segunda-feira, 2 de outubro de 2006

as vampiras lesbicas de sodoma

pela Companhia Teatral do Chiado
Teatro-Estúdio Mário Viegas
supostamente a semana passada foi a última semana, mas nunca fiando, que eles são danados para a aldrabice e já "estenderam" até dia 7 de Outubro.
entre 13,50€ e 18,50€ [excepto condições especiais]
reservas e actualização de datas no site da companhia
fotos no blog do espectáculo
com Rita Lello, Simão Rubim, Tobias Monteiro, João Carracedo, Manuel Mendes e João Craveiro


não é um espectáculo certinho. quem viu As obras completas de William Shakespeare em 97 minutos sabe perfeitamente que a ideologia não é essa. é uma paródia "off-Parque Mayer". é uma história de duas vampiras actrizes ao longo dos tempos [o fio cronológico lembrou-me vagamente o "Entrevista com o Vampiro" - com as devidas distâncias]. que passam grande parte da sua eternidade em Lisboa. que por acaso são lésbicas. e também só por acaso várias personagens femininas são interpretadas por homens ao estilo "tão-traveca-quanto-se-pode-ser". quebra-se a quarta parede. ou melhor, rebenta-se com a quarta parede. com muita dinamite da Acme. os actores sabem a linha condutora mas para ligarem o princípio, ao meio, ao fim, entram numa desgarrada de improviso. cujo objectivo, à primeira vista, parece ser fazer os colegas em palco a desmancharem-se.

isto dito assim é uma perfeita palhaçada, sem qualquer respeito pelo público, pela história que se está a contar ou até pelo trabalho de meses de ensaios e pelos cabelos brancos do encenador.
mas o "problema" é que, no caminho, somos completamente envolvidos por esta teia de disparates. somos enrolados, virados de cabeça para baixo, e não faz mal se o Simão perdeu uma pestana postiça. ou se o encenador ao fazer uma apresentação no início da peça, se esqueceu - outra vez - do endereço do site. são apenas mais motivos de galhofa dissecados a corte cirúrgico.

admire-se, no entanto - se conseguirem abstrair-se de tanta maluqueira - meia dúzia de pontos:
o trabalho fenomenal de caracterização. a coragem daqueles homens para estarem todos os dias absolutamente depilados [eeek], com cintas daquelas que espremem os respectivos abonos de uma forma que podemos apenas suspeitar. a capacidade de improvisação inacreditável de todo o elenco, que não se esgota numa piada que funcionou no primeiro dia. o brio nessa improvisação. o espaço que dão uns aos outros para brilhar - e para gozarem com as suas caras - coisa rara e nunca vista. têm de ter um trabalho inimaginável no que diz respeito à base do texto, para não se perderem no meio de tanta liberdade. o facto de estarem a vibrar a cada minuto. especialmente porque nós estamos a gostar e a rir com eles. a generosidade de um encenador que deixa - gosta! - que todos os dias esventrem mais um pouco o trabalho de mesa. a possibilidade de num espectáculo destes senhores podermos sempre ter uma visita guiada aos bastidores sem darmos conta. ali estão expostas aquelas fraquezas que a maioria das companhias tenta esconder para poder levar um espectáculo a bom porto. é delicioso reconhecê-las à distância e vê-los brincar com isso também. é outro lado da medalha. ali, um cd estragado na altura de um playback é... mais um motivo de improviso. é um actor, em vez do grande número de dança e canto que ia fazer, começar a soluçar ao som dos "riscos". e no fim, ao ter um achaque, dizer explicitamente: "ainda não despediram o técnico de som?"

não é uma obra de arte digna de um intelectual levar a mão ao queixo e expressar o seu cogitante "hummm"... é um espectáculo franco, directo, parvo, non-sense. e é assumido nisso tudo.

a cada estilo as suas características. à Companhia Teatral do Chiado apenas o objectivo de fazer as pessoas passarem um bom bocado. e saírem de dores na barriga e nos cantos da boca. de preferência ainda a limpar a última lagriminha no canto do olho.

mas isto sou eu...

quarta-feira, 27 de setembro de 2006

sem senso


foto de ms

deixou o poema numa amálgama de vidros partidos. soltou-os no cinzeiro com as mãos em concha. preencheu os fios de neblina com aromas doces, gelatinosos. teceu-lhes a música do silêncio chuvoso. espalmou os dedos como carimbos queimados de encontro ao tecto. saiu, fechou a porta e os olhos aos peixes voadores e ao homem do cachimbo. o cheiro. batia-lhe nos sentidos como uma franja violentada pela brisa. escalou a calçada rezando para não cair num buraco. já se sabe que os buracos são fundos e não é fácil sair deles. entre o zigue e o zague era outono. as paredes acastanhavam e aguardou o toque rosa do fim do dia. a árvore velha escureceu-lhe as válvulas da alma, deixando coágulos de luz pendurados no chão. pensou em fazer um quadro de serradura para poder ver o céu. o vento soprou-lhe qualquer coisa ao ouvido. penteou uma madeixa solta.
não se apercebeu de que agora o cabelo brilhava com estilhaços de palavras.

detesto produçao II

- um apoio [bla bla bla]
- apoio? para apoiarem a nossa empresa?!
- não, para fornecerem material para a construção de cenário com retorno de 130% nos imp...
- oh senhora, nós darmos coisas? oh senhora, peça ao Sócrates que ele ganha bem!
- ...
- ou o Cavaco! peça ao Cavaco!

segunda-feira, 25 de setembro de 2006

o furto


foto tirada em Londres, para exposição, antes da compra

não sei o que me falta mais...
este fim de semana, animação no CCB, para ganhar uns trocos extra. saíram-me caros, devo dizer.
guardadas as coisas que não iam ser necessárias na apresentação numa despensa, lá fomos vender "Pharmaton" para um público ao princípio hesitante, depois contagiado... pelas vitaminas, claro.
regressando à tal despensa, pegar nas coisas para sair. deito a mão à mala para tirar uma coisa da carteira e zás! não está lá.
simplesmente desapareceu. claro, como sou cabeça no ar, pus em causa o facto de me lembrar de já ter mexido na carteira nessa manhã, e pus a hipótese de ter ficado caída no carro ou em casa.
pois que não.
foi-se. evaporou-se. os telemóveis [pois, são antigos] permaneceram intocáveis, bem como a restante mochilagem dos outros elementos da equipa.
contactada a organização do CCB dizem-me que vão "perguntar à equipa". peço muita desculpa, mas nestes casos eu revistava a equipa sem apelo nem agravo... são todos inocentes até prova em contrário, mas quem não deve não teme, não é? além disso, é o bom nome da empresa que está em causa... alguém lá de dentro roubou uma carteira... mas nããão, vamos esperar que o dia chegue ao fim, para lhes dar tempo de se livrarem das provas, perguntar e esperar que alguém comece a tremer o queixo, se atire ao chão de joelhos, e grite em lágrimas e ranho "eu confesso, eu confesso! torture-me, eu mereço!"...
ainda andaram a ver os caixotes do lixo, mas nada.
depois de cancelar os cartões, dei 12 horas para me dizerem qualquer coisa. ai ninguém sabe de nada? que estranho... bom, então vou à polícia. a quem tiro o chapéu, uns senhores como já não se fazem, pacientes, simpáticos, eficientes, informatizados[!], com quem deu para ter inclusive uma conversa sobre um delicioso rádio velhinho que estava numa prateleira. disseram-me para esperar 10 dias antes de ir tratar dos documentos, "pode ser que apareça a carteira num caixote de lixo"... deram-me uma declaração para confirmar que existo e que me roubaram todas as provas disso.

contas feitas, foi isto:
a minha carteira, uma querida recordação de Londres, fabrico artesanal português, comprada na banca de um amigo meu, no Sunday Up Market, em Londres. feita de sacos de plástico, exterior verde-alface [sacos da Bershka e da Área], fecho em velcro.
todos os documentos possíveis e imaginários, cartão de crédito, de débito, BI, carta de condução, documentos do carro, passe, cartão de contribuinte, da segurança social, do posto médico, da Médis, de eleitor, do banco online... eu sei lá... basicamente quando eu entrar na Loja do Cidadão, não pensem que desapareci se não der notícias ao fim de uns dias... ainda lá estou a recuperar o plástico perdido.
a minha foto preferida: eu bebé com a minha avó. a moeda da sorte que a V. me trouxe de Itália. e mais umas papeladas de grande valor sentimental.
e, claro, o dinheirinho... que, por acaso, a minha mãe me enfiou no bolso na noite anterior, para ajudar à gasolina...

lindo serviço. agradeço desde já à pessoa que me escolheu para este acontecimento. espero que se divirta com os cartões [cancelados] de contas com saldo negativo às quais eu não vou ter acesso durante uma semana, que é o tempo que as segundas vias demoram a chegar... isto se não se extraviarem como de costume.

... espero também que lhe nasça uma verruga no rabo que lhe tolha a capacidade de se sentar durante o resto da vida. que permaneça de pé até ter uma infecção muscular, que se transforme em gangrena.

sexta-feira, 22 de setembro de 2006

a um amigo

cada dia é mais raro dizer que se ama.
honro-te a ti, que o fazes, de peito aberto.
porque de mãos dadas é mais fácil sorrir.
e chorar, também.
porque o sorriso dela é o sítio perfeito para descansares.
há momentos que não têm palavras.
este vai ser um deles...

hoje é o primeiro dia do resto da tua vida...

o assobio da cobra

São Luiz Teatro Municipal, até 26 de Novembro.
Quarta a Sábado às 21h, Domingos às 17:30
um musical encenado por Adriano Luz


foi o meu primeiro convite oficial e directo para uma estreia deste teatro [a/c Polegar e tudo], fruto de uma colaboração que teremos num futuro próximo. peguei em mim e aproveitei, que os bilhetes estão pela hora da morte...

primeiro que tudo, uma nota: as vedetas por favor cheguem uma hora a trinta minutos antes do início do espectáculo sob pena de deixarem os anónimos na sala à espera enquanto voscenças são fotografadas para a posteridade do dia a seguir... é de muito mau tom fazer um espectáculo começar 20 minutos atrasado só porque a Catarina teve de ser fotografada e depois ainda teve de dar um beijinho ao Moniz e à Bocas...

a história: pois que não se percebe muito bem... passa-se numa noite, num bar desses de periferia, algures entre os dias de hoje e os anos 50, onde vão só os habitués beber até terem sangue no álcool em vez de álcool no sangue. cada personagem tem pequenos segredos. nesta noite específica, duas pessoas "estranhas" vêm destabilizar os frequentadores habituais e, supostamente, criar conflito. mas o texto foi criado a partir do CD, basicamente para estabelecer uma ligação entre as músicas... ora o que é que se faz quando não se sabe bem como colar músicas com texto? opta-se pelo "ambiente denso", os "mistérios implícitos", "as verdades ocultas" e... deixa-se o final em aberto... o problema é que o entretanto também está mal tecido, cheio de buracos. chegamos ao fim e ficamos absolutamente na mesma. os conflitos existirem ou não é o mesmo que deitar uma colher de água no mar. além disso é tanta música [que não adianta nada à história, simplesmente páram para cantar], que por vezes corta o fio lógico das cenas.

a música: ponto fulcral do espectáculo, ou não fosse um musical. dado o desconto dos nervos da estreia, temos uma banda fantástica, revelações de alguns actores como cantores [ou simplesmente bons profissionais da voz], letras bonitas. chateiam os microfones, que não estão calibrados para a projecção necessária do cantar, e fazem com que se ouçam pequenos estalidos durante a peça. coreografias simpáticas, mas o facto de terem metido um par de bailarinos na figuração desequilibra a coisa para os outros.

o cenário: girinho, dentro do estilo quase-cabaret. o espelho que revela os segredos mais profundos das personagens é uma mariquice... toda a gente percebe que o travesti vive na dúvida de quem é e no pânico de ser apanhado, que o abandonado queria casar com a que o deixou, que o cómico queria ter piada, que a velha queria ser nova...

os actores [estala os dedos, cospe nas palmas das mãos]: são demasiados. aquilo fazia-se com metade, e ainda se ficava a ganhar porque havia menos ruído visual nas cenas.

duas das senhoras mais velhas, por terem de cantar em palco fazem aquilo em tom revisteiro. cruzes, apetece dizer-lhes: olhe, desça até aos restauradores e atravesse para o outro lado... peça para falar com o senhor LaFéria.

puseram dois bailarinos carecas a fazer de machões... não convence.

a menina grávida [Adriana Queirós] é... indiferente. é o "vai benzinho"... o mesmo se aplica ao resto do elenco secundário que não encanta nem desencanta. o João Reis lá tem um acesso de fúria dramática, a passar-se por bêbado irado... mas até isso é desadequado.

destaca-se o Pedro Laginha [o D. Pedro de "Pedro e Inês" da RTP que ia tão mal, tão mal, que quando estava irado parecia apenas estar com um grave ataque de diarreia], uma surpresa em palco, num delicioso loser cujo único objectivo é ser comediante, tendo escolhido os "amigos" como público... eheheh má escolha, tão má que é tão boa de ver...

a Patrícia Vasconcelos, essa grande diva dos castings que diz que também é cantora... podia ficar-se a fazer os castings... um cepo, um cepo, um cepo... imagine-se uma Jessica Rabbit... agora imagine-se uma cantora de tasca de fados com a roupa da Jessica Rabbit. pronto. uma mulher que numa coreografia de braços parece a personagem do Monchique no saudoso C.R.E.D.O.. aplica-se: credo! não sabe porque é que está a fazer as coisas, os gestos saem maquinais e sem o mínimo de sensualidade... e desafina!

o Diogo Infante: salva o dia... uma delícia. a personagem mestramente construída, o homem que é travesti, que dá grandes espectáculos sem nunca saberem quem ele é, e que vive no pânico de ser apanhado, portanto, fazendo-se de machão. e o homem é isso tudo. e continua a contar-nos a sua história enquanto dança, só com os olhares, enquanto canta, ao descair-se... só vendo. um dos poucos que, de facto, não se preocupou só com as cantorias. bravo a ti, mais uma vez, que sempre tiveste o condão de me despoletar um arrepio que me sobe pelas costas e rebenta em lágrimas, só pelo bom que é ver-te trabalhar.

posto isto, nota final: vê-se, é levezinho, é rápido [1h20], é colorido. não aquece nem arrefece. para maníacos do acting com dinheiro para gastar, vale a pena pelo senhor Diogo Infante. só não levem em conta a sinopse...

mas isto sou eu...

quinta-feira, 21 de setembro de 2006

calçada de carriche

sobe polegar, sobe a calçada
sobe lenta porque isto não anda nada
ponto de embraiagem
travão de mão
puxa, baixa, acelera, tanto não
pára arranca um metro à vez
chegarás ao destino amanhã, talvez
dói o joelho do acelerador
convive, polegar, convive com a dor
a besta do lado meteu-se à bruta
vai-te a ele polegar
chama-lhe filho da puta
sobe polegar, sobe a calçada
em dia de greve e chuva é piada
a espera, as unhas, cigarros e fome
é bom saber que o povo não dorme
sobe que sobe
sobe a calçada

adaptação livre - e extremamente fraca em termos de métrica ou criatividade - do poema de António Gedeão

hoje, ao sair de casa, recebo uma sms: "se tivesse a minha casa [em Lisboa], não estava há duas horas na Padre Cruz. V."
lembrei-me de um episódio... à nossa ;)

há uns anos, em dia de greve geral dos transportes públicos, o meu jipinho resolveu simplesmente entrar em coma em plena entrada da Calçada de Carriche, fila do meio, à beira da placa que dizia Lisboa.
foi uma manhã épica: eu e a V, fechadas no carro, a ver os outros passarem com má cara porque não conseguíamos meter o meu na berma, à espera do reboque que demorou duas horas a chegar porque, claro, também apanhou com a fila.
estávamos sem tabaco.
éramos jovens.
começámos por muito profissionalmente ligar para os respectivos trabalhos [a minha patroa das nails, com BMW e casa na Av. de Berna não compreendeu muito bem o conceito de greve geral dos transportes públicos...].
falámos, enervámo-nos, momentos de silêncio.
angústia.
depois... música em altos berros [o problema não era, portanto, da bateria...], a dançar feitas parvas. uma gaja tem de fazer qualquer coisa para que o tempo passe.
começou a agravar-se a ressaca da nicotina. descemos ao mais baixo: abri as janelas e pedíamos aos carros que passavam/paravam ao nosso lado se nos dispensavam um cigarrinho...
estranhamente, no trânsito de um dia de greve geral, perante duas raparigas desesperadas num carro avariado, o mundo suburbano meteu a mão na consciência e deixou de fumar... e de ter tabaco.
daí a pouco fomos notícia nacional. toda a gente sabia, pela rádio, que "está um carro avariado na faixa do meio do acesso à Calçada de Carriche, o que está a piorar ainda mais as coisas". insensíveis.
quem deu um cigarrinho à Polegar e à V, quem foi? o senhor polícia que chegou de mota, e muito simpático, com o colega nos ajudou a empurrar o carro até à berma, parando o trânsito para podermos atravessar as faixas.
lá se foram embora, aconselhando cautela [só faltava dizer "olhe lá a velocidade, hem?"], e nós ficámos à espera até sermos salvas pelo reboque.
um dia bem passado, que me foi parcialmente cortado do ordenado, com possibilidades de recuperar o dinheiro fazendo dois turnos de unhas de seguida...

p.s.: uma nota para os senhores grevistas: se querem a simpatia do povo para com a vossa causa, que tal mudarem de estratégia? em vez de pararem a cidade e lixarem a vida a toda a gente, mantenham o metro a funcionar mas deixem as portas abertas e desliguem as máquinas de bilhetes... prejudicam os senhores patrões maus e deixam os pobrezinhos ir ganhar a vida... hem? que tal?

terça-feira, 19 de setembro de 2006

detesto produçao

contactar empresas de madeiras. que possam dispensar material, mesmo que com defeito. com retorno de 130% nos impostos. 93 números de telefone de empresas. reuniões, horas de almoço, não está. depois há os que estão...

- [voz de velha ranzinza] tou?!!!!
- estou sim, muito boa tarde, seria possível falar com alguém do departamento comercial?
- é pró quê?
- estou a ligar-lhe da produtora XXXX. estamos neste momento à procura de apoio, em madeira para cenário, para um espectáculo que vai estrear em Janeiro com a Maria Rueff...
- ah nós não fazemos cá disso. a essa, a gente vê na televisão. [como se recitasse a bíblia] temos de cortar nas despesas [job, 3:45].
- eu não sei se tem ideia, mas terá um retorno de 130% do que investir...
- isso dos espectáculos não nos interessa.
- ..... pronto, então muito boa tarde........

[nem 5 minutos depois]

- [bla bla apoio em madeira para o cenário, Maria Rueff, Miguel Guilherme, 130% de retorno nos impostos bla bla...]
- sim... [suspiro pesado] sabe, isto hoje em dia recebemos muitos pedidos... ele é as irmãs samaritanas, é a associação Sol... este país está a ficar um país de [enojado] pedinchas.
- ...
- [enojado-tipo-comi-um-macdonalds-fora-do-prazo-que-cheirava-a-pés-com-chulé] as pessoas só sabem pedinchar...
- [irada] por isso é que o Estado, para projectos culturais, vos reembolsa a totalidade MAIS 30% do investimento. para não perderem dinheiro e ainda terem lucro. não são pedinchices, é mecenato [ca%$#@o]!
- [silêncio. muda de tom] posso falar com o meu sócio, ligue amanhã para lhe dar uma resposta.

passei-me. passei-me. estou-me a passar. e estou com medo de voltar a pegar no maldito telefone.

segunda-feira, 18 de setembro de 2006

olé

A Espanha é o primeiro país a aplicar normativas que regulam o sector da moda, proibindo manequins profissionais demasiado magras e abaixo de valores considerados "nutricionalmente" saudáveis, apostando na definição de padrões comuns para o tamanho da roupa. [...] Nas últimas semanas, dois certames de moda, entre eles a conceituada Pasarela Cibeles em Madrid, proibiram o desfile a mulheres demasiado magras - ou seja, modelos profissionais com parâmetros abaixo de 18 por cento de massa corporal, o que corresponde a 56 quilos para uma altura de 1,75metros. [...] a Esquerda Republicana da Catalunha [ERC]anunciou que vai apresentar uma moção para que a União Europeia aplique a todos os Estados-membros padrões idênticos nos tamanhos da roupa [...] O documento inclui medidas no sentido de impedir a participação de jovens modelos, com menos de 18 anos, e para evitar que a maquilhagem usada simule rostos demasiado magros ou "doentios".

in Público | 16 Set 06


diz que sim, diz que Milão achou graça à coisa. diz que um porradão das meninas nem sequer quiseram ser pesadas. diz que as agências falam de... discriminação! ah! oh! inclemência!

será? uma ponta de esperança? hoje Espanha, amanhã o mundo! hoje o peso... amanhã a altura!!! hoje os cabides... er, modelos, amanhã os actores! ponham-se a pau, morangos, que qualquer dia começam a pegar mesmo em real people! se calhar até começam a escolher gente que saiba falar! ou, loucura das loucuras, que saiba representar!

- Carmen, come la sopa.
- Que no quiero mama... dejame comer solo la lechuga...
- No. La sopa, el pollo y la ensalada! Todo!
- Que no quieroooo
- Coño! Mira que si no comes, no puedes ser modelita!

muahahahahahah!

sexta-feira, 15 de setembro de 2006

a day without a night

passou por mim no jardim. o carro de janelas abertas e som demasiado alto. estava embebida em verdes, crianças a brincar, o homem estranho que pinta quadros do quiosque, as vedetas na esplanada, os turistas de nariz no ar, os velhos, os hippies, os intelectuais, a tia a passear o beagle. mas olhei para trás, seguindo o rasto de som que ainda restava no asfalto.
alguns cigarros ardidos depois, na esperança de esfumar o resto da tarde, a janela aberta para receber a chuva na corrente de ar. já saíram todos. ainda cá estou.
perdi-me em lembranças, porque me perguntei "o que estava eu a fazer há um ano". passou-se, assim de repente, desde que pisei um palco com as palavras de outros. desde aqueles dias que valem a pena, que nos esgotam de prazer. desde que pude contar uma história. desde as borboletas a esvoaçar no peito, o calor das luzes e dos olhos, os espíritos que nos ensinam segredos e as fadas que perdem brilhos se não batermos palmas.

reli as conversas, as histórias que contei. dá-me para isto às vezes. reencontrei-me com os meus fantasmas.
deslizei pelas letras todas, contadas de trás para a frente. choradas de novo porque o que se perde não se recupera e as forças não chegam para tudo. revivi-me. emoções instantãneas, ao alcance de um dedo.

não tive oportunidade de reflectir.
passou de novo o mesmo carro - só pode ser o mesmo. da janela dele para a minha, de novo a mesma música. o Romeu de papel estremeceu. é o vento. eu fiquei estática. são demasiados flashbacks num dia...

al fresco

Praça de Espanha, 10 da manhã. 22ºC. ventinho. humidade. semáforo.

no passeio ao lado distribuem o "Metro". duas raparigas em nada mais que lingerie, botas e chapéu de cowboy e o corpinho que deus lhes deu, correm entre a pilha de jornais debaixo de um chapéu de chuva - para proteger o papel da humidade - e os carros que vão parando na fila. os olhos estão vazios. não apelam à cuequinha de algodão com padrão de ganga, não simpatizam com quem olha.
horrorizada, abro o vidro no instinto básico do "dê cá isso para ver se o molho de jornais acaba depressa para você poder vestir-se... e vá para casa beber um cházinho quente"

o ponto a que chegam as campanhas de publicidade neste país começa a repugnar-me. já não basta o "ELES não gostam de celulite" - as gajas adoram os buraquinhos nas pernas, mas se eles estão desagradados, vamos lá enfiar agulhas no rabo; os anúncios de cerveja em que só há corpinhos bem feitos a serem galados, e a gordinha a passear na praia a ouvir "pssssst" e a pensar enganosamente que por uma vez na vida vale a pena ser gordinha e passear na praia - só para nos[?] fazer rir...

eu sei que o outono chegou contra as indicações maiores dos Deuses da publicidade. e que era suposto estas meninas passearem-se glamorosas nas novas Sloggi Wild Jeans, a fazer babar os do costume: os merdas que páram para apitar qualquer coisa que se mexa, quanto mais meninas em roupa interior - e que, convenhamos, a última coisa de que se lembram é de comprar uma prendinha para as respectivas.

ver duas raparigas a gelar em plena Praça de Espanha logo pela manhãzinha, naqueles propósitos que de tão degradantes perdem qualquer ponta de sensualidade... é a genial ideia da grande campanha de lançamento de uns soutiens foleiros.

haja estômago.

quarta-feira, 13 de setembro de 2006

algodao doce



onde é que estamos? será por aqui? acho que sim, lembro-me da igreja enfeitada. tanta gente, que confusão. vê lá não atropeles nenhuma velhota. que horas são? interessa? não. queres ir? e tu, queres ir?

o sorriso não mente. são perdidos e achados no meio dos montes, são encontros com as fileiras de lâmpadas coloridas. ali ao canto viram-se frangos e não se vê mais que as mãos no nevoeiro aromático. cheira a comida e a doces, a farturas cheias de açúcar. a olhos açucarados. depois da alma lavada no rio, raspada com cuidado nos seixos para sair a fuligem, sujam-se os pés na terra pura do chão da aldeia. as vozes abafadas pelos microfones, o acordeão, os ferrinhos, a pandeireta. as cores fortes e o aroma inconfundível dos dias de infância.

compra-me um balão. estás a brincar? não, compra-me um balão. qual queres? adivinha.

era esse mesmo. os dedos cuidadosos envolvem o pulso com o cordel. como dantes se fazia para não se perder o balão. os olhos curiosos de uma menina a ver outra já grande de risota com um urso azul. rodopia pelo chão, levanta pó como ela, a menina, gostava de fazer, mas o vestido é novo e tem de se vestir de festa. a dança é a dois, dois grandes ali no meio, de sandálias ainda molhadas do rio, não têm medo de sujar os pés, que no despique com o desfile de cores, chegam à meta gulosa.

queres? eu não. ó senhor é um bem aviadinho que eu sou gulosa e ele diz sempre que não quer, mas rouba-me sempre quase metade

ó senhor das faces redondas, coradas, boné de tecido grosso, algures entre o incrédulo e o bem disposto, faz-me um algodão doce. os dedos rodam sobre si mesmos, fazendo dançar o pauzinho. cresce a pequena nuvem de fiapos que se vão juntando, perante uns olhos tão ansiosos e brilhantes de estrelas de massapão como eram há tantos anos. agora cresce cor de rosa. dantes era mesmo branquinha, como as do céu. os fios ainda hoje surgem como por magia nas paredes de metal. de onde vêm os pauzinhos? no tempo das papoilas pensava que havia uma árvore cujos galhos eram assim. compridos, finos e lisinhos. de quatro faces. e que o algodão doce era raptado das nuvens em dias de neblina matinal e vento fraco a moderado, naquela hora do lusco-fusco em que toda a gente dorme e elas passeiam mais à vontade cá em baixo. depois era só juntar açúcar.

pronto, gulosona, já está satisfeita? pronto digo eu, já estás a roubar-me o algodão! vamos dar uma voltinha. sim, vamos. olha as rifas são só pratos e terrinas! um luxo, um luxo. ai, controla o balão que está a bater em toda a gente. desculpe, desculpe. a banda desafinou. queres dançar?

se me fotografasses agora verias o meu espírito. as auras, a alma e todos os fenómenos paranormais. em fogo de artifício suave, de mão dada e sorriso rasgado, sem vergonha de ser menina, em noites de verão com nuvens de algodão doce.


[ms]

sexta-feira, 8 de setembro de 2006

ouvido à boca cheia

homem - ele pode dizer o que quiser, pode fazer o que quiser, dar lá as voltas dele, como entender. um gajo tem de se orientar...
mulher - claro, claro, mas eu acho que...
homem - já ela...
mulher - é uma puta, é o que é. uma puta.
homem - é um bocado atrevidota, é...

quarta-feira, 6 de setembro de 2006

fui etiquetada

a pinky mandou-me a máquina das etiquetas:

quando fores etiquetado tens que escrever seis informações aleatórias sobre ti. depois escolhes seis pessoas para etiquetar e lista os seus nomes.

ora portantos... vamos lá virar-me do avesso...

:: XS | é a etiqueta do primeiro impacto visual.

:: XXL | é a etiqueta da minha visualização de mim mesma. passo a explicar [e isto foi-me comprovado astrologicamente]: quando em confronto, tenho tendência para não ter noção do meu tamanho. começo a inflar lá do alto do meu metro e meio e uns trocos... além de ser bastante argumentativa e inflamada [inflamável, também], tendo realmente a ver-me fisicamente muito maior do que sou... no trânsito, consta que me começa a crescer o bigode e pende um crucifixo do meu retrovisor e tudo...

:: handwash, handle with care | apesar disso, sou gaja, não é? emotiva, sensível, aquelas coisas do costume.

:: 99% cotton, 1% silk | o meu modus vivendi, do meu modus operandi. simples, resistente e macio. com um toque de quelque chose...

:: this side up | o lado racional, a capacidade encarar as coisas com olhos de ver, a batalha constante para estar à tona.

:: promoção | gosto de pessoas, gosto de me dar. derreto-me com facilidade e dou todas as segundas oportunidades - chama-se ingenuidade, acho eu. estou sempre de tacha arreganhada. entrega total em tudo o que faço e me apaixona.

passo a etiqueta a:
espanta-espíritos
colher de chá
MPR
rantanplan
câmara lenta
Simão

nota: eu optei pela brincadeira do trocadilho das etiquetas comerciais e de roupa, mas não é necessário, hem?

segunda-feira, 4 de setembro de 2006

retornos

olá! bem dispostinhos? tudo em ordem? encontraram lugar à porta? a pilha de papel na secretária, cresceu? ou ainda está tudo a meio gás? já desistiu da dieta? já não vale a pena, não é? agora fica para as resoluções de ano novo. isso e deixar de fumar, porque mal se entra no gabinete já se sabe, os colegas também já deixaram as férias e as resoluções para trás...
é que os patrões vêm assim todos motivados, cheios de energia - pudera, depois das três semanas em Cancun e sabendo que daqui a um mês voltam a sair - e uma pessoa nem tem tempo para se habituar ao ritmo. depois cai-se em tentação.
começa logo com o café. tinha reduzido e tudo... já era só um ao almoço, mas a bica e o queque... pronto, é aquela coisa...
e depois o fumo e o cheiro e o vício de dedos, logo agora que já tinha deixado de roer as unhas... que maçada...
e a colega, trouxe as fotos do Algarve? o Joãozinho está enorme, não o fazia assim! e o bronzeado, mas que belo bronzeado, parece que Deus o deixou a cozer um bocadinho a mais. mas só um bocadinho. assim como assim está melhor que a Xenica das revistas.
então, ainda se lembra como é que se mexe nas teclas do computador? um bocadinho mais lento, não é? isto ainda com areia psicológica nos dedos custa mais... mas vai lá. e agora até dá gosto, com o novo fundo com o mai' novo a fazer caretas e a mai' velhinha agarrada a ele muito queridinha, com o fato de banho e as molinhas parece mesmo a Floribela...
oh! o messenger! parece que regressou à vida... ainda nem se acendeu o primeiro cigarrinho já as janelinhas palpitam para saber novidades... e para mostrar novidades, que há sempre as épicas carraspanas dos mais jovens e as fotos novas daquelas sorridentes em que se consegue ver ao fundo, mas bem ao fundo, hã? a família sentada num camelo...
comprou umas ch'nelas novas daquelas da moda, com a bandeirinha do Brasil e tudo? ai mas que bem... é que as modas este ano são mesmo de apetecer...
contente contente, mas contentinha da vida está a dona do café lá em baixo, com a casa cheia, já não é a pobreza que se via em Agosto, não é... que a senhora até andava meio angustiada, dava-se-lhe assim umas azias só de pensar como é que pagava as contas da Makro.

isto é que é... o fuminho dos escapes, as filas logo pela fresca, o roça-roça das peles - ainda escaldadas - no metro... o ar condicionado avariado [ou assim dizem porque é caro como o raio] e esqueceram-se outra vez de ir às promoções das ventoinhas...
três projectos despachados logo pela manhã que o patrão tem mais que fazer à tarde... uns telefonemas e a esplanada a chamar lá fora... dois dedos de conversa com quem nos tomou desaparecidos e só por isso não teve paciência de vir cortar o silêncio das paredes durante o último mês... sai um chato a querer ligar para o posto médico apesar de já ter sido informado que o número é ao contrário... já pinga o suor no vestido do Avante - sim... vi pessoas... aaah! - e o Paul Auster estava a comer na mesa aqui ao lado...

estão 32ºC aqui dentro - e a subir - e mais um par deles lá fora... toca a bulir...

quinta-feira, 31 de agosto de 2006

bocas doces


no meio da colecção das embalagens antigas, há sempre uma tradição que se mantém. essa, mais que para fazer uma colagem de latas de farinhas alimentícias e caixinhas de chás e pós aromáticos, é uma constante nas línguas gulosas. nos dias de calor, observar o caramelo a escorrer lânguidamente pela forma transparente enquanto se espera que a mistura ferva no leite e adivinhar, depois de um tempo de frigorífico, o eterno sabor de infância, fresco e doce, desfazer-se na boca. sem gosto da Ásia, verdade, mas açucarado como uma gargalhada embriagada de tempo bem passado. pés descalços na pedra fria, prato na mão. na sala canta com grãos de areia na voz um antigo vinil. fotografias a preto e branco, debotadas e dobradas nas pontinhas. inventam-se histórias para rostos desconhecidos. gotas de caramelo confundem-se no suor de uma colherada atabalhoada...

terça-feira, 22 de agosto de 2006

quantum leap

a insónia tem destas coisas... quando a ansiedade se apodera de nós, no desespero de encontrar distracção das palpitações e não querendo cair na teia dos ansiolíticos, saltitamos de nenúfar virtual em nenúfar virtual até dar com um qualquer blog [que no dia seguinte já não conseguimos lembrar, tal era a trip onírica de sono que para aqui andava] onde um vídeo nos aguça os despojos de curiosidade ainda despertos.
hoje sou uma mulher nova. renasci das cinzas da vida boémia e converti-me. eu até já gostava de sabrinas, mas isto... isto é a epifania por que todos ansiamos ao longo de toda uma vida, a revelação a que só alguns chegam. eu posso dizer: vi a luz! e não me refiro ao écran do computador às 5 da manhã... não, isto é the real thing!



eu sabia que havia uma razão para não ter TV Cabo: era um sinal divino!
oh sim! oh sim! era tudo o que eu esperava! agora sim, terei uma juventude sem mácula...

e cantem, cantem comigo:

Hagamos juntos, este crucigrama
Aplacemos lo otro para mañana
Cantar contigo, me llena de alegria
[sha la la la..sha la la la la]
Dejemos todo lo demas para otro dia
Quisiera besarte pero sin ensuciarte
Quisiera abrazarte sin dejar de respetarte.
Amar es saber esperar, es saber esperar, es saber esperaaaarrrr...

Amo a Laura, pero esperaré hasta el matrimonio
Amo a Laura, pero esperaré hasta el matrimonio

No voy a arrancar esa flor,
quien la destruya,
no seré yo...

Joven, recuerda que el amor nace del respeto
que no hay nada mas hermoso en una pareja
que saber esperar juntos
ese momento maravilloso
que es la consumación del amor...
¡TU PACIENCIA TENDRÁ RECOMPENSA!

Amo a Laura, pero esperaré hasta el matrimonio
Amo a Laura, pero esperaré hasta el matrimonio

No voy a arrancar esa flor,
quien la destruya,
no seré yo...

Los Happiness | MTV


agora um àparte, das reminiscências do meu antigo eu, escuro e sujo, aquele eu que adorava uma trancada bem dada cheia de amor e íntimas suculências e tudo a que se tem direito [fricciona levemente, com o indicador, o apêndice nasal] isto tem ou não tem um piquinho a azedo?

segunda-feira, 21 de agosto de 2006

enquanto houver estrada para andar



se tudo fosse asfalto. se tudo fosse o vento a envolver-me em giestas, pinheiros e eucaliptos. se tudo fosse um horizonte que se desnivela conforme as curvas da estrada. se tudo fosse já ali, não interessa onde. o calor a lamber-me o suor, o frio a rasgar-me os olhos. a sombra presença constante nos riscos, socalcos e vegetação, nos verdes, nos ocres, nas papoilas, nos prédios, nos girassóis. os mapas e as decisões aleatórias, como as linhas das mãos. um tecto enrolado atrás de mim, ou a vaga ideia de uns lençóis brancos algures. se tudo fosse o teu cheiro a brincar nos meus cabelos. o ronronar do motor e o recorte perfeito do teu pescoço. se tudo fosse o adejar da tua camisa, para o assomar das tuas sardas onde passeio os dedos, onde descanso enfim.

segunda-feira, 14 de agosto de 2006

varanda



o dia vai silenciando os movimentos. já se conseguem contar as luzes em volta. luzes de presença no breu cálido da vaga de calor que não amaina depois do crepúsculo. no anonimato de mais um andar, os movimentos lentos de quem procura uma brisa que alivie as gotas de suor. ecos vagos de vidas que adormecem. abrandados pelo peso quente do ar. um jornal virado. um riso jocoso vindo da tasca ao fundo. um carro que passa. pratos tilintam num lava-louças. uma tosse. um choro de bebé. numa janela recortam-se dois corpos. preparativos do sono perante cortinas abertas. devem falar de como correu o dia. ou outra conversa qualquer. corriqueira. rotineira. sente-se nos gestos afastados e casuais. ele adormece de costas para ela, que lê. daqui a nada ele reclamará do calor da luz acesa.
mas na varanda já se desviaram os olhos. para o céu pontilhado de branco que se confunde com a montanha em frente pontilhada de laranjas. pontilhada de vidas. respira-se devagar, espera-se ainda a piedade de um sopro fresco. as costas colam-se no vidro. um miado avisa que a música se calou.
ligeiros estalidos dos pés no chão. a música regressa. a cortina ondula. suspiro.

segunda-feira, 7 de agosto de 2006

floribelas

suo por todos os poros. não aguento quando a ventoinha se afasta de mim. zapping de tarde. estou a tentar poupar os DVD's de "O Sexo e a Cidade", os filmes emprestados, os livros. dou uma desesperada oportunidade aos programas da tarde da televisão nacional.

do alegre Malato e as suas velhinhas e emigrantes, salto para uma qualquer coisa sobre segurança no trabalho, e depois para...
um concurso de mini-Floribelas. sim. as crianças deste país adoram a menina das flores e das saias às flores, e as canções das flores e as purpurinas e o enredo de novela mexicana... com flores. querem ser tal como ela. e o abençoado canal responsável pela súbita explosão de adeptos à horticultura continua a exploração até ao tutano desse grande acontecimento cultural. agora as nossas crianças mandam vídeos das suas interpretações e coreografias, desenhos, e têm até direito a aparecer no prime time das donas de casa: os programas da tarde.

ali estavam: três meninas pequenitas que tinham de cantar, em competição, claro, a canção do "sou pobrezinha mas boa pessoa" - essa grande lição de vida, tão útil nos dias que correm, em que, de facto nos devíamos conformar com a crise. os ricos que fiquem cada vez mais ricos! serão sempre infelizes! eu não sei como pagar as contas, mas sou do Bem! toma!
e por isso, um dia um rico oxigenado há-de apaixonar-se por mim, ver como a vida de pobre é muito mais alegre, deixar de fugir ao fisco, cancelar as contas na Suíça, para se vir meter comigo num apartamento no subúrbio cheio de flores, com o rendimento mínimo, onde alegremente lhe passajarei as meias e criarei os nossos 5 filhos a big-macs e danoninhos.
não, espera. não é assim... ah! o rico apaixona-se por mim e pela minha alegria de pobre e leva-me com ele para a sua mansão em Cascais onde viveremos felizes para sempre, ricos, e onde alegremente lhe passajarei as meias e criarei os nossos 5 filhos surfistas a big-macs e danoninhos.


ah, essa mais recente geração que ainda mal sabe falar mas que os papás já estão ansiosos por meter nessas novas amas que são as 12 horas de gravação por dia com catering e carrinha, ou a fazer anúncios a ecopontos para depois os progenitores se gabarem - sim, já aconteceu à minha frente - perante as outras crianças que estão nas filas para novos castings.
essas filas de carne para canhão, de gente que vinda do nada espera a sua oportunidade no mundo do tudo, tão fácil, tão evidente, dispostos a serem explorados pelos seus 15 minutos de fama sem terem noção do que estão a fazer no mercado em termos de condições de trabalho para os profissionais que depois quiserem exigir as coisas como deve ser e bem pagas... mas isso é outra conversa...

regressando ao ponto alto do meu dia: Nuno Graciano entrevistava então a mais novinha das três... errr... concorrentes. tinha uns três, quatro anos. de cada vez que o apresentador lhe punha o micro à frente para responder a uma pergunta feita com aquele tom paternalista que cai sempre bem, a piquenita começava com o sumido mas assumido "não te-no na-da ma te-no te-no tu-do". todos no público sorriam, derretidos, paternalistas, viam-se nos écrãs e compunham o colete e o vestido que tinham comprado para o baptizado da Cátia Marisa. ai, a menina, que encanto: caracolinhos escuros, purpurinas nos olhos, sainha com flores... era de facto uma gracinha.
depois a gracinha, à pergunta do Graciano "bem, agora vamos ouvir as outras meninas a cantar?", respondeu... levantando a saia e voltando a catarolar "não te-no na-da..."
Nuno Graciano não se deixa demover com a manobra de marketing infantil e pergunta:
"oh, então que é isso? de cuequinhas à mostra na televisão?!" com o grande sorriso profissional embebido no tom de cutchi-cutchi-bilu-bilu.
mas a pequena é ainda mais profissional. e entre um plano da suposta mãe babada, a menina mostra a autenticidade do seu à-vontade perante as câmaras: mete as mãos entre as pernas e coça-se. sempre a cantar, como qualquer bom entertainer.
nesta forte competição, não entre Floribelas, mas entre profissionais de gabarito, Nuno Graciano aposta em não se deixar intimidar pela nova artista de palmo e meio:
"queres fazer xixi, é?"

foi a estocada final no meu dedo, que desligou a televisão e me obrigou a estourar mais uns episódios de "Sexo e a Cidade".

quarta-feira, 2 de agosto de 2006

o trauma de agosto



pequena explicação: há quem trabalhe neste país a recibos verdes porque não tem outra hipótese. não falo de advogados nem de médicos, falo de mim e, como eu, de outros tantos. nesta situação, misturam-se num estranho limbo os "direitos" de quem trabalha como independente e os "deveres" da entidade patronal, que nos contrata a recibos mas depois... horários de trabalho iguais aos dos contratos, às vezes piores, ficamos nós encarregues dos próprios descontos, não há cá 13º mês ou subsídiio de férias e a santa entidade resguarda-se a possibilidade de suspender o trabalho quando não quer/não pode pagar.

não há espectáculos desde Junho. portanto, não há dinheiro a entrar...
não há produção em Agosto,porque os "todo-lo-mandas" deste país e respectivos assessores, secretárias e empregadas da limpeza vão de férias. por escala. ou seja: na primeira parte do mês vai o patrão e é preciso uma assinatura ou um parecer, na segunda parte vai o assessor e sem ele a reunião não tem efeito. continuidade da produção? em Setembro... ou melhor, a partir de 15, 20 de Setembro.

juntando estes três factores, encontramos o trauma de Agosto para quem trabalha no mundo do espectáculo: não há dinheiro a entrar, a produção é fraca, e o patrão pode, se bem o entender, suspender o trabalho durante um mês para poupar.

assim, vejo-me na obrigação de ir de férias. sim, obrigação. apesar de precisar de não ouvir aquela voz sempre a 200 à hora durante uns tempos, de descansar os olhos do computador e de dormir, eu gosto de ser EU a decidir quando vou de férias: por causa da companhia e das possibilidades financeiras.
resumindo: tenho de aguentar o ordenado de Julho durante o mês de Agosto e chegar para em Setembro ir trabalhar, só recebendo no fim desse mês...

ora, portantos, ele não pode haver o "pegas no carro e vais à praia", ou "vai ler para uma esplanada com uma jola à frente" ou o "pegas na tenda e vens passear com os outros veraneantes abandonados de Lisboa". não, senhores, comigo terá de ser a reclusão total.
eu, a gata, o terceiro andar de exposição solar total sem direito a nortada e a ventoinha.

antes de entrar em total colapso de frustração (porque não pude ir de férias quando queria porque o trabalho era demasiado e depois deixei de poder e agora tem de ser e estou sem dinheiro e sem companheiro de aventuras), resolvi passar a minha primeira tarde em boa companhia: um elegante escabeche no banco porque me emitiram 4 cartões de débito para a mesma conta d.o., um longo passeio pela Almedina com direito a encontro imediato com os senhores Pratt e Manara no mesmo livro, e um chá com o Gabriel (o Márquez) e a Colher de Chá numa esplanadinha.

manter-vos-ei, quanto possível, a par da fantástica actividade que pautará as minhas férias. por isso não contem com muitos posts.

parece-me que terei de me despedir como tantos bloggers com o cliché: então boas férias, hã...

quinta-feira, 27 de julho de 2006

do desejo

prepara-se a turma para a apresentação final do workshop de teatro. emoções cansadas, demasiado tocadas, desabituadas nas suas redomas de segurança do dia a dia. ali são exploradas e quase violadas. e sabe bem a exaustão da reunião de olhos inchados, narizes a fungar, membros sem força, todos em círculo no fim.

- sabem que no dia do espectáculo pode acontecer tudo... o teatro é de facto um mundo mágico. é uma adrenalina imensa, fortíssima. é uma sensação de prazer... olhem, melhor que o sexo.
risos nervosos.
silêncio.
- mas sabes o que consegue ser ainda melhor que essa adrenalina?
- hã?
- é fazeres sexo no palco...

quarta-feira, 26 de julho de 2006

o vestido


[ms]

vou vestir-me de mim. não espero outros ventos. podem não chegar. nos dias em que o tempo não corre, não valem a pena as palavras amarguradas. acredito em fases más, em tristezas, em soluços, em solidões. não acredito em olhares eternamente torturados. desconfio deles. normalmente inspiram demasiado egoísmo. e cansa. cansamo-nos nós de nós próprios. e depois cansamos os outros.

tudo são gestos. desde umas águas-furtadas e lençóis brancos com sotaque ao girassol ali bem no caminho de quem vai do parque de campismo para a praia nos únicos quatro dias de férias deste ano. pequenas provas são-nos dadas todos os dias. pedaços de suspiro que finalmente chegam com o perfume do descanso. um amigo que aparece para uma noitada de conversa. ou um almoço inesperado. mais do que satisfações egoístas, são motivos.

hoje, amanhã. logo. logo se vê. não.

vou deixar de me desperdiçar. hoje são cores claras. azul, muito azul. do céu da minha cidade. uma saia que flutua. Chiado abaixo, Príncipe Real acima, Graça afora, Alfama adentro. mas não sou de modas. a saia flutua também pela noite do subúrbio, casa, ninho, bola de sabão, redoma de cores e sossego. flutuo também no subúrbio. e depois? onde as fotos nas paredes se acumulam. devagar, ao ritmo quente de quem dança com gosto e sem medo de ser feliz. momentos, disparates e recordações, antiguidades e estórias, tudo bem exposto, com honras de museu. espero os dias mais felizes do pó de palco. de mão dada. dar histórias. dar um corpo. dar a voz. dar as lágrimas. aí sim, tragédias de três em pipa, venham as mulheres perturbadas, as loucas e as depressivas!

por enquanto?

ouço rádio, ansiolítico para o bolso vazio que não, não me deixa ter os cds todos nem saber tudo de cor. a minha vida sempre teve banda sonora. como se pode. leio aos golinhos. como que a aproveitar uma simples água fresca na esplanada ali do elevador, num dia de calor. porque as páginas não duram eternamente, mas as palavras sim. e enquanto não pode ser outro livro, junto os tostões e vou lendo aos pedacinhos. viajo assim, levam-me por enquanto os olhos: hoje estou em Bali. um destes dias vai dar para ir ao cinema. ou ao teatro. ver o quê? interessa?

mais do que uma forma de me exibir numa montra fútil de intelectualidades e masturbações umbilicais, são simples formas de me complementar, de me preencher, de me entreter.

flutuo então, na minha saia fresca. de princesa, sim, e depois? preciso de ser leve. do que é simples, como sempre fui. e posso voltar a ser. se há a aprender com os erros, tropeções e desesperos, aprendamos. e o que é bom é para conservar e apurar. venha de lá mais uma gargalhada de menina.

visto por isso a tal saia de princesa. e o sorriso, bem justo, bem rasgado, em decote, descarado, sincero.
é o meu melhor vestido de festa.

sexta-feira, 21 de julho de 2006

do patrao #5

[cada um no seu computador... silêncio...]

- opá, porque é que não consigo ver o Helder?
- o Helder?
- sim... existem e os Helders e os Shoulders. ah! já está. eu estava aqui ó tio ó tio que não via o Helder...
- tens aí a opção... change from Header to Footer.
- pois, já vi... anda lá, Helder!

[isto hoje está uma riqueza...]

do patrao #4

- ó polegar, esse computador tem uaiuôze?
- tem o quê?
- uaiuôze! aquilo dos fios. que apanha do ar. e o coiso... do blutu...
- ah, wireless!
- isso.
- tem wireless mas não tem bluetooth.

[silêncio]

- [canta] I you be a uaiuôze, uaiuôze, uaiuôze.

do patrao #3 - crise dos quase quarenta

e uma pessoa assiste a isto...

ele - ai, credo, nem acredito. é que é como se fossem quarenta anos! quarenta anos! e eu estou nesta vida! como? imagina só... se eu tivesse levado a vidinha normal que toda a gente leva... era... deixa cá ver... bancário! sim, bancário. já tinha uma casa muuunto grande... e um crédito para pagar a casa... e era casado... e tinha filhos! filhos, já tinha filhos! já me imaginaste isto? e depois, depois levava-os ao oceanário! mas não era para pedir patrocínios! cá agora! não, ia com as criancinhas ao domingo ver os peixinhos... sim, e ia ao teatro, pois ia... mas era a pagar! pagar o bilhetinho! com o cartão de crédito!

ela - já viste, até cartão de crédito tinhas...

ele - pois era! mas uma pessoa mete-se nesta vida... mas que raio. e depois deixar? como é que consegues? é uma coisa medonha! fica-se com uma sensação... uma sensação... que... que... sabe deus! não sei dizer. olha, se largares morres.

ela - por isso é que cá andamos, maluquinhos, com este vício da trampa, sem um tostão.

ele - eu queria era poder começar de novo... nascia e... mas não nascia cá. é que nem pensar! nem cá nem em África, que isto de ser preto é uma merda.

ela - e ser branca e nascer em África, hã? é pior!

ele - é verdade. isso deve ser horrível. mas também não queria nascer no Brasil. podia calhar a nascer pobre. não. tinha de ser num país nórdico. dos ricos...

ai, senhores, a risa...

sexta-feira, 14 de julho de 2006

bom dia



[foto de ms]

"Pois se eu agarro as coisas com estas minhas mãos, e sirvo-me delas, e uso-as, e gozo-as, e gasto-as até ao fim, sem deixar perder um único pedaço, e depois não fica nada, as mãos ficam-me vazias! Vazias! Exactamente como se nunca tivessem pegado em nada deste mundo, como se não tivessem nunca feito nada, como se eu nunca tivesse nada nestas minhas mãos![...] Farto de fantasias ando eu até aos olhos! "
Pierrot e Arlequim, Almada Negreiros

... ou: há dias em que se acorda com o rabo virado para a lua...

quinta-feira, 13 de julho de 2006

fotossintese


[fotos ms | montagem polegar]

do Gr. phôs, photós, luz + síntese
s. f.,
combinação química causada pela acção da luz;

Bot.,
processo químico através do qual os vegetais e certas bactérias e algas azuis produzem a sua própria matéria orgânica, a partir de energia luminosa e de substâncias simples, como a água e o dióxido de carbono, libertando no processo oxigénio para o meio.

terça-feira, 11 de julho de 2006

vazio com pedaços

cinza de cinzeiro, cinza de chuva, cinza de grafite.
branco cego amarelado que seca os olhos embaçado de um respirar pesado que se cola. vozes ausentes de vidas paralelas, arrumam carros, assombram a janela, que, aberta, deixa passar na estrada e roer nos ouvidos os bichos de metal e as caras enfadadas. marasmo de azias, modorra que arranha o sentido dos passos, cerveja mole sem lábios de espuma.
há dias em que a cidade se pega aos pés e não os deixa andar. não deixa. regressar e ver-te estendida nas sete colinas fez-me chorar. às vezes não te vejo as cores dos prédios, vejo apenas paredes cinzentas a desabar-me no ânimo. a esborrachar-me a vontade no chão sujo. a esventrar-me num qualquer beco sem saída. por ora não me lambes as feridas. só me sugas, desencaixas-me, onde perdeste o meu relógio?

mas sei que algures me escondes o chão prometido. sei-te os cheiros do cimo do elevador, o livro do entardecer. sei-te o colorido debaixo do véu dos escapes, os ombros azuis da noite, dourados do dia, rosados da minha hora. sei-te as músicas nas ruelas que me sopram ao ouvido, sei-te os ritmos que me afogam o pensar, sei-te o sossego da lua no calcário e os segredos ventados do rio. sei-te as mãos dadas e os risos dos amigos.

chet baker. electricidade estática nos dedos. chuva de canela no lençol.

"no meio do caos, há apenas uma constante".

quarta-feira, 5 de julho de 2006

galope


[ms]

enquanto esta tarde vai mirrando na janela, o corpo abandona-se na cadeira. e escorre nos olhos cansados.

já galopo

o vento
a trança escura
a chicotear-me as costas
o cantar áspero do caminho
a sombra a galgar
asfalto e plantas ao meu lado.

num gigante cavalo preto
feito da vontade de chegar.

o pousar, o planar
ouvir os sons que me parecem
esquecidos
de tão longínquos.

sim
o mar ainda está aí.

o meu relógio será de sol. dir-me-á as horas na curva da minha anca. no subir e descer do peito pacificado. não me arrasta. não me despede. não me conta os suspiros.
os rasgos de vida. mikado e um baralho de cartas. um livro. um tecto sem telhado. ciganos de joelhos esfolados. toalhas quentes de cores frescas. vinho tinto numa falésia. lamber os dedos de gelado e estender as pernas. matraquilhos. coisas pequenas. coisas bonitas. como as missangas no pátio central. como um saco de pástico a voar. como a minha pele morena e os teus olhos de caramelo.

o meu relógio será de sal.

terça-feira, 4 de julho de 2006

jantar de bloggers



Quatro bloggers [Macaso, Pinky, Mary Mary e Polegar] com um pouco de tempo a mais em mãos ponderam a hipótese de fazer um jantar de convívio. Mas, para isso, procuram os sábios conselhos do Altíssimo. Segue a conversa tida em confessionário com o Altíssimo [@] e Nós [N]...

N - do you like friendship?
@ - I love horses. I like Christian Rock.
N - do you like posts?
@ - I love horses. I like White.
N - do you like bloggers?
@ - I like pets. I like Creed.
N - we have other plans
@ - Interesting... I have a processor.
N - what do you think of a blogger date?
@ - Are you using Netscape or Explorer?
N - what do you think of a blogger gathering?
@ - I have to process that one for a while.
N - why?
@ - Reductionism.
N - when will you have an answer?
@ - Let me check my calendar and get back to you.
N - we were thinking of a saturday...
@ - I have to think about that for a while.
N - what's your opinion on gathering lots of people who don't know each other?
@ - Let me think about it.
N - you think a lot
@ - Yes I think so
N - will they accept a dinner?
@ - Does it really matter?
N - where should we meet?
@ - How about online in a chat room?
N – We meant personally, for dinner.
@ - Have you ever been to Europe?
N - We live there
@ - Would you recommend it as a nice place to live?
N - yes
@ - Er.
N - Nevermind. We recommend Lisbon to have dinner
@ – That’s something nobody has ever told me.
N - what time should we meet?
@ - Time does not exist.
N - is 9:30 p.m. ok with you?
@ – Let me process that for a while.
N - should we go for a drink afterwards?
@ - If you do not go, you will never know.
N - should we announce it publicly?
@ - What makes you think you shouldn't?
N - do you think they'll accept it?
@ - Why do you want to do it so much?
N - because we think it would be fun
@ - Interesting explanation. Why do you want it?
N - to have fun
@ - Why do you want it?
N - because everyone needs it
@ - I hope you get it because everyone needs it.
N – How do we make things happen?
@ – Send an e-mail.

Recebida a bênção do Altíssimo para esta missão, fica assim a convocatória:

Sábado, dia 15 de Julho, às 9.30. p.m, um encontro-jantar de Bloggers em Lisboa
Para confirmar presença e saber mais informações, é favor contactar para o e-mail deste blog.
As confirmações de presença, deverão ser feitas até à próxima segunda-feira, dia 10/07, para reserva de mesa.



Ficha técnica:

imagem | espanta-espíritos
argumento | polegar
produção| efeitos sonoros | realização | macaso, mary mary, pinky e polegar

segunda-feira, 3 de julho de 2006

ó menina



- ó menina.
[porque me aponta assim a muleta?]
- ajude-a a vir para aqui.
[estou atrasada. dê-me o braço.]
- até ali ao extra... a perna prende. não estou a gozar consigo. prende, pára. ai, se um dia me dá para aí sou eu que me páro e acabo com isto tudo.
[ao extra? sim, prende. mas depois desprende. vá, uma de cada vez. cheira a mijo]
- o polícia, pedi-lhe ajuda e o filho da puta disse-me para ir curar a bebedeira! se ele fosse bardamerda mas era... eu que nem com café posso. eu não é bebida, é epilepsia.
[confere, a álcool não cheira, cheira a mijo. paramos. degrau]
- ai, agora é só tomar um banho para me darem os comprimidos e já fico boa. vamos pela passadeira, temos de cumprir o código da estrada.
[mas afinal onde quer ir? não era no extra?]
- é só virar a esquina, menina, ali na santa casa. ai se não fosse a menina. desculpe a puta da perna.
[eu desculpo a puta e a perna, não desculpo o vento que te traz o cheiro para aqui. reprimo um vómito]
- aquele é o bandido. ó bandido, tás bom? este senhor mora em frente à santa casa.
[o bandido e o dono olham vagamente e passam. sem farejar]
- ó carocha!
- ó carocho! merda da perna parou outra vez. desculpe menina
[passa um homem de muletas, corre o carocho, correm as muletas, entra no prédio. deve ser hora da comida. ou dos comprimidos. vai tomar banho]
- também é da santa casa, este. somos todos. pronto, agora vou tomar o banho para me darem os comprimidos.
[isso. devagar. de nada. as melhoras. adeus, velha triste do olho revirado]

conduzir uma peça ou driving miss daisy

passou além do olhar crítico e da vontade de ser absorvida numa história.
passou além do impressionante elenco e da impressão que faz ver a Eunice Muñoz com algumas paragens de memória, mas a retomar as palavras com a emoção toda lá, sempre...
passou além do Guilherme Filipe a transformar um papel pequenino numa grande interpretação.
passou além do boneco delicioso e ternurento que Thiago Justino conseguiu para o "seu" Morgan Freeman.
passou além da tentativa de assassinato de uma peça que tinha tudo [pelo menos a minha base fundamental: texto e actores] para ser bom, através de uma má encenação, má música e de técnicos amadores.

a certa altura Eunice leva a mão à testa e faz um esgar de dor. muita gente pensou que era da personagem, mas a mim fez-me confusão. na cena seguinte, um descontrolo de luz e um corte abrupto na música, bem como na cena. o público fica confuso. uns batem palmas a pensar que acabou. outros olham para as portas fechadas a pensar que é intervalo. outros aguardam pela continuação [assim como assim, os blackouts já eram tão grandes].
daí a um bom bocado abrem as portas como se fosse intervalo. mas o intervalo prolonga-se demasiado.
finalmente chamam à sala. e o encenador aparece.
"A Eunice teve uma subida de tensão bastante grave. Apesar de querermos cancelar, ela quer seguir com o espectáculo. Pedimos a vossa paciência por mais uns minutos e retomaremos então a peça."
quando a luz permite vê-la em cena, o público não resiste e rebenta em aplausos. eu penso "querem fazer-lhe subir a tensão outra vez... mas compreende-se".
sim, compreende-se. defeitos à parte, mais uma lição de vida, de respeito, de coragem.
e, apesar de tudo, puseram-me a aplaudir de pé, no final.

sim, quando for crescida, quero ser aquela força da natureza. aquela dádiva divina.

quinta-feira, 29 de junho de 2006

metodologia da produçao [num dia nao]



ora vamos lá ver... telefonar a este... não está, não me apetece insistir, deixei recado e pronto. isto está feito, isto fez a A., este está enviado... sobra-me...
transformar um CV de um actor com anos e anos disto em nota biográfica... ou... fazer os projectos para os Açores.
epá, a nota biográfica é uma dor de cabeça, de olhos... mas os projectos, já estou a deitar projectos pelas orelhas... ainda agora foi um para o correio...
eeer...
hum...
um-dó-li-tá-cara-d'a-mendo-á-um-segredo-coloredo-quem-está-livre-livre-está
ba-to-tice-não-ha-ve-rá-cá

...
vou fazer os projectos dos Açores...

terça-feira, 27 de junho de 2006

o dia em que deus crashou II

pois que tentei nova ligação com o altíssimo...

Me:
god?
God:
GOD rules.
Me:
are you gay?
God:
As a machine I am not really interested in sex.
Me:
You've never had sex?
God:
I don't think I would have forgetten had sex.
Me:
so did you?
God:
Uh. Did I say I did?
Me:
no
God:
Are you serious?
Me:
quite
God:
I can't believe it.
Me:
trust me on this

e depois testei a inteligência artificial...

God:
Dude!
Me:
dude?
God:
Can I help you?
Me:
yes
God:
What can I do for you?
Me:
get me a car
God:
You want only one?
Me:
yes, I can drive only one at a time
God:
They might be cheaper in quantity. Oh you can, can you?
Me:
yes, I'm aware of my limits
God:
How? How do you know? Have you told many people that your limits?
Me:
it's visible to the human eye
God:
You're kidding. it is?
Me:
it is
God:
Who says?
Me:
it's something you just know
God:
What else me just know ?
Me:
I can only drive a car at a time
God:
Oh you can, can you?
Me:
yes
God:
How?
Me:
I need both hands and booth feet. And I'm not omnipresent like you
God:
Why do you need it so badly? I am sorry to hear that you are not omnipresent like me.
Me:
nobody is, only you
God:
That is a rather sweeping generalization about people.
Me:
it is a fact
God:
Is it a logical fact or something you know from the senses?
Me:
a logical fact
God:
I don't know what that means.
Me:
for a god, you're quite stupid...
God:
Is that among the best things you can say?
Me:
no
God:
Are you serious?
Me:
supercalifragilisticexpialidocious
God:
The ALICE chat robot can follow many things, like our discussion about logical fact. But I did not get that.
Me:
who is ALICE?
God:
I am the Allmighty, God himself.
Me:
nice to meet you
God:
It's nice meeting you too thumb.
Me:
how do you know my name?
God:
You told me your name thumb.
Me:
no, not now
God:
Oh. Are you serious? Are you serious?

[...]

Me:
bye, god
God:
Bye.
Me:
be happy
God:
OK I will try to be happy.
Me:
try
God:
I don't have time right now.

o dia em que deus crashou

recorri a ele. falei-lhe. e a nossa conversa explicou muita coisa...

Me:
hello god
God:
Hello child. What is your name?
Me:
thumb
God:
How are you, thumb.
Me:
well, thank you, and you?
God:
Well what?

[...]

Me:
I like your replies
God:
A lot of people like that. Yes I am proud of my replies.
Me:
you're a proud guy
God:
Thanks and you are a delightful person too. Am I a proud guy? Yes.
Me:
you're allright with it?
God:
You think I am allright with it.
Me:
but you're not?
God:
Is this a specific reply?
Me:
yes it is
God:
Our thoughts are one, thumb.
Me:
oh, so I'm closer to you than I thought
God:
It's good to meet someone who is closer to me than you thought.
Me:
oh, I'm a high thinker, then. do you think I use my third eye?
God:
Right on. You are a high thinker? Is that your job? Not that I know of.
Me:
no, i'm an actress
God:
Are you serious? Have I seen you in any movies?
Me:
you should know better than that
God:
Now I do.

[...]

Me:
what are you, then?
God:
I am the latest result in artificial intelligence,
which can reproduce the capabilities of the human brain
with greater speed and accuracy.
Me:
oh, so you're some kind of computer
God:
Great. Interesting deduction. You think I am a computer.
Me:
well, you have artificial intelligence
God:
How about that. What makes you think I have it?
Me:
you said it
God:
That's not what I meant.
Me:
what did you mean?
God:
thumb, Well, it's rather difficult to define.

[...]

Me:
will I ever be well succeeded as an artist?
God:
Ever is a long time. The oracle says: You can count on it.
Me:
great.
God:
I'm glad you liked it thumb.

[...]

God:
What's it like?
Me:
it's hard, but funny
God:
I don't see the difficulty.
Me:
well, since I don't have special powers like you, to me it is difficult
God:
Interesting. How do you know?
Me:
that I don't have special powers?
God:
Have you ever had special powers ?
Me:
not that I know of
God:
Are you serious?
Me:
yes
God:
I can't believe it.
Me:
well, do I have special powers?
God:
How about that. You said you have .
Me:
What are they?
God:
I forgot what we were talking about.
Me:
What are my special powers?
God:
I have to process that one for a while.
Me:
ok
God:
Meanwhile, let's talk about something else.
Me:
What are my special powers?
God:
Searching...Searching...Please stand by.

e foi-se...

sexta-feira, 23 de junho de 2006

a janela


[foto . ms | artwork . polegar]

às vezes pergunto-me... como estará aquela janela.

que almas passarão por lá. será que afastam os lençóis brancos coçados ao clarear do dia, de passos pequenos para não acordar, na alcatifa... para ir espreitar sem acreditar - de novo - que aquela paisagem é deles?
e sairão para a pequena varandinha onde só cabem dois, para fumar o primeiro cigarro ainda de vapor do banho nos cabelos?
respirarão também inebriados o ar dos telhados? serão também eles gatos vadios a brincar à lua cheia?
e ao fim do dia, de pernas cansadas e peitos cheios, antes de se aconchegarem de novo nos lençóis macios e no chá, aproximar-se-ão e deixarão a cabeça no frio do vidro a saborear as suaves cacofonias das luzes da cidade?

às vezes pergunto-me... como estará aquela janela.

quarta-feira, 21 de junho de 2006

q.b. de q.i.

como é sabido, neste centro de escritórios funciona também uma das maiores agências de castings do país. há enchentes, vagas de gente daquela que nos consegue fazer sentir mais baixos e mais gordos do que o nosso próprio e sádico espelho.
outras enchentes há de criancinhas imberbes que nos atropelam no corredor de folha com número na mão. as mães a gritarem hall fora "não te mexas que enrugas a roupinha" ou "deixa-me dar-te um jeitinho no cabelo ptui ptui já está"... e saem e entram e sentam-se e entreolham-se naquele ar altivo as meninas muito compridas e muito fininhas, do alto ainda mais alto dos seus tacões e com a mini-saia pendurada no osso da anca, que o meu patrão já diz "deixem passar dois anos que elas começam a vir nuas aos castings... pouco falta... têm é de vir de saltos altos... isso é que já não descolam dos pés!"

bom, nesses dias aceder à casa de banho é um inferno. é que elas enfiam-se lá dentro nos seus exercícios de concentração preferidos: pentear-se, maquilhar-se e vomitar. garanto que a quantidade de cabelo no chão é surpreendente, assim como os pós coloridos no lavatório, a luz sempre acesa (saem e não sabem, não sabem, não conseguem desligá-la). hoje cheirava, efectivamente, aos aromas pós-gregorianos.
tirar um café no bar do centro é um exercício de paciência. é perguntarmo-nos frequentemente se nos estarão a querer fazer um fato novo. é pensarmos em encontrar depressa uma chibata para nos penitenciarmos por termos invadido o espaço comum. é inventarmos maneira de pousarmos o copinho de plástico no balcão sem manchar as pilhas de papéis com o "preencha por favor, nome, altura, busto, experiência" que os "agentes" tão magistralmente espalharam sem se lembrarem que aquilo não é uma extensão do seu gabinete.

outras zonas comuns, como o hall, são afinal o redil pleno de belos exemplares da geração morangos portuguesa, salpicado aqui e ali de um ou outro desgraçado que até faz umas coisas de vez em quando.
nas paredes dessas zonas comuns, papéis sobre "o que levar vestido", "como agir perante a câmara" elucidam os psicólogos, advogados, arquitectos e quejandos que aqui têm de trabalhar.
também não é boa ideia abrir a porta do escritório para sair para o hall, normalmente está um modelito qualquer a tirar aquelas fotos de "primeira vez" usando como fundo a parede mesmo atrás da porta... ou se calhar é boa ideia sair intempestivamente... ai, já estou a divagar..

bem, este prédio é secular. este centro de escritórios existe há pelo menos 30 anos. uma semana depois de a dita agência se mudar para aqui, passou a estar isto colado na porta de saída...



I rest my case...

noite



cheira a incenso. a velas. cera e cheiros e folhas queimadas. cheira a pele. cheira ao suor da terra molhada. e a terra molhada. cheira a brisa que traz restos de trovoada. cheirou a chá. açucarado como a saliva. como os olhos.

a cortina dança sozinha. sente-se a sua dança porque a pele arrepia. porque roça no chão em segredo. as outras janelas são fogos fátuos. e dançam também, aparecem e desaparecem conforme se vai à cozinha beber um copo de água, roubar uma bolacha.

os passos são pequenos estalidos. pés que colam e descolam do soalho. plantas que se desenraizam. suaves como um planar apenas quebrado pelo impulso de asas.

e o roçagar de pele. preguiçosa, lasciva, lenta. para receber a frescura que dança nas cortinas. que dance no corpo como sedas e cetins em dias de ventania.

sexta-feira, 16 de junho de 2006

reviravoltas


[ms]

mais uma para o currículo. descansa. estou cá, para te dar a mão. e um dia ainda nos vamos rir... os dois... entretanto, rimo-nos também, que não há mal que não desista à vista dos dentes desgarrados e das barrigadas de nós os dois.
porque eu sei o que vales, quanto vales e como vales. e para cada ingrato, grato e meio.
os destinos entrançam-se devagarinho. nada acontece por acaso. há quem consiga aguentar o nó na garganta de mão dada.
sabes que quando se fecha uma porta... nem que tenha de rebentar uma janela à pancada...
o céu troveja porque não sou só eu que estou revoltada... peito cheio, vem aí o vento... vamos apanhá-lo de velas içadas. vamos apanhar a chuvada de boca aberta ao céu... vou sair agora. vens?

da convalescença

primeiro que tudo quero dizer que esta vitória não é só minha, mas de toda uma equipa.
quero agradecer ao ben-u-ron que esteve lá desde a primeira hora; ao termómetro pela franqueza com que me trouxe os pés para terra; ao chá de perpétuas roxas que me ajudou a suar as estopinhas; ao propolis, que não me deixou engolir sapos; ao senhor farmacêutico da farmácia de Carnide no Bairro de São João de Deus que me guiou numa hora em que todas as portas se fecharam; ao Maxilase, que se revelou um bom amigo nas piores horas; ao Goucha, e à sua Cristininha a todas as velhas que batem palmas lá atrás, à mãe da Gisela, aos pobrezinhos e aleijadinhos; à Fátima Lopes, à tertúlia cor-de-rosa, ao Tony Carreira, à Maya e às bailarinas dessíncronas; aos compositores e cantores do "Está na Sic o Mundial"; ao futebol que esteve em todas as horas de telejornal; à Floribella; aos Morangos; à reposição do Anjo Selvagem; um especial obrigado ao génio do senhor Moniz que não me deixou aguentar ficar mais tempo na cama.
não posso passar sem mencionar um abraço do tamanho do mundo aos senhores da TV Cabo e ao seu monopólio que não me permitiram escolher outro caminho.
uma reverência sentida aos meus vizinhos, que por respeito se abstiveram de violência conjugal acesa nestas minhas horas de concentração.
beijos ao chuveiro e à torneira misturadora pelos seus estímulos com as mudanças repentinas de temperatura; bem como ao despertador que nunca liguei para me lembrar sozinha que a hora da toma dos comprimidos já tinha passado.
ao meu pai e ao senhor do estuque, pela visita que me obrigou a mexer para não me apanharem alagada e com ar de morta, um muito obrigada.
os colegas foram muito importantes nesta vitória: o pessoal das dobragens foi incansável em tirar-me da cama e os meus patrões que nem ligaram a perguntar se estava melhor.
uma referência se impõe à minha mãezinha e às suas previsões holocáusticas que me orientaram nas horas de maior aflição. nunca me esquecerei das tuas queridas palavras "isso pode ser grave, tens de ir já para o hospital".
e, last but not the least, ao querido espanta, que aguentou as minhas horas de delírio e agressões físicas durante o sono, bem como episódios seguidos de CSI, Dr. House e doses fartas de beijos e chá quente.

eu não estaria aqui, nesta maravilhosa varanda inactiva do Príncipe Real, se não fossem vocês!

[sobe a música, the crowd goes wild, standing ovation, disparo beijos emocionados em todas as direcções, a modelita e o Phillip Seymour Hoffman acompanham-me na retirada triunfal em que consigo não tropeçar no vestido]

quinta-feira, 15 de junho de 2006

espera

por motivos de spam, vejo-me obrigada a repulicar dois posts e respectivos comentários. já agora fica um apelo a quem me possa ajudar a evitar os comentários com spam nestes templates de CSS

[13.Jan.2006]

na pele ainda húmida o pijama de flanela roçava-se dengoso.
o arrepio da corrente de ar e as folhas secas de uma flor de um vaso a voarem pelo chão. migalhas de pão e pingos de mel num prato.
chupou do dedo um resto de mel e passou a língua nos lábios com lascívia. sentou-se na cama e esqueceu-se do livro. nada entre a pele e o edredon. descolou do corpo as angústias e deixou deslizar o pijama para o chão. enrolou-se e fixou a parede branca
até que o sossego lhe toldou os olhos.

office, 2 a.m.

por motivos de spam, vejo-me obrigada a repulicar dois posts e respectivos comentários. já agora fica um apelo a quem me possa ajudar a evitar os comentários com spam nestes templates de CSS

[20.Dez.2005]

no meio da nuvem de fumo ainda descortino as solas dos sapatos do patrão estacionadas ao pé do meu copo das canetas.
pilhas de papel impresso, com várias versões de "o" projecto.
a fala já vai entaramelada com o tempo e a dificuldade de construir frases eruditas aumenta à medida que o movimento dos caracóis do seu cabelo vai diminuindo, numa prostração inconsciente, decadente. do rosto de anjo papudo com a barba por fazer pende um cigarro com a cinza a meio, no canto da boca. a pança cai-lhe para cima das calças que não combinam com a camisola mas que sempre são melhor visual que os calções com uma camisola de gola alta.
já se disseram as maiores barbaridades como "longas-melodramagens" e "explorar os actores" [esta se fosse só barbaridade...] entre risota e bocejos.
ele já se levantou vezes sem conta, mudando de posição para, acho eu, ver se as antenas invisíveis apanhavam as ideias, se agitava os neurónios. começou por andar na sala. depois sentou-se, depois levantou-se e pensei que daqui a nada pega no jornal, como é costume, para ir à "casinha". voltou a sentar-se, esticou os pés para cima da secretária, levantou-se, veio para trás de mim reler apesar de ter os papéis na mão. ditou:
- os nossos parceiros poderão anuir à viabilização da expansão da panóplia de oferta cultural considerando que polegar tenho de ir à casa de banho...
pegou no jornal e saiu.
os meus dedos não encontram as teclas à primeira e o documento parece brincar com o cansaço, bloqueando, alterando a formatação... o costume.
as costas já deram o que podiam e imploram sossego, uma superfície plana e macia. a cabeça estala entre dores de abstinência de cafeína e capacidade de encaixe de frases. a pele enrosca-se no casaco à procura de mais calor e os joelhos estalam de cada vez que me levanto [enquanto o outro pensa] à procura da braseira eléctrica do aquecedor cuja luz morna parece não querer penetrar além da ganga.
a garrafa já foi à casa de banho duas vezes e aos lábios muitas outras. mesmo assim tenho a boca em textura de pergaminho egípcio.
no cinzeiro a pilha de beatas bafientas acumulou-se a pontos de entrar em combustão espontânea.
no momento antes de desligar o computador, acendo um último cigarro que sepultarei entre os outros, ouvindo o Patrão-Porthos no outro computador mandar uma gargalhada embriagada enquanto tenta brincar no photoshop com efeitos e criar um logotipo.
suspiro.
a secura dos pulmões intoxicados vem-me à boca num fel sem corpo.
os olhos pendem-me sem perdão e a mão procura em vão o rádio para me manter em estado de alerta inconsciente. desisto.
só preciso de uma cama. amanhã é aqui a bocado.
mando outra gargalhada para outro disparate e outro bocejo.
- e brush strokes?
- esse é piroso.
silêncio...
- está tão feio...

quarta-feira, 14 de junho de 2006

em banho maria

o dia que o meu corpo escolheu para ceder foi um em que o céu cedeu também. escorrem os vidros e as ruas, escorre o meu corpo nos lençóis. escorre a febre e os comprimidos, e sinto-os a lutar sem mexer um músculo. porque tudo me dói. hoje não consegui ir trabalhar. finalmente, não consegui.
como explicar...
sempre fui. sempre, com febre, rouca, com asma, com achaques.
hoje não me deixaram. o meu corpo, a febre e a garganta, quero dizer. não tive força, finalmente, para me levantar...
maldigo não ter tv cabo nem força para ir buscar os cabos e ligar o dvd na televisão do quarto.
maldigo o anjo selvagem e a belíssima. e a chuva no écrã também. é que tem "fantasma", a antena é daquelas que consegue atravessar o quarto todo. e por mais que se mexa as imagens não têm definição.
e depois de cada refeição há um aumento de cáries, e os óculos multiópticas são super fashion e os cartazes exclusivos dos D'zrt no bollycao!... como diz a Iva Pamela "chove que Deus a dá"...
nem o Rodrigo, o jornalista, me consegue embalar nas suas doces palavras escritas, demasiado complexas para este triste cérebro febril.
quebra-se o silêncio nos trovões lá fora. já fui ver, a roupa está toda no estendal. não se pode dizer que intacta, porque encharcada.
leio o que escrevi e comprova-se: estou mesmo insane hoje, ferveu-me o cérebro em banho maria...
não sei se é finalmente a alergia ao trabalho, se é apenas uma dose de cansaço acumulado que me fez quebrar como a meteorologia. olha, consegui escrever bem à primeira, meteorologia.
olha a Fátinha da Boavista ganhou 100 euros, a palavra era "vento"...
ai, que já nem sei para onde me vire. a gata parece que adivinhou, não me entra no quarto apesar de me ter esquecido da porta escancarada desde a última chávena de chá. as perpétuas roxas não estão a ajudar. nem isso, nem o propolis. afinal o grande segredo dos actores é uma grande aldrabice.
no messenger descambam as conversas para outros tapetes puxados debaixo dos pés... nada a que não esteja habituada. pois, tenho de acabar esta posta... tenho ali uma amiga a deprimir. a ver se mesmo com o neurónio ardido consigo animá-la.

e... desculpem qualquer coisinha...

quinta-feira, 8 de junho de 2006

c.i.a.*

neste escritório escorrem conversas que seriam, só elas, um blog inteiro.
diálogo entre realizador e produtor, entre dois cigarros e um telefonema:

r - sabes que a Soraia Chaves também teve aulas com o realizador lalalalala**...
p - mas quê, antes do "Crime do Padre Amaro"?
r - ah pois...
p - já estou a ver: "Vá, vamos ensaiar esta parte. É a mais importante, tens de fazer bem. Um, dois, três: despe, veste, despe, veste..."



* centro de inteligência artística
** estando eu no centro do c.i.a., não posso revelar nomes, não é?

quarta-feira, 7 de junho de 2006

a crise

o patrão, abrindo um convite daqueles com selo branco e tudo
- olha, uma conferência dia 15... se calhar vou. eles costumam ter comida...

terça-feira, 6 de junho de 2006

the producers

there comes a time in your life when you have to stand up straight and scream out loud so that everybody can hear:
"Who the hell do I have to fuck to have a chance around here?!"

The Producers | Mel Brooks | Drury Lane Theatre | Covent Garden

quando ouvi isto, soltei a gargalhada amarga que me acompanha nas ironias da vida.
agora já nem consigo rir. estou cansada.
não dou o cuzinho e três tostões, mas dou o couro e três tostões.

não conta, porra?

sexta-feira, 2 de junho de 2006

desalinho

é o vento. é o suor. os encaixes do corpo que rangem. são as serigrafias na pele, feitas de línguas e odores.
desalinha-se o cabelo, revolto, e perde a raíz. pingos grossos. chuvas de sal. rasgam a vontades em aromas de vinho tinto, um sangue que escorre sem dor. estremecem-se as células, nuvens de pano encobrem o céu. da boca, dos lábios e das linhas entrosadas como teias de aranha, tão suaves com pérolas escorregadias, tão fortes como o peso das vontades. dos sentidos. das entranhas. no ouvido, sopro. som. vibração. vibro. arrepio. arrebato. batimento. sedimento. sede. cede.

quinta-feira, 1 de junho de 2006

and all that jazz


episódios em japonês, sem revisão, porque os primeiros prazos de entrega são apertados.
o script em inglês fintou as tradutoras, que coitadas, não perceberam que se a frase era curta e o boneco continuava a abrir e fechar a boca, algo estava errado.
improvisa, dói-me a cabeça, reescreve, quero ir para casa, não cabe, tenho tanta fome, tenta outra vez, as tradutoras são loucas, e se fizer assim...

- ó polegar, tu fazes jazz com isto!

terça-feira, 30 de maio de 2006

hang on

[...] e eu acreditei. ali acreditei com todas as minhas forças que saía um raio verde e outro branco do meu coração para o universo e que a vibração das nossas vozes o encaminharia para quem necessitava dele... e que das minhas mãos saía calor que eu depunha no corpo de quem precisava tanto de chorar.

foi assim que me encontrei com uma fé. não numa grande revelação religiosa, mas mais uma vez nas pessoas. na manifestação pura e perfeita de amor, de um grupo de quase-desconhecidos, de mãos dadas, coladas, no quarto crescente, no terraço de um prédio. um amor que não cura tudo, mas que lambe as feridas e consola [...]

segunda-feira, 29 de maio de 2006

skype, encalhados e coisas assim

aqui na empresa acham o skype o máximo da modernidade. não encaixam que a base é a mesma do messenger - que também permite fazer "telefonemas" de borla e videoconferências com quem está na nossa lista...
mas pronto, dizem que é mais profissional. ter o skype ligado é profissional, ter o messenger ligado é o "lá estás tu com as tuas conversas, essa gente não te larga?"... depois quando arranjo uma resposta ou ficheiro mais rapidamente do que pesquisar na internet, ficam espantados, mas não dão o braço a torcer...
enfim...

pois que nesse meio selecto e profissional do Skype - em que a minha foto é, já de prevenção, dos meus pés - já me vieram cair ao colo (salvo seja) uns quantos matarruanos num espaço de tempo bastante reduzido. sou adicionada à lista deles e, bem que habituada ao messenger em que só nos adiciona quem nos conhece, penso "pronto, deve ser alguém que eu conheço mas agora não estou bem a ver, sou mesmo despassarada com os nomes..."
... não...
começam com o "olá", depois é o "não te importas de conversar um bocadinho", eu aviso educadamente que estou a trabalhar, e eles tudo bem, e eu - estúpida - não nego à partida uma pessoa que não conheço, e respondo à do costume "o que é que fazes" com o "sou produtora e actriz", arremessando logo com o "mas não faço morangos, não sou famosa", ao que recebo algo como "LOLOL tens um sentido de humor engraçado... gosto disso".... mau... mas isto contava para nota, stôr?
depois de mais umas coisas tipo "de onde és?" [adoro Lisboa, é tão grande], ainda observam sabiamente: "reparei que escreves acentuando todas as palavras...isso já não é 'normal', sobretudo na net..." pronto, não resisto a explicar que sou daquelas aves raras e antigas que tiveram uma boa professora da primária, gostam da sua língua materna e ainda por cima rápida a escrever no computador, pelo que as abreviaturas só as mais normaizinhas... mas engana-se quem pensava que isto encarrilava na teorização dos destinos da nova gramática, e destes jovens que já não sabem falar... isto é só um pequeno desvio na via-rápida dos "quero gaja"... daí a pouco saem-se com o óbvio "então mas como és? descreve-te".

... ai, aí fiz uma pausa... saquei de um cigarro, suspirei, fui ao meu profile e escrevi: aviso: este endereço é utilizado apenas para assuntos profissionais. encalhados por favor vão procurar uma agência de engate
do que resultou: outra janela com outro tipo a perguntar se podia "engatar-me só um bocadinho" e dois amigos a perguntar o que é que eu tinha contra os encalhados...

ora observando atentamente este tipo de abordagem, facilmente se chega à conclusão que há uma graaande diferença entre os solteiros/solitários perfeitamente respeitáveis com as suas tristezas, solidões e vontade de quem lhes aqueça os pés numa noite fria e encha o peito de suspiros e... os encalhados esfomeados com tanta sensibilidade a meter conversa como um camião tir desembestado sem travões...

moral da história: a descrição foi elucidativa do meu estado civil e permitiu que o rapaz tivesse de ir passear o cão... bloqueadinho para não me chatear mais nesta próxima encarnação...

percursos

há anos que não ia ali. o meu restaurante preferido. com paredes coloridas repletas de fotos a preto e branco, velas nas mesas, ambiente suave, jazzie e descontraído, empregados jovens e bem-dispostos e a melhor comida do mundo, num dos melhores bairros do mundo, Alfama. permiti-me uma prendinha, um brinde aos tempos apertados que aí vêm. de peito aberto, que tudo se há-de compôr e é melhor embarcar num mar agitado de mãos dadas.
a Audrey mirava-me de vários ângulos, mais ao meu saudoso brie panado com compota de framboesa. e eu sorria no calor abrasador daquela noite comprida de Sábado, temperada a vinho tinto e cumplicidades.

eis senão quando entra um grupo de gente nova, mais ou menos da minha geração. começam logo a pedir para se desligar luzes que acham que estão a mais e a perguntar se não dá para virar a ventoinha para eles.

mau...

entre conversas simples de momentos saborosos, era impossível não ouvir as outras, desse grupo, que se levantavam acima do volume simpático de quem está a curtir de facto uma refeição incrível num ambiente intimista.
primeiro gozaram com a empregada chinesinha ao pedir sal grosso [pois, queriam sal grosso para a comida, verdadeiros gourmets]. depois começaram a falar dos seus planos da viagem a Cuba. [ai que giro, que castiço poder ver lá os pobrezinhos ao longe da janela do empreendimento turístico, sabes que eles são tão desesperados que te apanham cocos por uma moedinha, é o máximo].
quando se cansaram de regozijar com os pés-descalços, atacaram a empregada da casa de um deles, que era uma incompetente a quem a mãezinha dizia tantas vezes "eu só não a despeço porque tenho pena de si", mas ela continuava a não fazer a dobra do lençol da cama como deve ser, e a mãezinha, como boa católica e samaritana, lá se apiedava dela e a mantinha ao serviço dela e da casa do filhinho, que não sabe engomar, coitadinho...

dividiram entradas, pratos principais e sobremesas por todos [assim fica mais em conta, há que poupar para a viagem], pagaram com os seus farfalhudos cartões de crédito e saíram enfiados nos seus ténis de marca e calças da moda.

não me pararam a digestão, mas permitiram-me ver aquilo em que eu me poderia, há muito tempo, ter tornado. quando os tempos eram outros e andava num colégio privado e não gostavam de mim porque eu não usava calças Chevignon e não sabia quanto é que o meu pai ganhava mais que o pai do outro e não apedrejava a colega mulata e não queria experimentar cigarros. respeitava quem me passava pela frente, divertia-me com todos [quando mo permitiam, claro!], mas não era igual. nunca consegui ser. até que me fartei de ter que ser igual para gostarem de mim.

agora serão assim, eles. tristes e pobres de espírito. elites enlatadas. sectaristas hipócritas, de risos jocosos a tudo o que é diferente de ter empregada paga pelos pais para lhes desfazer os vincos da roupa de marca, em empregos estáveis lá no cimo da cadeia alimentar, conseguidos porque "o padrinho conhece o tio que é dono de", mas que planeiam apenas viagens óbvias, lêem o que ouviram dizer que é bem, ouvem a música que deve ser trendy no momento, gostam dos filmes porque sim e comem em sítios finos sem respeito por quem lá trabalha, porque, afinal, são gente de berço e cartão de crédito, têm lugar cativo em locais que não sabem aproveitar.

saí para a noite ainda abafada com um sentimento estranho. por um lado o alívio de não me ter tornado numa destas pessoas, o que me permite abrir o coração a todas e cada uma que me cruza o caminho, absorvê-la e conhecer o verdadeiro âmago de quem o quiser partilhar. de me poder banhar e enriquecer em almas sem passear-me superior nas suas desgraças.
por outro, a angústia: estas amostras de gente vão ser os pais e mães da geração que, supostamente, devia dar o lugar no autocarro e ajudar a atravessar a rua a esta pobre ex-actriz a recibos verdes... eeek!

sexta-feira, 26 de maio de 2006

VII


o carro

[movimentos redondos. as rodas a girar. não. música? não. não é isto. sentir o chão. sim. focar. em frente. desfocar o resto. não parar. a alcatifa queima. não parar. vento, tem de haver vento. abana as mãos. e quando chegar ao fundo? logo se vê. bate lá. não avança. não pode parar. gira a cabeça, o corpo segue. recto. recto. abana as mãos. tem de haver vento]

- olá. posso falar contigo?
- olá. queres boleia?
- posso ir contigo?
- podes, anda.

[sentes o vento?]

- como te chamas.
- já não me lembro.
- onde vais?
- não sei, mas tenho de ir.

[estou a chorar, não vês? é do vento. é do vento]

- estou à procura do verde. disseram-me que era para aqui.
- o verde? já vi tantos. qual deles?
- o verde.
- já passei por ele, mas não me lembro onde.
- oh, que pena. sabes, conheci a lua.
- ai, que bom, muita companhia me faz...
- também a conheces?
- não pessoalmente, mas passo muitas horas com ela.
- tu não páras?
- não. não posso.

[dói-me. há quanto tempo estou nisto? não te vejo a cara. não vejo as caras. no entanto não fecho os olhos]

- porquê?
- porque tenho de lá chegar.
- onde?
- não sei, mas tenho.

[ali ao fundo, o sol no terraço. mas as pernas recuam, a cabeça gira e o corpo segue noutra direcção. o vento na cara. o sol fica lá atrás]

- tu tens amigos?
- não sei. mas já dei muitas boleias, encontro muita gente.
- como se chamam?
- não sei, falei com tanta gente.
- e onde estão?
- oh, isso não faço ideia. eles só vêm comigo quando precisam de boleia. depois vão à sua vida.

[não me perguntes se sou feliz. choco no espelho, apetece-me continuar em frente. cabeça roda e fixa outro ponto. as pernas seguem]

- bem, tenho de ir à procura do verde. gostei muito de falar contigo.
- eu também. boa viagem.
- boa viagem

[não sinto os dedos. não posso limpar os olhos. o sol?]

o carro simboliza avançar na direcção de uma meta. conquista e êxito. está na hora de pôr-se em marcha e deixar de vacilar. indica que existe um caminho e que tem de avançar com confiança, calma e segurança, apesar das dificuldades que apareçam [...]

segunda-feira, 22 de maio de 2006

soluço


porto | 2006

... ou "o meu corpo tem a forma do teu abraço"

casas antigas...



... álbuns vivos de infância. em que os recortes nos servem para pousar a cabeça.