sábado, 15 de abril de 2006

o anúncio ou os desastres de polegar

para quem segue as minhas desventuras na tentativa de encontrar um lugar ao sol na área da representação, segue um lamiré da minha quinta-feira

8 da manhã na casa do Alentejo. ao mencionar "figuração especial", mandam-me subir. primeira falha da minha agência: afinal o "leva qualquer coisa mais formal" queria dizer fato de executiva... na sala de "styling" dizem que as minhas calças de ganga e blazer não têm muito a ver com jornalista [eu devo andar a ver os canais errados] e dão-me um fatinho cintado castanho e uma blusa justa de mangas à cava bege... ergh... as minhas cores preferidas. na casa de banho reconheço uma "colega de casting" e o alívio de ter uma cara conhecida ajudou a suportar as longas horas de espera. depois vejo chegar gente de calças de ganga e blazer que estão "óptimas"... go figure.

esperámos por ser maquilhadas - como nos tinham dito - e nunca aconteceu. da sala de espera víamos na maquilhagem as meninas que seriam as "Tochettes": uma loira nórdica de busto generosamente siliconado e olhar literalmente a leste; uma morena esguia muito bonita de rolos na cabeça, a stressar ao telemóvel.

esperámos duas horas. porque a morena "não sabia" que ia ter de usar calções curtinhos e top cavado. diz era despida demais. - eu não achei nada de escandaloso, elas têm corpo para isso, é por isso que são modelos, e se havia razão de queixa seria da loira, que dava mais nas vistas - de certeza que no casting já a tinham avisado, mas que fazer?... não se sabe dos pormenores, é certo que tiveram de chamar outra morena. aqui entre nós, esta púdica menina foi a que andava montada numa banana na capa de uma revista e respectivos toques jamba... go figure!

adiante. na hora de distribuir os adereços, calhou-me um micro. e a quem estava de calças de ganga, as máquinas fotográficas... aí fiz beicinho. havia uma fotógrafa de saia travada, casaco de ganga com gola de pelo e botas de crocodilo... go figure!

a minha chapa de identificação dizia "Francisco Azevedo". havia um brasileiro chamado Enfermeira Isabel... ainda troquei com ele umas impressões sobre a operação eheheh

ensaiada a primeira cena [um corredor de jornalistas tenta entrevistar o senhor doutor Tochas antes da conferência de imprensa], prepara-se tudo para gravar. reparo em dois tipos com ar de patos bravos ao meu lado que usam o telemóvel para fotografar o ensaio. a Tochette loira começar a ficar incomodada e aí percebo. estavam a levar recuerdos para as noites solitárias. ela queixa-se e o assistente dá o raspanete. no fim da gravação da cena, os tipos afastam-se a comparar as imagens gravadas. triste.

resumindo, entre cada cena eram horas de espera e chegámos à conclusão que aquilo foi tudo um desperdício de dinheiro: às tantas até turistas perdidos faziam figuração, mudavam as pessoas de sítio entre cada cena [o que dá uma continuidade fantástica], não sabiam se estavam a usar figurantes especiais [pagos para falar] nas cenas em que se falava, esperámos 6 horas de propósito para gravar uma cena... de costas... uma confusão.

outra falha da minha agência: "lá para depois do almoço estás despachada"... brincalhões, hem?

no fim de tudo, se aparecer a minha testa é uma sorte... nada mau para quem saiu de lá às 10 da noite...

entretanto falei com a minha agência: descobri que o pessoal agenciado por outros estava a receber o dobro. ora se estamos todos a fazer o mesmo... vai haver molho. baixou-me o santo e passei-me com eles. e ao fim da noite estava criado um sindicato que irá pedir satisfações para a semana...

a comida era do melhor: enchi-me de broa com queijo da serra, doces vários e cafés. os sofás da casa do Alentejo são confortáveis. o realizador tem um fetiche com loirinhas. o Tochas tem dificuldade em decorar as deixas e é mesmo avariado da cabeça. entra um cão na figuração, que é um querido. acabei por me dar com um grupinho de três "pernas-curtas", uma "perna-longa" e um "perna-longa". sim, que estipulei logo de manhã as discriminações de géneros físicos que arrancaram as primeiras gargalhadas quando completei com um "deixa estar, é só dor de cotovelo". durante o dia, dirigiam-se a mim com um "ó Francisco..." ;)

agora é esperar pela OPA! e mais não digo :)

quarta-feira, 12 de abril de 2006

para castigo...

... fiquei num anúncio...

não no das mãos, obviamente, mas noutro para que fiz casting sem estar marcado...

pois que é uma figuração especial, o que quer dizer: estar numa molhada de gente e dizer uma ou duas deixas.
conhecendo o guião, a minha deixa [muuuito especial] vai ser: "doutor, doutor"... em coro com outros tantos.

se, depois da edição e ideias mágicas em cima da hora do cliente, eu ainda aparecer, eu aviso eheh

entretanto, vou levar a moleskine... é um dia inteiro num set de filmagens... this should be interesting... muahahahahah!

segunda-feira, 10 de abril de 2006

comunismo dos corpos

casting. manhã inteira a serem-me tiradas as medidas, ser avaliada não só pelos senhores que mandam na agência, mas também pelas wannabes-cheias-de-fome-com-maquilhagem-a-mais-e-que-não-sabem-que-não-se-usa-preto-nem-riscas-num-casting com quem me fui cruzando na sala de espera.

tudo corria bem. a franja e o cabelo comprido agradaram. tive uma contracena porreira. além do meu casting, tive que fazer assistência no de outro rapaz [era um anúncio com casais], e ainda foi uma risota. mas depois foi a parte do fingir que cozinho [metia culinária] e o senhor lá me pede: "preciso de um grande plano das tuas mãos, porque vais pegar na embalagem".
está o caldo entornado.
tenho as mãos pequeninas. as montagens e nervos deixam-me pouco espaço de manobra para manter as unhas bonitas, sem as roer. isso são vitórias esporádicas. já me tinha dado trabalho suficiente vestir algo que enganasse a câmara acerca da minha barriguinha. lá estendi as mãos no fundo preto, avisando que fazer unhas de gel era hora e meia: se ficasse com o trabalho, não se preocupassem que já podia pagar umas mãos comerciais. ele riu-se.

e criei uma teoria: o comunismo dos corpos.
devíamos ser todos lindos. altos, com pernas compridas e bem torneadas, barrigas lisas, cabelos brilhantes, mãos de dedos longos e delicados, peles impecáveis, sobrancelhas arranjadas. sairmos todos, dentro do estilo e genes de cada um, com um aspecto que vendesse o l. casei imunitas, o caldo knorr, o telemóvel de 3ª geração ou o detergente da roupa 5 em 1.
depois os senhores, em vez de andarem à pesca de modelos que saibam articular, já podiam escolher só pelo talento.

sexta-feira, 7 de abril de 2006

blossom by J.B.

um dia entrou-me por aqui adentro e olhou para o meu querido vaso de flores laranja, de onde sobravam apenas uns talos secos.
- isso 'tá morto?
- não sei... não tem razão, rego sempre, tenho tanto cuidado...
- pois, mas sabes, com tanto tabaco e ambiente fechado é capaz de já ter morrido.
- espero que não, gosto tanto delas... vamos ver, na primavera.
o tempo passou e nada aconteceu. as florinhas não voltaram a aparecer para colorir os meus dias. mas mantinha o vaso ao lado do rádio, à espera delas.
há uma semana, enquanto montava o cenário, ouço o assobio conhecido. lá vinha ele, sempre o primeiro a chegar, beijinhos e as chaves da torre, onde são os camarins, onde pinta todos os dias a cara de vermelho demoníaco.
- tenho lá uma prenda para ti. esqueci-me de te trazer, mas um destes dias passo lá no escritório.
- são post-its?! [isto aqui é um luxo, de facto]
olhou-me sério e carrancudo até explodir na sua gargalhada
- logo vês.
ontem, depois do espectáculo, voltei aqui para fazer as contas. estava de nariz enfiado na calculadora quando a porta se escancara com o seu sorriso. assim, de sorriso rasgado e braços estendidos, um vaso de florinhas brancas nas mãos.
- toma! a ver se não morrem estas!

assim se semeiam amizades.

quarta-feira, 5 de abril de 2006

nebulosa

respiro os tons de cinzento que perfilam este meu dia. mais um sopro de fumos anelados que aquecem o peito, ardem nos olhos e preenchem o cinzeiro, sepultura cinza e laranja.
com melodias suaves escondidas no canto da secretária, abafadas em cantos urbanos de buzinas e tosses e motores. a chuva insistente que me enganou a manhã e ensopou-me o casaco de malha. nebulosas que correm e se rasgam fio a fio por luzes douradas, fugidias, efémeras.
o vento e o canto da tempestade soam dentro de quatro paredes brancas, sombreadas da fragilidade do dia lá fora. soam como folhas de papel, rumorejar de teclas e seres de metal que cospem tinta negra. soam a perguntas, apitos agudos e pedras de isqueiro.
cheira a frutos silvestres, queimados em gotas grossas, vermelhas, sangue espesso que se cola aos dedos, os queima e paralisa por um segundo, até se fragilizar e desfazer em pequenos grumos macios.
a manhã entardeceu. a tarde anoitece. sempre em tons de cinzento.
preparo-me para mais um regresso de pálpebras dormentes, e, quem sabe, casaco de malha ensopado. recordando os anoiteceres de meninez em que estendia a língua de fora, deixava as gotas tomar conta do corpo, da roupa, sem pressas. até chegar a casa e me envolver em águas quentes, espumas perfumadas da Avon e toalhas turcas, sob o sorriso cúmplice da minha avó.

segunda-feira, 3 de abril de 2006

este post não mora aqui



esfumou o desejo com a ponta dos dedos, como quem lê uma textura. depois entardeceu no silêncio esbatido do descanso, acompanhado por melodias urbanas de hábitos e pegadas. fechou os olhos.

saldades

pouso as chaves, o leitor de mp3 e o livro no cantinho da secretária. sento-me, puxo o maço de tabaco para perto do computador. antes que cheguem os outros, o primeiro pedacinho da manhã é meu. entro no messenger e uma janelinha salta avisando-me de correio, diz que é lixo electrónico. "saldades" é o assunto. antes de deitar fora, algo me leva a abrir a mensagem.

Rocha era um dos nossos carregadores. fazia parelha com o Sr. Fernando, um velhote rijo que se recusa a arrumar as botas e aposta todas as semanas no Euromilhões. todas as semanas dizia "menina, prá semana, se não me vir, já sabe! aqui o Careca ganhou o éro-milhões e pôs-se a andar prá praia! mas eu deixo um recado com o Rocha juntamente com um cheque para os putos dele e um dinheirinho para si também". Rocha ria-se. sempre na sua onda muito serena, mostrou como se dança capoeira no meio de um monumento nacional: pousou os ferros que trazia às costas e atirou-se para o chão. fazia o que lhe competia mas ajudava para além disso, apenas por achar que devia. arrumava melhor que ninguém todo o cenário no mísero espaço de 1mx2m e mostrou-me como se descarna um fio eléctrico. contava histórias da sua ascendência índia e de como tinha partido o nariz. chamava-me "patroinha" porque nunca conseguiu decorar o meu nome. apesar de poder sair, ficava depois de o trabalho acabar. seguia os actores nas visitas guiadas para conhecer melhor as pedras onde arrastava o carrinho. e depois ficava a ver o espectáculo, todos os dias. e comentava como gostava de trabalhar ali, porque afinal descobrira que gostava de teatro. ficava fascinado com os pormenores, fazia perguntas sobre o texto e ficava à conversa com os actores, trazia a mulher para assistir e pedia se podia sentar-se no meio do público. claro que podes. "se pudesse, era isso que eu faria da minha vida, sabe? ficar carregando os cenários, ajudar montar as coisas pra fazer sentido. é incrível como se cria esse mundinho de faz-de-conta."

nos dias em que nos cruzávamos com aqueles grupinhos de gente pequenina de panamás coloridos e bibes aos quadrados, ele, com sete cadeiras às costas, fazia um esgar dorido e dizia "não posso ver esses meninos, me lembram meus filhos, bate uma saudade... dá uma vontade de chorar, sabe?"
Rocha aderiu ao mundo dos computadores, instalou o messenger para poder falar com os filhos do outro lado do mundo. e tem o disco rígido recheado de fotos de sítios onde esteve e de outros com que ainda só sonha. de gente que se cruzou com ele nos vários lugares onde já viveu. "esse computador tem a minha vida. se roubassem era pior que perder o BI". um dia trouxe o computador e a máquina fotográfica. fez questão guardar no disco rígido também esta equipa, estes novos "amigos". um diabo, um anjo, um velhote de ar desconfiado, uma menina de saias às cores e outra de calças de ganga. e ele. hoje recebi essa fotografia.

Rocha está ilegal em Portugal. não faço campanhas a favor nem contra. é apenas um facto. não conseguiu ainda tratar das papeladas. teve de sair do teatro porque não recebia o suficiente para pagar o aluguer da casa e ainda mandar algum dinheiro para os filhos. "quero ficar em Portugal. adoro esse país. mas preciso trabalhar, aqui não ganho o suficiente". com lágrimas nos olhos, disse que ia para as obras e que se precisássemos de fazer mudanças, para os amigos ele tinha o Domingo e era de graça. umas semanas depois foi apanhado pelo SEF. mas um amigo deu-lhe outro trabalho numa sapataria para os lados do Rossio e prometeu ajudá-lo com a legalização. eu espero que consiga. porque ele merece.

sexta-feira, 31 de março de 2006

mulher das obras



levo a mão ao bolso à procura de trocos, encontro no meio das moedas duas anilhas. páro e olho para mim. reparo em mim inteira e nos novos objectos que passaram a fazer parte dos meus dias. as calças de trabalho, como lhes chamo. de ganga, largas e de bolsos de lado. as botas de montanha que me dão jeito para empurrar os contrapesos que não consigo levantar do chão. mais à mão que as chaves, o passe ou a carteira está sempre o canivete. com que descarno fios eléctricos, aparafuso iodines e reabilito cabos. e já dei por mim no Aki a admirar uma aparafusadora eléctrica daquelas pequeninas, a pensar "que jeito me dava lá nas montagens, em vez do bajolo"... apesar dos comentários engraçados que ouço dos colegas quando dizem "que sexy é uma mulher com um berbequim", acabo por pensar: ok, yin e yang e tal... todos temos lado feminino e masculino... essas coisas todas... sim, tá bem, mas é testosterona a mais por dia, caramba!

ai... e os meus sapatinhos laranja largados abandonados à chuva e à fome de calçadas... no quarto... sniff...

quinta-feira, 30 de março de 2006

avessos

gosto de avessos. de interiores. de toques com sentidos subliminares. de contextos e pretextos. de intenções. entrelinhas. gosto como gosto de um doce que se espreme entre a língua e o céu da boca devagar, que se deixa escorrer pelo palato como se fosse uma palavra complexa, cheia de ditongos e arabescos. que se degusta. gosto de suspeitar apenas de um olhar e de poder penetrar nele lentamente, pedindo que me seja dada essa permissão, sem palavras. gosto do interior dos suspiros, onde se alojam os segredos. escondem-se vidas inteiras sussurradas no eco de um gesto. as memórias que o voo de um cabelo transporta. o receio que o brilho da pele encobre. pode ser um silêncio que grita. pode ser um grito que murmura. é nesse avesso das pessoas que se encontra a sua alma. nos pequenos ses. na água. dos olhos e da boca. das mãos. nas dúvidas e fragilidades em que se revela cada intimidade. cada íntimo. onde se desnuda o ser. quando simplesmente se é.

terça-feira, 28 de março de 2006

coisas boas

acordar tarde e não sentir que perdi metade do dia.
beber a bica da manhã na esplanada.
fazer a marginal de vidro escancarado, música bem disposta e dançar nos estofos do carro enquanto o rio brinca com os seus reflexos no meu rosto.
deixar o casaco nas costas da cadeira quando vou almoçar.
sair do escritório e ainda ver as ruas antigas da minha Lisboa coloridas de luz.
o regresso da sensação de criança de que posso ficar a brincar até às tantas.

lembrem-me lá: por que raio é que existe o horário de inverno?

segunda-feira, 27 de março de 2006

dia mundial do teatro


[fotos de T.]

era um dia de chuva intensa.
estávamos sozinhos. ele tinha ido para o México e tinha pedido que não deixássemos o teatro inactivo. quando voltou, tínhamos conseguido um pequeno apoio da semana da juventude e duas peças preparadas. uma terminava hoje a outra começava hoje, sessão dupla. eu estreava hoje.

cheguei cedo ao teatro, com uma colega. tinha a chave, abri as portas e fechei-me lá dentro. ainda o silêncio das pedras. íamos começar a preparar tudo para a mega-produção da noite. faltava arranjar a entrada, com fotos, cartazes. verificar se a loiça estava lavada para a enchente de bicas e imperiais, se a bilheteira estava organizada. faltava dar a vista de olhos aos e-mails. preparar os bastidores e a cabine técnica, para depois a máquina funcionar como deve ser, as trocas de funções serem rápidas e o público não esperar muito durante o intervalo para mudança de cenário.
as luzes já estavam alinhadas para servir os dois espectáculos. tínhamos ficado a ensaiar o nosso até às 8 da manhã. alguns tinham aparecido com bolos para nos dar força e a E. dormira na plateia enrolada nos nossos casacos, para não nos deixar sozinhos. o T. lá em cima, incansável, desenvencilhara-se sozinho na "cozinha", batendo bolos e fritando bifes, tudo ao mesmo tempo, com a luz e o som só para ele.

chego aos bastidores e quando levo os dedos ao interruptor ouço um estranho chapinhar. tento acender a luz sem resultados. os olhos habituam-se depressa à escuridão e apercebo-me de que há água até ao segundo degrau dos camarins. dava-me, portanto, quase pelos joelhos. adereços a boiar. no meio do pânico, a duas horas de estrear, as borboletas dobraram o trabalho de enviar a sms: "houve um inundação. os camarins estão cheios de água. todos ao teatro, rápido". desligámos o quadro, alçámos as calças e tirámos os sapatos. com uma lanterna fomos retirando lá de trás o que era preciso e fomos espalhando as coisas atrás do cenário. as pessoas iam chegando e cada um ia ajudando no que podia. uma "recém aquisição" ainda se fez de esquisito, dizendo que, já que estávamos encharcadas, podíamos trazer as coisas dele. mandei-o passear no mais proverbial léxico suburbano que tenho dentro de mim. e ele descalçou-se e foi à água como todos.
alguns prepararam a entrada. alguém fez a bilheteira. não tínhamos onde nos maquilhar. a roupa estava a ser seca com o único secador disponível. o público chegava. deixámos que nos vissem, já sentados, a maquilhar na mesa de adereços que compunha um dos elementos do cenário. tinha a ver com o espectáculo. licença poética.

depois fomos lá para trás. abraçámo-nos todos. e saíram os que tinham de ficar lá fora. o director explicou ao público o motivo da meia hora de atraso, honrando surpreendentemente o nosso esforço para mesmo assim podermos dar-lhes o que tínhamos prometido.

começou a música e nós entrámos a dançar. e depois foi um daqueles momentos mágicos. que sabem melhor quando se luta muito e se está bem acompanhado. risos. generosos e francos. num momento em que se fala do cinema português, fazemos um black-out. silêncio do outro lado. e, de repente, a gargalhada e a explosão de aplausos. quando abrandaram, pudemos falar, e seguiu-se outro turbilhão de risos. e mais risos. no fim, o abraço lá atrás e o choro convulsivo, interrompido pelas várias chamadas ao palco. apontar incessantemente aos rostos que adivinhamos no escuro, que sabemos que estão lá.

despir, com as pernas a tremer. receber os abraços dos outros, que entram agora para a sua vez. arrumar tudo da melhor forma para dar espaço. ajudar a E. no penteado elaborado. abraço e muita merda. divirtam-se. subir à cabine técnica. mudar o cd. vai começar o outro espectáculo.

foi um dos momentos mais bonitos que vivi. foi há dois anos.

quarta-feira, 22 de março de 2006

oh life

eles dominam a àrea e nós só nos sentamos e acreditamos... é um bocado como os mecânicos... e ele conseguiu finalmente o que queria.
Carrasco sentou-me na cadeira, e, apesar de vir para simplesmente tratar um dente, voltou ao ataque com a coisa de:
- mas porque é que não quer extrair os sisos...?
- mas eles estão a prejudicar-me a boca em alguma coisa?
e ele baixou os olhos, contrariado e murmurou
- não...

deu a anestesia e, com dois dedos de conversa [ou seja, enfiados na minha boca] lá começou a perfurar. até que estranhamente [porque ele pode ser muita coisa mas não costuma magoar... salvo seja] a broca do senhor me toca num ponto que me faz soltar um trémulo "ehá a huer"... ele escavaca mais um pouco, meio apreensivo e lá me diz a boa-má-nova-depende-do-partido-que-se-toma:
- Polegar, você tem uma cárie pequenina no siso, mas é profunda e está a chegar ao nervo... sendo um siso, não vejo necessidade de o mantermos. penso que o melhor será extrairmos... o que é que acha?
[na minha cabeça corria: "mantermos? extrairmos? sente-se lá o senhor, então que eu fico com a parte do alicate estranho...!" e logo a seguir "dasse, mas eu não vim preparada para arrancar um dente... se calhar, se passar um cheque traçado, dá-me tempo de depois cobrir antes de ele o conseguir levantar. quanto levará este gajo para arrancar um dente, ele é tão careiro, isto hoje já me ia prejudicar tanto o mês e ainda tenho a revisão do carro..."]
- Polegar? está mentalmente preparada?
- não.
- então, como é que fazemos?
- tire.
["não, deixe ficar, eu saio assim mesmo, com um buraco no dente!... ou melhor, tape tape que eu quando estiver mentalmente preparada volto cá, sim? aliás, nem se demora três meses para se conseguir consulta! duuh!"]

pois que me deu mais uma anestesia e enquanto esperava que fizesse efeito, vasculhou-me os outros dentes, chamando a assistente, nos seguintes remarks:
- já me viu esta dentição? é perfeita... é que está mesmo impecável... Polegar, vai-me deixar tirar-lhe umas chapas, não vai?
- mash há mhe hirou unsh moldhesh...
- sim, sim, mas além dos moldes também precisava das chapas. é que são óptimos para fazer modelos de prótese...
[garganeiro! agora as velhas vão andar com os meus dentes... não vale!]
- há bem...

depois pronto, puxa, repuxa - delicadamente, não é como o outro que foi à bruta -, e salta cá para fora um siso que eu não sei como me cabia no meu pequeno maxilar. deu-me uns aulins para o caso de ter dores e disse
- cuidados a ter: pouco esforço físico e comer coisas moles e frias. tome um aulin antes de ir trabalhar na tal montagem de teatro amanhã. vem cá para a semana tirar os pontos e daqui a uns três meses tiramos o de cima, que agora não está aí a fazer mesmo nada.

pago [com cheque traçado, mas surpreendida por me custar o mesmo que uma limpeza] e saio para a rua com a boca de lado.

- hey, Joey, gimme a pint.
- are you sure?
- hoo ya... Cookies and Cream, the full pack!

segunda-feira, 20 de março de 2006

do patrao

[às voltas com um documento word]

- ó Polegar, onde raio estão os headers and shoulders?

sexta-feira, 17 de março de 2006

separar das aguas

largo o ar que é menos puro que o meu cigarro. num pequeno compasso, fujo para onde ninguém me vê. para um momento que conheci de cor. sei que será agora ou nunca que o reviverei. aquele em que descalça passeava nas tábuas frias, sozinha. não me descalcei nem subi os três degraus mas senti aqueles segundos perfeitos. ouço lá fora o burburinho das vozes dos outros. e lá ao fundo as gargalhadas daqueles que fui. deixo-me ficar ali, no silêncio do entretanto. olho em volta, os assentos expectantes de corpos. a parede alta, que parece não terminar. chegam-me os cheiros das madeiras atrás de mim e parece-me ver uma figura esguia de rolo na mão. a marca no rebordo do degrau por onde descia para me sentar. acaricio o veludo vermelho a medo, quase a pedir-lhe permissão por uma intimidade que agora sinto estranha. mas inevitável. como um velho amante que conhece de cor a pele e os cheiros mas que já não pode possuir. outro vulto me passa, apenas nos olhos, passeando devagar no escuro, em cima do palco. esse senta-se de pernas cruzadas, abraçando os joelhos e deita-se. mira a teia onde repousa as preces. cheira-me a cabelo quente, a laca e a baton. outro estranho ser que reconheço mas não conheço está sentado ao fundo, num sofá, à espera da mão. apenas duas luzes estão acesas para que não se caia, mas poderia subir, descer, contornar e enrolar-me no espaço sem vê-lo. mas não o faço. permaneço até sentir o ligeiro tremor. e vejo nitidamente a rapariga saltitante de chapéu branco e saias volumosas, seguida de perto pela mulher fatal de camisa de dormir demasiado curta. ao fundo, atrás de uma cortina vislumbro a senhora triste de cabelo preto e xaile. a mulher rebelde que dançava ao som do musical. a outra, de longos cabelos loiros, abre o peito às espadas e chora baixinho. dançam à minha frente em movimentos cada vez mais leves até se esfumarem no silêncio. um arrepio. o meu querido abraço quente. são as pedras. aliviam-me a culpa de já não me terem. agradecem-me os dias em que nelas me enrosquei, em que me deitei e rocei. bebem os restos da minha entrega, os despojos da minha paixão. beijam-me o rosto num fôlego morno, terno, doce que me escorre nos lábios até bem fundo dentro de mim. lambem-me o sal e o pó que usava para lhes contar histórias de encantar. cada reencontro dói mais. amo-te.

segunda-feira, 13 de março de 2006

franjinhas


[ms]

porque acordei e cheirava a verão. porque queria abrir a janela e dizer bom dia ao céu azul. porque é quase lua cheia. porque mulher é mulher e muitas vezes mulher é mesmo vaidosa. porque mulher é mulher e quer mimo e sentir-se bonita. porque em menina usava franja. porque queria um reflexo mais descomposto e bem disposto. porque o meu nariz também precisa de fazer a fotossíntese. porque queria manter as raízes fortes e brilhantes e dar um corte nas angústias gastas. porque sim.

sexta-feira, 10 de março de 2006

music for a found harmonium




music for a found harmonium | penguin cafe orchestra

descobri-te quando tropeçaste o meu caminho em papel de jornal.
quis-te assim, inteiro. verdadeiro. e não sabia como te chegar. apaixonei-me como criança num campo de girassóis. fui lentamente aproximando-me do teu rosto de luzes [e]ternas, madeiras cansadas. emoldurado pelas vidas em cartaz. programa extenso com letras de teias enredadas por mãos de velha sábia.
envolvi-me toda em ti e deixei-te possuír-me. pequenina, enrolada em posição fetal, a luz abraçou-me, aqueceu-me, deu-me a vontade. os braços mexeram-se sem pedir-lhes nada. és assim, generoso, entregas as almas que tragamos sem pensar. e atinge-se na respiração abdominal a posiçao de estrela, que ensinas que nos enfia cá dentro em golfadas as energias deste mundo e do outro. absorvo-te. de repente uma mulher saltou no teu colo. e outra e outra e outra ainda. e seres animados sem linhas dançavam como estrelas à nossa volta. o súbito estertor de ser porque estava no teu colo, em que dançava como a bailarina da caixa de música. rasgava a gargalhada selvagem, despia-me e mostrava-te-me, largava em debandada violenta pontapeada, cuspia sangue e por dentro sorria. porque entravas por mim adentro quando achava que não penetrarias mais fundo. lançaste-me as raízes do desejo. de mãos dadas no escuro porque amar é de olhos fechados. e na pele nascem roupagens de cores fortes, puxando o corpo em arrepios. o cabelo cresce e cai ao chão. os olhos escurecem e envelhecem conforme os que os teus reflectem. o fôlego não interessa. porque somos nós. no teu colo me planto, pincel e paleta sou a tua mão firme e certa. eu não sei mas tu sabes. e a árvore imensa espessa as ramagens alimentando-se do suor e do sangue que vorazmente lhe consagramos. alma de vidro estilhaçada em gotas de anis. em cada estalada. em cada estalo. em cada sopro.
sopro-te agora ao ouvido. estás aí? acorda. acorda-me.

quinta-feira, 9 de março de 2006

no balanço da melancolia

olho para a agenda preta porque a colega está de novo de férias – prometendo-me beber uma caipirinha por mim numa noite de lua cheia - o que me leva a aperceber-me: um ano, passou-se pouco mais de um ano desde que comecei a trabalhar aqui. podem fazer-se balanços todos os dias, mudamos todos os dias. mas…

o Romeu continua aqui - mais pálido, é certo - a fazer-me companhia nas tardes suadas e nas geladas. os patrões continuam ausentes e dispersos, com picos insanos de actividade. continuo sem esperar nada daqui. a janela mostra-me ainda a esquina da casa azul, o extra, a padaria e a rapariga sentada na caixa da electricidade, ainda se adivinha o Tejo, apesar da sua ausência aos olhos, e as gaivotas ainda me garantem que não será uma miragem... e ainda saio demasiado tarde para ir aconchegar os lençóis ao sol no rio.

no entanto, e apesar da memória fraca que me deixa guardar pouco, regresso ao “há um ano atrás”... e surge um sabor a sal.
pelas mãos vazias de sentido. o corpo solitário sem novas almas. o pó permanece debaixo da pele, em ferida aberta. partilha-se as angústias com quem nos sente de forma igual. sinto os seres sentados lá em cima, na teia do universo. silenciados. amordaçados. presos na mesma cela da minha vontade de contar uma história.

regresso sem dar por isso ao ponto de encontro dos risos embriagados de há um ano. em que os alicerces estavam seguros, e o medo era não ter tempo suficiente nem mãos a medir para lançar o pó ao ar das cadeiras vermelhas. acompanham-me os melhores amigos. um que nasceu comigo no momento em que respirámos juntos o primeiro pó do palco, ensinando-me a alegria da entrega, a verdade dos olhos. outro que cruzou os passos nos meus e me pediu a mão para sentir também ele o voo das borboletas, e em mim ficou, ensinando-me a nobreza da humildade, a beleza das pequenas coisas.

a cerveja é a mesma. a voz também. o bolo ainda é de chocolate com chantilly.

que foi feito de mim?

terça-feira, 7 de março de 2006

brown eyed blues

subia as escadas do metro, olhos enterrados no livro. um cego cantava, o som embatia nas paredes frias e não encontrava lar. talvez como o cego. "olhos castanhos". a minha avó cantava essa música, nas tardes das papoilas, enquanto engomava ou lavava a loiça. quando o sol entrava a jorros pelas janelas da sala. quando se bebia chá simples, de camomila, bem açucarado. tinha uma voz doce, cristalina, com um vibrato tão característico dos tempos do papel de parede, das saias rodadas, dos serões com discos de vinil e das bolachas ao quilo. fosse essa voz uma cor, só poderia ser branca. como os anjos.

senti umas saudades tão fortes que quase não consegui respirar.



Teus olhos castanhos
De encantos tamanhos
São pecados meus
São estrelas fulgentes
Brilhantes luzentes
Caídas dos céus
Teus olhos risonhos
São mundos, são sonhos
São a minha cruz
Teus olhos castanhos
De encantos tamanhos
São raios de luz
Olhos azuis são ciúme
E nada valem para mim
Olhos negros são duas sombras
Com uma tristeza sem fim
Olhos verdes são traição
São cruéis como punhais
Olhos bons com coração
Os teus, castanhos leais

| letra e música de Alves Coelho |

segunda-feira, 6 de março de 2006

aqui



estendo os braços
está aqui em frente a mim
mesmo em frente
sei-o
nos cigarros acesos
nas luzes de halogéneo
e no barulho dos carros que passam
nas pedras da calçada e nas outras
no cheiro do vagabundo
e nos saltos da senhora
quero. sei todos os dias.
percebes?
que sei, que estendo e estico os braços
até ficarem dormentes
que os dedos são pequenos
que me deixo ficar
a escorrer
os pedaços que me definem
até que me caia toda ao chão
e não tenha mais
está aqui, mesmo aqui
diz-me para esticar as mãos
e depois vira-me as costas.

sábado, 4 de março de 2006

o voo das borboletas



de repente o "outra vez". o turbilhão. as cores e as palavras. o tremer. o suor. na garganta as rédeas soltas. os dedos agarram com o desespero do sentir do etéreo. o corpo oferece-se sem pedir. podia ser sexo. podia ser um orgasmo.

[fotos e montagem de MS]

quarta-feira, 1 de março de 2006

vozes



repete. já estou cansada. um cigarro, pode ser? não devias fumar enquanto cantas. lixa-te a voz e a respiração. eu sei, que queres. estou nervosa, deixa-me. vá, do início. troco tudo, e se eu falhar? a cantar ainda é pior, nota-se logo... não penses nisso agora. faz. mhmmm, espera, espera. não me lembro do início. disparate, lembras sim. estou com a garganta arranhada. mas que trauma é esse? caramba, acho que ou se tem o dom ou se está calado... és mesmo estúpida, sabias? desde que coloques a voz e entres no tempo ninguém quer saber se ganhaste a eurovisão. bem, ganhar a eurovisão não é sinónimo de cantar bem e... queres começar? oh mas que coisa, estou desconcentrada. isto assim não dá. eu sei que assim não dá, concentra-te. quero fazer isto bem. pois. é que sem fazer parte do nascimento das coisas, levar isto assim tão cru, sem poder experimentar e errar... é difícil. pois é, pois é, é tramado. eu sei que são só dois dias, porque é que estou assim? porque levas isso a sério. eu sei, mas mais ninguém leva... e que queres? se no fim levares umas palmadas nas costas já é vitória. então para que é que estou a fazer isto? porque sim. porque não conseguias não fazer. voltas sempre ao local do crime. dói-me a barriga. isso são as borboletas.

hey sugar... take a walk on the wild side


[ms]

desertou rua abaixo absorvendo o turbilhão de gentes. a calçada deslizava-lhe nos ténis impactando-lhe o fim de dia nas raízes que ainda a ligavam ao chão. os perfumes e suores de fim de dia misturavam-se-lhe na língua e nos olhos. penetrou nas luzes e nas pessoas, abstendo-se de pensar. Chiado. pessoas, sacos, conversas. fumos, carros de faróis acesos, arrumadores e estrangeiros. as montras desfilavam-lhe nos olhos desatentos de pormenores. de súbito, para lá do seu reflexo envidraçado, da boneca rígida em pose e cores da moda, um pequeno ponto laranja forte de formas redondas. parou. tentou-se. pensou em Carrie de "O sexo e a cidade", pensou em correr rua abaixo para não fazer asneira. 36, ali mesmo, na prateleira, pronto a experimentar. mas nem sequer costuma usar sapatos de salto. o hálito quente da loja e o corropio abriram um labirinto até ao sofá onde se deixou ser vaidosa. demasiado perfeitos. e ficam tão giros com as meias às bolas...

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2006

hou la da barca, hou la!

todas as actrizes do elenco (e há três para um papel, já por causa das coisas) estão ocupadas em lançamentos de cds e digressões de outras peças, pelo que dois dias de espectáculo estão em causa, sem ninguém disponível. depois, se não se fizerem esses espectáculos, não há dinheiro para pagar às pessoas.
who 're you gonna call?
à pessoa que também tem de fazer a montagem, dar formação ao técnico que entra novinho em folha naquele dia, ao carregador novo, que com o velho terá de carregar duzentas cadeiras. ah, e fazer a bilheteira e tratar de encaminhar as manadas de meninos... valha-me a santa colher, que estava com tanta febre que se ofereceu a safar-me de mais esta...
cá estou, a decorar falas vicentinas, para daqui a dois dias ir fazer um espectáculo, sem que o encenador ou o assistente de encenação se dignem a passar texto comigo. e sem ensaio de palco. pelo menos os colegas dizem-me que vai correr tudo bem... pois claro.
ainda por cima tenho de cantar... não vale...

bem, vou-me embrenhar na canção da outra e a ver se deixo de trocar o "não hei eu i d'embarcar" com o "nom quero eu entrar lá".

"pera o paraíso vou"... ah vou, pois, depois desta tenho mesmo de ser "apostolada, angelada e martelada"... estou a fazer "cousas mui divinas"! "eu sou ua mártela tal... açoutes tenho levados e tormentos suportados que ninguém me foi igual..." olha, é quase biográfico!

para desanuviar, sugiro-lhes que vão recordar os bons velhos tempos aqui. eu já andei a recordar as minhas viagens de cavalo alado e espada mágica com a She-ra e as noites de Vitinho e, e... mais não digo... boa viagem...

à barca, à barca da vida... ai ai ai...

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2006

pontes


foto roubada a nelson d'aires

o tempo foi perdido, não por nós mas por tudo o que nos fez sermos quem éramos quando nos cruzámos. a desorientação no espaço é inevitável para quem não é mais que um fragmento de si, sem compasso de relógio, sem desejos nem carne. sem sangue. de sabores dormentes. quando o tempo nos toma as rédeas, fica-se suspenso. tudo muda à volta. permanecemos assim, sem o norte. mas sabia onde ficavam os pedaços dos meus dias úteis. e mostrei-te. nessa ponte encontraste a passagem. ali. e descobri que aquela passagem era minha também. escorremos como rio violento, quebrante, fugimos do tempo escondidos na humidade dos peixes. acampámos no limbo do destino, espetámos-lhe as estacas com a volúpia da vingança nos dedos, enquanto o tempo nos procurava. esquivámo-nos em gritos insanos para dentro um do outro. e o sabor acordou. o da tua carne na minha língua, o da tua vida no meu peito, o do meu peito nas tuas mãos, o dos meus gemidos nos teus cabelos brancos. o do sonho nos nossos dias. o amor, enfim o amor. depois não. depois o tempo voltou. depois foi quando os nossos corpos se separaram* e parámos de novo, cada um nos seus pontos recortados de alguma agenda amarrotada por um ser sem nome nem caneta para nos unir. porque não somos mais do que nos deixamos ser. o encontro nem sempre une. permanecemos quedos, querendo o tempo a passar até sermos de novo pedaços de pó. nessa liberdade soltei-me ao vento e à água ao teu encontro. dei-te a minha morte. no fim, fui tua de novo, meu amor.

não sei porquê. mas tive a certeza. este tipo de certezas só se tem uma vez na vida.


*a naifa | três minutos antes de a maré encher |

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2006

folias :: o rescaldo

o som é maravilhoso. já gostava, agora gosto mais. dos senhores, da força e balanço da música, da audácia dos convidados especiais...

de resto... bem, de resto a nota negativa vai unicamente para os convivas... é que ir ao lux é "bem", mas continuaram sem perceber porquê... havia com cada um... ora vejamos, enquanto ainda balanço ao som de "miúdo":

.: as tias de casacos de peles e ar-tão-pedigree que desceram logo que abriu o acesso ao piso da discoteca. não podiam perder pitada, mas parece-me que acabaram meio perdidas. ficaram à frente mas perderam a pose: sem perceber porque é que o peeling estava a derreter e a desfazer-se com a vibração e porque é que os cintos cheios de metal e lantejoulas as puxavam na direcção das geringonças que faziam som - esse som estranho que não tem nada a ver com a Casa do Castelo, vindo de pessoas a sério em cima de um palco...

.: os tios de fatinho, copinho na mão e a outra no bolso, que falavam da bolsa ao pé da entrada... deixaram cair o queixo ao chão quando entrou o primeiro "ente" estranho de cabeça rapada, túnica justa, lenço às bolinhas cor-de-rosa e bota alta... "aquilo é um gajo?"

.: o homem-tipo-bruno-nogueira-quasi-torre-eiffel que escolheu pespegar-se deliberadamente à frente de um grupo de gente com uma altura média de 1,62m [para o qual contribuo com o meu 1,58m]

.: a totó e o seu suíno que resolveram obstruir a visibilidade de toda a gente à frente de quem se resolveram meter... ele porque se achava macho dominador com direito a ver mais que os outros, com as suas mãos no "ponto de requebra" da menina; ela porque tinha um "cabeção" ralo mas comprido e crespo que atirava para cima de quem estivesse num raio de 50 metros nas suas tentativas de sedução do suíno. foram no engodo da festa "bem" mas não estavam habituados, coitados, a tanta gente e confusão e não percebiam porque é que as cabeças à frente deles não se baixavam. mas também não percebiam porque é que tiveram 4 pares de cotovelos espetados nas costas a noite toda... nem porque é que tanto o casaco foleiro do cavalheiro como a farta cabeleira da dama saíram meio chamuscados de cigarros... muahahahah... toda a saga aqui

entretanto divertiu-se quem foi lá pela música... portanto, eu diverti-me à brava... e sem adormecer... ;)

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2006

folias

sou uma foliona. gosto de sair. e como sempre tive pouca liberdade, nunca me dei ao luxo de armar em esquisita, em intelectual nem em hype: danço o que estiver a tocar, canto, salto e passo a noite a água [sem aditivos, hem?].

mas às vezes olho para a minha triste figura: então não é que aos 26 anos, se tenho encontros marcados para a noite, adormeço antes de ir para lá e tenho de ser arrancada a ferros do sofá onde aterrei mal cheguei do trabalho? é muito triste...

hoje tenho um hot date com cindy kat. pois que posso não ser ninguém, mas tenho convites para o concerto de apresentação do disco, oferecidos por um dos próprios. sem intermediários... um luxo...

ora que me ponho a pensar... se calhar não vou a casa... vou ficar por Lisboa a fazer tempo... beber alguns cafés... porque parece-me que ando a perder a pedalada. eheheh

terça-feira, 21 de fevereiro de 2006

ora vamos la ver

o novo carregador arrasta os pés.
eram duzentos miúdos mais as respectivas professoras.
os actores acordaram de rabo para a lua e eu é que acordo todos os dias às 7 da manhã.
os actores recebem para ser actores e queixam-se da vida.
os actores não percebem o conceito de "monumento nacional" e largam beatas no chão da sala.
o "show case" de A Naifa transformou-se num "estou a fazer isto por ti".
enganei-me a fazer as contas com as cadeiras.
as professoras não percebem a noção de "cheque ao portador".
eu não gosto de contar 300 euros em notas de 5.
uma escola chegou atrasadíssima e ainda queria visita guiada.
o engatatão da bilheteira viu-me passar carregada e disse "ó menina, cuidado com as costas".
só na hora de encaixar as criancinhas me apercebi do erro de contas e tive de ajudar os carregadores a transportar mais 50 cadeiras pelos claustros.
o novo carregador não percebe a noção de "a ver se saímos cedinho" e demorou tanto tempo a arrumar o cenário como a olhar para o vazio com ferros na mão, pelo que demorei o dobro do tempo a fechar tudo e sair dali, pelo que almoço de jeito que é bom, nada.
dei umas 15 voltas ao Príncipe Real à procura de lugar para estacionar e só quando entrei por uma viela em desespero de causa se dignou a aparecer-me um nicho onde enfiar o carro. a custo e a "crostas" (vulgo arrumador), que ainda não me habituei ao ponto de embraiagem.
os "crostas" não percebem a noção de "o tabaco aumentou"
esqueci-me da pasta no carro, e não tenho forças para lá ir buscá-la.
na recepção tinham à minha espera um molho de fotocópias de tal tamanho que tive de pedir ajuda para abrir a porta do escritório.
o recado em cima da mesa era "liga ao não-sei-quantos e continua com as etiquetas"
a cada golo de iogurte ou a cada trinca numa bolacha torrada tocava o telefone com mais professoras empenhadas em proporcionar-me mais manhãs como a acima mencionada.
as professoras não percebem o conceito de "nesse dia está esgotado".
não me lembro ao que souberam as bolachas. nem o iogurte. mas dou um salto na cadeira a cada toque do telefone.
já não me lembro do que é beber uma cerveja ao entardecer ao pé do rio.
já não me lembro do que é estar. simplesmente estar.
não faço teatro há quase cinco meses e as hipóteses de lá voltar estão a diminuir na indirecta proporção do tempo que gasto nesta cadeira.

eu garanto - mas fica aqui escrito, hem? - que se me aparecerem mais uns dias destes pela frente num futuro próximo, largo o carro ao pé do rio, atiro a pasta à água, sento-me com um livro e despeço-me.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2006

recuerdos

passei a tarde de ontem, na indiferença à trasladação da Irmã Lúcia, a vaguear pelas ruas da minha infância.

a recordar o sol no meu tecto e as paredes forradas com bonecos.
a caixinha de música cor de rosa, que ainda guardo
o espanta-espíritos da Branca de Neve que, um pouco mais pálido, ainda existe
os óculos que ajeitava ao nariz, cada par mais "exótico" que o outro
os meus dentes da frente, muito grandes e com uma falha entre eles
os tempos do aparelho
os tempos do ballet
os tempos em que andava de costas direitas
os tempos das apresentações na primeira "escola em palco"
o meu primeiro poema para um público
a inauguração da Malaposta, em que participei, tendo que ser retirada em braços do coche onde estava, porque o microfone não chegava lá
a carrinha da Junta de Freguesia, a espalhar a "Lambada" pela vila
dançar "Onda Choc"
cantar o "Conquistador"
o dia em que fiz uma tele-receita de leitão com laranja, utilizando a minha irmã como o próprio leitão
a minha avó a sorrir
o meu pai quando parecia o Bin Laden
os canudos do cabelo da minha irmã
o meu cabelo pelos cotovelos
o meu corte de cabelo à pagem (que a minha mãe ainda hoje adora)
o meu muito mau gosto para chapéus, na pessoa de um boné com um pompom no topo
o meu sorriso indelével
a minha ausência do mundo quando pegava num livro
o facto me sentar sempre de pernas abertas
a minha incapacidade de falar baixo
a minha mão na anca quando as coisas corriam mal
a minha diversão em apresentar programas de tv caseiros
a minha dedicação em fazer teatros de fantoches
a minha mania de cantar em todo o lado
o dia em que andei a cavalo
os banhos de regador de relva
os banhos no tanque
o meu primeiro cão

tudo misturado, em vaivéns de imagens simples, pedaços de mim, alguns esquecidos, outros tão presentes como se fosse hoje.
vejo-me uma miscelânea, ainda hoje, dessas pequenas coisas. vejo-me a eterna menina à procura de um sorriso em volta. vejo-me ainda à procura de abraços seguros, que não me deixem suspensa no ar.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2006

hold still

recuperou o fôlego da noite e despiu os lençóis do corpo nu. da janela de madeira espreitavam ramos de plátano e prédios antigos. neles prendeu os olhos enquanto o primeiro cigarro lhe aquecia o peito. a chávena de café fumegou-lhe o silêncio das paredes lisas. as imagens suspensas dos seus olhos eram estilhaços de vida. tatuados em papel e em memórias vagas como o lume do sol no céu brilhante da manhã, que sombreava a cama revolvida através dos estores de ripas. pousou a caneca dengosamente, sentindo a cerâmica macia escorregar-lhe nos dedos húmidos do vapor. enterrou as mãos no cabelo e espreguiçou-se. ouviu uma voz.
- pára. assim.

clic.


por causa disto. cliquem em "hold still" e fiquem parados um bocadinho. gostem ou não do cantor, um clip admirável com fotografias de Augusto Brázio.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2006

manias...

o desafio do Rantas foi aceite. ficam aqui as minhas 5 manias, avisando desde já que a lista seria extremamente exaustiva e que excluí o teatro por motivos óbvios: não é mania, é dependência :)

.: querer estar de bem com toda a gente, contra tudo e contra todos, apesar de ser bruta como as casas
.: prender e desprender o cabelo constantemente
.: cantar - infelizmente para os outros, a minha vida é um musical
.: dormir de punhos cerrados ou com as mãos escondidas debaixo do pescoço, de lado, sempre com uma perna dobrada, o que apesar de até me fazer uma figura toda jeitosa e ondulada dá umas dores do camandro nas costas ao acordar
.: e... esta é de facto estranha... desde miúda que quase adormeço quando limpo os ouvidos com cotonetes... don't ask

e posto isto, passo o testemunho a:

o duende feliz
colherzinha de chá
espanta-espíritos
estranho
pinky
e macaso que não está cá, mas pronto, pode ser que venha com tempo e paciência de reencontrar este post nos arquivos ;)

já passei do limite? eram só 5? pois olhem, quem não está nesta lista mas quiser trazer ao mundo os seus podres está por mim convidado a fazê-lo, desde que me avise que o fez, para eu ir lá cuscar eheheheh

convido também quem me conhece a falar-me-vos das minhas manias... vai ser divertido e se calhar vai haver tareia... hmmm...

terça-feira, 14 de fevereiro de 2006

mas mas...

qual é a gravidade tão grave do dia dos namorados?
não vejo ninguém tão revoltado com o dia da mãe! e há os órfãos, tadinhos!

formiga atomica


cortesia de espanta-espíritos

é preto, piquenito, arredondado, tem bochechinhas [diz que sim], orelhas grandes [como em retrovisores], olhos amendoados, e cara [pois está claro que tem cara] de sorriso maroto e atrevido. lá dentro é só negrume misterioso e laranja bem disposto à minha volta, em bolinhas [sim, bolinhas] estilizadas com números de lettering catita. ah, dizem ainda [e eu concordo] que tem muita pinta, ali entre o desportivo e o cosmopolita, o chique e o descontraído, o elegante e o intelectual... trendy, portanto. diz que é charmoso, diz que sim, e diz que me assenta que nem uma luva... ora está bem...
rosna quando se mete a primeira mas depois é suave e desliza, ainda cheira a parafina queimada, não tem cinzeiro, o porta-bagagens é basicamente um envelope [isso não estranhei, que o Jippy era a mesma coisa... uma questão de tetris!], tem um acelerador ansioso por prego a fundo e é baixinho [eu, ex-dominatrix do todo-o-terreno e agora tenho de ter medo dos passeios! bah]...

foi a sensação estranha de que, agora sim, não voltaria a conduzir o Jippy. porque eu tenho a mania de acreditar numa grande reviravolta até levar em cima com as provas todas provadas e testadas em laboratório do ponto sem retorno. só me apercebi disso, realmente, no momento em que dava o meu autógrafo ao senhor do stand, em pilhas de papéis e seus duplicados que me endividarão para o resto da minha vida.

e foi isso que lhe expliquei, ao carrito: que sou um bocado doida da cabeça, que me apego às coisas e que ia demorar a habituar-me a esta nova relação, que tinha de me dar um tempinho para me ajustar, mas que já lhe achava muita piada e que queria mesmo dar-me bem com ele por muitos e longos anos, como foi com o Jippy. de preferência sem cortes abruptos nem prazo de validade. fui avisando o popó para não se espantar se desatasse a largar o mais profundo português suburbano que tenho dentro de mim no trânsito [que eu até sou um doce de pessoa], que muito provavelmente iria rir à maluca, chorar feita maria madalena e cantar em plenos pulmões com ele sem qualquer pudor... só para ele não levar de chofre com uma das minhas reacções um destes dias.

pois que já lhe estreei os ouvidos, entre o stand e as dobragens, apesar de os nervos ao princípio me tirarem a voz. ao fim de um bocado, dei comigo em coro com Joy Division e "love will tear us apart", logo a seguir dei-lhe com o "come into my heart" do David Fonseca. no regresso das dobragens, foi o "here comes your man" dos Pixies, que adaptei para "here comes you car". testei o leitor de cds com a prenda de aniversário de um amigo, Jack Johnson e "better together"... as nossas primeiras músicas, aqui registadas para a posteridade...

fui buscá-lo ontem, tinha apenas 6 Km... hoje já passa dos 100 porque deu-me para ir, depois das dobragens, lá para as 11 da noite, mostrá-lo aos papás...
o meu pai ria-se que nem um perdido e dizia lá do alto do seu Jipão "é tão pequenino, que engraçado". a minha mãe, que não liga a carros, dizia que é lindo e a minha irmã basicamente enfiou-se lá dentro... está estreado também numa das suas funções mais importantes que é encher de gente em boleias de manhã... ai que saudades que tinha disso...

por enquanto, e apesar da total paranóia em conduzir desde o acidente, só servirá para situações pontuais em que não possa mesmo usar transportes públicos. mas já me está a dar o nervoso miudinho de me fazer à estrada com os bancos rebatidos cheios de mochilas e pacotes de bolachas e garrafas de água em direcção a algum destino assinalado no mapa ou sem qualquer destino definido... afinal, a liberdade do asfalto cola-se à pele...

There is no combination of words I could put on the back of a postcard
And no song that I could sing but I can try for your heart
And our dreams and they are made out of real things
Like a shoebox of photographs with sepia-toned loving
Love is the answer at least for most of the questions in my heart
Like why are we here? And where do we go? And how come it’s so hard?
It’s not always easy and sometimes life can be deceiving
I’ll tell you one thing, it’s always better when we’re together
It’s always better when we’re together
We’ll look at the stars when we’re together
It’s always better when we’re together
It’s always better when we’re together

And all of these moments just might find their way into my dreams tonight
But I know that they’ll be gone when the morning light sings
Or brings new things for tomorrow night you see
That they’ll be gone too, too many things I have to do
But if all of these dreams might find their way into my day to day scene
I’d be under the impression I was somewhere in between
With only two, just me and you, not so many things we got to do
Or places we got to be we’ll sit beneath the mango tree now

It’s always better when we’re together
We’re somewhere in between together
Well it’s always better when we’re together
It’s always better when we’re together

I believe in memories they look so pretty when I sleep
And when I wake up you look so pretty sleeping next to me
But there is not enough time
And there is no song I could sing
And there is no combination of words I could say
But I will still tell you one thing
We’re better together

better together | Jack Johnson | in between dreams

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2006

rugas da parede



ouve-se no silêncio um pequeno percalço. um suspiro. não tem dono, apenas ao ar onde regressa pertence. o suspiro das paredes. são antigas e foram ali deixadas quietas, em abandono descrente. estranho santuário do pó dos dias, sem sombra que lhes alimentasse a alma para além da sombra que lhes contava da mudança das horas. ali ficaram, guardando as fotos velhas e as células mortas e os bichos do papel. velhas e desencontradas de sentido, a tristeza fizera-as perder a luz e a firmeza, despedaçando-se em pequenos pós brancos e beges e azuis no chão sem pés.
uma lágrima caiu pé-ante-pé, sem aviso, em grito sufocado. não compreenderam, as paredes, o que lhes quereria a lágrima. timidamente taparam as faces, deixando no entanto uma frincha entre os dedos para espreitar a lágrima, que lhes escorria e se enrolava com o pó em pigmento egípcio, cada vez mais espessa, misturada na humidade e nos rolos de cotão. deslizava silenciosa, furtiva, absorvendo em si o negrume dos anos, acariciando-lhes as rugas. arredondava-se a mancha que engrandecia. e as paredes coraram, pincelando naquela estranha sombra húmida um laivo de rubor em que de um prisma se encontraria todas as cores e cor nenhuma.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2006

funny little frog

vá lá, é entrar no fim de semana a saltar.
apesar dos lenços de papel, do cérebro a querer sair pelos olhos, da garganta arranhada e de falar à bom fanhoso ali dos becos atrás do Mercado da Ribeira.

um sapinho engraçado dos belle & sebastian. quentinho a sair do forno, cheio de mimo do bom, para quem, como eu precisa de mantas e descanso este fim de semana.

com um beijinho especial e euphons para a colherzinha que está, como eu, de molho.

estrada


[seguindo, a voar por teclas e papéis, deixando o leitor cantar-me o que lhe apetecer, um som antigo...porque viagens, essas, haverão sempre. no asfalto e na vida. así son las cosas...]


Estrada fora estrada dentro, de Bayonne a Milão,
coração ao relento, mundos e fundos na mão.
Corpo negro macadame, de Milão a Budapeste,
voar, "chercher la femme", norte, sul, oeste, leste.
Polaroid, pôr do sol, vénus na concha da Shell,
Sexo, sonho e rock'n'roll, noite branca no motel.

Anjo perdido na bruma, leva-me ao sétimo céu,
abre o teu manto de espuma, deixa cair o teu véu,
deixa cair o teu véu, deixa cair o teu véu,
deixa cair o teu véu...

Chuva, bréu e gasolina, bar aberto, companhia,
cheiro a erva na latrina, chá, café e fantasia.
Ultrapasso um camião, passo fronteira e portagem.
O écran do alcatrão devorou a tua imagem.
Estou tão longe, estou tão perto, sei que nunca
hei-de chegar
onde vou não sei ao certo, já não posso mais parar.

Refrão

Contigo leio o futuro nas gotas do pára brisas,
coração inseguro, mãos vazias, indecisas.
Néon pálido, luar, Via Láctea, solidão,
tenho ganas de beijar o espelho da escuridão.
A grande roda da sorte é uma curva sem fim,
do outro lado da morte há uma estrada só p'ra mim.

estrada | pedro abrunhosa . regina guimarães | viagens | 1994

salvados

- a senhora desculpe, mas já agora queria fazer uma pergunta... por uma questão pessoal, gostava de saber o que é que vão fazer com o carro... é que se for para abate eu queria ficar com a matrícula...
- olhe, tendo em conta a empresa que comprou os salvados, suponho que seja para o voltar a pôr em condições de ser comercializado.
- ai não me diga...
- sim, é o mais provável.
- boa, era só o que me faltava... daqui a uns tempos dar de caras com um fantasma na rua...
- desculpe?
- nada, nada. olhe, muito obrigada.

[entretanto, aqui nos arquivos do computador dou com o "é preciso ter calma" do Abrunhosa... ah pois...]

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2006

transparente sem possessivo


[ms]

deitada, enleada nos pensamentos que não tinham relevância para o quadro pintado em sangues vivos, ocres e ceras. apenas a simples nudez. uma entrega aos sentidos aos lençóis aos silêncios e à luz das velas. ao embalar emocional de uma qualquer música na aparelhagem. o total desprendimento da noção de despida. da noção de pudor. porque ali jazia, deitada, viajando para longe, sem se lembrar ou esquecendo a pele ao ar, as suas curvas e recantos despojados de qualquer pedaço de opacidade. transparente, na pele que estendia pelo lençol. nos cabelos espalhados sem ordem ou vaidade. na linha do pescoço delicada. no requebrar suave dos músculos entre cada respiração. nas cores quentes que entornavam o corpo diante dos olhos. e no agudo ondular do suor num pequeno friso da parede.

era só um carro



já está. não resta comigo qualquer vestígio físico de ti. entreguei hoje o teu coraçãozinho. e - estupidamente, eu sei - choro.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2006

à porta da loja

todos os dias lá está. veste roupa escura e suja, indescrita. tem um corpo estreito e seco, alto, do qual parece estar sempre a cair. o olhar parece não passar além dos olhos. cansaço. puro cansaço e tristeza. e um brilho febril de um qualquer ente deformado e reptilíneo que lhe rasga a vontade de ser, comendo-lhe a vida pelas veias. às vezes traz uma fita cor de rosa alegre que lhe prende desajeitadamente os cabelos limpos mas despenteados. o rosto moreno e comprido já foi bonito, salpicado de sardas e de lábios bem delineados que entretanto perderam a forma do sorriso. jovem, terá se tanto a minha idade. a voz sai-lhe grave e arrastada.
senta-se na caixa da electricidade e dali pergunta a quem entra na loja se à saída não pode dar uma moedinha. passam por ela todos os dias muitas caras de sempre. no entanto parece nunca reconhecer nenhuma. fala a cada um com a mesma ladainha, o mesmo olhar vazio e desencontrado do simples reconhecimento. lê revistas e jornais que alguém lhe dá e partilha com o arrumador os cigarros que lhe vão arranjando em jeito de moedas que não aparecem. deseja saúde e um bom ano a quem lhe estende alguma ajuda, em Janeiro ou em Agosto.

mais uma. só mais uma. torna-se desagradável entrar na loja porque se sabe que invariavelmente se vai ouvir o "menina, se tiver uma moedinha que me possa dispensar à saída agradeço. obrigada, saúde e bom ano."

é fácil pensar em como seria. ela. onde beberia o café de manhã, onde pousaria os olhos ao atravessar a estrada, que cheiros a fariam sorrir, que tipo de mala gostaria de usar, se preferiria botas ou ténis. se gostaria de ler. se preferiria comédias ou filmes de terror. se gostaria de andar por Lisboa antiga a pé ou se preferiria os grandes espaços brancos e cimentados do Parque das Nações. se a chuva na cara a faria lamber os lábios ou baixar o rosto. se um homem alto de olhos verdes a faria perder de amores ou se preferiria o tímido franzino da mesa do fundo do restaurante. como seria ao conversar com os amigos sobre a sua banda preferida. que quadros ou imagens teria nas paredes do quarto. qual a disciplina preferida na escola. se teria complexos com a celulite, com as sardas ou com os dedos dos pés. se preferiria gatos ou cães. o campo ou a cidade. rosas ou margaridas. laranjas ou morangos.
se ao menos sentisse.

há umas noites atrás, estou à janela ao telefone. e vejo-a como todos os dias. mas nessa noite ela estava em pé, ao lado da caixa da electricidade, e todo o corpo estremecia desajeitadamente. ignorava quem passava, quem saía ou entrava na loja. apenas estremecia. virado para ela, à altura da sua coxa, um miúdo ria deliciado e desafiante, de espada do zorro em riste. e ela desengonçava-se fingindo uma morte arquejante sob o gume afiado do garboso cavaleiro.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2006

esa mujer loca

dos 0 aos 100 numa palavra. na voz, decibeis acima do normal. capacidade para falar muito, discorrer ao pormenor sobre assuntos e abordar de uma forma quase autopsiante cada argumento, unindo-os numa elaborada e completa trama, difícil de acompanhar de tão longa, sempre apresentada num discurso fluido e alterado.
com isto poderia ter ido para direito. ou para a política [then again... no. ergh!]. por parte disto já me perguntaram porque não segui psicologia.
este é, basicamente, um dos meus milhares de defeitos.

por amor sou capaz de me exaltar desta maneira completamente absurda.
sou aguerrida nas coisas de que gosto, nas coisas em que acho que tenho razão, pelo bem dos objectivos que prossigo ou das pessoas que me são especiais.

por esta minha estranha mania de me lançar ao ar "em defesa da causa" [expressão de colher de chá] sou conhecida no sítio a que mais me dediquei e ao qual trouxe [tenho plena consciência] grandes frutos como "esa loca".
a minha forma demasiado apaixonada de defender as pessoas que amo [em todo o seu sentido] dos seus próprios erros [erros no meu ponto de vista, claro] pode inclusive levar as pessoas, depois de uma discussão acesa mas para mim sem danos colaterais, a perguntar-me se ainda gosto delas.
... gosto, se não gostasse simplesmente dizia "pois" e passava à frente...

no entanto, encontro-me mais serena do que alguma vez fui. o copo demora mais a encher. estou menos explosiva. vejo sempre os dois lado da moeda. peso-os, disseco-os [lá vem a autópsia]. normalmente acabo por deixar a minha observação "claro que compreendo. mas posso não concordar?". se não levo a minha avante fico aborrecida, mas lá está... passa-me pouco depois e não me chateio mais com isso. o que se diz numa altura não fica marcado daquela forma trágico-indelével que não me permita ultrapassar com um sorriso. estou sempre à espera das boas notícias, mesmo de gente que à partida não me pareça muito boa onda. não me apercebo imediatamente de que os outros podem ser diferentes e ruminem eternamente no mesmo. a minha boa disposição permite-me estar de bem com todos, deixar que me desiludam muitas vezes. e só perder a fé quando a desilusão atinge aquele único ponto, aquele contorno específico que não sei definir, apenas sentir.

por isso apenas num sítio sigo "la loca". e aí sou "la loca" pero no saben la pena que me da, chicos...

segunda-feira, 30 de janeiro de 2006

blue



nu. puro. intenso. quente. profundo. sonho. descanso. sensual. sorriso.

pianissimo

hoje há casting na agência de actores/modelos/manequins/qualquer coisas aqui do lado.
mais um dia em que não se consegue ir à casa de banho porque estão entupidas com meninas a retocar a maquilhagem ou a despejar as 3 garrafas de litro e meio de água obrigatórias para a hidratação da pele e para a dieta. vejo os rosto jovens, muitos muito novinhos mesmo. meninas, na sua maioria bonitas, de peles de porcelana, pernas compridas, cabelos num apanhado casual, com pontas estrategicamente soltas, dedos compridos e unhas impecáveis, roupa da moda em que, apesar de encasacadas, ficam lindas e nunca parecem chouriças com andar de pinguim...
meninos altos e atléticos, de folhas na mão, sorrisos de aparelho acabado de tirar.
meninos feitos à imagem e semelhança do mercado que pré-formata o nosso consumo. meninos mesmo dentro dos padrões que vendem ou se compram ou sei lá o quê, independentemente do que vai dentro da cabeça.
olhares de esperança sabe-se lá em que futuro...

tenho um casting [noutro sítio] e devia sair para lá daqui a meia hora. o meu cabelo está num só nó, apesar do brilho. tenho roupa quente de todos os dias que me engorda e botas de montanha. não tenho um pingo de base para disfarçar as olheiras. as unhas já se foram há semanas, entre falhas, ferramentas e nervoso. não há "charme natural" [ahahahah] que me valha e reparo que a motivação já não é a mesma de há uns tempos. falta-me qualquer coisa... talvez a inconsciência e o sentido de aventura que me permitiam jogar com a auto-estima de outra forma.

... ai...

domingo, 29 de janeiro de 2006

decorria o mui nobre e jovem ano de 2006

uma pacata família, na periferia saloia da capital, tomava a sua tradicional refeição almoçadeira de Domingo, dia santo de reunião de todos os seus elementos, dispersos pelos afazeres da semana.
de narizinhos enterrados na frugal refeição de carninha grelhada, os vários elementos faziam as suas considerações acerca da vida e do seu sentido. num momento de algum silêncio compenetrado no alimento santo, a mai'nova levanta os olhos e larga num pequeno sussuro de espanto um "olha, está a nevar". os restantes elementos direccionam os gloos oculares na direcção que provocara tal altercação. no mesmo momento a mai'velha solta o seu suave manifesto de alegria e incredulidade:
- FODA-SE tá a nevar!
levantam-se todos de um salto e o patriarca ainda consegue ter a presença de espírito, entre o atordoado da situação, de assertivar uma reprimenda demasiado frouxa à filha mais velha:
- ó Polegar, francamente, olham'essa língua...
- desculpem, desculpem mas tá a nevar!
mas o espanto tomou todos os intervenientes e todos saíram para o jardim para admirar o inédito acontecimento natural. a matriarca ria e chorava ao mesmo tempo, a mai'nova, no seu habitual recato, observava tudo sorrindo, o patriarca saiu a correr para gravar tudo na sua câmara de filmar, a mai'velha, já de gorro às riscas, saltava que nem uma cabrinha montesa, guinchava e ria à gargalhada, de braços e boca abertos, língua de fora, a apreciar o primeiro nevão da sua vida. quando lhe sugeriram que voltasse para dentro por um instante porque estava frio respondeu com um delicado:
- tás bêbado? tá a nevar!
custou a estes nossos amigáveis protagonistas voltar para dentro para terminar o repasto. e o que fizeram de seguida? claro que voltaram para a rua, vestidos a preceito, todos de língua de fora, para no caminho do café, fazerem a sua hidratação das papilas gustativas.
os flocos em turbilhão, tão vulgares para tanto habitante do interior norte deste país à beira-mar plantado, fascinaram os nossos intrépidos amigos que foram incapazes de regressar ao aconchego do lar e abandonar o primeiro nevão dos últimos 52 anos.

o primeiro instinto que tive foi de chamar a minha avó para vir ver aquele cenário que tanto pressagiara nos dias frios daqueles anos lá em casa. o segundo foi um suspiro descansado em que me certifiquei que não era preciso, ela estava ali, de sorriso aberto, a sentir também a espuma fresca gelar-lhe as bochechas macias.

de facto, os milagres acontecem...

sexta-feira, 27 de janeiro de 2006

polaroide

o patrão entrou numa escura tarde de Novembro com um caixote dos cds da banda sonora do espectáculo que levámos ao Brasil, onde se lançou a dita B.S.O.... o meu queixo caiu ao chão quando leio na parte dos agradecimentos o meu nome... pois que não estava à espera, confesso... peguei no cd e desde então raramente saía do Mac quando queria pica para trabalhar nos projectos.
pois que pouco tempo depois volta ele ao fim de outra tarde escura e olheirenta com o seu I-pod, e de olhos esbugalhados, sorriso rasgado e carapinha de antenas no ar me revela um ultra-segredo... "tenho aqui um álbum que ainda não foi lançado. não podes contar a ninguém... mas ouve lá..."

ora foi abanar o capacete até não poder mais. foi interromper o trabalho só para pôr mais alto e parar para ouvir e degustar. agora pergunto-lhe sempre pelo I-pod onde ainda descansa o tal segredo, que respeito e só ouço acompanhada por um adulto responsável... eeeer... bem, mais ou menos responsável...
no entanto, há uns tempos pareceu-me reconhecer a música na rádio e delirei quando consegui seguir a letra...

hoje, mais uma vez vem pela rádio ter comigo o som inconfundível dos senhores (que para mim eram o P. e o J. e faziam a música do espectáculo, sem qualquer associação de nomes para além disso, porque eu para nomes sou terrível) e estendo um sorriso:
ele é show cases exclusivos de A Naifa tão privados quanto o momento do cigarro entre o fim da montagem e o ir buscar as escolas à entrada...
ele é tratar as vedetas por tu...
ele é conhecer as músicas antes de toda a gente e depois descobrir que até é hype e tudo...
ele é ter o meu nome num cd desses senhores que até são hypes e tudo...

...isto de me dar com gente importante tem um quê de cool...!

quarta-feira, 25 de janeiro de 2006

o lado errado da avenida

caminhava ininterruptamente há muito tempo, não sabia quanto. caminhava entre palavras por dizer, entaladas no beco sem saída que o grito rasga. caminhava entre grãos de areia, minúsculos, que lhe massajavam os pés para depois lhos ferir em chagas sangrentas. sentou-se sem o suspiro do alívio. os passos seguir-se-iam, de novo.
não lhe interessou olhar em volta. não lhe interessou os cheiros nem os rostos.
pediu uma água e esperou. quando levou os dedos ao copo um reflexo no tampo de vidro riscado prendeu-lhe os olhos. um qualquer desassossego no cabelo comprido. um qualquer esgar perdido na pele sem sinais. prendeu-lhe os olhos.
permaneceu em sombria atenção ao reflexo no vidro riscado. com medo, talvez, de levantar os olhos para se deparar com uma figura diferente daquela ali gravada a duas dimensões, recortada pela luz demasiado forte do exterior.
os olhos pareciam límpidos à primeira impressão, mas algo se escondia por detrás da serenidade, demasiado transparente, demasiado simples. um travo morno subiu-lhe à lingua, abafou-lhe a frescura da água enquanto fixava os pormenores do cabelo preso numa trança comprida e escura, emoldurando o pescoço, o nariz espevitado, as mãos pousadas ao lado de um copo com um líquido amarelado. a roupa sem qualquer desígnio de tribo urbana ou moda. não marcava posição ou mania. vestida para agasalhar. vestida para despir.

estás do lado errado da avenida. sei-o nesses dedos inertes que de vez em quando fechas num punho pequeno, nesse olhar suavizado para não dizeres nada. há quanto tempo estás aí? vês-me? sim, vês, mas não me viste porque não olhaste. como eu não olho para ti mas para o teu reflexo. a que cheiras quando te deitas? ao creme que passas na testa em gestos desprendidos ou ao suor de um dia comprido? dormes nua? ouves música ou preferes que o silêncio não te tolde os pensamentos para que entres nos sonhos sem enganos? quanto tempo dura o teu sono? é sereno ou tens insónias? porque nessa pele sem mácula encontro sombras. não se vêem se te olhar de frente, eu sei. dissimulas bem, mesmo quando achas que ninguém te observa. sorris muito? e dessas, quantas vezes sorris com vontade? gritas quando fazes sexo ou choras no fim? e depois? tremes de frio e enrolas-te ou estendes-te de corpo abandonado a fumar um cigarro? fumas? a que sabe a tua boca quando acordas? sabes dançar? esse pescoço diz que sim. as tuas mãos dizem que não. porque é que não és como as outras? porque é que não tentas mostrar o que sabes o que conheces o que ouves o que lês o que fazes e repetes? estás aí parada, só parada, e só tentas mostrar que estás serena. quando todos à volta se queixam da vida em altos suspiros de desgosto tu calas. reage. se te morder a orelha para te guardar o sabor, deixas? tem um orgasmo para mim. chora-o na minha cara. sentes-te bem?

agarrou o peito e os olhos alteraram-se da serenidade para um pequeno nanossegundo de desamparo. olhou em volta sem ver e voltou à redoma de abstracção. ele levantou o corpo da cadeira sem o suspiro do sacrifício. largou uma moeda no rosto riscado. e levantou os olhos do vidro.

- olha, vem comigo, vens?
- ... desculpa?
- anda, vamos correr. se te cansares enganas a dor.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2006

porque é que as produtoras andam aos pares?

para carregar os calhamaços do IA em quadruplicado.

ausência

falhei, outra vez.
sem explicação que vá além de que as horas não esticam e que a cabeça não tem direito a parar um pouco em si. agora não. mas nem por um momento consegui associar um dia a uma data a um acontecimento especial na vida de uma pessoa especial. não há falta de sono que o justifique, não há afazeres que o justifiquem.

faço agora uma pausa, sem tabaco. porque de repente aqui está o branco e eu e o Romeu na parede. uma ficou doente, os outros tinham compromissos incontornáveis. e eu sobro. mais uma vez. a papelada tem de estar em quintuplicado, sem falhas, encadernada até às 17:30 nas mãos de um qualquer funcionário que quer ir de fim de semana mais cedo.
e ficou a lista do que falta terminar.
eu encarrego-me disso. por uma questão de ética, da minha ética, mais do que de dever profissional a quem me paga mas depois me abandona na hora H. não vai ser por minha causa que falha. mais esse fardo não.

mas fiz uma pausa, e um segundo de lembrança chega para escrever em parangonas nos olhos o que de realmente importante falhou. de repente, num flash. que devia ter chegado ontem.

apesar da dificuldade em conseguir conter o choro neste momento, por cansaço, desgaste, incredulidade, revolta, desorientação, sensação de injustiça, impotência e obrigação de conseguir, tive de tirar um bocadinho para, aqui, poder dizer: desculpa.
falhei-te. devo-te, agora e sempre, ao menos um beijinho e o calor de uma presença inventada em palavras ao longe para um aconchego extra na hora das borboletas. e sei o que dói essa ausência e por isso sei o que te dói. aí, ao pé do bolsinho, que sentes vazio de qualquer coisa.

para uma bonequinha.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2006

caros senhores do IA:

muito obrigada por me tramarem mais uma noite. uma noite que tinha excepcionalmente livre para dedicar a mim e ao meu futuro e às minhas cores.
menos uma. mas cumprirei os prazos... os vossos e os meus. apesar de os vossos, oh, meus caros, por favor... deixam tudo a desejar... eu percebo-vos. os amigos já estavam informados de antemão e portanto já têm tudo feito. não se preocupam com timings. o resto se organizará conforme a Vossa palavra, alterada num decreto-lei feito à pressa na véspera da abertura do concurso.
hoje ficarei, então, muitas horas depois do jantar e da caminha onde estarão as vossas queridas e frígidas esposas de máscara de pepino na cara, no escritório, que não tem café, a dedicar-me aos textos do projecto que querem que o pessoal apresente conforme os novos objectivos [diferentes a cada concurso], à coordenação do cérebro disléxico e disperso do meu patrão com as teclas. enquanto os outros dois se dedicam aos números.
espero conseguir ser lesta com esta coordenação como sou a verborrear num teclado, porque amanhã, senhores, tenho de me levantar cedo. o meu trabalho não pára. vossas excelências ficarão, concerteza, até tarde na caminha. claro, faz bem à saúde. sabem, depois de passar o dia de amanhã [como fiz hoje, por sinal] a trabalhar [como em a acartar com ferros, aparafusar estruturas de madeira, desenrolar e enrolar carpetes de dezenas de metros... coisa ligeira], à noite vou para um estúdio gravar as vozes dos bonequinhos que os vossos filhotes tanto gostam de ver enquanto as vossas empregadas vos limpam a casa, passam a roupa da vernissage a ferro e vos preparam o martini de fim de dia...
e, caros senhores, tenho de me conseguir manter em pé na sexta-feira, para ir de novo, logo pela fresca, para o tal trabalho ligeiro, seguido de retorno ao escritório para a correria de último dia de entrega dos projectos, onde vai faltar sempre qualquer coisa.
por ora, já comprei uma caixa de donuts, um pacote de bolachas, e uma caixa de aspirinas.
a colega assaltou o cofre da empresa para comprar oito chapas para café. a pedido especial, a máquina do bar ficará ligada.
imprimimos um aviso para a porta, onde se lê: "proibida a entrada a quem não tiver o maço de tabaco cheio".

agradeço-vos, portanto, por preencherem a minha vida de uma forma tão interessante, saudável e pouco calórica.

terça-feira, 17 de janeiro de 2006

numero 87

ao fundo dos degraus de madeira já gasta dos passos uma porta de madeira e vidro. mais dois degraus, de pedra, um pouco mais largos, para o passeio. no segundo, de pés direitos assentes na calçada, sentava-se aquele homem. todos os dias, à mesma hora. de roupa tão neutra que não se conseguia descrever. não marcava por ser de um estilo, ser velha, nova, escura, colorida, quente ou fresca. o rosto era talvez monocromático. sem nada que o descrevesse ou tornasse único, aos olhares esquivos dos muitos que ali passavam. invisível como os passos que marcavam as pedras dos degraus, uma parte do degrau, talvez, que ocupava. uma parte da fachada do edifício que lhe servia de moldura. estático, como uma gárgula de carne e nervos desfocada da erosão dos dias. ficava direito, as costas largas apoiadas no vidro. um contraste de sombra perfeitamente delineado na luz errante do meio da tarde. poder-se-ia jurar que deixara já queimado no vidro esse seu contorno das costas. as mãos, nem curtas nem compridas, nem bonitas nem feias, nem peludas nem lisas, nem enrugadas ou jovens - assentes nos joelhos com uma precisão simétrica. ficava. estava. fantasma quieto das pedras. parecia aguardar. esperar por alguém. por vezes quebrava essa quietude com um gesto seguro em que os dedos da mão direita se esgueiravam para o tal casaco sem descrição e tiravam do bolso um cigarro. sem maço. e um fósforo. sem caixa. entre o indicador e o médio o cigarro levado aos lábios. entre o polegar e o anelar prendia o fósforo. depois fechava os dedos em torno do pauzinho e raspava-o rapidamente na pedra do degrau. a faísca e a chama, o puxar do primeiro bafo, a primeira nuvem de fumo. os dedos recolhiam ao bolso, largavam o fósforo queimado, retornavam ao joelho. e ali ficava. a deixar a nicotina desfazer-se em cinza entre os lábios, consumindo o único ar que parecia dar-lhe forma aos pulmões. e o único cheiro que o distinguiria, o do fósforo queimado, esvaía-se nos ventos, jacarandás, perfumes, suores, vozes, roçares de casacos.
não parecia reconhecido aos raios de sol quentes ou desagradado ao vento frio ou à chuva. estava. o momento em que se levantava, ninguém nunca se dera ao trabalho de contar. apenas que quando desciam as escadas, ele já lá não estava. onde ia, também não se questionavam. os outros.
dizia um condutor da carris que às vezes, em descendo a calçada ao fim da tarde, se ouvia um homem murmurar, sentado na caixa verde de metal do fundo do elevador - se era o mesmo não se sabe mas era também anónimo demais para se desenhar um maxilar ou apenas um esboço de expressão. parecia gemer e chorar. mas o rosto permanecia assim. igual. nunca lhe perguntou se chorava ou se falava apenas com as vozes da cabeça. nunca lhe perguntou como, apesar do rosto sintético e gemidos estranhos, comprava o passe todos os meses, acto tão corriqueiro. também nunca lhe perguntaram onde comprava tabaco e os fósforos. se a menina que lhos vendia lhe conhecia a cara ou também a fixara por ser a única impossível de fixar.
no dia em que desistisse de esperar, o relevo na pedra teria já abraçado a forma do seu sentar?

segunda-feira, 16 de janeiro de 2006

da pressa

desejando estar noutro qualquer sítio, vendo as árvores e os candeeiros a fugirem dos olhos nervosos.
as mãos fechadas, estáticas, cravadas em tensão nos estofos do carro e as pernas completamente rígidas carregavam num travão invisível, na desesperança de ver chegar uma curva cheia de poças de água e temendo o descontrole de uma coisa tão falível como uma caixa de metal com rodas conduzida por um louco furioso.
as horas escorregavam nos vidros de forma dolorosa e nem a música cantada alto - desavergonhada porque desesperadamente - espantava os medos obscuros e as visões de uma noite escura em que o som da chuva soou demasiado alto e só parou num estrondo ensurdecedor.
o homem ao volante, de cenho franzido e movimentos incertos, tomava agora - tenho a certeza - contornos quase monstruosos, de ser mutante, umas horas atrás pessoa normal, agora quasi-homicida.
às vezes não percebo as pessoas, juro que não percebo. o desprendimento com que se toma responsabilidade sobre a vida dos outros. numa boleia ou numa viagem sozinho, em que se cruzam centenas de vidas à nossa volta.
a possibilidade de se curtir uma viagem de paisagens nocturnas de cortar a respiração, dignas de uma paragem para um cigarro e contemplação, completamente esmagada por um pé num pedal em nome de sabe-se lá que alívio de uma estranha frustração.
hesitava-se entre o não se lhe dizer nada para não o distrair das curvas demasiado apertadas e o falar com ele a ver se por estar na conversa abrandava. corria-se o risco, no entanto, de ele, entusiasmado com a conversa, tirar as mãos do volante para esbracejar as palavras...
demasiado tétrico para ser irónico foram as incontáveis vezes que se falou do meu acidente, em que não tive culpa nenhuma e ia devagarinho [como é que se admite esses malucos que aí andam, pá?!], e de fulano e sicrano terem morrido ou ficado com uma perna enfiada na testa por excesso de velocidade. porque o tom que circulava era o do "coitados, realmente ele há gente que não pensa... mas isso só acontece aos outros e eu posso continuar nesta desculpa esfarrapada de estrada a 150 à hora que nada me acontecerá, porque sou eu, o Rei, o Senhor do Asfalto e conduzo muita bem - olham'esta beleza a curvar e a entrar em contramão no cruzamento [e ele chateado com o cruzamento, porque não devia estar ali e devia ser mais largo], olham'esta qualidade de reacção a acelerar para ultrapassar em cima do traço contínuo [porque a fila lá à frente sempre é lá à frente], olham'estes travões que nem preciso de manter uma distância de segurança de 50 centímetros [e o lembrar-se de lá meter o pé, senhor?]. eu tenho um carro que inexplicavelmente se mantém em cima das quatro rodas mesmo quando faço as maiores barbaridades - que não são barbaridades, porque sou eu que as faço, hem?".
naquele limbo do temer pela vida e do não ter pago a viagem para me por com exigências [como faço num táxi] ou ter confiança suficiente com o senhor para lhe mandar um berro e dizer-lhe que ou ia devagar ou levava um pontapé na boca [note-se que seria em palavras menos simpáticas, mais escatológicas e anatómicas e de vogais bem abertas], mantinha-me em choque catártico, a tentar lembrar-me de respirar, a tentar não reparar de cada vez que o pobre carrinho, tão inteligente, coitadinho, apitava a avisar que se ia em excesso de velocidade [coisa frequente que se tornou ensurdecedora. mas o triste apito acabava por desistir, cheguei a pensar que de afonia], a tentar ignorar a minha cabeça feita chocalho, as minhas costas num monte de ossos sem ordem. e a pensar na desgraça que seria se o senhor em vez do carro dele estivesse a conduzir o meu falecido... e a fazer, bastaria, um terço do que estava a fazer com o dele... é que nem tinha andado 100 metros.
cheguei ao ponto de, no pânico, antever a minha morte já ali naquela curva, sendo o fantástico tecto de abrir - que me mostrava de vez em quando uma lua cheia maravilhosa - o meu voraz assassino, na pessoa de estilhaços cravados no meu pescoço...
...
... de repente, alguém se lembra que se esqueceu de uma mala. ora portanto... uma hora de tortura feita, agora mais uma para ir buscar a mala e outra para voltar ao ponto onde estávamos, mais umas duas e tal até chegar o momento em que sentiria [se realmente conseguíssemos lá chegar] o chão seguro debaixo dos meus pés. acho que nesse momento os meus olhos caíram das órbitas e os meus dedos, já dormentes, perderam o fôlego.

ainda em busca do meu carro novo-semi-novo-usado-sem-estar-muito-ao-menos-com-as-peças-todas-fashavor, dou comigo a pôr de parte a cor, o design e o consumo e a imprimir as páginas do testes de colisão, a analisar as velocidades máximas que atingem, como serão os pneus, se têm tecto de abrir... e a fazer uma lista de pessoas que nunca deixarei que peguem nele, nem para o tirar do estacionamento...

quinta-feira, 12 de janeiro de 2006

maldisse

o dia cinzento com o sol mesmo ali, do lado de lá, mas na mesma cinzento.
o frio ainda maior que fazia nos claustros toda a manhã.
o facto de o trabalho começar cedo demais para tomar o pequeno almoço e acabar tarde demais para almoçar.
o peso das coisas que tinha de carregar.
as unhas partidas, agora que conseguira deixar de as roer, por causa dos ferros, tapetes e parafusos.
os irresponsáveis institucionais com que tinha de lidar que tinham perdido uma chave e já a queriam acusar a ela.
o tempo que demorava a chegar depois de tudo ao escritório.
o facto de ter de ir para o escritório depois de tudo.
o facto de lhe apetecer ficar sentada a olhar para a parede sem produzir a uma semana da entrega dos projectos.
a incapacidade de se sentar a comer como deve ser sem companhia.
a incapacidade de se sentar a comer como deve ser.
a torrada com demasiado sal, sal só nas batatas fritas.
o galão demasiado amargo.
o estado letárgico que a impedia de se levantar e pegar noutro pacote de açúcar.
a gulodice que lhe ia de certeza trazer crises de diabetes aos 30.
o facto de ter de atravessar a estrada e entrar de novo no escritório vazio.
o facto de ter mais trabalho noite dentro.
o facto de não ter carro.
o facto de não ter tempo para tratar do carro.
o facto de não ter tempo para despachar as suas coisas para andar a despachar as dos outros.
a noite mal dormida, de sono demasiado pesado.
a manhã mal acordada, o duche mal tomado, o espelho de olhos desanimados e olheirentos.
o cabelo espigado.
a preguiça de sequer por um creme na cara.
a roupa mal amanhada, nova mas já a borbotar dos carregos, que a fazia sentir-se mais trapo-fêmea que mulher.
o facto de não ter ouvido nenhuma música durante todo o dia.
a rapariga do café que, de bata branca e touca na cabeça, brincara com um cão bebé às pintas e voltara para trás do balcão sem lavar as mãos.
o facto de ter reparado mais nisso que no cão bebé às pintas.
o facto de isso a fazer sentir-se cada vez mais parecida com a mãe.
a mulher que a olhava com um sorriso-pensativo-quase-paternalista na mesa do fundo.
a máquina do café que não tinha Luckies nem Detroits.
o ter de ir gastar dinheiro em tabaco.
as miúdas estragadas que à porta do Extra todos os dias pediam uma moedinha como se nunca a tivessem visto.
o facto de lhe ser inevitável dar-lhes mesmo uns trocos ou um cigarro à saída.
o sorriso demasiado apagado quando viu um menino chinês a perguntar "quanto custa buáxás" ao senhor do Extra.
o taxista que quase a atropelou na passagem de peões.

maldisse o ter acordado com os pés de fora ou com o rabo virado para a lua ou nem carne nem peixe ou lá o que foi que a deixou o dia todo a maldizer tudo.
detesto estes dias cinzentos.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2006

arrepios

numa dessas longas noites de trabalho, quando o cigarro à porta não sabe tão bem porque o vento enregela os dedos, quando apenas algumas luzes se mantêm acesas nas janelas da rua escura, num pequeno estúdio dos arredores de Lisboa, o trabalho tem de ser feito. doa a quem doer...


care bears | ep. 28 | personagem "arrepios" | take 1

nota: não recomendável a pessoas algo sensíveis. não ouvir com o patrão por perto.

terça-feira, 10 de janeiro de 2006

thumbelina's law

uma colega teve um pequeno acidente. culpada por azar, porque o outro é que ia a abrir.
ouço-a a manhã toda, enquanto enrolamos cabos e espalhamos panos e aparafusamos, ao telefone com a mãe, que está na seguradora por ela.
de regresso ao escritório, ela dá-me boleia. chamadas insistentes de um número desconhecido. pára na berma e atende. do outro lado berreiro. touro com ascendente em virgem já se sabe... exalta-se, responde já sem paciência porque a senhora esposa do condutor telefona com acusações, depois de o próprio ter passado a semana a ligar-lhe com ameaças. desliga o telefone na cara da mulher e acende um cigarro. eu acendo outro e sorrio quando o telefone volta a tocar. estendo a mão perante a cara estupefacta da minha colega e atendo, piscando-lhe o olho e com uma longa inspiração. endireito as costas, traço a perna, voz colocada e extremamente calma. vou-me divertir...

- muito boa tarde.
ouço uma respiração como se fosse começar um ataque e ficasse desarmada.
- ... b-b-boa t-t-tarde...? estou a falar com quem?
- com a advogada da Dona M. presumo que seja a esposa do senhor com quem houve a colisão...?
- s..s...sim... - pequena recuperação, retoma o registo de berreiro - mas você é advogada o quê, hem? tou mesmo a ver, e atendia agora, se ainda agora falei com ela! dê-me já o seu nome, se é advogada! olhe que eu também tenho advogado!
- minha senhora, acredite no que quiser. por acaso, além de advogada sou amiga da Dona M. e estava no carro com ela e pude assistir à vossa conversa. não lhe dou o meu nome porque prefiro manter-me apenas como amiga da Dona M. até ao momento em que se verifique a necessidade de levarmos esta situação a tribunal, o que penso que seria um disparate, uma vez que me parece que apenas há um mal-entendido...
- pois, mal-entendido! o mal-entendido é a Dona M. ter carta, sabia? pessoas dessas a conduzir como é que se admite! nunca vi! escorregou-lhe o pé no tapete, tá bem! era só o que faltava!
- minha senhora, as condições em que aconteceu o acidente foram devidamente explanadas na declaração amigável de acidente. neste momento o que há a fazer é dar seguimento ao processo com as seguradoras.
- pois mas a Dona M. não meteu os papéis! ela pensa que nos engana mas não meteu, que eu sei, porque a minha seguradora já me deu os recados de que ela não meteu. e ainda por cima é malcriada comigo ao telefone, desliga-me assim e diz que não tem nada que falar comigo!?!
- como deve imaginar, minha senhora, é complicado para a Dona M. ter recebido toda esta semana chamadas do seu marido para o telemóvel pessoal com ameaças... especialmente depois de já ter tratado de tudo, conforme a informou... qualquer pessoa fica alterada e enervada com tanta insistência em acusá-la erroneamente.
- mas não tratou nada, então não sei que não tratou?! veio com conversas que tratava de tudo mas eu tenho os recados da seguradora em como não tratou, que eu ligo para lá todos os dias e foi o que me disseram! nós somos pessoas de bem, honestas e trabalhadoras minha senhora! - aqui, falava já em metade das rotações e eu já podia manter o telemóvel perto da orelha.
- somos todos, minha senhora. mas porque é que parte do princípio que a Dona M. não é? posso garantir-lhe que ela tratou pessoalmente de tudo, tal e qual lhe disse. eu acompanhei tudo. ela deu logo andamento ao processo. depois de receber o recado do seu marido, visto que estava a trabalhar, pediu à mãe dela para lá ir esta manhã e está tudo conforme os trâmites necessários.
- então porque é que...?
- minha senhora, o que se passa é muito simples. neste momento são as duas seguradoras que têm de tratar da situação. o que suspeito que esteja a acontecer, e não seria novidade, é que estão com algum problema burocrático ou de passagem de informação, e como sabe tão bem como eu, neste país, é mais fácil culpar o cliente que assumir a responsabilidade da empresa...
- p-p-pois... se calhar. hoje em dia é tudo assim...
- o que eu lhe sugiro é que passe a pressionar a sua seguradora, e, se quiser, a dela.
- pois... se calhar é melhor eu começar a chatear a seguradora em vez da Dona M...
- e não se esqueça que isto envolve muita papelada, demora sempre algum tempo a resolver.
- pois... olhe, então desculpe lá o incómodo, sim? desculpe lá. muito boa tarde.
- muito boa tarde para si também, minha senhora. cumprimentos ao marido.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2006

a girl has got to do what a girl has got to do


[ms]

na sequência do abrupto falecimento do meu jippy, depois das mentiras mal mastigadas do outro senhor - que nem a companhia de seguros dele convenceu -, depois da vitória do Bem sobre o Mal, depois de ter recebido oficialmente e peremptoriamente a confirmação do perito de que foi "perda total", e dado que o processo burocrático todo está a chegar ao fim, vejo-me perante a necessidade de comprar um novo carro.
não novo-novo, claro, porque o montante não dá para tanto, mas um usado em bom estado.
pensei muito em guardar este dinheiro e comprar uma vespa, mas infelizmente preciso mesmo de quatro rodas com chapa à volta para os meus carregos em dias de chuva, para não ter de viver em função de empréstimos da boa vontade alheia, que tem limite de paciência e vida própria...

por isso, venho pedir ajuda a todos os polegares que por aqui passam:
um carro recente [tipo 2002 - 2003] que beba pouco, que seja de confiança a conduzir, que não tenha revisões [normais] muito caras, que dê para dar boleia aos amigos [não necessariamente 5 portas] e seja bonitinho.
até 8000€, à venda em Lisboa.
não estou interessada em compra ao próprio porque preciso de garantia. portanto, indiquem o stand.

suggestions anyone...?

sábado, 7 de janeiro de 2006

a noiva



abre os olhos ainda não acordou o mundo. na janela ainda sem cortina passam pequenos raios de luz, tímidos, dando-lhe os solitários bons dias. a cama demasiado grande sem o outro corpo que a escolheu, revolvida da noite sem sono de borboletas na barriga, as paredes ainda largando o cheiro da tinta pintada a dois há poucos dias. larga os lençóis e a preguiça hesitante. ele já terá acordado? a água escorre fervente pelo corpo que teima em manter-se arrepiado e tenso. perde mais tempo no creme com o cheiro do perfume que a pele absorve, sedenta. umas calças de ganga, um casaquinho e rabo de cavalo. acende as luzes da cozinha e engole sem vontade uma torrada.

o telefone toca pela primeira vez. não é ele, hoje recusa-se a falar com ela. a amiga está lá em baixo à espera. desce com a carteira e telemóvel no bolso do casaco e chaves atrapalhadas na mão. a conversa amena distrai-a e as revistas no cabeleireiro também. ele ter-se-á lembrado da flor para a lapela ou irá levar a teima dele avante? o ferro queima-lhe ao de leve uma orelha e o cheiro do spray fixante para as ondas no cabelo dá-lhe alguma náusea. quando levanta a cabeça e se mira ao espelho, ainda com a roupa do dia a dia, não se percepciona.

regressa e o telefone toca de novo, abre a porta e entra a irmã de mala prateada na mão, recheada de pincéis e frascos brilhantes. senta-se à janela e vai dando dicas à amiga para escolher uns cds tentando não se mexer. será que ele gosta deste castanho nos olhos? atende mais meia dúzia de telefonemas, explica caminhos e horários. depois de meia hora de risos calmos e algumas caretas, o espelho volta a sorrir-lhe, ainda atordoado.

vai ao quarto que será escritório mas onde por agora a única coisa que o tem é um cabide com um vestido branco pendurado no puxador da janela. as mãos tremem-lhe ao subir as meias de vidro pelas pernas. não serão demais? aos dedos escapa o caminho do fecho do soutien que conhecem de cor. o verniz já secou, de certeza? o saiote que já ensaiou parece-lhe maior e a saia demasiado apertada. o top não tem aqui uma linha solta? enrola-se na pequena estola de plumas que parece não assentar nos ombros como da última vez, no atelier da costureira. a irmã dele telefona à gargalhada e diz que ele nem dormiu. será verdade? a amiga tem de lhe calçar as sandálias e a irmã ajeita-lhe os caracóis soltos perto do ganchinho.

dobra a roupa e faz a cama. será que ele já chegou? estará à minha espera? novo telefonema. parece que ele já está a roer os cotovelos, à falta de unhas. coitadinho. mas ele estava tão calmo ontem. mete numa malinha o baton e perfuma-se. pergunta três vezes se cheira bem. que horas são?

de cabide na mão sem se saber ao lado do armário, estaca em frente ao espelho. uma última vez. e rodopia. larga uma gargalhada e um sorriso ansioso. já está.