segunda-feira, 27 de fevereiro de 2006

hou la da barca, hou la!

todas as actrizes do elenco (e há três para um papel, já por causa das coisas) estão ocupadas em lançamentos de cds e digressões de outras peças, pelo que dois dias de espectáculo estão em causa, sem ninguém disponível. depois, se não se fizerem esses espectáculos, não há dinheiro para pagar às pessoas.
who 're you gonna call?
à pessoa que também tem de fazer a montagem, dar formação ao técnico que entra novinho em folha naquele dia, ao carregador novo, que com o velho terá de carregar duzentas cadeiras. ah, e fazer a bilheteira e tratar de encaminhar as manadas de meninos... valha-me a santa colher, que estava com tanta febre que se ofereceu a safar-me de mais esta...
cá estou, a decorar falas vicentinas, para daqui a dois dias ir fazer um espectáculo, sem que o encenador ou o assistente de encenação se dignem a passar texto comigo. e sem ensaio de palco. pelo menos os colegas dizem-me que vai correr tudo bem... pois claro.
ainda por cima tenho de cantar... não vale...

bem, vou-me embrenhar na canção da outra e a ver se deixo de trocar o "não hei eu i d'embarcar" com o "nom quero eu entrar lá".

"pera o paraíso vou"... ah vou, pois, depois desta tenho mesmo de ser "apostolada, angelada e martelada"... estou a fazer "cousas mui divinas"! "eu sou ua mártela tal... açoutes tenho levados e tormentos suportados que ninguém me foi igual..." olha, é quase biográfico!

para desanuviar, sugiro-lhes que vão recordar os bons velhos tempos aqui. eu já andei a recordar as minhas viagens de cavalo alado e espada mágica com a She-ra e as noites de Vitinho e, e... mais não digo... boa viagem...

à barca, à barca da vida... ai ai ai...

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2006

pontes


foto roubada a nelson d'aires

o tempo foi perdido, não por nós mas por tudo o que nos fez sermos quem éramos quando nos cruzámos. a desorientação no espaço é inevitável para quem não é mais que um fragmento de si, sem compasso de relógio, sem desejos nem carne. sem sangue. de sabores dormentes. quando o tempo nos toma as rédeas, fica-se suspenso. tudo muda à volta. permanecemos assim, sem o norte. mas sabia onde ficavam os pedaços dos meus dias úteis. e mostrei-te. nessa ponte encontraste a passagem. ali. e descobri que aquela passagem era minha também. escorremos como rio violento, quebrante, fugimos do tempo escondidos na humidade dos peixes. acampámos no limbo do destino, espetámos-lhe as estacas com a volúpia da vingança nos dedos, enquanto o tempo nos procurava. esquivámo-nos em gritos insanos para dentro um do outro. e o sabor acordou. o da tua carne na minha língua, o da tua vida no meu peito, o do meu peito nas tuas mãos, o dos meus gemidos nos teus cabelos brancos. o do sonho nos nossos dias. o amor, enfim o amor. depois não. depois o tempo voltou. depois foi quando os nossos corpos se separaram* e parámos de novo, cada um nos seus pontos recortados de alguma agenda amarrotada por um ser sem nome nem caneta para nos unir. porque não somos mais do que nos deixamos ser. o encontro nem sempre une. permanecemos quedos, querendo o tempo a passar até sermos de novo pedaços de pó. nessa liberdade soltei-me ao vento e à água ao teu encontro. dei-te a minha morte. no fim, fui tua de novo, meu amor.

não sei porquê. mas tive a certeza. este tipo de certezas só se tem uma vez na vida.


*a naifa | três minutos antes de a maré encher |

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2006

folias :: o rescaldo

o som é maravilhoso. já gostava, agora gosto mais. dos senhores, da força e balanço da música, da audácia dos convidados especiais...

de resto... bem, de resto a nota negativa vai unicamente para os convivas... é que ir ao lux é "bem", mas continuaram sem perceber porquê... havia com cada um... ora vejamos, enquanto ainda balanço ao som de "miúdo":

.: as tias de casacos de peles e ar-tão-pedigree que desceram logo que abriu o acesso ao piso da discoteca. não podiam perder pitada, mas parece-me que acabaram meio perdidas. ficaram à frente mas perderam a pose: sem perceber porque é que o peeling estava a derreter e a desfazer-se com a vibração e porque é que os cintos cheios de metal e lantejoulas as puxavam na direcção das geringonças que faziam som - esse som estranho que não tem nada a ver com a Casa do Castelo, vindo de pessoas a sério em cima de um palco...

.: os tios de fatinho, copinho na mão e a outra no bolso, que falavam da bolsa ao pé da entrada... deixaram cair o queixo ao chão quando entrou o primeiro "ente" estranho de cabeça rapada, túnica justa, lenço às bolinhas cor-de-rosa e bota alta... "aquilo é um gajo?"

.: o homem-tipo-bruno-nogueira-quasi-torre-eiffel que escolheu pespegar-se deliberadamente à frente de um grupo de gente com uma altura média de 1,62m [para o qual contribuo com o meu 1,58m]

.: a totó e o seu suíno que resolveram obstruir a visibilidade de toda a gente à frente de quem se resolveram meter... ele porque se achava macho dominador com direito a ver mais que os outros, com as suas mãos no "ponto de requebra" da menina; ela porque tinha um "cabeção" ralo mas comprido e crespo que atirava para cima de quem estivesse num raio de 50 metros nas suas tentativas de sedução do suíno. foram no engodo da festa "bem" mas não estavam habituados, coitados, a tanta gente e confusão e não percebiam porque é que as cabeças à frente deles não se baixavam. mas também não percebiam porque é que tiveram 4 pares de cotovelos espetados nas costas a noite toda... nem porque é que tanto o casaco foleiro do cavalheiro como a farta cabeleira da dama saíram meio chamuscados de cigarros... muahahahah... toda a saga aqui

entretanto divertiu-se quem foi lá pela música... portanto, eu diverti-me à brava... e sem adormecer... ;)

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2006

folias

sou uma foliona. gosto de sair. e como sempre tive pouca liberdade, nunca me dei ao luxo de armar em esquisita, em intelectual nem em hype: danço o que estiver a tocar, canto, salto e passo a noite a água [sem aditivos, hem?].

mas às vezes olho para a minha triste figura: então não é que aos 26 anos, se tenho encontros marcados para a noite, adormeço antes de ir para lá e tenho de ser arrancada a ferros do sofá onde aterrei mal cheguei do trabalho? é muito triste...

hoje tenho um hot date com cindy kat. pois que posso não ser ninguém, mas tenho convites para o concerto de apresentação do disco, oferecidos por um dos próprios. sem intermediários... um luxo...

ora que me ponho a pensar... se calhar não vou a casa... vou ficar por Lisboa a fazer tempo... beber alguns cafés... porque parece-me que ando a perder a pedalada. eheheh

terça-feira, 21 de fevereiro de 2006

ora vamos la ver

o novo carregador arrasta os pés.
eram duzentos miúdos mais as respectivas professoras.
os actores acordaram de rabo para a lua e eu é que acordo todos os dias às 7 da manhã.
os actores recebem para ser actores e queixam-se da vida.
os actores não percebem o conceito de "monumento nacional" e largam beatas no chão da sala.
o "show case" de A Naifa transformou-se num "estou a fazer isto por ti".
enganei-me a fazer as contas com as cadeiras.
as professoras não percebem a noção de "cheque ao portador".
eu não gosto de contar 300 euros em notas de 5.
uma escola chegou atrasadíssima e ainda queria visita guiada.
o engatatão da bilheteira viu-me passar carregada e disse "ó menina, cuidado com as costas".
só na hora de encaixar as criancinhas me apercebi do erro de contas e tive de ajudar os carregadores a transportar mais 50 cadeiras pelos claustros.
o novo carregador não percebe a noção de "a ver se saímos cedinho" e demorou tanto tempo a arrumar o cenário como a olhar para o vazio com ferros na mão, pelo que demorei o dobro do tempo a fechar tudo e sair dali, pelo que almoço de jeito que é bom, nada.
dei umas 15 voltas ao Príncipe Real à procura de lugar para estacionar e só quando entrei por uma viela em desespero de causa se dignou a aparecer-me um nicho onde enfiar o carro. a custo e a "crostas" (vulgo arrumador), que ainda não me habituei ao ponto de embraiagem.
os "crostas" não percebem a noção de "o tabaco aumentou"
esqueci-me da pasta no carro, e não tenho forças para lá ir buscá-la.
na recepção tinham à minha espera um molho de fotocópias de tal tamanho que tive de pedir ajuda para abrir a porta do escritório.
o recado em cima da mesa era "liga ao não-sei-quantos e continua com as etiquetas"
a cada golo de iogurte ou a cada trinca numa bolacha torrada tocava o telefone com mais professoras empenhadas em proporcionar-me mais manhãs como a acima mencionada.
as professoras não percebem o conceito de "nesse dia está esgotado".
não me lembro ao que souberam as bolachas. nem o iogurte. mas dou um salto na cadeira a cada toque do telefone.
já não me lembro do que é beber uma cerveja ao entardecer ao pé do rio.
já não me lembro do que é estar. simplesmente estar.
não faço teatro há quase cinco meses e as hipóteses de lá voltar estão a diminuir na indirecta proporção do tempo que gasto nesta cadeira.

eu garanto - mas fica aqui escrito, hem? - que se me aparecerem mais uns dias destes pela frente num futuro próximo, largo o carro ao pé do rio, atiro a pasta à água, sento-me com um livro e despeço-me.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2006

recuerdos

passei a tarde de ontem, na indiferença à trasladação da Irmã Lúcia, a vaguear pelas ruas da minha infância.

a recordar o sol no meu tecto e as paredes forradas com bonecos.
a caixinha de música cor de rosa, que ainda guardo
o espanta-espíritos da Branca de Neve que, um pouco mais pálido, ainda existe
os óculos que ajeitava ao nariz, cada par mais "exótico" que o outro
os meus dentes da frente, muito grandes e com uma falha entre eles
os tempos do aparelho
os tempos do ballet
os tempos em que andava de costas direitas
os tempos das apresentações na primeira "escola em palco"
o meu primeiro poema para um público
a inauguração da Malaposta, em que participei, tendo que ser retirada em braços do coche onde estava, porque o microfone não chegava lá
a carrinha da Junta de Freguesia, a espalhar a "Lambada" pela vila
dançar "Onda Choc"
cantar o "Conquistador"
o dia em que fiz uma tele-receita de leitão com laranja, utilizando a minha irmã como o próprio leitão
a minha avó a sorrir
o meu pai quando parecia o Bin Laden
os canudos do cabelo da minha irmã
o meu cabelo pelos cotovelos
o meu corte de cabelo à pagem (que a minha mãe ainda hoje adora)
o meu muito mau gosto para chapéus, na pessoa de um boné com um pompom no topo
o meu sorriso indelével
a minha ausência do mundo quando pegava num livro
o facto me sentar sempre de pernas abertas
a minha incapacidade de falar baixo
a minha mão na anca quando as coisas corriam mal
a minha diversão em apresentar programas de tv caseiros
a minha dedicação em fazer teatros de fantoches
a minha mania de cantar em todo o lado
o dia em que andei a cavalo
os banhos de regador de relva
os banhos no tanque
o meu primeiro cão

tudo misturado, em vaivéns de imagens simples, pedaços de mim, alguns esquecidos, outros tão presentes como se fosse hoje.
vejo-me uma miscelânea, ainda hoje, dessas pequenas coisas. vejo-me a eterna menina à procura de um sorriso em volta. vejo-me ainda à procura de abraços seguros, que não me deixem suspensa no ar.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2006

hold still

recuperou o fôlego da noite e despiu os lençóis do corpo nu. da janela de madeira espreitavam ramos de plátano e prédios antigos. neles prendeu os olhos enquanto o primeiro cigarro lhe aquecia o peito. a chávena de café fumegou-lhe o silêncio das paredes lisas. as imagens suspensas dos seus olhos eram estilhaços de vida. tatuados em papel e em memórias vagas como o lume do sol no céu brilhante da manhã, que sombreava a cama revolvida através dos estores de ripas. pousou a caneca dengosamente, sentindo a cerâmica macia escorregar-lhe nos dedos húmidos do vapor. enterrou as mãos no cabelo e espreguiçou-se. ouviu uma voz.
- pára. assim.

clic.


por causa disto. cliquem em "hold still" e fiquem parados um bocadinho. gostem ou não do cantor, um clip admirável com fotografias de Augusto Brázio.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2006

manias...

o desafio do Rantas foi aceite. ficam aqui as minhas 5 manias, avisando desde já que a lista seria extremamente exaustiva e que excluí o teatro por motivos óbvios: não é mania, é dependência :)

.: querer estar de bem com toda a gente, contra tudo e contra todos, apesar de ser bruta como as casas
.: prender e desprender o cabelo constantemente
.: cantar - infelizmente para os outros, a minha vida é um musical
.: dormir de punhos cerrados ou com as mãos escondidas debaixo do pescoço, de lado, sempre com uma perna dobrada, o que apesar de até me fazer uma figura toda jeitosa e ondulada dá umas dores do camandro nas costas ao acordar
.: e... esta é de facto estranha... desde miúda que quase adormeço quando limpo os ouvidos com cotonetes... don't ask

e posto isto, passo o testemunho a:

o duende feliz
colherzinha de chá
espanta-espíritos
estranho
pinky
e macaso que não está cá, mas pronto, pode ser que venha com tempo e paciência de reencontrar este post nos arquivos ;)

já passei do limite? eram só 5? pois olhem, quem não está nesta lista mas quiser trazer ao mundo os seus podres está por mim convidado a fazê-lo, desde que me avise que o fez, para eu ir lá cuscar eheheheh

convido também quem me conhece a falar-me-vos das minhas manias... vai ser divertido e se calhar vai haver tareia... hmmm...

terça-feira, 14 de fevereiro de 2006

mas mas...

qual é a gravidade tão grave do dia dos namorados?
não vejo ninguém tão revoltado com o dia da mãe! e há os órfãos, tadinhos!

formiga atomica


cortesia de espanta-espíritos

é preto, piquenito, arredondado, tem bochechinhas [diz que sim], orelhas grandes [como em retrovisores], olhos amendoados, e cara [pois está claro que tem cara] de sorriso maroto e atrevido. lá dentro é só negrume misterioso e laranja bem disposto à minha volta, em bolinhas [sim, bolinhas] estilizadas com números de lettering catita. ah, dizem ainda [e eu concordo] que tem muita pinta, ali entre o desportivo e o cosmopolita, o chique e o descontraído, o elegante e o intelectual... trendy, portanto. diz que é charmoso, diz que sim, e diz que me assenta que nem uma luva... ora está bem...
rosna quando se mete a primeira mas depois é suave e desliza, ainda cheira a parafina queimada, não tem cinzeiro, o porta-bagagens é basicamente um envelope [isso não estranhei, que o Jippy era a mesma coisa... uma questão de tetris!], tem um acelerador ansioso por prego a fundo e é baixinho [eu, ex-dominatrix do todo-o-terreno e agora tenho de ter medo dos passeios! bah]...

foi a sensação estranha de que, agora sim, não voltaria a conduzir o Jippy. porque eu tenho a mania de acreditar numa grande reviravolta até levar em cima com as provas todas provadas e testadas em laboratório do ponto sem retorno. só me apercebi disso, realmente, no momento em que dava o meu autógrafo ao senhor do stand, em pilhas de papéis e seus duplicados que me endividarão para o resto da minha vida.

e foi isso que lhe expliquei, ao carrito: que sou um bocado doida da cabeça, que me apego às coisas e que ia demorar a habituar-me a esta nova relação, que tinha de me dar um tempinho para me ajustar, mas que já lhe achava muita piada e que queria mesmo dar-me bem com ele por muitos e longos anos, como foi com o Jippy. de preferência sem cortes abruptos nem prazo de validade. fui avisando o popó para não se espantar se desatasse a largar o mais profundo português suburbano que tenho dentro de mim no trânsito [que eu até sou um doce de pessoa], que muito provavelmente iria rir à maluca, chorar feita maria madalena e cantar em plenos pulmões com ele sem qualquer pudor... só para ele não levar de chofre com uma das minhas reacções um destes dias.

pois que já lhe estreei os ouvidos, entre o stand e as dobragens, apesar de os nervos ao princípio me tirarem a voz. ao fim de um bocado, dei comigo em coro com Joy Division e "love will tear us apart", logo a seguir dei-lhe com o "come into my heart" do David Fonseca. no regresso das dobragens, foi o "here comes your man" dos Pixies, que adaptei para "here comes you car". testei o leitor de cds com a prenda de aniversário de um amigo, Jack Johnson e "better together"... as nossas primeiras músicas, aqui registadas para a posteridade...

fui buscá-lo ontem, tinha apenas 6 Km... hoje já passa dos 100 porque deu-me para ir, depois das dobragens, lá para as 11 da noite, mostrá-lo aos papás...
o meu pai ria-se que nem um perdido e dizia lá do alto do seu Jipão "é tão pequenino, que engraçado". a minha mãe, que não liga a carros, dizia que é lindo e a minha irmã basicamente enfiou-se lá dentro... está estreado também numa das suas funções mais importantes que é encher de gente em boleias de manhã... ai que saudades que tinha disso...

por enquanto, e apesar da total paranóia em conduzir desde o acidente, só servirá para situações pontuais em que não possa mesmo usar transportes públicos. mas já me está a dar o nervoso miudinho de me fazer à estrada com os bancos rebatidos cheios de mochilas e pacotes de bolachas e garrafas de água em direcção a algum destino assinalado no mapa ou sem qualquer destino definido... afinal, a liberdade do asfalto cola-se à pele...

There is no combination of words I could put on the back of a postcard
And no song that I could sing but I can try for your heart
And our dreams and they are made out of real things
Like a shoebox of photographs with sepia-toned loving
Love is the answer at least for most of the questions in my heart
Like why are we here? And where do we go? And how come it’s so hard?
It’s not always easy and sometimes life can be deceiving
I’ll tell you one thing, it’s always better when we’re together
It’s always better when we’re together
We’ll look at the stars when we’re together
It’s always better when we’re together
It’s always better when we’re together

And all of these moments just might find their way into my dreams tonight
But I know that they’ll be gone when the morning light sings
Or brings new things for tomorrow night you see
That they’ll be gone too, too many things I have to do
But if all of these dreams might find their way into my day to day scene
I’d be under the impression I was somewhere in between
With only two, just me and you, not so many things we got to do
Or places we got to be we’ll sit beneath the mango tree now

It’s always better when we’re together
We’re somewhere in between together
Well it’s always better when we’re together
It’s always better when we’re together

I believe in memories they look so pretty when I sleep
And when I wake up you look so pretty sleeping next to me
But there is not enough time
And there is no song I could sing
And there is no combination of words I could say
But I will still tell you one thing
We’re better together

better together | Jack Johnson | in between dreams

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2006

rugas da parede



ouve-se no silêncio um pequeno percalço. um suspiro. não tem dono, apenas ao ar onde regressa pertence. o suspiro das paredes. são antigas e foram ali deixadas quietas, em abandono descrente. estranho santuário do pó dos dias, sem sombra que lhes alimentasse a alma para além da sombra que lhes contava da mudança das horas. ali ficaram, guardando as fotos velhas e as células mortas e os bichos do papel. velhas e desencontradas de sentido, a tristeza fizera-as perder a luz e a firmeza, despedaçando-se em pequenos pós brancos e beges e azuis no chão sem pés.
uma lágrima caiu pé-ante-pé, sem aviso, em grito sufocado. não compreenderam, as paredes, o que lhes quereria a lágrima. timidamente taparam as faces, deixando no entanto uma frincha entre os dedos para espreitar a lágrima, que lhes escorria e se enrolava com o pó em pigmento egípcio, cada vez mais espessa, misturada na humidade e nos rolos de cotão. deslizava silenciosa, furtiva, absorvendo em si o negrume dos anos, acariciando-lhes as rugas. arredondava-se a mancha que engrandecia. e as paredes coraram, pincelando naquela estranha sombra húmida um laivo de rubor em que de um prisma se encontraria todas as cores e cor nenhuma.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2006

funny little frog

vá lá, é entrar no fim de semana a saltar.
apesar dos lenços de papel, do cérebro a querer sair pelos olhos, da garganta arranhada e de falar à bom fanhoso ali dos becos atrás do Mercado da Ribeira.

um sapinho engraçado dos belle & sebastian. quentinho a sair do forno, cheio de mimo do bom, para quem, como eu precisa de mantas e descanso este fim de semana.

com um beijinho especial e euphons para a colherzinha que está, como eu, de molho.

estrada


[seguindo, a voar por teclas e papéis, deixando o leitor cantar-me o que lhe apetecer, um som antigo...porque viagens, essas, haverão sempre. no asfalto e na vida. así son las cosas...]


Estrada fora estrada dentro, de Bayonne a Milão,
coração ao relento, mundos e fundos na mão.
Corpo negro macadame, de Milão a Budapeste,
voar, "chercher la femme", norte, sul, oeste, leste.
Polaroid, pôr do sol, vénus na concha da Shell,
Sexo, sonho e rock'n'roll, noite branca no motel.

Anjo perdido na bruma, leva-me ao sétimo céu,
abre o teu manto de espuma, deixa cair o teu véu,
deixa cair o teu véu, deixa cair o teu véu,
deixa cair o teu véu...

Chuva, bréu e gasolina, bar aberto, companhia,
cheiro a erva na latrina, chá, café e fantasia.
Ultrapasso um camião, passo fronteira e portagem.
O écran do alcatrão devorou a tua imagem.
Estou tão longe, estou tão perto, sei que nunca
hei-de chegar
onde vou não sei ao certo, já não posso mais parar.

Refrão

Contigo leio o futuro nas gotas do pára brisas,
coração inseguro, mãos vazias, indecisas.
Néon pálido, luar, Via Láctea, solidão,
tenho ganas de beijar o espelho da escuridão.
A grande roda da sorte é uma curva sem fim,
do outro lado da morte há uma estrada só p'ra mim.

estrada | pedro abrunhosa . regina guimarães | viagens | 1994

salvados

- a senhora desculpe, mas já agora queria fazer uma pergunta... por uma questão pessoal, gostava de saber o que é que vão fazer com o carro... é que se for para abate eu queria ficar com a matrícula...
- olhe, tendo em conta a empresa que comprou os salvados, suponho que seja para o voltar a pôr em condições de ser comercializado.
- ai não me diga...
- sim, é o mais provável.
- boa, era só o que me faltava... daqui a uns tempos dar de caras com um fantasma na rua...
- desculpe?
- nada, nada. olhe, muito obrigada.

[entretanto, aqui nos arquivos do computador dou com o "é preciso ter calma" do Abrunhosa... ah pois...]

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2006

transparente sem possessivo


[ms]

deitada, enleada nos pensamentos que não tinham relevância para o quadro pintado em sangues vivos, ocres e ceras. apenas a simples nudez. uma entrega aos sentidos aos lençóis aos silêncios e à luz das velas. ao embalar emocional de uma qualquer música na aparelhagem. o total desprendimento da noção de despida. da noção de pudor. porque ali jazia, deitada, viajando para longe, sem se lembrar ou esquecendo a pele ao ar, as suas curvas e recantos despojados de qualquer pedaço de opacidade. transparente, na pele que estendia pelo lençol. nos cabelos espalhados sem ordem ou vaidade. na linha do pescoço delicada. no requebrar suave dos músculos entre cada respiração. nas cores quentes que entornavam o corpo diante dos olhos. e no agudo ondular do suor num pequeno friso da parede.

era só um carro



já está. não resta comigo qualquer vestígio físico de ti. entreguei hoje o teu coraçãozinho. e - estupidamente, eu sei - choro.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2006

à porta da loja

todos os dias lá está. veste roupa escura e suja, indescrita. tem um corpo estreito e seco, alto, do qual parece estar sempre a cair. o olhar parece não passar além dos olhos. cansaço. puro cansaço e tristeza. e um brilho febril de um qualquer ente deformado e reptilíneo que lhe rasga a vontade de ser, comendo-lhe a vida pelas veias. às vezes traz uma fita cor de rosa alegre que lhe prende desajeitadamente os cabelos limpos mas despenteados. o rosto moreno e comprido já foi bonito, salpicado de sardas e de lábios bem delineados que entretanto perderam a forma do sorriso. jovem, terá se tanto a minha idade. a voz sai-lhe grave e arrastada.
senta-se na caixa da electricidade e dali pergunta a quem entra na loja se à saída não pode dar uma moedinha. passam por ela todos os dias muitas caras de sempre. no entanto parece nunca reconhecer nenhuma. fala a cada um com a mesma ladainha, o mesmo olhar vazio e desencontrado do simples reconhecimento. lê revistas e jornais que alguém lhe dá e partilha com o arrumador os cigarros que lhe vão arranjando em jeito de moedas que não aparecem. deseja saúde e um bom ano a quem lhe estende alguma ajuda, em Janeiro ou em Agosto.

mais uma. só mais uma. torna-se desagradável entrar na loja porque se sabe que invariavelmente se vai ouvir o "menina, se tiver uma moedinha que me possa dispensar à saída agradeço. obrigada, saúde e bom ano."

é fácil pensar em como seria. ela. onde beberia o café de manhã, onde pousaria os olhos ao atravessar a estrada, que cheiros a fariam sorrir, que tipo de mala gostaria de usar, se preferiria botas ou ténis. se gostaria de ler. se preferiria comédias ou filmes de terror. se gostaria de andar por Lisboa antiga a pé ou se preferiria os grandes espaços brancos e cimentados do Parque das Nações. se a chuva na cara a faria lamber os lábios ou baixar o rosto. se um homem alto de olhos verdes a faria perder de amores ou se preferiria o tímido franzino da mesa do fundo do restaurante. como seria ao conversar com os amigos sobre a sua banda preferida. que quadros ou imagens teria nas paredes do quarto. qual a disciplina preferida na escola. se teria complexos com a celulite, com as sardas ou com os dedos dos pés. se preferiria gatos ou cães. o campo ou a cidade. rosas ou margaridas. laranjas ou morangos.
se ao menos sentisse.

há umas noites atrás, estou à janela ao telefone. e vejo-a como todos os dias. mas nessa noite ela estava em pé, ao lado da caixa da electricidade, e todo o corpo estremecia desajeitadamente. ignorava quem passava, quem saía ou entrava na loja. apenas estremecia. virado para ela, à altura da sua coxa, um miúdo ria deliciado e desafiante, de espada do zorro em riste. e ela desengonçava-se fingindo uma morte arquejante sob o gume afiado do garboso cavaleiro.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2006

esa mujer loca

dos 0 aos 100 numa palavra. na voz, decibeis acima do normal. capacidade para falar muito, discorrer ao pormenor sobre assuntos e abordar de uma forma quase autopsiante cada argumento, unindo-os numa elaborada e completa trama, difícil de acompanhar de tão longa, sempre apresentada num discurso fluido e alterado.
com isto poderia ter ido para direito. ou para a política [then again... no. ergh!]. por parte disto já me perguntaram porque não segui psicologia.
este é, basicamente, um dos meus milhares de defeitos.

por amor sou capaz de me exaltar desta maneira completamente absurda.
sou aguerrida nas coisas de que gosto, nas coisas em que acho que tenho razão, pelo bem dos objectivos que prossigo ou das pessoas que me são especiais.

por esta minha estranha mania de me lançar ao ar "em defesa da causa" [expressão de colher de chá] sou conhecida no sítio a que mais me dediquei e ao qual trouxe [tenho plena consciência] grandes frutos como "esa loca".
a minha forma demasiado apaixonada de defender as pessoas que amo [em todo o seu sentido] dos seus próprios erros [erros no meu ponto de vista, claro] pode inclusive levar as pessoas, depois de uma discussão acesa mas para mim sem danos colaterais, a perguntar-me se ainda gosto delas.
... gosto, se não gostasse simplesmente dizia "pois" e passava à frente...

no entanto, encontro-me mais serena do que alguma vez fui. o copo demora mais a encher. estou menos explosiva. vejo sempre os dois lado da moeda. peso-os, disseco-os [lá vem a autópsia]. normalmente acabo por deixar a minha observação "claro que compreendo. mas posso não concordar?". se não levo a minha avante fico aborrecida, mas lá está... passa-me pouco depois e não me chateio mais com isso. o que se diz numa altura não fica marcado daquela forma trágico-indelével que não me permita ultrapassar com um sorriso. estou sempre à espera das boas notícias, mesmo de gente que à partida não me pareça muito boa onda. não me apercebo imediatamente de que os outros podem ser diferentes e ruminem eternamente no mesmo. a minha boa disposição permite-me estar de bem com todos, deixar que me desiludam muitas vezes. e só perder a fé quando a desilusão atinge aquele único ponto, aquele contorno específico que não sei definir, apenas sentir.

por isso apenas num sítio sigo "la loca". e aí sou "la loca" pero no saben la pena que me da, chicos...

segunda-feira, 30 de janeiro de 2006

blue



nu. puro. intenso. quente. profundo. sonho. descanso. sensual. sorriso.

pianissimo

hoje há casting na agência de actores/modelos/manequins/qualquer coisas aqui do lado.
mais um dia em que não se consegue ir à casa de banho porque estão entupidas com meninas a retocar a maquilhagem ou a despejar as 3 garrafas de litro e meio de água obrigatórias para a hidratação da pele e para a dieta. vejo os rosto jovens, muitos muito novinhos mesmo. meninas, na sua maioria bonitas, de peles de porcelana, pernas compridas, cabelos num apanhado casual, com pontas estrategicamente soltas, dedos compridos e unhas impecáveis, roupa da moda em que, apesar de encasacadas, ficam lindas e nunca parecem chouriças com andar de pinguim...
meninos altos e atléticos, de folhas na mão, sorrisos de aparelho acabado de tirar.
meninos feitos à imagem e semelhança do mercado que pré-formata o nosso consumo. meninos mesmo dentro dos padrões que vendem ou se compram ou sei lá o quê, independentemente do que vai dentro da cabeça.
olhares de esperança sabe-se lá em que futuro...

tenho um casting [noutro sítio] e devia sair para lá daqui a meia hora. o meu cabelo está num só nó, apesar do brilho. tenho roupa quente de todos os dias que me engorda e botas de montanha. não tenho um pingo de base para disfarçar as olheiras. as unhas já se foram há semanas, entre falhas, ferramentas e nervoso. não há "charme natural" [ahahahah] que me valha e reparo que a motivação já não é a mesma de há uns tempos. falta-me qualquer coisa... talvez a inconsciência e o sentido de aventura que me permitiam jogar com a auto-estima de outra forma.

... ai...

domingo, 29 de janeiro de 2006

decorria o mui nobre e jovem ano de 2006

uma pacata família, na periferia saloia da capital, tomava a sua tradicional refeição almoçadeira de Domingo, dia santo de reunião de todos os seus elementos, dispersos pelos afazeres da semana.
de narizinhos enterrados na frugal refeição de carninha grelhada, os vários elementos faziam as suas considerações acerca da vida e do seu sentido. num momento de algum silêncio compenetrado no alimento santo, a mai'nova levanta os olhos e larga num pequeno sussuro de espanto um "olha, está a nevar". os restantes elementos direccionam os gloos oculares na direcção que provocara tal altercação. no mesmo momento a mai'velha solta o seu suave manifesto de alegria e incredulidade:
- FODA-SE tá a nevar!
levantam-se todos de um salto e o patriarca ainda consegue ter a presença de espírito, entre o atordoado da situação, de assertivar uma reprimenda demasiado frouxa à filha mais velha:
- ó Polegar, francamente, olham'essa língua...
- desculpem, desculpem mas tá a nevar!
mas o espanto tomou todos os intervenientes e todos saíram para o jardim para admirar o inédito acontecimento natural. a matriarca ria e chorava ao mesmo tempo, a mai'nova, no seu habitual recato, observava tudo sorrindo, o patriarca saiu a correr para gravar tudo na sua câmara de filmar, a mai'velha, já de gorro às riscas, saltava que nem uma cabrinha montesa, guinchava e ria à gargalhada, de braços e boca abertos, língua de fora, a apreciar o primeiro nevão da sua vida. quando lhe sugeriram que voltasse para dentro por um instante porque estava frio respondeu com um delicado:
- tás bêbado? tá a nevar!
custou a estes nossos amigáveis protagonistas voltar para dentro para terminar o repasto. e o que fizeram de seguida? claro que voltaram para a rua, vestidos a preceito, todos de língua de fora, para no caminho do café, fazerem a sua hidratação das papilas gustativas.
os flocos em turbilhão, tão vulgares para tanto habitante do interior norte deste país à beira-mar plantado, fascinaram os nossos intrépidos amigos que foram incapazes de regressar ao aconchego do lar e abandonar o primeiro nevão dos últimos 52 anos.

o primeiro instinto que tive foi de chamar a minha avó para vir ver aquele cenário que tanto pressagiara nos dias frios daqueles anos lá em casa. o segundo foi um suspiro descansado em que me certifiquei que não era preciso, ela estava ali, de sorriso aberto, a sentir também a espuma fresca gelar-lhe as bochechas macias.

de facto, os milagres acontecem...

sexta-feira, 27 de janeiro de 2006

polaroide

o patrão entrou numa escura tarde de Novembro com um caixote dos cds da banda sonora do espectáculo que levámos ao Brasil, onde se lançou a dita B.S.O.... o meu queixo caiu ao chão quando leio na parte dos agradecimentos o meu nome... pois que não estava à espera, confesso... peguei no cd e desde então raramente saía do Mac quando queria pica para trabalhar nos projectos.
pois que pouco tempo depois volta ele ao fim de outra tarde escura e olheirenta com o seu I-pod, e de olhos esbugalhados, sorriso rasgado e carapinha de antenas no ar me revela um ultra-segredo... "tenho aqui um álbum que ainda não foi lançado. não podes contar a ninguém... mas ouve lá..."

ora foi abanar o capacete até não poder mais. foi interromper o trabalho só para pôr mais alto e parar para ouvir e degustar. agora pergunto-lhe sempre pelo I-pod onde ainda descansa o tal segredo, que respeito e só ouço acompanhada por um adulto responsável... eeeer... bem, mais ou menos responsável...
no entanto, há uns tempos pareceu-me reconhecer a música na rádio e delirei quando consegui seguir a letra...

hoje, mais uma vez vem pela rádio ter comigo o som inconfundível dos senhores (que para mim eram o P. e o J. e faziam a música do espectáculo, sem qualquer associação de nomes para além disso, porque eu para nomes sou terrível) e estendo um sorriso:
ele é show cases exclusivos de A Naifa tão privados quanto o momento do cigarro entre o fim da montagem e o ir buscar as escolas à entrada...
ele é tratar as vedetas por tu...
ele é conhecer as músicas antes de toda a gente e depois descobrir que até é hype e tudo...
ele é ter o meu nome num cd desses senhores que até são hypes e tudo...

...isto de me dar com gente importante tem um quê de cool...!

quarta-feira, 25 de janeiro de 2006

o lado errado da avenida

caminhava ininterruptamente há muito tempo, não sabia quanto. caminhava entre palavras por dizer, entaladas no beco sem saída que o grito rasga. caminhava entre grãos de areia, minúsculos, que lhe massajavam os pés para depois lhos ferir em chagas sangrentas. sentou-se sem o suspiro do alívio. os passos seguir-se-iam, de novo.
não lhe interessou olhar em volta. não lhe interessou os cheiros nem os rostos.
pediu uma água e esperou. quando levou os dedos ao copo um reflexo no tampo de vidro riscado prendeu-lhe os olhos. um qualquer desassossego no cabelo comprido. um qualquer esgar perdido na pele sem sinais. prendeu-lhe os olhos.
permaneceu em sombria atenção ao reflexo no vidro riscado. com medo, talvez, de levantar os olhos para se deparar com uma figura diferente daquela ali gravada a duas dimensões, recortada pela luz demasiado forte do exterior.
os olhos pareciam límpidos à primeira impressão, mas algo se escondia por detrás da serenidade, demasiado transparente, demasiado simples. um travo morno subiu-lhe à lingua, abafou-lhe a frescura da água enquanto fixava os pormenores do cabelo preso numa trança comprida e escura, emoldurando o pescoço, o nariz espevitado, as mãos pousadas ao lado de um copo com um líquido amarelado. a roupa sem qualquer desígnio de tribo urbana ou moda. não marcava posição ou mania. vestida para agasalhar. vestida para despir.

estás do lado errado da avenida. sei-o nesses dedos inertes que de vez em quando fechas num punho pequeno, nesse olhar suavizado para não dizeres nada. há quanto tempo estás aí? vês-me? sim, vês, mas não me viste porque não olhaste. como eu não olho para ti mas para o teu reflexo. a que cheiras quando te deitas? ao creme que passas na testa em gestos desprendidos ou ao suor de um dia comprido? dormes nua? ouves música ou preferes que o silêncio não te tolde os pensamentos para que entres nos sonhos sem enganos? quanto tempo dura o teu sono? é sereno ou tens insónias? porque nessa pele sem mácula encontro sombras. não se vêem se te olhar de frente, eu sei. dissimulas bem, mesmo quando achas que ninguém te observa. sorris muito? e dessas, quantas vezes sorris com vontade? gritas quando fazes sexo ou choras no fim? e depois? tremes de frio e enrolas-te ou estendes-te de corpo abandonado a fumar um cigarro? fumas? a que sabe a tua boca quando acordas? sabes dançar? esse pescoço diz que sim. as tuas mãos dizem que não. porque é que não és como as outras? porque é que não tentas mostrar o que sabes o que conheces o que ouves o que lês o que fazes e repetes? estás aí parada, só parada, e só tentas mostrar que estás serena. quando todos à volta se queixam da vida em altos suspiros de desgosto tu calas. reage. se te morder a orelha para te guardar o sabor, deixas? tem um orgasmo para mim. chora-o na minha cara. sentes-te bem?

agarrou o peito e os olhos alteraram-se da serenidade para um pequeno nanossegundo de desamparo. olhou em volta sem ver e voltou à redoma de abstracção. ele levantou o corpo da cadeira sem o suspiro do sacrifício. largou uma moeda no rosto riscado. e levantou os olhos do vidro.

- olha, vem comigo, vens?
- ... desculpa?
- anda, vamos correr. se te cansares enganas a dor.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2006

porque é que as produtoras andam aos pares?

para carregar os calhamaços do IA em quadruplicado.

ausência

falhei, outra vez.
sem explicação que vá além de que as horas não esticam e que a cabeça não tem direito a parar um pouco em si. agora não. mas nem por um momento consegui associar um dia a uma data a um acontecimento especial na vida de uma pessoa especial. não há falta de sono que o justifique, não há afazeres que o justifiquem.

faço agora uma pausa, sem tabaco. porque de repente aqui está o branco e eu e o Romeu na parede. uma ficou doente, os outros tinham compromissos incontornáveis. e eu sobro. mais uma vez. a papelada tem de estar em quintuplicado, sem falhas, encadernada até às 17:30 nas mãos de um qualquer funcionário que quer ir de fim de semana mais cedo.
e ficou a lista do que falta terminar.
eu encarrego-me disso. por uma questão de ética, da minha ética, mais do que de dever profissional a quem me paga mas depois me abandona na hora H. não vai ser por minha causa que falha. mais esse fardo não.

mas fiz uma pausa, e um segundo de lembrança chega para escrever em parangonas nos olhos o que de realmente importante falhou. de repente, num flash. que devia ter chegado ontem.

apesar da dificuldade em conseguir conter o choro neste momento, por cansaço, desgaste, incredulidade, revolta, desorientação, sensação de injustiça, impotência e obrigação de conseguir, tive de tirar um bocadinho para, aqui, poder dizer: desculpa.
falhei-te. devo-te, agora e sempre, ao menos um beijinho e o calor de uma presença inventada em palavras ao longe para um aconchego extra na hora das borboletas. e sei o que dói essa ausência e por isso sei o que te dói. aí, ao pé do bolsinho, que sentes vazio de qualquer coisa.

para uma bonequinha.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2006

caros senhores do IA:

muito obrigada por me tramarem mais uma noite. uma noite que tinha excepcionalmente livre para dedicar a mim e ao meu futuro e às minhas cores.
menos uma. mas cumprirei os prazos... os vossos e os meus. apesar de os vossos, oh, meus caros, por favor... deixam tudo a desejar... eu percebo-vos. os amigos já estavam informados de antemão e portanto já têm tudo feito. não se preocupam com timings. o resto se organizará conforme a Vossa palavra, alterada num decreto-lei feito à pressa na véspera da abertura do concurso.
hoje ficarei, então, muitas horas depois do jantar e da caminha onde estarão as vossas queridas e frígidas esposas de máscara de pepino na cara, no escritório, que não tem café, a dedicar-me aos textos do projecto que querem que o pessoal apresente conforme os novos objectivos [diferentes a cada concurso], à coordenação do cérebro disléxico e disperso do meu patrão com as teclas. enquanto os outros dois se dedicam aos números.
espero conseguir ser lesta com esta coordenação como sou a verborrear num teclado, porque amanhã, senhores, tenho de me levantar cedo. o meu trabalho não pára. vossas excelências ficarão, concerteza, até tarde na caminha. claro, faz bem à saúde. sabem, depois de passar o dia de amanhã [como fiz hoje, por sinal] a trabalhar [como em a acartar com ferros, aparafusar estruturas de madeira, desenrolar e enrolar carpetes de dezenas de metros... coisa ligeira], à noite vou para um estúdio gravar as vozes dos bonequinhos que os vossos filhotes tanto gostam de ver enquanto as vossas empregadas vos limpam a casa, passam a roupa da vernissage a ferro e vos preparam o martini de fim de dia...
e, caros senhores, tenho de me conseguir manter em pé na sexta-feira, para ir de novo, logo pela fresca, para o tal trabalho ligeiro, seguido de retorno ao escritório para a correria de último dia de entrega dos projectos, onde vai faltar sempre qualquer coisa.
por ora, já comprei uma caixa de donuts, um pacote de bolachas, e uma caixa de aspirinas.
a colega assaltou o cofre da empresa para comprar oito chapas para café. a pedido especial, a máquina do bar ficará ligada.
imprimimos um aviso para a porta, onde se lê: "proibida a entrada a quem não tiver o maço de tabaco cheio".

agradeço-vos, portanto, por preencherem a minha vida de uma forma tão interessante, saudável e pouco calórica.

terça-feira, 17 de janeiro de 2006

numero 87

ao fundo dos degraus de madeira já gasta dos passos uma porta de madeira e vidro. mais dois degraus, de pedra, um pouco mais largos, para o passeio. no segundo, de pés direitos assentes na calçada, sentava-se aquele homem. todos os dias, à mesma hora. de roupa tão neutra que não se conseguia descrever. não marcava por ser de um estilo, ser velha, nova, escura, colorida, quente ou fresca. o rosto era talvez monocromático. sem nada que o descrevesse ou tornasse único, aos olhares esquivos dos muitos que ali passavam. invisível como os passos que marcavam as pedras dos degraus, uma parte do degrau, talvez, que ocupava. uma parte da fachada do edifício que lhe servia de moldura. estático, como uma gárgula de carne e nervos desfocada da erosão dos dias. ficava direito, as costas largas apoiadas no vidro. um contraste de sombra perfeitamente delineado na luz errante do meio da tarde. poder-se-ia jurar que deixara já queimado no vidro esse seu contorno das costas. as mãos, nem curtas nem compridas, nem bonitas nem feias, nem peludas nem lisas, nem enrugadas ou jovens - assentes nos joelhos com uma precisão simétrica. ficava. estava. fantasma quieto das pedras. parecia aguardar. esperar por alguém. por vezes quebrava essa quietude com um gesto seguro em que os dedos da mão direita se esgueiravam para o tal casaco sem descrição e tiravam do bolso um cigarro. sem maço. e um fósforo. sem caixa. entre o indicador e o médio o cigarro levado aos lábios. entre o polegar e o anelar prendia o fósforo. depois fechava os dedos em torno do pauzinho e raspava-o rapidamente na pedra do degrau. a faísca e a chama, o puxar do primeiro bafo, a primeira nuvem de fumo. os dedos recolhiam ao bolso, largavam o fósforo queimado, retornavam ao joelho. e ali ficava. a deixar a nicotina desfazer-se em cinza entre os lábios, consumindo o único ar que parecia dar-lhe forma aos pulmões. e o único cheiro que o distinguiria, o do fósforo queimado, esvaía-se nos ventos, jacarandás, perfumes, suores, vozes, roçares de casacos.
não parecia reconhecido aos raios de sol quentes ou desagradado ao vento frio ou à chuva. estava. o momento em que se levantava, ninguém nunca se dera ao trabalho de contar. apenas que quando desciam as escadas, ele já lá não estava. onde ia, também não se questionavam. os outros.
dizia um condutor da carris que às vezes, em descendo a calçada ao fim da tarde, se ouvia um homem murmurar, sentado na caixa verde de metal do fundo do elevador - se era o mesmo não se sabe mas era também anónimo demais para se desenhar um maxilar ou apenas um esboço de expressão. parecia gemer e chorar. mas o rosto permanecia assim. igual. nunca lhe perguntou se chorava ou se falava apenas com as vozes da cabeça. nunca lhe perguntou como, apesar do rosto sintético e gemidos estranhos, comprava o passe todos os meses, acto tão corriqueiro. também nunca lhe perguntaram onde comprava tabaco e os fósforos. se a menina que lhos vendia lhe conhecia a cara ou também a fixara por ser a única impossível de fixar.
no dia em que desistisse de esperar, o relevo na pedra teria já abraçado a forma do seu sentar?

segunda-feira, 16 de janeiro de 2006

da pressa

desejando estar noutro qualquer sítio, vendo as árvores e os candeeiros a fugirem dos olhos nervosos.
as mãos fechadas, estáticas, cravadas em tensão nos estofos do carro e as pernas completamente rígidas carregavam num travão invisível, na desesperança de ver chegar uma curva cheia de poças de água e temendo o descontrole de uma coisa tão falível como uma caixa de metal com rodas conduzida por um louco furioso.
as horas escorregavam nos vidros de forma dolorosa e nem a música cantada alto - desavergonhada porque desesperadamente - espantava os medos obscuros e as visões de uma noite escura em que o som da chuva soou demasiado alto e só parou num estrondo ensurdecedor.
o homem ao volante, de cenho franzido e movimentos incertos, tomava agora - tenho a certeza - contornos quase monstruosos, de ser mutante, umas horas atrás pessoa normal, agora quasi-homicida.
às vezes não percebo as pessoas, juro que não percebo. o desprendimento com que se toma responsabilidade sobre a vida dos outros. numa boleia ou numa viagem sozinho, em que se cruzam centenas de vidas à nossa volta.
a possibilidade de se curtir uma viagem de paisagens nocturnas de cortar a respiração, dignas de uma paragem para um cigarro e contemplação, completamente esmagada por um pé num pedal em nome de sabe-se lá que alívio de uma estranha frustração.
hesitava-se entre o não se lhe dizer nada para não o distrair das curvas demasiado apertadas e o falar com ele a ver se por estar na conversa abrandava. corria-se o risco, no entanto, de ele, entusiasmado com a conversa, tirar as mãos do volante para esbracejar as palavras...
demasiado tétrico para ser irónico foram as incontáveis vezes que se falou do meu acidente, em que não tive culpa nenhuma e ia devagarinho [como é que se admite esses malucos que aí andam, pá?!], e de fulano e sicrano terem morrido ou ficado com uma perna enfiada na testa por excesso de velocidade. porque o tom que circulava era o do "coitados, realmente ele há gente que não pensa... mas isso só acontece aos outros e eu posso continuar nesta desculpa esfarrapada de estrada a 150 à hora que nada me acontecerá, porque sou eu, o Rei, o Senhor do Asfalto e conduzo muita bem - olham'esta beleza a curvar e a entrar em contramão no cruzamento [e ele chateado com o cruzamento, porque não devia estar ali e devia ser mais largo], olham'esta qualidade de reacção a acelerar para ultrapassar em cima do traço contínuo [porque a fila lá à frente sempre é lá à frente], olham'estes travões que nem preciso de manter uma distância de segurança de 50 centímetros [e o lembrar-se de lá meter o pé, senhor?]. eu tenho um carro que inexplicavelmente se mantém em cima das quatro rodas mesmo quando faço as maiores barbaridades - que não são barbaridades, porque sou eu que as faço, hem?".
naquele limbo do temer pela vida e do não ter pago a viagem para me por com exigências [como faço num táxi] ou ter confiança suficiente com o senhor para lhe mandar um berro e dizer-lhe que ou ia devagar ou levava um pontapé na boca [note-se que seria em palavras menos simpáticas, mais escatológicas e anatómicas e de vogais bem abertas], mantinha-me em choque catártico, a tentar lembrar-me de respirar, a tentar não reparar de cada vez que o pobre carrinho, tão inteligente, coitadinho, apitava a avisar que se ia em excesso de velocidade [coisa frequente que se tornou ensurdecedora. mas o triste apito acabava por desistir, cheguei a pensar que de afonia], a tentar ignorar a minha cabeça feita chocalho, as minhas costas num monte de ossos sem ordem. e a pensar na desgraça que seria se o senhor em vez do carro dele estivesse a conduzir o meu falecido... e a fazer, bastaria, um terço do que estava a fazer com o dele... é que nem tinha andado 100 metros.
cheguei ao ponto de, no pânico, antever a minha morte já ali naquela curva, sendo o fantástico tecto de abrir - que me mostrava de vez em quando uma lua cheia maravilhosa - o meu voraz assassino, na pessoa de estilhaços cravados no meu pescoço...
...
... de repente, alguém se lembra que se esqueceu de uma mala. ora portanto... uma hora de tortura feita, agora mais uma para ir buscar a mala e outra para voltar ao ponto onde estávamos, mais umas duas e tal até chegar o momento em que sentiria [se realmente conseguíssemos lá chegar] o chão seguro debaixo dos meus pés. acho que nesse momento os meus olhos caíram das órbitas e os meus dedos, já dormentes, perderam o fôlego.

ainda em busca do meu carro novo-semi-novo-usado-sem-estar-muito-ao-menos-com-as-peças-todas-fashavor, dou comigo a pôr de parte a cor, o design e o consumo e a imprimir as páginas do testes de colisão, a analisar as velocidades máximas que atingem, como serão os pneus, se têm tecto de abrir... e a fazer uma lista de pessoas que nunca deixarei que peguem nele, nem para o tirar do estacionamento...

quinta-feira, 12 de janeiro de 2006

maldisse

o dia cinzento com o sol mesmo ali, do lado de lá, mas na mesma cinzento.
o frio ainda maior que fazia nos claustros toda a manhã.
o facto de o trabalho começar cedo demais para tomar o pequeno almoço e acabar tarde demais para almoçar.
o peso das coisas que tinha de carregar.
as unhas partidas, agora que conseguira deixar de as roer, por causa dos ferros, tapetes e parafusos.
os irresponsáveis institucionais com que tinha de lidar que tinham perdido uma chave e já a queriam acusar a ela.
o tempo que demorava a chegar depois de tudo ao escritório.
o facto de ter de ir para o escritório depois de tudo.
o facto de lhe apetecer ficar sentada a olhar para a parede sem produzir a uma semana da entrega dos projectos.
a incapacidade de se sentar a comer como deve ser sem companhia.
a incapacidade de se sentar a comer como deve ser.
a torrada com demasiado sal, sal só nas batatas fritas.
o galão demasiado amargo.
o estado letárgico que a impedia de se levantar e pegar noutro pacote de açúcar.
a gulodice que lhe ia de certeza trazer crises de diabetes aos 30.
o facto de ter de atravessar a estrada e entrar de novo no escritório vazio.
o facto de ter mais trabalho noite dentro.
o facto de não ter carro.
o facto de não ter tempo para tratar do carro.
o facto de não ter tempo para despachar as suas coisas para andar a despachar as dos outros.
a noite mal dormida, de sono demasiado pesado.
a manhã mal acordada, o duche mal tomado, o espelho de olhos desanimados e olheirentos.
o cabelo espigado.
a preguiça de sequer por um creme na cara.
a roupa mal amanhada, nova mas já a borbotar dos carregos, que a fazia sentir-se mais trapo-fêmea que mulher.
o facto de não ter ouvido nenhuma música durante todo o dia.
a rapariga do café que, de bata branca e touca na cabeça, brincara com um cão bebé às pintas e voltara para trás do balcão sem lavar as mãos.
o facto de ter reparado mais nisso que no cão bebé às pintas.
o facto de isso a fazer sentir-se cada vez mais parecida com a mãe.
a mulher que a olhava com um sorriso-pensativo-quase-paternalista na mesa do fundo.
a máquina do café que não tinha Luckies nem Detroits.
o ter de ir gastar dinheiro em tabaco.
as miúdas estragadas que à porta do Extra todos os dias pediam uma moedinha como se nunca a tivessem visto.
o facto de lhe ser inevitável dar-lhes mesmo uns trocos ou um cigarro à saída.
o sorriso demasiado apagado quando viu um menino chinês a perguntar "quanto custa buáxás" ao senhor do Extra.
o taxista que quase a atropelou na passagem de peões.

maldisse o ter acordado com os pés de fora ou com o rabo virado para a lua ou nem carne nem peixe ou lá o que foi que a deixou o dia todo a maldizer tudo.
detesto estes dias cinzentos.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2006

arrepios

numa dessas longas noites de trabalho, quando o cigarro à porta não sabe tão bem porque o vento enregela os dedos, quando apenas algumas luzes se mantêm acesas nas janelas da rua escura, num pequeno estúdio dos arredores de Lisboa, o trabalho tem de ser feito. doa a quem doer...


care bears | ep. 28 | personagem "arrepios" | take 1

nota: não recomendável a pessoas algo sensíveis. não ouvir com o patrão por perto.

terça-feira, 10 de janeiro de 2006

thumbelina's law

uma colega teve um pequeno acidente. culpada por azar, porque o outro é que ia a abrir.
ouço-a a manhã toda, enquanto enrolamos cabos e espalhamos panos e aparafusamos, ao telefone com a mãe, que está na seguradora por ela.
de regresso ao escritório, ela dá-me boleia. chamadas insistentes de um número desconhecido. pára na berma e atende. do outro lado berreiro. touro com ascendente em virgem já se sabe... exalta-se, responde já sem paciência porque a senhora esposa do condutor telefona com acusações, depois de o próprio ter passado a semana a ligar-lhe com ameaças. desliga o telefone na cara da mulher e acende um cigarro. eu acendo outro e sorrio quando o telefone volta a tocar. estendo a mão perante a cara estupefacta da minha colega e atendo, piscando-lhe o olho e com uma longa inspiração. endireito as costas, traço a perna, voz colocada e extremamente calma. vou-me divertir...

- muito boa tarde.
ouço uma respiração como se fosse começar um ataque e ficasse desarmada.
- ... b-b-boa t-t-tarde...? estou a falar com quem?
- com a advogada da Dona M. presumo que seja a esposa do senhor com quem houve a colisão...?
- s..s...sim... - pequena recuperação, retoma o registo de berreiro - mas você é advogada o quê, hem? tou mesmo a ver, e atendia agora, se ainda agora falei com ela! dê-me já o seu nome, se é advogada! olhe que eu também tenho advogado!
- minha senhora, acredite no que quiser. por acaso, além de advogada sou amiga da Dona M. e estava no carro com ela e pude assistir à vossa conversa. não lhe dou o meu nome porque prefiro manter-me apenas como amiga da Dona M. até ao momento em que se verifique a necessidade de levarmos esta situação a tribunal, o que penso que seria um disparate, uma vez que me parece que apenas há um mal-entendido...
- pois, mal-entendido! o mal-entendido é a Dona M. ter carta, sabia? pessoas dessas a conduzir como é que se admite! nunca vi! escorregou-lhe o pé no tapete, tá bem! era só o que faltava!
- minha senhora, as condições em que aconteceu o acidente foram devidamente explanadas na declaração amigável de acidente. neste momento o que há a fazer é dar seguimento ao processo com as seguradoras.
- pois mas a Dona M. não meteu os papéis! ela pensa que nos engana mas não meteu, que eu sei, porque a minha seguradora já me deu os recados de que ela não meteu. e ainda por cima é malcriada comigo ao telefone, desliga-me assim e diz que não tem nada que falar comigo!?!
- como deve imaginar, minha senhora, é complicado para a Dona M. ter recebido toda esta semana chamadas do seu marido para o telemóvel pessoal com ameaças... especialmente depois de já ter tratado de tudo, conforme a informou... qualquer pessoa fica alterada e enervada com tanta insistência em acusá-la erroneamente.
- mas não tratou nada, então não sei que não tratou?! veio com conversas que tratava de tudo mas eu tenho os recados da seguradora em como não tratou, que eu ligo para lá todos os dias e foi o que me disseram! nós somos pessoas de bem, honestas e trabalhadoras minha senhora! - aqui, falava já em metade das rotações e eu já podia manter o telemóvel perto da orelha.
- somos todos, minha senhora. mas porque é que parte do princípio que a Dona M. não é? posso garantir-lhe que ela tratou pessoalmente de tudo, tal e qual lhe disse. eu acompanhei tudo. ela deu logo andamento ao processo. depois de receber o recado do seu marido, visto que estava a trabalhar, pediu à mãe dela para lá ir esta manhã e está tudo conforme os trâmites necessários.
- então porque é que...?
- minha senhora, o que se passa é muito simples. neste momento são as duas seguradoras que têm de tratar da situação. o que suspeito que esteja a acontecer, e não seria novidade, é que estão com algum problema burocrático ou de passagem de informação, e como sabe tão bem como eu, neste país, é mais fácil culpar o cliente que assumir a responsabilidade da empresa...
- p-p-pois... se calhar. hoje em dia é tudo assim...
- o que eu lhe sugiro é que passe a pressionar a sua seguradora, e, se quiser, a dela.
- pois... se calhar é melhor eu começar a chatear a seguradora em vez da Dona M...
- e não se esqueça que isto envolve muita papelada, demora sempre algum tempo a resolver.
- pois... olhe, então desculpe lá o incómodo, sim? desculpe lá. muito boa tarde.
- muito boa tarde para si também, minha senhora. cumprimentos ao marido.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2006

a girl has got to do what a girl has got to do


[ms]

na sequência do abrupto falecimento do meu jippy, depois das mentiras mal mastigadas do outro senhor - que nem a companhia de seguros dele convenceu -, depois da vitória do Bem sobre o Mal, depois de ter recebido oficialmente e peremptoriamente a confirmação do perito de que foi "perda total", e dado que o processo burocrático todo está a chegar ao fim, vejo-me perante a necessidade de comprar um novo carro.
não novo-novo, claro, porque o montante não dá para tanto, mas um usado em bom estado.
pensei muito em guardar este dinheiro e comprar uma vespa, mas infelizmente preciso mesmo de quatro rodas com chapa à volta para os meus carregos em dias de chuva, para não ter de viver em função de empréstimos da boa vontade alheia, que tem limite de paciência e vida própria...

por isso, venho pedir ajuda a todos os polegares que por aqui passam:
um carro recente [tipo 2002 - 2003] que beba pouco, que seja de confiança a conduzir, que não tenha revisões [normais] muito caras, que dê para dar boleia aos amigos [não necessariamente 5 portas] e seja bonitinho.
até 8000€, à venda em Lisboa.
não estou interessada em compra ao próprio porque preciso de garantia. portanto, indiquem o stand.

suggestions anyone...?

sábado, 7 de janeiro de 2006

a noiva



abre os olhos ainda não acordou o mundo. na janela ainda sem cortina passam pequenos raios de luz, tímidos, dando-lhe os solitários bons dias. a cama demasiado grande sem o outro corpo que a escolheu, revolvida da noite sem sono de borboletas na barriga, as paredes ainda largando o cheiro da tinta pintada a dois há poucos dias. larga os lençóis e a preguiça hesitante. ele já terá acordado? a água escorre fervente pelo corpo que teima em manter-se arrepiado e tenso. perde mais tempo no creme com o cheiro do perfume que a pele absorve, sedenta. umas calças de ganga, um casaquinho e rabo de cavalo. acende as luzes da cozinha e engole sem vontade uma torrada.

o telefone toca pela primeira vez. não é ele, hoje recusa-se a falar com ela. a amiga está lá em baixo à espera. desce com a carteira e telemóvel no bolso do casaco e chaves atrapalhadas na mão. a conversa amena distrai-a e as revistas no cabeleireiro também. ele ter-se-á lembrado da flor para a lapela ou irá levar a teima dele avante? o ferro queima-lhe ao de leve uma orelha e o cheiro do spray fixante para as ondas no cabelo dá-lhe alguma náusea. quando levanta a cabeça e se mira ao espelho, ainda com a roupa do dia a dia, não se percepciona.

regressa e o telefone toca de novo, abre a porta e entra a irmã de mala prateada na mão, recheada de pincéis e frascos brilhantes. senta-se à janela e vai dando dicas à amiga para escolher uns cds tentando não se mexer. será que ele gosta deste castanho nos olhos? atende mais meia dúzia de telefonemas, explica caminhos e horários. depois de meia hora de risos calmos e algumas caretas, o espelho volta a sorrir-lhe, ainda atordoado.

vai ao quarto que será escritório mas onde por agora a única coisa que o tem é um cabide com um vestido branco pendurado no puxador da janela. as mãos tremem-lhe ao subir as meias de vidro pelas pernas. não serão demais? aos dedos escapa o caminho do fecho do soutien que conhecem de cor. o verniz já secou, de certeza? o saiote que já ensaiou parece-lhe maior e a saia demasiado apertada. o top não tem aqui uma linha solta? enrola-se na pequena estola de plumas que parece não assentar nos ombros como da última vez, no atelier da costureira. a irmã dele telefona à gargalhada e diz que ele nem dormiu. será verdade? a amiga tem de lhe calçar as sandálias e a irmã ajeita-lhe os caracóis soltos perto do ganchinho.

dobra a roupa e faz a cama. será que ele já chegou? estará à minha espera? novo telefonema. parece que ele já está a roer os cotovelos, à falta de unhas. coitadinho. mas ele estava tão calmo ontem. mete numa malinha o baton e perfuma-se. pergunta três vezes se cheira bem. que horas são?

de cabide na mão sem se saber ao lado do armário, estaca em frente ao espelho. uma última vez. e rodopia. larga uma gargalhada e um sorriso ansioso. já está.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2006

still in rebounce

hoje fiz uma coisa que me espantou a mim própria. recusei um trabalho em teatro.
os motivos são meus. muito meus. mas pela primeira vez inspirei fundo e disse que não. depois de experimentar, claro.
as forças já não são as que eram, e curiosamente as ilusões também não.
pesei na balança os prós e os contras, as pálpebras pesaram-me e o peito pesou-me. senti-me estranha, diferente e tive medo de me sentir injusta. com os outros e comigo. entre o "há-de aparecer qualquer coisa que valha a pena", o "estás a ficar velha, oportunidades não caem do céu" e "ainda achas que vais chegar a algum lado assim?" ou até "mais vale saíres agora do que não teres coragem para sair depois" puxei de uma golfada de ar sem cigarro e no suspiro deixei sair a razão.
assim não, por desespero não. por amor. por orgulho. como sempre foi.

...

se calhar estou mesmo a ficar velha...
mas nesse caso com a idade não vem a sanidade, senhores...

quarta-feira, 4 de janeiro de 2006

do sono ou como enlouquecer uma produtora

deixo-me dormir mais 20 minutos e chego os mesmo 20 atrasada ao tal do monumento para a montagem. os carregadores já lá estão e começamos a labuta. da colega [substituta, esta semana, mas igualmente franzina, só que mais nervosa e caótica] nem sombra. começo logo a remoer, ela no dia anterior tinha-me pedido para a acordar, o que fiz, contrariada e avisando que isso é favor que só faço uma vez. pego no telefone pronta a ouvir a coisa do "está trânsito" ou "adormeci mas já tou a caminho". ouço uma voz de almofada que me arrepia toda. "então, V.?" "então o quê?" "espectáculo... remember?" "mas que horas são?" aieee "9:30" "ai, desculpa, vou já para aí".
chegou estava quase tudo montado. uma hora e dez depois de mim. com a loucura da confusão de berbequins e porcas e panejamento, nem dei conta das horas nem das pessoas que já estavam. entra uma das actrizes a cantar "lágrima" e o mundo pára um bocadinho. não é toda a gente que tem direito a show case de A Naifa com o seu fado preferido... mesmo entre carpetes imundas e parafusos.
o momento zen termina quando, às 10:45, dou pela falta de dois actores... com espectáculo a começar às 11:00.
um foi acordado aos primeiros toques de telefone. o outro devia estar com uma moca tão grande que só acordou depois de várias tentativas. às professoras foi dito que um dos actores tinha tido um acidente de carro e estava a resolver o problema. pedimos à M que começasse a visita guiada com os 50 miúdos e que enchesse chouriços para os dois ramelas chegarem. ao contrário das piores previsões [o espírito de equipa nos bons actores é, de facto, sintomático], ela prontificou-se a fazer uma longa visita guiada por todos os meandros do dito monumento e disse que se necessário até recitava Pessoa.
assim se conseguiu evitar o desastre, e os meus joelhos fraquejaram quando o último rameloso entrou a correr nos claustros.
eu não sei... eu acho que um atraso é normal. e chego quase sempre atrasada. mas... assim? sempre trabalhei com gente que brasicamente pagava do seu bolso para poder ir ensaiar e representar... e nunca tive destas agonias! não havia a coisa [a que eu me recusei quando me passaram a pasta] de ligar aos meninos para os acordar. para fazerem 2 horas de trabalhinho pago ao mês, asseguradinho... e ainda é preciso coordenar as coisas entre o respeito pelo colega que lá esta desde manhã e o respeito pelo espectáculo em si.
o mundo, está, de facto, ao contrário...

terça-feira, 3 de janeiro de 2006

imagens

de um branco leitoso e sorrisos de luzes. de pincéis desenhando meigos com pó as linhas da alegria. de orgulhos alheios e cumplicidades. divago algo alheia, satisfeita com as mãos dadas e o sim das certezas, com banda sonora fraterna. crenças à parte. teorias à parte. amor é universal e a lei que gosto de seguir. de lágrimas nos olhos, pois que chorona sempre serei quando chega a altura em que o filme é delico-doce e escorre nos meus olhos em toque de realidade.
e sigo com os olhos e a câmara para mais tarde recordar, os passos decididos num caminho de pedras sem dores.
o arrulhar dos talheres, os fumos, os goles embriagados e as conversas dispersas não me prendem. anseio pelo momento prometido em que os sons serão outros, compassados, trementes e suados. e assim entro na nova data, no novo número. dançando voraz cada nota bem disposta, rodando e arrancando sorrisos meus. ao som de uma qualquer música velhinha de rock and roll.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2005

paginas ou o proximo acto

os dias entretecem-se uns nos outros e as pessoas umas nas outras. momentos que passam a correr e momentos que demoram a passar. querer apanhar o tempo bom e querer despachar o mau. querer ter tempo para saborear.
há muitos anos atrás não me conhecia como sou. não me conheço amanhã.
falar de ano novo e de dia novo e de segundo seguinte novo. de vida por estrear por construir com os cimentos dos passados.
de laços improváveis de laços estranhos de laços simples de laços quebrados e laços desatados. de partilhas corrompidas. de calmarias e tormentas.
os balanços são sempre feitos com pólos negativos e positivos, balanças mais ou menos umbilicais. medos, riscos e petiscos.
levantar a cabeça e seguir em frente. a minha avó na minha cabeça, a cada passo.

ganhei desejos de boas festas, bom natal, bom ano. digo ganhei porque do outro lado de cada um estava uma quente mão estendida. generosa. porque confiante, porque confia em mim. sensação de um abraço, de uma entrega. uma partilha inacreditável de coisas tão diferentes. muitas destas mãos são novas no meu mundo e todas são valiosas. a todas e cada uma tenho a dizer apenas pequenas coisas que me deram outras mãos e que guardo como tesouros:

sê feliz . um dia de cada vez, mas começa já . agarra-te ao que gostas, não esperes . faças o que fizeres, gosto de ti na mesma . levanta a cabeça e segue em frente . todos os dias dói menos um bocadinho . azul com uma lua . laranja . a vida é tua doa a quem doer . é bom falar contigo . há, no entanto, no meio de tanto caos, constantes . sorri .

não faço resoluções de ano novo [esta passagem de ano até vai ser... sui géneris] , vou tentando fazê-las a cada dia. a ver se a vida e eu melhoramos mais depressa mas com objectivos adaptados a cada situação e prazos mais elásticos...

por isso até segunda! ;)

quinta-feira, 29 de dezembro de 2005

aha

The Movie Of Your Life Is A Black Comedy

In your life, things are so twisted that you just have to laugh.
You may end up insane, but you'll have fun on the way to the asylum.

Your best movie matches: Being John Malkovich, The Royal Tenenbaums, American Psycho

tacto

procurou o conforto do assento atapetado meio curvo da carruagem, onde as suas costas não encaixavam bem. deixou-se embalar pelos roncos ecoantes da velocidade e pelos espasmos de cada paragem. os cheiros e vozes à sua volta contavam-lhe as histórias de cada um e de ninguém ao certo. também não interessava. a cada zumbido de portas deslizantes a azáfama dos pés apressados e rabugentos. os encontrões surdos e as malas das senhoras a baterem nas cadeiras. "com licença" "desculpe" "quer-se sentar?". os sacos de plástico numa restolhada. os anéis a tinir nos ferros.
de súbito, um perfume. não se mexeu, mas os seus músculos retesaram-se sem clemência para os sentidos assustados. nos solavancos ritmados subiu a música há muito adormecida, desperta pelo aroma que agora lhe trazia à lingua o sabor amargo e revitalizante do perfume acabado de pôr. ao seu lado o calor de uma perna. mesmo ao lado da sua. uma simples perna, um membro do corpo humano. que transportava em si o perfume mas não o cheiro. e um calor, uma queimadura.
as imagens assolavam-na em rasgos de luz que esquecera. que arrumara numa prateleira juntamente com o olhar. o calor do corpo dele em doses de loucura e maciez. um pescoço moreno e aquele ponto no centro do peito. zonas onde se acumulavam. as mãos dela, o perfume e o cheiro dele. e o odor do amor acabado de fazer, de partilhar, de lamber, de gritar e de segredar.
as imagens desvaneceram-se quando quis lembrar-se. lembrar-se do brilho dos olhos dele, aquele brilho que a levara sempre. e que levara sempre com ela. mas que não conseguia visualizar. era demasiada luz, talvez.
abranda o comboio. o movimento da perna masculina ao seu lado confessando-lhe que tinha de se ir embora. um toque de mão grande e perfumada inusitado no seu ombro por um solavanco encurvado que provocou um desequilíbrio. continuou sem se mexer. ao pedido de desculpas respondeu um sorriso aterrorizado.
porque agora o comboio não a embalava. eram de novo as vergastadas no carro no dia em que o perdera. em que o vira pela última vez. deitado ao seu lado num qualquer monte de entulho e ervas daninhas.
desorientada, afastou os pensamentos, inclinou-se para a presença à sua frente e perguntou em que paragem estavam. a sua era a próxima. uma qualquer mão caridosa de pele fina de menina nova ajudou-a a levantar-se e a aliviar a sua pressa. de um gesto mecânico, abriu a mão e na bengala o chão ganhou contornos de pés e sacos de plástico. o vazio entre a carruagem e o cais. tacteou os óculos escuros e compôs o cabelo. e concentrou os sentidos no ritmo da bengala, cantando-lhe para os dedos o caminho na triste melodia de cada dia que passa igual.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2005

frases para o dia

"eu olho para ti [no escritório a trabalhar sem gosto] e definho"
"agarra-te ao que gostas, não esperes"
[JB . actor . in charcutaria francesa]

"you can feel my lips undress your eyes"
[franz ferdinand . in darts of pleasure]

terça-feira, 27 de dezembro de 2005

faz-me "espece"...

à saída do escritório, para ir almoçar, encontro na entrada um rapaz e uma rapariga a olharem para a lista de empresas que co-habitam neste multicentro como se estivessem a consultar um menu...
- desculpe, queria uma informação...
sempre disponível, preparei-me para ajudar... nunca me pensei que me fosse cortar a digestão...
- aquela empresa, a XPTO Filmes, aceitam actores aprendizes?
mas mas mas... como actores aprendizes...? contive-me e respondi o mais polidamente:
- por acaso faço parte dessa empresa, o que lhe posso dizer é que normalmente trabalhamos com uma carteira de actores profissionais e, se estiver interessada, pode mandar currículo para o nosso e-mail. se andarmos á procura entramos em contacto...
- sim, mas e assim pessoas que queiram aprender...?
então... pera lá... tzzzt... tou em curto-circuito...
- é que nós queríamos começar a fazer umas coisas, aprender, e queríamos informações sobre se aceitam aprendizes.
mas o que é que ela quer que eu responda...? mas mas mas...?
- olhe, mas tem formação? o que lhe posso dizer é que se calhar o mais indicado era talvez começar por fazer cursos na área, há imensa coisa na agenda cult...
- pois, mas eu queria já ir fazendo coisas
suspiro, desespero... muito...
- bem, então pode inscrever-se na agência XXXX, também têm escritórios aqui, deve conhecer porque são muito solicitados no meio...
sai-se o outro, que tinha estado calado:
- sim, eu já fiz imensos castings para eles...
- p... pois... inscreve-se e pode ser que a chamem e que tenha sorte...
ficaram com cara de parvos a olhar para a ementa.
- e aquela XXXX ali, também faz espectáculos? tem um nome que parece que sim. se calhar aceitam aprendizes...
claro que sim, minha querida... é só facilidades!
- olhe, isso não sei, são tudo empresas diferentes, se calhar é melhor falar directamente com eles, mas parece-me que é uma produtora de televisão, não tem muito a ver co...
- e a XXXX, ali - de dedo espetado - se calhar aceitam. eu tenho um curso de jornalismo...
poizolhequenãoparece....
- errrr... acho que não há nenhuma empresa aqui que trabalhe com jornalistas...
- pois, se calhar... então obrigada...
continuaram com cara de otários a olhar para o quadro como se lhes fosse cair dali uma letrinha que se transformasse em grande produtor dos morangos com açúcar a oferecer-lhes o contrato milionário, fama e casacos de pele.
saíram dali ao mesmo tempo que eu, sem ter entrado nem falado com ninguém, de nariz no ar com a mesma cara taralhoca, talvez à procura de alguma porta com um telão a dizer: "procuram-se aprendizes para grande novela da TVI. pagamos à hora, refeições e transportes por conta. venha aprender e fazer umas coisas."
eu considerei voltar a subir e pedir no gabinete de psicólogos aqui do lado um Xanax...

aviso à navegação:
ando a tentar vingar neste meio há uma porrada de anos. tenho formação em várias áreas. faço teatro. faço dobragens. tive de aprender a fazer produção para pôr os espectáculos de pé. vou a castings. rebento-me toda para ganhar a vida e poder fazer mais qualquer coisa, nem que seja uma peça de vão de escada.
já fiz peças, dessas de vão de escada, em que acreditava para 5 macacos. já cancelei espectáculos. já chorei de frustração por ter de cancelar espectáculos. já arrumei muita casa que tive de deixar. já fui preterida pelo número do soutien.
já apresentei um programa de tv. numa das vezes estava afónica. sujeitei-me à coisa do "vota-na-apresentadora-de-quem-mais-gostas-tipo-miss". apesar do metro e meio e uns trocos, da barriguinha, das borbulhas e da afonia, era a preferida do público. mas não da produção. já fiz uma peça em que tinha de cantar, dançar, ter o maldito sex-appeal, usar peruca loira, mostrar quase tudo [ou nada eheheh] e ainda assim ser levada a sério, com ensaios feitos em casa em frente à televisão porque a equipa dos "profissionais" não estava com paciência para ensaios de substituição. já tive de fazer um espectáculo uma semana depois de a minha avó morrer. já fiz castings onde fui elogiada para descobrir que afinal já tinham escolhido a trinca-espinhas e era só manobra de marketing.
andamos todos os dias lado a lado com manequins de sorrisos assépticos e medidas impecáveis. veneramos aqueles que às vezes ninguém conhece, vêmo-los bater no fundo e perguntamo-nos se valerá a pena continuar. imploramos por uma oportunidade para mostrarmos que sabemos o que estamos a fazer, que não somos só mais um iludido. tentamos levar avante projectos nossos sem um cêntimo para um cartaz. vemos o lixo que passa na tv e perguntamo-nos porquê. vemos a facilidade com que surgem as oportunidades para tanta gente que no fundo só quer "experimentar" e acaba a abrir um bar ou uma loja de decoração ou a casar com um futebolista.
isto custa, senhores. dói. na alma. todos os dias em que não temos trabalho, em que todos os ossos do corpo dizem que somos capazes mas o espelho, a auto-estima, o "mercado" não nos deixam acreditar.
o mínimo [e o máximo] que podemos fazer é lutar, à séria, por isso.
isto é um vício. é muito bom. mas requer trabalho. entrega. devoção. chorar muito. não dormir. suar. e ter respeito, caramba.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2005

consoada

|maria do céu|
abre a porta com o ar curioso que traduz a única vivacidade que lhe resta dos 30 anos. o resto nos olhos é tristeza. ainda veste a roupa de trabalho na quinta do pai, onde ordenha e trata as vacas. já não passa a ferro porque a preguiça entorpece-lhe a vontade. é grande, alta, cabelo crespo curto e olheiras que são já parte da pele. deixa entrar de sorriso dorido na pequena casa, recebe as prendinhas com beijos húmidos, amargos, de olhar esquivo. a bebé está a dormir. o marido agora não tem trabalho nas obras e foi passar o Natal com a outra mulher e os outros filhos na Roménia.
não há presépio, apenas um pequeno projecto de árvore de natal cortado de um ramo de pinheiro, com algumas bolas velhas. também não há embrulhos na base da árvore.
são nove da noite e estava a preparar-se para se deitar. à despedida, de alma cheia de lágrimas, mesmo antes de fechar a porta, olha para o fundo da rua. o casarão do irmão, todo iluminado a preceito para a quadra, envenena-lhe o ar com o cheiro a calor e rabanadas.

|dona fernanda|
com nome de avó, puxa o portão de corpo grande, maternal em cada poro, aberto ao abraço. a vivenda está silenciosa. as bicicletas e o cesto de basket esperam quem lhes dê um propósito. bola de futebol adormecida e cds de bandas com nomes estranhos que não cantam povoam a grande sala. o marido dormita em frente à televisão, a renda descansa ao lado do comando. a um canto roupa de rapaz jovem dobrada com cuidado e cheirosa do ferro de engomar que lhe tira o sentido das horas perdidas. ao vapor vai juntando palavras e mais lágrimas em lamento solitário, saudoso, em que não há barragem que lhe retenha a liquidez da dor. ajeita de mãos trémulas os embrulhos em frente à enorme árvore decorada, desligada, com os outros que reservou para quando, depois do natal, voltarem de viagem. os netos. que os filhos vivem em África e não voltam.

|os teixeira|
na pequena casa secular de chão de madeira ouvem-se os passos. Helena vem à porta, pequenina, graciosa, de cabelo grisalho sempre arranjado de uma visita por semana ao cabeleireiro. veste uma camisola de lã confortável e um lenço ao pescoço. apesar das pantufas, está sempre de um bem vestir elegante, antigo. o marido aparece por trás, também curioso, um pouco mais cambaleante por causa do enfarte de há uns tempos. exclamações calorosas de alegria abrem os braços. de sorriso bem disposto atravessam o corredor de mão dada. acomodam-se na sala de estar para dois, com as chávenas de chá. comentam um para o outro para os outros a consoada ligeira que já fizeram. de olhos brilhantes e quentes, Helena olha para os embrulhos e diz, com ar de criança pequena, que com presentes fica como uma criança pequena e quer abri-los logo. o sr. teixeira ri-se e comenta que é verdade, parece uma miúda. dá-lhe a mão enrugada onde assenta a dela na perfeição de muitos anos de uma doce erosão. não há mais ninguém em casa. não haverá, esta geração termina aqui, a dois, um para o outro, um no outro. na despedida, ainda sobra tempo para uma troca de receitas de umas rabanadas que ela fez para ele e que só faz nesta época do ano porque ele tem de ter cuidado com os doces. quem os vê durante o dia, sabe que enquanto ela anda nas compras, ele lê o jornal e come um bolinho às escondidas. depois ela vem buscá-lo ao café e sobem a rua devagar. sempre de mão dada. assim fecham a porta, em risos meigos, de regresso à sala de estar para dois.

. a passar neste momento . O Bairro do Amor . Jorge Palma

sábado, 24 de dezembro de 2005

antecipação



fujo cá para cima, depois de ter acendido todas as velas possíveis e imaginárias em minha casa. lá em baixo a azáfama porque os bolos-rei pegaram um ao outro no forno e é preciso telefonar a quem está longe. a panela gigante do bacalhau está no fogão e ciranda-se entre a bancada e a mesa com as fatias douradas acabadas de fazer. roubam-se sonhos de cenoura às escondidas e recebem-se mensagens no telemóvel. cheira a lenha queimada e ao perfume da minha tia. soa a sua voz cantada em espanhol, arrancando uma qualquer gargalhada à voz do meu pai. sei que o meu tio vagueia pensamentos no televisor e a minha prima ajuda a minha irmã com qualquer coisa que ficou por fazer. sei que a minha mãe rodopia na cozinha de cara aquecida pelo fogão e pelos beijos que lhe roubo para lhe contrariar os nervos. chuvisca e as gotinhas sapateiam na janela por cima da minha cabeça.
detenho os dedos acima do teclado. imagino-vos nas vossas casas, ou de regresso às da família, a pôr a mesa, em amena cavaqueira como primo porreiro ou a fugir da tia beijoqueira. a sentir o cheiro do bacalhau, dos bolos e dos fritos. iluminados pelas luzinhas da árvore, quem sabe pelas brasas de uma lareira, quem sabe reflectidas já nos embrulhos. encasacados, porque está frio e os pés teimam em não aquecer.
sorrio.

fiquem bem. aconcheguem-se bem. aproveitem as presenças e dêem beijos às ausências.

feliz natal

quinta-feira, 22 de dezembro de 2005

conversa com um anjo



sopras-me ao ouvido de vez em quando. sinto um calafrio. quando as coisas correm mal, sinto as tuas mãos à minha volta, como quem vai buscar umas meias para eu não me constipar. senti-te quando vi o rail a vir na minha direcção. sei que te senti. isto do saber que se sente chega a ser contraditório, se se sabe não se sente, pensa-se. mas não interessa. andas por aí, eu sei que andas. por isso pego em ti e tiro-te da árvore. miro-te fixamente para que me prestes atenção. tens muito que fazer, eu sei, mas espera um bocadinho. não demoro muito.

o que te quero dizer é que vem aí aquela altura de que tu gostas tanto. estão aqueles dias brilhantes e geladinhos, em que é bom pendurar a roupa ao sol, com os gatos a passearem-se nos tornozelos. é tempo de noites em que engomar sabe tão bem pelo aroma da roupa quente onde perdes os pensamentos. é aquela altura em que o crepitar da lareira te traz as recordações dos teus tempos de aldeia e do tanque onde as moças de lenços na cabeça e olhos salpicados de brilhos e futuros cantavam e o sabão era azul e branco, as tuas cores preferidas. é tempo de chinelos e torradas perfumadas e chá muito doce. de ter tempo para preguiçar no teu colo no sofá. de comer as fatias douradas do meu pai. de rires com a mão enrolada à frente do rosto e de fechares os olhos na preguiça do fim da noite com os braços cruzados no colo. de observares nesse teu carinho em que as palavras não fazem falta os sorrisos de papel de embrulho. de ires ter comigo à janela ver se o Pai Natal vem aí e de procurares com tanto fervor como eu a sua presença nalguma estrela. enquanto murmuras alguma cantiga antiga que só eu reconheço, porque só perdes a vergonha quando estás sozinha comigo.

és assim, sabes? uma presença transparente. uma melancolia suave de olhos marejados e meio sorriso dorido. és a doçura de um aperto no peito soprado com a ligeireza de um pássaro pequenino. és a [e]terna sensação de pó de talco e creme nívea entre as ruguinhas da tua pele branca e quente, das mãos ásperas tão meiguinhas. és o coração mordido ao meu pescoço e o anjo de madeira na minha árvore de natal.

terça-feira, 20 de dezembro de 2005

delirium dancems

comentava hoje aquela coisa de desatar a dançar sozinha.
se era só prazer ou se era indicativo de algum desequilíbrio.
isto porque sou consultada como "pessoa que tem aquela profissão [actriz, hem?] e portanto não é normal, e portanto deves ser a indicada para falar destas coisas".
isto também porque determinada pessoa dita "normal" resolveu quase partir um dedo do bem que lhe soube desatar a dançar no meio da sala ao som de uma música. os meus pêsames à mesa.
olha, não sei. não sei se é loucura ou sanidade. se é terapia ou enredo.
eu gosto. muito. danço perdida entre as mesas do escritório, no meio da rua, interrompo uma conversa de café, se necessário.
sozinha perco a cabeça e devaneio para sítios que não sei onde ficam e que só aparecem com música. logo a seguir esfumam-se no ar e fico eu e o suor e a vertigem.
mandaste-me a música.
e cá estou eu. ainda soam os ecos de uma música que adoro e nem lhe sabia o nome apesar de lhe saber as palavras. ainda há uma bruma. deve ser o fumo do cigarro...

carrossel



a menina rodopiava entre luzes de todas as cores, sem noção do frio, do momento ou das dores em volta. rodava apenas, de olhos postos ora nos mundos do chão ora no cavalo branco de madeira que, desconfiava, a levaria para longe, em mil passeios de vento na cara em que a mãe lhe diria adeus e ela partiria com a certeza de que no regresso ainda a veria de rosto arrefecido aquecido pelo sorriso de orgulho. na menina que cavalgava em cima do cavalo branco. e perseguia os pombos que comiam migalhinhas pequeninas que lhe saíam das mãos de luvas lambuzadas de chocolate.
a menina, de cabelo comprido e olhos de sonho, pulava sem sentir o peso dos casacos pelas bolas de mil cores que lhe salpicavam os pés, imaginando o prado verde, passando depois para a praia e os baldes e os castelos, vestia o vestido de princesa de sedas e tules cor de rosa, e depois descansava uma noite muito azul com um gato branco ao colo.
viajava a menina, sem perguntas, no silêncio solene dos seus pensamentos, e a música da caxinha gigante onde rodavam os seres animados dos seus dias.

|por causa de uma foto do estonteamento|

segunda-feira, 19 de dezembro de 2005

polegada #5

|the bat hour|

temos de entregar 10 episódios até 6ªfeira. havendo pouco tempo disponível no estúdio (porque fazem locução de documentários, legendagem, têm de tratar os episódios já dobrados e eteceteras), teremos, os actores e respectivos alter-egos, de nos desdobrar em horários, digamos, alternativos...
entretanto, aqui no escritório, um outro grande projecto, megalómano ou não, não sei, aproxima-se a passos largos.
apesar de tudo, é nos meus dedos que confiam na altura de redigir, de explicar, de polir, de corrigir. os textos terão de ser meus, baseados em "ditados melódicos". como o patrão que vai fazer os ditados tem, ele próprio, sítios onde estar e coisas importantes a fazer durante o dia, a execução e tecelagem desse tão nobre projecto terá de ser feita... de madrugada.
outra situação é uma reunião estranha que me marcaram para uma destas noites, que não sei onde vai parar, mas também ainda não quero pensar nisso.

a hora do morcego chegou...
e ainda não fiz as compras de Natal...

domingo, 18 de dezembro de 2005

nua

há meses que pensava despir-me.
assim, vestir-me apenas do branco transparente das teias translúcidas da minha mente.
o tempo e as circunstâncias entorpeceram-me os dedos.
no repente decidi-me sem mais delongas. apesar de o sangue das papoilas ressaltar mais no escuro, aqui fica a minha cabeça no colo da minha avó, num lençol que me lembra os verões de menina.
botão a botão fui desnudando o negro. desprendendo-o de mim sem efeito de catarse. apenas agora quero despir-me. revelar-me. no reflexo destas linhas. noutro contorno que me mostre a mesma, que essa não se altera.
as cores de que, alguém me disse, eram feitos os meus textos condensam-se agora naquela que, dizem, é a cor que concentra as cores todas. neutro, também.
depois da longa corrida, suada e cansada, tomei um banho prolongado nas palavras e consumi em respirações timbradas o fumo do cigarro das conversas amenas. aqueci-me entre vozes aveludadas, em luzes ténues de presença. de vigia.
aqui estou. sou eu, a mesma. o caminho é o mesmo, o meu, que percorro agora mais devagar. saltitando entre reticências. carrego apenas a pele, que se estende, ainda, em mim, por mim em aromas sinuosos e ventos descarrilados, sabores encantados.
o dedo que me coube em sorte e que enlaço na prata das noites escuras, continuo a ser eu. mulher. menina. ou algo no entretanto.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2005

whataweekend

hoje tenho de ir às prendas.
amanhã tenho de ir buscar a minha mala de maquilhagem, voltar para Lisboa, comprar o que falte e fazer ensaio de maquilhagem na noiva que vai estar a meu encargo nesta passagem de ano [já referi que se vai casar na passagem de ano?]. correr para o encontro de café que não posso perder. correr para o aniversário de um amigo.
depois tenho de estar às 10 da manhã nos estúdios para gravar mais pelo menos 3 episódios de ursos [já referi que é Domingo de manhã e que tenho de acordar às 9, pelo menos?]. correr para ir almoçar com a famelga. vai faltar qualquer coisa e vou ter de ir a Lisboa outra vez... provavelmente às compras de Natal [já referi que tenho pelo menos 12 prendas a comprar, que estou falida, e que toda a família já fez anos em Dezembro e arredores?].
e segunda já é dia de trabalho...

quinta-feira, 15 de dezembro de 2005

to me you are perfect



ele era um bicho de contas.
choro sempre que o vejo. assim que o vejo. compreendo-o com todos os ossos do meu corpo.
respirou fundo e decidiu que já chegava.
atirou-se de cabeça.
ficou-me gravada a sensação de querer dar-lhe um beijo no galo.

depois desta frase, já não sei onde quero chegar com isto. perco-me em considerações que poderão ser tolas ou aborrecidas. ou pouco terão a ver com o que digo agora, com o que queria dizer. as palavras às vezes só complicam. só interferem. doseamo-las da melhor forma que sabemos. preenchemos os espaços de ar com a respiração. encolhemos os ombros. para não magoar ficamos com os braços dormentes. para não nos magoarmos dói-nos o peito. a perfeição instala-se nos instantes em que nos suspendemos no ar. suspendemo-nos de nós. damos férias ao pensamento. e sentimos as texturas do vento, do pó, da canela e de uma qualquer música sussurrante no ar. tenho momentos em que me reprimo de tal maneira que não me conheço. não me compreendo.

mas tu compreendes-me.

somos todos bichos de contas.

sou uma ursa

de coração no nariz, cores de cuecas de bebés, vivo numa nuvem com outros tantos.
tenho uma imagem querida e fofinha na barriga redonda e peluda. que de vez em quando sai de mim e espalha amor por todo o lado [isto não soa lá muito bem...]
às vezes tenho fraldas, metade do tamanho dos outros, uma voz irritantemente aguda e sou belfa. sou a Hugs ou Abracinhos...
noutras, falo também agudo, mas não tanto, e prometo encher a terra dos ursinhos - "Care-a-Lot" - de enfeites cor de rosa... é a Cheer Bear ou Coração Animado...
estas são as fixas...
entretanto, no meio desta turba de seres tão-fofinhos-que-irrita, ontem gravei durante quase 3 horas. foram três episódios em que eu própria estendia os braços para trás, de fones na cabeça, espetava a barriga para a frente e gritava
- 3, 2, 1, iluminaaaaaar!
depois resolveram que eu ia fazer 2 ursos homens além da Animada... e ironicamente andavam sempre os três juntos, falavam em coro... e faziam uma corrida, portanto os uffs, ais, ahs e etceteras eram sempre a triplicar... grava agora com voz grossa... volta atrás, agora com nasalada.... ok, volta atrás... agora com a gaja... de facto, às tantas, fazer expressões de cansaço saía-me com uma naturalidade estupenda... porque seria?

o técnico de som, desta vez, é um metálico-gótico-qualquercoisa. todo de preto, grande cabeleira, parece sempre pronto a ir para um concerto dos Metallica fazer moshes [isto era no meu tempo de adolescente, eu sei, mas aquilo era da pesada, eu saí do concerto com um enorme torcicolo, portanto serve]. muito sisudo, sempre. ora imaginem a figurinha a fazer a edição do outro lado da cabine... obviamente que aquilo deu para o torto e foi um fartote de rir... começou logo por dizer que os bonecos já passaram de moda... eu compreendo, eu via aquilo com uns 8 anos... além de que as criancinhas hoje em dia é mais manga e violência e porrada e roupa fashion e assim... agora mudar os nomes dos personagens? Abracinhos devia ser Carícias... Raio de Sol era o Rais-Parta [isto porque eu quando me engano sai-me logo e ele gostou]... e por aí fora...

bem... isto para dizer que vão sair uns episódios de grande valor moral para as criancinhas, no canal Panda...
quem diz que não faço serviço público...? eheheh

quarta-feira, 14 de dezembro de 2005

cup&cino

ao som de uma qualquer martelada e de Sting revisitado, a conversa foi fluindo durante horas que não chegaram a avisar que tinham passado por ali.
primeiro correm as fotos debaixo de uma tecla, e os cheiros mudam e o ar parece deliciosamente arrefecido, parece que das bocas se soltam nuvens pequenas de vapor, que nos pés correm outras pedras. partilham-se os ventos e as luzes, dando-lhes a terceira dimensão dos sorrisos.
depois as palavras descobrem novidades antigas, na língua humedecida por qualquer coisa quente e doce.
a medo, primeiro, depois com uma vontade apenas de partilhar.
são precisas umas queridas tareias com festinhas nas mãos e cigarros absorvidos de olhos brilhantes. uns passos reticentes entre uma bússola de cera e chama tremeluzente.
e o mundo pára quando alguém leva a mão à cabeça e diz 4 palavras:
- nunca tinha pensado nisso...
um bichinho de contas enrolado em cima do tampo da mesa, com medo do frio, do tempo que passa por ele e não quer que passe e quer que passe. que não se vê ali, enroladinho aconchegadinho, na plenitude da sua beleza. abre devagarinho o seu mundinho e espreita cá fora. e o brilho dos olhos inunda agora a vida e recebe-a de outra forma. é assim quando somos generosos.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2005

o duende feliz

não, não é nenhum post acerca do nosso amigo linkado aqui ao lado, esse mestre dos contos e das fantasias... se bem que merecia...
é que recebi uma prendinha de Natal e pude voltar às dobragens...
algures nesta quadra [ergh, detesto esta palavra] passará na TVI o filme de animação "O Duende Feliz", ou "The Happy Elf".
a Molly sou eu. [não tem que enganar é a miúda cuja primeira cena se passa a apedrejar o dito Duende, o Eubie... eheheheh]


e também sou eu [kind of] que abro o filme, com a Irmã... esta não tem nome próprio, mas é a ela e ao irmão [que ela entretanto transformou em árvore de Natal à pancada] que se vai contar a história do Duende.

sim, sim, calharam-me as miúdas reguilas e ainda por cima as duas dentro da mesma faixa etária... e agora fazer duas vozes distintas...?
seria cantado pelo Harry Connick Jr. [essa maravilhosa voz que me persegue com a banda sonora de When Harry Met Sally] mas agora deve ser o Quim Bé a cantar... também não está mal...

tu, jovem duende feliz [o do blog], senhoras e senhores, nesta vermelha, branca e aconchegada quadra [ergh, lá está ela outra vez], sentem os vossos filhos, sobrinhos, afilhados, enteados e outros que tais em frente à TV, e tenham um pouco de sossego.
esta longa metragem televisiva tem o certificado de qualidade da Polegar, que vos garante desde já que é recheada do espírito natalício que já perdemos, com muita fantasia, neve, tropelias, ninguém se aleija e não há cá Songokus nem coisas sangrentas do género.
um filme cor de rosa para toda a família.

[entra musiquinha irritante com sininhos de intervalo publicitário de Natal e... de volta à programação]