segunda-feira, 21 de maio de 2007

"se fosse...

uma cidade, seria..." era como começava um "exercício" que costumávamos fazer num certo bar com cheiro a palco, noites fora. veio ter comigo sob a forma de desafio da pinky. tarde mas não falham, aqui estão as respostas.

hora do dia | um início de noite em dia de verão [que sabe a longo, morno e pleno]
astro | lua
direcção | onde o dedo calhar no mapa
móvel | algum móvel bem disposto desenhado por mim :)
líquido | água para mergulhar e vinho tinto para vaguear
pecado | todos e cada um, em pequenas doses de insanidade. sou uma pessoa, não um sacrossanto tupperware.
pedra | uma pedra do fundo do rio, polida e encontrada pelo acaso
árvore | o pomar todo, com perfume de limões e maçãs. e com um plátano da minha infância.
fruta | morango. com chocolate quente... [se calhar é melhor começar a repensar aquilo dos pecados eheh]
flor | papoila para a melancolia, girassol para as gargalhadas
clima | morno e temperado. que dê para andar de vestido.
instrumento musical | nunca conseguiria optar entre piano, guitarra, sax ou bateria
elemento | diz que é o fogo, diz que sim
cor | azul intenso, o da parede do meu quarto
animal | cavalo
som | o riso. para o bem e para o mal.
música | já alguma vez disse que a minha vida é um enorme e eclético musical?
estilo musical | talvez o jazz, talvez swing, talvez...
sentimento | paixão
livro | disseram-me [há muitos anos] que seria um do Rui Zink. agora ando mais Rodrigo Guedes de Carvalho. depende das tais luas.
comida | massonga! mas com direito a sobremesa.
lugar | onde quer que esteja aquele abraço... mas vá: um certo e determinado quarto de hotel numa certa e determinada água furtada de certa e determinada cidade onde se fala francês...
gosto | doce!
cheiro | a pele, depois de fazer amor. a palco, quando posso lá viver
palavra | te-a-tro
verbo | viver
objecto | podia dizer o meu anel mas... seria o meu estojinho de aguarelas
peça de roupa | com um simples vestido preto... :)
parte do corpo | olhos. e boca. os dois em mim funcionam como um só
expressão facial | sorriso. tem de ser
desenho animado | aieeee... só um? pronto, processa-me, pinky, mas eu tenho uma secreta tara pelo mau feitio e pela sensualidade obscura e saltitante da fada sininho ;)
um filme | qualquer coisa simples, de argumento rico e grandes actores, com um toque obrigatório de sotaque e humor britânico
forma | de S
número | já fui o 23. agora não sei. eu sou mais de letras
estação | do ano? primavera . de partir ou ficar? uma de comboio no meio do nada.
frase | "nobody expects the spanish inquisition"

era suposto passar a outras pessoas. mas fica aqui para quem quiser vir "pescar", com a condição de que me avisam para eu ir cuscar.

sexta-feira, 18 de maio de 2007

pelo amor da santa

domingo, 13 de maio... algures no subúrbio


se quiserem mesmo saber, é só clicar na imagem... boa sorte...


ps: peço desculpa pela pouca actualidade do post. as ideias chegam a tempo, o tempo é que não...

segunda-feira, 14 de maio de 2007

curta

patrão entra na sala, pergunta se eu tenho um adaptador para jacks.

respondo que não, que sou uma rapariga séria. e que os únicos cabos que havia estavam numa caixa em cima da mesa dele.

patrão sai, ouvindo-se ainda um "parece que não tenho cá nada..."

patrão entra passados uns segundos. dirige-se à mesa dele, de onde tira um cabo com cara de ter adaptadores de jacks.

sai a cantar a versão bissilábica do "Indiana Jones", como em tatarata-tataraaa.

eu quase que lhe vejo o chapéu a nascer dos caracóis, os suspensórios a transformarem-se num sexy casaco de cabedal suado e o cabo a transformar-se em chicote.

sexta-feira, 11 de maio de 2007

diva [gações]*








desenhos [ou, vá, esboços] de polegar

*ou... vontade de bater com a porta em grande estilo, tempo livre e uma caneta...

quarta-feira, 9 de maio de 2007

libelinhas


[foto extraordinária de espanta_espíritos | artwork polegar]


numa peça que nunca chegou a ser, eu era uma libelinha. e cantava.

libelinha ajeita as asas
põe as asas no ar
libelinha, alinha alinha
que o vento vai passar

terça-feira, 8 de maio de 2007

a náusea

imaginemos, vá lá, um esforcinho, que o mundo está podre e queremos falar disso. passar o aviso. para o tornar explícito e apelativo, os recursos são variados: um microfone, palavras, música, dança, imagens.
simples.


agora o que é que pode correr mal? hum...
fazer-se poemas de intervenção com frases tão geniais como “porra! é porreiro!” [sic] e declamá-los aos berros, sem sentido de tempo ou decibeis. enquanto dois senhores fardados de pintores-das-obras-simbolizando-o-cataclismo, com uma máscara como convém, tocam – cada um para o seu lado e sem qualquer objectivo melódico ou harmónico – percussão e violoncelo. emoldurados por uma tela que vai passando imagens de uma moça de peruca loira desgrenhada a lamber a montra de um talho, onde repousa a cabeça de um porco [porco esse que deve estar a rebolar na tumba. ou no estômago de alguém.] mas estamos a afastar-nos do tema. falta a piéce de résistance e com essa é bom que tenhamos cuidado. largue-se duas gaiatas de calças largas e wife beaters a rebolar-se à beira do palco, a atirar-se ao chão, contra as paredes e uma contra a outra. fazendo o público arredar-se cautelosamente do pretendido “diálogo de convergência artística” para “reflexão poética e crítica” [duplo sic], não vá um desses “temas pertinentes do quotidiano” [sic] cair-lhe em cima ou vazar-lhe uma vista. seria talvez uma demasiado dura “projecção do sonho sobre a realidade” [sic]. porque o público deve “absorver de olhos vidrados” [sic], mas à devida distância do altar intelectual e moral de onde emana a sacrossanta sabedoria quase divina – não fosse um dos messias chamar-se Jota Cê. e no que toca ao Jota Cê, há que ter respeitinho.


pergunte-se agora porque é que quando se fala de artistas, 80% dos tugas torce o apêndice nasal ou opina que artista é o Quim Barreiros.

porque essa gente – o público – é inculto. é uma cambada de pobrezinhos de espírito, a quem a poesia declamada não diz grande coisa, que não compreendem dança moderna e que tem umas noções muito vagas do que será música e de como parece uma imagem. e que, perante uma tão explícita explicação [passo a redundância] da podridão do mundo, não percebe, não percebe. a angústia.

bem, queriam fazer o público pensar, não era?... conseguiram. não estariam era, por certo, a querer forçosamente que este público partilhasse da visão deles. pelo menos no que toca a metodologias para a eficiência da comunicação pela arte.

suspiro... nestas alturas chego a compreender os Gervásios.

este texto não é pura ficção e inspira-se numa... errr... hum... performance que a Associação Cultural [dêem-me dois segundinhos para me rir à maluca] Conflito Estético levou a palco no MusicBox no passado sábado, num momento único e epifânico da minha vida, enquanto [desesp]esperava pelo concerto de Norton, que, graças a tão elaborada preparação e apresentação, atrasou em, vá lá, uma hora e meia. e eu sóbria.
resta dar os louros a quem os merece [qual povo madeirense tem o Alberto João que merece]: esta é a segunda performance desta associação e têm-nas levado [às performances] em digressão pelo país. é uma ideia original dos "mentores" [sic] poetas e declamadores Sara Évora Ferreira e J.C. Jerónimo.

sábado, 5 de maio de 2007

bem-me-queres



confessar baixinho o soluço. é difícil perder-me do que me aperta. respirar. azul. o diálogo é um tesouro desprendido. mesmo que se fale em silêncio.
por vezes articula-se melhor com a pele da ponta dos dedos, o arredondamento dos olhos, o restolhar das pestanas.


[ph.t. | espanta-espíritos]

redoma. uma cama que amansa, cobre, envolve e torna transparente - sem possessivo.
o vento dos movimentos entorpece a vontade, sussurra que não vás. e espera-se.



pôr-me em perspectiva. estou. estás. estamos. ali. aqui. raiz. onde?

cheira a lume. já é noite. é. hoje a música é o silêncio.

dancemos.

abraça-me.

segunda-feira, 30 de abril de 2007

feliz[es] aniversário[s]



este ano não há páginas enrugadas de um mapa, mochilas pesadas prevenidas penduradas, não há línguas estranhas, banhos de saberes, de gentes diferentes, de espíritos surpreendentes, ruas perdidas onde nos encontramos e ponderamos como seria. não há tea cosies nem vin chaud, não há east enders nem patisseries nem a parada das princesas. por isso te peço desculpa.

no entanto, há a fuga. sempre a fuga, para a frente, onde fica o caminho, onde fica o regresso. há a estrada, sempre a estrada, que desembrulhas de vento e de prados que vais conhecendo de cor, no trilho das mãos que já não se separam. há regressos e silêncios pejados dos sons e dos cheiros que não te comprimem o espírito. há os dias que passam lentos mas não doem ao roçar-nos. haja paz.

quinta-feira, 26 de abril de 2007

fechos e cadeados

cerrou-se outro pano, hoje, sem haver pano para me fazer desaparecer. não há cortina nas pedras, apenas passos que desaparecem ao fundo da escada em caracol. depois dos últimos aplausos, a sensação de vazio que por enquanto consegue ser racionalizada. juntar as cartolas e coelhos dentro de um saco de feira, empilhar escadas que são barcos e fechar a porta com a chave de ferro.
devagar, em passos mansos e decididos chegará o resto, o aperto dormente da repetição de dias sem grande sentido para uma alma que não se consegue encaixar na mala de viagem que a vida lhe preparou. de há algumas vidas para cá, em cada vazio com que me deparo, sempre me salga o rosto a dúvida. se dependerá ou não de mim fechar a cadeado estas páginas de felicidade, de peixe na água. se não me estarei a desperdiçar em esperanças, procuras e esperas vagas. se não estarei a arrastar mais dolorosamente do que o necessário a inevitável presença de um futuro que num compasso cada vez mais decidido parece que me rodeia os atalhos em círculos cada vez mais apertados. a cada passo, um tropeção. a cada muro, um buraquinho para o outro lado.
não sei.

antes de fecharmos as portas da torre, ainda houve espaço para uma música. surgiu do nada. banda sonora de encantamentos antigos, que na altura eram banhados de certeza de que nada acaba já ali. era a música do fim de uma peça. e para cada fim havia um regresso no dia a seguir. e foi sempre canção de embalar de feridas que se foram lambendo a ritmo lento. de esperas com a certeza de um ponto de resolução. de revolução. foi esta a tua teoria. fiquei assim, naquela incerteza de sempre. e era eu que acreditava em sinais. será que eles querem mesmo dizer que esta é my place?


assaltam-me as palavras. as mesmas palavras. how long must [we] wait for it?

terça-feira, 24 de abril de 2007

diz que estimula o neurónio, diz que sim



fui galardoada com o chamado prémio do estímulo do neurónio. houve um gajo qualquer que se lembrou disso - uma espécie de "olhós meus favoritos" -, e que acrescentou, com grande visão, um logótipo para a coisa. depois foi passando em cadeia até chegar à blogolândia lusa. pois que assim abordou os ecrãs de dois imberbes [este e este] que, de forma totalmente imparcial [cof cof], me nomearam a mim como uma blogueira que, obviamente, pela sua mui espectacular escrita, verborreia mental, vivências originais, cáustica ironia, acutilante informação cultural, assiduidade admirável e apontamentos de ficção em prosa poética da mai' fina, estimula-os a pensar na vidinha... provavelmente na vidinha mais simples, culta, bonita e mentalmente sã que teriam se não me tivessem conhecido, coitados...

ditam as regras deste... errr... passatempo virtual, digamos, que agora nomeie eu [a mui venerável e laureada autora] cinco, e só cinco, "belogues*" que estimulam os meus queridos Tico e Teco [à vez, que eles fazem turnos].

ora vejamos, assim de repente e sem desprimor para os meus queridos favoritos, aqui ao lado elencados [sempre quis usar esta expressão! eya!] como "sopros", eis os autores [e não belogues] que me excitam a massa cinzenta:

o espanta-espíritos por atira-te ao chão e levanta-te, pela forma como me faz rir e por me fazer pensar literalmente na minha vida, porque também é ela que está ali retratada, e por espanta os espíritos, porque é do meu namorido, e eu penso muito nele eheh
o joão, porque ali tenho uma alma prima-gémea que conta coisas que nos são tão comuns que dói
a colher de chá, porque, ela sim, escreve lindamente e vive na mesma galáxia que eu [a das fadas, dos pós do palco e mariquices assim]
mpr, porque é o chamado aprendiz desta minha nobre e depenada arte e eu gozo que nem uma perdida com a sua surpresa ao dar os "primeiros passos", porque escreve crítica de cinema e me ajuda a ponderar qual o filme que vou ver a seguir... e discutir com ele os gostos, ai os gostos eheh
o nuno west, porque é sempre uma delícia conhecer o mundo pelas palavras dele.

*expressão do joão supra-citado

sexta-feira, 20 de abril de 2007

assim seja

agora paraste de respirar. agora evadiste-te das paredes já desgastadas do teu peito. arrastou-se o tempo e agora parou. ela, que nunca te abandonou nem quando a mataste de cansaço, estará lá à tua espera. e, para onde vais, andar não custa. respirar não custa.
as dores, as marcas, as horas, ficam.
agora não importa. que descanses em paz, avô.

terça-feira, 17 de abril de 2007

terapia do impulso



estou cansada. farta, de olheiras pesadas e tornozelo torcido. dias de passos impassíveis ao desespero pedem medidas drásticas de vontade de largar tudo o que obrigue a pensar. uma paragem para encontrar o branco e logo impera o impulso do vermelho. seja assim, sempre, em dança improvisada de apetecimentos. entornam-se os jorros de sangues e vestidos, tangos e coca-cola, o brilho e o cheiro e começar por onde não manda a regra porque é premente ver os muros mudar. e porque sim desenha-se infâncias e verdades na parede por pintar, porque sim, se ficar marcado é só mais uma história para contar. depois é a língua de fora no compasso certo da trincha, porque o risco tem de ficar perfeito, porque assim não se pensa no que não interessa à alegria. essa vive aqui. de corpo pesado, no crepitar de gotas de tinta no jornal, nas solas dos pés a colarem ao chão, no suave roçagar dos pincéis, na companhia infinita de duas almas cansadas e sorridentes que a traços largos esboçam as cores do "para sempre".

segunda-feira, 16 de abril de 2007

corte e costura

falava-se de certas pessoas para cuja presença começo a ter muito pouca paciência. aliás, no sítio onde desperdiço a maior parte do meu dia, a paciência já desistiu há muito... ficou-se-me o instinto de sobrevivência... até ver.

corte - é a parvalhona da (não se pode mencionar o nome), q só sabe falar da gorda da XXX como se fosse a maior actriz que já pisou a terra

costura - lol e um dia pode vir a ser

corte - ah, sim. no dia em que APRENDER A REPRESENTAR!

costura - porquê?

corte - oh, pelo amor da santa. só tem duas velocidades: rápido e rapidíssimo. só tem duas entoações: jocosa e bruta como as casas. só tem duas expressões: olhos semi-cerrados e olhos fechados. é uma pessoa dual, portanto eheh

costura - pera lá... mas estamos a falar de ela ser a melhor ou a maior actriz do mundo... ? é que tinhas dito a maior... :P

café cheio bem quente

seguia pela rua como qualquer outra pessoa, nem mais gorda nem mais magra, nem mais feia nem mais bonita. quase me acompanhava os passos. quando começou a falar:
- é que ninguém faz nada. são uns assassinos. eles são uns assassinos e matam tudo e não deixam ninguém. matam as mães com os filhos lá dentro, e a mim também.
não consegui evitar um esgar surpreendido.
- pois, agora olhas para mim, pensas que eu não vi, não? mas os assassinos andam aí. eu sei, eu sei e toda a gente sabe.
entrei directa no café, alheando-me da ladainha. mas ela veio atrás de mim. parou ao balcão logo à entrada e não esperou que a atendessem.
- é um café cheio bem quente.

quarta-feira, 11 de abril de 2007

os milagres acontecem

a contagem decrescente é a parte angustiante de quem não tem vida certa e jogos de anca a fazer com o destino. nunca se sabe que cartada ele puxa a seguir. neste momento já sinto escorrer pelos dedos os últimos grãos de areia deste pequeno castelo de migalhas que me foi concedido para não me esquecer de quem sou. faltam meia dúzia de espectáculos. um punhado de ilusões e depois de volta ao fosso de onde me impeço, por vezes, de sair.
entre dúvidas - as de sempre - de continuar ou esquecer, e o que vai ser de mim depois, há momentos em que algo nos prega ao chão do presente com garras docemente violentas.
o medo de encontrar 230 miúdos era enorme. a garganta e a boa vontade, muitas vezes, não prendem a atenção de cem deles irrequietos.
a turba foi-se aproximando e quando pensávamos que o grupo estava completo, lá víamos atravessar os claustros mais uma manada. mas quando chegaram perto de nós, o silêncio. as gargalhadas. o respeito. a diversão. o olhá-los nos olhos e vê-los beber-nos. e nós. um "nós" como já não conhecia há muito. o improvisar em cenas que já estavam gastas, o tomar o tempo para respirar e reinventar. pregar sustos com olhares cúmplices. o parar no momento para nos divertirmos com o colega.
há muito que não sentia assim.

e saí dali com um nó na garganta, peito cheio, uma sensação de fé quase religiosa e uma frase a ecoar nos sentidos:
ah, então é por dias como este que eu faço o que faço.

terça-feira, 10 de abril de 2007

let's and go



janeiro de 2005: toda cheia de razões e valores profissionais, calhou em estrebuchar acerca do estado em que os textos dos desenhos animados chegavam ao estúdio. passava-se mais tempo a corrigi-los do que a gravar. e na pós-produção passavam mais tempo a tentar colmatar falhas do que a... pós-produzir.
propuseram-me que fizesse a revisão dos textos da bonecada seguinte.
aceitei. era dinheiro extra e, achava eu, coisa que não tomaria muito do meu [parco] tempo.
acabaram os ursos carinhosos, chegaram os let's and go.
durante a primeira série, entregava 4 episódios por semana, ao domingo. quando as tradutoras começaram a perceber que traduzir para desenhos animados é um bocadinho diferente de traduzir documentários e é para crianças, levava-me à volta de 4 horas do meu fim de semana.
na segunda série, tive de entregar 7 por semana. faseado em duas doses. mais duas noites para ir, realmente, gravar os ditos bonecos. durante alguns meses não tive vida. saía para casa para rever ou para o estúdio gravar. nunca me deitei antes da 1 da manhã [há que dizer que sou um rabo de sono].
no dia em que me apanhei com um amigo e a jantar e conversar ao sabor do improviso, parecia drogada de alegria. "desculpa lá, eu não saio muito" era a frase do momento.

os bonecos... bem, são engraçados em alguns apontamentos nonsense. muita corrida de carros, muita corda vocal escafiada com os "Força Magnum!" todos...

agora acabaram. estes. felizmente veio uma série nova para ajudar ao [também parco] orçamento familiar, com prazos menos loucos.
fica um suspiro de alívio. com um sabor agri-doce. já adulta, ainda consigo afeiçoar-me aos bonecos...

terça-feira, 3 de abril de 2007

pisar os calos

há gente que gosta de cuspir para o ar. pode ser que lhe caia na testa.
gosto de encarar este blog como uma esplanada ensolarada por onde passam ocasionalmente ou ritualmente umas quantas pessoas e se conversa sobre tudo. o mote, sendo este o meu espaço, são os temas que me rodeiam. gosto de argumentações acesas, pontos de vista diferentes. mas com tolerância e informação acima de tudo. não censuro comentários. esses tempos já passaram, nem nunca foram os meus tempos. felizmente. mas dá-me engulhos a atitude de certos comentadores que ocupam os seus tempos demasiado livres a saltitar de blog em blog à procura de luta. normalmente respondo e passo à frente. mas esta está arrematada. e a partir de agora peço desculpa pelo meu francês.

adenda - como o senhor disse que era anónimo, eu chamo-lhe o que entendo.

Gervásio, pá: andaste a correr as capelinhas todas, a espetar umas farpinhas, qual toureiro garboso, defensor de uma curiosa causa com slogan à laia Playstation 3. a tua falta de tomates [vês, também digo palavrões e tudo!] para te identificares é fantástica e coaduna-se com a personagem que criaste. tens de limar umas arestas, ainda. é que está muito repetitiva. "mais um blog de um pseudo-actor frustrado" e pouco mais. não tem sumo, sabes? aliás, se somos pseudo-actores é porque no teu léxico existem uns a sério. quem são? a Floribella? tu?

atiras em todas as direcções. escreva-se sobre trabalho, amizade, putas [olha, outro palavrão, Gervásio!] ou azulejos de cozinha, se é de actor, não presta.

essas pessoinhas horrorosas que não fazem nada o dia todo, andam nos copos e de vez em quando saltam para cima de um palco e dizem umas coisas. sanguessugas, é o que é. porque é que havemos de pagar para um actor fazer um papel numa peça? temos os cinemas. temos as consolas. temos a bola.

ficas a saber que ali entre os intelectuais que fazem espectáculos estranhos e que poucos percebem e os que andam aí pela fama, há uma enoooorme quantidade de gente que realmente tem talento, gosta do que faz e fá-lo [esta não é ordinarice, Gervásio] para o público. por vocação e não porque o papá mandou. e - pasme-se - há público para os ver. os estúpidos gostam, vê lá tu. não há mais público porque, além da falta de dinheiro para tudo - quanto mais para a cultura -, andam por aí uns Gervásios castrados [esta podes interpretar como quiseres, tá?], incultos, intolerantes, sem nenhuma noção do que se passa para lá do seu umbigo e obviamente [mal] acomodados na vidinha.

custa-me o facto de haver gente que não encara o trabalho de actor como um trabalho normal. não daqueles trabalhos das 9 às 5 com o computador, mas é um trabalho que custa e dói e cansa, como os outros todos. cada um com a sua função nesta vida. há quem não tenha jeito para advogado.

e um actor é assim como uma pessoa que também gosta de comer e pagar as contas.

mas custa-me, pronto, assim de fazer-me azia, quando me pedem convites ao desbarato, quando eu trabalhei, gastei gasolina, pele, músculo e neurónios e só vou receber uma percentagem de bilheteira [sim, Gervásio, há muito espectáculo não subsidiado. acreditas nesta merda? eles insistem mesmo sem chular o estado!].

não há trabalhos menores, desde varrer o lixo a C.E.O. de multinacional, a conselheiro do Ministério da Justiça [se bem que... hummm, falando em desperdício de impostos... bem, passa à frente].
mas eu encaro as pessoas menos informadas como simplesmente isso: alheadas de mundos que são realmente paralelos. é que o espectáculo aparece feito. a comidinha já está feita e quase mastigada, é só engolir. ninguém gosta de ir à cozinha ver o pessoal a prepará-la. é chato.
a essas pessoas aconselho uma temporada num workshop, ou a conviver com um grupo de teatro daqueles em que todos se desunham.

já tu dás-me vontade de rir. e de te bater, claro.

mas eu sou pequenina. metro e meio e uns trocos e pronto, tenho pouca força de braços.

então uso a cabeça.
por isso quero agradecer-te. num momento da minha vida em que vejo tudo posto em causa todos os dias, em que me vejo dormente e a mirrar por dentro, a questionar se devo continuar, vem um idiota mandar umas bocas e lá regressa a Polegar inflamada a defender com unhas e dentes aquilo em que acredita.

obrigadão, Gervásio, pá.

segunda-feira, 2 de abril de 2007

abrigo

deves estar a chegar. eu é que não dou pelos teus passos. a tua pele já não se faz avisar pelo aroma delicado que viajava antes de ti pelos corredores. eu sei, deves estar aí mesmo a aparecer. estou no sítio de sempre. a enrolar o tempo entre os dedos. a desenhar-lhe telhados. sempre gostei de telhados.

sexta-feira, 30 de março de 2007

I.A. iá, yeeehaaaa


cortesia espanta-espíritos

para quem não está enquadrado: o I.A. é o instituto das artes. são os senhores que dão os subsídios, vulgo dinheirinho, aqui aos pobres dos artistas. para a droga e assim.

uma vez por ano [excepto aquela vez do "ah e tal, esqueci-me"] abrem concursos para o pessoal mandar um projecto para uma peça. se eles gostarem do projecto, dão dinheirinho. se não, lá têm as suas razões. mesmo que se ameace com tribunal, o IA não se engana.

apesar de os apoios irem parar quase sempre aos mesmos [se bem que com outros nomes, e para isso vai uma menção honrosa, nem todos conseguem inventar tanto nome seguido], os senhores estão a tentar acompanhar os tempos. e por isso foram evoluindo.

dantes entregavam-se 5 calhamaços com todos os quês, comos, porquês, currículos, objectivos, articulação dos objectivos com os objectivos do I.A., metodologia dos objectivos, unhas encravadas do objectivos e... iada iada iada. resumindo, uns bons 10 kg de papel.

depois resolveram que queriam em cd. giro, dá jeito. mas na mesma acompanhado das 5 cópias em papel...

no ano passado, ah pois é, acharam que umas companhias ficavam em desvantagem porque não dominavam a arte do design gráfico e tal, e portantos pois que criaram uns formulários de formato fechado. não há cá privilégios, não há cá fotografias, não há desenhos, capas bonitas, esquemas de cenário nem mariquices dessas, que a gente das artes tem de se dar ao respeito e ser todos iguais, assim prá esquerda benetton. até porque já se sabe que a gente das artes é assim suja e feia e desgrenhada e veste-se toda de igual. vai tudo despejado para dentro daqueles campos, letra em corpo 9, times, e... e pronto. e não se armem em espertos a remeter o pessoal para os anexos, porque chumbamos o projecto.

este ano, entraram na era informática. agora é tudo virtual, digital. insere-se o projecto nos diversos campos, no site dos senhores. lindo, não é? pois. não. é que os campos devem ser de pasto. não reconhecem acentos nem cedilhas, nem símbolos [fantástico, parece mesmo que estamos no estrangeiro], o site crasha quando estamos a carregar os dados e simplesmente passa tardes inteiras inactivo.
os senhores do I.A.? iá, tá-se bem. não atendem telefones. extensões ocupadas. dá jeito, porque senão a turba reclamava e pedia um prolongamento do prazo...

aqui fica uma sentida homenagem a todos os que estão neste momento a queimar as pestanas. ou simplesmente a tentar entregar os seus projectos.
r.i.p. r.i.p. hurra...

post scriptum: muahahahah... vão mesmo prolongar os prazos, visto que o site está crashado desde as 3 da tarde de ontem...

quinta-feira, 29 de março de 2007

the fallen

momento de pressão extrema, com formulários electrónicos demoníacos, currículos idiotas, protagonistas idiotas, textos idiotas, um projecto incoerente inventado em cima do joelho, os responsáveis pelos mesmos a quilómetros [e continentes] de distância, conversão de textos de reivindicação política pseudo-esquerdina do género "vocês são uns vendidos e eu quero mais é que vão levar no rego" em polidas declarações de "ó por favor dê-me lá o dinheirinho que eu quero fazer uma pecinha freak".
o corpo com demasiados meses de serões de revisões de texto, traduções e dobragens em cima, já suplica piedade e eu tenho de suplicar-lhe que não ceda... já.
nesse momento, cai uma das poucas coisas que ainda me incluía. que ainda me dava gozo.
talvez em Outubro. a recibos verdes, sem segurança social, a receber o recebo, talvez já não esteja cá em Outubro. [essa era a maior ironia.]

mas o concurso, não te esqueças do concurso.
argh... you could have it so much better...

puxo o volume aos Franciscos Fernandos enfiados quase até perfurarem os tímpanos e simulo uma bateria transparente. porque não posso usar uma bateria aérea...
e suspiro por um serão de wine in the afternoon.