoção. chorar muito. não dormir. suar. e ter respeito, caramba.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2005

consoada

|maria do céu|
abre a porta com o ar curioso que traduz a única vivacidade que lhe resta dos 30 anos. o resto nos olhos é tristeza. ainda veste a roupa de trabalho na quinta do pai, onde ordenha e trata as vacas. já não passa a ferro porque a preguiça entorpece-lhe a vontade. é grande, alta, cabelo crespo curto e olheiras que são já parte da pele. deixa entrar de sorriso dorido na pequena casa, recebe as prendinhas com beijos húmidos, amargos, de olhar esquivo. a bebé está a dormir. o marido agora não tem trabalho nas obras e foi passar o Natal com a outra mulher e os outros filhos na Roménia.
não há presépio, apenas um pequeno projecto de árvore de natal cortado de um ramo de pinheiro, com algumas bolas velhas. também não há embrulhos na base da árvore.
são nove da noite e estava a preparar-se para se deitar. à despedida, de alma cheia de lágrimas, mesmo antes de fechar a porta, olha para o fundo da rua. o casarão do irmão, todo iluminado a preceito para a quadra, envenena-lhe o ar com o cheiro a calor e rabanadas.

|dona fernanda|
com nome de avó, puxa o portão de corpo grande, maternal em cada poro, aberto ao abraço. a vivenda está silenciosa. as bicicletas e o cesto de basket esperam quem lhes dê um propósito. bola de futebol adormecida e cds de bandas com nomes estranhos que não cantam povoam a grande sala. o marido dormita em frente à televisão, a renda descansa ao lado do comando. a um canto roupa de rapaz jovem dobrada com cuidado e cheirosa do ferro de engomar que lhe tira o sentido das horas perdidas. ao vapor vai juntando palavras e mais lágrimas em lamento solitário, saudoso, em que não há barragem que lhe retenha a liquidez da dor. ajeita de mãos trémulas os embrulhos em frente à enorme árvore decorada, desligada, com os outros que reservou para quando, depois do natal, voltarem de viagem. os netos. que os filhos vivem em África e não voltam.

|os teixeira|
na pequena casa secular de chão de madeira ouvem-se os passos. Helena vem à porta, pequenina, graciosa, de cabelo grisalho sempre arranjado de uma visita por semana ao cabeleireiro. veste uma camisola de lã confortável e um lenço ao pescoço. apesar das pantufas, está sempre de um bem vestir elegante, antigo. o marido aparece por trás, também curioso, um pouco mais cambaleante por causa do enfarte de há uns tempos. exclamações calorosas de alegria abrem os braços. de sorriso bem disposto atravessam o corredor de mão dada. acomodam-se na sala de estar para dois, com as chávenas de chá. comentam um para o outro para os outros a consoada ligeira que já fizeram. de olhos brilhantes e quentes, Helena olha para os embrulhos e diz, com ar de criança pequena, que com presentes fica como uma criança pequena e quer abri-los logo. o sr. teixeira ri-se e comenta que é verdade, parece uma miúda. dá-lhe a mão enrugada onde assenta a dela na perfeição de muitos anos de uma doce erosão. não há mais ninguém em casa. não haverá, esta geração termina aqui, a dois, um para o outro, um no outro. na despedida, ainda sobra tempo para uma troca de receitas de umas rabanadas que ela fez para ele e que só faz nesta época do ano porque ele tem de ter cuidado com os doces. quem os vê durante o dia, sabe que enquanto ela anda nas compras, ele lê o jornal e come um bolinho às escondidas. depois ela vem buscá-lo ao café e sobem a rua devagar. sempre de mão dada. assim fecham a porta, em risos meigos, de regresso à sala de estar para dois.

. a passar neste momento . O Bairro do Amor . Jorge Palma

sábado, 24 de dezembro de 2005

antecipação



fujo cá para cima, depois de ter acendido todas as velas possíveis e imaginárias em minha casa. lá em baixo a azáfama porque os bolos-rei pegaram um ao outro no forno e é preciso telefonar a quem está longe. a panela gigante do bacalhau está no fogão e ciranda-se entre a bancada e a mesa com as fatias douradas acabadas de fazer. roubam-se sonhos de cenoura às escondidas e recebem-se mensagens no telemóvel. cheira a lenha queimada e ao perfume da minha tia. soa a sua voz cantada em espanhol, arrancando uma qualquer gargalhada à voz do meu pai. sei que o meu tio vagueia pensamentos no televisor e a minha prima ajuda a minha irmã com qualquer coisa que ficou por fazer. sei que a minha mãe rodopia na cozinha de cara aquecida pelo fogão e pelos beijos que lhe roubo para lhe contrariar os nervos. chuvisca e as gotinhas sapateiam na janela por cima da minha cabeça.
detenho os dedos acima do teclado. imagino-vos nas vossas casas, ou de regresso às da família, a pôr a mesa, em amena cavaqueira como primo porreiro ou a fugir da tia beijoqueira. a sentir o cheiro do bacalhau, dos bolos e dos fritos. iluminados pelas luzinhas da árvore, quem sabe pelas brasas de uma lareira, quem sabe reflectidas já nos embrulhos. encasacados, porque está frio e os pés teimam em não aquecer.
sorrio.

fiquem bem. aconcheguem-se bem. aproveitem as presenças e dêem beijos às ausências.

feliz natal

quinta-feira, 22 de dezembro de 2005

conversa com um anjo



sopras-me ao ouvido de vez em quando. sinto um calafrio. quando as coisas correm mal, sinto as tuas mãos à minha volta, como quem vai buscar umas meias para eu não me constipar. senti-te quando vi o rail a vir na minha direcção. sei que te senti. isto do saber que se sente chega a ser contraditório, se se sabe não se sente, pensa-se. mas não interessa. andas por aí, eu sei que andas. por isso pego em ti e tiro-te da árvore. miro-te fixamente para que me prestes atenção. tens muito que fazer, eu sei, mas espera um bocadinho. não demoro muito.

o que te quero dizer é que vem aí aquela altura de que tu gostas tanto. estão aqueles dias brilhantes e geladinhos, em que é bom pendurar a roupa ao sol, com os gatos a passearem-se nos tornozelos. é tempo de noites em que engomar sabe tão bem pelo aroma da roupa quente onde perdes os pensamentos. é aquela altura em que o crepitar da lareira te traz as recordações dos teus tempos de aldeia e do tanque onde as moças de lenços na cabeça e olhos salpicados de brilhos e futuros cantavam e o sabão era azul e branco, as tuas cores preferidas. é tempo de chinelos e torradas perfumadas e chá muito doce. de ter tempo para preguiçar no teu colo no sofá. de comer as fatias douradas do meu pai. de rires com a mão enrolada à frente do rosto e de fechares os olhos na preguiça do fim da noite com os braços cruzados no colo. de observares nesse teu carinho em que as palavras não fazem falta os sorrisos de papel de embrulho. de ires ter comigo à janela ver se o Pai Natal vem aí e de procurares com tanto fervor como eu a sua presença nalguma estrela. enquanto murmuras alguma cantiga antiga que só eu reconheço, porque só perdes a vergonha quando estás sozinha comigo.

és assim, sabes? uma presença transparente. uma melancolia suave de olhos marejados e meio sorriso dorido. és a doçura de um aperto no peito soprado com a ligeireza de um pássaro pequenino. és a [e]terna sensação de pó de talco e creme nívea entre as ruguinhas da tua pele branca e quente, das mãos ásperas tão meiguinhas. és o coração mordido ao meu pescoço e o anjo de madeira na minha árvore de natal.

terça-feira, 20 de dezembro de 2005

delirium dancems

comentava hoje aquela coisa de desatar a dançar sozinha.
se era só prazer ou se era indicativo de algum desequilíbrio.
isto porque sou consultada como "pessoa que tem aquela profissão [actriz, hem?] e portanto não é normal, e portanto deves ser a indicada para falar destas coisas".
isto também porque determinada pessoa dita "normal" resolveu quase partir um dedo do bem que lhe soube desatar a dançar no meio da sala ao som de uma música. os meus pêsames à mesa.
olha, não sei. não sei se é loucura ou sanidade. se é terapia ou enredo.
eu gosto. muito. danço perdida entre as mesas do escritório, no meio da rua, interrompo uma conversa de café, se necessário.
sozinha perco a cabeça e devaneio para sítios que não sei onde ficam e que só aparecem com música. logo a seguir esfumam-se no ar e fico eu e o suor e a vertigem.
mandaste-me a música.
e cá estou eu. ainda soam os ecos de uma música que adoro e nem lhe sabia o nome apesar de lhe saber as palavras. ainda há uma bruma. deve ser o fumo do cigarro...

carrossel



a menina rodopiava entre luzes de todas as cores, sem noção do frio, do momento ou das dores em volta. rodava apenas, de olhos postos ora nos mundos do chão ora no cavalo branco de madeira que, desconfiava, a levaria para longe, em mil passeios de vento na cara em que a mãe lhe diria adeus e ela partiria com a certeza de que no regresso ainda a veria de rosto arrefecido aquecido pelo sorriso de orgulho. na menina que cavalgava em cima do cavalo branco. e perseguia os pombos que comiam migalhinhas pequeninas que lhe saíam das mãos de luvas lambuzadas de chocolate.
a menina, de cabelo comprido e olhos de sonho, pulava sem sentir o peso dos casacos pelas bolas de mil cores que lhe salpicavam os pés, imaginando o prado verde, passando depois para a praia e os baldes e os castelos, vestia o vestido de princesa de sedas e tules cor de rosa, e depois descansava uma noite muito azul com um gato branco ao colo.
viajava a menina, sem perguntas, no silêncio solene dos seus pensamentos, e a música da caxinha gigante onde rodavam os seres animados dos seus dias.

|por causa de uma foto do estonteamento|

segunda-feira, 19 de dezembro de 2005

polegada #5

|the bat hour|

temos de entregar 10 episódios até 6ªfeira. havendo pouco tempo disponível no estúdio (porque fazem locução de documentários, legendagem, têm de tratar os episódios já dobrados e eteceteras), teremos, os actores e respectivos alter-egos, de nos desdobrar em horários, digamos, alternativos...
entretanto, aqui no escritório, um outro grande projecto, megalómano ou não, não sei, aproxima-se a passos largos.
apesar de tudo, é nos meus dedos que confiam na altura de redigir, de explicar, de polir, de corrigir. os textos terão de ser meus, baseados em "ditados melódicos". como o patrão que vai fazer os ditados tem, ele próprio, sítios onde estar e coisas importantes a fazer durante o dia, a execução e tecelagem desse tão nobre projecto terá de ser feita... de madrugada.
outra situação é uma reunião estranha que me marcaram para uma destas noites, que não sei onde vai parar, mas também ainda não quero pensar nisso.

a hora do morcego chegou...
e ainda não fiz as compras de Natal...

domingo, 18 de dezembro de 2005

nua

há meses que pensava despir-me.
assim, vestir-me apenas do branco transparente das teias translúcidas da minha mente.
o tempo e as circunstâncias entorpeceram-me os dedos.
no repente decidi-me sem mais delongas. apesar de o sangue das papoilas ressaltar mais no escuro, aqui fica a minha cabeça no colo da minha avó, num lençol que me lembra os verões de menina.
botão a botão fui desnudando o negro. desprendendo-o de mim sem efeito de catarse. apenas agora quero despir-me. revelar-me. no reflexo destas linhas. noutro contorno que me mostre a mesma, que essa não se altera.
as cores de que, alguém me disse, eram feitos os meus textos condensam-se agora naquela que, dizem, é a cor que concentra as cores todas. neutro, também.
depois da longa corrida, suada e cansada, tomei um banho prolongado nas palavras e consumi em respirações timbradas o fumo do cigarro das conversas amenas. aqueci-me entre vozes aveludadas, em luzes ténues de presença. de vigia.
aqui estou. sou eu, a mesma. o caminho é o mesmo, o meu, que percorro agora mais devagar. saltitando entre reticências. carrego apenas a pele, que se estende, ainda, em mim, por mim em aromas sinuosos e ventos descarrilados, sabores encantados.
o dedo que me coube em sorte e que enlaço na prata das noites escuras, continuo a ser eu. mulher. menina. ou algo no entretanto.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2005

whataweekend

hoje tenho de ir às prendas.
amanhã tenho de ir buscar a minha mala de maquilhagem, voltar para Lisboa, comprar o que falte e fazer ensaio de maquilhagem na noiva que vai estar a meu encargo nesta passagem de ano [já referi que se vai casar na passagem de ano?]. correr para o encontro de café que não posso perder. correr para o aniversário de um amigo.
depois tenho de estar às 10 da manhã nos estúdios para gravar mais pelo menos 3 episódios de ursos [já referi que é Domingo de manhã e que tenho de acordar às 9, pelo menos?]. correr para ir almoçar com a famelga. vai faltar qualquer coisa e vou ter de ir a Lisboa outra vez... provavelmente às compras de Natal [já referi que tenho pelo menos 12 prendas a comprar, que estou falida, e que toda a família já fez anos em Dezembro e arredores?].
e segunda já é dia de trabalho...

quinta-feira, 15 de dezembro de 2005

to me you are perfect



ele era um bicho de contas.
choro sempre que o vejo. assim que o vejo. compreendo-o com todos os ossos do meu corpo.
respirou fundo e decidiu que já chegava.
atirou-se de cabeça.
ficou-me gravada a sensação de querer dar-lhe um beijo no galo.

depois desta frase, já não sei onde quero chegar com isto. perco-me em considerações que poderão ser tolas ou aborrecidas. ou pouco terão a ver com o que digo agora, com o que queria dizer. as palavras às vezes só complicam. só interferem. doseamo-las da melhor forma que sabemos. preenchemos os espaços de ar com a respiração. encolhemos os ombros. para não magoar ficamos com os braços dormentes. para não nos magoarmos dói-nos o peito. a perfeição instala-se nos instantes em que nos suspendemos no ar. suspendemo-nos de nós. damos férias ao pensamento. e sentimos as texturas do vento, do pó, da canela e de uma qualquer música sussurrante no ar. tenho momentos em que me reprimo de tal maneira que não me conheço. não me compreendo.

mas tu compreendes-me.

somos todos bichos de contas.

sou uma ursa

de coração no nariz, cores de cuecas de bebés, vivo numa nuvem com outros tantos.
tenho uma imagem querida e fofinha na barriga redonda e peluda. que de vez em quando sai de mim e espalha amor por todo o lado [isto não soa lá muito bem...]
às vezes tenho fraldas, metade do tamanho dos outros, uma voz irritantemente aguda e sou belfa. sou a Hugs ou Abracinhos...
noutras, falo também agudo, mas não tanto, e prometo encher a terra dos ursinhos - "Care-a-Lot" - de enfeites cor de rosa... é a Cheer Bear ou Coração Animado...
estas são as fixas...
entretanto, no meio desta turba de seres tão-fofinhos-que-irrita, ontem gravei durante quase 3 horas. foram três episódios em que eu própria estendia os braços para trás, de fones na cabeça, espetava a barriga para a frente e gritava
- 3, 2, 1, iluminaaaaaar!
depois resolveram que eu ia fazer 2 ursos homens além da Animada... e ironicamente andavam sempre os três juntos, falavam em coro... e faziam uma corrida, portanto os uffs, ais, ahs e etceteras eram sempre a triplicar... grava agora com voz grossa... volta atrás, agora com nasalada.... ok, volta atrás... agora com a gaja... de facto, às tantas, fazer expressões de cansaço saía-me com uma naturalidade estupenda... porque seria?

o técnico de som, desta vez, é um metálico-gótico-qualquercoisa. todo de preto, grande cabeleira, parece sempre pronto a ir para um concerto dos Metallica fazer moshes [isto era no meu tempo de adolescente, eu sei, mas aquilo era da pesada, eu saí do concerto com um enorme torcicolo, portanto serve]. muito sisudo, sempre. ora imaginem a figurinha a fazer a edição do outro lado da cabine... obviamente que aquilo deu para o torto e foi um fartote de rir... começou logo por dizer que os bonecos já passaram de moda... eu compreendo, eu via aquilo com uns 8 anos... além de que as criancinhas hoje em dia é mais manga e violência e porrada e roupa fashion e assim... agora mudar os nomes dos personagens? Abracinhos devia ser Carícias... Raio de Sol era o Rais-Parta [isto porque eu quando me engano sai-me logo e ele gostou]... e por aí fora...

bem... isto para dizer que vão sair uns episódios de grande valor moral para as criancinhas, no canal Panda...
quem diz que não faço serviço público...? eheheh

quarta-feira, 14 de dezembro de 2005

cup&cino

ao som de uma qualquer martelada e de Sting revisitado, a conversa foi fluindo durante horas que não chegaram a avisar que tinham passado por ali.
primeiro correm as fotos debaixo de uma tecla, e os cheiros mudam e o ar parece deliciosamente arrefecido, parece que das bocas se soltam nuvens pequenas de vapor, que nos pés correm outras pedras. partilham-se os ventos e as luzes, dando-lhes a terceira dimensão dos sorrisos.
depois as palavras descobrem novidades antigas, na língua humedecida por qualquer coisa quente e doce.
a medo, primeiro, depois com uma vontade apenas de partilhar.
são precisas umas queridas tareias com festinhas nas mãos e cigarros absorvidos de olhos brilhantes. uns passos reticentes entre uma bússola de cera e chama tremeluzente.
e o mundo pára quando alguém leva a mão à cabeça e diz 4 palavras:
- nunca tinha pensado nisso...
um bichinho de contas enrolado em cima do tampo da mesa, com medo do frio, do tempo que passa por ele e não quer que passe e quer que passe. que não se vê ali, enroladinho aconchegadinho, na plenitude da sua beleza. abre devagarinho o seu mundinho e espreita cá fora. e o brilho dos olhos inunda agora a vida e recebe-a de outra forma. é assim quando somos generosos.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2005

o duende feliz

não, não é nenhum post acerca do nosso amigo linkado aqui ao lado, esse mestre dos contos e das fantasias... se bem que merecia...
é que recebi uma prendinha de Natal e pude voltar às dobragens...
algures nesta quadra [ergh, detesto esta palavra] passará na TVI o filme de animação "O Duende Feliz", ou "The Happy Elf".
a Molly sou eu. [não tem que enganar é a miúda cuja primeira cena se passa a apedrejar o dito Duende, o Eubie... eheheheh]


e também sou eu [kind of] que abro o filme, com a Irmã... esta não tem nome próprio, mas é a ela e ao irmão [que ela entretanto transformou em árvore de Natal à pancada] que se vai contar a história do Duende.

sim, sim, calharam-me as miúdas reguilas e ainda por cima as duas dentro da mesma faixa etária... e agora fazer duas vozes distintas...?
seria cantado pelo Harry Connick Jr. [essa maravilhosa voz que me persegue com a banda sonora de When Harry Met Sally] mas agora deve ser o Quim Bé a cantar... também não está mal...

tu, jovem duende feliz [o do blog], senhoras e senhores, nesta vermelha, branca e aconchegada quadra [ergh, lá está ela outra vez], sentem os vossos filhos, sobrinhos, afilhados, enteados e outros que tais em frente à TV, e tenham um pouco de sossego.
esta longa metragem televisiva tem o certificado de qualidade da Polegar, que vos garante desde já que é recheada do espírito natalício que já perdemos, com muita fantasia, neve, tropelias, ninguém se aleija e não há cá Songokus nem coisas sangrentas do género.
um filme cor de rosa para toda a família.

[entra musiquinha irritante com sininhos de intervalo publicitário de Natal e... de volta à programação]

a epoca dos presentes

é sempre uma batalha esta época do Natal. não apenas por causa do Natal em si, mas por causa dos aniversários de uma família maioritariamente sagitariana. esta época das duplas dores no bolso começa em Novembro, dia 20 com a minha querida "mais nova", a menina dos caracóis loiros. no dia 1 de Dezembro é comigo que vêm ter as velas e as palmadas nas costas. dia 4 é o avô-polegar, que já fez os 90 sempre de tubinho de oxigénio como companheiro, tabuleiro à hora certa, chupa-chupas nos dias de bola e a campainha preparada para nos levar à loucura. um senhor que apesar de caprichoso, temos de reconhecer, é teso como já não se faz e insiste que velhos seremos nós todos antes dele... deseja sempre "que contes muitos e eu a ver"...
o papi-polegar faz anos hoje. o meu querido pai, auto-didacta, transmontano de costeleta, inteligente, brincalhão. está doentinho, calhou mal, mas não vai ser uma gripe a impedi-lo de sorrir.
depois vem um tempo de calma... ou seja, descobrir onde vamos encontrar o dinheirito para comprar as prendas para as mesmas pessoas e mais as outras que estarão conosco à lareira na consoada, mais as outras que não estarão mas são contempladas neste totoloto de barrete vermelho.
a única pessoa que saía deste baralho era a minha avózinha que fazia anos em Junho... portanto, quando já não podemos com fitas coloridas, pensariam que se podia respirar fundo... só até dia 24 de Janeiro, quando a mami-polegar celebra o seu aniversário e lá se volta aos corredores (agora mais vazios...?) dos saldos dos centros comerciais...
entretanto já ninguém estranha os embrulhos com pinheirinhos e os postais do fundo do caixote, porque nesta época ninguém pode contar com prendas bonitinhas e personalizadas. é tudo corrido a Merry Christmas...

quinta-feira, 8 de dezembro de 2005

vermelho

vermelho escuro. pequeno. divertido. diziam que era a minha cara. era, sem dúvida, um cacifo da minha vida.

um companheiro, sim, apesar de objecto. estranharão muitos este post, este estranho apego a uma coisa. mas essa coisa simplesmente foi a minha casa e a minha liberdade ao longo dos últimos 7 anos. nascido em Novembro de 1998, morreu em Novembro de 2005. morreu. porque não volta a andar, porque mo destruíram. durou 7 anos certinhos.
era meu por uso capião e por estima. estranhamente sentia que me passava emoções, que me percebia, e, sim, eu falava e cantava com o meu jipinho.

agora, entre pesquisas de valores comerciais em guias de automóveis, pergunto-me como vou pagar prestações de um novo carro. porque o que ele vale para os técnicos é pouco. e pergunto-me também quem me vai pagar as aventuras, as paisagens, os cheiros, as lágrimas e as risadas que aquele carro viveu?
ficam as recordações. das coisas boas e das coisas más. especialmente a nível de aderência ao chão e assistência técnica. grandes guerras com os senhores mecânicos... mas até isso neste momento me arranca um sorriso melancólico.
mais uma vez uma porta que se fecha com violência, uma corrente de ar vinda não sei de onde... uma vez um amigo disse-me que a maior capacidade do ser humano é a de adaptação. pois parece que vai ter de ser.
a ti, jipinho, amigo, querido e impulsivo, fica um adeus cheio de saudades e um obrigada pela cumplicidade e por toda a liberdade que me deste. acima de tudo, obrigada por me salvares a vida.

terça-feira, 6 de dezembro de 2005

e eu que acho que nao viajo o suficiente...

26 voltas ao Sol... tão fixe!

o Sol está a aproximadamente 8 minutos-luz da Terra (i.e., a luz demora t = 8' = 8* 60'' a chegar aqui, viajando à velocidade c = 3*10^8 m/s).

assim, o perímetro da circunferência descrita pela Terra durante uma volta ao Sol é (tudo aproximado, claro) dado por
1 volta = 2 * Pi * r = 2 * Pi * c * t = 2* Pi * (3 * 10^8 m/s) * (8 * 60 s) = 2,9 * 10^11 m = 3 * 10^8 km

26 voltas serão, então, 26 * 3 * 10^8 km = 7,8 * 10^9 km

conclusão: já viajaste, muito aproximadamente, 8.000.000.000 (oito biliões) de quilómetros pelo espaço. nada mau ;)

[informação gentilmente enviada por mail pelo querido Ni, que tem andado desaparecido mas não ausente]

segunda-feira, 5 de dezembro de 2005

sabe bem olhar para ela


[ms]

desembrulho-me.
ali como quem vai para o rio, duas ruas à esquerda, depois da viela adormecida nas luzes de uma porta, contam-se três candeeiros depois do início do quarteirão. fica bem perto da loja de brinquedos antigos de grades fechadas, de moldura de madeira azul escura. ali, onde se dispersam quentes no gelo do ar os laranjas dos prédios e dos seus recantos. onde a chuva pica na cara de tão fresca e se lambem os beiços húmidos para depois os deixar cantar com a senhora de voz cansada mas com trinado certo num labirinto de azulejos sujos do metro. ali, onde os telhados descobrem cortinas brancas e o recorte da mulher nua em contra-luz com sílabas afuniladas. ali, onde os teatros se deitam no colo, ao som do alaúde. ali, onde as sombras do rio são nenúfares azuis que sabem a geleia de morango e riem com os sinos da catedral.
encontro-me, sempre ali. em qualquer lado. nos pés doridos e satisfeitos.

terça-feira, 29 de novembro de 2005

no palco nunca estás sozinha


[ms]

os fantasmas vivem lá, habitam em cada grão de pó. os fantasmas de todos aqueles que vivem ali, e ali só.
que nascem em palavras da alma de algum escritor, brotando tinta escura no papel imaculado. são antigas, as letras, ou nem por isso. não interessa. ali repousam, as letras, as palavras, os espíritos transparentes.
um dia são acordados por umas mãos que lhes tocam ao de leve. depois soam as gargalhadas lá fora, ouvem-se falados. ouvem-se a si mesmos a respirar, a sofrer e a sorrir, entre conversas que não conhecem. assim, meio entaramelados, os fantasmas sentam-se na borda do papel, mirando aqueles seres de mãos quentes que acariciam as suas páginas, que seguem com dedos espetados os parágrafos das suas ruas. que evocam as suas letras, a sua tinta. vêem esses seres de olhos sérios, olhando-os dali sem os verem, fixando com dúvidas e ar confuso as frases que disseram. aos poucos as expressões mudam, parecem compreender. rabiscam novas letras ao lado das suas. que revelam sentires que acham que sentem as palavras e que sentem os fantasmas. e eles olham as novas letras. e riem, e choram, e acenam ou negam. ali, sentados em volta, os seres pintam a marcador flourescente as "deixas". e fica colorido o papel, a sua casinha, cheia de cores e riscos e rabiscos e palavras novas.

um dia os papéis voltam a passear, até um sítio muito grande. e neles, sentados, sempre os fantasmas. olham o novo espaço e vêem as luzes acenderem-se, quentes, lentas, lânguidas. vêem os seres de mãos quentes a subirem ali para cima. e gritar. as vozes com as suas palavras ecoam nas paredes e giram tantas vezes. os seres às vezes fazem grandes disparates, como gemer sem nexo, mover-se de formas estranhas, vestem roupas novas com alfinetes pendurados, saltam, parece que enlouquecem.
andam descalços naquele chão e é aí, enquanto falam as palavras dos fantasmas e se enraízam na madeira que os fantasmas se sentem atraídos, magnetizados. aos poucos, devagarinho. observam à sua volta outros, que já lá estavam, viajando sentados nos grãos de pó, agora levantados pelos pés descalços dos seres das mãos quentes.
um dia o papel cai das mãos do ser, espalhando-se no chão, branco no preto. um negativo das palavras. e o fantasma observa lá de baixo. na primeira lágrima que o primeiro ser de mãos quentes solta, de pés descalços, ao dizer a tinta, o fantasma sobe.
torna-se grande grande grande. e abraça-se ao ser. abraça-se com força e chora com ele. e assim o fantasma se entranha feito água, ar, riso, roupa, na pele do ser das mãos quentes. e ele próprio sente que tem mãos, que anda descalço no chão.
todos os dias os seres voltam. todos os dias os fantasmas os aguardam. e crescem e vivem ali dentro. depois voltam aos grãos de pó para descansar e de lá nunca mais saem. [nos papéis, se olhares com atenção, verás as pegadas dos fantasmas, de quando moravam ali.]
é assim até um dia o fantasma sentir o coração do ser a acelerar de forma estranha, no escuro. nesse dia, assim que a luz acende, explode num orgasmo dentro do ser em mil partículas que penetram bem fundo nele, escorrendo até aos pés calçados ou descalços. apenas uma dessas ínfimas partículas fica dentro do ser. uma só, ficará eternamente. as restantes reúnem-se, quando as trovoadas soam, aquelas das mãos quentes de outros seres que os vêm visitar e ouvir. voltam a cada trovão ao chão e esperam pelo dia seguinte.
aprendem que podem ir ter com os seres àquela sala estranha de luzes fortes onde o fumo do cigarro se mistura com o cheiro das lacas e dos cremes e com a poeira dos cabelos e o vapor do ferro de engomar. divertem-se no reboliço, nos gritos e corridas, nas gargalhadas e "merdas", saltitando dentro do pó de arroz das meninas, para lhes beijar as faces. enrolando-se bem fundo na capa dos rapazes, para lhes pregar um susto, espetando para fora um alfinete, desapertando um botão.

quando um dia o silêncio volta ao palco, os seres sossegam e dormem. passeiam um pouco pelos grãos de pó. cantam inaudivelmente as palavras aprendidas, partilhadas, como lenga-lengas a chamar os seres, celebração às vidas dentro deles e mensagens secretas à partícula que sempre viaja com eles.

aguardam com expectativa o dia em que outros seres ou aqueles mesmos voltem, com novos amigos.
ou apenas para dançar no palco escuro. aí dançam contigo. observam-te e vêm soprar-te ao ouvido sem ouvires que gostam de ti e que têm saudades quando não estás.
é aí que sentes o arrepio...

sexta-feira, 25 de novembro de 2005

morte no parque

desorientou-se na outra turba estranha de gente, onde rostos conhecidos lhe transmitiam apenas a dor da transparência. o caminho era o mesmo mas sentia-se outra desconhecida. media os passos na alcatifa e os cheiros possuíam-lhe os sentidos. passou pelo seu rosto e não se viu.
há dias assim, pensou. em que se confirmam apenas as feridas por cicatrizar.
no veludo vermelho deslizaram-lhe as curvas de arcos de pedra gravados na pele. ainda gravados. sentia-lhes de perto o toque, a respiração. das pedras, sim, das pedras cinzentas frias imóveis que respiravam nela. como respirava aquela cara que a mirara de olhos cerrados no sono eterno de duas dimensões. e um outro corpo nu de rosas no colo e pescoço atirado para trás. e luas roxas e fios vermelhos. e canos entupidos e calças arregaçadas e a capa preta num sofá bafiento.
indelével, contudo, também a transparência com que se sentava ali. não disse mais do que o necessário, não abraçou ninguém que não quisesse abraçar. ficou por sorrir tudo o que queria sorrir mas não deixavam. preso ao lado das lágrimas. choraria noutro dia, decerto. ou não. ou nem isso.
contas saldadas. com os restos da vida e um par de cabos num saco saiu para o ar frio da noite.
no cruzamento a caminho de casa a lua esperava-a, como de costume, amarela e desfocada.
no rosto o vento frio da noite não lhe amarrotava a pele tanto como a temperatura baça dos olhares ou suas ausências lhe tinham amarrotado a alma.
na cabeça as frases ecoavam, batendo de um lado ao outro do peito, latejando-lhe a tal queimadura que não sara: "obrigado por tudo" "por favor não desapareças" "fazes tanta falta aqui. que é feito de ti?" pena que as palavras tenham saído das bocas ao lado.

tenho saudades do meu sonho. algures entre Mishima e eu.

quarta-feira, 23 de novembro de 2005

desrespirado

a multidão condensava-se num vapor pegajoso e barulhento. luzes demasiado brancas, neons e cartazes. consumia-se em cada passa de cigarro para se tornar mais nítida depois do fumo se misturar na respiração do ar condicionado. duas amigas em gargalhadas, um grupinho discutia trabalhos e teorias, com cuidado para não sujar a gravata com o molho da maionese, se ela fosse lá ter agora não estava com essa em cima, ela tem de se desenrascar, onde compraste esse casaco?, o caderno em cima da mesa.
alheia de sons e vozes e suspirares, observa apenas, absorta, ouve sem fixar. alarme de loja dispara sozinho. a sério? mas achas que. fui ao centro comercial pipipipipipipi.
o pensar misturava-se com os sons sem nexo e sem nexo continuava o pensamento.
bocejou. desligou. o filme começa daqui a pouco

segunda-feira, 21 de novembro de 2005

no vidro


[ms]

sentou-se na cama asfixiada com o ar tão leve que quase não o sentia entrar dentro de si. levantou-se sem contar os passos, e o chão deixava-se pisar sem lhe arrefecer os pés. sem uma brisa que lhe arrepiasse a pele fina das costas. o inverno berrava lá fora, mas não, nem um sopro. foi até à janela e encostou a testa no vidro azul escuro de céu. olhou fixamente as lágrimas que choravam no vidro. escorriam sem caminho definido porque o vento contrariava a gravidade em andamentos musicais uivados, assobiados, fazendo dançar a água. nem na testa sentiu frio. encostou a bochecha, depois o peito que ondulava pelos botões desapertados de uma camisa velha, ainda arquejante na busca do ar fino. nem no peito sentiu o vidro. mas chovia lá fora. quis tocar no vidro choroso. estendeu os dedos e acompanhou dormentemente o descer descompassado de uma gota gorda, que logo se misturou com outra. e logo lhe caiu no dedo. não percebeu porquê, se estava do lado de cá e a mão... atravessara o vidro. mas o que mais a incomodou foi não sentir a gota. devia ser fria, devia ser molhada. mas se não a visse cair no dedo que atravessara a janela, não a saberia caída na ponta do dedo. o vento abanava-lhe os dedos mas não sentia os dedos. devia esse contorno do corpo, agora todo cá fora, notar-se no frio. que lhe enregelasse a pele. mas não. olhou para trás. dormia. quieta, no meio dos lençóis. distinguia-se com a luz de presença do aquecedor uma perna desnuda estendida, o corpo pequeno, enrolado, cabelos espalhados na almofada e o subir e descer ritmado de um sono franco. era bonita, aquela mulher. porque serena. por nada mais que não isso. porque era vulgar, apenas mulher. mas descansava.
virou as costas ao seu corpo e deixou-o repousar enquanto estendia de novo os dedos para a chuva, atravessando de novo a janela sem estranheza. estranhou não estranhar. viu a camisa enrugar-se, ajustar-se-lhe ao contorno que era seu, com o peso da água. viu-a agitar-se no vento que lhe roubava os cabelos, chicotes húmidos, tinha a certeza. via, apenas. e se fechasse os olhos? ouvia o segredar da tempestade.
fechou os olhos.
uma rajada de vento sugou-a. arrancou-a da suspensão com uma sacudidela e desapareceu, como folha pequena de árvore. agora o temporal rimbombava-lhe no peito. qual tambor. tremeu. de prazer, de frio. porque de frio de prazer. a água beijou-a e chicoteou-a. lambeu avidamente os lábios e engoliu aquela chuva e o sabor arrepiou-lhe o peito. estava fria. sabia, sentia. sorriu. sabia que sorria apesar de não ver. entre as vergastadas gélidas de vento, a água sacudia-a e enrolava-a. sentiu finalmente a roupa enrolada no corpo, aos encontrões na pele. sentiu o seu contorno no frio e no vento e achou-se bonita também.
um pé tocou no vidro da janela - sentia o vidro, bem frio, bem duro, bem liso - e começou a deslizar. estendendo-se para lá do que se conhecia como o seu pé.
e tinha a certeza que a pele também escorria, agora só líquido transparente, arrastada pela água, espalhada pela ventania.
tinha a certeza. enquanto escorria pelo vidro, agora lágrima envidraçada, e se entranhava num qualquer pedaço de terra.

sábado, 19 de novembro de 2005

espiral

agarro-me com força ao que é bom. abraço com os meus dedos pequenos, e a minha boca procura o ar calmo e fresco de uma manhã de sol.
mas já não me larga o pânico da perda.
perder até o discernimento para conseguir sorrir. aquele sorriso que sempre foi tão constante que se tornou um peso e um preço, para aos poucos regressar à sua natureza. porque sempre fui de sorrir.
tempos de espiral descendente. não quero cair outra vez. não assim. não tenho mais braços. não tenho mais músculos. não. sim. o corpo pede descanso. porque suportou dores de alma, está magoado, fraco, enlameado. o coração voltou a saltar, de vez em quando, à minha revelia. a assustar-me como já me assustou. não quero mais.
quero deitar a cabeça na almofada e adormecer-me. descansar-me, serenar-me.
quero enrolar-me no ar quente e deitar-me com o sossego. só por um bocadinho.

crash

só queria dizer ao senhor condutor que esta madrugada, na 2ª circular, resolveu vir contra o meu carro, fazer-me andar em peões e espetar-me contra um rail, enquanto fugia, que os polícias foram incansáveis e querem tanto vingança como eu.
assim, enquanto o meu jipinho fica à espera de diagnóstico ou mesmo de entrada no ferro-velho, o senhor ficará sem carta, e, pelo que depender de mim, vai pagar bem caro o facto de nem sequer ter olhado para trás, enquanto parava o A3 dele (que também não ficou em bom estado)depois de uma curva, bem escondido, trancava as portinhas e ia a pé (cambaleante, decerto) para casa.
senhor condutor: estamos bem, obrigada, por acaso não morremos.
a festa de anos da minha irmã, que é assombrada desde a morte da minha avó, vai correr da melhor forma.
e não se preocupe, eu arranjo maneira de ir trabalhar todos os dias.
tenha um soninho descansado.

quarta-feira, 16 de novembro de 2005

polegada #4

|quando pensamos que as coisas não podem ficar pior|

os carregadores não apareceram hoje. o patrão tinha-os avisado mas eles não tinham sido avisados.
eu e a minha colega (não a cabajona, a outra, do som, que também é franzina) tivemos de montar tudo sozinhas.
os actores foram beber cafés ou para os camarins. um deles pensava que estavam a gozar com ele quando tinham dito que os carregadores não tinham vindo. só se aperceberam da calamidade quando chegaram à sala, 5 minutos antes da hora do espectáculo, em vez da meia hora regulamentar. aí ajudaram.
se todos trabalhassem na montagem todos os dias, ganhávamos mais porque não se pagava aos carregadores. e eu e a minha colega podíamos chegar uma hora mais tarde, e eles só tinham de chegar meia hora mais cedo.
o espectáculo começou com 25 minutos de atraso. turmas barulhentas da Baixa da Banheira. ficaram histéricas quando um ex-morango apareceu à porta para a visita guiada.
como ao puxar o porta-paletes com parte do material, de manhã, íamos a rir de qualquer coisa para não chorar, o escritório recebeu uma queixa da direcção do monumento. porque fizemos demasiado barulho durante a missa.
como os actores só têm, além de representar, de trancar a porta de acesso à zona do camarim na torre, porque é interdita ao público, quando vêm fazer a peça, esqueceram-se. os turistas tiveram um passeio extra. e eu, antes de desmontar tudo, tive de ir falar com uma funcionária para saber que receberemos um parecer da direcção acerca do assunto.
a partir de amanhã, além de tudo, depois de começar o espectáculo, fui incumbida de subir à torre para me certificar de que trancam a porta.

terça-feira, 15 de novembro de 2005

polegada #3

|tentativa de pendurar um cartaz a quase 2m de altura|

duas mulheres. uma cabajona, outra franzinita. uma parede fina, sem ligação ao tecto, com algumas vigas. fio de nylon. escadote do séc. XVII. um cartaz. duas galinhas doutoras.

cabajona: eu subo ao escadote do lado de cá. sobes para cima dos cacifos por detrás da parede e esperas que eu te mande o fio de nylon, prendes às vigas.

franzina olha os cacifos, são mais altos que ela. um banco do séc. XVII oferece pouca sustentação. sobe ao banco e continua a não chegar com mais que os braços aos cacifos. não tem força para se elevar só com bíceps e tríceps e restantes íceps. em frente aos cacifos está outra parede do séc XVII. que se lixe o património. pata na parede e trata de escalar quase paralela ao chão até se conseguir içar para cima dos cacifos. espera. espera. espera.

cabajona: polegaaaaaar. não consigo subir ao escadote. tenho medo. vem tu para aqui e eu vou para aí.

franzina olha o banco lá em baixo. suspira. pata na parede. outra pata pendurada na direcção do banco. escorrega escorrega. pata na parede já está ao nível do nariz. a outra pata a sentir o banco ao fundo. bendito ballet, serviu de alguma coisa ao fim destes anos todos. desce.

cabajona vai lá para trás. polegar mira o escadote, daqueles de encostar à parede. o espaço entre a parede e a bilheteira oferece muito pouca possibilidade de inclinação. franzina tem vertigens. suspira. um pé atrás do outro e maldizer o patrão que não lhe fez seguro. pensando bem, nem lhe pagou ainda. sobe de cartaz na mão. só com um braço seguro no escadote, em bicos de pés para inclinar-se mais para a frente. as duas galinhas cacarejam lá am baixo mas não se oferecem para ajudar até serem intimadas.
seguram o cartaz cá de baixo, mas depressa se fartam. dor nos braços e a cabajona que não diz que está pronta.

cabajona: polegaaaaaar. não consigo subir ao cacifo.
franzina: (do alto do escadote, dor nos pés, dor nos braços) apoia os pés na parede da frente e iça-te.

franzina pensa que a cabajona poderia com pouco esforço sentar-se nos cacifos. mas pronto.

franzina passa fio no cartaz, atira o rolo do fio à cabajona. as galinhas (que entre si se tratam por doutora esta e doutora aquela, de mise feita e saltinho agulha), de rabo para o ar andam a apanhar o rolo (que invariavelmente cai no chão) para, depois de cortado, devolvê-lo à franzina. cacarejam acerca de estar torto. de estar alto e de estar baixo. com o braço dormente, franzina corta o mal pela raiz:

franzina: tá bom.

tem de mudar o escadote de sítio. desce e dá uma joelhada num parafuso do séc XVII saído. as galinhas atendem telefones do lado de dentro da recepção, indiferentes ao facto de a cabajona estar petrificada no alto dos cacifos e de a franzina estar a desviar cadeiras e a transportar o escadote sozinha, fazendo slalom no galinheiro. franzina volta a subir.
mais galinhas de rabo para o ar, mais nylon a voar. quando começa o cacarejo sobre o torto e o direito, franzina ataca:

franzina: tá bom.

franzina desce do escadote, leva-o sozinha para o arrumar, e vai atrás da parede ajudar a despetrificar a cabajona.

assim se pendura um cartaz.

segunda-feira, 14 de novembro de 2005

alvorada

vai passar a ser às 6:30 da manhã em 90% da minha vida laboral. vai ser não só a A8 e a Calçada de Carriche como também atravessar a 2ª circular e entrar em Belém.
vai ser montagem de espectáculos diária, quatro dias por semana. duas horas a carregar ferros, contrapesos, cadeiras, placas de madeira. juntar tudo num cenário. ir para a bilheteira e aturar as senhoras do monumento com a mania que são gralhas, as professoras nervosas, os adolescentes com a mania que são engraçados, tarados, destruidores de património e mais barulhentos que galinhas com gripe.
depois das matemáticas (se entretanto os actores não se tiverem deixado dormir), começa o espectáculo. rezar para que a colega já faça ideia de onde fica o botão do play. esperar para depois desmontar tudo e voltar a encaixar num cubículo com um metro de largo por metro e meio de fundo.
voltar para o escritório. de preferência de transportes públicos, já depois da hora de almoço.
comer uma sandes e ir para a frente do computador.
isto nos dias em que não houver espectáculo de tarde.
voltar a ir buscar o veículo ao fim do dia.

inspira, expira. inspira, expira...
tomorrow, tomorrow, I love ya tomorrow, you're only a day away...

mulheres

acordar cedo e entrar no carro com as irmâs. o sol a entrar pelos olhos, as vidas postas em dia, quase sem olhar a estrada porque era a caçula que conduzia.
a chuva fez o ritmo no tablier das palavras que escorriam de tema em tema. perdermo-nos e chegarmos, finalmente, a uma terra perdida nos montes de Leiria.
entrar na enorme loja e voltar em passos pequenos à infância. os tules, as organzas, sedas, e laçarotes. coisas muito foleiras, coisas muito bonitas. de repente ela já não era a figura que lhe conhecia. estava ali, longa, esguia, comprida, flutuando no branco da seda selvagem. entre gargalhadas, caretas, dúvidas e muitos arrepios de frio, os alfinetes entranhavam no tecido, dando forma ao desenho das palavras. palavras que saíam tremidas. do frio? aos poucos a confiança impôs-se, e meti-lhe os dedos no cabelo. também na minha cabeça desenhei linhas e contornos, que fui improvisando em concordância com o que havia à mão. já tenho a paleta de cores com que lhe vou salpicar o rosto bem definida, e o gancho de que gosta vai ficar como eu quero. de um punhado de ideias fiz-lhe o agasalho que faltava, e um adorno para o pescoço.
vais ficar bonita.
vais-me estragar a festa de passagem de ano. mas vais estragá-la em grande...

magusto

queríamos uma coisa típica. castanhas e água pé.
acabaram por ser castanhas de um bolo-rei (!), a água pé transformou-se em triestino, hot chocolate, chá de limão e um mocaccino ou algo com nomes italiano-americanizados do género.
estavam quentes e souberam bem. souberam a conversa comprida, mãos quentes e luz de velas. porque o chocolate é mais doce bebido a colheres de chá :)

sexta-feira, 11 de novembro de 2005

dois teclados #2

Regressaste numa manhã de nevoeiro. Parece pateta mas foi verdade, era inverno e era manhã e estava frio e chegaste leve e sorridente como te recordava, voltaste a ser a boneca apaixonada por quem todos os homens do mundo se deixavam aprisionar se te vissem sorrir. Quando o peso saiu dos teus ombros voltaste a pular sobre as nuvens e sorriste e voltaste a ser feliz. E lembrei-me daquele primeiro instante, um café roubado ao teu horário de trabalho, um cafézinho roubado ao fim de tarde num jardim da cidade, e aqueles primeiros sorrisos trocados, o teu rosto era mesmo mágico, soube logo ali.
|NC|
És tramado, tu. Nessa cara de menino sacana, de olhos inteligentes, a percorrerem-me por dentro como se não fosse boa educação perguntar antes de entrar. Aliás, fazes tudo sem perguntar, não é? Assim me raptaste pela primeira vez do bulício das contabilidades de fim de data de entrega de IRS. Não se faz. Mas tu fazes tão bem… “Estou cá fora. Desce que preciso de cafeína contigo”. Senti-me trapalhona, desengonçada, mal arranjada, um pouco irritada com o descaramento, e indefesa. Estupidamente indefesa. Mas defendi-me com a única arma que tenho e desci de sorriso em riste. Hoje tenho frio. E estou de arma na mão outra vez. Não sei o que esperar.
|P|
Agora voltaste voltaste segura, desta vez sabias ao que vinhas. O sorriso era o mesmo, imensamente acolhedor e bonito, mas desta vez não era uma máscara, era verdadeiro como o frio que entrava pela janela meio aberta. O fumo do cigarro embrulhava-se no ar sombrio do fim de tarde e enquanto contavas histórias engraçadas dos bastidores bebia o martini com gelo até ao fim. Eu ouvia, meio distraído como sempre, espreitava as pessoas e os pássaros e as cores e a noite que caía e ficava embriagado contigo.
|NC|
Miras-me assim, e parece que sim. Parece que tudo o que aconteceu antes não tem significado. Que agora sim, é o tempo e o espaço. Que houve apenas um desencontro dos fusos horários das almas, antes. E sabes que mais? Ou estou curada ou não quero saber do que nos fizemos. Porque agora, que podia dizer-te muita coisa, lembro-me apenas de que a tua pele sempre me soube bem, e de que a forma como ondulavas as mãos no meu corpo me faziam sentir mais mulher. E olho-te. Absorves as minhas parvoíces que preenchem os silêncios, interessado, entusiasmado com essa parte de mim. E as outras? Ao que vens? Porque eu estou aqui completa. Sei o que quero. E estou aqui. Mais não faço.
|P|
Acertamos os relógios e partilhamos tudo outra vez, desta vez verdadeiro. Lá fora há um candeeiro sozinho a iluminar a rua toda, é a única certeza que tenho neste momento e sei porque acabo de espreitar a janela, tu estás ainda escondida pelos lençóis, é cedo, demasiado cedo para o dia nascer, mas fico acordado a olhar para as curvas douradas da pele descoberta (é inverno mas a noite é quente), estou acordado e antes que volte a adormecer, com os braços a embrulhar-te inteira para mim, antes que volte a cerrar os olhos e a navegar na névoa dos sonhos, miro-te uma vez mais, beijo-te de mansinho (não acordes, bébé, não acordes) e sei que duas pessoas abraçadas é tudo o que existe, é quase palerma, é cor de rosa e é bonito e inocente como a madrugada que quer despertar, são cinco da manhã, até logo, até mais daqui a pouco, não te percas no sono, desperta-me com beijos.
|NC|
voltamos ao passado com a doçura do presente. envolve-me nesse calor e não me deixes ir. os relógios podem cantar. agora não me importo. nunca te esqueças. perdeste-me e ganhaste-me de novo. não jogues mais. absorve-me como se dá uma passa lenta num cigarro. não apagues. fecha a janela, o nevoeiro está a entrar e cobre-nos de geada. os dias são longos, mesmo no inverno. são assim porque os queremos. neste vício quente da nicotina quero acordar para me viciar um pouco mais no inconsciente do viver-te. bom dia.
|P|

texto partilhado por polegar e Nuno Catarino

serviço (do) público

soube aqui que se está a fazer um inquérito ao público sobre blogs e afins. vamos lá fazer serviço, senhores, toca a responder.

bom dia ou... tem de ser

expiro forte no ar frio, os passos contados pela calçada branca. o dia brilha-me no cabelo e o caminho prolonga-se até à chegada.
subo dois lanços de escadas e cumprimento a menina da recepção com um sorriso, ao que ela responde com outro, inclinando-se para a gaveta de onde tira uma chapa para a máquina do café. pago e sigo. passo as portas de onde já se entrevêem pessoas a circular entre computadores acesos, fundos de écrãs com criancinhas, dossiers e papeladas. quadros nas paredes e gráficos. vou ao chamado bar, onde está a máquina do café, ligo-a. abro a porta do meu escritório e cumprimento os actores nas paredes. ligo os computadores, pouso a mochila e dispo o casaco e o cachecol cor de rosa onde afundei o nariz no caminho.
volto à sala do bar e meto a chapinha na máquina. a bica é mais barata e apesar de a máquina ser muito antiga, o café sai espumoso, quente, forte.
volto com o copinho de plástico a fumegar, pouso-o no postal de um filme que serve de base, despejo o açúcar e acendo um cigarro. vamos ver os e-mails, juntar papelada para a advogada. enquanto o programa abre, ligo o rádio. tomem lá.

Generation sex respects the rights of girls
Who want to take their clothes off
As long as we can all watch that's o.k.
And generation sex elects the type of guys
You wouldn't leave your kids with
And shouts"off with their heads" if they get laid

Lovers watch their backs as hacks in macs
Take snaps through telephoto lenses
Chase Mercedes Benz' through the night
A mourning nation weeps and wails
But keeps the the sales of evil tabloids healthy
The poor protect the wealthy in this world

Generation sex injects the sperm of worms
Into the eggs of field-mice
So you can look real nice for the boys
And generation sex is me and you
And we should really all know better
It doesn't really matter what you say

generation sex | divine comedy | fin de siécle : 1998

quinta-feira, 10 de novembro de 2005

agruras da vida #2

a maré baixou e deixou expostas todas as fragilidades ao ar, a apodrecer.
basicamente, 6 meses de trabalho deitados fora. apesar de todos os conselhos, nós, as práticas (que ficaram por terras lusas), fomos acusadas de negativas pela garganeirice dos que achavam que do outro lado do Atlântico se resolveria por magia tudo o que devia ter ficado bem explícito ainda do lado de cá (e que não dependia de nós, as práticas). parceiros que deram a facada nas costas. burocracias intransponíveis. promessas de intermediários só se revelaram ainda mais ocas do que já pareciam quando já era ou vai ou racha. acharam que era de ir na mesma. duas semanas de trabalho intensivo aqui das práticas, e foram.
partir às cegas é giro, quando se é turista.

depois de tudo isto, voltarão, antes de tempo, com o rabo entre as pernas, de feitios intratáveis, e com a certeza das frases que já vamos ouvindo há uns tempos: "porque é que não fizeste/levaste/trouxeste/ligaste?" (a culpa é sempre de outros), "esta semana ainda não tenho como te pagar" (a minha preferida, ouvida em loop todas as semanas), "isto está complicado, se calhar vamos ter de repensar os ordenados" (ahahahah!).

a realização profissional já estava abaixo de zero, obrigada: trabalhar a recibos verdes por uns trocos ao mês (mês, pufff!) a fazer horários full time (e às vezes mais que isso), e inclusivé com funções múltiplas que valeriam contratar outra pessoa (ou seja, pagarem-me o dobro). a fazer produção (que não gosto) para espectáculos onde não entro, com as mesmas condições daqueles em que, ao menos, entrei. sem perspectivas de tábuas a pisar.

agora? agora é olhar em frente à espera do que a maré me trará. sair daqui ou não, esperar, continuar, não sei. só sei que tenho planos pendentes, dependentes, dos quais depende a minha saúde. mental e física. e que poderão ter de ser, mais uma vez, postos de parte.

...

alguém tem o contacto de uma bruxita?

bocas

desde miúda que vou ao dentista. no primeiro dia escondi-me atrás da cadeira a pedir por favor que não me arrancassem dentes. acabou por ser necessário, mas até que nem foi muito mau. o doutor, com nome arraçado de Caramelo, era bom.

arrancaram-me dentes de leite, dentes definitivos, acho que uns 10 dentes no total. porque, literalmente, I could'nt keep my teeth inside my mouth. tinha daqueles espaços entre os dois dentes da frente, que prontamente foram postos no sítio com um aparelho que tinha uma Tartaruga Ninja no céu da boca. aos 14 anos estava pronta. depois de todos estes arranjos, o doutor Caramelo foi para os States fazer um masters em implantologia, e só o via e aos seus mui calmantes olhos azuis de seis em seis meses, altura de limpezas simples. antes de partir fez-me um molde da obra acabada para mostrar aos seus alunos e colegas. e suspeito que para ter um pouco de mim sempre por perto.

ora bem, regressado dos States, veio megalómano. o consultório não lhe chegava. resolveu fazer uma mega empresa, com linha de montagem. basicamente, um médico para cada departamento dos dentes, consultórios state of the art, computadores com as marcações em rede ligados à recepção e registo informático com tudo, inclusive radiografias, um andar inteiro num super prédio da moda, estreia do seu "Instituto de Implantologia" com direito a foto na Caras. ficou mais caro. agora não via os seus olhos azuis. se queria limpeza, marcava para um higienista, se quisesse marcar com ele, teria de fazer um implante.
entretanto cresceram-me os sisos. e bem que resolveram, eles também, dar-me problemas. ia ter de arrancar um que estava a nascer torto. e já agora o outro que ficava por cima, para ficar simétrico. e já agora os outros dois, para completar a simetria, seriam extraídos posteriormente "porque é uma pena, essa dentição está perfeita". marca para o cirurgião.

a técnica deste senhor era sui géneris: logo a seguir a dar a anestesia, experimentava impacientemente com o bisturi na gengiva a ver se ainda sentia alguma coisa. ora como ele não esperava que fizesse efeito, eu sentia. então toma lá mais uma anestesia. ao fim de nove anestesias, a primeira começou a fazer efeito. já tinha um siso cá fora. quando a quinta fez efeito, já estava a levar pontos, depois de tido a mão do senhor na minha testa a prender-me contra a cadeira enquanto arrancava o dente de baixo à mão. além de tudo, era uma pessoa maravilhosa: apelidou-me de mariquinhas e mentirosa porque eu dizia doía.
a sétima anestesia estaria a fazer efeito enquanto, aos tropeções, de fala entaramelada (não só pela dormência, mas também pela trip que a overdose de analgésico provocou), contava ao doutor Caramelo (que encontrei no corredor, antes de pagar) como tinha sido a aventura, divertidíssima da vida porque via elefantes cor de rosa na sala de espera. o senhor ficou impressionado, segundo a minha mãe. eu não me lembro. o facto é que quando voltei para tirar os pontos o dito cirurgião já não trabalhava ali.

bem, posto isto, desisti do totoloto da linha de montagem e da revista Caras e fui para o médico da minha mãe, que tem nome arraçado de Carrasco. ainda não me inspira muita confiança, porque não gosta de usar máscara, e eu estava habituada aos topos de gama do Caramelo.
ora quando fui à primeira consulta, disse que os outros dois sisos que sobravam não precisavam de ser extraídos "que disparate, vai sofrer só para ficar simétrico! se incomodar, aí sim"
pois que da terceira vez que lá fui, chamou outra médica, andaram tempos infindáveis de volta de mim (eu a pensar que havia algo de grave, conte-me já, vou morrer, doutor?) e acabou por pedir autorização para fazer um molde da minha dentição "porque estamos a fazer apresentações sobre a estética e os seus dentes neste momento estão na moda. são um exemplo perfeito para fazer arranjos, placas"... errrrr. lá me engasguei toda com a massa para bem dos velhinhos desdentados.

desta última vez, quando me sentei para a limpeza, perguntou-me se vinha para extrair. extrair o quê, senhor? "os sisos, então..." e esfregava as mãozinhas... eu estranhei e perguntei porque é que queria extrair. ficou muito embaraçado, fez a dança do espelhinho, e, com muitas hesitações, acabou por dizer que "de facto, não é necessário..." mas ficou um "mas" no ar. o Carrasco também foi mordido pelo bicho-esteta e queria acabar de vez com a assimetria dos dois sisos que ainda me restam, que só se nota quando escancaro a boca deitada naquela cadeira.

e se fossem todos bugiar, não?

quarta-feira, 9 de novembro de 2005

agruras da vida

andei a correr passeio fora atrás de uma nota de 5 euros que o querido vento amigo queria levar para longe de mim. desesperada gritava-lhe, como se me pudesse ouvir, que não me deixasse.

agora desligo as máquinas e ponho a mochila às costas. vou ao dentista largar umas valentes centenas de euros, que ele não faz por menos, e ainda por cima tenta não passar recibo.

(suspiro)

ai...

terça-feira, 8 de novembro de 2005

girando em cima da mesa

"[...] A vida como uma moeda. Escolhes uma face ou uma face te há-de escolher. Avalia as possibilidades.
[...] O problema das montanhas é que só conseguimos ver o que está do outro lado quando lá chegamos. É fácil dizer hoje que não mudaríamos nada, ou que faríamos tudo diferente. É fácil porque não adianta".
A casa quieta, Rodigo Guedes de Carvalho

às vezes é complicado pensarmos em como só vemos a solução depois de já não haver problema. depois de já não se poder fazer nada. o meu maior problema. a minha maior luta. tentar fazer tudo para que as coisas não percam o controlo. não nos percam.

há muitos anos, a noite era de vigília silenciosa cansada ao teu quarto.
os fantasmas cirandavam e eu não queria que te perturbassem os sonhos de menina.
ficava de olhos abertos na escuridão até a escuridão me abraçar por desgaste. acredita, não aguentava mais do que o tempo que os olhos se mantinham alerta.
mas tinha a sensação de que nada te tocava. que te guardava.
hoje as portas do teu quarto ficam fechadas. não sei se para evitar os pesadelos ou se para os deixar só aí dentro.
se para ouvires melhor o espanta-espíritos da maçaneta, ou se para não ouvires nada. tremo.
e penso, enquanto te puxo o edredon para perto das orelhas, e miro essa cascata dourada na almofada, que voltaram os dias de vigília.
um peso aperta-me o peito. de novo.
desta vez não posso falhar.

[a porta] in o medo do escuro

segunda-feira, 7 de novembro de 2005

onde andas?

loira, tonta, de olhos grandes.
onde andam eles?
os olhos?
porque te dizes menos? porque te dizes longe?
sabes, maninha querida, que estás no casulo do meu coração?
e enquanto as estações passam, sinto-te quase borboleta...
quase a voar. não é para fora do meu coração. a esvoaçar, com as outras, dentro de mim.
minha pequenina, tonta, de olhos grandes e caracóis de sol.
põe pimenta nessa língua de pensares assim.
de não pensares também em tudo o que é nosso e bonito.
de que tu fazes parte.
esses pesos que carregas, usa-os como apenas raízes ao solo.
para poderes florescer.
com a água dos dias bons.
quero-te perto, maninha linda.
um beijo

sexta-feira, 4 de novembro de 2005

tricotando...

roubei este excerto descaradamente de uma conversa de msn q tive há uns minutos com a B...
foi alterado por forma a preservar o anonimato de quem tem de ser anonimizado...

B says:
Linda, fiz à hora de almoço a transferencia para ti (dos nossos mui recheados auferimentos do SAX)

Polegar says:
eheheheh boaaaaa

Polegar says:
vou comeeeeer!!!

Polegar says:
LOL

B  says:
e fiz tb para o (outro actor do espectáculo que é o tal totó insuportável), adivinha de quem é a conta?

Polegar says:
da pipipopótarecaxenica

B  says:
LOLOLOLOLOL

B  says:
(MUITO ALTO)

Polegar says:
matarruana, aquela

Polegar says:
como é q se chama?

Polegar says:
calhau? bulldozer?

B says:
DOUTORA xxx....

Polegar says:
ah, pronto, está bem...

Polegar says:
tinha ideia que ela tinha outro nome qq

B  says:
sim, acho que é calhau

Polegar says:
ora lá está

Polegar says:
sabia que era qq coisa geológica, mas não era xxx Rocha Sedimentar

B  says:
lol

B  says:
e ele mandou mesmo agora uma mensagem a pedir que não me esquecesse da transferencia "é poucochinho mas faz me falta!"

Polegar says:
ai coitadinha da sôdôna directora de marketing de uma empresa nacional que não dá a mesada ao menino...

bem... e isto seguia por ali adiante... gajas!

ou bem que sou assim...

... ou bem que não sou eu...
processem-me...
quero lá saber.

sou cor de rosa, às vezes, que fazer?
venha de lá a borrasca depois. agora? agora não consigo ser de outra maneira.

quinta-feira, 3 de novembro de 2005

olha!


My blog is worth $14,113.50.
How much is your blog worth?



quem quer comprar à polegarzinha, o blog na netzinha?

polegada #2

ontem, a caminho da cervejaria Trindade, passei obrigatoriamente pela sex shop ali do Cauteleiro.
olho sempre para a montra. confesso, acho graça ao imaginar senhoras a tentar reacender a paixão em casa, vestindo aquelas rendas com a banha a sair por entre os muitos buracos da fatiota. e a cara de surpresa de um qualquer alguém que acha que engatou uma miúda certinha para uma noite de simples engalfinhamento e de repente a menina angelical de artigos duvidosos a gritar "say my name, bitch". ou até o rapazola de livro na mão, com a namorada deitada na cama à espera, e ele "ora... 5 centímetros para nor-noroeste do ísquio, isso fica por... aqui!" "Ah! Oh sim!!...

bem, na vista de olhos pela dita montra, reparo num livro à venda. "Arte vs Sexo", do Miguel Ângelo. sim, o dos Delfins.

eu não sei quanto a vocês, mas... haverá coisa mais quebra-tesão do que o Miguel Ângelo?

elevador #2

entro. o condutor acaba o cigarro e sobe atrás de mim. sacudo a chuva do cabelo, pago e pico o bilhete.
fico mesmo à porta. perto, tão perto do condutor sisudo que quase sinto as pontas dos seus bigodes enormes, retorcidos, na minha bochecha.
observo calmamente o caminho, sempre o mesmo, em carris. mas cada momento diferente. a luz. gente, sempre gente, mas sempre pessoas diferentes.
um grupo daqueles de gente pequenina de olhos bem abertos e bibes coloridos desafia o passeio íngreme com as suas pernas curtinhas. aos pares, de mão dada.
olho em frente. quase a chegar. o senhor dos bigodes, o sisudo, levanta a cabeça, e de repente os seus bigodes saltitam e ele acena lá para cima.
espreito. outro grupo dessa gente pequenina de bibes às cores está de caras redondas encaixadas no gradeamento ao cimo da calçada. e agitam as mãozinhas a dizer adeus ao elevador.
estico o braço e sorrio-lhes com o sorriso parvo de "gente grande".
ouço um "adeeeeeuuus" de vozes fininhas de gente pequenina.
e ouço outro, de vozes grossas, constipadas, mulheres e homens. olho para a traseira do eléctrico. toda a gente está virada para as janelas, de braço no ar, a acenar de sorriso parvo na cara.

ora aí está uma coisa que não se vê todos os dias.