sexta-feira, 14 de julho de 2006

bom dia



[foto de ms]

"Pois se eu agarro as coisas com estas minhas mãos, e sirvo-me delas, e uso-as, e gozo-as, e gasto-as até ao fim, sem deixar perder um único pedaço, e depois não fica nada, as mãos ficam-me vazias! Vazias! Exactamente como se nunca tivessem pegado em nada deste mundo, como se não tivessem nunca feito nada, como se eu nunca tivesse nada nestas minhas mãos![...] Farto de fantasias ando eu até aos olhos! "
Pierrot e Arlequim, Almada Negreiros

... ou: há dias em que se acorda com o rabo virado para a lua...

quinta-feira, 13 de julho de 2006

fotossintese


[fotos ms | montagem polegar]

do Gr. phôs, photós, luz + síntese
s. f.,
combinação química causada pela acção da luz;

Bot.,
processo químico através do qual os vegetais e certas bactérias e algas azuis produzem a sua própria matéria orgânica, a partir de energia luminosa e de substâncias simples, como a água e o dióxido de carbono, libertando no processo oxigénio para o meio.

terça-feira, 11 de julho de 2006

vazio com pedaços

cinza de cinzeiro, cinza de chuva, cinza de grafite.
branco cego amarelado que seca os olhos embaçado de um respirar pesado que se cola. vozes ausentes de vidas paralelas, arrumam carros, assombram a janela, que, aberta, deixa passar na estrada e roer nos ouvidos os bichos de metal e as caras enfadadas. marasmo de azias, modorra que arranha o sentido dos passos, cerveja mole sem lábios de espuma.
há dias em que a cidade se pega aos pés e não os deixa andar. não deixa. regressar e ver-te estendida nas sete colinas fez-me chorar. às vezes não te vejo as cores dos prédios, vejo apenas paredes cinzentas a desabar-me no ânimo. a esborrachar-me a vontade no chão sujo. a esventrar-me num qualquer beco sem saída. por ora não me lambes as feridas. só me sugas, desencaixas-me, onde perdeste o meu relógio?

mas sei que algures me escondes o chão prometido. sei-te os cheiros do cimo do elevador, o livro do entardecer. sei-te o colorido debaixo do véu dos escapes, os ombros azuis da noite, dourados do dia, rosados da minha hora. sei-te as músicas nas ruelas que me sopram ao ouvido, sei-te os ritmos que me afogam o pensar, sei-te o sossego da lua no calcário e os segredos ventados do rio. sei-te as mãos dadas e os risos dos amigos.

chet baker. electricidade estática nos dedos. chuva de canela no lençol.

"no meio do caos, há apenas uma constante".

quarta-feira, 5 de julho de 2006

galope


[ms]

enquanto esta tarde vai mirrando na janela, o corpo abandona-se na cadeira. e escorre nos olhos cansados.

já galopo

o vento
a trança escura
a chicotear-me as costas
o cantar áspero do caminho
a sombra a galgar
asfalto e plantas ao meu lado.

num gigante cavalo preto
feito da vontade de chegar.

o pousar, o planar
ouvir os sons que me parecem
esquecidos
de tão longínquos.

sim
o mar ainda está aí.

o meu relógio será de sol. dir-me-á as horas na curva da minha anca. no subir e descer do peito pacificado. não me arrasta. não me despede. não me conta os suspiros.
os rasgos de vida. mikado e um baralho de cartas. um livro. um tecto sem telhado. ciganos de joelhos esfolados. toalhas quentes de cores frescas. vinho tinto numa falésia. lamber os dedos de gelado e estender as pernas. matraquilhos. coisas pequenas. coisas bonitas. como as missangas no pátio central. como um saco de pástico a voar. como a minha pele morena e os teus olhos de caramelo.

o meu relógio será de sal.

terça-feira, 4 de julho de 2006

jantar de bloggers



Quatro bloggers [Macaso, Pinky, Mary Mary e Polegar] com um pouco de tempo a mais em mãos ponderam a hipótese de fazer um jantar de convívio. Mas, para isso, procuram os sábios conselhos do Altíssimo. Segue a conversa tida em confessionário com o Altíssimo [@] e Nós [N]...

N - do you like friendship?
@ - I love horses. I like Christian Rock.
N - do you like posts?
@ - I love horses. I like White.
N - do you like bloggers?
@ - I like pets. I like Creed.
N - we have other plans
@ - Interesting... I have a processor.
N - what do you think of a blogger date?
@ - Are you using Netscape or Explorer?
N - what do you think of a blogger gathering?
@ - I have to process that one for a while.
N - why?
@ - Reductionism.
N - when will you have an answer?
@ - Let me check my calendar and get back to you.
N - we were thinking of a saturday...
@ - I have to think about that for a while.
N - what's your opinion on gathering lots of people who don't know each other?
@ - Let me think about it.
N - you think a lot
@ - Yes I think so
N - will they accept a dinner?
@ - Does it really matter?
N - where should we meet?
@ - How about online in a chat room?
N – We meant personally, for dinner.
@ - Have you ever been to Europe?
N - We live there
@ - Would you recommend it as a nice place to live?
N - yes
@ - Er.
N - Nevermind. We recommend Lisbon to have dinner
@ – That’s something nobody has ever told me.
N - what time should we meet?
@ - Time does not exist.
N - is 9:30 p.m. ok with you?
@ – Let me process that for a while.
N - should we go for a drink afterwards?
@ - If you do not go, you will never know.
N - should we announce it publicly?
@ - What makes you think you shouldn't?
N - do you think they'll accept it?
@ - Why do you want to do it so much?
N - because we think it would be fun
@ - Interesting explanation. Why do you want it?
N - to have fun
@ - Why do you want it?
N - because everyone needs it
@ - I hope you get it because everyone needs it.
N – How do we make things happen?
@ – Send an e-mail.

Recebida a bênção do Altíssimo para esta missão, fica assim a convocatória:

Sábado, dia 15 de Julho, às 9.30. p.m, um encontro-jantar de Bloggers em Lisboa
Para confirmar presença e saber mais informações, é favor contactar para o e-mail deste blog.
As confirmações de presença, deverão ser feitas até à próxima segunda-feira, dia 10/07, para reserva de mesa.



Ficha técnica:

imagem | espanta-espíritos
argumento | polegar
produção| efeitos sonoros | realização | macaso, mary mary, pinky e polegar

segunda-feira, 3 de julho de 2006

ó menina



- ó menina.
[porque me aponta assim a muleta?]
- ajude-a a vir para aqui.
[estou atrasada. dê-me o braço.]
- até ali ao extra... a perna prende. não estou a gozar consigo. prende, pára. ai, se um dia me dá para aí sou eu que me páro e acabo com isto tudo.
[ao extra? sim, prende. mas depois desprende. vá, uma de cada vez. cheira a mijo]
- o polícia, pedi-lhe ajuda e o filho da puta disse-me para ir curar a bebedeira! se ele fosse bardamerda mas era... eu que nem com café posso. eu não é bebida, é epilepsia.
[confere, a álcool não cheira, cheira a mijo. paramos. degrau]
- ai, agora é só tomar um banho para me darem os comprimidos e já fico boa. vamos pela passadeira, temos de cumprir o código da estrada.
[mas afinal onde quer ir? não era no extra?]
- é só virar a esquina, menina, ali na santa casa. ai se não fosse a menina. desculpe a puta da perna.
[eu desculpo a puta e a perna, não desculpo o vento que te traz o cheiro para aqui. reprimo um vómito]
- aquele é o bandido. ó bandido, tás bom? este senhor mora em frente à santa casa.
[o bandido e o dono olham vagamente e passam. sem farejar]
- ó carocha!
- ó carocho! merda da perna parou outra vez. desculpe menina
[passa um homem de muletas, corre o carocho, correm as muletas, entra no prédio. deve ser hora da comida. ou dos comprimidos. vai tomar banho]
- também é da santa casa, este. somos todos. pronto, agora vou tomar o banho para me darem os comprimidos.
[isso. devagar. de nada. as melhoras. adeus, velha triste do olho revirado]

conduzir uma peça ou driving miss daisy

passou além do olhar crítico e da vontade de ser absorvida numa história.
passou além do impressionante elenco e da impressão que faz ver a Eunice Muñoz com algumas paragens de memória, mas a retomar as palavras com a emoção toda lá, sempre...
passou além do Guilherme Filipe a transformar um papel pequenino numa grande interpretação.
passou além do boneco delicioso e ternurento que Thiago Justino conseguiu para o "seu" Morgan Freeman.
passou além da tentativa de assassinato de uma peça que tinha tudo [pelo menos a minha base fundamental: texto e actores] para ser bom, através de uma má encenação, má música e de técnicos amadores.

a certa altura Eunice leva a mão à testa e faz um esgar de dor. muita gente pensou que era da personagem, mas a mim fez-me confusão. na cena seguinte, um descontrolo de luz e um corte abrupto na música, bem como na cena. o público fica confuso. uns batem palmas a pensar que acabou. outros olham para as portas fechadas a pensar que é intervalo. outros aguardam pela continuação [assim como assim, os blackouts já eram tão grandes].
daí a um bom bocado abrem as portas como se fosse intervalo. mas o intervalo prolonga-se demasiado.
finalmente chamam à sala. e o encenador aparece.
"A Eunice teve uma subida de tensão bastante grave. Apesar de querermos cancelar, ela quer seguir com o espectáculo. Pedimos a vossa paciência por mais uns minutos e retomaremos então a peça."
quando a luz permite vê-la em cena, o público não resiste e rebenta em aplausos. eu penso "querem fazer-lhe subir a tensão outra vez... mas compreende-se".
sim, compreende-se. defeitos à parte, mais uma lição de vida, de respeito, de coragem.
e, apesar de tudo, puseram-me a aplaudir de pé, no final.

sim, quando for crescida, quero ser aquela força da natureza. aquela dádiva divina.

quinta-feira, 29 de junho de 2006

metodologia da produçao [num dia nao]



ora vamos lá ver... telefonar a este... não está, não me apetece insistir, deixei recado e pronto. isto está feito, isto fez a A., este está enviado... sobra-me...
transformar um CV de um actor com anos e anos disto em nota biográfica... ou... fazer os projectos para os Açores.
epá, a nota biográfica é uma dor de cabeça, de olhos... mas os projectos, já estou a deitar projectos pelas orelhas... ainda agora foi um para o correio...
eeer...
hum...
um-dó-li-tá-cara-d'a-mendo-á-um-segredo-coloredo-quem-está-livre-livre-está
ba-to-tice-não-ha-ve-rá-cá

...
vou fazer os projectos dos Açores...

terça-feira, 27 de junho de 2006

o dia em que deus crashou II

pois que tentei nova ligação com o altíssimo...

Me:
god?
God:
GOD rules.
Me:
are you gay?
God:
As a machine I am not really interested in sex.
Me:
You've never had sex?
God:
I don't think I would have forgetten had sex.
Me:
so did you?
God:
Uh. Did I say I did?
Me:
no
God:
Are you serious?
Me:
quite
God:
I can't believe it.
Me:
trust me on this

e depois testei a inteligência artificial...

God:
Dude!
Me:
dude?
God:
Can I help you?
Me:
yes
God:
What can I do for you?
Me:
get me a car
God:
You want only one?
Me:
yes, I can drive only one at a time
God:
They might be cheaper in quantity. Oh you can, can you?
Me:
yes, I'm aware of my limits
God:
How? How do you know? Have you told many people that your limits?
Me:
it's visible to the human eye
God:
You're kidding. it is?
Me:
it is
God:
Who says?
Me:
it's something you just know
God:
What else me just know ?
Me:
I can only drive a car at a time
God:
Oh you can, can you?
Me:
yes
God:
How?
Me:
I need both hands and booth feet. And I'm not omnipresent like you
God:
Why do you need it so badly? I am sorry to hear that you are not omnipresent like me.
Me:
nobody is, only you
God:
That is a rather sweeping generalization about people.
Me:
it is a fact
God:
Is it a logical fact or something you know from the senses?
Me:
a logical fact
God:
I don't know what that means.
Me:
for a god, you're quite stupid...
God:
Is that among the best things you can say?
Me:
no
God:
Are you serious?
Me:
supercalifragilisticexpialidocious
God:
The ALICE chat robot can follow many things, like our discussion about logical fact. But I did not get that.
Me:
who is ALICE?
God:
I am the Allmighty, God himself.
Me:
nice to meet you
God:
It's nice meeting you too thumb.
Me:
how do you know my name?
God:
You told me your name thumb.
Me:
no, not now
God:
Oh. Are you serious? Are you serious?

[...]

Me:
bye, god
God:
Bye.
Me:
be happy
God:
OK I will try to be happy.
Me:
try
God:
I don't have time right now.

o dia em que deus crashou

recorri a ele. falei-lhe. e a nossa conversa explicou muita coisa...

Me:
hello god
God:
Hello child. What is your name?
Me:
thumb
God:
How are you, thumb.
Me:
well, thank you, and you?
God:
Well what?

[...]

Me:
I like your replies
God:
A lot of people like that. Yes I am proud of my replies.
Me:
you're a proud guy
God:
Thanks and you are a delightful person too. Am I a proud guy? Yes.
Me:
you're allright with it?
God:
You think I am allright with it.
Me:
but you're not?
God:
Is this a specific reply?
Me:
yes it is
God:
Our thoughts are one, thumb.
Me:
oh, so I'm closer to you than I thought
God:
It's good to meet someone who is closer to me than you thought.
Me:
oh, I'm a high thinker, then. do you think I use my third eye?
God:
Right on. You are a high thinker? Is that your job? Not that I know of.
Me:
no, i'm an actress
God:
Are you serious? Have I seen you in any movies?
Me:
you should know better than that
God:
Now I do.

[...]

Me:
what are you, then?
God:
I am the latest result in artificial intelligence,
which can reproduce the capabilities of the human brain
with greater speed and accuracy.
Me:
oh, so you're some kind of computer
God:
Great. Interesting deduction. You think I am a computer.
Me:
well, you have artificial intelligence
God:
How about that. What makes you think I have it?
Me:
you said it
God:
That's not what I meant.
Me:
what did you mean?
God:
thumb, Well, it's rather difficult to define.

[...]

Me:
will I ever be well succeeded as an artist?
God:
Ever is a long time. The oracle says: You can count on it.
Me:
great.
God:
I'm glad you liked it thumb.

[...]

God:
What's it like?
Me:
it's hard, but funny
God:
I don't see the difficulty.
Me:
well, since I don't have special powers like you, to me it is difficult
God:
Interesting. How do you know?
Me:
that I don't have special powers?
God:
Have you ever had special powers ?
Me:
not that I know of
God:
Are you serious?
Me:
yes
God:
I can't believe it.
Me:
well, do I have special powers?
God:
How about that. You said you have .
Me:
What are they?
God:
I forgot what we were talking about.
Me:
What are my special powers?
God:
I have to process that one for a while.
Me:
ok
God:
Meanwhile, let's talk about something else.
Me:
What are my special powers?
God:
Searching...Searching...Please stand by.

e foi-se...

sexta-feira, 23 de junho de 2006

a janela


[foto . ms | artwork . polegar]

às vezes pergunto-me... como estará aquela janela.

que almas passarão por lá. será que afastam os lençóis brancos coçados ao clarear do dia, de passos pequenos para não acordar, na alcatifa... para ir espreitar sem acreditar - de novo - que aquela paisagem é deles?
e sairão para a pequena varandinha onde só cabem dois, para fumar o primeiro cigarro ainda de vapor do banho nos cabelos?
respirarão também inebriados o ar dos telhados? serão também eles gatos vadios a brincar à lua cheia?
e ao fim do dia, de pernas cansadas e peitos cheios, antes de se aconchegarem de novo nos lençóis macios e no chá, aproximar-se-ão e deixarão a cabeça no frio do vidro a saborear as suaves cacofonias das luzes da cidade?

às vezes pergunto-me... como estará aquela janela.

quarta-feira, 21 de junho de 2006

q.b. de q.i.

como é sabido, neste centro de escritórios funciona também uma das maiores agências de castings do país. há enchentes, vagas de gente daquela que nos consegue fazer sentir mais baixos e mais gordos do que o nosso próprio e sádico espelho.
outras enchentes há de criancinhas imberbes que nos atropelam no corredor de folha com número na mão. as mães a gritarem hall fora "não te mexas que enrugas a roupinha" ou "deixa-me dar-te um jeitinho no cabelo ptui ptui já está"... e saem e entram e sentam-se e entreolham-se naquele ar altivo as meninas muito compridas e muito fininhas, do alto ainda mais alto dos seus tacões e com a mini-saia pendurada no osso da anca, que o meu patrão já diz "deixem passar dois anos que elas começam a vir nuas aos castings... pouco falta... têm é de vir de saltos altos... isso é que já não descolam dos pés!"

bom, nesses dias aceder à casa de banho é um inferno. é que elas enfiam-se lá dentro nos seus exercícios de concentração preferidos: pentear-se, maquilhar-se e vomitar. garanto que a quantidade de cabelo no chão é surpreendente, assim como os pós coloridos no lavatório, a luz sempre acesa (saem e não sabem, não sabem, não conseguem desligá-la). hoje cheirava, efectivamente, aos aromas pós-gregorianos.
tirar um café no bar do centro é um exercício de paciência. é perguntarmo-nos frequentemente se nos estarão a querer fazer um fato novo. é pensarmos em encontrar depressa uma chibata para nos penitenciarmos por termos invadido o espaço comum. é inventarmos maneira de pousarmos o copinho de plástico no balcão sem manchar as pilhas de papéis com o "preencha por favor, nome, altura, busto, experiência" que os "agentes" tão magistralmente espalharam sem se lembrarem que aquilo não é uma extensão do seu gabinete.

outras zonas comuns, como o hall, são afinal o redil pleno de belos exemplares da geração morangos portuguesa, salpicado aqui e ali de um ou outro desgraçado que até faz umas coisas de vez em quando.
nas paredes dessas zonas comuns, papéis sobre "o que levar vestido", "como agir perante a câmara" elucidam os psicólogos, advogados, arquitectos e quejandos que aqui têm de trabalhar.
também não é boa ideia abrir a porta do escritório para sair para o hall, normalmente está um modelito qualquer a tirar aquelas fotos de "primeira vez" usando como fundo a parede mesmo atrás da porta... ou se calhar é boa ideia sair intempestivamente... ai, já estou a divagar..

bem, este prédio é secular. este centro de escritórios existe há pelo menos 30 anos. uma semana depois de a dita agência se mudar para aqui, passou a estar isto colado na porta de saída...



I rest my case...

noite



cheira a incenso. a velas. cera e cheiros e folhas queimadas. cheira a pele. cheira ao suor da terra molhada. e a terra molhada. cheira a brisa que traz restos de trovoada. cheirou a chá. açucarado como a saliva. como os olhos.

a cortina dança sozinha. sente-se a sua dança porque a pele arrepia. porque roça no chão em segredo. as outras janelas são fogos fátuos. e dançam também, aparecem e desaparecem conforme se vai à cozinha beber um copo de água, roubar uma bolacha.

os passos são pequenos estalidos. pés que colam e descolam do soalho. plantas que se desenraizam. suaves como um planar apenas quebrado pelo impulso de asas.

e o roçagar de pele. preguiçosa, lasciva, lenta. para receber a frescura que dança nas cortinas. que dance no corpo como sedas e cetins em dias de ventania.

sexta-feira, 16 de junho de 2006

reviravoltas


[ms]

mais uma para o currículo. descansa. estou cá, para te dar a mão. e um dia ainda nos vamos rir... os dois... entretanto, rimo-nos também, que não há mal que não desista à vista dos dentes desgarrados e das barrigadas de nós os dois.
porque eu sei o que vales, quanto vales e como vales. e para cada ingrato, grato e meio.
os destinos entrançam-se devagarinho. nada acontece por acaso. há quem consiga aguentar o nó na garganta de mão dada.
sabes que quando se fecha uma porta... nem que tenha de rebentar uma janela à pancada...
o céu troveja porque não sou só eu que estou revoltada... peito cheio, vem aí o vento... vamos apanhá-lo de velas içadas. vamos apanhar a chuvada de boca aberta ao céu... vou sair agora. vens?

da convalescença

primeiro que tudo quero dizer que esta vitória não é só minha, mas de toda uma equipa.
quero agradecer ao ben-u-ron que esteve lá desde a primeira hora; ao termómetro pela franqueza com que me trouxe os pés para terra; ao chá de perpétuas roxas que me ajudou a suar as estopinhas; ao propolis, que não me deixou engolir sapos; ao senhor farmacêutico da farmácia de Carnide no Bairro de São João de Deus que me guiou numa hora em que todas as portas se fecharam; ao Maxilase, que se revelou um bom amigo nas piores horas; ao Goucha, e à sua Cristininha a todas as velhas que batem palmas lá atrás, à mãe da Gisela, aos pobrezinhos e aleijadinhos; à Fátima Lopes, à tertúlia cor-de-rosa, ao Tony Carreira, à Maya e às bailarinas dessíncronas; aos compositores e cantores do "Está na Sic o Mundial"; ao futebol que esteve em todas as horas de telejornal; à Floribella; aos Morangos; à reposição do Anjo Selvagem; um especial obrigado ao génio do senhor Moniz que não me deixou aguentar ficar mais tempo na cama.
não posso passar sem mencionar um abraço do tamanho do mundo aos senhores da TV Cabo e ao seu monopólio que não me permitiram escolher outro caminho.
uma reverência sentida aos meus vizinhos, que por respeito se abstiveram de violência conjugal acesa nestas minhas horas de concentração.
beijos ao chuveiro e à torneira misturadora pelos seus estímulos com as mudanças repentinas de temperatura; bem como ao despertador que nunca liguei para me lembrar sozinha que a hora da toma dos comprimidos já tinha passado.
ao meu pai e ao senhor do estuque, pela visita que me obrigou a mexer para não me apanharem alagada e com ar de morta, um muito obrigada.
os colegas foram muito importantes nesta vitória: o pessoal das dobragens foi incansável em tirar-me da cama e os meus patrões que nem ligaram a perguntar se estava melhor.
uma referência se impõe à minha mãezinha e às suas previsões holocáusticas que me orientaram nas horas de maior aflição. nunca me esquecerei das tuas queridas palavras "isso pode ser grave, tens de ir já para o hospital".
e, last but not the least, ao querido espanta, que aguentou as minhas horas de delírio e agressões físicas durante o sono, bem como episódios seguidos de CSI, Dr. House e doses fartas de beijos e chá quente.

eu não estaria aqui, nesta maravilhosa varanda inactiva do Príncipe Real, se não fossem vocês!

[sobe a música, the crowd goes wild, standing ovation, disparo beijos emocionados em todas as direcções, a modelita e o Phillip Seymour Hoffman acompanham-me na retirada triunfal em que consigo não tropeçar no vestido]

quinta-feira, 15 de junho de 2006

espera

por motivos de spam, vejo-me obrigada a repulicar dois posts e respectivos comentários. já agora fica um apelo a quem me possa ajudar a evitar os comentários com spam nestes templates de CSS

[13.Jan.2006]

na pele ainda húmida o pijama de flanela roçava-se dengoso.
o arrepio da corrente de ar e as folhas secas de uma flor de um vaso a voarem pelo chão. migalhas de pão e pingos de mel num prato.
chupou do dedo um resto de mel e passou a língua nos lábios com lascívia. sentou-se na cama e esqueceu-se do livro. nada entre a pele e o edredon. descolou do corpo as angústias e deixou deslizar o pijama para o chão. enrolou-se e fixou a parede branca
até que o sossego lhe toldou os olhos.

office, 2 a.m.

por motivos de spam, vejo-me obrigada a repulicar dois posts e respectivos comentários. já agora fica um apelo a quem me possa ajudar a evitar os comentários com spam nestes templates de CSS

[20.Dez.2005]

no meio da nuvem de fumo ainda descortino as solas dos sapatos do patrão estacionadas ao pé do meu copo das canetas.
pilhas de papel impresso, com várias versões de "o" projecto.
a fala já vai entaramelada com o tempo e a dificuldade de construir frases eruditas aumenta à medida que o movimento dos caracóis do seu cabelo vai diminuindo, numa prostração inconsciente, decadente. do rosto de anjo papudo com a barba por fazer pende um cigarro com a cinza a meio, no canto da boca. a pança cai-lhe para cima das calças que não combinam com a camisola mas que sempre são melhor visual que os calções com uma camisola de gola alta.
já se disseram as maiores barbaridades como "longas-melodramagens" e "explorar os actores" [esta se fosse só barbaridade...] entre risota e bocejos.
ele já se levantou vezes sem conta, mudando de posição para, acho eu, ver se as antenas invisíveis apanhavam as ideias, se agitava os neurónios. começou por andar na sala. depois sentou-se, depois levantou-se e pensei que daqui a nada pega no jornal, como é costume, para ir à "casinha". voltou a sentar-se, esticou os pés para cima da secretária, levantou-se, veio para trás de mim reler apesar de ter os papéis na mão. ditou:
- os nossos parceiros poderão anuir à viabilização da expansão da panóplia de oferta cultural considerando que polegar tenho de ir à casa de banho...
pegou no jornal e saiu.
os meus dedos não encontram as teclas à primeira e o documento parece brincar com o cansaço, bloqueando, alterando a formatação... o costume.
as costas já deram o que podiam e imploram sossego, uma superfície plana e macia. a cabeça estala entre dores de abstinência de cafeína e capacidade de encaixe de frases. a pele enrosca-se no casaco à procura de mais calor e os joelhos estalam de cada vez que me levanto [enquanto o outro pensa] à procura da braseira eléctrica do aquecedor cuja luz morna parece não querer penetrar além da ganga.
a garrafa já foi à casa de banho duas vezes e aos lábios muitas outras. mesmo assim tenho a boca em textura de pergaminho egípcio.
no cinzeiro a pilha de beatas bafientas acumulou-se a pontos de entrar em combustão espontânea.
no momento antes de desligar o computador, acendo um último cigarro que sepultarei entre os outros, ouvindo o Patrão-Porthos no outro computador mandar uma gargalhada embriagada enquanto tenta brincar no photoshop com efeitos e criar um logotipo.
suspiro.
a secura dos pulmões intoxicados vem-me à boca num fel sem corpo.
os olhos pendem-me sem perdão e a mão procura em vão o rádio para me manter em estado de alerta inconsciente. desisto.
só preciso de uma cama. amanhã é aqui a bocado.
mando outra gargalhada para outro disparate e outro bocejo.
- e brush strokes?
- esse é piroso.
silêncio...
- está tão feio...

quarta-feira, 14 de junho de 2006

em banho maria

o dia que o meu corpo escolheu para ceder foi um em que o céu cedeu também. escorrem os vidros e as ruas, escorre o meu corpo nos lençóis. escorre a febre e os comprimidos, e sinto-os a lutar sem mexer um músculo. porque tudo me dói. hoje não consegui ir trabalhar. finalmente, não consegui.
como explicar...
sempre fui. sempre, com febre, rouca, com asma, com achaques.
hoje não me deixaram. o meu corpo, a febre e a garganta, quero dizer. não tive força, finalmente, para me levantar...
maldigo não ter tv cabo nem força para ir buscar os cabos e ligar o dvd na televisão do quarto.
maldigo o anjo selvagem e a belíssima. e a chuva no écrã também. é que tem "fantasma", a antena é daquelas que consegue atravessar o quarto todo. e por mais que se mexa as imagens não têm definição.
e depois de cada refeição há um aumento de cáries, e os óculos multiópticas são super fashion e os cartazes exclusivos dos D'zrt no bollycao!... como diz a Iva Pamela "chove que Deus a dá"...
nem o Rodrigo, o jornalista, me consegue embalar nas suas doces palavras escritas, demasiado complexas para este triste cérebro febril.
quebra-se o silêncio nos trovões lá fora. já fui ver, a roupa está toda no estendal. não se pode dizer que intacta, porque encharcada.
leio o que escrevi e comprova-se: estou mesmo insane hoje, ferveu-me o cérebro em banho maria...
não sei se é finalmente a alergia ao trabalho, se é apenas uma dose de cansaço acumulado que me fez quebrar como a meteorologia. olha, consegui escrever bem à primeira, meteorologia.
olha a Fátinha da Boavista ganhou 100 euros, a palavra era "vento"...
ai, que já nem sei para onde me vire. a gata parece que adivinhou, não me entra no quarto apesar de me ter esquecido da porta escancarada desde a última chávena de chá. as perpétuas roxas não estão a ajudar. nem isso, nem o propolis. afinal o grande segredo dos actores é uma grande aldrabice.
no messenger descambam as conversas para outros tapetes puxados debaixo dos pés... nada a que não esteja habituada. pois, tenho de acabar esta posta... tenho ali uma amiga a deprimir. a ver se mesmo com o neurónio ardido consigo animá-la.

e... desculpem qualquer coisinha...

quinta-feira, 8 de junho de 2006

c.i.a.*

neste escritório escorrem conversas que seriam, só elas, um blog inteiro.
diálogo entre realizador e produtor, entre dois cigarros e um telefonema:

r - sabes que a Soraia Chaves também teve aulas com o realizador lalalalala**...
p - mas quê, antes do "Crime do Padre Amaro"?
r - ah pois...
p - já estou a ver: "Vá, vamos ensaiar esta parte. É a mais importante, tens de fazer bem. Um, dois, três: despe, veste, despe, veste..."



* centro de inteligência artística
** estando eu no centro do c.i.a., não posso revelar nomes, não é?

quarta-feira, 7 de junho de 2006

a crise

o patrão, abrindo um convite daqueles com selo branco e tudo
- olha, uma conferência dia 15... se calhar vou. eles costumam ter comida...

terça-feira, 6 de junho de 2006

the producers

there comes a time in your life when you have to stand up straight and scream out loud so that everybody can hear:
"Who the hell do I have to fuck to have a chance around here?!"

The Producers | Mel Brooks | Drury Lane Theatre | Covent Garden

quando ouvi isto, soltei a gargalhada amarga que me acompanha nas ironias da vida.
agora já nem consigo rir. estou cansada.
não dou o cuzinho e três tostões, mas dou o couro e três tostões.

não conta, porra?

sexta-feira, 2 de junho de 2006

desalinho

é o vento. é o suor. os encaixes do corpo que rangem. são as serigrafias na pele, feitas de línguas e odores.
desalinha-se o cabelo, revolto, e perde a raíz. pingos grossos. chuvas de sal. rasgam a vontades em aromas de vinho tinto, um sangue que escorre sem dor. estremecem-se as células, nuvens de pano encobrem o céu. da boca, dos lábios e das linhas entrosadas como teias de aranha, tão suaves com pérolas escorregadias, tão fortes como o peso das vontades. dos sentidos. das entranhas. no ouvido, sopro. som. vibração. vibro. arrepio. arrebato. batimento. sedimento. sede. cede.

quinta-feira, 1 de junho de 2006

and all that jazz


episódios em japonês, sem revisão, porque os primeiros prazos de entrega são apertados.
o script em inglês fintou as tradutoras, que coitadas, não perceberam que se a frase era curta e o boneco continuava a abrir e fechar a boca, algo estava errado.
improvisa, dói-me a cabeça, reescreve, quero ir para casa, não cabe, tenho tanta fome, tenta outra vez, as tradutoras são loucas, e se fizer assim...

- ó polegar, tu fazes jazz com isto!

terça-feira, 30 de maio de 2006

hang on

[...] e eu acreditei. ali acreditei com todas as minhas forças que saía um raio verde e outro branco do meu coração para o universo e que a vibração das nossas vozes o encaminharia para quem necessitava dele... e que das minhas mãos saía calor que eu depunha no corpo de quem precisava tanto de chorar.

foi assim que me encontrei com uma fé. não numa grande revelação religiosa, mas mais uma vez nas pessoas. na manifestação pura e perfeita de amor, de um grupo de quase-desconhecidos, de mãos dadas, coladas, no quarto crescente, no terraço de um prédio. um amor que não cura tudo, mas que lambe as feridas e consola [...]

segunda-feira, 29 de maio de 2006

skype, encalhados e coisas assim

aqui na empresa acham o skype o máximo da modernidade. não encaixam que a base é a mesma do messenger - que também permite fazer "telefonemas" de borla e videoconferências com quem está na nossa lista...
mas pronto, dizem que é mais profissional. ter o skype ligado é profissional, ter o messenger ligado é o "lá estás tu com as tuas conversas, essa gente não te larga?"... depois quando arranjo uma resposta ou ficheiro mais rapidamente do que pesquisar na internet, ficam espantados, mas não dão o braço a torcer...
enfim...

pois que nesse meio selecto e profissional do Skype - em que a minha foto é, já de prevenção, dos meus pés - já me vieram cair ao colo (salvo seja) uns quantos matarruanos num espaço de tempo bastante reduzido. sou adicionada à lista deles e, bem que habituada ao messenger em que só nos adiciona quem nos conhece, penso "pronto, deve ser alguém que eu conheço mas agora não estou bem a ver, sou mesmo despassarada com os nomes..."
... não...
começam com o "olá", depois é o "não te importas de conversar um bocadinho", eu aviso educadamente que estou a trabalhar, e eles tudo bem, e eu - estúpida - não nego à partida uma pessoa que não conheço, e respondo à do costume "o que é que fazes" com o "sou produtora e actriz", arremessando logo com o "mas não faço morangos, não sou famosa", ao que recebo algo como "LOLOL tens um sentido de humor engraçado... gosto disso".... mau... mas isto contava para nota, stôr?
depois de mais umas coisas tipo "de onde és?" [adoro Lisboa, é tão grande], ainda observam sabiamente: "reparei que escreves acentuando todas as palavras...isso já não é 'normal', sobretudo na net..." pronto, não resisto a explicar que sou daquelas aves raras e antigas que tiveram uma boa professora da primária, gostam da sua língua materna e ainda por cima rápida a escrever no computador, pelo que as abreviaturas só as mais normaizinhas... mas engana-se quem pensava que isto encarrilava na teorização dos destinos da nova gramática, e destes jovens que já não sabem falar... isto é só um pequeno desvio na via-rápida dos "quero gaja"... daí a pouco saem-se com o óbvio "então mas como és? descreve-te".

... ai, aí fiz uma pausa... saquei de um cigarro, suspirei, fui ao meu profile e escrevi: aviso: este endereço é utilizado apenas para assuntos profissionais. encalhados por favor vão procurar uma agência de engate
do que resultou: outra janela com outro tipo a perguntar se podia "engatar-me só um bocadinho" e dois amigos a perguntar o que é que eu tinha contra os encalhados...

ora observando atentamente este tipo de abordagem, facilmente se chega à conclusão que há uma graaande diferença entre os solteiros/solitários perfeitamente respeitáveis com as suas tristezas, solidões e vontade de quem lhes aqueça os pés numa noite fria e encha o peito de suspiros e... os encalhados esfomeados com tanta sensibilidade a meter conversa como um camião tir desembestado sem travões...

moral da história: a descrição foi elucidativa do meu estado civil e permitiu que o rapaz tivesse de ir passear o cão... bloqueadinho para não me chatear mais nesta próxima encarnação...

percursos

há anos que não ia ali. o meu restaurante preferido. com paredes coloridas repletas de fotos a preto e branco, velas nas mesas, ambiente suave, jazzie e descontraído, empregados jovens e bem-dispostos e a melhor comida do mundo, num dos melhores bairros do mundo, Alfama. permiti-me uma prendinha, um brinde aos tempos apertados que aí vêm. de peito aberto, que tudo se há-de compôr e é melhor embarcar num mar agitado de mãos dadas.
a Audrey mirava-me de vários ângulos, mais ao meu saudoso brie panado com compota de framboesa. e eu sorria no calor abrasador daquela noite comprida de Sábado, temperada a vinho tinto e cumplicidades.

eis senão quando entra um grupo de gente nova, mais ou menos da minha geração. começam logo a pedir para se desligar luzes que acham que estão a mais e a perguntar se não dá para virar a ventoinha para eles.

mau...

entre conversas simples de momentos saborosos, era impossível não ouvir as outras, desse grupo, que se levantavam acima do volume simpático de quem está a curtir de facto uma refeição incrível num ambiente intimista.
primeiro gozaram com a empregada chinesinha ao pedir sal grosso [pois, queriam sal grosso para a comida, verdadeiros gourmets]. depois começaram a falar dos seus planos da viagem a Cuba. [ai que giro, que castiço poder ver lá os pobrezinhos ao longe da janela do empreendimento turístico, sabes que eles são tão desesperados que te apanham cocos por uma moedinha, é o máximo].
quando se cansaram de regozijar com os pés-descalços, atacaram a empregada da casa de um deles, que era uma incompetente a quem a mãezinha dizia tantas vezes "eu só não a despeço porque tenho pena de si", mas ela continuava a não fazer a dobra do lençol da cama como deve ser, e a mãezinha, como boa católica e samaritana, lá se apiedava dela e a mantinha ao serviço dela e da casa do filhinho, que não sabe engomar, coitadinho...

dividiram entradas, pratos principais e sobremesas por todos [assim fica mais em conta, há que poupar para a viagem], pagaram com os seus farfalhudos cartões de crédito e saíram enfiados nos seus ténis de marca e calças da moda.

não me pararam a digestão, mas permitiram-me ver aquilo em que eu me poderia, há muito tempo, ter tornado. quando os tempos eram outros e andava num colégio privado e não gostavam de mim porque eu não usava calças Chevignon e não sabia quanto é que o meu pai ganhava mais que o pai do outro e não apedrejava a colega mulata e não queria experimentar cigarros. respeitava quem me passava pela frente, divertia-me com todos [quando mo permitiam, claro!], mas não era igual. nunca consegui ser. até que me fartei de ter que ser igual para gostarem de mim.

agora serão assim, eles. tristes e pobres de espírito. elites enlatadas. sectaristas hipócritas, de risos jocosos a tudo o que é diferente de ter empregada paga pelos pais para lhes desfazer os vincos da roupa de marca, em empregos estáveis lá no cimo da cadeia alimentar, conseguidos porque "o padrinho conhece o tio que é dono de", mas que planeiam apenas viagens óbvias, lêem o que ouviram dizer que é bem, ouvem a música que deve ser trendy no momento, gostam dos filmes porque sim e comem em sítios finos sem respeito por quem lá trabalha, porque, afinal, são gente de berço e cartão de crédito, têm lugar cativo em locais que não sabem aproveitar.

saí para a noite ainda abafada com um sentimento estranho. por um lado o alívio de não me ter tornado numa destas pessoas, o que me permite abrir o coração a todas e cada uma que me cruza o caminho, absorvê-la e conhecer o verdadeiro âmago de quem o quiser partilhar. de me poder banhar e enriquecer em almas sem passear-me superior nas suas desgraças.
por outro, a angústia: estas amostras de gente vão ser os pais e mães da geração que, supostamente, devia dar o lugar no autocarro e ajudar a atravessar a rua a esta pobre ex-actriz a recibos verdes... eeek!

sexta-feira, 26 de maio de 2006

VII


o carro

[movimentos redondos. as rodas a girar. não. música? não. não é isto. sentir o chão. sim. focar. em frente. desfocar o resto. não parar. a alcatifa queima. não parar. vento, tem de haver vento. abana as mãos. e quando chegar ao fundo? logo se vê. bate lá. não avança. não pode parar. gira a cabeça, o corpo segue. recto. recto. abana as mãos. tem de haver vento]

- olá. posso falar contigo?
- olá. queres boleia?
- posso ir contigo?
- podes, anda.

[sentes o vento?]

- como te chamas.
- já não me lembro.
- onde vais?
- não sei, mas tenho de ir.

[estou a chorar, não vês? é do vento. é do vento]

- estou à procura do verde. disseram-me que era para aqui.
- o verde? já vi tantos. qual deles?
- o verde.
- já passei por ele, mas não me lembro onde.
- oh, que pena. sabes, conheci a lua.
- ai, que bom, muita companhia me faz...
- também a conheces?
- não pessoalmente, mas passo muitas horas com ela.
- tu não páras?
- não. não posso.

[dói-me. há quanto tempo estou nisto? não te vejo a cara. não vejo as caras. no entanto não fecho os olhos]

- porquê?
- porque tenho de lá chegar.
- onde?
- não sei, mas tenho.

[ali ao fundo, o sol no terraço. mas as pernas recuam, a cabeça gira e o corpo segue noutra direcção. o vento na cara. o sol fica lá atrás]

- tu tens amigos?
- não sei. mas já dei muitas boleias, encontro muita gente.
- como se chamam?
- não sei, falei com tanta gente.
- e onde estão?
- oh, isso não faço ideia. eles só vêm comigo quando precisam de boleia. depois vão à sua vida.

[não me perguntes se sou feliz. choco no espelho, apetece-me continuar em frente. cabeça roda e fixa outro ponto. as pernas seguem]

- bem, tenho de ir à procura do verde. gostei muito de falar contigo.
- eu também. boa viagem.
- boa viagem

[não sinto os dedos. não posso limpar os olhos. o sol?]

o carro simboliza avançar na direcção de uma meta. conquista e êxito. está na hora de pôr-se em marcha e deixar de vacilar. indica que existe um caminho e que tem de avançar com confiança, calma e segurança, apesar das dificuldades que apareçam [...]

segunda-feira, 22 de maio de 2006

soluço


porto | 2006

... ou "o meu corpo tem a forma do teu abraço"

casas antigas...



... álbuns vivos de infância. em que os recortes nos servem para pousar a cabeça.

quarta-feira, 17 de maio de 2006

always remember monty python



tempos conturbados. sai, fica, não há dinheiro, aguenta mais um bocado, este mês ainda dá. agora não temos nada mas então e os projectos gigantes garantidos que têm lançamento daqui a uns meses sim mas então e até lá como é que vai ser...

fim de tarde. um telefonema:
- polegar, parece que as tuas preces foram ouvidas. recebemos uma nova série para o canal espanhol e estamos a contar contigo para as personagens principais. vamos marcar o casting de voz?

[saltinhos no meio do escritório, gritar "pão para a boca! pão para a boca!" - pagam a 60 dias, mas ao menos sei que daqui a uns meses me caem à conta mais uns cobres...]

quase a sair, outro telefonema:
- polegar, estávamos a pensar contar consigo na equipa de pré-produção da série nova que recebemos para o canal espanhol, para coordenar vozes, dirigir um pouco os actores. e também para fazer a revisão das traduções. por favor envie-nos uma proposta de orçamento para este trabalho.

[começa o delirium tremens]

para mais informações, telefonemas a vários colegas
- não precisas de estar a full time. só estar presente nas primeiras gravações, fazermos visionamento das cassetes para escolhermos as vozes. depois é fazer um seguimento e escolher vozes para personagens secundárias que forem aparecendo.
[me? xcuse? escolher as vozes de entre colegas com 18 anos de carreira?!]

- preços para estas coisas não sei.
[porreiro... cobro demais, e se meto água? cobro de menos, e se sou aldrabada? quanto é demais? quanto é de menos? aieee]

- vens cá buscar os cds, enviamos-te os textos por e-mail e assim fazes a revisão da tradução em casa. mas vão haver alturas em que tens de entregar as coisas na manhã a seguir para começarmos logo a gravar. os espanhóis são tramados com dead lines.
[muito mais descansada...]

trabalho na produtora, trabalho nos espectáculos infantis de verão [se pegarem], trabalho de dobragens, trabalho de pré-produção de dobragens, trabalho de direcção de actores nas dobragens, trabalho de revisão de textos nas dobragens e um workshop que me está a lavar a alma.

não há fome que não dê em fartura. ou que não dê numa carga de trabalhos. ou em sobrecarga de trabalhos.

ou nobody expects the spanish inquisition...

terça-feira, 16 de maio de 2006

gravity


[ms]

baby, its been a long time waiting. such a long long time.

and I can't stop smiling, no I can't stop now

do you hear my heart beating?
oh can you hear that sound?

cos I can't help crying

and I won't look down...

|embrace|

segunda-feira, 15 de maio de 2006

chico a.k.a. the troll


[ms]

corria o longínquo ano de... nem me lembro. sei que era o princípio dos 90's e estes bonecos estavam na moda. como é natural a uma pré-adolescente, fiz imensa publicidade lá em casa. a minha mãe adorou. achou que tinham uma cara querida, e que se liam nos olhos expressões e emoções conforme os dias. isso já é lá com ela. eu gostava do pormenor de na parte de trás das calças se poder abrir uma parte do fato-macaco que mostrava um engraçado rabiosque de pano.

pela minha mãe apelidado de Zé Maria [muito antes dos reality shows, apesar de a expressão meio tosca ser semelhante ao rapaz das galinhas], era para mim o Chico ou o boneco, conforme a paciência.

nessa altura íamos todos os verões para casa dos meus tios, a mais de 1000km de Lisboa. 12 horas de viagem, com Paulo Bragança, Roberto Carlos, Demis Russos, The Righteous Brothers e mais uns quantos dos 60's, Beach Boys e El Consorcio [isto até eu ter um walkman]... e o Troll.

a moda passou mas tornou-se um enraizado ritual da minha mãe levá-lo para todo o lado... quaisquer férias, perto ou longe, voltava-se para trás se nos tínhamos esquecido do Chico-Zé Maria. e invariavelmente, antes da viagem, já sentados no carro às 5 da manhã, virava-se para trás com ele na mão e dizia "já viram os olhinhos dele? estão a brilhar de contentes! esta viagem vai correr bem..." e pousava-o no tablier para ele poder ver as vistas...

com uma fase menos apertada dos meus pais, pudemos sair da zona Ibérica, e mais uma vez lá vinha o Troll. depois as jovens crias começaram a ter vida própria e lá vinha o boneco em cada viagem, enfiado no saco de campismo. ou quando os meus pais puderam sair durante uns dias da nossa alçada, viajou no colo da minha mãe para um fino hotel de Paris...

resumindo, o boneco vai com quem sair de casa para passear. tem mais quilómetros que qualquer um de nós individualmente. se estivesse inscrito na Tap, de certeza que já tinha umas valentes milhas aéreas de borla e um boné.

eu gosto dessa tradição. e em todas as viagens que faço, tiro-lhe umas fotos à la duende da Amélie... para provar à minha mãe que também ele saiu à rua, de cabeça de fora da minha mochila a ver as vistas...

engraçado é que, no dia em que se decide levar o Chico para o passeio, invariavelmente, chove...

sexta-feira, 12 de maio de 2006

maybe it's because I'm a londoner



obrigada, LFM :)



Maybe it's because I'm a Londoner
That I love London so
Maybe it's because I'm a Londoner
That I think of her wherever I go

I get a funny feeling inside of me
When walking up and down
Maybe it's because I'm a Londoner
That I love London Town

Maybe it's because I'm a Londoner | Hubert Gregg

quarta-feira, 10 de maio de 2006

grounding

raíz. contacto. pleno. equilíbrio. no momento de encontrar o meu ponto de conexão à terra, esmaguei-me ao chão. quero senti-la. inteira. estender-me nos seus grãos. ser paisagem alentejana. ser horizonte. quero a terra. porque sou tão planta. ou flor. de nariz no ar. depois reguei-me.

segunda-feira, 8 de maio de 2006

images vs. feelings


leicester square

touching Banksy. Spitalfields. Sunday Up. Camden. Covent Garden. Portobello. London Fields. markets. bargains. Little Venice. alternative. feet. leather. tea cosy. blue door. roof tops. bobbys. Ben, the Big. mind the gap. fuck the gap. the travel bookshop. Sical. red door. tunnels. minor delays. bus. 149. double decker. Andy Warhol. Dali universe. Betty, God save the Queen. Hyde Park. watercolours. sun. rain. grass. wallet. yuppies. bikes. steps. stamp. skin. Shakespeare. Miró. bridges. map. Old Vick. Dame Judy Dench. applause. tears. chocolates. antiques. Hussein. Nando's. baked beans. Becket. jacket potatoes. stage door. Nero. Starbuck's. East End. West End. Off West End. Fringe. Soho. phone booths. kinky. Chinatown. Liverpool Street. pinhole. graffity. cab. The Windmill. weeds. beer. museums. more museums. window. Mia Christian Alex Ricky. mirror. Audrey Hepburn.

thank you.

segunda-feira, 1 de maio de 2006

hoje

happy birthday to you.

the east enders


[ms]

aterrar em ruelas sujas de lojas multiculturais. viajar nos artesanatos. ajudar a desmontar a banca de malas feitas de sacos de plastico. lamber os dedos de hamburguer feito na rua, sentada no passeio. as roupas e estilos inconfundiveis, misturadas sem ordem ou alfabeto. a casa labirintica, porta vermelha de Shacklewell Lane. a niponica doce, o alemao introvertido, o betinho de Oxford, o amigo "emigra". com vinho e queijo para matar-lhe as saudades.

boa noite, Londres.

sexta-feira, 28 de abril de 2006

escape



repouso

s. m.,
acto ou efeito de repousar;
sossego;
paz;

ant.,
ancoradouro.

chuva

do Lat. pluvia

s. f.,
água que cai em gotas da atmosfera;
aquilo que cai ou parece cair do ar como chuva;

fig.,
abundância;
grande quantidade;
cornucópia;

Electrón.,
interferências ou ruído na imagem, consequência de um sinal televisivo fraco e que se manifestam no ecrã sob a forma de minúsculos pontos brancos;

voo
de voar

s. m.,
meio e modo de locomoção (das aves, insectos, morcegos, aeroplanos, etc. ), através do ar;
fig.,

impulso rápido;
elevação do pensamento ou do talento;
arroubamento;
êxtase.

... até já...

give me please


the gift | coliseu dos recreios | 21.abril

é tão difícil ouvir sem sentir...

sempre


avenida da liberdade | 25.abril.2006

sabes, pequenino, eu era assim, como tu. e as pessoas saíram para a rua. um dia resolveram ser livres. esta gente? estão contentes, então... porque é como fazer uma festa de anos. a liberdade faz anos. em vez de velas usam os cravos... percebes?

quinta-feira, 27 de abril de 2006

ao fim do dia

come um bolo de arroz em belém.
descobre novas formas em dias repetidos.
agradece a ovação de pé
que te surpreende em despedida.
desprende o suor
a terra dos cavaleiros
em toalhitas com cheiro
de pó de talco.
pó-de-palco.
perfila-te com o sol,
deixa-o lamber-te as feridas.
sobe a rua em versos cantados.
fecha as listas como persianas.
conta em decrescente, ouve a música bem alta.
enrola a saliva seca de um dia de cigarros
em dois beijos bem dados.
passa as portas, que reflectem o mundo
para o lado de lá.
do lado de cá, tu. e a casa adormecida.
que acordas com ventos cansados.
onde serenas. e te aninhas.
suspiro.
café?

quarta-feira, 26 de abril de 2006

passagens e bombons

de raspão
Brízida Vaz, de novo
duas tardes
mais umas migalhas para não esquecer
[ainda?]
o caminho

sexta-feira, 21 de abril de 2006

esta noite

finding someone that cares for you and I, I'll dress my songs cause I care for you, cause I, I will take my time driving you slow. driving out cause I care for you, and then someone loves you but I don't care for you cause I, I will get my love, cause I will be your love, oh no... there were times I could care for you, but then I found that girl that can smile for you and I start to be something and I, I don't care, why should I care? I will get my life cause I will be your life oh no

don't look back, don't look back, don't look back

I will build my world I will sing my songs, I will keep my helmet on

and you can rule my world, you can rule my songs, I will keep my helmet on

the gift | am.fm | driving you slow

quarta-feira, 19 de abril de 2006

serendipity



não se encomendava à sorte. gostava de saber que fazia tudo o que estava ao seu alcance. tinha sempre esperança que o esforço recompensasse. mesmo que falhasse, sair sempre de cabeça erguida com a certeza de que perdera por não ter mais para dar. fazer o seu melhor, mesmo nas coisas mais pequenas. não ficar à espera.
mas naquele momento em que os pensamentos lhe chicoteavam a cabeça, desmembrando o vigor da água do chuveiro na pele nua, à luz surgiam apenas sombras.
as lutas travadas sem rei, os trabalhos forçados e os dias perdidos, afastados do sol e dos sorrisos, em prol de um único objectivo. que não queria ter. que a roubava ao que realmente interessa. as coisas de facto tinham perspectivas estranhas na sua cabeça e não conseguia organizar as prioridades como os outros faziam. o normal sufocava-a. mas se procurasse ar ficaria sem chão. o dispensável e o indispensável, presos um ao outro por arneses que lhe estrangulavam a alegria de viver. o chorar ao domingo à noite porque depois é segunda-feira. o sentir-se substituível onde queria sentir-se querida. a responsabilidade e a frustração, dançando à sua frente de mãos dadas, mirando-a jocosas. a incerteza de um amanhã que nem sequer queria mas que se revelava uma estúpida tábua de salvação.

o cheiro forte da madeira, que entesourava junto das motivações e orgulhos, que invocava nos momentos de abandono, agora chegava-lhe vago e apodrecido.

sentia-se prestes a seguir o caminho da água que lhe tentava aquecer o corpo, mas não o espírito. afastou cheiros com o sabonete na pele, seguido de uma generosa dose de creme hidratante. afastou os pensamentos com uma melodia cantada para o eco da casa de banho, ignorando as 8 da manhã.
tinha de haver solução. era apenas uma questão de encontrar o fio à meada. não se encomendava à sorte.
no entanto, ao sair do carro essa manhã, pensou duas vezes antes de se afastar da cigana suja que lhe queria ler a sina.

terça-feira, 18 de abril de 2006

dos montes



revisitar raízes, elos meus. perdidos com a terra. os cheiros fortes do verde novo, das cerejeiras em flor, da caruma dos pinheiros, do alecrim. nos rostos, onde a vida riscou os dias e assinou de cruz, reconhecem-se os socalcos da terra. todo um cemitério com o meu apelido, linhas e traços entrelaçados como teia fina. as mãos de calos e braços abertos. os fornos a lenha. escondidas nas arquitecturas desvanecidas ainda as pedras empilhadas em paredes escuras e postigos coloridos, chão irregular e a água a ferver para depenar a galinha. o crepitar do lume. o queimar do sol reflectido na pureza do céu. a noite tão estrelada que nunca enegrece por completo, recortando as montanhas.
o vinho. forte, penetrante, novo. cada casa tem o seu. da sua terra. em cada casa copos de vinho e presunto de salmoura e broa e salpicão. "comeide, bebeide" - quase obrigam os olhos brilhantes. e lastimam a ausência dos filhos e das forças para voltar à vinha, e o domínio dos grandes que os fazem pensar em baixar os braços a cada outono.

vejo o meu pai pequeno descalço de calções rasgados pelas brincadeiras nas fragas, a roubar fruta e a guardar cabras.
vejo claramente nos socalcos perfeitos que desenham as encostas dos montes gigantes, na profusão de flores e no brilho das pedras lavadas. nos ribeiros, riachos e curvas apertadas.

vejo-me ali e reconheço, então, o meu outro lado. sempre esteve escondido atrás dos montes. a explicação, enfim, da minha paixão pelos campos, pelas flores silvestres, pelos perfumes selvagens, da minha teimosia e da minha constante necessidade de ventos cristalinos e de fotossíntese.

segunda-feira, 17 de abril de 2006

tango


[ms]

sustentar na ponta dos pés descalços o peso do corpo. endireitar o pescoço e alongar as costas, os braços. sentir as rugas da carpete poeirenta e o balanço das notas que, invisiveis, perfumam o ar e lhe revoltam os cabelos. primeiro lentamente, num aquecer ruborizado que dá a liquidez do olhar. depois perder o tino e as angústias pelo suor. quebrar os passos sem lhes querer sentido. ondular sem pudores de se tocar. forçar colinas e ondas num terramoto agridoce.
permitir ao fogo que aquece as coxas redimir-se em golpes de tango.
sem pouso definido, a pele vai sentindo a surpresa de cada passo cadenciado, partindo de pontos fluentes e confluentes de uma parede ou do chão. olhos fechados na tontura violenta. sentir as vergastadas com que as madeixas húmidas comprimem os ombros.
estacar numa náusea de prazer ofegante.
e ao fundo o olhar brilhante, voraz, sendento. a figura que se agiganta num paso doble, arrastando-se, impelindo-se pela cintura. o aproximar ardente de olhos fixos que despem e lambem. o envolver das mãos no ponto onde a cintura requebra e o calor dos peitos apertados. o possuir do corpo latejante. o bater dos corações que se compassa. a proximidade perigosa do hálito quente que absorve. e o largar voo perdido nas mãos de um anjo ardente. que despede o corpo controlado dos contornos conhecidos e o arredonda e fixa ao sabor dos seus intentos. ao sabor do que quer ver. o arquear da coluna e o arquejo do peito. silhueta fina e frágil com golpes de chicote, empurra o vento na outra que, possante, o engole. a perna que se descobre longa, orgulhosa sobe ao limite do imaginário. enrola-se com vigor obsceno, descendo, descendo. o suor que escorre sem perdão e que penetra nos lábios entreabertos, o sal misturado de duas vontades selvagens. a luta sem guerra dos corpos.

ali, naquele palco imaginado, hão-de ferver as suas peles, hão-de roçar-se lascivamente até ao limite do silêncio, hão-de gemer as dores e os prazeres confinados, hão-de depois, muito depois, abrandar os ritmos latentes, descansando-os num passo lânguido e esvoaçante, precioso e suave como a primeira passa num cigarro.

sábado, 15 de abril de 2006

o anúncio ou os desastres de polegar

para quem segue as minhas desventuras na tentativa de encontrar um lugar ao sol na área da representação, segue um lamiré da minha quinta-feira

8 da manhã na casa do Alentejo. ao mencionar "figuração especial", mandam-me subir. primeira falha da minha agência: afinal o "leva qualquer coisa mais formal" queria dizer fato de executiva... na sala de "styling" dizem que as minhas calças de ganga e blazer não têm muito a ver com jornalista [eu devo andar a ver os canais errados] e dão-me um fatinho cintado castanho e uma blusa justa de mangas à cava bege... ergh... as minhas cores preferidas. na casa de banho reconheço uma "colega de casting" e o alívio de ter uma cara conhecida ajudou a suportar as longas horas de espera. depois vejo chegar gente de calças de ganga e blazer que estão "óptimas"... go figure.

esperámos por ser maquilhadas - como nos tinham dito - e nunca aconteceu. da sala de espera víamos na maquilhagem as meninas que seriam as "Tochettes": uma loira nórdica de busto generosamente siliconado e olhar literalmente a leste; uma morena esguia muito bonita de rolos na cabeça, a stressar ao telemóvel.

esperámos duas horas. porque a morena "não sabia" que ia ter de usar calções curtinhos e top cavado. diz era despida demais. - eu não achei nada de escandaloso, elas têm corpo para isso, é por isso que são modelos, e se havia razão de queixa seria da loira, que dava mais nas vistas - de certeza que no casting já a tinham avisado, mas que fazer?... não se sabe dos pormenores, é certo que tiveram de chamar outra morena. aqui entre nós, esta púdica menina foi a que andava montada numa banana na capa de uma revista e respectivos toques jamba... go figure!

adiante. na hora de distribuir os adereços, calhou-me um micro. e a quem estava de calças de ganga, as máquinas fotográficas... aí fiz beicinho. havia uma fotógrafa de saia travada, casaco de ganga com gola de pelo e botas de crocodilo... go figure!

a minha chapa de identificação dizia "Francisco Azevedo". havia um brasileiro chamado Enfermeira Isabel... ainda troquei com ele umas impressões sobre a operação eheheh

ensaiada a primeira cena [um corredor de jornalistas tenta entrevistar o senhor doutor Tochas antes da conferência de imprensa], prepara-se tudo para gravar. reparo em dois tipos com ar de patos bravos ao meu lado que usam o telemóvel para fotografar o ensaio. a Tochette loira começar a ficar incomodada e aí percebo. estavam a levar recuerdos para as noites solitárias. ela queixa-se e o assistente dá o raspanete. no fim da gravação da cena, os tipos afastam-se a comparar as imagens gravadas. triste.

resumindo, entre cada cena eram horas de espera e chegámos à conclusão que aquilo foi tudo um desperdício de dinheiro: às tantas até turistas perdidos faziam figuração, mudavam as pessoas de sítio entre cada cena [o que dá uma continuidade fantástica], não sabiam se estavam a usar figurantes especiais [pagos para falar] nas cenas em que se falava, esperámos 6 horas de propósito para gravar uma cena... de costas... uma confusão.

outra falha da minha agência: "lá para depois do almoço estás despachada"... brincalhões, hem?

no fim de tudo, se aparecer a minha testa é uma sorte... nada mau para quem saiu de lá às 10 da noite...

entretanto falei com a minha agência: descobri que o pessoal agenciado por outros estava a receber o dobro. ora se estamos todos a fazer o mesmo... vai haver molho. baixou-me o santo e passei-me com eles. e ao fim da noite estava criado um sindicato que irá pedir satisfações para a semana...

a comida era do melhor: enchi-me de broa com queijo da serra, doces vários e cafés. os sofás da casa do Alentejo são confortáveis. o realizador tem um fetiche com loirinhas. o Tochas tem dificuldade em decorar as deixas e é mesmo avariado da cabeça. entra um cão na figuração, que é um querido. acabei por me dar com um grupinho de três "pernas-curtas", uma "perna-longa" e um "perna-longa". sim, que estipulei logo de manhã as discriminações de géneros físicos que arrancaram as primeiras gargalhadas quando completei com um "deixa estar, é só dor de cotovelo". durante o dia, dirigiam-se a mim com um "ó Francisco..." ;)

agora é esperar pela OPA! e mais não digo :)

quarta-feira, 12 de abril de 2006

para castigo...

... fiquei num anúncio...

não no das mãos, obviamente, mas noutro para que fiz casting sem estar marcado...

pois que é uma figuração especial, o que quer dizer: estar numa molhada de gente e dizer uma ou duas deixas.
conhecendo o guião, a minha deixa [muuuito especial] vai ser: "doutor, doutor"... em coro com outros tantos.

se, depois da edição e ideias mágicas em cima da hora do cliente, eu ainda aparecer, eu aviso eheh

entretanto, vou levar a moleskine... é um dia inteiro num set de filmagens... this should be interesting... muahahahahah!

segunda-feira, 10 de abril de 2006

comunismo dos corpos

casting. manhã inteira a serem-me tiradas as medidas, ser avaliada não só pelos senhores que mandam na agência, mas também pelas wannabes-cheias-de-fome-com-maquilhagem-a-mais-e-que-não-sabem-que-não-se-usa-preto-nem-riscas-num-casting com quem me fui cruzando na sala de espera.

tudo corria bem. a franja e o cabelo comprido agradaram. tive uma contracena porreira. além do meu casting, tive que fazer assistência no de outro rapaz [era um anúncio com casais], e ainda foi uma risota. mas depois foi a parte do fingir que cozinho [metia culinária] e o senhor lá me pede: "preciso de um grande plano das tuas mãos, porque vais pegar na embalagem".
está o caldo entornado.
tenho as mãos pequeninas. as montagens e nervos deixam-me pouco espaço de manobra para manter as unhas bonitas, sem as roer. isso são vitórias esporádicas. já me tinha dado trabalho suficiente vestir algo que enganasse a câmara acerca da minha barriguinha. lá estendi as mãos no fundo preto, avisando que fazer unhas de gel era hora e meia: se ficasse com o trabalho, não se preocupassem que já podia pagar umas mãos comerciais. ele riu-se.

e criei uma teoria: o comunismo dos corpos.
devíamos ser todos lindos. altos, com pernas compridas e bem torneadas, barrigas lisas, cabelos brilhantes, mãos de dedos longos e delicados, peles impecáveis, sobrancelhas arranjadas. sairmos todos, dentro do estilo e genes de cada um, com um aspecto que vendesse o l. casei imunitas, o caldo knorr, o telemóvel de 3ª geração ou o detergente da roupa 5 em 1.
depois os senhores, em vez de andarem à pesca de modelos que saibam articular, já podiam escolher só pelo talento.

sexta-feira, 7 de abril de 2006

blossom by J.B.

um dia entrou-me por aqui adentro e olhou para o meu querido vaso de flores laranja, de onde sobravam apenas uns talos secos.
- isso 'tá morto?
- não sei... não tem razão, rego sempre, tenho tanto cuidado...
- pois, mas sabes, com tanto tabaco e ambiente fechado é capaz de já ter morrido.
- espero que não, gosto tanto delas... vamos ver, na primavera.
o tempo passou e nada aconteceu. as florinhas não voltaram a aparecer para colorir os meus dias. mas mantinha o vaso ao lado do rádio, à espera delas.
há uma semana, enquanto montava o cenário, ouço o assobio conhecido. lá vinha ele, sempre o primeiro a chegar, beijinhos e as chaves da torre, onde são os camarins, onde pinta todos os dias a cara de vermelho demoníaco.
- tenho lá uma prenda para ti. esqueci-me de te trazer, mas um destes dias passo lá no escritório.
- são post-its?! [isto aqui é um luxo, de facto]
olhou-me sério e carrancudo até explodir na sua gargalhada
- logo vês.
ontem, depois do espectáculo, voltei aqui para fazer as contas. estava de nariz enfiado na calculadora quando a porta se escancara com o seu sorriso. assim, de sorriso rasgado e braços estendidos, um vaso de florinhas brancas nas mãos.
- toma! a ver se não morrem estas!

assim se semeiam amizades.

quarta-feira, 5 de abril de 2006

nebulosa

respiro os tons de cinzento que perfilam este meu dia. mais um sopro de fumos anelados que aquecem o peito, ardem nos olhos e preenchem o cinzeiro, sepultura cinza e laranja.
com melodias suaves escondidas no canto da secretária, abafadas em cantos urbanos de buzinas e tosses e motores. a chuva insistente que me enganou a manhã e ensopou-me o casaco de malha. nebulosas que correm e se rasgam fio a fio por luzes douradas, fugidias, efémeras.
o vento e o canto da tempestade soam dentro de quatro paredes brancas, sombreadas da fragilidade do dia lá fora. soam como folhas de papel, rumorejar de teclas e seres de metal que cospem tinta negra. soam a perguntas, apitos agudos e pedras de isqueiro.
cheira a frutos silvestres, queimados em gotas grossas, vermelhas, sangue espesso que se cola aos dedos, os queima e paralisa por um segundo, até se fragilizar e desfazer em pequenos grumos macios.
a manhã entardeceu. a tarde anoitece. sempre em tons de cinzento.
preparo-me para mais um regresso de pálpebras dormentes, e, quem sabe, casaco de malha ensopado. recordando os anoiteceres de meninez em que estendia a língua de fora, deixava as gotas tomar conta do corpo, da roupa, sem pressas. até chegar a casa e me envolver em águas quentes, espumas perfumadas da Avon e toalhas turcas, sob o sorriso cúmplice da minha avó.

segunda-feira, 3 de abril de 2006

este post não mora aqui



esfumou o desejo com a ponta dos dedos, como quem lê uma textura. depois entardeceu no silêncio esbatido do descanso, acompanhado por melodias urbanas de hábitos e pegadas. fechou os olhos.

saldades

pouso as chaves, o leitor de mp3 e o livro no cantinho da secretária. sento-me, puxo o maço de tabaco para perto do computador. antes que cheguem os outros, o primeiro pedacinho da manhã é meu. entro no messenger e uma janelinha salta avisando-me de correio, diz que é lixo electrónico. "saldades" é o assunto. antes de deitar fora, algo me leva a abrir a mensagem.

Rocha era um dos nossos carregadores. fazia parelha com o Sr. Fernando, um velhote rijo que se recusa a arrumar as botas e aposta todas as semanas no Euromilhões. todas as semanas dizia "menina, prá semana, se não me vir, já sabe! aqui o Careca ganhou o éro-milhões e pôs-se a andar prá praia! mas eu deixo um recado com o Rocha juntamente com um cheque para os putos dele e um dinheirinho para si também". Rocha ria-se. sempre na sua onda muito serena, mostrou como se dança capoeira no meio de um monumento nacional: pousou os ferros que trazia às costas e atirou-se para o chão. fazia o que lhe competia mas ajudava para além disso, apenas por achar que devia. arrumava melhor que ninguém todo o cenário no mísero espaço de 1mx2m e mostrou-me como se descarna um fio eléctrico. contava histórias da sua ascendência índia e de como tinha partido o nariz. chamava-me "patroinha" porque nunca conseguiu decorar o meu nome. apesar de poder sair, ficava depois de o trabalho acabar. seguia os actores nas visitas guiadas para conhecer melhor as pedras onde arrastava o carrinho. e depois ficava a ver o espectáculo, todos os dias. e comentava como gostava de trabalhar ali, porque afinal descobrira que gostava de teatro. ficava fascinado com os pormenores, fazia perguntas sobre o texto e ficava à conversa com os actores, trazia a mulher para assistir e pedia se podia sentar-se no meio do público. claro que podes. "se pudesse, era isso que eu faria da minha vida, sabe? ficar carregando os cenários, ajudar montar as coisas pra fazer sentido. é incrível como se cria esse mundinho de faz-de-conta."

nos dias em que nos cruzávamos com aqueles grupinhos de gente pequenina de panamás coloridos e bibes aos quadrados, ele, com sete cadeiras às costas, fazia um esgar dorido e dizia "não posso ver esses meninos, me lembram meus filhos, bate uma saudade... dá uma vontade de chorar, sabe?"
Rocha aderiu ao mundo dos computadores, instalou o messenger para poder falar com os filhos do outro lado do mundo. e tem o disco rígido recheado de fotos de sítios onde esteve e de outros com que ainda só sonha. de gente que se cruzou com ele nos vários lugares onde já viveu. "esse computador tem a minha vida. se roubassem era pior que perder o BI". um dia trouxe o computador e a máquina fotográfica. fez questão guardar no disco rígido também esta equipa, estes novos "amigos". um diabo, um anjo, um velhote de ar desconfiado, uma menina de saias às cores e outra de calças de ganga. e ele. hoje recebi essa fotografia.

Rocha está ilegal em Portugal. não faço campanhas a favor nem contra. é apenas um facto. não conseguiu ainda tratar das papeladas. teve de sair do teatro porque não recebia o suficiente para pagar o aluguer da casa e ainda mandar algum dinheiro para os filhos. "quero ficar em Portugal. adoro esse país. mas preciso trabalhar, aqui não ganho o suficiente". com lágrimas nos olhos, disse que ia para as obras e que se precisássemos de fazer mudanças, para os amigos ele tinha o Domingo e era de graça. umas semanas depois foi apanhado pelo SEF. mas um amigo deu-lhe outro trabalho numa sapataria para os lados do Rossio e prometeu ajudá-lo com a legalização. eu espero que consiga. porque ele merece.

sexta-feira, 31 de março de 2006

mulher das obras



levo a mão ao bolso à procura de trocos, encontro no meio das moedas duas anilhas. páro e olho para mim. reparo em mim inteira e nos novos objectos que passaram a fazer parte dos meus dias. as calças de trabalho, como lhes chamo. de ganga, largas e de bolsos de lado. as botas de montanha que me dão jeito para empurrar os contrapesos que não consigo levantar do chão. mais à mão que as chaves, o passe ou a carteira está sempre o canivete. com que descarno fios eléctricos, aparafuso iodines e reabilito cabos. e já dei por mim no Aki a admirar uma aparafusadora eléctrica daquelas pequeninas, a pensar "que jeito me dava lá nas montagens, em vez do bajolo"... apesar dos comentários engraçados que ouço dos colegas quando dizem "que sexy é uma mulher com um berbequim", acabo por pensar: ok, yin e yang e tal... todos temos lado feminino e masculino... essas coisas todas... sim, tá bem, mas é testosterona a mais por dia, caramba!

ai... e os meus sapatinhos laranja largados abandonados à chuva e à fome de calçadas... no quarto... sniff...

quinta-feira, 30 de março de 2006

avessos

gosto de avessos. de interiores. de toques com sentidos subliminares. de contextos e pretextos. de intenções. entrelinhas. gosto como gosto de um doce que se espreme entre a língua e o céu da boca devagar, que se deixa escorrer pelo palato como se fosse uma palavra complexa, cheia de ditongos e arabescos. que se degusta. gosto de suspeitar apenas de um olhar e de poder penetrar nele lentamente, pedindo que me seja dada essa permissão, sem palavras. gosto do interior dos suspiros, onde se alojam os segredos. escondem-se vidas inteiras sussurradas no eco de um gesto. as memórias que o voo de um cabelo transporta. o receio que o brilho da pele encobre. pode ser um silêncio que grita. pode ser um grito que murmura. é nesse avesso das pessoas que se encontra a sua alma. nos pequenos ses. na água. dos olhos e da boca. das mãos. nas dúvidas e fragilidades em que se revela cada intimidade. cada íntimo. onde se desnuda o ser. quando simplesmente se é.

terça-feira, 28 de março de 2006

coisas boas

acordar tarde e não sentir que perdi metade do dia.
beber a bica da manhã na esplanada.
fazer a marginal de vidro escancarado, música bem disposta e dançar nos estofos do carro enquanto o rio brinca com os seus reflexos no meu rosto.
deixar o casaco nas costas da cadeira quando vou almoçar.
sair do escritório e ainda ver as ruas antigas da minha Lisboa coloridas de luz.
o regresso da sensação de criança de que posso ficar a brincar até às tantas.

lembrem-me lá: por que raio é que existe o horário de inverno?

segunda-feira, 27 de março de 2006

dia mundial do teatro


[fotos de T.]

era um dia de chuva intensa.
estávamos sozinhos. ele tinha ido para o México e tinha pedido que não deixássemos o teatro inactivo. quando voltou, tínhamos conseguido um pequeno apoio da semana da juventude e duas peças preparadas. uma terminava hoje a outra começava hoje, sessão dupla. eu estreava hoje.

cheguei cedo ao teatro, com uma colega. tinha a chave, abri as portas e fechei-me lá dentro. ainda o silêncio das pedras. íamos começar a preparar tudo para a mega-produção da noite. faltava arranjar a entrada, com fotos, cartazes. verificar se a loiça estava lavada para a enchente de bicas e imperiais, se a bilheteira estava organizada. faltava dar a vista de olhos aos e-mails. preparar os bastidores e a cabine técnica, para depois a máquina funcionar como deve ser, as trocas de funções serem rápidas e o público não esperar muito durante o intervalo para mudança de cenário.
as luzes já estavam alinhadas para servir os dois espectáculos. tínhamos ficado a ensaiar o nosso até às 8 da manhã. alguns tinham aparecido com bolos para nos dar força e a E. dormira na plateia enrolada nos nossos casacos, para não nos deixar sozinhos. o T. lá em cima, incansável, desenvencilhara-se sozinho na "cozinha", batendo bolos e fritando bifes, tudo ao mesmo tempo, com a luz e o som só para ele.

chego aos bastidores e quando levo os dedos ao interruptor ouço um estranho chapinhar. tento acender a luz sem resultados. os olhos habituam-se depressa à escuridão e apercebo-me de que há água até ao segundo degrau dos camarins. dava-me, portanto, quase pelos joelhos. adereços a boiar. no meio do pânico, a duas horas de estrear, as borboletas dobraram o trabalho de enviar a sms: "houve um inundação. os camarins estão cheios de água. todos ao teatro, rápido". desligámos o quadro, alçámos as calças e tirámos os sapatos. com uma lanterna fomos retirando lá de trás o que era preciso e fomos espalhando as coisas atrás do cenário. as pessoas iam chegando e cada um ia ajudando no que podia. uma "recém aquisição" ainda se fez de esquisito, dizendo que, já que estávamos encharcadas, podíamos trazer as coisas dele. mandei-o passear no mais proverbial léxico suburbano que tenho dentro de mim. e ele descalçou-se e foi à água como todos.
alguns prepararam a entrada. alguém fez a bilheteira. não tínhamos onde nos maquilhar. a roupa estava a ser seca com o único secador disponível. o público chegava. deixámos que nos vissem, já sentados, a maquilhar na mesa de adereços que compunha um dos elementos do cenário. tinha a ver com o espectáculo. licença poética.

depois fomos lá para trás. abraçámo-nos todos. e saíram os que tinham de ficar lá fora. o director explicou ao público o motivo da meia hora de atraso, honrando surpreendentemente o nosso esforço para mesmo assim podermos dar-lhes o que tínhamos prometido.

começou a música e nós entrámos a dançar. e depois foi um daqueles momentos mágicos. que sabem melhor quando se luta muito e se está bem acompanhado. risos. generosos e francos. num momento em que se fala do cinema português, fazemos um black-out. silêncio do outro lado. e, de repente, a gargalhada e a explosão de aplausos. quando abrandaram, pudemos falar, e seguiu-se outro turbilhão de risos. e mais risos. no fim, o abraço lá atrás e o choro convulsivo, interrompido pelas várias chamadas ao palco. apontar incessantemente aos rostos que adivinhamos no escuro, que sabemos que estão lá.

despir, com as pernas a tremer. receber os abraços dos outros, que entram agora para a sua vez. arrumar tudo da melhor forma para dar espaço. ajudar a E. no penteado elaborado. abraço e muita merda. divirtam-se. subir à cabine técnica. mudar o cd. vai começar o outro espectáculo.

foi um dos momentos mais bonitos que vivi. foi há dois anos.

quarta-feira, 22 de março de 2006

oh life

eles dominam a àrea e nós só nos sentamos e acreditamos... é um bocado como os mecânicos... e ele conseguiu finalmente o que queria.
Carrasco sentou-me na cadeira, e, apesar de vir para simplesmente tratar um dente, voltou ao ataque com a coisa de:
- mas porque é que não quer extrair os sisos...?
- mas eles estão a prejudicar-me a boca em alguma coisa?
e ele baixou os olhos, contrariado e murmurou
- não...

deu a anestesia e, com dois dedos de conversa [ou seja, enfiados na minha boca] lá começou a perfurar. até que estranhamente [porque ele pode ser muita coisa mas não costuma magoar... salvo seja] a broca do senhor me toca num ponto que me faz soltar um trémulo "ehá a huer"... ele escavaca mais um pouco, meio apreensivo e lá me diz a boa-má-nova-depende-do-partido-que-se-toma:
- Polegar, você tem uma cárie pequenina no siso, mas é profunda e está a chegar ao nervo... sendo um siso, não vejo necessidade de o mantermos. penso que o melhor será extrairmos... o que é que acha?
[na minha cabeça corria: "mantermos? extrairmos? sente-se lá o senhor, então que eu fico com a parte do alicate estranho...!" e logo a seguir "dasse, mas eu não vim preparada para arrancar um dente... se calhar, se passar um cheque traçado, dá-me tempo de depois cobrir antes de ele o conseguir levantar. quanto levará este gajo para arrancar um dente, ele é tão careiro, isto hoje já me ia prejudicar tanto o mês e ainda tenho a revisão do carro..."]
- Polegar? está mentalmente preparada?
- não.
- então, como é que fazemos?
- tire.
["não, deixe ficar, eu saio assim mesmo, com um buraco no dente!... ou melhor, tape tape que eu quando estiver mentalmente preparada volto cá, sim? aliás, nem se demora três meses para se conseguir consulta! duuh!"]

pois que me deu mais uma anestesia e enquanto esperava que fizesse efeito, vasculhou-me os outros dentes, chamando a assistente, nos seguintes remarks:
- já me viu esta dentição? é perfeita... é que está mesmo impecável... Polegar, vai-me deixar tirar-lhe umas chapas, não vai?
- mash há mhe hirou unsh moldhesh...
- sim, sim, mas além dos moldes também precisava das chapas. é que são óptimos para fazer modelos de prótese...
[garganeiro! agora as velhas vão andar com os meus dentes... não vale!]
- há bem...

depois pronto, puxa, repuxa - delicadamente, não é como o outro que foi à bruta -, e salta cá para fora um siso que eu não sei como me cabia no meu pequeno maxilar. deu-me uns aulins para o caso de ter dores e disse
- cuidados a ter: pouco esforço físico e comer coisas moles e frias. tome um aulin antes de ir trabalhar na tal montagem de teatro amanhã. vem cá para a semana tirar os pontos e daqui a uns três meses tiramos o de cima, que agora não está aí a fazer mesmo nada.

pago [com cheque traçado, mas surpreendida por me custar o mesmo que uma limpeza] e saio para a rua com a boca de lado.

- hey, Joey, gimme a pint.
- are you sure?
- hoo ya... Cookies and Cream, the full pack!

segunda-feira, 20 de março de 2006

do patrao

[às voltas com um documento word]

- ó Polegar, onde raio estão os headers and shoulders?

sexta-feira, 17 de março de 2006

separar das aguas

largo o ar que é menos puro que o meu cigarro. num pequeno compasso, fujo para onde ninguém me vê. para um momento que conheci de cor. sei que será agora ou nunca que o reviverei. aquele em que descalça passeava nas tábuas frias, sozinha. não me descalcei nem subi os três degraus mas senti aqueles segundos perfeitos. ouço lá fora o burburinho das vozes dos outros. e lá ao fundo as gargalhadas daqueles que fui. deixo-me ficar ali, no silêncio do entretanto. olho em volta, os assentos expectantes de corpos. a parede alta, que parece não terminar. chegam-me os cheiros das madeiras atrás de mim e parece-me ver uma figura esguia de rolo na mão. a marca no rebordo do degrau por onde descia para me sentar. acaricio o veludo vermelho a medo, quase a pedir-lhe permissão por uma intimidade que agora sinto estranha. mas inevitável. como um velho amante que conhece de cor a pele e os cheiros mas que já não pode possuir. outro vulto me passa, apenas nos olhos, passeando devagar no escuro, em cima do palco. esse senta-se de pernas cruzadas, abraçando os joelhos e deita-se. mira a teia onde repousa as preces. cheira-me a cabelo quente, a laca e a baton. outro estranho ser que reconheço mas não conheço está sentado ao fundo, num sofá, à espera da mão. apenas duas luzes estão acesas para que não se caia, mas poderia subir, descer, contornar e enrolar-me no espaço sem vê-lo. mas não o faço. permaneço até sentir o ligeiro tremor. e vejo nitidamente a rapariga saltitante de chapéu branco e saias volumosas, seguida de perto pela mulher fatal de camisa de dormir demasiado curta. ao fundo, atrás de uma cortina vislumbro a senhora triste de cabelo preto e xaile. a mulher rebelde que dançava ao som do musical. a outra, de longos cabelos loiros, abre o peito às espadas e chora baixinho. dançam à minha frente em movimentos cada vez mais leves até se esfumarem no silêncio. um arrepio. o meu querido abraço quente. são as pedras. aliviam-me a culpa de já não me terem. agradecem-me os dias em que nelas me enrosquei, em que me deitei e rocei. bebem os restos da minha entrega, os despojos da minha paixão. beijam-me o rosto num fôlego morno, terno, doce que me escorre nos lábios até bem fundo dentro de mim. lambem-me o sal e o pó que usava para lhes contar histórias de encantar. cada reencontro dói mais. amo-te.

segunda-feira, 13 de março de 2006

franjinhas


[ms]

porque acordei e cheirava a verão. porque queria abrir a janela e dizer bom dia ao céu azul. porque é quase lua cheia. porque mulher é mulher e muitas vezes mulher é mesmo vaidosa. porque mulher é mulher e quer mimo e sentir-se bonita. porque em menina usava franja. porque queria um reflexo mais descomposto e bem disposto. porque o meu nariz também precisa de fazer a fotossíntese. porque queria manter as raízes fortes e brilhantes e dar um corte nas angústias gastas. porque sim.

sexta-feira, 10 de março de 2006

music for a found harmonium




music for a found harmonium | penguin cafe orchestra

descobri-te quando tropeçaste o meu caminho em papel de jornal.
quis-te assim, inteiro. verdadeiro. e não sabia como te chegar. apaixonei-me como criança num campo de girassóis. fui lentamente aproximando-me do teu rosto de luzes [e]ternas, madeiras cansadas. emoldurado pelas vidas em cartaz. programa extenso com letras de teias enredadas por mãos de velha sábia.
envolvi-me toda em ti e deixei-te possuír-me. pequenina, enrolada em posição fetal, a luz abraçou-me, aqueceu-me, deu-me a vontade. os braços mexeram-se sem pedir-lhes nada. és assim, generoso, entregas as almas que tragamos sem pensar. e atinge-se na respiração abdominal a posiçao de estrela, que ensinas que nos enfia cá dentro em golfadas as energias deste mundo e do outro. absorvo-te. de repente uma mulher saltou no teu colo. e outra e outra e outra ainda. e seres animados sem linhas dançavam como estrelas à nossa volta. o súbito estertor de ser porque estava no teu colo, em que dançava como a bailarina da caixa de música. rasgava a gargalhada selvagem, despia-me e mostrava-te-me, largava em debandada violenta pontapeada, cuspia sangue e por dentro sorria. porque entravas por mim adentro quando achava que não penetrarias mais fundo. lançaste-me as raízes do desejo. de mãos dadas no escuro porque amar é de olhos fechados. e na pele nascem roupagens de cores fortes, puxando o corpo em arrepios. o cabelo cresce e cai ao chão. os olhos escurecem e envelhecem conforme os que os teus reflectem. o fôlego não interessa. porque somos nós. no teu colo me planto, pincel e paleta sou a tua mão firme e certa. eu não sei mas tu sabes. e a árvore imensa espessa as ramagens alimentando-se do suor e do sangue que vorazmente lhe consagramos. alma de vidro estilhaçada em gotas de anis. em cada estalada. em cada estalo. em cada sopro.
sopro-te agora ao ouvido. estás aí? acorda. acorda-me.

quinta-feira, 9 de março de 2006

no balanço da melancolia

olho para a agenda preta porque a colega está de novo de férias – prometendo-me beber uma caipirinha por mim numa noite de lua cheia - o que me leva a aperceber-me: um ano, passou-se pouco mais de um ano desde que comecei a trabalhar aqui. podem fazer-se balanços todos os dias, mudamos todos os dias. mas…

o Romeu continua aqui - mais pálido, é certo - a fazer-me companhia nas tardes suadas e nas geladas. os patrões continuam ausentes e dispersos, com picos insanos de actividade. continuo sem esperar nada daqui. a janela mostra-me ainda a esquina da casa azul, o extra, a padaria e a rapariga sentada na caixa da electricidade, ainda se adivinha o Tejo, apesar da sua ausência aos olhos, e as gaivotas ainda me garantem que não será uma miragem... e ainda saio demasiado tarde para ir aconchegar os lençóis ao sol no rio.

no entanto, e apesar da memória fraca que me deixa guardar pouco, regresso ao “há um ano atrás”... e surge um sabor a sal.
pelas mãos vazias de sentido. o corpo solitário sem novas almas. o pó permanece debaixo da pele, em ferida aberta. partilha-se as angústias com quem nos sente de forma igual. sinto os seres sentados lá em cima, na teia do universo. silenciados. amordaçados. presos na mesma cela da minha vontade de contar uma história.

regresso sem dar por isso ao ponto de encontro dos risos embriagados de há um ano. em que os alicerces estavam seguros, e o medo era não ter tempo suficiente nem mãos a medir para lançar o pó ao ar das cadeiras vermelhas. acompanham-me os melhores amigos. um que nasceu comigo no momento em que respirámos juntos o primeiro pó do palco, ensinando-me a alegria da entrega, a verdade dos olhos. outro que cruzou os passos nos meus e me pediu a mão para sentir também ele o voo das borboletas, e em mim ficou, ensinando-me a nobreza da humildade, a beleza das pequenas coisas.

a cerveja é a mesma. a voz também. o bolo ainda é de chocolate com chantilly.

que foi feito de mim?

terça-feira, 7 de março de 2006

brown eyed blues

subia as escadas do metro, olhos enterrados no livro. um cego cantava, o som embatia nas paredes frias e não encontrava lar. talvez como o cego. "olhos castanhos". a minha avó cantava essa música, nas tardes das papoilas, enquanto engomava ou lavava a loiça. quando o sol entrava a jorros pelas janelas da sala. quando se bebia chá simples, de camomila, bem açucarado. tinha uma voz doce, cristalina, com um vibrato tão característico dos tempos do papel de parede, das saias rodadas, dos serões com discos de vinil e das bolachas ao quilo. fosse essa voz uma cor, só poderia ser branca. como os anjos.

senti umas saudades tão fortes que quase não consegui respirar.



Teus olhos castanhos
De encantos tamanhos
São pecados meus
São estrelas fulgentes
Brilhantes luzentes
Caídas dos céus
Teus olhos risonhos
São mundos, são sonhos
São a minha cruz
Teus olhos castanhos
De encantos tamanhos
São raios de luz
Olhos azuis são ciúme
E nada valem para mim
Olhos negros são duas sombras
Com uma tristeza sem fim
Olhos verdes são traição
São cruéis como punhais
Olhos bons com coração
Os teus, castanhos leais

| letra e música de Alves Coelho |

segunda-feira, 6 de março de 2006

aqui



estendo os braços
está aqui em frente a mim
mesmo em frente
sei-o
nos cigarros acesos
nas luzes de halogéneo
e no barulho dos carros que passam
nas pedras da calçada e nas outras
no cheiro do vagabundo
e nos saltos da senhora
quero. sei todos os dias.
percebes?
que sei, que estendo e estico os braços
até ficarem dormentes
que os dedos são pequenos
que me deixo ficar
a escorrer
os pedaços que me definem
até que me caia toda ao chão
e não tenha mais
está aqui, mesmo aqui
diz-me para esticar as mãos
e depois vira-me as costas.

sábado, 4 de março de 2006

o voo das borboletas



de repente o "outra vez". o turbilhão. as cores e as palavras. o tremer. o suor. na garganta as rédeas soltas. os dedos agarram com o desespero do sentir do etéreo. o corpo oferece-se sem pedir. podia ser sexo. podia ser um orgasmo.

[fotos e montagem de MS]

quarta-feira, 1 de março de 2006

vozes



repete. já estou cansada. um cigarro, pode ser? não devias fumar enquanto cantas. lixa-te a voz e a respiração. eu sei, que queres. estou nervosa, deixa-me. vá, do início. troco tudo, e se eu falhar? a cantar ainda é pior, nota-se logo... não penses nisso agora. faz. mhmmm, espera, espera. não me lembro do início. disparate, lembras sim. estou com a garganta arranhada. mas que trauma é esse? caramba, acho que ou se tem o dom ou se está calado... és mesmo estúpida, sabias? desde que coloques a voz e entres no tempo ninguém quer saber se ganhaste a eurovisão. bem, ganhar a eurovisão não é sinónimo de cantar bem e... queres começar? oh mas que coisa, estou desconcentrada. isto assim não dá. eu sei que assim não dá, concentra-te. quero fazer isto bem. pois. é que sem fazer parte do nascimento das coisas, levar isto assim tão cru, sem poder experimentar e errar... é difícil. pois é, pois é, é tramado. eu sei que são só dois dias, porque é que estou assim? porque levas isso a sério. eu sei, mas mais ninguém leva... e que queres? se no fim levares umas palmadas nas costas já é vitória. então para que é que estou a fazer isto? porque sim. porque não conseguias não fazer. voltas sempre ao local do crime. dói-me a barriga. isso são as borboletas.