terça-feira, 26 de junho de 2007

na véspera de não partir nunca



para breve a vida compactada num par de alforges, os cheiros do vento e os riscos do mapa feitos rugas nas palmas das mãos. eu nas tuas e tu nas minhas. gosto disso.
a tenda vai sair do esconderijo e o pó do caminho vai fazer-nos a cama. é o chamar do asfalto.
para breve o tinir da colher na chávena de alumínio, a cozinha em pacotes, os pássaros, as ondas mornas, a relva, a areia, o cimento e a terra batida, as agua cebadas, os sotaques açucarados, as multidões e os silêncios de três mil quilómetros. o calor e o cansaço, o arrepio do suor, o aperto dos músculos, o estado alerta onde me reinvento de tantos meses de dormência.
levo creme para as dores no corpo e anseio por elas. é sinal que estou, finalmente, viva. e longe, tão longe...

segunda-feira, 25 de junho de 2007

ficção para quê?

um homem vai levar a mulher ao trabalho. faz uma inversão de marcha, manobra de sempre, em consciência de que não infringe as regras de trânsito.

logo a seguir é interceptado por dois polícias que o acusam de manobra proibida. olhe que não, senhor guarda. mas eles insistem de tal forma, e o homem, que não é de ferro e acha que tem razão e que estamos em democracia - somos inocentes até prova em contrário -, acaba por pedir para os guardas se identificarem, para ele poder apontar nomes e números de distintivos. os polícias, em gestos vagos, para não dizerem que não se identificaram, passeiam os distintivos de maneira que não se leia nada.

mas aquilo não cai bem e resolvem que o homem está a desautorizar a autoridade. chamam reforços, imobilizam o homem à bruta, algemam-no e ainda dão um encontrão à mulher. que por acaso está grávida. de 7 meses.

ela começa a pedir aos transeuntes que, já que estão a molhar o pão no sangue, deponham como testemunhas do abuso. todos baixam as cabeças e tiram as mãos do molho. seguem para as suas vidas com mais uma história para contar à hora do telejornal, - "nem imaginas o que vi, maria".

enquanto isso, os polícias atiram com o homem para uma carrinha fechada e vão de sirenes ligadas e a alta velocidade para uma esquadra que não é a mais próxima. quando ele diz que as algemas o magoam ou que está a ficar mal disposto com a condução "de emergência", chamam-no menina.

largam-no numa cela, diante do cartaz que enumera os direitos do recluso. ele pede um, poder ligar ao advogado. não deixam, agora esperas, ó menina. já estás de bitola baixa, é? agora já não te safas, ó menina. ficam ali perto, em azafamada reunião, de volta de papéis. o homem apercebe-se que os senhores realizaram [só] agora que afinal o homem não infringiu mesmo regra de trânsito nenhuma. não vão pedir desculpa, têm é de desculpar o facto de ele estar agora ali, encarcerado. portanto, estão a tentar dar a volta aos depoimentos que têm de redigir.

só depois de assinar o papel é que o deixam telefonar. não lê, assina, ó menina. o homem ainda se consegue aperceber que suprimiram a parte da suposta infracção, e que ele pediu a identificação dos guardas. mas assina, para poder telefonar, para ouvir um "não assines nada". demasiado tarde.

depois ainda é transportado para um sítio que não lhe dizem bem o que é. só sabe que vai falar com um juiz. no dia seguinte. passa, portanto, a noite numa cela, à espera. a ouvir uivar um drogado em ressaca. no dia seguinte, consegue saber, por um guarda de outro turno, que a "marcha de emergência", as sirenes, as algemas, não é costumeiro. depois de ser "ouvido" - o papel está assinado, não é -, é libertado com termo de identidade e residência. aguarda julgamento, acusado de desrespeito à autoridade e resistência à ordem de prisão. tem os pulsos marcados e os olhos enevoam-se, algures entre a fúria, a vergonha e a impotência, quando conta tudo isto.

o homem é meu irmão.

sexta-feira, 22 de junho de 2007

um remendo

a cada passo descai-te uma linha, os alinhavos parecem desfazer-se em pequenos vazios soprados sem som. os barulhos confundem-se e penetram nos poros do tecido, rimbombando-te esgares mudos nos botões do casaco. as cores empalideceram aos teus olhos de contas porque, já se sabe, a água salgada debota. os remendos que te enrolam o coração esgaçaram e pulsam com a trepidação do andar.

apetece-te parar. agarrar nos farrapinhos e formar uma simples bolinha de linhas. não o faças, bonequinha. ainda és a mais bonita explosão de colorido. ainda tenho muitos carrinhos de linha. ainda as tuas formas deliciam o ar.

não te encolhas. é mais difícil realinhavar-te se não te esticares. os sons não saem, os remendos emaranham-se. por isso abre as mãos. não te esqueças de abrir as mãos.

quinta-feira, 21 de junho de 2007

urgências do patrão

- ó polegar, estou aqui numa angústia. vai aí na internet a esse sítio onde passas a vida a falar com milhões de pessoas e pergunta se alguém sabe a origem do bitoque.

terça-feira, 19 de junho de 2007

lógica da bat.I.A.ta

ou o dia em que perdi toda a fé no meu discernimento...


clicar na imagem para aumentar.

quinta-feira, 14 de junho de 2007

quando o inverno chegar

São Luiz Teatro Municipal
7 a 30 de Junho às 21h; Domingo dia 24 de Junho às 17:30 (sessão com interpretação em língua gestual portuguesa)
Encenação: Marco Martins
Texto: José Luís Peixoto
Interpretação: Beatriz Batarda, Dinarte Branco, Gonçalo Waddington, Nuno Lopes
Telefone: 21 325 7640

O mundo fechado de um sanatório para problemas respiratórios no virar do século XIX é o espaço da vida suspensa de 3 homens. O mundo ali não vive, “a vida é lá em baixo, na planície”. Mas será que querem realmente viver? As rotinas já estão instituídas, os dias estão demarcados em coreografias compassadas, confortáveis, onde a esperança e a mudança são apenas palavras distantes. Uma estranha cumplicidade entre os três, alicerçada em relações de liderança insondáveis, coordena-lhes os passos vagueantes por entre a floresta que circunda a instituição. Até que encontram uma espécie de “Alice”. Figura feminina, ingénua e frágil em pleno precipício emocional, numa absurda procura de algo que não se sabe bem se será. Parece que caiu do lado errado de um espelho estilhaçado, onde o ar da montanha lhe tolheu – também a ela – a vontade. Esta figura meio tonta pode abalar os passos rotineiros, as improbabilidades, a estrutura das relações destes homens e dar um sabor agridoce - nem sempre conveniente - aos seus passeios pelos bosques. Porque pode fazer cair as máscaras.

O bosque – outro protagonista – é frondoso e musicado. Uma estrutura imponente, um labirinto de árvores, o chão coberto de galhos e folhas que crepitam com o andar e uma luz bucólica inserem-nos no mais improvável cenário. Para mim, lindíssimo.

O elenco masculino, confesso, foi o meu canto da sereia. E não me desiludiu. Nuno Lopes, Gonçalo Waddington e Dinarte Branco numa perfeita esgrima de palavras e sentimentos, roçando os bonecos sem nunca serem marionetas sem vida. Num equilíbrio precário mas perfeitamente dominado, Gonçalo Waddington é de uma força intensa mas não imposta; Nuno Lopes é um ex-boémio cândido e matreiro; Dinarte o doce zé-ninguém subestimado. Mas, repito-me, não são bonecos. Nunca deixamos de sentir que são mais do que aparentam, têm muito mais a revelar-nos. E é neles que suspendemos a respiração, é neles que viajamos na sua demência.

Não posso falar bem de Beatriz Batarda, lamento. Se plasticamente me deliciou a sua “Alice” – Lena –, não me mostrou nada para além de um boneco vazio de intenções. Monocórdica, com uma entoação demasiado “agudinha” e falsa [especialmente a comparar com os seus colegas], movimentos lentos e marcados como se de um boneco – de – corda – sem – corda se tratasse, e um registo de voz que não lhe permite fazer mais do que o mesmo, ela não me transmite a menina-mulher frágil, algo tonta mas tortuosa. Resume-se a uma “coisa” básica, oca e bacoca, de que[m] tenho dificuldade de ter pena. Pode-se ser burrinha mas muito querida. Mas para se ser querida, temos de o sentir. Não senti nada vindo daqueles lados. Excepto uma vaga irritação. No único momento em que a emoção tomou conta dela, a voz caiu e a “personagem” desfez-se. Depois recuperou-as – à voz e à “personagem” – e perdeu de novo a emoção, que tão bem nos daria murros no estômago – e me poria a chorar copiosamente – se ela deixasse que lhe ocupasse o corpo e as cordas vocais. Uma pena.

O texto, não sendo brilhante, tem momentos de diálogos absolutamente deliciosos, roçando o irreal – surreal – absurdamente – Becketiano. Aí somos levados pelo riso e pela suspensão da realidade. As histórias das personagens são interessantes e a forma como se entrelaçam também. Mas o enredo é um compasso de espera demasiado grande. Encerra certas “revelações” finais que tomam o tom de novela mexicana, completamente desnecessárias. O texto tem momentos mágicos misturados com outros mastigados e repetitivos, provavelmente desvantagens de se lidar com o “autor vivo” – a eterna hesitação do corte.
A encenação é, quanto a mim, o ponto mais fraco deste espectáculo. Talvez demasiado cinematográfica – no mau sentido, no sentido do tempo arrastado. Muitos tempos mortos, muitas transições lentas, uma orquestra e uma cantora lírica – no meio da palha - que não me enchem as medidas porque me parecem desnecessários e, ouso dizer, quase elitistas. Movimentações demasiado rígidas, a tal repetição e mastigação de texto e um porquê tão grande de se estar com a cadeira marcada no rabo se isto tinha tudo para correr tão bem... E, se houve direcção de actores, como é possível fazer as opções que criam um tão grande hiato entre os três personagens masculinos e a estranha boneca vazia que é a mulher? Pretende-se, este contraste? Lamento, a meu ver não resulta. Esvaziando uma personagem de sentidos, fazendo-a papaguear um texto que não vive, como se pode acreditar que emociona e altera as vidas de outros, que têm tanto conteúdo, que vivem a cada gesto?

Um reparo acerca do público: estavam mais tísicos que os tuberculosos em cena.

Gostei. Mas saí de lá com um gosto amargo na boca.
Suspiro.
Repetiria, sim, num absurdo instinto algo masoquista, só para pedir de novo àquele trio que me leve para o bosque e me ensine a fazer magia com palavras.

segunda-feira, 11 de junho de 2007

road hogs

há vários espíritos para pegar numa mota. não falo hoje de quem tem uma para andar a fazer slalom entre os carros a uma velocidade estonteante, capazes de fazer corar qualquer "mercedeiro". também não falo de quem faz 300 metros por dia [casa - trabalho - trabalho - casa] só para dizer que tem uma vespa. nem dos senhores que se passeiam nos seus aspiradores de escapes rotos sem outro objectivo na vida que não pôr-nos a todos surdos.

falo hoje da simples e arrebatada paixão pela mota. uma paixão que se comprova pela via sacra que é, de facto, fazer longos percursos num veículo de duas rodas. quem anda nestes bichos tem prazeres que facilmente nos escapam quando vamos no casulo metálico. os cheiros, as cores, as paisagens, o próprio ângulo de visão, as texturas do vento são coisas de cuja intensidade não temos bem noção nos carros, mesmo com as janelas escancaradas.
no entanto, quando falei em via sacra, quero mesmo dizer que andar de mota em percursos longos é uma tortura, na maior parte das vezes totalmente incompreendida. são pequenos detalhes que normalmente passam despercebidos e para os quais peço a vossa atenção da próxima vez que andarem por aí.

os motards geralmente vestem-se com roupa quente e rija. abafam-se em capacetes, luvas e sapatos fechados, mesmo no verão. porquê? não só pela vã tentativa de evitar danos maiores numa colisão, nem pelo vento que arrefece e soca o corpo, mas também... lembram-se, da última vez que foram passear, dos bichinhos e pedras cravados no vidro? imaginem o que custa quando eles se auto-tatuam num corpo desprotegido. daí o "suar para não esburacar".

os motards não levam bagagem, levam um par de cuecas, uma bucha e a escova de dentes. excepto naquelas motonas de estrada que são autênticas casas com poltrona, cómoda, rádio e que tiram bicas e assim, claro. por isso, já temos aqui a explicação das barbas compridas e os lenços na cabeça.

se repararem, nas estações de serviço há sempre uns quantos. em todas. passo a explicar: não é fisicamente possível aguentar mais de 100 km seguidos numa mota [excepto nas tais poltronas com rodas, mas isso é batota]. uma viagem de 3 horas pode demorar 5. numa mota não se muda de posição, aguenta-se. numa mota não se pode pôr os pés no tablier. quer dizer, até pode, mas morremos. numa mota, qualquer remendo na estrada entra pelo cóccix e só pára no capacete. e neste país os motards pagam portagens para serem constantemente... estimulados. numa mota, em dia de ventania, se se quiser mexer a cabeça pode-se ter a certeza de que o pescoço será partido em 5 sítios diferentes. hão-de reparar que quando eles saem de cima das motas, parece que congelaram na posição sentada. não é para mostrarem que têm um pesado equipamento genital ou rabinhos torneados, é porque não se conseguem mexer.

e depois há os outros. a eterna falta de [in]formação de quem conduz os carros e não se lembra que uma mota é um veículo como outro qualquer e tem direito ao seu espaço na faixa de rodagem. não. se uma mota não anda aos ziguezagues entre os carros, se por acaso o seu condutor quer ir a uma velocidade de cruzeiro dentro da lei e manter-se calmamente na sua faixa, é certo e sabido que haverão razias dos popós, porque querem continuar a andar a 220 km/h e vem aí um gajo atrás que dá 250. é o "sai da frente, ó minorca. chega para lá que tu cabes na berma". deixem que vos explique uma coisa: já se vai a lutar contra a natural velocidade e o vento que vem ora de um lado, ora de outro, ora de frente, ora de trás, a tentar manter o estupor do bicho de duas rodas direito e o pescoço e os ombros num sofrimento sofrível. uma razia de um carro não dá muito jeito. porque causa mais deslocação de ar. e a mota abana por todos os lados. na pior das hipóteses, uma pessoa até tem de se desviar de repente. isso desequilibra. muito. e entre o "minorca" e o alcatrão há apenas ar. por isso, se não pelo código da estrada ou por civismo, por piedade, mantenham-se à distância de segurança.

da próxima vez que forem passear, descubram os pequenos pormenores. reparem que eles se cumprimentam, independentemente das marcas e valores comerciais das viaturas. é uma seita secreta... que sabe o prazer da estrada e a dor de usufruí-la. respeite-se, há malucos para tudo.

quando virem o próximo típico gordo barbudo, reparem no ar satisfeito que leva, apesar de a máquina ir apenas a 100 à hora e estar coberto de roupa em dia pleno de sol. agora já sabem o segredo. o sorriso é um esgar. está a implorar secretamente que venha uma pedra a voar directa à rótula para se esquecer, por momentos, da dor nos quartos traseiros.

terça-feira, 5 de junho de 2007

para um amigo

já uma vez te dediquei meia dúzia de palavras. hoje é mais um motivo para seres feliz. e eu contigo.
começarás a saborear um novo léxico secreto. novas sensações que só o impacto na onda de gente te podem oferecer. aquela energia estranha que eles sem saber emanam, como uma teia doce onde te sentes cair, impactar, onde os sentes reagir sem um movimento. sei que, pelo menos para mim, é das coisas mais fortes que se podem sentir numa vida. e que nos podem mudar de formas misteriosas. que te fazem acreditar em seres de outros mundos porque começas a vê-los materializar-se à tua frente. não tenhas medo. dá-lhes a mão.

transforma-te. diverte-te. vive as palavras. totalmente. nunca menos.

e, já agora, leva-me contigo nessa algibeira transparente, para matar as saudades de os ver daí ;)

sexta-feira, 1 de junho de 2007

nota mental

fase de dúvidas e a facilidade de sempre em pôr-me em causa por causa dos outros. outros que não o merecem, mas isso nunca vem ao caso da minha auto-estima.
espiral decrescente, teia labiríntica que desagua na hipótese de fechar de vez a porta que o meu livre-arbítrio abriu e de cuja soleira, no fundo, nunca passei. aí impediram-me o raciocínio antes que eu sangrasse de vez as veias do sonho. felizmente existes. se não fosses tu, não seria mais ninguém. porque estás presente. e assim, como me pediste, fica para a posteridade. acima de tudo, para eu não me voltar a perder. venha o que vier.

sou actriz. dou voz a desenhos animados e documentários. até já ganhei 600 euros em 10 minutos. o resto são migalhas, possíveis porque eu tenho capacidade intelectual para mais do que um ofício dentro das palavras e da comunicação.

no meio do caos há sempre uma constante. e se tudo o que faço está em causa, lembraste-me que não me esqueça do que sou.


sempre com a[hu]mor . espanta-espíritos

mais outra

1995-1997. uma menor é abusada por um vizinho. mas não gritou. arquive-se. aqui.

um dia explique-se ao senhor juiz [sugiro que com um pau grosso enrolado em arame farpado] a capacidade que muita gente descobre de simplesmente alhear-se do mundo e desaparecer do corpo enquanto ele é usado.

feliz dia da criança

quinta-feira, 31 de maio de 2007

raiva

há em mim dias de raiva em que sinto tanto e tão forte que fico assim com o peito como que entupido. de tal forma que não consigo dizer nada. assisto impávida. a banda a passar por mim mas a música não me chega.
a dor escava-me em silêncio. a invisibilidade não é um super-poder.
nestes momentos, entre um cigarro e outro, entre a vontade de desabar ou de partir tudo à minha volta, de berrar a plenos pulmões o que está por dizer ou simplesmente desaparecer, fico apenas assim, quieta, cara fechada, sentidos fechados.

com medo que algo me toque e eu desafine.

"amanhã não vais ter outro encanto"

terça-feira, 29 de maio de 2007

do STJ

vamos lá ver se percebi. um homem tentou manter contactos sexuais com 4 rapazes. com outro, só chegou à conversa do "fazia-te e acontecia-te". conseguir, conseguir, foi com um miúdo de 13 anos, lá para o lado das Beiras.
foi apanhado, preso e julgado. condenado a essa eternidade que são 7 anos e meio de prisão. ora tanto recorreu da sentença que o nosso mui nobre Supremo Tribunal de Justiça resolveu atenuar-lhe a pena.
porque era uma criança de 13 anos e, vá, já é capaz de ter erecções.
porque tinha 13 anos e não 3 ou 4, e violar uns e outros não é beeeem violar assim tal e qual. vá, é abusar. assim da confiança. com mais ou menos roupa, isso não interessa. não lhe bateu, não é?
porque o senhor, coitadinho, já sofreu o suficiente com a estigmatização de violador de crianças e papão e essas coisas feias e que marcam uma pessoa, porque não é agradável quando falam mal de nós, e portanto, vá,vamos deixar o senhor ir dois anos e meio mais cedo para casa, para o pé de outros meninos de 13 anos que, vá, até têm corpinho de 14 portanto não se queixem.

diria alguém mais distraído: uma criança de 13 anos é uma criança. não? eu era. aos 13 anos era uma criança. vejam lá que até nem tinha maminhas. será que isso pesa na decisão do Supremo? se já tem maminhas ou pelos nas pernas?

por esta ordem de ideias, uma mulher que seja violada, vamos a ver... se é capaz de aguentar a depilação com cera é porque tem corpinho para aguentar uma violaçãozita. nem violação é, porque uma mulher é isso mesmo, já está desenvolvida, e até é capaz de ter orgasmos. se fizer um esforcito, até é capaz de gostar.

é a estes senhores que recorremos quando já tudo falhou. a última esperança para que se reponha justiça. mas só se formos violadores.

"um juiz não tem de ser asséptico", diziam hoje no jornal. pois não. a criancinha é que convém que esteja bem lavadinha, para uso pessoal do senhor juiz.
porque ninguém me tira da cabeça que um painel de excelsos senhores que decide que um violador é menos violador consoante a capacidade para erecções de uma criança [será que testaram o menino?, só para ter a certeza?] tem os seus próprios meninos no armário.
deve fazer muito calor debaixo daquelas togas.

não espero que compreendam as minhas razões muito pessoais para achar que no que toca a violadores era acabar com eles na hora. dentro da nossa realidade jurídica, limito-me a achar que as penas são demasiado leves. mas há quem lute para as tornar ainda mais irrisórias.

como li algures... pode-se dizer foda-se num blog? já disse. foda-se!

dark motives

desde que esta empresa produziu a última peça que há muita gente a enviar currículos, a oferecer os seus serviços, a, vá, pedir trabalho.
a menina aqui, encarregue do e-mail geral, é que os recebe a todos. e como sabe o que custa não ter resposta, vai respondendo aquelas coisas nem-carne-nem-peixe: de momento não estamos à procura mas se surgir essa necessidade eporaífora...

bem, o que eu queria mesmo dizer era "pela tua saúde mental e financeira, pela tua capacidade intelectual, pela tua auto-estima, pela necessidade básica de comer que todos temos, agarra-te aos neurónios e foge! que nunca ninguém venha a saber que querias trabalhar aqui." mas não dá jeito...

ora... hoje recebo um mail de um actor. como sempre, vou espreitar o cv, ver se o conheço. o que descubro acerca das habilitações e percurso desta pessoa leva-me a responder o seguinte:

"se viermos a necessitar de actores pessoas na sua área, o seu currículo será tido em conta."

eu sei, sou uma menina má. mas já estou tão cansada...

segunda-feira, 28 de maio de 2007

para bom encenador...

há uns dias o patrão-produtor deu-me para ler um texto e dizer-lhe o que achava. eu li e disse, o mais polidamente que consegui, que aquilo, pronto, vá, não tinha muita acção e que não estava bem a ver como poderia encenar-se um mono-diálogo muito mortiço em que se conta em vez de se fazer...
mas isto sou eu, não é? como a opinião não era grande coisa e o autor é amigo do patrão, deixou de interessar.

portanto vá de dar o texto ao especialista: o patrão encenador.
ele às tantas pergunta-me:
- tu leste isto?
- li. o Porthos pediu-me para lhe dar uma opinião.
- e o que é que lhe disseste?
- o que é que achas?
gargalhada

entra o Porthos
- então, o que é que achaste do texto?
- olha, só vejo uma maneira de encenar isto. divides o palco em dois. de um dos lados pões os gajos a falar. do outro metes mulheres nuas.

sexta-feira, 25 de maio de 2007

pipocas?!

esta noite fui ao cinema. ver um filme que não interessa ao caso. nem interessa de maneira nenhuma. adiante.
chego cedo, estão a começar os anúncios. subo quase até lá acima para encontrar uma fila vazia. quando a percorro para me sentar o mais ao centro possível, reparo que está uma senhora na fila de cima com os pés descalços - em alvas peúgas - assentes nas costas da cadeira. ignoro-a e sento-me. ela fica ofendida por lhe ter abanado o encosto para os pés e muda de lugar mais o seu querido.
acomodo-me e fico à espera do filme.
o filme começa e quando ainda estamos a decorar o nome das personagens, vejo um senhor sozinho a subir pela coxia à procura de lugar. achou que na minha fila é que se estava bem, sentou-se a uma cadeira de mim. trazia um gelado, que ia comendo sem fazer grande barulho. o filme tinha partes com graça, e ele lá se ria e dizia baixinho "ai, ele agora esteve bem" e batia na perna. mas dizia baixinho e eu tudo bem. lá para o meio do filme, aquilo engonha um bocado e começam os silêncios. penso que agora ou se dá um bom twist ou um twist à típico filme americano - que era o caso - e entre o som das minhas cogitações e das vozes dos actores, surge um outro som peculiar. de chupar qualquer coisa. com muita saliva e pequenos estalinhos. penso "mas o velho ainda estará a chuchar o pau do gelado...?!". ignoro. não ignoraria se estivesse a alguém falar com alguém, a falar ao telemóvel depois de o deixar tocar alarvemente, a comer de boca aberta, ou aos pontapés à minha cadeira - coisas corriqueiras com que embirro mas que não estavam a acontecer, nesta noite em particular, à minha volta.
o que estava a acontecer era a subida de volume dos "chups chups" do senhor. até que olho para o lado. no preciso momento em que ele está a tirar a cremalheira de dentro da boca e a passeá-la pelo ar. rebolei-me toda ali [em silêncio], mas ele não deve ter reparado que reparei e continuou a meter e a tirar o estupor da placa da boca. tossiquei. ele lá meteu aquilo para dentro, mas continuou com uns discretos "chups chups" filme afora. até chegar à penúltima cena e sair, antes de acabar o filme.

o mundo está de pernas para o ar, de peúgas brancas, a tirar próteses dentárias da boca.
as pessoas queixam-se... das pipocas?!

quinta-feira, 24 de maio de 2007

olha! olha!


[ph.t. | espanta-espíritos]

vai uma pessoa, cansada de um dia de trabalho e uma dose de dobragens nocturnas, ao supermercado... sendo essa pessoa alguém que não sai muito, aproveita-se sempre para dar uma voltinha a ver se se encontram pechinchas. eis senão quando - oh surpresa! -, na zona dos brinquedos, se dá de caras com uma pilha de caixinhas coloridas, qual instalação, com uma pista e, no centro um televisor que passa imagens [demasiado] familiares.
estão a vender - e passo a citar - "os carros dos teus personagens de tv favoritos!!" [assim, com muito ponto de exclamação]. ora claro que uma pessoa desata aos saltos no meio do corredor, a soltar exclamações em japonês e falar numa linguagem técnica que só o seu interlocutor percebe.
"sukéé*! o saber! ah, e ali está o spin axe! mas espera, não têm o beat magnum? epá, e não vendem os motores de torque em separado? será que têm o G.P.Chip e carroçaria ZMC? mas olha ali o sonic!"

isto ser doença no Japão, com adultos vestidos de personagens de desenhos animados com calções brancos e fitas na testa ainda vá. agora encontrar este mundinho ali no Carrefour de Loures...

conclusão: vai a pessoa ao corredor do pão com um sorriso [literalmente] de leste a oeste e uma das tais caixinhas devotamente apertada contra o peito, observada por quem passa com a estranheza habitual de quem pensa "mas não é suposto ser o gajo da relação a gostar de carrinhos...?"
não, senhores... porque EU é que sou o Gou! e EU é que tenho um Cyclone Magnum! tá bem?

ora foi ir para casa, comer a correr e vai de montar o carro nas suas ínfimas pecinhas muito à japonês, arranjar umas pilhas, colar os autocolantes [muito traquejo dos tempos da Barbie] e zás! corridas no hall de entrada! com uma almofadinha à frente dos pés porque o sacana do carro anda na bisga... e voltaram a ouvir-se, noite dentro, expressões de um mundo altamente secreto:
- Sá! Lédi..... Go!
- Iké Mágnum!
- Sukéééé!
- Nani?
- Páua busta!
- Ike gueguessu!
- Dji pi chip... **

antes de se arrumar o novo brinquedo na estante, como um diz mata e o outro diz esfola, vai de chamar a gata com bons modos, esperar que ela se sente com ar de parva no meio do hall de entrada e soltar-lhe o magnum... aquilo é que foi vê-la fazer exercício para um mês... eheheh...

*fonética do japonês para "fixe"
** japonês para: "Então! ready, go!, "força Magnum!", "Fixe!", "o quê?", "power booster", "força!", e "G.P. Chip"

segunda-feira, 21 de maio de 2007

"se fosse...

uma cidade, seria..." era como começava um "exercício" que costumávamos fazer num certo bar com cheiro a palco, noites fora. veio ter comigo sob a forma de desafio da pinky. tarde mas não falham, aqui estão as respostas.

hora do dia | um início de noite em dia de verão [que sabe a longo, morno e pleno]
astro | lua
direcção | onde o dedo calhar no mapa
móvel | algum móvel bem disposto desenhado por mim :)
líquido | água para mergulhar e vinho tinto para vaguear
pecado | todos e cada um, em pequenas doses de insanidade. sou uma pessoa, não um sacrossanto tupperware.
pedra | uma pedra do fundo do rio, polida e encontrada pelo acaso
árvore | o pomar todo, com perfume de limões e maçãs. e com um plátano da minha infância.
fruta | morango. com chocolate quente... [se calhar é melhor começar a repensar aquilo dos pecados eheh]
flor | papoila para a melancolia, girassol para as gargalhadas
clima | morno e temperado. que dê para andar de vestido.
instrumento musical | nunca conseguiria optar entre piano, guitarra, sax ou bateria
elemento | diz que é o fogo, diz que sim
cor | azul intenso, o da parede do meu quarto
animal | cavalo
som | o riso. para o bem e para o mal.
música | já alguma vez disse que a minha vida é um enorme e eclético musical?
estilo musical | talvez o jazz, talvez swing, talvez...
sentimento | paixão
livro | disseram-me [há muitos anos] que seria um do Rui Zink. agora ando mais Rodrigo Guedes de Carvalho. depende das tais luas.
comida | massonga! mas com direito a sobremesa.
lugar | onde quer que esteja aquele abraço... mas vá: um certo e determinado quarto de hotel numa certa e determinada água furtada de certa e determinada cidade onde se fala francês...
gosto | doce!
cheiro | a pele, depois de fazer amor. a palco, quando posso lá viver
palavra | te-a-tro
verbo | viver
objecto | podia dizer o meu anel mas... seria o meu estojinho de aguarelas
peça de roupa | com um simples vestido preto... :)
parte do corpo | olhos. e boca. os dois em mim funcionam como um só
expressão facial | sorriso. tem de ser
desenho animado | aieeee... só um? pronto, processa-me, pinky, mas eu tenho uma secreta tara pelo mau feitio e pela sensualidade obscura e saltitante da fada sininho ;)
um filme | qualquer coisa simples, de argumento rico e grandes actores, com um toque obrigatório de sotaque e humor britânico
forma | de S
número | já fui o 23. agora não sei. eu sou mais de letras
estação | do ano? primavera . de partir ou ficar? uma de comboio no meio do nada.
frase | "nobody expects the spanish inquisition"

era suposto passar a outras pessoas. mas fica aqui para quem quiser vir "pescar", com a condição de que me avisam para eu ir cuscar.

sexta-feira, 18 de maio de 2007

pelo amor da santa

domingo, 13 de maio... algures no subúrbio


se quiserem mesmo saber, é só clicar na imagem... boa sorte...


ps: peço desculpa pela pouca actualidade do post. as ideias chegam a tempo, o tempo é que não...

segunda-feira, 14 de maio de 2007

curta

patrão entra na sala, pergunta se eu tenho um adaptador para jacks.

respondo que não, que sou uma rapariga séria. e que os únicos cabos que havia estavam numa caixa em cima da mesa dele.

patrão sai, ouvindo-se ainda um "parece que não tenho cá nada..."

patrão entra passados uns segundos. dirige-se à mesa dele, de onde tira um cabo com cara de ter adaptadores de jacks.

sai a cantar a versão bissilábica do "Indiana Jones", como em tatarata-tataraaa.

eu quase que lhe vejo o chapéu a nascer dos caracóis, os suspensórios a transformarem-se num sexy casaco de cabedal suado e o cabo a transformar-se em chicote.

sexta-feira, 11 de maio de 2007

diva [gações]*








desenhos [ou, vá, esboços] de polegar

*ou... vontade de bater com a porta em grande estilo, tempo livre e uma caneta...