quarta-feira, 31 de janeiro de 2007

cartas de amor . procuram-se

das antigas, daquelas de autores portugueses às suas amadas [ou de autores portugueses aos amados, ou delas para eles, ou delas para elas, não sou esquisita], onde escreviam os seus dedos e não os dedos dos fantasmas das suas personagens. daquelas que eram caneta e lápis e papel e mata-borrão. das que eram saliva e selos e tinta manchada de sal.

ando em pesquisas e falta-me o tempo, sempre o tempo.
fica o apelo. sirvam-se de mail e comentários a gosto.

como recompensa, há-de pensar-se em qualquer coisinha.

muito agradecida.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2007

frios

é acordar um dia com a parangona da TVI: "Portugal a bater o dente!" e ao domingo de manhã com uma mensagem da irmã a dizer "está a nevar!" - note-se a semelhança de pontuação entre uma irmã entusiasmada e um telejornal nacional.

aliás, quando lançaram o alerta laranja, esqueceram-se de mencionar um pequeno apartamento às cores ali para os lados do subúrbio lisboeta...

os dias fazem-se de várias camadas de roupa [hoje é uma long sleeve e 3 camisolas], de parecer um repolho farfalhudo com pernas, de abdicar de algum bom gosto no vestir em prol de ter o mínimo de arrepios possível. são lábios brilhantes de baton de cieiro, salas abafadas de fumo porque abrir uma janela é suicídio. é o ataque de asma porque está frio e depois o ataque de asma porque o novo aquecedor-ventilador queima o ar. são, portanto, pesadas bilhas cremes escada acima porque a Galp se esqueceu de preparar as novas Plumas-das-pernas-boas para os aquecedores a gás antigos.

é também a noite de bastidores e saudades, a tarde de sábado a livros, conversas adiadas, chá de limão e gengibre. são as noites de Dr. House a café e pão quente com manteiga - sim, novo investimento: uma máquina de pão baratinha mas que faz um pão maravilhoso e [diz que sim] massa fresca e doce e pizzas.

estes dias fazem-se de meias e mantas e edredons em camadas, pijamas e casacos de polar, no eterno sofrimento por antecipação do momento em que vou ter - maldição de corpo pequenino, bexiga pequenina - de me levantar da cama de madrugada e atravessar o hall gelado...

o inverno tem coisas tão bonitas... mas já me cansa, confesso. só sonho com poder voltar a tomar o meu café e ler o livro no jardim do Príncipe Real, à hora de almoço...

terça-feira, 23 de janeiro de 2007

oioai-ai

costumo dizer que o mundo do espectáculo é um penico. mais um exemplo:
um jantar de - espera-se - trabalho é o mote para uma noite que se prolonga porque, afinal, a companhia é tão agradável que não apetece ir já embora.
pessoas que entram, passam, sentam-se, bebem um copo e voltam a sair ou ocupam de vez mais um lugar arranjado à pressa. aquele lugar é como mala de mulher. é como coração de mãe: cabe sempre mais alguém...

conversas cruzadas com gente estranha e, de repente, um casal discreto - e até ao momento apenas semi-descontraído - perde a pose.
eu - tu??? és o vocalista???
vb - s... sou...
ee - epá, parabéns, pá, adoro esse single.
eu - o Fred! o Fred trabalhou comigo nas dobragens!
vb - fixe, gostaste? ah sim, conhece-lo?
eu - quem é que não conhece o Fred... está metido em trezentas coisas ao mesmo tempo.
vb - é verdade eheh...
ee - deviam começar a fazer uma lista das bandas em que o fred não entra...
[gargalhada]
ee - epá, eu não gosto de músicas românticas, mas se ouço esta passo o dia a cantá-la.
eu - verdade, este homem é um filtro de lamechices!
vb - fico tão contente...
eu - mas agora a sério, muitos parabéns. passo horas no myspace para vos ouvir.
vb - obrigado, muito obrigado. nunca pensei que já desse nas vistas.
eu - então não? fica no ouvido.
eu e ee [em muito desafinado mas com coreografia de cabecinha] - amo-te mais palavras que um livro, amo-te muito mais noites que o verão...
vb [não consegue conter o riso] - sabem que o cd sai para a semana?
ee - ah sim? vamos estar atentos.
eu - precisas de fotógrafo para a banda?
ee [piadola] - epá, arranja-me uma cópia!
[outra gargalhada]
vb - olha, assim como assim... nós ganhamos tão pouco com os cds que mais vale copiares...
[gargalhada #3]
eu - ná, da nossa parte vais ter direito aos teus 50 cêntimos...
vb - mas que história era aquela do fotógrafo...?

já podem contar com os 50 cêntimos cá da malta :) parabéns.


eu . esta vossa polegar
ee . espanta espíritos
vb . vocalista da banda

quarta-feira, 17 de janeiro de 2007

diários da perna de pau #5 . o princípio do fim



hoje é o princípio do fim. o grosso do nosso trabalho termina aqui. começa agora a verdadeira comunicação. a parte visível.

não é um espectáculo fácil. tem, para mim, como mais-valia, um cenário chamativo, música forte, texto denso e interpretações com momentos muito bons. criticar, estando cá dentro, é muito fácil. desculpar também. tenho as minhas considerações, mas neste caso específico não quero ser tida nem achada "publicamente", porque pecaria. por excesso ou por defeito.
acho que lhe chamaram ética profissional, eu chamo-lhe simplesmente bom senso.

lembro-me do primeiro "ditado melódico" do patrão-encenador, que converti em projecto. lembro-me de tudo o que foi calcorreado, telefonado, enviado, recebido, reunido, viajado, investigado. as pessoas, tantas pessoas, tantos braços e gritos e chatices, sorrisos e motivações, injustiças e preocupações. tanta unha roída, tanta auto-estrada. sorriso.
o papel e as palavras foram, em grande percentagem, o meu pedaço neste todo.
hoje sou peça de engrenagem ainda com a vibração do caminho no corpo, a sentar-se e a tentar descontrair a pele de encontro ao veludo da cadeira. a ver o resultado final de que eu sou película transparente, forro de gaveta.

este é, de facto, o primeiro espectáculo que produzo desde o imaginado ao acontecido, sem pôr os pés nas tábuas. dói, confesso. já é estranha mas constante companhia essa dor. já nem sempre dou por ela. ah, estás aí...

hoje estou nervosa. por colegas meus, do meu coração, que estarão ali em cima, de alma aberta naquele reino dos pós mágicos e borboletas [eles são muito machos, mas que se lixe] que eu conheço tão bem e de que tenho tantas saudades. pelo "meu" encenador, por quem cresceu ao longo deste tempo um carinho para além da admiração profissional. pelo sucesso deste filho mal parido, tão sofrido, que gostava - apesar de todas as condicionantes naturais - que fosse abraçado pelo máximo de público possível.

já não está nas minhas mãos. este não.

entre os dedos conservo apenas uma surpresinha [em palavras e imagens, que mais?] para os meus queridos companheiros de tábuas, com os devidos desejos d'A Bênção d'A Enorme Bosta Fumegante...

segunda-feira, 15 de janeiro de 2007

d'O Método

fui ver um ensaio, daqueles tipo treino à porta fechada mas para gente da arte. subiu-me até certo ponto a expectativa porque eram pesos pesados a trabalhar, com um peso pesado a dirigir, com uma técnica supostamente peso pesado.

foi pesado de digerir. não no sentido de um texto forte com interpretações marcantes e encenação de choque. foi pesado de digerir como aqueles almoços de cozido à portuguesa desenxabido que nem sabem bem e ficam a trabalhar no estômago o dia todo. foi pesado de digerir porque foi... uma seca. compriiido, com má encenação, atabalhoada e com cortes injustificados longuíssimos, actores em overacting constantemente, sem um estudo dramatúrgico do texto feito como deve ser, que se notava nas variações de personalidade completamente desenquadradas... uma contra-regra que fazia trabalho desnecessário se os actores se dessem ao sacrifício de mexer uma cadeira e trazerem na mão os adereços, um texto que podia ser forte se não fosse tudo o resto ser mau ao ponto de nos desviarmos do elemento principal [a história, sim, a história, bolas!]... podia continuar com críticas até ao inferno congelar...

adiante. intervalo. [a reacção foi mais "intervalo?! não acabou?! dasss!"] fuma-se um cigarro e aparecem colegas de amigos. ouvem-me comentar e arrebitam a orelha. ia eu na parte de "mas o actor está com uns tiques de homossexual que não se percebem, não encaixa, pá". [um àparte para contextualizar e não parecer que sou homofóbica: ele há homens homossexuais em que se notam os tiques efeminados e outros em que não se nota. é um facto, pronto.] ora o moço mais arrebitado padecia, sem qualquer dúvida, dos mesmos tiques. interveio:
- desculpa, não percebi.
[devia estar à espera que eu me encolhesse, mas eu e a minha bocarra]
- os tiques efeminados do actor não encaixam na personagem. tudo bem que um tipo com este background pode ter problemas sexuais mal resolvidos, mas o homem está em overacting e ali não bate certo.
- não deves ter percebido bem o contexto da criação da personagem. conheces O Método?
[com maiúsculas. claro]
- conheço, obviamente. sou actriz...[interrompeu-me no "vai para 9 anos"]
- é que eu sou aluno dele há 3 anos e claro que ele, como todo o elenco, estão a utilizar O Método para a concepção das personagens e se calhar não percebeste isso.
- eu não tenho que perceber que raio de ferramentas ou técnicas - de renome ou não - eles utilizam para fazer a peça. a técnica, como o actor tem de ser fluída, transparente. só tenho de ver ali a história e a personagem.
o moço lá continuou na sua babada análise d'O Método, e chocou-me a sua incapacidade de ter um juízo crítico para com a peça e muito menos para com o seu mentor. eu ignorei, sorri e acabei por, para não me chatear com estranhos, falar do "opiniões diferentes é que é giro, a arte é mesmo assim".

como explicar? para mim, e para muita gente que não tem de ser formada - chama-se público -, o método - seja ele qual for - é um meio e não um fim. é uma forma/fórmula que se usa para se conseguir contar a história. não é ele em si que vou ver numa peça. para isso tenho aulas. aí sim, cabem os exercícios e as perdas de controle descontextualizadas.

recorrer-se a uma bagagem emocional, a situações e emoções próprias para utilizar em determinado momento para a personagem? check. o que/quando/como se usa é com o actor.

o que se vê? uma interpretação extraordinária, consistente, forte, contextualizada.
o que não quero saber: se fez respirações e "mhmmmms", se imaginou uma luz verde a entrar-lhe no peito, ou se se vizualizou com um ataque de hemorróidas e o respectivo cocózinho encravado para chegar ao momento de sofrimento e lágrimas.

seitas? facciosismos? falta de critérios? get a grip.
Palavra d'O Método
graças a Stanislavski.

adenda: esta situação passou-se num ensaio que não do espectáculo que estou a produzir...

sexta-feira, 12 de janeiro de 2007

meada

acorda. a despedida do calor da pele. o frio a vestir. voar às costas de um anjo. frio que corta. espera e café de saco. carrinha. o meu tamanho não carrega plasmas de 44 polegadas. o caminho é por aqui. música do mundo. falta um dvd. pequeno almoço com guia. folhear o Y, "olha tu!". regresso com sotaques. "sou o único que nunca teve um acidente com a carrinha". manobra perigosa, desvia, acidente. pára que pára pára na calçada. triângulo. esperar e praguejar. arrancar o pedaço de plástico. regresso à base, telefones malditos. "venho pela presente informar V. Exa.". o spot de rádio ainda não saiu. os plasmas não são assim. os convites estão a esgotar. "solicitamos o envio de um fax de confirmação até à data limite". a tua mãe já reservou? sim, sim, é ao estilo teatro de rua. não te estou a falar desse, do outro. falta um logo. muda o lettering. afinal tenho de te dar mais um parágrafo. pára. almoço, dividir a dose. cheira a fumo, está calor, tenho frio. fecha a janela. abre a janela, não vês que estou na menopausa. mas quantas vezes tenho de dizer que isto é co-produção? a Sephora já respondeu? falta assinarem as declarações. mas onde é que eles estão? já reservaste os teus bilhetes? mas como não viste o convite? desde quando é que temos limite para a estreia?! já tem música! és um génio. sim, logo às 21h. "detesto ir para o chiado sozinha". quando é que estreia? mas não recebeste o convite? sms. já temos o orçamento? o champagne. etiquetas, faz-me umas etiquetas. mas porque é que estas crianças não se calam, não páram quietas? vou lá calar os estupores. tens o contacto? água. mas vê o mail outra vez. laura, já te disse que não se entra assim no escritório dos senhores, larga a bolacha, desculpe lá, sim, pede desculpa às senhoras. descansa agora que os últimos 3 dias são de morte. eu sei, eu sei. bom fim de semana ainda ficas, eu fico.
pára.
o romeu fala comigo. soa a carros no trânsito.

atentamente,

quarta-feira, 10 de janeiro de 2007

diários da perna de pau #4


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palavras e fotos.
há histórias incontadas por detrás de um produto final.
poucos saberão, no fim de contas, o que foi dito. o que foi realmente dito e apontado num caderno velho, com letra apressada, depois de dias a implorar uma hora de atenção para cumprir prazos. de tópicos trôpegos de um génio, ao "pesquisa tu que eu não tenho tempo", como se chega a 28 páginas de simples papel?

poucos, porventura, terão acesso a uma imagem que teve de ser - para tristeza geral - retirada. os motivos são compreensíveis, claro [por uma vez?]. outras imagens igualmente geniais perdurarão, chegarão a ser folheadas, apreciadas, disfrutadas. para meu orgulho, com os devidos créditos em letras garrafais.

esta é a página perdida. de histórias que ficarão por contar. do equilíbrio ténue entre vitórias agarradas com unhas e dentes e sabores amargos de letras que faltam. de um trabalho de equipa que, como sempre, como em tudo, funciona como poucos. é, de facto, uma questão de sintonia.

segunda-feira, 8 de janeiro de 2007

cosmética

temos de encontrar aquele que nos hidrate as asperezas da vida. camufle as preocupações. e tonifique os desânimos.

de outras equipagens

uma manhã, cheia de nervos de segundo dia para dois actores. dia normal para os outros, sem descréditos nem diferenças. maquilhagem, roupas, frio e cigarros. o rádio só apanha a RCP e isso são risos e playbacks acrescidos.
na torre, no camarim, recebo um telefonema esbaforido da assistente de produção: um dos alunos que vem hoje está numa cadeira de rodas e os professores não tinham avisado. e agora, e agora? faltam 10 minutos para começar. o espectáculo decorre nos claustros superiores, não há elevadores. ainda penso depressa: vamos passar o cenário e charriot com roupa para o claustro de baixo. ainda me surpreendem os outros: sem queixas, sem resmunguices, todos acorrem, todos trabalham, todos carregam. telefonema para as altas entidades que de sentadas à secretária são demasiado burocráticas e não suportam ondas: temos de agir depressa, temos de ter autorização para ocupar os claustros do piso térreo. primeiro um não que gela o sangue, depois o sim. para dar tempo para alguns se vestirem, pede-se a um dos actores que já lá estava do ano passado para fazer uma pequena visita guiada. ele, que detesta fazer visitas guiadas, só perguntou de que falava: fala da fonte, das marcas na parede. coisa rápida só para as transições.

a adrenalina não deu tempo para considerações. só depois. todos, os lentos, os implicantes. os que no ano passado só arranjavam problemas, e os novos, que vieram este ano e não sabem que chão pisam. todos agiram sem pensar, sem umbilicalismos. eu ainda soluciono. ainda mobilizo. e no teatro, em alguns sítios recônditos, ainda há espírito de equipa. deo gratias.

sexta-feira, 29 de dezembro de 2006

terra queimada

sempre me fascinou o teu cheiro a lenha queimada. olhando-te à primeira impressão dir-se-ia que a tua pele branca de princesa cheiraria a algo como maçãs acabadas de cortar ou loção de bebé. mas tu nunca gostaste de regras nem de preconceitos. sempre fizeste questão de os quebrar. até a tua pele tem essa atitude. cheiras a queimado, a escuro, quando muito a brasas e cinza. e o teu cheiro entregou-te. não me apercebi ao início, quando apenas me sentia confortado. quando o teu lado negro me seduzia em noites agrestes e violentas. quando o jocoso e o irónico, o amargo e o irreverente me envolviam em abraços tão apertados que sentia os espinhos cravados e saboreava o sangue das nossas gargalhadas. mas agora tenho medo. das tuas chicotadas e da minha reacção. já não me satisfazem as nossas noites em que és rainha e esperas que te sirva. e os nossos dias em que violentas os meus pensamentos como se eu não fizesse nada como deve ser. na cama como na vida. sufoca-me a tua política de terra queimada, com que devastas os nossos lençóis e as minhas vontades. com que me humilhas ao sol e esperas às escuras. agora a tua pele incomoda-me. de tão fria, corta. de tão branca, fere. tu feres. não sabes fazer mais nada senão ferir. ficarás aí, dona e senhora das tuas dores. porque as que me inflingiste não são tuas para viveres. deixo-te com os teus troncos secos. deixo-te nessa supremacia de árvore torta, morta, torpe. de pé. altiva, sem mel. hoje dar-me-ei uma prenda de natal. vou-me embora. vou procurar a calma dos silêncios. onde a tua voz não me alcance com as suas navalhadas musicais. vou procurar terra fértil e quente. vou procurar uma trepadeira que me enrole, que me envolva, que me precise. que me pontilhe de flores na primavera. que implore um abraço quente no inverno.
porque agora abraças-me e tenho frio.

sexta-feira, 22 de dezembro de 2006

por detras dos montes



criação: Teatro Meridional
concepção | direcção cénica: Miguel Seabra
interpretação: Carla Galvão, Carla Maciel, Fernando Mota, Mónica Garnel, Pedro Gil, Pedro Martinez, Romeu Costa
no Teatro Meridional até 23 de Dezembro
4ª a Sexta às 22:00, Sábado às 17:00 e 22:00
Rua do Açúcar | Poço do Bispo
reservas: 218 689 245


o ar é frio e corta. na zona de armazéns estranhos para os lados do Beato, o grupo do Teatro Meridional já tem a sua casinha pronta. um edifício industrial todo recuperado, em tijolo vermelho. lá dentro, um tecto alto de traves pintadas, decoração simples onde apetece estar. bonito, acolhedor, com bom gosto. velas e aquecedores a gás [bom investimento], café de saco à discrição em self-service. o sorriso do rapaz da bilheteira também aquece. o programa é de borla e oferecem um livrinho com turismo de habitação da região de Trás-os-Montes. dá para ir lendo e fumar um cigarro, encontrar casinhas bonitas com preços apetecíveis. já começou a viagem e nem nos demos conta.
depois, entra-se na sala pequena de palco raso, muito fria. mas não faz mal. estamos em Trás-os-Montes. e começa. com sons, numa penumbra onde se recorta apenas o que nos deixam ver, em azuis e laranjas. sons de instrumentos estranhos, tocados à nossa frente. depois as vozes. e depois o turbilhão de pessoas, de transmontanos.
sem "deixas", sem texto, sem "dramaturgia"... muito trabalho de corpo e uma concentração notável digna do momento fantástico que supostamente acontece apenas uma vez em que um improviso sai genial. aqui não há improvisos. há uma contradança milimetricamente marcada, o som conjugado com cada movimento. há coreografias de maneirismos, de expressões, de cacofonias, de cantares, de objectos que são músicas. há fantoches que são pessoas e pessoas que são fantoches. há o sotaque assobiado e as canções que arrepiam. há as velhinhas. há os pastores. há os passos que não fazem barulho e que assim é que fazem sentido. há ilusionismo feito com os corpos e com os rostos e com figurinos que, a par dos objectos e do som e daquelas pessoas, nos levam no espaço e no tempo. sentimos o toque dos xistos, das madeiras, dos artefactos, dos fios tecidos à nossa frente, o crepitar de uma lareira que nunca vimos nas bochechas. invade-nos. em silêncios e sons compassados. em respirações e traços desenhados com o pincel do instinto, com a tinta das entranhas.
são sessenta e cinco minutos sensoriais, em que vemos, ouvimos, sentimos nitidamente retalhos. poesias visuais. recortes de vidas que este grupo - na verdadeira acepção da palavra - por lá absorveu e para cá veio tecer.
assim sim, vale a pena ver uma companhia subsidiada.

estão nas últimas representações mas merecem, ou nós merecemos, uma alteração nas agendas e nas compras para nos embriagarmos com estes licores de raízes e gestos.

quinta-feira, 21 de dezembro de 2006

os desejos do costume por estas alturas


[ms]

coisas doces, abraços quentes, as pessoas que realmente interessam, luzes indirectas e um pinheirinho enfeitado com gosto...
é preciso pouco para um natal simpático.
que o vosso seja bem aconchegado.
até já.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2006

diarios da perna de pau #3

o figurinista vai ao sapateiro. a produtora pede - como sempre - para ele trazer factura. ele telefona.

- o sapateiro não sabe escrever e o surdo-mudo que é vizinho dele e que lhe preenche as facturas não está em casa.

sexta-feira, 15 de dezembro de 2006

diarios da perna de pau #2

no calça descalça, numa peça de marinheiros, à última da hora decide-se que vão calçados. a Polegar trata de conseguir sapatos à borla. o chamado apoio, portanto. depois é a escolha dos ditos, não é?
conversa telefónica do Patrão-Encenador com o Figurinista, que estava na loja:


- tu agora vê lá que botas é que escolhes! não te ponhas com modas finas! eles têm de conseguir andar! isto não é teatro quieto, assim paradinho! isto não é teatro dos aloés! isto é teatro físico! teatro do corre lá para trás! é teatro de cenas de pancadaria! é teatro do amarinha pela rampa! pela tua saúde: é teatro do sobe ao mastro de 8 metros!

ah... já agora, e meses de orçamentações, negociações, estica-daqui-corta-dali-para-poder-pagar, contactos e trabalho manual do prop master depois, o grande Actor decide que já não quer a perna de pau. diz que é - e passo a citar - um "instrumento de tortura"... quem?, atrevo-me eu a perguntar...

segunda-feira, 11 de dezembro de 2006

diarios da perna de pau

estamos em fase de ensaios, num armazém, com cenário já montado [sim, tiveram de se chegar à frente com as madeiras]. entretanto, figurinos e adereços estão a ser concebidos e provados.
o artigo do momento é a perna de pau. para um actor genial - diz o encenador - e hipocondríaco - digo eu.
cá vem, todas as semanas, o mestre de adereços [prop master, como eu lhe chamo], de boina francesa e saco dos chineses recheado de coisas estranhas. o actor experimenta a dita perninha, e queixa-se.
- está muito alta, não consigo apoiar o pé no chão.
o prop master abre o saco dos chineses e tira de lá um serrote. serra a coisa.
- não, afinal é do ângulo, percebes?
o prop master tira da chave inglesa e chave de fendas. desaparafusa-aparafusa.
- agora está-me a magoar o joelho
o prop master abre o saco dos chineses e tira um rolo de espuma.
- e eu vou usar uma bengala, não é? é que assim não temos bem a noção de como vai ser o andar...
inventa-se uma canadiana. enquanto isso, fala-se de como vai ser a bengala. sai-se o patrão-produtor:
- a minha avó tem uma colecção de bengalas antigas fantásticas, podemos ver disso.
- então liga-lhe.
- ela já morreu.
patrão-encenador parte-se a rir durante dez minutos, impossibilitando-me de conseguir falar ao telefone e ao actor de se queixar.
- isto até parece porreiro, mas tenho aqui esta dor na canela, no sítio onde apoia...
explora-se o armário, encontra-se uma joelheira que serve lindamente de almofada para o apoio da canela
- ah, muito melhor. muito melhor. como é que estou? hã? estou direito?
- ó Actor, os tipos que têm pernas de pau não andam direitos.
- pois é, pois é. mas isto está muito melhor. agora é só forrar estes ferros que me estão a cravar a carne...

sexta-feira, 8 de dezembro de 2006

fazer farinha - redux

comigo não fazem farinha. mas oportunamente, mais uma vez, não é comigo que a querem fazer.
citando - com o devido consentimento - alguém próximo: temos pena...


- uuuh... amazing! did you come up with that all by yourself?

quinta-feira, 7 de dezembro de 2006

é depois


[ms . um ano depois]

contava os dias e nem dei que os dedos deram várias voltas ao teu corpo. estava entretida com os entretantos. com os rasgões que o cinzento, o frio e os desesperos abriam em mim. que tu selavas e cicatrizavas com sopros ferventes. enquanto ias e vinhas na minha pele, preparavas uma gota de suor à parte. então é que percebi, era a teia, uma teia de fios leves, espessos e húmidos, curandeiros como os lábios que se tocam com mais do que desejo e carne. e enquanto dormia, tu tecias. de repente - tão de repente que foi de rompante - arrancaste-me das cinzas que me rasgavam, do cinzeiro de vidro onde jazem as beatas já gastas. arrancaste-me e empurraste-me com força, sem me largar a mão. deixaste-nos cair. num puff vermelho com olhos azuis. e conforme caímos, o puff apanhou-nos, secou-nos à lareira, fez-nos dar três voltas no ar e desaparecemos.

e estávamos ali como quem vai para o rio, duas ruas à esquerda, depois da viela adormecida nas luzes de uma porta, contam-se três candeeiros depois do início do quarteirão. fica bem perto da loja de brinquedos antigos de grades fechadas, de moldura de madeira azul escura. ali, onde se dispersam quentes no gelo do ar os laranjas dos prédios e dos seus recantos.
nas vielas de traços que já vou apanhando no teu bloco de notas. assim em azuis escuros para cima e amarelos para baixo. quando não só a preto e branco com o nariz frio. sem medo de me enganar, porque lambemos a meias o selo e enviamo-las de volta para a caixa do correio da casa às cores. porque são nossas, já, segunda casa como a primeira, em que as linhas às cores não nos enganam mais que as que riscam as palmas das mãos.
e as bátegas do rio soam estranhamente a uma nova bateria movida a gargalhadas, ali para os lados do 17. a serões quentes de palavras cansadas incansáveis. café. para ti simples. para mim com um assalto ao açucareiro espantado.

outro salto. e à nossa frente as princesas com quem canto em coro. e como as conheço, puxo-te agora eu o braço. e tu abres os olhos de espanto e dizes "eu não vi isto!". eu rio-me e arde. arde de vitória.
antes do salto final, com absorção de impacto no tal puff dos olhos azuis, a fada dos aniversários no estrangeiro deixa-me gin tónico para ler debaixo da almofada.

a meias palavras a meias, feitas as contas, foi isto. consta-me que será sempre isto.

terça-feira, 5 de dezembro de 2006

chico et les croissants


[ph.t.s :: ms | design & supporting arm :: polegar]

mais uma vez, escondeu-se nas mochilas de dois jovens errantes. e, nos momentos mais inusitados, saltou cá para fora. sim, o nosso repórter especial está sempre em cima do acontecimento. e veio provar que a três também pode ser romântico...

terça-feira, 28 de novembro de 2006

homenagem

uma pausa. na azáfama feliz - e em azert - de uma semana de descanso. de surpresas, de vendas nos olhos.
para agradecer a mobilização de uma mão cheia de dedos que surgiram de todos os lados num conluio secreto que se revelou num abraço denso e quente. internacional. movidos pela batuta do maestro do meu coração. sorriso.

ainda não fiz anos, mas posso dizer que esta prenda ficará e-ternamente tatuada na minha pele.

sexta-feira, 24 de novembro de 2006

bagagem

enrolo as meias e a roupa interior. viro as peças delicadas do avesso. faço uma marca em cada item que já está. não esquecer o pente e o amaciador. puxo com força os esticadores e transformo a mochila no mais redonda possível. depois, estendo um braço e o outro. os dedos tocam o esboço de ar que já não me pertence. espreguiço-me feita gata preguiçosa. em pontas de pé, soam os acordes da caixa de música. chão negro. madeira macia aquece os pés. deslizo numa dança minha, de melodias incertas. as ancas vagueiam, o peito arqueja. o cabelo perde-se no caminho. então, lentamente, a música estende-se, envolve-me. e no seu colo ondulo. ondas cada vez mais encaracoladas. espirais apertadas. toda a minha pele perde as noções da sua geografia, entrega-se nesse abraço aconchegado onde o cheiro é das pintas de canela e me respira ao ouvido. baila, bailarina, baila. pequenina pequenina. já cabes na bagagem.
vamos?
vamos.