terça-feira, 28 de novembro de 2006

homenagem

uma pausa. na azáfama feliz - e em azert - de uma semana de descanso. de surpresas, de vendas nos olhos.
para agradecer a mobilização de uma mão cheia de dedos que surgiram de todos os lados num conluio secreto que se revelou num abraço denso e quente. internacional. movidos pela batuta do maestro do meu coração. sorriso.

ainda não fiz anos, mas posso dizer que esta prenda ficará e-ternamente tatuada na minha pele.

sexta-feira, 24 de novembro de 2006

bagagem

enrolo as meias e a roupa interior. viro as peças delicadas do avesso. faço uma marca em cada item que já está. não esquecer o pente e o amaciador. puxo com força os esticadores e transformo a mochila no mais redonda possível. depois, estendo um braço e o outro. os dedos tocam o esboço de ar que já não me pertence. espreguiço-me feita gata preguiçosa. em pontas de pé, soam os acordes da caixa de música. chão negro. madeira macia aquece os pés. deslizo numa dança minha, de melodias incertas. as ancas vagueiam, o peito arqueja. o cabelo perde-se no caminho. então, lentamente, a música estende-se, envolve-me. e no seu colo ondulo. ondas cada vez mais encaracoladas. espirais apertadas. toda a minha pele perde as noções da sua geografia, entrega-se nesse abraço aconchegado onde o cheiro é das pintas de canela e me respira ao ouvido. baila, bailarina, baila. pequenina pequenina. já cabes na bagagem.
vamos?
vamos.

sexta-feira, 17 de novembro de 2006

monte redondo, 14 de novembro de 2006


[ms]

Palavras soltas: "espectacular", "fantásticos", "puro deleite", "adorei", "quem me dera vê-los outra vez", estas foram algumas das expressões proferidas pelo grupo de alunos [...] que assistiram, no dia 7 de Novembro, à vossa representação [...].
O entusiasmo, desde a recepção invulgar à correria informal ou "infernal", foi a nota constante nos rostos dos nossos adolescentes ávidos por um texto que nunca pensaram diverti-los tanto. As nossas aulas ganharam um novo "sabor", pois a motivação e a compreensão é já outra, por isso o nosso muito obrigada, já que não nos foi possível fazê-lo no final do espectáculo.
Não obstante, a nós, professores, veio-nos à memória o outro extenso grupo de alunos que, por razões diversas, não puderam fruir desse momento único, daí que tivemos a veleidade, quiçá o atrevimento, de almejar a vossa presença na nossa instituição. Sabemos que o pedido é ambicioso, mas a nossa vontade é maior e, talvez, a "nossa simpreza nos abaste" para convidar o vosso Grupo a brindar-nos com mais uma representação aqui[...]
Atenciosamente, a professora


e é assim, por fax, que às vezes nos enchem o bandulho do ego...

a porta do lado



entrava de manhã e ao meu "bom dia" já tinha a madalena e a italiana à minha frente na mesa. o rapaz do antiquário já lá estava, na mesa ao pé da porta, virado para a rua, com silêncio e um cigarro. eu chegava normalmente à hora em que acabavam de preparar os almoços e as sobremesas e se sentavam na mesa do fundo com as suas canecas e o jornal ou o catálogo da perfumaria. tomavam, por assim dizer, o pequeno-almoço comigo. muita conversa trocada. viravam as cadeiras na direcção da minha mesa e perguntavam opiniões. sobre tudo e sobre nada. por vezes estavam mais silenciosos e eu então prendia os cantos do meu livro no pires do bolo e saboreava os primeiros momentos do cigarro e das letras, antes de respirar fundo e seguir para a tortura.
ao almoço sempre foi a confusão total. os turistas e os habituées, o cheiro forte da comida. eu ia sempre para a sala do fundo, era mais calmo. sozinha ou acompanhada, era em modo automático que me aparecia o tentador cheesecake à frente, o café e o cinzeiro no fim. o João é meu vizinho. vive ali no mesmo bairro que eu. nos suores da azáfama, parava sempre um bocadinho ao pé da minha mesa e queixava-se do cansaço, da patroa e contava a última do cãozinho que lhe ofereceram. o João teve uma pneumonia. enviámos-lhe um cartão. contaram que chorou e tudo.
a Sónia chegou depois, muitos meses depois, para substituir a Carla. sempre calada, de rosetas e duplo queixo.
a Ana é a filha da dona, redonda como ela, de enormes olhos castanhos. tem uma filha e um curso de tapeçaria.
a dona, cujo nome nunca consegui fixar, é enorme, jocosa e gulosa, apesar dos diabetes. era um espaço para se estar, que nunca fechava para mim. a salinha do fundo, de toalhas às risquinhas, luzes suaves, assistiu a ataques de fúria, a confissões, a lágrimas irrequietas e risadas altas, a brincadeiras dos empregados com a minha gulodice e os quindins. as mãos trocadas em cima da mesa, os sorrisos e a cabeça encostada à parede. faziam fiado, mandavam a comida para fora em pacotes de alumínio e não tinham multibanco.

hoje receberam-me de olhos turvos de lágrimas, com as vozes desconsoladas e os gestos atabalhoados. o "meu" restaurante vai hoje fechar.
citando o João, o mais triste e choroso de todos, "quando chegar a segunda-feira, o que é que eu faço?"

terça-feira, 14 de novembro de 2006

curtas dum regresso ao passado

numa passagem pelo bairro da minha infância a comprar o melhor frango assado do mundo, uma paragem para aquecer os beiços [congelados pelo vento frio] com um café e a melhor delícia folhada do mundo. sentada nas cores, sons e pessoas do meu tempo das papoilas, ouço o talhante [ainda por ali anda, ainda lá vai beber o café quando fecha o estaminé] dizer: "custa três mil reis" com a dicção perfeita de época: mérreis.

à saída do café, uma menina brinca rodando agarrada a um sinal de trânsito. espalha-se no chão de palmas das mãos directas na calçada. senti perfeitamente o ardor da gravilha a cortar-me a pele, como me acontecia com frequência, na estrada da praceta, no tempo das papoilas. gemi e tudo.

já a caminho de casa, nariz no ar. o nevoeiro acumulava-se em gotas nas pestanas. com o reflexo dos candeeiros parecia que tinha chorado daqueles choros de antigamente. em que a alma se despejava toda no sal sincero de um qualquer amuo sentido.
o nevoeiro cheirava nitidamente a um outro velho companheiro... o aerossol.

segunda-feira, 13 de novembro de 2006

horario de inverno

porque é que como ser humano, animal de hábitos, não consigo habituar-me a estas noites que começam antes de o meu dia terminar? porque é que acordo demasiado cedo, com aquela espertina de já haver muita luz? porque é que, mal se vai a luz, eu me quero ir daqui para fora? olhar para o relógio e... não, ainda falta muito tempo. tempo que se arrasta e o céu cada vez mais escuro.
o consolo está apenas no cheiro cortante do frio ao sol, quando saio de casa. e das castanhas, quando saio do emprego. salvam-se[-me] as noites de chá, Chet Baker e manta polar... o meu gato enroscado em mim...

diziam-me, se calhar para me consolar, que este horário era para os meninos que moravam longe da escola acordarem cedo e não ser de noite. ora eu nunca percebi isto, nem os meninos. eu também me levantava cedo para ir para a escola e preferia ir de noite e voltar para uma tarde inteira de brincadeiras na praceta. e não ter de fazer os TPCs à luz do maldito candeeiro.

pais revoltados

não, não me refiro aos problemas do encerramento de escolas por esse país, nem às culpas que sempre se depositam nos professores por os meninos não aprenderem nada a não ser asneiras. nem sequer da revolução cultural com que tenho sonhos semi-eróticos em que os pais proibiriam os filhos de ver as Floribellas e os Morangos e eles iam á falência e as produtoras eram obrigadas a fazer coisas de jeito... falo da reacção do meu público-alvo-patronato à gravação do cd do Ruca.

chego ao escritório às 9 da noite de 5ªfeira, venho buscar trabalho para fazer durante a madrugada, tendo em conta que terei de faltar a tarde de 6ª e tenho um projecto para paginar [poupem-me os comentários tipo "és mesmo parva, porque é que levaste trabalho para casa? o patrão P. nem vai ler isso, é sexta-feira!"]. ao chegar, encontro o patrão Porthos, o patrão P. e a madame M. [mãe-galinha-agente-produtora de uma das nossas jovens vedetas e nova colaboradora em certos projectos], todos ainda de volta dos computadores. algum santo deve estar para cair do altar. não me perguntaram porque é que eu estava ali às 9 da noite. pois se eles lá estavam... eu é que informei logo: "fiquei no casting de voz, vou gravar o Ruca, tenho de faltar amanhã de tarde, vim buscar as coisas para o proj..."
- como??? - intervém o Patrão Porthos - vais gravar o Ruca como?
- então, eles querem fazer um cd com as músicas do boneco e escolheram-me para fazer o Ruca.
- como é que te escolheram? aquilo não é um rapazinho, mesmo um puto que faz?
- é. mas parece que tiveram problemas de negociação. os papás estão a ficar gananciosos. além disso, é preciso interpretar e é complicado pedir isso ao puto. e mais: ele parece que está a mudar de voz e portanto já não serve...
- mas mas! como é que isso é possível??!!?!? vais matar o Ruca!
- ó Porthos, mas que é que queres?
intervém o patrão P.
- parece-me que para conseguires o trabalho baixaste os valores e estás a desvalorizar os profissionais... - ri-se à gargalhada
continua o Porthos
- e como é que vai ser se houver espectáculo cá?
- pois que parece que se o cd ficar bom, os ingleses quererão que sejamos nós a fazer as vozes do esp...
- não pode ser! não percebes? o meu filho identifica os bonecos pelas vozes! se eu o levar a ver, ele vai perceber o embuste! estás a enganar as crianças! estás a destruir o meu descanso em casa!
- então suponho que não vais querer convites, se eu arranjar...?
silêncio.
- bem, vou-me embora para casa. mas vou chateado e em protesto.

quinta-feira, 9 de novembro de 2006

I'm a rock star... kind of

e se eu começasse a conversa com: "vou gravar um cd!"
perguntariam: "um cd? de música?!"
eu responderia: "sim, sim..." faria um sorriso malicioso. continuaria: "ligaram-me em desespero de causa. precisavam de uma voz feminina com características muito precisas. vou para estúdio já amanhã."
provavelmente receberia uma cara entupida de surpresa, sem saber bem o que dizer. sairia algo como "ena pá! que fixe... parabéns, pá!" depois, um algo mais recomposto "então e é para sair quando?"
ao que eu, sempre confiante e sorridente, responderia: "no Natal..."
perguntar-me-iam, obviamente "já? caramba! e a banda é conhecida?"
eu soltaria uma gargalhada: "é tua conhecida... a banda sou eu... sou a vocalista. com um coro a fazer backgroud vocals e uma participação especial."
"bolas, que fantástico... e é novo, o projecto?"
eu diria: "não é novo, teve início em Inglaterra já há uns tempos. mas agora quiseram gravar cá, também."
já numa pose mais refeita, sairia: "ena, ena... e como é que se chama o álbum, já sabes?"
sorriso. olhar. trejeito de boca...
"ainda não têm o nome final. mas vai ser qualquer coisa como 'As músicas do Ruca'..."

quarta-feira, 8 de novembro de 2006

simple pleasures


[ms]

romper com cuidado a embalagem. enfiar os dedos e sentir a macieza do bloco de folhas de tabaco ainda prensado. apanhar um pedaço e devagar ir desfiando as folhas em pequenos fios aromáticos.

segunda-feira, 6 de novembro de 2006

ela aos sabados de manha


[ms]

nalguma poça mergulhava o pente. desdentado. alisava o cabelo à força de cuspo, empurrava-o, prensava-o de mãos decididas para o que no espelho de águas turvas e folhas secas acreditava ser o seu lugar. depois ajeitava o xaile e seguia para a igreja. na barriga sempre uma irrequietação. esperava. observava as emoções sempre iguais. os ciumentos, os jocosos, os beatos, os orgulhosos, os divertidos, os ansiosos, os enfastiados. mas ela mantinha-se à sua distância de cheiros azedos e sussurros ininteligíveis. falava consigo, à flor da pele. esperava pelo branco que lhe turvasse os olhos e os farrapos em cintilantes gotas de fantasia. os fantasmas chegavam, um a um. desfilavam pelo corredor de tapete vermelho. ouvia a música. a banda sonora de outras vidas diluía-se no ritmo badalado no seu peito, das suas cantigas. levantava o pescoço e fechava com força os dedos nos galhos secos. no cetim feito teia de aranha de um laço de fios chorões. os seus passos haviam deixado de fazer diferença nos ecos. assim a luz a recortou para logo a fundir nas paredes de pedra. um único olhar lá do fundo reconhecia-a para passar a ignorá-la, dirigindo-se de novo a quem de facto existia. mas na sua mente nada disso fazia realidade. seguia direita ao seu desejo, ao semblante nublado que só ela reconhecia entre o cal, os santinhos e os azulejos. no seu desfile delicado nem o soçobrar dos folhos murchos conseguia penetrar a redoma da sua verdade. embrulhava-se no véu do odor forte das velas, da cera derretida de tanta promessa, dos pedidos e das vãs esperanças, que perscrutava de olhar indiferente. as promessas já tinham morrido e ainda não sabiam, os infelizes. depois de contar as novas chamas sentava-se de joelhos juntos e olhos brilhantes, atenta à homilia. sussurrava de cor as juras lá do fundo. eu a ti, tu a mim. pertenço-te e és meu. esmagava mais um pouco o ramo morto na ansiedade do beijo, o beijo no vácuo. o mesmo vácuo das noites de núpcias que lhe rasgava as veias em sonos ausentes. depois a vaga. de soluços num silêncio esmagador, quando a trovoada de sons e arroz a deixava em paz, os ecos abrandavam e os aleluias cessavam.
tirava o lenço bordado da manga e limpava os olhos. porque uma noiva não pode esborratar o rímel.

sábado, 28 de outubro de 2006

dos regressos



daqueles que os mapas não marcam, nem as linhas da mão têm a certeza de apontar. não há estrela polar neste céu agreste de luzes falsas que orientam aleatoriamente as suas caudas de cometas.
divago.

a minha ausência reverte a favor de um regresso. temido. muito mais temido do que poderia esperar. de momento ainda se tacteiam estratégias para contar uma história tão antiga e [re]contada com escadotes. sim, escadotes. eu tenho medo das alturas, tenho medo quando não estou em contacto com o chão. tenho vertigens. tenho pouca força de braços. tudo num mundo de testosterona onde sou o único elemento feminino. um metro e meio e uns trocos desajeitado no meio de gaijos...

ah, mas para carregar sacos de roupa e caixotes ainda sou da produção. e na produção, curiosamente só trabalham mulheres [no sentido de bulir a sério, não é recostar o rabo à cadeira o dia todo]. tenho, sempre, de regressar à base e tratar das papeladas, das reservas, dos telefonemas e não me esquecer que esta quase-estreia é só um fogo fátuo. ainda muita coisa há a fazer para a temida prova de fogo do [pretende-se] grande espectáculo que há-de sair em Janeiro... o tal das madeiras. bom...

como está a correr? colegas bem dispostos, cooperantes, excepto um que ainda não decorou o texto e não percebe que todos temos desculpas para não termos o trabalho de casa feito. mas há-de desenrascar-se.
laivos de genialidade de um homem que normalmente só diz disparates. estou a falar do encenador. um homem que precisa de uma grande dose de "risa" para ter embalo para encenar. um homem tão divertido como inconsistente. tão criança como irritante. tão alegre como mimalha.

estramos dentro de poucos dias, já com imensas reservas feitas. as marcações ainda estão frágeis - de mais a mais equilibradas em escadotes...
nota: não há palco, há claustros. não há música, é à capela e com coreografias de fazer chorar a Floribela. não há camarim, há "mudanças de roupa coreografadas". bah.
ah... o meu pânico de cantar? pois que à força do medo de me baldar dos malditos coisos de alumínio, já canto sem tremer a voz...
qu se lixe a minha mania de "o cantar é para quem tem um dom": já sei que, se algum dia me chamarem para fazer um musical, o truque é porem-me numa situação de equilíbrio precário e queda desastrosa eminente...

segunda-feira, 23 de outubro de 2006

na carimbolandia

loja do cidadão, para tratar de todos os documentos que perdi aquando do roubo da minha querida carteira. em chica-esperta, lá fui passar a tarde de sexta, porque "pode ser que o pessoal vá todo de fim de semana e esteja mais vazio". até às 4 e meia da tarde era verdade...

tirar fotografias - pimba, paga. fiquei amarela. ó senhora fotógrafa que mete as chapinhas na máquina e faz trocos que é um mimo, afine o cyan...

BI, comprar impressos - pimba, paga. é preciso certidão de nascimento. não faça aqui, que demora 2 dias. vá à Fontes Pereira de Melo que lha fazem na hora. então para que é que vocês existem aqui, mesmo?

certidão de nascimento - afinal onde é que eu fui registada? errrr... mãee... esperar que os senhores saiam do chá das 3 e meia que acaba às cinco para as 4, já que o santo serviço fecha às 4. pimba, paga. e que tal digitalizar isso tudo para bases de dados com acesso para toda a rede de registos, hã? não há excedentes na função pública? há, estão na hora do chá.

fotocopiar certidão de nascimento e declaração da polícia "não vá o diabo tecê-las" - pimba, paga.

BI, entregar impressos e certidão - espera. espera. espera. preciso de um cartão seu. minha senhora, fui roubada, os únicos cartões que tenho são as segundas vias dos do banco e o da Medis [estranhamente os privados, portanto]. mas ó menina preciso de um cartão, esses não servem. minha senhora fui roubada, está aqui a declaração da polícia, não lhe posso dar mais nada. suspiro de mártir. fotocópia do cartão da médis [mas se servia, porque é que me dificultou a vida?]. cagar dedinho, impressão digital[para que é que serve, ainda me hão-de dizer]. já agora alteração de morada, sim? suspiro de mártir. daqui a 7 dias mais ou menos está pronto. [mais ou menos? claro, vou tirar a semana para vir passando por cá...]. já agora, quando é que o nosso BI passa a ser Simplex? como o passe...

carta de condução - senha para os impressos. pagar os impressos e a minha colega já a atende. senha para a colega que já atende, preencher impressos. enganei-me. senha para a senhora que vende os impressos outra vez. olhe, enganei-me neste. tome lá outro, são mais 17 cêntimos. e já agora ao preencher tenha cuidado para a letra da assinatura não sair fora do quadrado. mas tem de ser igual à do BI. claro. a colega que já atende atende-me, rever os impressos, recortar o picotado. já agora alteração de morada, sim? claro, mas assim demora mais. [não que tenha alterado em nada o que quer que seja ao trabalho da senhora que me atende] agora espera que a minha colega [a quem se paga os impressos] a chame para lhe dar a guia. a carta segue para casa dentro de um mês e meio - maizoumenos, claro, maizoumenos. esperar pela colega a quem paguei os impressos. esperar. esperar. tome a guia. ah, claro! a "guia" é a merda do impresso que EU preenchi, com dois carimbos e uma rúbrica. como é que eu não me lembrei que atrás do biombo estará um senhor doutor para carimbar e rubricar? honrada função que exige tanto aprumo, dedicação e tempo como montar um puzzle de 10 mil peças? [porque é que não disseram logo? eu já agora também carimbava...] pimba, paga a guia. pensar que estas novas cartas já nem implicam a senhora que dactilografa os dados e cola com UHU as fotografias no cartão cor de rosa. é o mesmo sistema do passe que, oh curiosidade, fazem na hora.

documento único do carro - impressos de borla. ai que isso deve trazer água no bico. atendem na hora. medo. preciso do seu BI. está a ver aí a cruzinha no "furto"? fui roubada. mas preciso do BI. tem aqui o papelinho da encomenda do BI e a declaração da polícia. mas eu preciso do BI. fui roubada, senhora. olhar entre o implorante e o psicopata homicida. suspiro de mártir. teclar meia dúzia de bujardas no computador. 30 euros pelo novo documento, mais 30 pela alteração de morada. olhe, se eu fizesse as duas coisas em separado tinha desconto? eu sei, que como pobre ser da geração recibo verde, que lida com computadores todos os dias, não estou ao nível intelectual para perceber porque é que a alteração de um campo numa base de dados e um "print" [dois clics ou ctrl + P... não sabia, senhora?] num papel devidamente criado para o efeito, mais um selo especial terá de tanta ciência. é, mais uma vez, a arte do carimbo. recebe o documento dentro de um mês maizoumenos, claro, maizoumenos.

cartão de contribuinte - a Loja do Cidadão informa que o sistema fod... está temporariamente indisponível. portanto aqui já não se faz nada.

cento e tal euros depois, sobram à conta os trocos para um geladinho. para adormecer a língua, a ver se não digo mais palavrões hoje.

terça-feira, 17 de outubro de 2006

chove e faz sol


[ms]

as luzes às vezes não são quentes, só deixam um hálito agridoce na pele. percebes? não interessa. às vezes o espaço entre dois corpos completa os fragmentos que faltam. dizia que as luzes arrepiam. como que nos estremecem. reconheci em mim um medo novo. e este é mesmo, assim, assustador. não sabia que o acordar da dormência seria tão doloroso, confesso. julguei que em mim encontraria nova alegria, novo impulso, desta feita aliviado, concretizado. livre, entendes? não, de facto não. acordo enrolada sobre mim mesma e cheia de dores que ainda não senti, depois das que senti e que me enrolaram. são dores por vir, que nem sei se virão. faz sentido? desenrolo-me a medo e cada pedaço de mim que sai para fora é como um fio de um novelo que se puxa e vai-me desfazendo. mas encontra nós, pelo caminho. o pisar não é novo. vejo as folhas que o outono vai soprando das árvores e é mesmo isso. um caminho que já percorreram, que sabem. voltam ao chão, sugadas serão pela terra e voltarão a verde e flores daqui a uns meses. mas o cair. o cair. há sempre medo de ficar esmigalhada no asfalto. a borracha queimada faz mal à fotossíntese. nos veios estão marcados os percursos, como as linhas na palma da mão. são tatuagens, são. marcas que por mais que cerremos os punhos não desaparecem e as mãos ficam dormentes do medo. do medo de cair, sem rede, como todas as quedas a sério. porque é suposto a lei da gravidade amparar-nos pelo contrabalanço do peso da alma. mas nem sempre o vento sopra a favor. e agora as luzes que se acendem na sala verde são-me estranhas. são estranhos. a mochila das perguntas pesa-me. inclina-me. e tenho de ter as costas direitas. em pontas dos pés, assim, subo à armação de alumínio. será que ainda me vale o ballet? e os fantasmas? ter-se-ão esquecido de mim?

não sei como cheguei aqui, mas juntar palavras faz-me bem. encontro-lhes o sentido à medida que as saboreio. assim como um chocolate que prefiro deixar derreter na língua em vez de morder.

segunda-feira, 16 de outubro de 2006

para avaliar o seu grau de loucura

sábado, dia de passeios, de descontracção. porque os ensaios inibem de dormir até tarde, aproveite-se o dia.

almoço reconfortante no restaurante das avós, matar saudades das palavras com diminutivos, da força calórica de comida cozinhada na hora e das batatas fritas às rodelas. depois, descer a rua e segurar o queixo perante a exposição do world press photo. lutas intermináveis com um par de velhas que não compreendiam o conceito do pequeno corredor que separa as pessoas da fotografia. elas metiam-se à frente e punham-se a explicar as legendas uma à outra, indiferentes a quem queria ver os bonecos. considerações tecidas sobre o "molhar o pãozinho no sangue", sobre a parca qualidade dos nossos premiados, sobre as opções do júri, sobre a imponente reportagem sobre uma mulher vítima de cancro, sobre as delícias das fotos das bailarinas de leste, sobre o photoshop descaradamente mal amanhado em algumas imagens.
de regresso a casa, bandulho intelectual bem refastelado, estacionar na garagem [porque está de chuva]. reparar que os vizinhos [cujo único veículo estacionado é uma bicicleta] têm encostadinho à parede um par de raquetes de badminton e uma pena. troca de olhares tresloucados.
ficar a jogar badminton na garagem até desaparecer a luz do dia.

e assim se trama um dia que podia ser tão pseudo...

sexta-feira, 13 de outubro de 2006

happy birthday?

pois que descobri agora que este blog já fez dois aninhos.
parabéns, pá!


[ou... haja paciência...]

do estudo de texto

[re]começaram os ensaios. este ano com escadotes ao barulho - quem sabe para breve acrobatas e lançamento de anões. Gil Vicente, já se sabe, tem de ser trabalhado para se perceber o que é que as frases querem dizer... português arcaico tem muito que se lhe diga. bem como as personagens, a estudar e contextualizar historicamente para depois encontrar paralelos actuais.
fica uma pequena recolha de pérolas, da autoria do encenador...

das personagens
o Onzeneiro é dealer... mas só nós é que sabemos porque não passa para o público...
o Parvo é um wannabe. é daqueles putos brancos que querem ser pretos e começam a falar com sotaque, a usar aquelas calças e cantam rap.
as pessoas pensam que a Brízida [leia-se Brízeda] é uma puta, mas não. ela cria as meninas para os padres, é rica e vai às festas, tem muitas funções e não se percebe bem no meio qual é o trabalho dela. e só quando se esquece é que lhe vai pró chinelo [leia-se chenélo]. é como a Maya. a Brízida é a Maya.
o Sapateiro é... olha, é um estudante de Belas-Artes da António Arroio. daqueles que só desenham olhos... olhos e fetos!

dos subtextos
"vai tu muitieramá, e atesa aquele palanco e despeja aquele banco pera gente que virá" - o diabo está, portanto, a assear o barco, não é?
"embarque vossa doçura" - embarca, amori!
"dix" - foda-se!
"nom praza a Barrabás" - não lembra ao diabo... ou... puta que o pariu!
"que é desta glória, emproviso?" - mas nós andamos a brincar?

terça-feira, 10 de outubro de 2006

the pillowman

teatro Maria Matos
até 15.Out.06
4ª a Sáb. 21H30 | dom. 17H
encenação de Tiago Guedes
com Gonçalo Waddington, Albano Jerónimo, João Pedro Vaz e Marco D'Almeida

bilhetes: 15 €, regra geral. todas as informações no site do teatro


prometido é devido e à primeira oportunidade, uma visita ao Maria Matos renovado, cuja programação e grafismos de divulgação me têm deixado de água na boca.

The Pillow Man não é uma história fácil. desengane-se quem acha que se vai rir a bandeiras despregadas [houve umas quantas meninas nervosas que se escangalhavam a cada deixa até levarem o soco no estômago. é incrivelmente triste o poder de um "foda-se" num espectáculo]. desengane-se também quem pense que vai lá ficar de mão no queixo, com um circunspecto "hummm" intelectual. é uma história simples. ou melhor, é uma história contada de forma simples, sem ser simplista. em que as emoções provocadas vão do riso sádico, à simpatia, ao ódio, ao confrangimento, ao enternecimento, à tristeza, ao torpor, passando pelo riso incomodado de quem sabe que se está a rir de algo que só tem piada porque - epá - é a fingir... não é...? [... e depois alguém lá em cima nos olha com um daqueles olhares que nos cala...] um drama com laivos de comédia de situação em tom amargo, salpicada de um humor negro que nos gela e aquece de riso ao mesmo tempo. sobre um escritor de contos mórbidos - excepto o do porquinho verde - que se apercebe que estão a acontecer...

o cenário é extremamente clean e apelativo [lembrando vagamente Frank Miller, não fossem dois dos personagens usar roupa de cor], com soluções muito boas, a utilização de perspectivas interessantes complementadas com uma iluminação invisível [o que é positivo] e de - mais uma vez - adereços simples e pequenos apontamentos de multimedia, que não se impõem. são mais uma personagem.

uma encenação também transparente, com marcações naturais, nota-se que ditadas muito pelo instinto dos actores na movimentação do texto. uma esmerada direcção de actores, em que o texto ficou não só à superfície da pele, mas foi esventrado com corte cirúrgico. todos sabiam bem o que estavam a fazer, sentir, pensar. como eu gosto... nhami!

o que não é simples, neste espectáculo, é o gráfico emocional para os actores. não é simples no sentido em que não temos ali "bonecos". temos seres humanos, com defeitos, qualidades, forças, fraquezas, silêncios, segredos, pensamentos, ideais, histórias passadas. todas as personagens são absolutamente humanas.
é portanto, uma peça de actores. [um dos meus "estilos" preferidos]. ali, o desafio vai para eles, de se concretizarem em cada respiração, em cada deixa, em cada contracena, em cada momento de confronto com uma realidade estranha. e respiram realidade dos poros.
a todos e a cada um deles, um grande aplauso de pé. daqueles de peito cheio de orgulho, em que se agradece que nos mostrem afinal porque é que vale a pena continuar a tentar neste meio cão.

há quem considere a peça, em dado ponto, algo longa. cíclica em termos de conteúdo. confesso que estava demasiado absorvida a deliciar-me com as interpretações para dar pelo assento rijo. mas foi unânime que as cenas que ensanduicham o espectáculo [as fatias de pão, portanto o início e o fim] arejam nos tempos certos o que podia tornar-se demasiado longo mas não chega a ser. na proporção certa, diria.

um espectáculo a não perder. cuidado que a sala está na moda, portanto para os últimos dias já deve ser difícil conseguir bilhete. não temeis, caros seguidores d'A Palavra deste Blog, os lugares da fila da frente. a distância do palco é perfeita para absorver tudo sem um torcicolo.

mas isto sou eu...

quarta-feira, 4 de outubro de 2006

|| pause still


[ms]

às vezes o tempo anda feito gato avariado. corre de um lado para o outro de encontro às paredes, não conseguimos perceber o que anda a fazer, o que persegue ou sequer o que vê.
nesses dias apetece obrigar a sentá-lo à minha frente, e dizer-lhe para ter calma e olhar-me nos olhos. vamos lá conversar...
[... nem que seja para...]
- então e o Benfica...?

segunda-feira, 2 de outubro de 2006

as vampiras lesbicas de sodoma

pela Companhia Teatral do Chiado
Teatro-Estúdio Mário Viegas
supostamente a semana passada foi a última semana, mas nunca fiando, que eles são danados para a aldrabice e já "estenderam" até dia 7 de Outubro.
entre 13,50€ e 18,50€ [excepto condições especiais]
reservas e actualização de datas no site da companhia
fotos no blog do espectáculo
com Rita Lello, Simão Rubim, Tobias Monteiro, João Carracedo, Manuel Mendes e João Craveiro


não é um espectáculo certinho. quem viu As obras completas de William Shakespeare em 97 minutos sabe perfeitamente que a ideologia não é essa. é uma paródia "off-Parque Mayer". é uma história de duas vampiras actrizes ao longo dos tempos [o fio cronológico lembrou-me vagamente o "Entrevista com o Vampiro" - com as devidas distâncias]. que passam grande parte da sua eternidade em Lisboa. que por acaso são lésbicas. e também só por acaso várias personagens femininas são interpretadas por homens ao estilo "tão-traveca-quanto-se-pode-ser". quebra-se a quarta parede. ou melhor, rebenta-se com a quarta parede. com muita dinamite da Acme. os actores sabem a linha condutora mas para ligarem o princípio, ao meio, ao fim, entram numa desgarrada de improviso. cujo objectivo, à primeira vista, parece ser fazer os colegas em palco a desmancharem-se.

isto dito assim é uma perfeita palhaçada, sem qualquer respeito pelo público, pela história que se está a contar ou até pelo trabalho de meses de ensaios e pelos cabelos brancos do encenador.
mas o "problema" é que, no caminho, somos completamente envolvidos por esta teia de disparates. somos enrolados, virados de cabeça para baixo, e não faz mal se o Simão perdeu uma pestana postiça. ou se o encenador ao fazer uma apresentação no início da peça, se esqueceu - outra vez - do endereço do site. são apenas mais motivos de galhofa dissecados a corte cirúrgico.

admire-se, no entanto - se conseguirem abstrair-se de tanta maluqueira - meia dúzia de pontos:
o trabalho fenomenal de caracterização. a coragem daqueles homens para estarem todos os dias absolutamente depilados [eeek], com cintas daquelas que espremem os respectivos abonos de uma forma que podemos apenas suspeitar. a capacidade de improvisação inacreditável de todo o elenco, que não se esgota numa piada que funcionou no primeiro dia. o brio nessa improvisação. o espaço que dão uns aos outros para brilhar - e para gozarem com as suas caras - coisa rara e nunca vista. têm de ter um trabalho inimaginável no que diz respeito à base do texto, para não se perderem no meio de tanta liberdade. o facto de estarem a vibrar a cada minuto. especialmente porque nós estamos a gostar e a rir com eles. a generosidade de um encenador que deixa - gosta! - que todos os dias esventrem mais um pouco o trabalho de mesa. a possibilidade de num espectáculo destes senhores podermos sempre ter uma visita guiada aos bastidores sem darmos conta. ali estão expostas aquelas fraquezas que a maioria das companhias tenta esconder para poder levar um espectáculo a bom porto. é delicioso reconhecê-las à distância e vê-los brincar com isso também. é outro lado da medalha. ali, um cd estragado na altura de um playback é... mais um motivo de improviso. é um actor, em vez do grande número de dança e canto que ia fazer, começar a soluçar ao som dos "riscos". e no fim, ao ter um achaque, dizer explicitamente: "ainda não despediram o técnico de som?"

não é uma obra de arte digna de um intelectual levar a mão ao queixo e expressar o seu cogitante "hummm"... é um espectáculo franco, directo, parvo, non-sense. e é assumido nisso tudo.

a cada estilo as suas características. à Companhia Teatral do Chiado apenas o objectivo de fazer as pessoas passarem um bom bocado. e saírem de dores na barriga e nos cantos da boca. de preferência ainda a limpar a última lagriminha no canto do olho.

mas isto sou eu...

quarta-feira, 27 de setembro de 2006

sem senso


foto de ms

deixou o poema numa amálgama de vidros partidos. soltou-os no cinzeiro com as mãos em concha. preencheu os fios de neblina com aromas doces, gelatinosos. teceu-lhes a música do silêncio chuvoso. espalmou os dedos como carimbos queimados de encontro ao tecto. saiu, fechou a porta e os olhos aos peixes voadores e ao homem do cachimbo. o cheiro. batia-lhe nos sentidos como uma franja violentada pela brisa. escalou a calçada rezando para não cair num buraco. já se sabe que os buracos são fundos e não é fácil sair deles. entre o zigue e o zague era outono. as paredes acastanhavam e aguardou o toque rosa do fim do dia. a árvore velha escureceu-lhe as válvulas da alma, deixando coágulos de luz pendurados no chão. pensou em fazer um quadro de serradura para poder ver o céu. o vento soprou-lhe qualquer coisa ao ouvido. penteou uma madeixa solta.
não se apercebeu de que agora o cabelo brilhava com estilhaços de palavras.