é apenas uma hora, se formos a ver bem as coisas. apenas uma hora de cada vez. duas horas, nos dias em que são duas doses. duas doses de espectáculo para, provavelmente, o mais estranho dos públicos: adolescentes. hormonas aos saltos, buços, bigodes, pelos públicos, massas adiposas e borbulhas a florescer. meninos ricos, putos de bairro, patos-bravos. do norte, do sul, do interior, do litoral. com professores que fazem ainda menos ideia do comportamento a ter durante um espectáculo do que os alunos. professores sem qualquer rédea sobre os putos. meninos bem-postos de farda, de risos tímidos atrás das gravatas. putos de calças descaídas que fazem rap enquanto cantamos. miúdos de aldeia que não percebem a noção de "está a acontecer um espectáculo, não se pode fazer perguntas aos actores se eles estão em cena". miúdos atentos que murmuram o nosso texto de uma forma assustadoramente metódica. silêncios contidos que explodem em gargalhadas e em aplausos. outros que não se guardam e extravasam demolidoramente, devorando-nos as cordas vocais. só reconhecem gente da televisão, só comparam este e aquele com os morangos. aqueles cintos brilhantes, as roupas femininas demasiado curtas justas, mascam pastilhas de boca aberta, alguns não se coíbem de mandar bocas e chamar nomes a quem está ali a trabalhar para eles.
os piores de todos foram, sem dúvida, na quinta-feira. não havia ninguém que os calasse. não havia maneira de os fazer acalmar. nem falar baixo a ver se tentavam ouvir, nem falar por cima das vozes que se levantavam. não havia garganta que o conseguisse. a peça era unicamente um campo de batalha, em que em tempo real eram comentadas as atitudes dos personagens em voz alta, em que se metiam com os actores. até preservativos voaram. não pararam de gritar enquanto a Brísida não aceitou um papel de uma discoteca.
o corpo colapsou a caminho da torre, a cabeça zunia, a roupa enrolada nos braços. a partir daí, a vida passava-me pelos olhos como quem vê um filme em câmara lenta. já não daria mais uma para a caixa até dormir. e só a distância desse facto me pesava ainda mais nas pálpebras.
saio. pernas trôpegas, a tentar receber um bocadinho de sol na cara e pensar positivo no caminho de regresso ao escritório. à porta do Mosteiro, reparo numa galhofa. uma série de miúdos a rir desalmadamente e o que parecia ser um professor divertidíssimo a tirar fotografias. sigo o ângulo da lente e os olhares sorridentes. à porta da igreja, estão sempre um ou dois pedintes. naquele momento estava um. penso que era o velhote sem pernas. não tive tempo para reparar. porque sentado ao lado dele, um miúdo bem vestido com cerca de 10 anos estendia a mão em concha aos turistas e ria-se para o professor e para os coleguinhas, mandando olhares envergonhados e divertidos ao velhote, para ver se estava a imitá-lo bem. não sei se o homem tentava ignorar a dolorosa atitude da criança - porque é uma criança, coitadinha -, ou se estava de facto demasiado concentrado nos turistas que passavam a quem implorava uma moeda com o gesto silencioso do braço estendido com um copo da MacDonalds.
fiquei parada, incrédula. a minha fé nas crianças desvaneceu-se toda ali. e pela primeira vez, não fui capaz de fazer nada. fiquei ali, a olhar de braços caídos para o miúdo, e logo a seguir virei-me para o professor a tentar perceber se realmente ele estava divertido a fotografar o que eu achava que ele estava a fotografar tão divertido. fiquei ali, a fitá-lo, a assistir à mudança conveniente no seu rosto, enquanto baixava a máquina de forma atabalhoada e transformava como podia o sorriso num mal disfarçado esgar de reprovação. não consegui fazer nada, não consegui dizer nada.
eu, a "toda-poderosa" que está sempre a cuspir postas de pescada sobre os "could've would've should've" deste mundo. o tipo de pessoa que não tem noção do tamanho e só se apercebe dos riscos que correu depois de a frase-tiro já estar a pairar sobre as cabeças de quem estiver num raio de cem metros.
mais tarde pensei no que me apeteceu dizer ao miúdo. apeteceu-me fazê-lo ver no mendigo a mãezinha dele. sem pernas, com fome, a pedir ajuda. sei que seria capaz de o pôr a chorar em minutos. tenho essa capacidade argumentativa e de "psicologia, e esse sangue frio. mas mais que tudo apeteceu-me partir a boca ao professor com o capacete que tinha pendurado no braço. não sem antes fazê-lo passar uma gradecíssima vergonha, em forma de escandaleira que eu calmamente teria, numa situação normal, provocado.
mas não fui capaz de fazer nada. passava o filme em câmara lenta nos meus olhos, as gargalhadas distorciam-se nos meus ouvidos e eu só olhava.
só me ocorria: o que é que pode correr tão mal?