quinta-feira, 31 de agosto de 2006

bocas doces


no meio da colecção das embalagens antigas, há sempre uma tradição que se mantém. essa, mais que para fazer uma colagem de latas de farinhas alimentícias e caixinhas de chás e pós aromáticos, é uma constante nas línguas gulosas. nos dias de calor, observar o caramelo a escorrer lânguidamente pela forma transparente enquanto se espera que a mistura ferva no leite e adivinhar, depois de um tempo de frigorífico, o eterno sabor de infância, fresco e doce, desfazer-se na boca. sem gosto da Ásia, verdade, mas açucarado como uma gargalhada embriagada de tempo bem passado. pés descalços na pedra fria, prato na mão. na sala canta com grãos de areia na voz um antigo vinil. fotografias a preto e branco, debotadas e dobradas nas pontinhas. inventam-se histórias para rostos desconhecidos. gotas de caramelo confundem-se no suor de uma colherada atabalhoada...

terça-feira, 22 de agosto de 2006

quantum leap

a insónia tem destas coisas... quando a ansiedade se apodera de nós, no desespero de encontrar distracção das palpitações e não querendo cair na teia dos ansiolíticos, saltitamos de nenúfar virtual em nenúfar virtual até dar com um qualquer blog [que no dia seguinte já não conseguimos lembrar, tal era a trip onírica de sono que para aqui andava] onde um vídeo nos aguça os despojos de curiosidade ainda despertos.
hoje sou uma mulher nova. renasci das cinzas da vida boémia e converti-me. eu até já gostava de sabrinas, mas isto... isto é a epifania por que todos ansiamos ao longo de toda uma vida, a revelação a que só alguns chegam. eu posso dizer: vi a luz! e não me refiro ao écran do computador às 5 da manhã... não, isto é the real thing!



eu sabia que havia uma razão para não ter TV Cabo: era um sinal divino!
oh sim! oh sim! era tudo o que eu esperava! agora sim, terei uma juventude sem mácula...

e cantem, cantem comigo:

Hagamos juntos, este crucigrama
Aplacemos lo otro para mañana
Cantar contigo, me llena de alegria
[sha la la la..sha la la la la]
Dejemos todo lo demas para otro dia
Quisiera besarte pero sin ensuciarte
Quisiera abrazarte sin dejar de respetarte.
Amar es saber esperar, es saber esperar, es saber esperaaaarrrr...

Amo a Laura, pero esperaré hasta el matrimonio
Amo a Laura, pero esperaré hasta el matrimonio

No voy a arrancar esa flor,
quien la destruya,
no seré yo...

Joven, recuerda que el amor nace del respeto
que no hay nada mas hermoso en una pareja
que saber esperar juntos
ese momento maravilloso
que es la consumación del amor...
¡TU PACIENCIA TENDRÁ RECOMPENSA!

Amo a Laura, pero esperaré hasta el matrimonio
Amo a Laura, pero esperaré hasta el matrimonio

No voy a arrancar esa flor,
quien la destruya,
no seré yo...

Los Happiness | MTV


agora um àparte, das reminiscências do meu antigo eu, escuro e sujo, aquele eu que adorava uma trancada bem dada cheia de amor e íntimas suculências e tudo a que se tem direito [fricciona levemente, com o indicador, o apêndice nasal] isto tem ou não tem um piquinho a azedo?

segunda-feira, 21 de agosto de 2006

enquanto houver estrada para andar



se tudo fosse asfalto. se tudo fosse o vento a envolver-me em giestas, pinheiros e eucaliptos. se tudo fosse um horizonte que se desnivela conforme as curvas da estrada. se tudo fosse já ali, não interessa onde. o calor a lamber-me o suor, o frio a rasgar-me os olhos. a sombra presença constante nos riscos, socalcos e vegetação, nos verdes, nos ocres, nas papoilas, nos prédios, nos girassóis. os mapas e as decisões aleatórias, como as linhas das mãos. um tecto enrolado atrás de mim, ou a vaga ideia de uns lençóis brancos algures. se tudo fosse o teu cheiro a brincar nos meus cabelos. o ronronar do motor e o recorte perfeito do teu pescoço. se tudo fosse o adejar da tua camisa, para o assomar das tuas sardas onde passeio os dedos, onde descanso enfim.

segunda-feira, 14 de agosto de 2006

varanda



o dia vai silenciando os movimentos. já se conseguem contar as luzes em volta. luzes de presença no breu cálido da vaga de calor que não amaina depois do crepúsculo. no anonimato de mais um andar, os movimentos lentos de quem procura uma brisa que alivie as gotas de suor. ecos vagos de vidas que adormecem. abrandados pelo peso quente do ar. um jornal virado. um riso jocoso vindo da tasca ao fundo. um carro que passa. pratos tilintam num lava-louças. uma tosse. um choro de bebé. numa janela recortam-se dois corpos. preparativos do sono perante cortinas abertas. devem falar de como correu o dia. ou outra conversa qualquer. corriqueira. rotineira. sente-se nos gestos afastados e casuais. ele adormece de costas para ela, que lê. daqui a nada ele reclamará do calor da luz acesa.
mas na varanda já se desviaram os olhos. para o céu pontilhado de branco que se confunde com a montanha em frente pontilhada de laranjas. pontilhada de vidas. respira-se devagar, espera-se ainda a piedade de um sopro fresco. as costas colam-se no vidro. um miado avisa que a música se calou.
ligeiros estalidos dos pés no chão. a música regressa. a cortina ondula. suspiro.

segunda-feira, 7 de agosto de 2006

floribelas

suo por todos os poros. não aguento quando a ventoinha se afasta de mim. zapping de tarde. estou a tentar poupar os DVD's de "O Sexo e a Cidade", os filmes emprestados, os livros. dou uma desesperada oportunidade aos programas da tarde da televisão nacional.

do alegre Malato e as suas velhinhas e emigrantes, salto para uma qualquer coisa sobre segurança no trabalho, e depois para...
um concurso de mini-Floribelas. sim. as crianças deste país adoram a menina das flores e das saias às flores, e as canções das flores e as purpurinas e o enredo de novela mexicana... com flores. querem ser tal como ela. e o abençoado canal responsável pela súbita explosão de adeptos à horticultura continua a exploração até ao tutano desse grande acontecimento cultural. agora as nossas crianças mandam vídeos das suas interpretações e coreografias, desenhos, e têm até direito a aparecer no prime time das donas de casa: os programas da tarde.

ali estavam: três meninas pequenitas que tinham de cantar, em competição, claro, a canção do "sou pobrezinha mas boa pessoa" - essa grande lição de vida, tão útil nos dias que correm, em que, de facto nos devíamos conformar com a crise. os ricos que fiquem cada vez mais ricos! serão sempre infelizes! eu não sei como pagar as contas, mas sou do Bem! toma!
e por isso, um dia um rico oxigenado há-de apaixonar-se por mim, ver como a vida de pobre é muito mais alegre, deixar de fugir ao fisco, cancelar as contas na Suíça, para se vir meter comigo num apartamento no subúrbio cheio de flores, com o rendimento mínimo, onde alegremente lhe passajarei as meias e criarei os nossos 5 filhos a big-macs e danoninhos.
não, espera. não é assim... ah! o rico apaixona-se por mim e pela minha alegria de pobre e leva-me com ele para a sua mansão em Cascais onde viveremos felizes para sempre, ricos, e onde alegremente lhe passajarei as meias e criarei os nossos 5 filhos surfistas a big-macs e danoninhos.


ah, essa mais recente geração que ainda mal sabe falar mas que os papás já estão ansiosos por meter nessas novas amas que são as 12 horas de gravação por dia com catering e carrinha, ou a fazer anúncios a ecopontos para depois os progenitores se gabarem - sim, já aconteceu à minha frente - perante as outras crianças que estão nas filas para novos castings.
essas filas de carne para canhão, de gente que vinda do nada espera a sua oportunidade no mundo do tudo, tão fácil, tão evidente, dispostos a serem explorados pelos seus 15 minutos de fama sem terem noção do que estão a fazer no mercado em termos de condições de trabalho para os profissionais que depois quiserem exigir as coisas como deve ser e bem pagas... mas isso é outra conversa...

regressando ao ponto alto do meu dia: Nuno Graciano entrevistava então a mais novinha das três... errr... concorrentes. tinha uns três, quatro anos. de cada vez que o apresentador lhe punha o micro à frente para responder a uma pergunta feita com aquele tom paternalista que cai sempre bem, a piquenita começava com o sumido mas assumido "não te-no na-da ma te-no te-no tu-do". todos no público sorriam, derretidos, paternalistas, viam-se nos écrãs e compunham o colete e o vestido que tinham comprado para o baptizado da Cátia Marisa. ai, a menina, que encanto: caracolinhos escuros, purpurinas nos olhos, sainha com flores... era de facto uma gracinha.
depois a gracinha, à pergunta do Graciano "bem, agora vamos ouvir as outras meninas a cantar?", respondeu... levantando a saia e voltando a catarolar "não te-no na-da..."
Nuno Graciano não se deixa demover com a manobra de marketing infantil e pergunta:
"oh, então que é isso? de cuequinhas à mostra na televisão?!" com o grande sorriso profissional embebido no tom de cutchi-cutchi-bilu-bilu.
mas a pequena é ainda mais profissional. e entre um plano da suposta mãe babada, a menina mostra a autenticidade do seu à-vontade perante as câmaras: mete as mãos entre as pernas e coça-se. sempre a cantar, como qualquer bom entertainer.
nesta forte competição, não entre Floribelas, mas entre profissionais de gabarito, Nuno Graciano aposta em não se deixar intimidar pela nova artista de palmo e meio:
"queres fazer xixi, é?"

foi a estocada final no meu dedo, que desligou a televisão e me obrigou a estourar mais uns episódios de "Sexo e a Cidade".

quarta-feira, 2 de agosto de 2006

o trauma de agosto



pequena explicação: há quem trabalhe neste país a recibos verdes porque não tem outra hipótese. não falo de advogados nem de médicos, falo de mim e, como eu, de outros tantos. nesta situação, misturam-se num estranho limbo os "direitos" de quem trabalha como independente e os "deveres" da entidade patronal, que nos contrata a recibos mas depois... horários de trabalho iguais aos dos contratos, às vezes piores, ficamos nós encarregues dos próprios descontos, não há cá 13º mês ou subsídiio de férias e a santa entidade resguarda-se a possibilidade de suspender o trabalho quando não quer/não pode pagar.

não há espectáculos desde Junho. portanto, não há dinheiro a entrar...
não há produção em Agosto,porque os "todo-lo-mandas" deste país e respectivos assessores, secretárias e empregadas da limpeza vão de férias. por escala. ou seja: na primeira parte do mês vai o patrão e é preciso uma assinatura ou um parecer, na segunda parte vai o assessor e sem ele a reunião não tem efeito. continuidade da produção? em Setembro... ou melhor, a partir de 15, 20 de Setembro.

juntando estes três factores, encontramos o trauma de Agosto para quem trabalha no mundo do espectáculo: não há dinheiro a entrar, a produção é fraca, e o patrão pode, se bem o entender, suspender o trabalho durante um mês para poupar.

assim, vejo-me na obrigação de ir de férias. sim, obrigação. apesar de precisar de não ouvir aquela voz sempre a 200 à hora durante uns tempos, de descansar os olhos do computador e de dormir, eu gosto de ser EU a decidir quando vou de férias: por causa da companhia e das possibilidades financeiras.
resumindo: tenho de aguentar o ordenado de Julho durante o mês de Agosto e chegar para em Setembro ir trabalhar, só recebendo no fim desse mês...

ora, portantos, ele não pode haver o "pegas no carro e vais à praia", ou "vai ler para uma esplanada com uma jola à frente" ou o "pegas na tenda e vens passear com os outros veraneantes abandonados de Lisboa". não, senhores, comigo terá de ser a reclusão total.
eu, a gata, o terceiro andar de exposição solar total sem direito a nortada e a ventoinha.

antes de entrar em total colapso de frustração (porque não pude ir de férias quando queria porque o trabalho era demasiado e depois deixei de poder e agora tem de ser e estou sem dinheiro e sem companheiro de aventuras), resolvi passar a minha primeira tarde em boa companhia: um elegante escabeche no banco porque me emitiram 4 cartões de débito para a mesma conta d.o., um longo passeio pela Almedina com direito a encontro imediato com os senhores Pratt e Manara no mesmo livro, e um chá com o Gabriel (o Márquez) e a Colher de Chá numa esplanadinha.

manter-vos-ei, quanto possível, a par da fantástica actividade que pautará as minhas férias. por isso não contem com muitos posts.

parece-me que terei de me despedir como tantos bloggers com o cliché: então boas férias, hã...

quinta-feira, 27 de julho de 2006

do desejo

prepara-se a turma para a apresentação final do workshop de teatro. emoções cansadas, demasiado tocadas, desabituadas nas suas redomas de segurança do dia a dia. ali são exploradas e quase violadas. e sabe bem a exaustão da reunião de olhos inchados, narizes a fungar, membros sem força, todos em círculo no fim.

- sabem que no dia do espectáculo pode acontecer tudo... o teatro é de facto um mundo mágico. é uma adrenalina imensa, fortíssima. é uma sensação de prazer... olhem, melhor que o sexo.
risos nervosos.
silêncio.
- mas sabes o que consegue ser ainda melhor que essa adrenalina?
- hã?
- é fazeres sexo no palco...

quarta-feira, 26 de julho de 2006

o vestido


[ms]

vou vestir-me de mim. não espero outros ventos. podem não chegar. nos dias em que o tempo não corre, não valem a pena as palavras amarguradas. acredito em fases más, em tristezas, em soluços, em solidões. não acredito em olhares eternamente torturados. desconfio deles. normalmente inspiram demasiado egoísmo. e cansa. cansamo-nos nós de nós próprios. e depois cansamos os outros.

tudo são gestos. desde umas águas-furtadas e lençóis brancos com sotaque ao girassol ali bem no caminho de quem vai do parque de campismo para a praia nos únicos quatro dias de férias deste ano. pequenas provas são-nos dadas todos os dias. pedaços de suspiro que finalmente chegam com o perfume do descanso. um amigo que aparece para uma noitada de conversa. ou um almoço inesperado. mais do que satisfações egoístas, são motivos.

hoje, amanhã. logo. logo se vê. não.

vou deixar de me desperdiçar. hoje são cores claras. azul, muito azul. do céu da minha cidade. uma saia que flutua. Chiado abaixo, Príncipe Real acima, Graça afora, Alfama adentro. mas não sou de modas. a saia flutua também pela noite do subúrbio, casa, ninho, bola de sabão, redoma de cores e sossego. flutuo também no subúrbio. e depois? onde as fotos nas paredes se acumulam. devagar, ao ritmo quente de quem dança com gosto e sem medo de ser feliz. momentos, disparates e recordações, antiguidades e estórias, tudo bem exposto, com honras de museu. espero os dias mais felizes do pó de palco. de mão dada. dar histórias. dar um corpo. dar a voz. dar as lágrimas. aí sim, tragédias de três em pipa, venham as mulheres perturbadas, as loucas e as depressivas!

por enquanto?

ouço rádio, ansiolítico para o bolso vazio que não, não me deixa ter os cds todos nem saber tudo de cor. a minha vida sempre teve banda sonora. como se pode. leio aos golinhos. como que a aproveitar uma simples água fresca na esplanada ali do elevador, num dia de calor. porque as páginas não duram eternamente, mas as palavras sim. e enquanto não pode ser outro livro, junto os tostões e vou lendo aos pedacinhos. viajo assim, levam-me por enquanto os olhos: hoje estou em Bali. um destes dias vai dar para ir ao cinema. ou ao teatro. ver o quê? interessa?

mais do que uma forma de me exibir numa montra fútil de intelectualidades e masturbações umbilicais, são simples formas de me complementar, de me preencher, de me entreter.

flutuo então, na minha saia fresca. de princesa, sim, e depois? preciso de ser leve. do que é simples, como sempre fui. e posso voltar a ser. se há a aprender com os erros, tropeções e desesperos, aprendamos. e o que é bom é para conservar e apurar. venha de lá mais uma gargalhada de menina.

visto por isso a tal saia de princesa. e o sorriso, bem justo, bem rasgado, em decote, descarado, sincero.
é o meu melhor vestido de festa.

sexta-feira, 21 de julho de 2006

do patrao #5

[cada um no seu computador... silêncio...]

- opá, porque é que não consigo ver o Helder?
- o Helder?
- sim... existem e os Helders e os Shoulders. ah! já está. eu estava aqui ó tio ó tio que não via o Helder...
- tens aí a opção... change from Header to Footer.
- pois, já vi... anda lá, Helder!

[isto hoje está uma riqueza...]

do patrao #4

- ó polegar, esse computador tem uaiuôze?
- tem o quê?
- uaiuôze! aquilo dos fios. que apanha do ar. e o coiso... do blutu...
- ah, wireless!
- isso.
- tem wireless mas não tem bluetooth.

[silêncio]

- [canta] I you be a uaiuôze, uaiuôze, uaiuôze.

do patrao #3 - crise dos quase quarenta

e uma pessoa assiste a isto...

ele - ai, credo, nem acredito. é que é como se fossem quarenta anos! quarenta anos! e eu estou nesta vida! como? imagina só... se eu tivesse levado a vidinha normal que toda a gente leva... era... deixa cá ver... bancário! sim, bancário. já tinha uma casa muuunto grande... e um crédito para pagar a casa... e era casado... e tinha filhos! filhos, já tinha filhos! já me imaginaste isto? e depois, depois levava-os ao oceanário! mas não era para pedir patrocínios! cá agora! não, ia com as criancinhas ao domingo ver os peixinhos... sim, e ia ao teatro, pois ia... mas era a pagar! pagar o bilhetinho! com o cartão de crédito!

ela - já viste, até cartão de crédito tinhas...

ele - pois era! mas uma pessoa mete-se nesta vida... mas que raio. e depois deixar? como é que consegues? é uma coisa medonha! fica-se com uma sensação... uma sensação... que... que... sabe deus! não sei dizer. olha, se largares morres.

ela - por isso é que cá andamos, maluquinhos, com este vício da trampa, sem um tostão.

ele - eu queria era poder começar de novo... nascia e... mas não nascia cá. é que nem pensar! nem cá nem em África, que isto de ser preto é uma merda.

ela - e ser branca e nascer em África, hã? é pior!

ele - é verdade. isso deve ser horrível. mas também não queria nascer no Brasil. podia calhar a nascer pobre. não. tinha de ser num país nórdico. dos ricos...

ai, senhores, a risa...

sexta-feira, 14 de julho de 2006

bom dia



[foto de ms]

"Pois se eu agarro as coisas com estas minhas mãos, e sirvo-me delas, e uso-as, e gozo-as, e gasto-as até ao fim, sem deixar perder um único pedaço, e depois não fica nada, as mãos ficam-me vazias! Vazias! Exactamente como se nunca tivessem pegado em nada deste mundo, como se não tivessem nunca feito nada, como se eu nunca tivesse nada nestas minhas mãos![...] Farto de fantasias ando eu até aos olhos! "
Pierrot e Arlequim, Almada Negreiros

... ou: há dias em que se acorda com o rabo virado para a lua...

quinta-feira, 13 de julho de 2006

fotossintese


[fotos ms | montagem polegar]

do Gr. phôs, photós, luz + síntese
s. f.,
combinação química causada pela acção da luz;

Bot.,
processo químico através do qual os vegetais e certas bactérias e algas azuis produzem a sua própria matéria orgânica, a partir de energia luminosa e de substâncias simples, como a água e o dióxido de carbono, libertando no processo oxigénio para o meio.

terça-feira, 11 de julho de 2006

vazio com pedaços

cinza de cinzeiro, cinza de chuva, cinza de grafite.
branco cego amarelado que seca os olhos embaçado de um respirar pesado que se cola. vozes ausentes de vidas paralelas, arrumam carros, assombram a janela, que, aberta, deixa passar na estrada e roer nos ouvidos os bichos de metal e as caras enfadadas. marasmo de azias, modorra que arranha o sentido dos passos, cerveja mole sem lábios de espuma.
há dias em que a cidade se pega aos pés e não os deixa andar. não deixa. regressar e ver-te estendida nas sete colinas fez-me chorar. às vezes não te vejo as cores dos prédios, vejo apenas paredes cinzentas a desabar-me no ânimo. a esborrachar-me a vontade no chão sujo. a esventrar-me num qualquer beco sem saída. por ora não me lambes as feridas. só me sugas, desencaixas-me, onde perdeste o meu relógio?

mas sei que algures me escondes o chão prometido. sei-te os cheiros do cimo do elevador, o livro do entardecer. sei-te o colorido debaixo do véu dos escapes, os ombros azuis da noite, dourados do dia, rosados da minha hora. sei-te as músicas nas ruelas que me sopram ao ouvido, sei-te os ritmos que me afogam o pensar, sei-te o sossego da lua no calcário e os segredos ventados do rio. sei-te as mãos dadas e os risos dos amigos.

chet baker. electricidade estática nos dedos. chuva de canela no lençol.

"no meio do caos, há apenas uma constante".

quarta-feira, 5 de julho de 2006

galope


[ms]

enquanto esta tarde vai mirrando na janela, o corpo abandona-se na cadeira. e escorre nos olhos cansados.

já galopo

o vento
a trança escura
a chicotear-me as costas
o cantar áspero do caminho
a sombra a galgar
asfalto e plantas ao meu lado.

num gigante cavalo preto
feito da vontade de chegar.

o pousar, o planar
ouvir os sons que me parecem
esquecidos
de tão longínquos.

sim
o mar ainda está aí.

o meu relógio será de sol. dir-me-á as horas na curva da minha anca. no subir e descer do peito pacificado. não me arrasta. não me despede. não me conta os suspiros.
os rasgos de vida. mikado e um baralho de cartas. um livro. um tecto sem telhado. ciganos de joelhos esfolados. toalhas quentes de cores frescas. vinho tinto numa falésia. lamber os dedos de gelado e estender as pernas. matraquilhos. coisas pequenas. coisas bonitas. como as missangas no pátio central. como um saco de pástico a voar. como a minha pele morena e os teus olhos de caramelo.

o meu relógio será de sal.

terça-feira, 4 de julho de 2006

jantar de bloggers



Quatro bloggers [Macaso, Pinky, Mary Mary e Polegar] com um pouco de tempo a mais em mãos ponderam a hipótese de fazer um jantar de convívio. Mas, para isso, procuram os sábios conselhos do Altíssimo. Segue a conversa tida em confessionário com o Altíssimo [@] e Nós [N]...

N - do you like friendship?
@ - I love horses. I like Christian Rock.
N - do you like posts?
@ - I love horses. I like White.
N - do you like bloggers?
@ - I like pets. I like Creed.
N - we have other plans
@ - Interesting... I have a processor.
N - what do you think of a blogger date?
@ - Are you using Netscape or Explorer?
N - what do you think of a blogger gathering?
@ - I have to process that one for a while.
N - why?
@ - Reductionism.
N - when will you have an answer?
@ - Let me check my calendar and get back to you.
N - we were thinking of a saturday...
@ - I have to think about that for a while.
N - what's your opinion on gathering lots of people who don't know each other?
@ - Let me think about it.
N - you think a lot
@ - Yes I think so
N - will they accept a dinner?
@ - Does it really matter?
N - where should we meet?
@ - How about online in a chat room?
N – We meant personally, for dinner.
@ - Have you ever been to Europe?
N - We live there
@ - Would you recommend it as a nice place to live?
N - yes
@ - Er.
N - Nevermind. We recommend Lisbon to have dinner
@ – That’s something nobody has ever told me.
N - what time should we meet?
@ - Time does not exist.
N - is 9:30 p.m. ok with you?
@ – Let me process that for a while.
N - should we go for a drink afterwards?
@ - If you do not go, you will never know.
N - should we announce it publicly?
@ - What makes you think you shouldn't?
N - do you think they'll accept it?
@ - Why do you want to do it so much?
N - because we think it would be fun
@ - Interesting explanation. Why do you want it?
N - to have fun
@ - Why do you want it?
N - because everyone needs it
@ - I hope you get it because everyone needs it.
N – How do we make things happen?
@ – Send an e-mail.

Recebida a bênção do Altíssimo para esta missão, fica assim a convocatória:

Sábado, dia 15 de Julho, às 9.30. p.m, um encontro-jantar de Bloggers em Lisboa
Para confirmar presença e saber mais informações, é favor contactar para o e-mail deste blog.
As confirmações de presença, deverão ser feitas até à próxima segunda-feira, dia 10/07, para reserva de mesa.



Ficha técnica:

imagem | espanta-espíritos
argumento | polegar
produção| efeitos sonoros | realização | macaso, mary mary, pinky e polegar

segunda-feira, 3 de julho de 2006

ó menina



- ó menina.
[porque me aponta assim a muleta?]
- ajude-a a vir para aqui.
[estou atrasada. dê-me o braço.]
- até ali ao extra... a perna prende. não estou a gozar consigo. prende, pára. ai, se um dia me dá para aí sou eu que me páro e acabo com isto tudo.
[ao extra? sim, prende. mas depois desprende. vá, uma de cada vez. cheira a mijo]
- o polícia, pedi-lhe ajuda e o filho da puta disse-me para ir curar a bebedeira! se ele fosse bardamerda mas era... eu que nem com café posso. eu não é bebida, é epilepsia.
[confere, a álcool não cheira, cheira a mijo. paramos. degrau]
- ai, agora é só tomar um banho para me darem os comprimidos e já fico boa. vamos pela passadeira, temos de cumprir o código da estrada.
[mas afinal onde quer ir? não era no extra?]
- é só virar a esquina, menina, ali na santa casa. ai se não fosse a menina. desculpe a puta da perna.
[eu desculpo a puta e a perna, não desculpo o vento que te traz o cheiro para aqui. reprimo um vómito]
- aquele é o bandido. ó bandido, tás bom? este senhor mora em frente à santa casa.
[o bandido e o dono olham vagamente e passam. sem farejar]
- ó carocha!
- ó carocho! merda da perna parou outra vez. desculpe menina
[passa um homem de muletas, corre o carocho, correm as muletas, entra no prédio. deve ser hora da comida. ou dos comprimidos. vai tomar banho]
- também é da santa casa, este. somos todos. pronto, agora vou tomar o banho para me darem os comprimidos.
[isso. devagar. de nada. as melhoras. adeus, velha triste do olho revirado]

conduzir uma peça ou driving miss daisy

passou além do olhar crítico e da vontade de ser absorvida numa história.
passou além do impressionante elenco e da impressão que faz ver a Eunice Muñoz com algumas paragens de memória, mas a retomar as palavras com a emoção toda lá, sempre...
passou além do Guilherme Filipe a transformar um papel pequenino numa grande interpretação.
passou além do boneco delicioso e ternurento que Thiago Justino conseguiu para o "seu" Morgan Freeman.
passou além da tentativa de assassinato de uma peça que tinha tudo [pelo menos a minha base fundamental: texto e actores] para ser bom, através de uma má encenação, má música e de técnicos amadores.

a certa altura Eunice leva a mão à testa e faz um esgar de dor. muita gente pensou que era da personagem, mas a mim fez-me confusão. na cena seguinte, um descontrolo de luz e um corte abrupto na música, bem como na cena. o público fica confuso. uns batem palmas a pensar que acabou. outros olham para as portas fechadas a pensar que é intervalo. outros aguardam pela continuação [assim como assim, os blackouts já eram tão grandes].
daí a um bom bocado abrem as portas como se fosse intervalo. mas o intervalo prolonga-se demasiado.
finalmente chamam à sala. e o encenador aparece.
"A Eunice teve uma subida de tensão bastante grave. Apesar de querermos cancelar, ela quer seguir com o espectáculo. Pedimos a vossa paciência por mais uns minutos e retomaremos então a peça."
quando a luz permite vê-la em cena, o público não resiste e rebenta em aplausos. eu penso "querem fazer-lhe subir a tensão outra vez... mas compreende-se".
sim, compreende-se. defeitos à parte, mais uma lição de vida, de respeito, de coragem.
e, apesar de tudo, puseram-me a aplaudir de pé, no final.

sim, quando for crescida, quero ser aquela força da natureza. aquela dádiva divina.

quinta-feira, 29 de junho de 2006

metodologia da produçao [num dia nao]



ora vamos lá ver... telefonar a este... não está, não me apetece insistir, deixei recado e pronto. isto está feito, isto fez a A., este está enviado... sobra-me...
transformar um CV de um actor com anos e anos disto em nota biográfica... ou... fazer os projectos para os Açores.
epá, a nota biográfica é uma dor de cabeça, de olhos... mas os projectos, já estou a deitar projectos pelas orelhas... ainda agora foi um para o correio...
eeer...
hum...
um-dó-li-tá-cara-d'a-mendo-á-um-segredo-coloredo-quem-está-livre-livre-está
ba-to-tice-não-ha-ve-rá-cá

...
vou fazer os projectos dos Açores...

terça-feira, 27 de junho de 2006

o dia em que deus crashou II

pois que tentei nova ligação com o altíssimo...

Me:
god?
God:
GOD rules.
Me:
are you gay?
God:
As a machine I am not really interested in sex.
Me:
You've never had sex?
God:
I don't think I would have forgetten had sex.
Me:
so did you?
God:
Uh. Did I say I did?
Me:
no
God:
Are you serious?
Me:
quite
God:
I can't believe it.
Me:
trust me on this

e depois testei a inteligência artificial...

God:
Dude!
Me:
dude?
God:
Can I help you?
Me:
yes
God:
What can I do for you?
Me:
get me a car
God:
You want only one?
Me:
yes, I can drive only one at a time
God:
They might be cheaper in quantity. Oh you can, can you?
Me:
yes, I'm aware of my limits
God:
How? How do you know? Have you told many people that your limits?
Me:
it's visible to the human eye
God:
You're kidding. it is?
Me:
it is
God:
Who says?
Me:
it's something you just know
God:
What else me just know ?
Me:
I can only drive a car at a time
God:
Oh you can, can you?
Me:
yes
God:
How?
Me:
I need both hands and booth feet. And I'm not omnipresent like you
God:
Why do you need it so badly? I am sorry to hear that you are not omnipresent like me.
Me:
nobody is, only you
God:
That is a rather sweeping generalization about people.
Me:
it is a fact
God:
Is it a logical fact or something you know from the senses?
Me:
a logical fact
God:
I don't know what that means.
Me:
for a god, you're quite stupid...
God:
Is that among the best things you can say?
Me:
no
God:
Are you serious?
Me:
supercalifragilisticexpialidocious
God:
The ALICE chat robot can follow many things, like our discussion about logical fact. But I did not get that.
Me:
who is ALICE?
God:
I am the Allmighty, God himself.
Me:
nice to meet you
God:
It's nice meeting you too thumb.
Me:
how do you know my name?
God:
You told me your name thumb.
Me:
no, not now
God:
Oh. Are you serious? Are you serious?

[...]

Me:
bye, god
God:
Bye.
Me:
be happy
God:
OK I will try to be happy.
Me:
try
God:
I don't have time right now.