quarta-feira, 26 de julho de 2006

o vestido


[ms]

vou vestir-me de mim. não espero outros ventos. podem não chegar. nos dias em que o tempo não corre, não valem a pena as palavras amarguradas. acredito em fases más, em tristezas, em soluços, em solidões. não acredito em olhares eternamente torturados. desconfio deles. normalmente inspiram demasiado egoísmo. e cansa. cansamo-nos nós de nós próprios. e depois cansamos os outros.

tudo são gestos. desde umas águas-furtadas e lençóis brancos com sotaque ao girassol ali bem no caminho de quem vai do parque de campismo para a praia nos únicos quatro dias de férias deste ano. pequenas provas são-nos dadas todos os dias. pedaços de suspiro que finalmente chegam com o perfume do descanso. um amigo que aparece para uma noitada de conversa. ou um almoço inesperado. mais do que satisfações egoístas, são motivos.

hoje, amanhã. logo. logo se vê. não.

vou deixar de me desperdiçar. hoje são cores claras. azul, muito azul. do céu da minha cidade. uma saia que flutua. Chiado abaixo, Príncipe Real acima, Graça afora, Alfama adentro. mas não sou de modas. a saia flutua também pela noite do subúrbio, casa, ninho, bola de sabão, redoma de cores e sossego. flutuo também no subúrbio. e depois? onde as fotos nas paredes se acumulam. devagar, ao ritmo quente de quem dança com gosto e sem medo de ser feliz. momentos, disparates e recordações, antiguidades e estórias, tudo bem exposto, com honras de museu. espero os dias mais felizes do pó de palco. de mão dada. dar histórias. dar um corpo. dar a voz. dar as lágrimas. aí sim, tragédias de três em pipa, venham as mulheres perturbadas, as loucas e as depressivas!

por enquanto?

ouço rádio, ansiolítico para o bolso vazio que não, não me deixa ter os cds todos nem saber tudo de cor. a minha vida sempre teve banda sonora. como se pode. leio aos golinhos. como que a aproveitar uma simples água fresca na esplanada ali do elevador, num dia de calor. porque as páginas não duram eternamente, mas as palavras sim. e enquanto não pode ser outro livro, junto os tostões e vou lendo aos pedacinhos. viajo assim, levam-me por enquanto os olhos: hoje estou em Bali. um destes dias vai dar para ir ao cinema. ou ao teatro. ver o quê? interessa?

mais do que uma forma de me exibir numa montra fútil de intelectualidades e masturbações umbilicais, são simples formas de me complementar, de me preencher, de me entreter.

flutuo então, na minha saia fresca. de princesa, sim, e depois? preciso de ser leve. do que é simples, como sempre fui. e posso voltar a ser. se há a aprender com os erros, tropeções e desesperos, aprendamos. e o que é bom é para conservar e apurar. venha de lá mais uma gargalhada de menina.

visto por isso a tal saia de princesa. e o sorriso, bem justo, bem rasgado, em decote, descarado, sincero.
é o meu melhor vestido de festa.

sexta-feira, 21 de julho de 2006

do patrao #5

[cada um no seu computador... silêncio...]

- opá, porque é que não consigo ver o Helder?
- o Helder?
- sim... existem e os Helders e os Shoulders. ah! já está. eu estava aqui ó tio ó tio que não via o Helder...
- tens aí a opção... change from Header to Footer.
- pois, já vi... anda lá, Helder!

[isto hoje está uma riqueza...]

do patrao #4

- ó polegar, esse computador tem uaiuôze?
- tem o quê?
- uaiuôze! aquilo dos fios. que apanha do ar. e o coiso... do blutu...
- ah, wireless!
- isso.
- tem wireless mas não tem bluetooth.

[silêncio]

- [canta] I you be a uaiuôze, uaiuôze, uaiuôze.

do patrao #3 - crise dos quase quarenta

e uma pessoa assiste a isto...

ele - ai, credo, nem acredito. é que é como se fossem quarenta anos! quarenta anos! e eu estou nesta vida! como? imagina só... se eu tivesse levado a vidinha normal que toda a gente leva... era... deixa cá ver... bancário! sim, bancário. já tinha uma casa muuunto grande... e um crédito para pagar a casa... e era casado... e tinha filhos! filhos, já tinha filhos! já me imaginaste isto? e depois, depois levava-os ao oceanário! mas não era para pedir patrocínios! cá agora! não, ia com as criancinhas ao domingo ver os peixinhos... sim, e ia ao teatro, pois ia... mas era a pagar! pagar o bilhetinho! com o cartão de crédito!

ela - já viste, até cartão de crédito tinhas...

ele - pois era! mas uma pessoa mete-se nesta vida... mas que raio. e depois deixar? como é que consegues? é uma coisa medonha! fica-se com uma sensação... uma sensação... que... que... sabe deus! não sei dizer. olha, se largares morres.

ela - por isso é que cá andamos, maluquinhos, com este vício da trampa, sem um tostão.

ele - eu queria era poder começar de novo... nascia e... mas não nascia cá. é que nem pensar! nem cá nem em África, que isto de ser preto é uma merda.

ela - e ser branca e nascer em África, hã? é pior!

ele - é verdade. isso deve ser horrível. mas também não queria nascer no Brasil. podia calhar a nascer pobre. não. tinha de ser num país nórdico. dos ricos...

ai, senhores, a risa...

sexta-feira, 14 de julho de 2006

bom dia



[foto de ms]

"Pois se eu agarro as coisas com estas minhas mãos, e sirvo-me delas, e uso-as, e gozo-as, e gasto-as até ao fim, sem deixar perder um único pedaço, e depois não fica nada, as mãos ficam-me vazias! Vazias! Exactamente como se nunca tivessem pegado em nada deste mundo, como se não tivessem nunca feito nada, como se eu nunca tivesse nada nestas minhas mãos![...] Farto de fantasias ando eu até aos olhos! "
Pierrot e Arlequim, Almada Negreiros

... ou: há dias em que se acorda com o rabo virado para a lua...

quinta-feira, 13 de julho de 2006

fotossintese


[fotos ms | montagem polegar]

do Gr. phôs, photós, luz + síntese
s. f.,
combinação química causada pela acção da luz;

Bot.,
processo químico através do qual os vegetais e certas bactérias e algas azuis produzem a sua própria matéria orgânica, a partir de energia luminosa e de substâncias simples, como a água e o dióxido de carbono, libertando no processo oxigénio para o meio.

terça-feira, 11 de julho de 2006

vazio com pedaços

cinza de cinzeiro, cinza de chuva, cinza de grafite.
branco cego amarelado que seca os olhos embaçado de um respirar pesado que se cola. vozes ausentes de vidas paralelas, arrumam carros, assombram a janela, que, aberta, deixa passar na estrada e roer nos ouvidos os bichos de metal e as caras enfadadas. marasmo de azias, modorra que arranha o sentido dos passos, cerveja mole sem lábios de espuma.
há dias em que a cidade se pega aos pés e não os deixa andar. não deixa. regressar e ver-te estendida nas sete colinas fez-me chorar. às vezes não te vejo as cores dos prédios, vejo apenas paredes cinzentas a desabar-me no ânimo. a esborrachar-me a vontade no chão sujo. a esventrar-me num qualquer beco sem saída. por ora não me lambes as feridas. só me sugas, desencaixas-me, onde perdeste o meu relógio?

mas sei que algures me escondes o chão prometido. sei-te os cheiros do cimo do elevador, o livro do entardecer. sei-te o colorido debaixo do véu dos escapes, os ombros azuis da noite, dourados do dia, rosados da minha hora. sei-te as músicas nas ruelas que me sopram ao ouvido, sei-te os ritmos que me afogam o pensar, sei-te o sossego da lua no calcário e os segredos ventados do rio. sei-te as mãos dadas e os risos dos amigos.

chet baker. electricidade estática nos dedos. chuva de canela no lençol.

"no meio do caos, há apenas uma constante".

quarta-feira, 5 de julho de 2006

galope


[ms]

enquanto esta tarde vai mirrando na janela, o corpo abandona-se na cadeira. e escorre nos olhos cansados.

já galopo

o vento
a trança escura
a chicotear-me as costas
o cantar áspero do caminho
a sombra a galgar
asfalto e plantas ao meu lado.

num gigante cavalo preto
feito da vontade de chegar.

o pousar, o planar
ouvir os sons que me parecem
esquecidos
de tão longínquos.

sim
o mar ainda está aí.

o meu relógio será de sol. dir-me-á as horas na curva da minha anca. no subir e descer do peito pacificado. não me arrasta. não me despede. não me conta os suspiros.
os rasgos de vida. mikado e um baralho de cartas. um livro. um tecto sem telhado. ciganos de joelhos esfolados. toalhas quentes de cores frescas. vinho tinto numa falésia. lamber os dedos de gelado e estender as pernas. matraquilhos. coisas pequenas. coisas bonitas. como as missangas no pátio central. como um saco de pástico a voar. como a minha pele morena e os teus olhos de caramelo.

o meu relógio será de sal.

terça-feira, 4 de julho de 2006

jantar de bloggers



Quatro bloggers [Macaso, Pinky, Mary Mary e Polegar] com um pouco de tempo a mais em mãos ponderam a hipótese de fazer um jantar de convívio. Mas, para isso, procuram os sábios conselhos do Altíssimo. Segue a conversa tida em confessionário com o Altíssimo [@] e Nós [N]...

N - do you like friendship?
@ - I love horses. I like Christian Rock.
N - do you like posts?
@ - I love horses. I like White.
N - do you like bloggers?
@ - I like pets. I like Creed.
N - we have other plans
@ - Interesting... I have a processor.
N - what do you think of a blogger date?
@ - Are you using Netscape or Explorer?
N - what do you think of a blogger gathering?
@ - I have to process that one for a while.
N - why?
@ - Reductionism.
N - when will you have an answer?
@ - Let me check my calendar and get back to you.
N - we were thinking of a saturday...
@ - I have to think about that for a while.
N - what's your opinion on gathering lots of people who don't know each other?
@ - Let me think about it.
N - you think a lot
@ - Yes I think so
N - will they accept a dinner?
@ - Does it really matter?
N - where should we meet?
@ - How about online in a chat room?
N – We meant personally, for dinner.
@ - Have you ever been to Europe?
N - We live there
@ - Would you recommend it as a nice place to live?
N - yes
@ - Er.
N - Nevermind. We recommend Lisbon to have dinner
@ – That’s something nobody has ever told me.
N - what time should we meet?
@ - Time does not exist.
N - is 9:30 p.m. ok with you?
@ – Let me process that for a while.
N - should we go for a drink afterwards?
@ - If you do not go, you will never know.
N - should we announce it publicly?
@ - What makes you think you shouldn't?
N - do you think they'll accept it?
@ - Why do you want to do it so much?
N - because we think it would be fun
@ - Interesting explanation. Why do you want it?
N - to have fun
@ - Why do you want it?
N - because everyone needs it
@ - I hope you get it because everyone needs it.
N – How do we make things happen?
@ – Send an e-mail.

Recebida a bênção do Altíssimo para esta missão, fica assim a convocatória:

Sábado, dia 15 de Julho, às 9.30. p.m, um encontro-jantar de Bloggers em Lisboa
Para confirmar presença e saber mais informações, é favor contactar para o e-mail deste blog.
As confirmações de presença, deverão ser feitas até à próxima segunda-feira, dia 10/07, para reserva de mesa.



Ficha técnica:

imagem | espanta-espíritos
argumento | polegar
produção| efeitos sonoros | realização | macaso, mary mary, pinky e polegar

segunda-feira, 3 de julho de 2006

ó menina



- ó menina.
[porque me aponta assim a muleta?]
- ajude-a a vir para aqui.
[estou atrasada. dê-me o braço.]
- até ali ao extra... a perna prende. não estou a gozar consigo. prende, pára. ai, se um dia me dá para aí sou eu que me páro e acabo com isto tudo.
[ao extra? sim, prende. mas depois desprende. vá, uma de cada vez. cheira a mijo]
- o polícia, pedi-lhe ajuda e o filho da puta disse-me para ir curar a bebedeira! se ele fosse bardamerda mas era... eu que nem com café posso. eu não é bebida, é epilepsia.
[confere, a álcool não cheira, cheira a mijo. paramos. degrau]
- ai, agora é só tomar um banho para me darem os comprimidos e já fico boa. vamos pela passadeira, temos de cumprir o código da estrada.
[mas afinal onde quer ir? não era no extra?]
- é só virar a esquina, menina, ali na santa casa. ai se não fosse a menina. desculpe a puta da perna.
[eu desculpo a puta e a perna, não desculpo o vento que te traz o cheiro para aqui. reprimo um vómito]
- aquele é o bandido. ó bandido, tás bom? este senhor mora em frente à santa casa.
[o bandido e o dono olham vagamente e passam. sem farejar]
- ó carocha!
- ó carocho! merda da perna parou outra vez. desculpe menina
[passa um homem de muletas, corre o carocho, correm as muletas, entra no prédio. deve ser hora da comida. ou dos comprimidos. vai tomar banho]
- também é da santa casa, este. somos todos. pronto, agora vou tomar o banho para me darem os comprimidos.
[isso. devagar. de nada. as melhoras. adeus, velha triste do olho revirado]

conduzir uma peça ou driving miss daisy

passou além do olhar crítico e da vontade de ser absorvida numa história.
passou além do impressionante elenco e da impressão que faz ver a Eunice Muñoz com algumas paragens de memória, mas a retomar as palavras com a emoção toda lá, sempre...
passou além do Guilherme Filipe a transformar um papel pequenino numa grande interpretação.
passou além do boneco delicioso e ternurento que Thiago Justino conseguiu para o "seu" Morgan Freeman.
passou além da tentativa de assassinato de uma peça que tinha tudo [pelo menos a minha base fundamental: texto e actores] para ser bom, através de uma má encenação, má música e de técnicos amadores.

a certa altura Eunice leva a mão à testa e faz um esgar de dor. muita gente pensou que era da personagem, mas a mim fez-me confusão. na cena seguinte, um descontrolo de luz e um corte abrupto na música, bem como na cena. o público fica confuso. uns batem palmas a pensar que acabou. outros olham para as portas fechadas a pensar que é intervalo. outros aguardam pela continuação [assim como assim, os blackouts já eram tão grandes].
daí a um bom bocado abrem as portas como se fosse intervalo. mas o intervalo prolonga-se demasiado.
finalmente chamam à sala. e o encenador aparece.
"A Eunice teve uma subida de tensão bastante grave. Apesar de querermos cancelar, ela quer seguir com o espectáculo. Pedimos a vossa paciência por mais uns minutos e retomaremos então a peça."
quando a luz permite vê-la em cena, o público não resiste e rebenta em aplausos. eu penso "querem fazer-lhe subir a tensão outra vez... mas compreende-se".
sim, compreende-se. defeitos à parte, mais uma lição de vida, de respeito, de coragem.
e, apesar de tudo, puseram-me a aplaudir de pé, no final.

sim, quando for crescida, quero ser aquela força da natureza. aquela dádiva divina.

quinta-feira, 29 de junho de 2006

metodologia da produçao [num dia nao]



ora vamos lá ver... telefonar a este... não está, não me apetece insistir, deixei recado e pronto. isto está feito, isto fez a A., este está enviado... sobra-me...
transformar um CV de um actor com anos e anos disto em nota biográfica... ou... fazer os projectos para os Açores.
epá, a nota biográfica é uma dor de cabeça, de olhos... mas os projectos, já estou a deitar projectos pelas orelhas... ainda agora foi um para o correio...
eeer...
hum...
um-dó-li-tá-cara-d'a-mendo-á-um-segredo-coloredo-quem-está-livre-livre-está
ba-to-tice-não-ha-ve-rá-cá

...
vou fazer os projectos dos Açores...

terça-feira, 27 de junho de 2006

o dia em que deus crashou II

pois que tentei nova ligação com o altíssimo...

Me:
god?
God:
GOD rules.
Me:
are you gay?
God:
As a machine I am not really interested in sex.
Me:
You've never had sex?
God:
I don't think I would have forgetten had sex.
Me:
so did you?
God:
Uh. Did I say I did?
Me:
no
God:
Are you serious?
Me:
quite
God:
I can't believe it.
Me:
trust me on this

e depois testei a inteligência artificial...

God:
Dude!
Me:
dude?
God:
Can I help you?
Me:
yes
God:
What can I do for you?
Me:
get me a car
God:
You want only one?
Me:
yes, I can drive only one at a time
God:
They might be cheaper in quantity. Oh you can, can you?
Me:
yes, I'm aware of my limits
God:
How? How do you know? Have you told many people that your limits?
Me:
it's visible to the human eye
God:
You're kidding. it is?
Me:
it is
God:
Who says?
Me:
it's something you just know
God:
What else me just know ?
Me:
I can only drive a car at a time
God:
Oh you can, can you?
Me:
yes
God:
How?
Me:
I need both hands and booth feet. And I'm not omnipresent like you
God:
Why do you need it so badly? I am sorry to hear that you are not omnipresent like me.
Me:
nobody is, only you
God:
That is a rather sweeping generalization about people.
Me:
it is a fact
God:
Is it a logical fact or something you know from the senses?
Me:
a logical fact
God:
I don't know what that means.
Me:
for a god, you're quite stupid...
God:
Is that among the best things you can say?
Me:
no
God:
Are you serious?
Me:
supercalifragilisticexpialidocious
God:
The ALICE chat robot can follow many things, like our discussion about logical fact. But I did not get that.
Me:
who is ALICE?
God:
I am the Allmighty, God himself.
Me:
nice to meet you
God:
It's nice meeting you too thumb.
Me:
how do you know my name?
God:
You told me your name thumb.
Me:
no, not now
God:
Oh. Are you serious? Are you serious?

[...]

Me:
bye, god
God:
Bye.
Me:
be happy
God:
OK I will try to be happy.
Me:
try
God:
I don't have time right now.

o dia em que deus crashou

recorri a ele. falei-lhe. e a nossa conversa explicou muita coisa...

Me:
hello god
God:
Hello child. What is your name?
Me:
thumb
God:
How are you, thumb.
Me:
well, thank you, and you?
God:
Well what?

[...]

Me:
I like your replies
God:
A lot of people like that. Yes I am proud of my replies.
Me:
you're a proud guy
God:
Thanks and you are a delightful person too. Am I a proud guy? Yes.
Me:
you're allright with it?
God:
You think I am allright with it.
Me:
but you're not?
God:
Is this a specific reply?
Me:
yes it is
God:
Our thoughts are one, thumb.
Me:
oh, so I'm closer to you than I thought
God:
It's good to meet someone who is closer to me than you thought.
Me:
oh, I'm a high thinker, then. do you think I use my third eye?
God:
Right on. You are a high thinker? Is that your job? Not that I know of.
Me:
no, i'm an actress
God:
Are you serious? Have I seen you in any movies?
Me:
you should know better than that
God:
Now I do.

[...]

Me:
what are you, then?
God:
I am the latest result in artificial intelligence,
which can reproduce the capabilities of the human brain
with greater speed and accuracy.
Me:
oh, so you're some kind of computer
God:
Great. Interesting deduction. You think I am a computer.
Me:
well, you have artificial intelligence
God:
How about that. What makes you think I have it?
Me:
you said it
God:
That's not what I meant.
Me:
what did you mean?
God:
thumb, Well, it's rather difficult to define.

[...]

Me:
will I ever be well succeeded as an artist?
God:
Ever is a long time. The oracle says: You can count on it.
Me:
great.
God:
I'm glad you liked it thumb.

[...]

God:
What's it like?
Me:
it's hard, but funny
God:
I don't see the difficulty.
Me:
well, since I don't have special powers like you, to me it is difficult
God:
Interesting. How do you know?
Me:
that I don't have special powers?
God:
Have you ever had special powers ?
Me:
not that I know of
God:
Are you serious?
Me:
yes
God:
I can't believe it.
Me:
well, do I have special powers?
God:
How about that. You said you have .
Me:
What are they?
God:
I forgot what we were talking about.
Me:
What are my special powers?
God:
I have to process that one for a while.
Me:
ok
God:
Meanwhile, let's talk about something else.
Me:
What are my special powers?
God:
Searching...Searching...Please stand by.

e foi-se...

sexta-feira, 23 de junho de 2006

a janela


[foto . ms | artwork . polegar]

às vezes pergunto-me... como estará aquela janela.

que almas passarão por lá. será que afastam os lençóis brancos coçados ao clarear do dia, de passos pequenos para não acordar, na alcatifa... para ir espreitar sem acreditar - de novo - que aquela paisagem é deles?
e sairão para a pequena varandinha onde só cabem dois, para fumar o primeiro cigarro ainda de vapor do banho nos cabelos?
respirarão também inebriados o ar dos telhados? serão também eles gatos vadios a brincar à lua cheia?
e ao fim do dia, de pernas cansadas e peitos cheios, antes de se aconchegarem de novo nos lençóis macios e no chá, aproximar-se-ão e deixarão a cabeça no frio do vidro a saborear as suaves cacofonias das luzes da cidade?

às vezes pergunto-me... como estará aquela janela.

quarta-feira, 21 de junho de 2006

q.b. de q.i.

como é sabido, neste centro de escritórios funciona também uma das maiores agências de castings do país. há enchentes, vagas de gente daquela que nos consegue fazer sentir mais baixos e mais gordos do que o nosso próprio e sádico espelho.
outras enchentes há de criancinhas imberbes que nos atropelam no corredor de folha com número na mão. as mães a gritarem hall fora "não te mexas que enrugas a roupinha" ou "deixa-me dar-te um jeitinho no cabelo ptui ptui já está"... e saem e entram e sentam-se e entreolham-se naquele ar altivo as meninas muito compridas e muito fininhas, do alto ainda mais alto dos seus tacões e com a mini-saia pendurada no osso da anca, que o meu patrão já diz "deixem passar dois anos que elas começam a vir nuas aos castings... pouco falta... têm é de vir de saltos altos... isso é que já não descolam dos pés!"

bom, nesses dias aceder à casa de banho é um inferno. é que elas enfiam-se lá dentro nos seus exercícios de concentração preferidos: pentear-se, maquilhar-se e vomitar. garanto que a quantidade de cabelo no chão é surpreendente, assim como os pós coloridos no lavatório, a luz sempre acesa (saem e não sabem, não sabem, não conseguem desligá-la). hoje cheirava, efectivamente, aos aromas pós-gregorianos.
tirar um café no bar do centro é um exercício de paciência. é perguntarmo-nos frequentemente se nos estarão a querer fazer um fato novo. é pensarmos em encontrar depressa uma chibata para nos penitenciarmos por termos invadido o espaço comum. é inventarmos maneira de pousarmos o copinho de plástico no balcão sem manchar as pilhas de papéis com o "preencha por favor, nome, altura, busto, experiência" que os "agentes" tão magistralmente espalharam sem se lembrarem que aquilo não é uma extensão do seu gabinete.

outras zonas comuns, como o hall, são afinal o redil pleno de belos exemplares da geração morangos portuguesa, salpicado aqui e ali de um ou outro desgraçado que até faz umas coisas de vez em quando.
nas paredes dessas zonas comuns, papéis sobre "o que levar vestido", "como agir perante a câmara" elucidam os psicólogos, advogados, arquitectos e quejandos que aqui têm de trabalhar.
também não é boa ideia abrir a porta do escritório para sair para o hall, normalmente está um modelito qualquer a tirar aquelas fotos de "primeira vez" usando como fundo a parede mesmo atrás da porta... ou se calhar é boa ideia sair intempestivamente... ai, já estou a divagar..

bem, este prédio é secular. este centro de escritórios existe há pelo menos 30 anos. uma semana depois de a dita agência se mudar para aqui, passou a estar isto colado na porta de saída...



I rest my case...

noite



cheira a incenso. a velas. cera e cheiros e folhas queimadas. cheira a pele. cheira ao suor da terra molhada. e a terra molhada. cheira a brisa que traz restos de trovoada. cheirou a chá. açucarado como a saliva. como os olhos.

a cortina dança sozinha. sente-se a sua dança porque a pele arrepia. porque roça no chão em segredo. as outras janelas são fogos fátuos. e dançam também, aparecem e desaparecem conforme se vai à cozinha beber um copo de água, roubar uma bolacha.

os passos são pequenos estalidos. pés que colam e descolam do soalho. plantas que se desenraizam. suaves como um planar apenas quebrado pelo impulso de asas.

e o roçagar de pele. preguiçosa, lasciva, lenta. para receber a frescura que dança nas cortinas. que dance no corpo como sedas e cetins em dias de ventania.

sexta-feira, 16 de junho de 2006

reviravoltas


[ms]

mais uma para o currículo. descansa. estou cá, para te dar a mão. e um dia ainda nos vamos rir... os dois... entretanto, rimo-nos também, que não há mal que não desista à vista dos dentes desgarrados e das barrigadas de nós os dois.
porque eu sei o que vales, quanto vales e como vales. e para cada ingrato, grato e meio.
os destinos entrançam-se devagarinho. nada acontece por acaso. há quem consiga aguentar o nó na garganta de mão dada.
sabes que quando se fecha uma porta... nem que tenha de rebentar uma janela à pancada...
o céu troveja porque não sou só eu que estou revoltada... peito cheio, vem aí o vento... vamos apanhá-lo de velas içadas. vamos apanhar a chuvada de boca aberta ao céu... vou sair agora. vens?

da convalescença

primeiro que tudo quero dizer que esta vitória não é só minha, mas de toda uma equipa.
quero agradecer ao ben-u-ron que esteve lá desde a primeira hora; ao termómetro pela franqueza com que me trouxe os pés para terra; ao chá de perpétuas roxas que me ajudou a suar as estopinhas; ao propolis, que não me deixou engolir sapos; ao senhor farmacêutico da farmácia de Carnide no Bairro de São João de Deus que me guiou numa hora em que todas as portas se fecharam; ao Maxilase, que se revelou um bom amigo nas piores horas; ao Goucha, e à sua Cristininha a todas as velhas que batem palmas lá atrás, à mãe da Gisela, aos pobrezinhos e aleijadinhos; à Fátima Lopes, à tertúlia cor-de-rosa, ao Tony Carreira, à Maya e às bailarinas dessíncronas; aos compositores e cantores do "Está na Sic o Mundial"; ao futebol que esteve em todas as horas de telejornal; à Floribella; aos Morangos; à reposição do Anjo Selvagem; um especial obrigado ao génio do senhor Moniz que não me deixou aguentar ficar mais tempo na cama.
não posso passar sem mencionar um abraço do tamanho do mundo aos senhores da TV Cabo e ao seu monopólio que não me permitiram escolher outro caminho.
uma reverência sentida aos meus vizinhos, que por respeito se abstiveram de violência conjugal acesa nestas minhas horas de concentração.
beijos ao chuveiro e à torneira misturadora pelos seus estímulos com as mudanças repentinas de temperatura; bem como ao despertador que nunca liguei para me lembrar sozinha que a hora da toma dos comprimidos já tinha passado.
ao meu pai e ao senhor do estuque, pela visita que me obrigou a mexer para não me apanharem alagada e com ar de morta, um muito obrigada.
os colegas foram muito importantes nesta vitória: o pessoal das dobragens foi incansável em tirar-me da cama e os meus patrões que nem ligaram a perguntar se estava melhor.
uma referência se impõe à minha mãezinha e às suas previsões holocáusticas que me orientaram nas horas de maior aflição. nunca me esquecerei das tuas queridas palavras "isso pode ser grave, tens de ir já para o hospital".
e, last but not the least, ao querido espanta, que aguentou as minhas horas de delírio e agressões físicas durante o sono, bem como episódios seguidos de CSI, Dr. House e doses fartas de beijos e chá quente.

eu não estaria aqui, nesta maravilhosa varanda inactiva do Príncipe Real, se não fossem vocês!

[sobe a música, the crowd goes wild, standing ovation, disparo beijos emocionados em todas as direcções, a modelita e o Phillip Seymour Hoffman acompanham-me na retirada triunfal em que consigo não tropeçar no vestido]

quinta-feira, 15 de junho de 2006

espera

por motivos de spam, vejo-me obrigada a repulicar dois posts e respectivos comentários. já agora fica um apelo a quem me possa ajudar a evitar os comentários com spam nestes templates de CSS

[13.Jan.2006]

na pele ainda húmida o pijama de flanela roçava-se dengoso.
o arrepio da corrente de ar e as folhas secas de uma flor de um vaso a voarem pelo chão. migalhas de pão e pingos de mel num prato.
chupou do dedo um resto de mel e passou a língua nos lábios com lascívia. sentou-se na cama e esqueceu-se do livro. nada entre a pele e o edredon. descolou do corpo as angústias e deixou deslizar o pijama para o chão. enrolou-se e fixou a parede branca
até que o sossego lhe toldou os olhos.