diarios da perna de pau
estamos em fase de ensaios, num armazém, com cenário já montado [sim, tiveram de se chegar à frente com as madeiras]. entretanto, figurinos e adereços estão a ser concebidos e provados.
o artigo do momento é a perna de pau. para um actor genial - diz o encenador - e hipocondríaco - digo eu.
cá vem, todas as semanas, o mestre de adereços [prop master, como eu lhe chamo], de boina francesa e saco dos chineses recheado de coisas estranhas. o actor experimenta a dita perninha, e queixa-se.
- está muito alta, não consigo apoiar o pé no chão.
o prop master abre o saco dos chineses e tira de lá um serrote. serra a coisa.
- não, afinal é do ângulo, percebes?
o prop master tira da chave inglesa e chave de fendas. desaparafusa-aparafusa.
- agora está-me a magoar o joelho
o prop master abre o saco dos chineses e tira um rolo de espuma.
- e eu vou usar uma bengala, não é? é que assim não temos bem a noção de como vai ser o andar...
inventa-se uma canadiana. enquanto isso, fala-se de como vai ser a bengala. sai-se o patrão-produtor:
- a minha avó tem uma colecção de bengalas antigas fantásticas, podemos ver disso.
- então liga-lhe.
- ela já morreu.
patrão-encenador parte-se a rir durante dez minutos, impossibilitando-me de conseguir falar ao telefone e ao actor de se queixar.
- isto até parece porreiro, mas tenho aqui esta dor na canela, no sítio onde apoia...
explora-se o armário, encontra-se uma joelheira que serve lindamente de almofada para o apoio da canela
- ah, muito melhor. muito melhor. como é que estou? hã? estou direito?
- ó Actor, os tipos que têm pernas de pau não andam direitos.
- pois é, pois é. mas isto está muito melhor. agora é só forrar estes ferros que me estão a cravar a carne...






















