quarta-feira, 28 de fevereiro de 2007

em cadeia

eya! já não me mandavam uma destas há que tempos... obrigada, raio de sol :)

sete coisas que faço bem:
(não entrando nas poucas-vergonhas)
1. bolos e massas
2. conduzir (sim, sou gaja mas conduzo bem :P)
3. conversar/ouvir
4. dormir horas a fio
5. rir feita parva
6. estrebuchar e logo a seguir passar-me
7. representar

sete coisas que não posso/não sei fazer:
1. aturar gente demasiado umbilical
2. dizer não (esta já vinha de origem e aplica-se, especialmente no acto de deixar de ser parva e esquecer o teatro)
3. controlar a minha bocarra
4. escolher o jantar
5. não transformar dinheiro em prendas e mimos, se recebo algum extra
6. resistir a sapatos ou a casacos (certa e determinada pessoa diz que devia aderir aos casacos-e-sapatos-anónimos: "olá, sou a polegar e não namoro um casaco há 3 horas")
7. estrebuchar no trânsito com o mais suburbano português

sete coisas que digo:
1. raisparta (também tu?!)
2. eya!
3. yellow (a atender o telefone ou no msn - coisa pegajosa do espanta)
4. assim em bom...
5. pelo amor da santa!
6. poucas-vergonhas
7. e eu tudo bem! (em agudo)

sete coisas que me atraem no sexo oposto:
1. um sorriso franco e bonito
2. vontade de partir à aventura
3. pescoço e linha dos ombros viris
4. pele às pintas ;)
5. sinceridade
6. inteligência e vontade de não morrer estúpido
7. muito sentido de humor e tendência para a parvoíce

sete pessoas para serem celebridades:
1. eu... desculpem a falta de chá, mas estou farta de falsas modéstias e trabalho deitado à rua
2. o espanta, que também já convinha ser lançado no estrelato como grande fotógrafo que é
3. o Jota, o melhor actor que conheço e o mundo ainda desconhece
4. a colher de chá, outra grande actriz
5. o Guinho, também actor
6. o MPR - ainda por confirmar, mas cheira-me...
7. assim de repente... a minha "mai nova", que tão piquenita já escreve tão bem...
8. o meu pai. devia [citando e bem a minha irmã] ser consultado para quaisquer decisões políticas deste país. e é tão charmoso... ;))

sete pessoas a quem quero passar esta brincadeira:
1. espanta-espíritos
2. MPR
3. colher de chá
4. pinky
5. mary mary
6. LFM
7. wicahpi
e mais quem lhe apetecer roubar... é só avisar para eu ir lá cuscar :)

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2007

desencaixes

questiono-me a capacidade de encaixe. quando a transparência toma conta de mim, surpreende-me a velocidade com que me conformo com a minha invisibilidade. houve um tempo em que me era essencial tatuar o coração dos outros. parecia que respirava melhor. hoje já só sobram disso esquiços, poucos, de tinta debotada e braços caídos.

subo as escadas, linguagem corporal de quem já sabe o que está ali, para onde vai, onde vai dar a porta fechada. nariz no ar para cheirar as recordações. sim, ó tu de cabelo no ar, conheço-te. e tu também me conhecias. esqueceste já as picardias sorridas nas tardes mornas e as mãos que te enfeitaram o bar com velas e percussões e poesias. talvez os olhos estejam assim tão diferentes. tu és dos tempos em que a esperança era perfeita. em que qualquer desafio era vencível. e tudo era um deslumbre e um caminho de pedras polidas. se calhar por isso não te lembras de mim. era a miúda de cara estragada da adolescência, de calças de ganga, passos incertos, sorriso de leste a oeste com a vida. tinha os dedos rasgados de cortes de papel, dos primeiros mailings, e o nariz farejante do pó denso dos bastidores e da antiga alcatifa que já não está lá - aquela que me deixou marcas de queimaduras de alegria. agora tenho franja e um pouco de peso a menos. deve ser isso. mas eu sei-te tanto que sem pestanejar pedi uma das tuas tostas. sim, com tomate e orégãos.
e com um meio sorriso percorro à distância o varandim onde fazia rir o bebé de olhos de safira. já deve estar enorme. a mãe dele também se cruza comigo, tantas vezes, e nunca me reviu, apesar da simpatia pronta com que brinda um qualquer um.
e a mãe dela, essa outra, varreu-me um par de vezes do lado de lá, de cima do palco, fixando-me como quem me procura em ficheiros há demasiado tempo arquivados. se a cabeça já lhe dava para pouco, agora... como me encontraria na bilheteira horas infindas, a martelar bilhetes de dedos sujos de tinta carimbo, ou a vadiar pelos palcos enquanto não começávamos? como me reencontraria naquele vestido preto e luvas compridas que me passaram para a mão sem apelo nem agravo?

já no fim, outro fantasma que perdura pergunta-me o que quero beber. não há café.
- eu conheço-te, não te conheço? surpreende-me a surpresa de me reconhecerem.
- sim, eu já trabalhei aqui. e ficaste tu e saí eu porque tu cantavas.
- ah, do tempo da B., não era? sim, desse tempo antes do teu, os meus primeiros passos de bebé livre foram ali em baixo, sala um.
- pois. há muito, muito tempo. o tempo em que a minha vida era preenchida com sopros de alegria e tudo se fazia com um lençol, e eu pertencia, e eu fazia, e eu era quem queria ser.
- mas também já te vi numa peça com o P. e a S., não já? já, já, noutra casa que me arrancou a ferros aquela que eu devia ser.
- sim, sim.
- desculpa não te ter reconhecido logo.
- não há problema, é normalíssimo. ainda têm capilé?

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2007

não leves a mal



andam por aí. festejos pingados, com fitas e papéis sujos, meio desfeitos calcados na calçada. as cores andam pela rua, pardacentas de pés com sapatilhas e poucas horas de sol. lembrei-me. sem querer, porque pensava que já tinha apagado essas linhas. lembrei-me. desse rosto encardido, de cores destroçadas, do fim do dia. que eu gostava de ver derreter às minhas mãos, ao chamamento do meu resfolegar. dos pequenos gemidos tremidos que te saíam das pálpebras e da boca fechada. gostava particularmente da hora da lágrima. o momento alto do sexo, ultrapassando mesmo o instante fremente em que finalmente a minha carne rasgava a tua e éramos um. era meu, por excelência, aquele momento em que logo a seguir ao teu orgasmo caías. o teu corpo ainda em estremecimento e já outros fantasmas te abandonavam. e continuavas a cair até desfazeres o rímel em lágrimas pretas, em borrões que pareciam aranhas gravadas em torno dos teus olhos a tinta fresca. sulcos escurecidos, ainda hoje não sei se da tristeza ou só das pinturas, deslizavam-te por essa pele tão lisa. e eu podia jurar que via. a tua respiração em arabescos de neon, os soluços como argolas de fumo da lagarta no cogumelo. as palavras segredadas pequenos comboios de lata. sem qualquer componente químico a invadir o meu cérebro, apenas a adoração que te tinha. as cores explodiam em ti, deslizavam no ar e pousavam-me na pele ainda arquejante, que as absorvia com um arrepio. e depois o negrume. do teu cabelo lustroso no meu peito. até ao dia em que ao acordar tinhas desaparecido.

hoje recordo-te. ninguém nota como isso me arranha desgostos pequenos nos parêntesis do canto dos lábios. pintarei aranhas nos olhos e rasgarei tinta preta pelo rosto. desenharei um sorriso nos lábios. e sairei para esta festa decrépita à tua procura.

indigo nocturno

havia uma redoma feita de tecido. nos destroços da minha pele quebrada reinventavas suspiros às escondidas. ali tudo se descobria. ali estávamos nus. a luz era filtrada e projectava graffitis azuis nos corpos cerzidos. éramos nus tatuados. escondidos. rezando sem deus específico para que a luz não apagasse os desenhos no suor. essa era a hora de sair. então sopravas e eu soprava de novo. podia ser que de tanto soprar as horas se mantivessem suspensas. e depois abocanhávamos os ponteiros com soluços desconsolados. fechávamos as portas e sabíamos que ali tudo ficaria parado à nossa espera. sarcasticamente o pó suspendia a sua viagem até que retornássemos e ele voltasse a passear-se lentamente, contando-nos os segundos das nossas fugas.
depois rasgámos a redoma. e no lugar das lágrimas montámos um altar onde a luz penetra num azul escuro de noite sem estrelas que não as dos olhos. forrado a cores sem tino. na lateral, dormem relógios de corda. há um vago cheiro de eternidade.

domingo, 18 de fevereiro de 2007

who's your momma now?



pois que ninguém manda em mim. ninguém me obriga a ter um template de que não gosto. e o meu refinado apreço pela estética [cof cof] não calará ninguém!
bati às portas todas, fui a fóruns de bloggers [uma experiência demoníaca, cruzes! eles falam uma língua própria e tudo], mandei mails, pedi ajuda às mais altas instâncias e a outros bloggers que tinham ar de cromos. falei com amigos que têm o mesmo template e que também não sabiam o que fazer.
sem respostas, acabei por conformar-me.
fiquei sozinha, com a minha teimosia. e com um marido zen, culto e extremoso... e a gata a quem dar uns pontapés de frustração de vez em quando.
com as minhas pesquisas e o pouco tempo que tínhamos livre no fim de semana, queimámos as pestanas para o Polegadas não perder a sua imagem de marca.
obviamente que tem algumas pequenas diferenças - no novo blogger ou se domina o html na perfeição, ou se só se sabia fazer umas maroscas fica-se completamente preso. mas faz-se o que se pode... a evolução ao longo da noite está patente na imagem acima, nos comentários do blog de teste que criámos... desculpem-me o francês, mas estava fora de mim, alojada no meu "eu" mais taxista...

o que importa é que já podemos todos conversar e a essência deste estaminé não ficou afectada [ou melhor a sua essência é afectada de nascença... sou eu ;)]

com um pouco de calma, aos poucos, voltará ao que era...
e vocês, os poucos sobreviventes que ainda seguem A Palavra d'Este Blog, podem voltar... mas voltem de mansinho que eu agora vou dormir, sim?

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2007

evangelização

devido a ter sido forçada a converter o meu blog ao novo blogger, este estaminé está com problemas de pluralidade. parece uma coisa de igreja... ou do demo...

quero eu dizer que parece haver um conflito entre o meu template e o novo blogger que impede os meus caros visitantes de inserirem comentários. [se bem que este template foi "adquirido" na blogger templates...]

estou a bater o pé. já pus um raspanete e um pedido de ajuda no fórum destes tansos e tudo.
não quero mudar o meu template, a não ser em último recurso. e não tenho conhecimentos de html ou de css para construir um igual de raiz.

por isso mesmo suplico a todos paciência. garanto que se não me for dada nenhuma solução até ao fim desta semana, lá terei de fazer o que não quero. por vós, caros leitores d'A Palavra deste Blog...

terça-feira, 13 de fevereiro de 2007

ao que sabes?




exposição de fotografia pin-hole . o beijo
do nosso [e muito meu] querido espanta-espíritos
no restaurante alfândega, ao campo das cebolas
a partir de 14 de fevereiro.

os beijos, os "quases". onde é que a nossa realidade acaba? onde começa a fantasia que inspirámos? porque nos reconhecemos na película?
os protagonistas são quem quisermos que seja. somos nós.

o método é do passado. a paixão é eterna.
a vida é uma caixa de chocolates, dizia o outro.
não podia estar mais de acordo. também é com uma caixa de chocolates que se tiram fotografias... ou melhor, que alguns loucos apaixonados fazem fotografias...

aqui as palavras são secundárias. a primazia é ao olhar, ao olfacto, ao sabor, à memória, à surpresa das coisas simples.

e, a isto, chama-se concretizar ;)

um grande obrigada aos amigos - que nos encontram, nos abrem portas e nos fecham nos armários quando é preciso :)

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2007

intervalo para política

Yeyyyyyyyy!

ps: a quem foi votar, obrigada.
a quem não se quis dar ao trabalho: agora não se queixem.
à Laurinda Alves e quejandos moralistas-a-quem-eu-furava-os-preservativos- tirava-a-empregada-e-punha-a-lavar-escadas: tomaaaaaa!!!


a emissão retomará o seu curso normal dentro de momentos...

terça-feira, 6 de fevereiro de 2007

uma receita de recibos verdes

base:
:: várias horas de espectáculo diárias num Monumento muito frio, para crianças irrequietas e com colegas de trabalho com estranhas mudanças de humor
usar e abusar para manter o ritmo cardíaco acima da linha recta.

:: voltar a correr para o escritório para mais umas horas de trabalho em frente ao computador e agarrada aos telefones, com súbitas mudanças de ritmo. uma pitada de "já agora faz vinte quilómetros ao fim de semana porque é preciso controlar a bilheteira por 5 minutos" e quejandas tarefas.

:: pagamentos dentro do "só não morres à fome porque comes pouco".
levar à vidinha durante dois anos-vai-para-três até atingir a estagnação, o desgaste e a quasi-morte cerebral.

::uma gata carente de aquecedores que, por isso, larga pelo a duplicar - ergo asma, ergo sono interrompido.


condimentar com:
:: uma exposição - um projecto de vida - que arrasta para horas tardias, fins de semana sem dormir, muito vinho tinto, mimo de que aparece para dar uma mão e... uma boa dose de olheiras

:: o lançamento do livro de um bom amigo em que ele pede explicitamente que eu participe


para um efeito explosivo acrescente-se:
:: um telefonema que informa: "estamos a contar contigo para mais 51 episódios de let's and go, fazeres as dobragens e revisão de textos, se bem que desta vez precisamos de entregar 7 por semana."


nota: bater à mão e levar ao micro-ondas, porque isto não é receita para quem tem bimby...

quarta-feira, 31 de janeiro de 2007

cartas de amor . procuram-se

das antigas, daquelas de autores portugueses às suas amadas [ou de autores portugueses aos amados, ou delas para eles, ou delas para elas, não sou esquisita], onde escreviam os seus dedos e não os dedos dos fantasmas das suas personagens. daquelas que eram caneta e lápis e papel e mata-borrão. das que eram saliva e selos e tinta manchada de sal.

ando em pesquisas e falta-me o tempo, sempre o tempo.
fica o apelo. sirvam-se de mail e comentários a gosto.

como recompensa, há-de pensar-se em qualquer coisinha.

muito agradecida.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2007

frios

é acordar um dia com a parangona da TVI: "Portugal a bater o dente!" e ao domingo de manhã com uma mensagem da irmã a dizer "está a nevar!" - note-se a semelhança de pontuação entre uma irmã entusiasmada e um telejornal nacional.

aliás, quando lançaram o alerta laranja, esqueceram-se de mencionar um pequeno apartamento às cores ali para os lados do subúrbio lisboeta...

os dias fazem-se de várias camadas de roupa [hoje é uma long sleeve e 3 camisolas], de parecer um repolho farfalhudo com pernas, de abdicar de algum bom gosto no vestir em prol de ter o mínimo de arrepios possível. são lábios brilhantes de baton de cieiro, salas abafadas de fumo porque abrir uma janela é suicídio. é o ataque de asma porque está frio e depois o ataque de asma porque o novo aquecedor-ventilador queima o ar. são, portanto, pesadas bilhas cremes escada acima porque a Galp se esqueceu de preparar as novas Plumas-das-pernas-boas para os aquecedores a gás antigos.

é também a noite de bastidores e saudades, a tarde de sábado a livros, conversas adiadas, chá de limão e gengibre. são as noites de Dr. House a café e pão quente com manteiga - sim, novo investimento: uma máquina de pão baratinha mas que faz um pão maravilhoso e [diz que sim] massa fresca e doce e pizzas.

estes dias fazem-se de meias e mantas e edredons em camadas, pijamas e casacos de polar, no eterno sofrimento por antecipação do momento em que vou ter - maldição de corpo pequenino, bexiga pequenina - de me levantar da cama de madrugada e atravessar o hall gelado...

o inverno tem coisas tão bonitas... mas já me cansa, confesso. só sonho com poder voltar a tomar o meu café e ler o livro no jardim do Príncipe Real, à hora de almoço...

terça-feira, 23 de janeiro de 2007

oioai-ai

costumo dizer que o mundo do espectáculo é um penico. mais um exemplo:
um jantar de - espera-se - trabalho é o mote para uma noite que se prolonga porque, afinal, a companhia é tão agradável que não apetece ir já embora.
pessoas que entram, passam, sentam-se, bebem um copo e voltam a sair ou ocupam de vez mais um lugar arranjado à pressa. aquele lugar é como mala de mulher. é como coração de mãe: cabe sempre mais alguém...

conversas cruzadas com gente estranha e, de repente, um casal discreto - e até ao momento apenas semi-descontraído - perde a pose.
eu - tu??? és o vocalista???
vb - s... sou...
ee - epá, parabéns, pá, adoro esse single.
eu - o Fred! o Fred trabalhou comigo nas dobragens!
vb - fixe, gostaste? ah sim, conhece-lo?
eu - quem é que não conhece o Fred... está metido em trezentas coisas ao mesmo tempo.
vb - é verdade eheh...
ee - deviam começar a fazer uma lista das bandas em que o fred não entra...
[gargalhada]
ee - epá, eu não gosto de músicas românticas, mas se ouço esta passo o dia a cantá-la.
eu - verdade, este homem é um filtro de lamechices!
vb - fico tão contente...
eu - mas agora a sério, muitos parabéns. passo horas no myspace para vos ouvir.
vb - obrigado, muito obrigado. nunca pensei que já desse nas vistas.
eu - então não? fica no ouvido.
eu e ee [em muito desafinado mas com coreografia de cabecinha] - amo-te mais palavras que um livro, amo-te muito mais noites que o verão...
vb [não consegue conter o riso] - sabem que o cd sai para a semana?
ee - ah sim? vamos estar atentos.
eu - precisas de fotógrafo para a banda?
ee [piadola] - epá, arranja-me uma cópia!
[outra gargalhada]
vb - olha, assim como assim... nós ganhamos tão pouco com os cds que mais vale copiares...
[gargalhada #3]
eu - ná, da nossa parte vais ter direito aos teus 50 cêntimos...
vb - mas que história era aquela do fotógrafo...?

já podem contar com os 50 cêntimos cá da malta :) parabéns.


eu . esta vossa polegar
ee . espanta espíritos
vb . vocalista da banda

quarta-feira, 17 de janeiro de 2007

diários da perna de pau #5 . o princípio do fim



hoje é o princípio do fim. o grosso do nosso trabalho termina aqui. começa agora a verdadeira comunicação. a parte visível.

não é um espectáculo fácil. tem, para mim, como mais-valia, um cenário chamativo, música forte, texto denso e interpretações com momentos muito bons. criticar, estando cá dentro, é muito fácil. desculpar também. tenho as minhas considerações, mas neste caso específico não quero ser tida nem achada "publicamente", porque pecaria. por excesso ou por defeito.
acho que lhe chamaram ética profissional, eu chamo-lhe simplesmente bom senso.

lembro-me do primeiro "ditado melódico" do patrão-encenador, que converti em projecto. lembro-me de tudo o que foi calcorreado, telefonado, enviado, recebido, reunido, viajado, investigado. as pessoas, tantas pessoas, tantos braços e gritos e chatices, sorrisos e motivações, injustiças e preocupações. tanta unha roída, tanta auto-estrada. sorriso.
o papel e as palavras foram, em grande percentagem, o meu pedaço neste todo.
hoje sou peça de engrenagem ainda com a vibração do caminho no corpo, a sentar-se e a tentar descontrair a pele de encontro ao veludo da cadeira. a ver o resultado final de que eu sou película transparente, forro de gaveta.

este é, de facto, o primeiro espectáculo que produzo desde o imaginado ao acontecido, sem pôr os pés nas tábuas. dói, confesso. já é estranha mas constante companhia essa dor. já nem sempre dou por ela. ah, estás aí...

hoje estou nervosa. por colegas meus, do meu coração, que estarão ali em cima, de alma aberta naquele reino dos pós mágicos e borboletas [eles são muito machos, mas que se lixe] que eu conheço tão bem e de que tenho tantas saudades. pelo "meu" encenador, por quem cresceu ao longo deste tempo um carinho para além da admiração profissional. pelo sucesso deste filho mal parido, tão sofrido, que gostava - apesar de todas as condicionantes naturais - que fosse abraçado pelo máximo de público possível.

já não está nas minhas mãos. este não.

entre os dedos conservo apenas uma surpresinha [em palavras e imagens, que mais?] para os meus queridos companheiros de tábuas, com os devidos desejos d'A Bênção d'A Enorme Bosta Fumegante...

segunda-feira, 15 de janeiro de 2007

d'O Método

fui ver um ensaio, daqueles tipo treino à porta fechada mas para gente da arte. subiu-me até certo ponto a expectativa porque eram pesos pesados a trabalhar, com um peso pesado a dirigir, com uma técnica supostamente peso pesado.

foi pesado de digerir. não no sentido de um texto forte com interpretações marcantes e encenação de choque. foi pesado de digerir como aqueles almoços de cozido à portuguesa desenxabido que nem sabem bem e ficam a trabalhar no estômago o dia todo. foi pesado de digerir porque foi... uma seca. compriiido, com má encenação, atabalhoada e com cortes injustificados longuíssimos, actores em overacting constantemente, sem um estudo dramatúrgico do texto feito como deve ser, que se notava nas variações de personalidade completamente desenquadradas... uma contra-regra que fazia trabalho desnecessário se os actores se dessem ao sacrifício de mexer uma cadeira e trazerem na mão os adereços, um texto que podia ser forte se não fosse tudo o resto ser mau ao ponto de nos desviarmos do elemento principal [a história, sim, a história, bolas!]... podia continuar com críticas até ao inferno congelar...

adiante. intervalo. [a reacção foi mais "intervalo?! não acabou?! dasss!"] fuma-se um cigarro e aparecem colegas de amigos. ouvem-me comentar e arrebitam a orelha. ia eu na parte de "mas o actor está com uns tiques de homossexual que não se percebem, não encaixa, pá". [um àparte para contextualizar e não parecer que sou homofóbica: ele há homens homossexuais em que se notam os tiques efeminados e outros em que não se nota. é um facto, pronto.] ora o moço mais arrebitado padecia, sem qualquer dúvida, dos mesmos tiques. interveio:
- desculpa, não percebi.
[devia estar à espera que eu me encolhesse, mas eu e a minha bocarra]
- os tiques efeminados do actor não encaixam na personagem. tudo bem que um tipo com este background pode ter problemas sexuais mal resolvidos, mas o homem está em overacting e ali não bate certo.
- não deves ter percebido bem o contexto da criação da personagem. conheces O Método?
[com maiúsculas. claro]
- conheço, obviamente. sou actriz...[interrompeu-me no "vai para 9 anos"]
- é que eu sou aluno dele há 3 anos e claro que ele, como todo o elenco, estão a utilizar O Método para a concepção das personagens e se calhar não percebeste isso.
- eu não tenho que perceber que raio de ferramentas ou técnicas - de renome ou não - eles utilizam para fazer a peça. a técnica, como o actor tem de ser fluída, transparente. só tenho de ver ali a história e a personagem.
o moço lá continuou na sua babada análise d'O Método, e chocou-me a sua incapacidade de ter um juízo crítico para com a peça e muito menos para com o seu mentor. eu ignorei, sorri e acabei por, para não me chatear com estranhos, falar do "opiniões diferentes é que é giro, a arte é mesmo assim".

como explicar? para mim, e para muita gente que não tem de ser formada - chama-se público -, o método - seja ele qual for - é um meio e não um fim. é uma forma/fórmula que se usa para se conseguir contar a história. não é ele em si que vou ver numa peça. para isso tenho aulas. aí sim, cabem os exercícios e as perdas de controle descontextualizadas.

recorrer-se a uma bagagem emocional, a situações e emoções próprias para utilizar em determinado momento para a personagem? check. o que/quando/como se usa é com o actor.

o que se vê? uma interpretação extraordinária, consistente, forte, contextualizada.
o que não quero saber: se fez respirações e "mhmmmms", se imaginou uma luz verde a entrar-lhe no peito, ou se se vizualizou com um ataque de hemorróidas e o respectivo cocózinho encravado para chegar ao momento de sofrimento e lágrimas.

seitas? facciosismos? falta de critérios? get a grip.
Palavra d'O Método
graças a Stanislavski.

adenda: esta situação passou-se num ensaio que não do espectáculo que estou a produzir...

sexta-feira, 12 de janeiro de 2007

meada

acorda. a despedida do calor da pele. o frio a vestir. voar às costas de um anjo. frio que corta. espera e café de saco. carrinha. o meu tamanho não carrega plasmas de 44 polegadas. o caminho é por aqui. música do mundo. falta um dvd. pequeno almoço com guia. folhear o Y, "olha tu!". regresso com sotaques. "sou o único que nunca teve um acidente com a carrinha". manobra perigosa, desvia, acidente. pára que pára pára na calçada. triângulo. esperar e praguejar. arrancar o pedaço de plástico. regresso à base, telefones malditos. "venho pela presente informar V. Exa.". o spot de rádio ainda não saiu. os plasmas não são assim. os convites estão a esgotar. "solicitamos o envio de um fax de confirmação até à data limite". a tua mãe já reservou? sim, sim, é ao estilo teatro de rua. não te estou a falar desse, do outro. falta um logo. muda o lettering. afinal tenho de te dar mais um parágrafo. pára. almoço, dividir a dose. cheira a fumo, está calor, tenho frio. fecha a janela. abre a janela, não vês que estou na menopausa. mas quantas vezes tenho de dizer que isto é co-produção? a Sephora já respondeu? falta assinarem as declarações. mas onde é que eles estão? já reservaste os teus bilhetes? mas como não viste o convite? desde quando é que temos limite para a estreia?! já tem música! és um génio. sim, logo às 21h. "detesto ir para o chiado sozinha". quando é que estreia? mas não recebeste o convite? sms. já temos o orçamento? o champagne. etiquetas, faz-me umas etiquetas. mas porque é que estas crianças não se calam, não páram quietas? vou lá calar os estupores. tens o contacto? água. mas vê o mail outra vez. laura, já te disse que não se entra assim no escritório dos senhores, larga a bolacha, desculpe lá, sim, pede desculpa às senhoras. descansa agora que os últimos 3 dias são de morte. eu sei, eu sei. bom fim de semana ainda ficas, eu fico.
pára.
o romeu fala comigo. soa a carros no trânsito.

atentamente,

quarta-feira, 10 de janeiro de 2007

diários da perna de pau #4


clic para aumentar
ph.t. ms | txt polegar


palavras e fotos.
há histórias incontadas por detrás de um produto final.
poucos saberão, no fim de contas, o que foi dito. o que foi realmente dito e apontado num caderno velho, com letra apressada, depois de dias a implorar uma hora de atenção para cumprir prazos. de tópicos trôpegos de um génio, ao "pesquisa tu que eu não tenho tempo", como se chega a 28 páginas de simples papel?

poucos, porventura, terão acesso a uma imagem que teve de ser - para tristeza geral - retirada. os motivos são compreensíveis, claro [por uma vez?]. outras imagens igualmente geniais perdurarão, chegarão a ser folheadas, apreciadas, disfrutadas. para meu orgulho, com os devidos créditos em letras garrafais.

esta é a página perdida. de histórias que ficarão por contar. do equilíbrio ténue entre vitórias agarradas com unhas e dentes e sabores amargos de letras que faltam. de um trabalho de equipa que, como sempre, como em tudo, funciona como poucos. é, de facto, uma questão de sintonia.

segunda-feira, 8 de janeiro de 2007

cosmética

temos de encontrar aquele que nos hidrate as asperezas da vida. camufle as preocupações. e tonifique os desânimos.

de outras equipagens

uma manhã, cheia de nervos de segundo dia para dois actores. dia normal para os outros, sem descréditos nem diferenças. maquilhagem, roupas, frio e cigarros. o rádio só apanha a RCP e isso são risos e playbacks acrescidos.
na torre, no camarim, recebo um telefonema esbaforido da assistente de produção: um dos alunos que vem hoje está numa cadeira de rodas e os professores não tinham avisado. e agora, e agora? faltam 10 minutos para começar. o espectáculo decorre nos claustros superiores, não há elevadores. ainda penso depressa: vamos passar o cenário e charriot com roupa para o claustro de baixo. ainda me surpreendem os outros: sem queixas, sem resmunguices, todos acorrem, todos trabalham, todos carregam. telefonema para as altas entidades que de sentadas à secretária são demasiado burocráticas e não suportam ondas: temos de agir depressa, temos de ter autorização para ocupar os claustros do piso térreo. primeiro um não que gela o sangue, depois o sim. para dar tempo para alguns se vestirem, pede-se a um dos actores que já lá estava do ano passado para fazer uma pequena visita guiada. ele, que detesta fazer visitas guiadas, só perguntou de que falava: fala da fonte, das marcas na parede. coisa rápida só para as transições.

a adrenalina não deu tempo para considerações. só depois. todos, os lentos, os implicantes. os que no ano passado só arranjavam problemas, e os novos, que vieram este ano e não sabem que chão pisam. todos agiram sem pensar, sem umbilicalismos. eu ainda soluciono. ainda mobilizo. e no teatro, em alguns sítios recônditos, ainda há espírito de equipa. deo gratias.

sexta-feira, 29 de dezembro de 2006

terra queimada

sempre me fascinou o teu cheiro a lenha queimada. olhando-te à primeira impressão dir-se-ia que a tua pele branca de princesa cheiraria a algo como maçãs acabadas de cortar ou loção de bebé. mas tu nunca gostaste de regras nem de preconceitos. sempre fizeste questão de os quebrar. até a tua pele tem essa atitude. cheiras a queimado, a escuro, quando muito a brasas e cinza. e o teu cheiro entregou-te. não me apercebi ao início, quando apenas me sentia confortado. quando o teu lado negro me seduzia em noites agrestes e violentas. quando o jocoso e o irónico, o amargo e o irreverente me envolviam em abraços tão apertados que sentia os espinhos cravados e saboreava o sangue das nossas gargalhadas. mas agora tenho medo. das tuas chicotadas e da minha reacção. já não me satisfazem as nossas noites em que és rainha e esperas que te sirva. e os nossos dias em que violentas os meus pensamentos como se eu não fizesse nada como deve ser. na cama como na vida. sufoca-me a tua política de terra queimada, com que devastas os nossos lençóis e as minhas vontades. com que me humilhas ao sol e esperas às escuras. agora a tua pele incomoda-me. de tão fria, corta. de tão branca, fere. tu feres. não sabes fazer mais nada senão ferir. ficarás aí, dona e senhora das tuas dores. porque as que me inflingiste não são tuas para viveres. deixo-te com os teus troncos secos. deixo-te nessa supremacia de árvore torta, morta, torpe. de pé. altiva, sem mel. hoje dar-me-ei uma prenda de natal. vou-me embora. vou procurar a calma dos silêncios. onde a tua voz não me alcance com as suas navalhadas musicais. vou procurar terra fértil e quente. vou procurar uma trepadeira que me enrole, que me envolva, que me precise. que me pontilhe de flores na primavera. que implore um abraço quente no inverno.
porque agora abraças-me e tenho frio.

sexta-feira, 22 de dezembro de 2006

por detras dos montes



criação: Teatro Meridional
concepção | direcção cénica: Miguel Seabra
interpretação: Carla Galvão, Carla Maciel, Fernando Mota, Mónica Garnel, Pedro Gil, Pedro Martinez, Romeu Costa
no Teatro Meridional até 23 de Dezembro
4ª a Sexta às 22:00, Sábado às 17:00 e 22:00
Rua do Açúcar | Poço do Bispo
reservas: 218 689 245


o ar é frio e corta. na zona de armazéns estranhos para os lados do Beato, o grupo do Teatro Meridional já tem a sua casinha pronta. um edifício industrial todo recuperado, em tijolo vermelho. lá dentro, um tecto alto de traves pintadas, decoração simples onde apetece estar. bonito, acolhedor, com bom gosto. velas e aquecedores a gás [bom investimento], café de saco à discrição em self-service. o sorriso do rapaz da bilheteira também aquece. o programa é de borla e oferecem um livrinho com turismo de habitação da região de Trás-os-Montes. dá para ir lendo e fumar um cigarro, encontrar casinhas bonitas com preços apetecíveis. já começou a viagem e nem nos demos conta.
depois, entra-se na sala pequena de palco raso, muito fria. mas não faz mal. estamos em Trás-os-Montes. e começa. com sons, numa penumbra onde se recorta apenas o que nos deixam ver, em azuis e laranjas. sons de instrumentos estranhos, tocados à nossa frente. depois as vozes. e depois o turbilhão de pessoas, de transmontanos.
sem "deixas", sem texto, sem "dramaturgia"... muito trabalho de corpo e uma concentração notável digna do momento fantástico que supostamente acontece apenas uma vez em que um improviso sai genial. aqui não há improvisos. há uma contradança milimetricamente marcada, o som conjugado com cada movimento. há coreografias de maneirismos, de expressões, de cacofonias, de cantares, de objectos que são músicas. há fantoches que são pessoas e pessoas que são fantoches. há o sotaque assobiado e as canções que arrepiam. há as velhinhas. há os pastores. há os passos que não fazem barulho e que assim é que fazem sentido. há ilusionismo feito com os corpos e com os rostos e com figurinos que, a par dos objectos e do som e daquelas pessoas, nos levam no espaço e no tempo. sentimos o toque dos xistos, das madeiras, dos artefactos, dos fios tecidos à nossa frente, o crepitar de uma lareira que nunca vimos nas bochechas. invade-nos. em silêncios e sons compassados. em respirações e traços desenhados com o pincel do instinto, com a tinta das entranhas.
são sessenta e cinco minutos sensoriais, em que vemos, ouvimos, sentimos nitidamente retalhos. poesias visuais. recortes de vidas que este grupo - na verdadeira acepção da palavra - por lá absorveu e para cá veio tecer.
assim sim, vale a pena ver uma companhia subsidiada.

estão nas últimas representações mas merecem, ou nós merecemos, uma alteração nas agendas e nas compras para nos embriagarmos com estes licores de raízes e gestos.