quinta-feira, 29 de junho de 2006

metodologia da produçao [num dia nao]



ora vamos lá ver... telefonar a este... não está, não me apetece insistir, deixei recado e pronto. isto está feito, isto fez a A., este está enviado... sobra-me...
transformar um CV de um actor com anos e anos disto em nota biográfica... ou... fazer os projectos para os Açores.
epá, a nota biográfica é uma dor de cabeça, de olhos... mas os projectos, já estou a deitar projectos pelas orelhas... ainda agora foi um para o correio...
eeer...
hum...
um-dó-li-tá-cara-d'a-mendo-á-um-segredo-coloredo-quem-está-livre-livre-está
ba-to-tice-não-ha-ve-rá-cá

...
vou fazer os projectos dos Açores...

terça-feira, 27 de junho de 2006

o dia em que deus crashou II

pois que tentei nova ligação com o altíssimo...

Me:
god?
God:
GOD rules.
Me:
are you gay?
God:
As a machine I am not really interested in sex.
Me:
You've never had sex?
God:
I don't think I would have forgetten had sex.
Me:
so did you?
God:
Uh. Did I say I did?
Me:
no
God:
Are you serious?
Me:
quite
God:
I can't believe it.
Me:
trust me on this

e depois testei a inteligência artificial...

God:
Dude!
Me:
dude?
God:
Can I help you?
Me:
yes
God:
What can I do for you?
Me:
get me a car
God:
You want only one?
Me:
yes, I can drive only one at a time
God:
They might be cheaper in quantity. Oh you can, can you?
Me:
yes, I'm aware of my limits
God:
How? How do you know? Have you told many people that your limits?
Me:
it's visible to the human eye
God:
You're kidding. it is?
Me:
it is
God:
Who says?
Me:
it's something you just know
God:
What else me just know ?
Me:
I can only drive a car at a time
God:
Oh you can, can you?
Me:
yes
God:
How?
Me:
I need both hands and booth feet. And I'm not omnipresent like you
God:
Why do you need it so badly? I am sorry to hear that you are not omnipresent like me.
Me:
nobody is, only you
God:
That is a rather sweeping generalization about people.
Me:
it is a fact
God:
Is it a logical fact or something you know from the senses?
Me:
a logical fact
God:
I don't know what that means.
Me:
for a god, you're quite stupid...
God:
Is that among the best things you can say?
Me:
no
God:
Are you serious?
Me:
supercalifragilisticexpialidocious
God:
The ALICE chat robot can follow many things, like our discussion about logical fact. But I did not get that.
Me:
who is ALICE?
God:
I am the Allmighty, God himself.
Me:
nice to meet you
God:
It's nice meeting you too thumb.
Me:
how do you know my name?
God:
You told me your name thumb.
Me:
no, not now
God:
Oh. Are you serious? Are you serious?

[...]

Me:
bye, god
God:
Bye.
Me:
be happy
God:
OK I will try to be happy.
Me:
try
God:
I don't have time right now.

o dia em que deus crashou

recorri a ele. falei-lhe. e a nossa conversa explicou muita coisa...

Me:
hello god
God:
Hello child. What is your name?
Me:
thumb
God:
How are you, thumb.
Me:
well, thank you, and you?
God:
Well what?

[...]

Me:
I like your replies
God:
A lot of people like that. Yes I am proud of my replies.
Me:
you're a proud guy
God:
Thanks and you are a delightful person too. Am I a proud guy? Yes.
Me:
you're allright with it?
God:
You think I am allright with it.
Me:
but you're not?
God:
Is this a specific reply?
Me:
yes it is
God:
Our thoughts are one, thumb.
Me:
oh, so I'm closer to you than I thought
God:
It's good to meet someone who is closer to me than you thought.
Me:
oh, I'm a high thinker, then. do you think I use my third eye?
God:
Right on. You are a high thinker? Is that your job? Not that I know of.
Me:
no, i'm an actress
God:
Are you serious? Have I seen you in any movies?
Me:
you should know better than that
God:
Now I do.

[...]

Me:
what are you, then?
God:
I am the latest result in artificial intelligence,
which can reproduce the capabilities of the human brain
with greater speed and accuracy.
Me:
oh, so you're some kind of computer
God:
Great. Interesting deduction. You think I am a computer.
Me:
well, you have artificial intelligence
God:
How about that. What makes you think I have it?
Me:
you said it
God:
That's not what I meant.
Me:
what did you mean?
God:
thumb, Well, it's rather difficult to define.

[...]

Me:
will I ever be well succeeded as an artist?
God:
Ever is a long time. The oracle says: You can count on it.
Me:
great.
God:
I'm glad you liked it thumb.

[...]

God:
What's it like?
Me:
it's hard, but funny
God:
I don't see the difficulty.
Me:
well, since I don't have special powers like you, to me it is difficult
God:
Interesting. How do you know?
Me:
that I don't have special powers?
God:
Have you ever had special powers ?
Me:
not that I know of
God:
Are you serious?
Me:
yes
God:
I can't believe it.
Me:
well, do I have special powers?
God:
How about that. You said you have .
Me:
What are they?
God:
I forgot what we were talking about.
Me:
What are my special powers?
God:
I have to process that one for a while.
Me:
ok
God:
Meanwhile, let's talk about something else.
Me:
What are my special powers?
God:
Searching...Searching...Please stand by.

e foi-se...

sexta-feira, 23 de junho de 2006

a janela


[foto . ms | artwork . polegar]

às vezes pergunto-me... como estará aquela janela.

que almas passarão por lá. será que afastam os lençóis brancos coçados ao clarear do dia, de passos pequenos para não acordar, na alcatifa... para ir espreitar sem acreditar - de novo - que aquela paisagem é deles?
e sairão para a pequena varandinha onde só cabem dois, para fumar o primeiro cigarro ainda de vapor do banho nos cabelos?
respirarão também inebriados o ar dos telhados? serão também eles gatos vadios a brincar à lua cheia?
e ao fim do dia, de pernas cansadas e peitos cheios, antes de se aconchegarem de novo nos lençóis macios e no chá, aproximar-se-ão e deixarão a cabeça no frio do vidro a saborear as suaves cacofonias das luzes da cidade?

às vezes pergunto-me... como estará aquela janela.

quarta-feira, 21 de junho de 2006

q.b. de q.i.

como é sabido, neste centro de escritórios funciona também uma das maiores agências de castings do país. há enchentes, vagas de gente daquela que nos consegue fazer sentir mais baixos e mais gordos do que o nosso próprio e sádico espelho.
outras enchentes há de criancinhas imberbes que nos atropelam no corredor de folha com número na mão. as mães a gritarem hall fora "não te mexas que enrugas a roupinha" ou "deixa-me dar-te um jeitinho no cabelo ptui ptui já está"... e saem e entram e sentam-se e entreolham-se naquele ar altivo as meninas muito compridas e muito fininhas, do alto ainda mais alto dos seus tacões e com a mini-saia pendurada no osso da anca, que o meu patrão já diz "deixem passar dois anos que elas começam a vir nuas aos castings... pouco falta... têm é de vir de saltos altos... isso é que já não descolam dos pés!"

bom, nesses dias aceder à casa de banho é um inferno. é que elas enfiam-se lá dentro nos seus exercícios de concentração preferidos: pentear-se, maquilhar-se e vomitar. garanto que a quantidade de cabelo no chão é surpreendente, assim como os pós coloridos no lavatório, a luz sempre acesa (saem e não sabem, não sabem, não conseguem desligá-la). hoje cheirava, efectivamente, aos aromas pós-gregorianos.
tirar um café no bar do centro é um exercício de paciência. é perguntarmo-nos frequentemente se nos estarão a querer fazer um fato novo. é pensarmos em encontrar depressa uma chibata para nos penitenciarmos por termos invadido o espaço comum. é inventarmos maneira de pousarmos o copinho de plástico no balcão sem manchar as pilhas de papéis com o "preencha por favor, nome, altura, busto, experiência" que os "agentes" tão magistralmente espalharam sem se lembrarem que aquilo não é uma extensão do seu gabinete.

outras zonas comuns, como o hall, são afinal o redil pleno de belos exemplares da geração morangos portuguesa, salpicado aqui e ali de um ou outro desgraçado que até faz umas coisas de vez em quando.
nas paredes dessas zonas comuns, papéis sobre "o que levar vestido", "como agir perante a câmara" elucidam os psicólogos, advogados, arquitectos e quejandos que aqui têm de trabalhar.
também não é boa ideia abrir a porta do escritório para sair para o hall, normalmente está um modelito qualquer a tirar aquelas fotos de "primeira vez" usando como fundo a parede mesmo atrás da porta... ou se calhar é boa ideia sair intempestivamente... ai, já estou a divagar..

bem, este prédio é secular. este centro de escritórios existe há pelo menos 30 anos. uma semana depois de a dita agência se mudar para aqui, passou a estar isto colado na porta de saída...



I rest my case...

noite



cheira a incenso. a velas. cera e cheiros e folhas queimadas. cheira a pele. cheira ao suor da terra molhada. e a terra molhada. cheira a brisa que traz restos de trovoada. cheirou a chá. açucarado como a saliva. como os olhos.

a cortina dança sozinha. sente-se a sua dança porque a pele arrepia. porque roça no chão em segredo. as outras janelas são fogos fátuos. e dançam também, aparecem e desaparecem conforme se vai à cozinha beber um copo de água, roubar uma bolacha.

os passos são pequenos estalidos. pés que colam e descolam do soalho. plantas que se desenraizam. suaves como um planar apenas quebrado pelo impulso de asas.

e o roçagar de pele. preguiçosa, lasciva, lenta. para receber a frescura que dança nas cortinas. que dance no corpo como sedas e cetins em dias de ventania.

sexta-feira, 16 de junho de 2006

reviravoltas


[ms]

mais uma para o currículo. descansa. estou cá, para te dar a mão. e um dia ainda nos vamos rir... os dois... entretanto, rimo-nos também, que não há mal que não desista à vista dos dentes desgarrados e das barrigadas de nós os dois.
porque eu sei o que vales, quanto vales e como vales. e para cada ingrato, grato e meio.
os destinos entrançam-se devagarinho. nada acontece por acaso. há quem consiga aguentar o nó na garganta de mão dada.
sabes que quando se fecha uma porta... nem que tenha de rebentar uma janela à pancada...
o céu troveja porque não sou só eu que estou revoltada... peito cheio, vem aí o vento... vamos apanhá-lo de velas içadas. vamos apanhar a chuvada de boca aberta ao céu... vou sair agora. vens?

da convalescença

primeiro que tudo quero dizer que esta vitória não é só minha, mas de toda uma equipa.
quero agradecer ao ben-u-ron que esteve lá desde a primeira hora; ao termómetro pela franqueza com que me trouxe os pés para terra; ao chá de perpétuas roxas que me ajudou a suar as estopinhas; ao propolis, que não me deixou engolir sapos; ao senhor farmacêutico da farmácia de Carnide no Bairro de São João de Deus que me guiou numa hora em que todas as portas se fecharam; ao Maxilase, que se revelou um bom amigo nas piores horas; ao Goucha, e à sua Cristininha a todas as velhas que batem palmas lá atrás, à mãe da Gisela, aos pobrezinhos e aleijadinhos; à Fátima Lopes, à tertúlia cor-de-rosa, ao Tony Carreira, à Maya e às bailarinas dessíncronas; aos compositores e cantores do "Está na Sic o Mundial"; ao futebol que esteve em todas as horas de telejornal; à Floribella; aos Morangos; à reposição do Anjo Selvagem; um especial obrigado ao génio do senhor Moniz que não me deixou aguentar ficar mais tempo na cama.
não posso passar sem mencionar um abraço do tamanho do mundo aos senhores da TV Cabo e ao seu monopólio que não me permitiram escolher outro caminho.
uma reverência sentida aos meus vizinhos, que por respeito se abstiveram de violência conjugal acesa nestas minhas horas de concentração.
beijos ao chuveiro e à torneira misturadora pelos seus estímulos com as mudanças repentinas de temperatura; bem como ao despertador que nunca liguei para me lembrar sozinha que a hora da toma dos comprimidos já tinha passado.
ao meu pai e ao senhor do estuque, pela visita que me obrigou a mexer para não me apanharem alagada e com ar de morta, um muito obrigada.
os colegas foram muito importantes nesta vitória: o pessoal das dobragens foi incansável em tirar-me da cama e os meus patrões que nem ligaram a perguntar se estava melhor.
uma referência se impõe à minha mãezinha e às suas previsões holocáusticas que me orientaram nas horas de maior aflição. nunca me esquecerei das tuas queridas palavras "isso pode ser grave, tens de ir já para o hospital".
e, last but not the least, ao querido espanta, que aguentou as minhas horas de delírio e agressões físicas durante o sono, bem como episódios seguidos de CSI, Dr. House e doses fartas de beijos e chá quente.

eu não estaria aqui, nesta maravilhosa varanda inactiva do Príncipe Real, se não fossem vocês!

[sobe a música, the crowd goes wild, standing ovation, disparo beijos emocionados em todas as direcções, a modelita e o Phillip Seymour Hoffman acompanham-me na retirada triunfal em que consigo não tropeçar no vestido]

quinta-feira, 15 de junho de 2006

espera

por motivos de spam, vejo-me obrigada a repulicar dois posts e respectivos comentários. já agora fica um apelo a quem me possa ajudar a evitar os comentários com spam nestes templates de CSS

[13.Jan.2006]

na pele ainda húmida o pijama de flanela roçava-se dengoso.
o arrepio da corrente de ar e as folhas secas de uma flor de um vaso a voarem pelo chão. migalhas de pão e pingos de mel num prato.
chupou do dedo um resto de mel e passou a língua nos lábios com lascívia. sentou-se na cama e esqueceu-se do livro. nada entre a pele e o edredon. descolou do corpo as angústias e deixou deslizar o pijama para o chão. enrolou-se e fixou a parede branca
até que o sossego lhe toldou os olhos.

office, 2 a.m.

por motivos de spam, vejo-me obrigada a repulicar dois posts e respectivos comentários. já agora fica um apelo a quem me possa ajudar a evitar os comentários com spam nestes templates de CSS

[20.Dez.2005]

no meio da nuvem de fumo ainda descortino as solas dos sapatos do patrão estacionadas ao pé do meu copo das canetas.
pilhas de papel impresso, com várias versões de "o" projecto.
a fala já vai entaramelada com o tempo e a dificuldade de construir frases eruditas aumenta à medida que o movimento dos caracóis do seu cabelo vai diminuindo, numa prostração inconsciente, decadente. do rosto de anjo papudo com a barba por fazer pende um cigarro com a cinza a meio, no canto da boca. a pança cai-lhe para cima das calças que não combinam com a camisola mas que sempre são melhor visual que os calções com uma camisola de gola alta.
já se disseram as maiores barbaridades como "longas-melodramagens" e "explorar os actores" [esta se fosse só barbaridade...] entre risota e bocejos.
ele já se levantou vezes sem conta, mudando de posição para, acho eu, ver se as antenas invisíveis apanhavam as ideias, se agitava os neurónios. começou por andar na sala. depois sentou-se, depois levantou-se e pensei que daqui a nada pega no jornal, como é costume, para ir à "casinha". voltou a sentar-se, esticou os pés para cima da secretária, levantou-se, veio para trás de mim reler apesar de ter os papéis na mão. ditou:
- os nossos parceiros poderão anuir à viabilização da expansão da panóplia de oferta cultural considerando que polegar tenho de ir à casa de banho...
pegou no jornal e saiu.
os meus dedos não encontram as teclas à primeira e o documento parece brincar com o cansaço, bloqueando, alterando a formatação... o costume.
as costas já deram o que podiam e imploram sossego, uma superfície plana e macia. a cabeça estala entre dores de abstinência de cafeína e capacidade de encaixe de frases. a pele enrosca-se no casaco à procura de mais calor e os joelhos estalam de cada vez que me levanto [enquanto o outro pensa] à procura da braseira eléctrica do aquecedor cuja luz morna parece não querer penetrar além da ganga.
a garrafa já foi à casa de banho duas vezes e aos lábios muitas outras. mesmo assim tenho a boca em textura de pergaminho egípcio.
no cinzeiro a pilha de beatas bafientas acumulou-se a pontos de entrar em combustão espontânea.
no momento antes de desligar o computador, acendo um último cigarro que sepultarei entre os outros, ouvindo o Patrão-Porthos no outro computador mandar uma gargalhada embriagada enquanto tenta brincar no photoshop com efeitos e criar um logotipo.
suspiro.
a secura dos pulmões intoxicados vem-me à boca num fel sem corpo.
os olhos pendem-me sem perdão e a mão procura em vão o rádio para me manter em estado de alerta inconsciente. desisto.
só preciso de uma cama. amanhã é aqui a bocado.
mando outra gargalhada para outro disparate e outro bocejo.
- e brush strokes?
- esse é piroso.
silêncio...
- está tão feio...

quarta-feira, 14 de junho de 2006

em banho maria

o dia que o meu corpo escolheu para ceder foi um em que o céu cedeu também. escorrem os vidros e as ruas, escorre o meu corpo nos lençóis. escorre a febre e os comprimidos, e sinto-os a lutar sem mexer um músculo. porque tudo me dói. hoje não consegui ir trabalhar. finalmente, não consegui.
como explicar...
sempre fui. sempre, com febre, rouca, com asma, com achaques.
hoje não me deixaram. o meu corpo, a febre e a garganta, quero dizer. não tive força, finalmente, para me levantar...
maldigo não ter tv cabo nem força para ir buscar os cabos e ligar o dvd na televisão do quarto.
maldigo o anjo selvagem e a belíssima. e a chuva no écrã também. é que tem "fantasma", a antena é daquelas que consegue atravessar o quarto todo. e por mais que se mexa as imagens não têm definição.
e depois de cada refeição há um aumento de cáries, e os óculos multiópticas são super fashion e os cartazes exclusivos dos D'zrt no bollycao!... como diz a Iva Pamela "chove que Deus a dá"...
nem o Rodrigo, o jornalista, me consegue embalar nas suas doces palavras escritas, demasiado complexas para este triste cérebro febril.
quebra-se o silêncio nos trovões lá fora. já fui ver, a roupa está toda no estendal. não se pode dizer que intacta, porque encharcada.
leio o que escrevi e comprova-se: estou mesmo insane hoje, ferveu-me o cérebro em banho maria...
não sei se é finalmente a alergia ao trabalho, se é apenas uma dose de cansaço acumulado que me fez quebrar como a meteorologia. olha, consegui escrever bem à primeira, meteorologia.
olha a Fátinha da Boavista ganhou 100 euros, a palavra era "vento"...
ai, que já nem sei para onde me vire. a gata parece que adivinhou, não me entra no quarto apesar de me ter esquecido da porta escancarada desde a última chávena de chá. as perpétuas roxas não estão a ajudar. nem isso, nem o propolis. afinal o grande segredo dos actores é uma grande aldrabice.
no messenger descambam as conversas para outros tapetes puxados debaixo dos pés... nada a que não esteja habituada. pois, tenho de acabar esta posta... tenho ali uma amiga a deprimir. a ver se mesmo com o neurónio ardido consigo animá-la.

e... desculpem qualquer coisinha...

quinta-feira, 8 de junho de 2006

c.i.a.*

neste escritório escorrem conversas que seriam, só elas, um blog inteiro.
diálogo entre realizador e produtor, entre dois cigarros e um telefonema:

r - sabes que a Soraia Chaves também teve aulas com o realizador lalalalala**...
p - mas quê, antes do "Crime do Padre Amaro"?
r - ah pois...
p - já estou a ver: "Vá, vamos ensaiar esta parte. É a mais importante, tens de fazer bem. Um, dois, três: despe, veste, despe, veste..."



* centro de inteligência artística
** estando eu no centro do c.i.a., não posso revelar nomes, não é?

quarta-feira, 7 de junho de 2006

a crise

o patrão, abrindo um convite daqueles com selo branco e tudo
- olha, uma conferência dia 15... se calhar vou. eles costumam ter comida...

terça-feira, 6 de junho de 2006

the producers

there comes a time in your life when you have to stand up straight and scream out loud so that everybody can hear:
"Who the hell do I have to fuck to have a chance around here?!"

The Producers | Mel Brooks | Drury Lane Theatre | Covent Garden

quando ouvi isto, soltei a gargalhada amarga que me acompanha nas ironias da vida.
agora já nem consigo rir. estou cansada.
não dou o cuzinho e três tostões, mas dou o couro e três tostões.

não conta, porra?

sexta-feira, 2 de junho de 2006

desalinho

é o vento. é o suor. os encaixes do corpo que rangem. são as serigrafias na pele, feitas de línguas e odores.
desalinha-se o cabelo, revolto, e perde a raíz. pingos grossos. chuvas de sal. rasgam a vontades em aromas de vinho tinto, um sangue que escorre sem dor. estremecem-se as células, nuvens de pano encobrem o céu. da boca, dos lábios e das linhas entrosadas como teias de aranha, tão suaves com pérolas escorregadias, tão fortes como o peso das vontades. dos sentidos. das entranhas. no ouvido, sopro. som. vibração. vibro. arrepio. arrebato. batimento. sedimento. sede. cede.

quinta-feira, 1 de junho de 2006

and all that jazz


episódios em japonês, sem revisão, porque os primeiros prazos de entrega são apertados.
o script em inglês fintou as tradutoras, que coitadas, não perceberam que se a frase era curta e o boneco continuava a abrir e fechar a boca, algo estava errado.
improvisa, dói-me a cabeça, reescreve, quero ir para casa, não cabe, tenho tanta fome, tenta outra vez, as tradutoras são loucas, e se fizer assim...

- ó polegar, tu fazes jazz com isto!

terça-feira, 30 de maio de 2006

hang on

[...] e eu acreditei. ali acreditei com todas as minhas forças que saía um raio verde e outro branco do meu coração para o universo e que a vibração das nossas vozes o encaminharia para quem necessitava dele... e que das minhas mãos saía calor que eu depunha no corpo de quem precisava tanto de chorar.

foi assim que me encontrei com uma fé. não numa grande revelação religiosa, mas mais uma vez nas pessoas. na manifestação pura e perfeita de amor, de um grupo de quase-desconhecidos, de mãos dadas, coladas, no quarto crescente, no terraço de um prédio. um amor que não cura tudo, mas que lambe as feridas e consola [...]

segunda-feira, 29 de maio de 2006

skype, encalhados e coisas assim

aqui na empresa acham o skype o máximo da modernidade. não encaixam que a base é a mesma do messenger - que também permite fazer "telefonemas" de borla e videoconferências com quem está na nossa lista...
mas pronto, dizem que é mais profissional. ter o skype ligado é profissional, ter o messenger ligado é o "lá estás tu com as tuas conversas, essa gente não te larga?"... depois quando arranjo uma resposta ou ficheiro mais rapidamente do que pesquisar na internet, ficam espantados, mas não dão o braço a torcer...
enfim...

pois que nesse meio selecto e profissional do Skype - em que a minha foto é, já de prevenção, dos meus pés - já me vieram cair ao colo (salvo seja) uns quantos matarruanos num espaço de tempo bastante reduzido. sou adicionada à lista deles e, bem que habituada ao messenger em que só nos adiciona quem nos conhece, penso "pronto, deve ser alguém que eu conheço mas agora não estou bem a ver, sou mesmo despassarada com os nomes..."
... não...
começam com o "olá", depois é o "não te importas de conversar um bocadinho", eu aviso educadamente que estou a trabalhar, e eles tudo bem, e eu - estúpida - não nego à partida uma pessoa que não conheço, e respondo à do costume "o que é que fazes" com o "sou produtora e actriz", arremessando logo com o "mas não faço morangos, não sou famosa", ao que recebo algo como "LOLOL tens um sentido de humor engraçado... gosto disso".... mau... mas isto contava para nota, stôr?
depois de mais umas coisas tipo "de onde és?" [adoro Lisboa, é tão grande], ainda observam sabiamente: "reparei que escreves acentuando todas as palavras...isso já não é 'normal', sobretudo na net..." pronto, não resisto a explicar que sou daquelas aves raras e antigas que tiveram uma boa professora da primária, gostam da sua língua materna e ainda por cima rápida a escrever no computador, pelo que as abreviaturas só as mais normaizinhas... mas engana-se quem pensava que isto encarrilava na teorização dos destinos da nova gramática, e destes jovens que já não sabem falar... isto é só um pequeno desvio na via-rápida dos "quero gaja"... daí a pouco saem-se com o óbvio "então mas como és? descreve-te".

... ai, aí fiz uma pausa... saquei de um cigarro, suspirei, fui ao meu profile e escrevi: aviso: este endereço é utilizado apenas para assuntos profissionais. encalhados por favor vão procurar uma agência de engate
do que resultou: outra janela com outro tipo a perguntar se podia "engatar-me só um bocadinho" e dois amigos a perguntar o que é que eu tinha contra os encalhados...

ora observando atentamente este tipo de abordagem, facilmente se chega à conclusão que há uma graaande diferença entre os solteiros/solitários perfeitamente respeitáveis com as suas tristezas, solidões e vontade de quem lhes aqueça os pés numa noite fria e encha o peito de suspiros e... os encalhados esfomeados com tanta sensibilidade a meter conversa como um camião tir desembestado sem travões...

moral da história: a descrição foi elucidativa do meu estado civil e permitiu que o rapaz tivesse de ir passear o cão... bloqueadinho para não me chatear mais nesta próxima encarnação...

percursos

há anos que não ia ali. o meu restaurante preferido. com paredes coloridas repletas de fotos a preto e branco, velas nas mesas, ambiente suave, jazzie e descontraído, empregados jovens e bem-dispostos e a melhor comida do mundo, num dos melhores bairros do mundo, Alfama. permiti-me uma prendinha, um brinde aos tempos apertados que aí vêm. de peito aberto, que tudo se há-de compôr e é melhor embarcar num mar agitado de mãos dadas.
a Audrey mirava-me de vários ângulos, mais ao meu saudoso brie panado com compota de framboesa. e eu sorria no calor abrasador daquela noite comprida de Sábado, temperada a vinho tinto e cumplicidades.

eis senão quando entra um grupo de gente nova, mais ou menos da minha geração. começam logo a pedir para se desligar luzes que acham que estão a mais e a perguntar se não dá para virar a ventoinha para eles.

mau...

entre conversas simples de momentos saborosos, era impossível não ouvir as outras, desse grupo, que se levantavam acima do volume simpático de quem está a curtir de facto uma refeição incrível num ambiente intimista.
primeiro gozaram com a empregada chinesinha ao pedir sal grosso [pois, queriam sal grosso para a comida, verdadeiros gourmets]. depois começaram a falar dos seus planos da viagem a Cuba. [ai que giro, que castiço poder ver lá os pobrezinhos ao longe da janela do empreendimento turístico, sabes que eles são tão desesperados que te apanham cocos por uma moedinha, é o máximo].
quando se cansaram de regozijar com os pés-descalços, atacaram a empregada da casa de um deles, que era uma incompetente a quem a mãezinha dizia tantas vezes "eu só não a despeço porque tenho pena de si", mas ela continuava a não fazer a dobra do lençol da cama como deve ser, e a mãezinha, como boa católica e samaritana, lá se apiedava dela e a mantinha ao serviço dela e da casa do filhinho, que não sabe engomar, coitadinho...

dividiram entradas, pratos principais e sobremesas por todos [assim fica mais em conta, há que poupar para a viagem], pagaram com os seus farfalhudos cartões de crédito e saíram enfiados nos seus ténis de marca e calças da moda.

não me pararam a digestão, mas permitiram-me ver aquilo em que eu me poderia, há muito tempo, ter tornado. quando os tempos eram outros e andava num colégio privado e não gostavam de mim porque eu não usava calças Chevignon e não sabia quanto é que o meu pai ganhava mais que o pai do outro e não apedrejava a colega mulata e não queria experimentar cigarros. respeitava quem me passava pela frente, divertia-me com todos [quando mo permitiam, claro!], mas não era igual. nunca consegui ser. até que me fartei de ter que ser igual para gostarem de mim.

agora serão assim, eles. tristes e pobres de espírito. elites enlatadas. sectaristas hipócritas, de risos jocosos a tudo o que é diferente de ter empregada paga pelos pais para lhes desfazer os vincos da roupa de marca, em empregos estáveis lá no cimo da cadeia alimentar, conseguidos porque "o padrinho conhece o tio que é dono de", mas que planeiam apenas viagens óbvias, lêem o que ouviram dizer que é bem, ouvem a música que deve ser trendy no momento, gostam dos filmes porque sim e comem em sítios finos sem respeito por quem lá trabalha, porque, afinal, são gente de berço e cartão de crédito, têm lugar cativo em locais que não sabem aproveitar.

saí para a noite ainda abafada com um sentimento estranho. por um lado o alívio de não me ter tornado numa destas pessoas, o que me permite abrir o coração a todas e cada uma que me cruza o caminho, absorvê-la e conhecer o verdadeiro âmago de quem o quiser partilhar. de me poder banhar e enriquecer em almas sem passear-me superior nas suas desgraças.
por outro, a angústia: estas amostras de gente vão ser os pais e mães da geração que, supostamente, devia dar o lugar no autocarro e ajudar a atravessar a rua a esta pobre ex-actriz a recibos verdes... eeek!

sexta-feira, 26 de maio de 2006

VII


o carro

[movimentos redondos. as rodas a girar. não. música? não. não é isto. sentir o chão. sim. focar. em frente. desfocar o resto. não parar. a alcatifa queima. não parar. vento, tem de haver vento. abana as mãos. e quando chegar ao fundo? logo se vê. bate lá. não avança. não pode parar. gira a cabeça, o corpo segue. recto. recto. abana as mãos. tem de haver vento]

- olá. posso falar contigo?
- olá. queres boleia?
- posso ir contigo?
- podes, anda.

[sentes o vento?]

- como te chamas.
- já não me lembro.
- onde vais?
- não sei, mas tenho de ir.

[estou a chorar, não vês? é do vento. é do vento]

- estou à procura do verde. disseram-me que era para aqui.
- o verde? já vi tantos. qual deles?
- o verde.
- já passei por ele, mas não me lembro onde.
- oh, que pena. sabes, conheci a lua.
- ai, que bom, muita companhia me faz...
- também a conheces?
- não pessoalmente, mas passo muitas horas com ela.
- tu não páras?
- não. não posso.

[dói-me. há quanto tempo estou nisto? não te vejo a cara. não vejo as caras. no entanto não fecho os olhos]

- porquê?
- porque tenho de lá chegar.
- onde?
- não sei, mas tenho.

[ali ao fundo, o sol no terraço. mas as pernas recuam, a cabeça gira e o corpo segue noutra direcção. o vento na cara. o sol fica lá atrás]

- tu tens amigos?
- não sei. mas já dei muitas boleias, encontro muita gente.
- como se chamam?
- não sei, falei com tanta gente.
- e onde estão?
- oh, isso não faço ideia. eles só vêm comigo quando precisam de boleia. depois vão à sua vida.

[não me perguntes se sou feliz. choco no espelho, apetece-me continuar em frente. cabeça roda e fixa outro ponto. as pernas seguem]

- bem, tenho de ir à procura do verde. gostei muito de falar contigo.
- eu também. boa viagem.
- boa viagem

[não sinto os dedos. não posso limpar os olhos. o sol?]

o carro simboliza avançar na direcção de uma meta. conquista e êxito. está na hora de pôr-se em marcha e deixar de vacilar. indica que existe um caminho e que tem de avançar com confiança, calma e segurança, apesar das dificuldades que apareçam [...]