quarta-feira, 28 de fevereiro de 2007

em cadeia

eya! já não me mandavam uma destas há que tempos... obrigada, raio de sol :)

sete coisas que faço bem:
(não entrando nas poucas-vergonhas)
1. bolos e massas
2. conduzir (sim, sou gaja mas conduzo bem :P)
3. conversar/ouvir
4. dormir horas a fio
5. rir feita parva
6. estrebuchar e logo a seguir passar-me
7. representar

sete coisas que não posso/não sei fazer:
1. aturar gente demasiado umbilical
2. dizer não (esta já vinha de origem e aplica-se, especialmente no acto de deixar de ser parva e esquecer o teatro)
3. controlar a minha bocarra
4. escolher o jantar
5. não transformar dinheiro em prendas e mimos, se recebo algum extra
6. resistir a sapatos ou a casacos (certa e determinada pessoa diz que devia aderir aos casacos-e-sapatos-anónimos: "olá, sou a polegar e não namoro um casaco há 3 horas")
7. estrebuchar no trânsito com o mais suburbano português

sete coisas que digo:
1. raisparta (também tu?!)
2. eya!
3. yellow (a atender o telefone ou no msn - coisa pegajosa do espanta)
4. assim em bom...
5. pelo amor da santa!
6. poucas-vergonhas
7. e eu tudo bem! (em agudo)

sete coisas que me atraem no sexo oposto:
1. um sorriso franco e bonito
2. vontade de partir à aventura
3. pescoço e linha dos ombros viris
4. pele às pintas ;)
5. sinceridade
6. inteligência e vontade de não morrer estúpido
7. muito sentido de humor e tendência para a parvoíce

sete pessoas para serem celebridades:
1. eu... desculpem a falta de chá, mas estou farta de falsas modéstias e trabalho deitado à rua
2. o espanta, que também já convinha ser lançado no estrelato como grande fotógrafo que é
3. o Jota, o melhor actor que conheço e o mundo ainda desconhece
4. a colher de chá, outra grande actriz
5. o Guinho, também actor
6. o MPR - ainda por confirmar, mas cheira-me...
7. assim de repente... a minha "mai nova", que tão piquenita já escreve tão bem...
8. o meu pai. devia [citando e bem a minha irmã] ser consultado para quaisquer decisões políticas deste país. e é tão charmoso... ;))

sete pessoas a quem quero passar esta brincadeira:
1. espanta-espíritos
2. MPR
3. colher de chá
4. pinky
5. mary mary
6. LFM
7. wicahpi
e mais quem lhe apetecer roubar... é só avisar para eu ir lá cuscar :)

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2007

desencaixes

questiono-me a capacidade de encaixe. quando a transparência toma conta de mim, surpreende-me a velocidade com que me conformo com a minha invisibilidade. houve um tempo em que me era essencial tatuar o coração dos outros. parecia que respirava melhor. hoje já só sobram disso esquiços, poucos, de tinta debotada e braços caídos.

subo as escadas, linguagem corporal de quem já sabe o que está ali, para onde vai, onde vai dar a porta fechada. nariz no ar para cheirar as recordações. sim, ó tu de cabelo no ar, conheço-te. e tu também me conhecias. esqueceste já as picardias sorridas nas tardes mornas e as mãos que te enfeitaram o bar com velas e percussões e poesias. talvez os olhos estejam assim tão diferentes. tu és dos tempos em que a esperança era perfeita. em que qualquer desafio era vencível. e tudo era um deslumbre e um caminho de pedras polidas. se calhar por isso não te lembras de mim. era a miúda de cara estragada da adolescência, de calças de ganga, passos incertos, sorriso de leste a oeste com a vida. tinha os dedos rasgados de cortes de papel, dos primeiros mailings, e o nariz farejante do pó denso dos bastidores e da antiga alcatifa que já não está lá - aquela que me deixou marcas de queimaduras de alegria. agora tenho franja e um pouco de peso a menos. deve ser isso. mas eu sei-te tanto que sem pestanejar pedi uma das tuas tostas. sim, com tomate e orégãos.
e com um meio sorriso percorro à distância o varandim onde fazia rir o bebé de olhos de safira. já deve estar enorme. a mãe dele também se cruza comigo, tantas vezes, e nunca me reviu, apesar da simpatia pronta com que brinda um qualquer um.
e a mãe dela, essa outra, varreu-me um par de vezes do lado de lá, de cima do palco, fixando-me como quem me procura em ficheiros há demasiado tempo arquivados. se a cabeça já lhe dava para pouco, agora... como me encontraria na bilheteira horas infindas, a martelar bilhetes de dedos sujos de tinta carimbo, ou a vadiar pelos palcos enquanto não começávamos? como me reencontraria naquele vestido preto e luvas compridas que me passaram para a mão sem apelo nem agravo?

já no fim, outro fantasma que perdura pergunta-me o que quero beber. não há café.
- eu conheço-te, não te conheço? surpreende-me a surpresa de me reconhecerem.
- sim, eu já trabalhei aqui. e ficaste tu e saí eu porque tu cantavas.
- ah, do tempo da B., não era? sim, desse tempo antes do teu, os meus primeiros passos de bebé livre foram ali em baixo, sala um.
- pois. há muito, muito tempo. o tempo em que a minha vida era preenchida com sopros de alegria e tudo se fazia com um lençol, e eu pertencia, e eu fazia, e eu era quem queria ser.
- mas também já te vi numa peça com o P. e a S., não já? já, já, noutra casa que me arrancou a ferros aquela que eu devia ser.
- sim, sim.
- desculpa não te ter reconhecido logo.
- não há problema, é normalíssimo. ainda têm capilé?

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2007

não leves a mal



andam por aí. festejos pingados, com fitas e papéis sujos, meio desfeitos calcados na calçada. as cores andam pela rua, pardacentas de pés com sapatilhas e poucas horas de sol. lembrei-me. sem querer, porque pensava que já tinha apagado essas linhas. lembrei-me. desse rosto encardido, de cores destroçadas, do fim do dia. que eu gostava de ver derreter às minhas mãos, ao chamamento do meu resfolegar. dos pequenos gemidos tremidos que te saíam das pálpebras e da boca fechada. gostava particularmente da hora da lágrima. o momento alto do sexo, ultrapassando mesmo o instante fremente em que finalmente a minha carne rasgava a tua e éramos um. era meu, por excelência, aquele momento em que logo a seguir ao teu orgasmo caías. o teu corpo ainda em estremecimento e já outros fantasmas te abandonavam. e continuavas a cair até desfazeres o rímel em lágrimas pretas, em borrões que pareciam aranhas gravadas em torno dos teus olhos a tinta fresca. sulcos escurecidos, ainda hoje não sei se da tristeza ou só das pinturas, deslizavam-te por essa pele tão lisa. e eu podia jurar que via. a tua respiração em arabescos de neon, os soluços como argolas de fumo da lagarta no cogumelo. as palavras segredadas pequenos comboios de lata. sem qualquer componente químico a invadir o meu cérebro, apenas a adoração que te tinha. as cores explodiam em ti, deslizavam no ar e pousavam-me na pele ainda arquejante, que as absorvia com um arrepio. e depois o negrume. do teu cabelo lustroso no meu peito. até ao dia em que ao acordar tinhas desaparecido.

hoje recordo-te. ninguém nota como isso me arranha desgostos pequenos nos parêntesis do canto dos lábios. pintarei aranhas nos olhos e rasgarei tinta preta pelo rosto. desenharei um sorriso nos lábios. e sairei para esta festa decrépita à tua procura.

indigo nocturno

havia uma redoma feita de tecido. nos destroços da minha pele quebrada reinventavas suspiros às escondidas. ali tudo se descobria. ali estávamos nus. a luz era filtrada e projectava graffitis azuis nos corpos cerzidos. éramos nus tatuados. escondidos. rezando sem deus específico para que a luz não apagasse os desenhos no suor. essa era a hora de sair. então sopravas e eu soprava de novo. podia ser que de tanto soprar as horas se mantivessem suspensas. e depois abocanhávamos os ponteiros com soluços desconsolados. fechávamos as portas e sabíamos que ali tudo ficaria parado à nossa espera. sarcasticamente o pó suspendia a sua viagem até que retornássemos e ele voltasse a passear-se lentamente, contando-nos os segundos das nossas fugas.
depois rasgámos a redoma. e no lugar das lágrimas montámos um altar onde a luz penetra num azul escuro de noite sem estrelas que não as dos olhos. forrado a cores sem tino. na lateral, dormem relógios de corda. há um vago cheiro de eternidade.

domingo, 18 de fevereiro de 2007

who's your momma now?



pois que ninguém manda em mim. ninguém me obriga a ter um template de que não gosto. e o meu refinado apreço pela estética [cof cof] não calará ninguém!
bati às portas todas, fui a fóruns de bloggers [uma experiência demoníaca, cruzes! eles falam uma língua própria e tudo], mandei mails, pedi ajuda às mais altas instâncias e a outros bloggers que tinham ar de cromos. falei com amigos que têm o mesmo template e que também não sabiam o que fazer.
sem respostas, acabei por conformar-me.
fiquei sozinha, com a minha teimosia. e com um marido zen, culto e extremoso... e a gata a quem dar uns pontapés de frustração de vez em quando.
com as minhas pesquisas e o pouco tempo que tínhamos livre no fim de semana, queimámos as pestanas para o Polegadas não perder a sua imagem de marca.
obviamente que tem algumas pequenas diferenças - no novo blogger ou se domina o html na perfeição, ou se só se sabia fazer umas maroscas fica-se completamente preso. mas faz-se o que se pode... a evolução ao longo da noite está patente na imagem acima, nos comentários do blog de teste que criámos... desculpem-me o francês, mas estava fora de mim, alojada no meu "eu" mais taxista...

o que importa é que já podemos todos conversar e a essência deste estaminé não ficou afectada [ou melhor a sua essência é afectada de nascença... sou eu ;)]

com um pouco de calma, aos poucos, voltará ao que era...
e vocês, os poucos sobreviventes que ainda seguem A Palavra d'Este Blog, podem voltar... mas voltem de mansinho que eu agora vou dormir, sim?

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2007

evangelização

devido a ter sido forçada a converter o meu blog ao novo blogger, este estaminé está com problemas de pluralidade. parece uma coisa de igreja... ou do demo...

quero eu dizer que parece haver um conflito entre o meu template e o novo blogger que impede os meus caros visitantes de inserirem comentários. [se bem que este template foi "adquirido" na blogger templates...]

estou a bater o pé. já pus um raspanete e um pedido de ajuda no fórum destes tansos e tudo.
não quero mudar o meu template, a não ser em último recurso. e não tenho conhecimentos de html ou de css para construir um igual de raiz.

por isso mesmo suplico a todos paciência. garanto que se não me for dada nenhuma solução até ao fim desta semana, lá terei de fazer o que não quero. por vós, caros leitores d'A Palavra deste Blog...

terça-feira, 13 de fevereiro de 2007

ao que sabes?




exposição de fotografia pin-hole . o beijo
do nosso [e muito meu] querido espanta-espíritos
no restaurante alfândega, ao campo das cebolas
a partir de 14 de fevereiro.

os beijos, os "quases". onde é que a nossa realidade acaba? onde começa a fantasia que inspirámos? porque nos reconhecemos na película?
os protagonistas são quem quisermos que seja. somos nós.

o método é do passado. a paixão é eterna.
a vida é uma caixa de chocolates, dizia o outro.
não podia estar mais de acordo. também é com uma caixa de chocolates que se tiram fotografias... ou melhor, que alguns loucos apaixonados fazem fotografias...

aqui as palavras são secundárias. a primazia é ao olhar, ao olfacto, ao sabor, à memória, à surpresa das coisas simples.

e, a isto, chama-se concretizar ;)

um grande obrigada aos amigos - que nos encontram, nos abrem portas e nos fecham nos armários quando é preciso :)

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2007

intervalo para política

Yeyyyyyyyy!

ps: a quem foi votar, obrigada.
a quem não se quis dar ao trabalho: agora não se queixem.
à Laurinda Alves e quejandos moralistas-a-quem-eu-furava-os-preservativos- tirava-a-empregada-e-punha-a-lavar-escadas: tomaaaaaa!!!


a emissão retomará o seu curso normal dentro de momentos...

terça-feira, 6 de fevereiro de 2007

uma receita de recibos verdes

base:
:: várias horas de espectáculo diárias num Monumento muito frio, para crianças irrequietas e com colegas de trabalho com estranhas mudanças de humor
usar e abusar para manter o ritmo cardíaco acima da linha recta.

:: voltar a correr para o escritório para mais umas horas de trabalho em frente ao computador e agarrada aos telefones, com súbitas mudanças de ritmo. uma pitada de "já agora faz vinte quilómetros ao fim de semana porque é preciso controlar a bilheteira por 5 minutos" e quejandas tarefas.

:: pagamentos dentro do "só não morres à fome porque comes pouco".
levar à vidinha durante dois anos-vai-para-três até atingir a estagnação, o desgaste e a quasi-morte cerebral.

::uma gata carente de aquecedores que, por isso, larga pelo a duplicar - ergo asma, ergo sono interrompido.


condimentar com:
:: uma exposição - um projecto de vida - que arrasta para horas tardias, fins de semana sem dormir, muito vinho tinto, mimo de que aparece para dar uma mão e... uma boa dose de olheiras

:: o lançamento do livro de um bom amigo em que ele pede explicitamente que eu participe


para um efeito explosivo acrescente-se:
:: um telefonema que informa: "estamos a contar contigo para mais 51 episódios de let's and go, fazeres as dobragens e revisão de textos, se bem que desta vez precisamos de entregar 7 por semana."


nota: bater à mão e levar ao micro-ondas, porque isto não é receita para quem tem bimby...

quarta-feira, 31 de janeiro de 2007

cartas de amor . procuram-se

das antigas, daquelas de autores portugueses às suas amadas [ou de autores portugueses aos amados, ou delas para eles, ou delas para elas, não sou esquisita], onde escreviam os seus dedos e não os dedos dos fantasmas das suas personagens. daquelas que eram caneta e lápis e papel e mata-borrão. das que eram saliva e selos e tinta manchada de sal.

ando em pesquisas e falta-me o tempo, sempre o tempo.
fica o apelo. sirvam-se de mail e comentários a gosto.

como recompensa, há-de pensar-se em qualquer coisinha.

muito agradecida.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2007

frios

é acordar um dia com a parangona da TVI: "Portugal a bater o dente!" e ao domingo de manhã com uma mensagem da irmã a dizer "está a nevar!" - note-se a semelhança de pontuação entre uma irmã entusiasmada e um telejornal nacional.

aliás, quando lançaram o alerta laranja, esqueceram-se de mencionar um pequeno apartamento às cores ali para os lados do subúrbio lisboeta...

os dias fazem-se de várias camadas de roupa [hoje é uma long sleeve e 3 camisolas], de parecer um repolho farfalhudo com pernas, de abdicar de algum bom gosto no vestir em prol de ter o mínimo de arrepios possível. são lábios brilhantes de baton de cieiro, salas abafadas de fumo porque abrir uma janela é suicídio. é o ataque de asma porque está frio e depois o ataque de asma porque o novo aquecedor-ventilador queima o ar. são, portanto, pesadas bilhas cremes escada acima porque a Galp se esqueceu de preparar as novas Plumas-das-pernas-boas para os aquecedores a gás antigos.

é também a noite de bastidores e saudades, a tarde de sábado a livros, conversas adiadas, chá de limão e gengibre. são as noites de Dr. House a café e pão quente com manteiga - sim, novo investimento: uma máquina de pão baratinha mas que faz um pão maravilhoso e [diz que sim] massa fresca e doce e pizzas.

estes dias fazem-se de meias e mantas e edredons em camadas, pijamas e casacos de polar, no eterno sofrimento por antecipação do momento em que vou ter - maldição de corpo pequenino, bexiga pequenina - de me levantar da cama de madrugada e atravessar o hall gelado...

o inverno tem coisas tão bonitas... mas já me cansa, confesso. só sonho com poder voltar a tomar o meu café e ler o livro no jardim do Príncipe Real, à hora de almoço...

terça-feira, 23 de janeiro de 2007

oioai-ai

costumo dizer que o mundo do espectáculo é um penico. mais um exemplo:
um jantar de - espera-se - trabalho é o mote para uma noite que se prolonga porque, afinal, a companhia é tão agradável que não apetece ir já embora.
pessoas que entram, passam, sentam-se, bebem um copo e voltam a sair ou ocupam de vez mais um lugar arranjado à pressa. aquele lugar é como mala de mulher. é como coração de mãe: cabe sempre mais alguém...

conversas cruzadas com gente estranha e, de repente, um casal discreto - e até ao momento apenas semi-descontraído - perde a pose.
eu - tu??? és o vocalista???
vb - s... sou...
ee - epá, parabéns, pá, adoro esse single.
eu - o Fred! o Fred trabalhou comigo nas dobragens!
vb - fixe, gostaste? ah sim, conhece-lo?
eu - quem é que não conhece o Fred... está metido em trezentas coisas ao mesmo tempo.
vb - é verdade eheh...
ee - deviam começar a fazer uma lista das bandas em que o fred não entra...
[gargalhada]
ee - epá, eu não gosto de músicas românticas, mas se ouço esta passo o dia a cantá-la.
eu - verdade, este homem é um filtro de lamechices!
vb - fico tão contente...
eu - mas agora a sério, muitos parabéns. passo horas no myspace para vos ouvir.
vb - obrigado, muito obrigado. nunca pensei que já desse nas vistas.
eu - então não? fica no ouvido.
eu e ee [em muito desafinado mas com coreografia de cabecinha] - amo-te mais palavras que um livro, amo-te muito mais noites que o verão...
vb [não consegue conter o riso] - sabem que o cd sai para a semana?
ee - ah sim? vamos estar atentos.
eu - precisas de fotógrafo para a banda?
ee [piadola] - epá, arranja-me uma cópia!
[outra gargalhada]
vb - olha, assim como assim... nós ganhamos tão pouco com os cds que mais vale copiares...
[gargalhada #3]
eu - ná, da nossa parte vais ter direito aos teus 50 cêntimos...
vb - mas que história era aquela do fotógrafo...?

já podem contar com os 50 cêntimos cá da malta :) parabéns.


eu . esta vossa polegar
ee . espanta espíritos
vb . vocalista da banda

quarta-feira, 17 de janeiro de 2007

diários da perna de pau #5 . o princípio do fim



hoje é o princípio do fim. o grosso do nosso trabalho termina aqui. começa agora a verdadeira comunicação. a parte visível.

não é um espectáculo fácil. tem, para mim, como mais-valia, um cenário chamativo, música forte, texto denso e interpretações com momentos muito bons. criticar, estando cá dentro, é muito fácil. desculpar também. tenho as minhas considerações, mas neste caso específico não quero ser tida nem achada "publicamente", porque pecaria. por excesso ou por defeito.
acho que lhe chamaram ética profissional, eu chamo-lhe simplesmente bom senso.

lembro-me do primeiro "ditado melódico" do patrão-encenador, que converti em projecto. lembro-me de tudo o que foi calcorreado, telefonado, enviado, recebido, reunido, viajado, investigado. as pessoas, tantas pessoas, tantos braços e gritos e chatices, sorrisos e motivações, injustiças e preocupações. tanta unha roída, tanta auto-estrada. sorriso.
o papel e as palavras foram, em grande percentagem, o meu pedaço neste todo.
hoje sou peça de engrenagem ainda com a vibração do caminho no corpo, a sentar-se e a tentar descontrair a pele de encontro ao veludo da cadeira. a ver o resultado final de que eu sou película transparente, forro de gaveta.

este é, de facto, o primeiro espectáculo que produzo desde o imaginado ao acontecido, sem pôr os pés nas tábuas. dói, confesso. já é estranha mas constante companhia essa dor. já nem sempre dou por ela. ah, estás aí...

hoje estou nervosa. por colegas meus, do meu coração, que estarão ali em cima, de alma aberta naquele reino dos pós mágicos e borboletas [eles são muito machos, mas que se lixe] que eu conheço tão bem e de que tenho tantas saudades. pelo "meu" encenador, por quem cresceu ao longo deste tempo um carinho para além da admiração profissional. pelo sucesso deste filho mal parido, tão sofrido, que gostava - apesar de todas as condicionantes naturais - que fosse abraçado pelo máximo de público possível.

já não está nas minhas mãos. este não.

entre os dedos conservo apenas uma surpresinha [em palavras e imagens, que mais?] para os meus queridos companheiros de tábuas, com os devidos desejos d'A Bênção d'A Enorme Bosta Fumegante...

segunda-feira, 15 de janeiro de 2007

d'O Método

fui ver um ensaio, daqueles tipo treino à porta fechada mas para gente da arte. subiu-me até certo ponto a expectativa porque eram pesos pesados a trabalhar, com um peso pesado a dirigir, com uma técnica supostamente peso pesado.

foi pesado de digerir. não no sentido de um texto forte com interpretações marcantes e encenação de choque. foi pesado de digerir como aqueles almoços de cozido à portuguesa desenxabido que nem sabem bem e ficam a trabalhar no estômago o dia todo. foi pesado de digerir porque foi... uma seca. compriiido, com má encenação, atabalhoada e com cortes injustificados longuíssimos, actores em overacting constantemente, sem um estudo dramatúrgico do texto feito como deve ser, que se notava nas variações de personalidade completamente desenquadradas... uma contra-regra que fazia trabalho desnecessário se os actores se dessem ao sacrifício de mexer uma cadeira e trazerem na mão os adereços, um texto que podia ser forte se não fosse tudo o resto ser mau ao ponto de nos desviarmos do elemento principal [a história, sim, a história, bolas!]... podia continuar com críticas até ao inferno congelar...

adiante. intervalo. [a reacção foi mais "intervalo?! não acabou?! dasss!"] fuma-se um cigarro e aparecem colegas de amigos. ouvem-me comentar e arrebitam a orelha. ia eu na parte de "mas o actor está com uns tiques de homossexual que não se percebem, não encaixa, pá". [um àparte para contextualizar e não parecer que sou homofóbica: ele há homens homossexuais em que se notam os tiques efeminados e outros em que não se nota. é um facto, pronto.] ora o moço mais arrebitado padecia, sem qualquer dúvida, dos mesmos tiques. interveio:
- desculpa, não percebi.
[devia estar à espera que eu me encolhesse, mas eu e a minha bocarra]
- os tiques efeminados do actor não encaixam na personagem. tudo bem que um tipo com este background pode ter problemas sexuais mal resolvidos, mas o homem está em overacting e ali não bate certo.
- não deves ter percebido bem o contexto da criação da personagem. conheces O Método?
[com maiúsculas. claro]
- conheço, obviamente. sou actriz...[interrompeu-me no "vai para 9 anos"]
- é que eu sou aluno dele há 3 anos e claro que ele, como todo o elenco, estão a utilizar O Método para a concepção das personagens e se calhar não percebeste isso.
- eu não tenho que perceber que raio de ferramentas ou técnicas - de renome ou não - eles utilizam para fazer a peça. a técnica, como o actor tem de ser fluída, transparente. só tenho de ver ali a história e a personagem.
o moço lá continuou na sua babada análise d'O Método, e chocou-me a sua incapacidade de ter um juízo crítico para com a peça e muito menos para com o seu mentor. eu ignorei, sorri e acabei por, para não me chatear com estranhos, falar do "opiniões diferentes é que é giro, a arte é mesmo assim".

como explicar? para mim, e para muita gente que não tem de ser formada - chama-se público -, o método - seja ele qual for - é um meio e não um fim. é uma forma/fórmula que se usa para se conseguir contar a história. não é ele em si que vou ver numa peça. para isso tenho aulas. aí sim, cabem os exercícios e as perdas de controle descontextualizadas.

recorrer-se a uma bagagem emocional, a situações e emoções próprias para utilizar em determinado momento para a personagem? check. o que/quando/como se usa é com o actor.

o que se vê? uma interpretação extraordinária, consistente, forte, contextualizada.
o que não quero saber: se fez respirações e "mhmmmms", se imaginou uma luz verde a entrar-lhe no peito, ou se se vizualizou com um ataque de hemorróidas e o respectivo cocózinho encravado para chegar ao momento de sofrimento e lágrimas.

seitas? facciosismos? falta de critérios? get a grip.
Palavra d'O Método
graças a Stanislavski.

adenda: esta situação passou-se num ensaio que não do espectáculo que estou a produzir...

sexta-feira, 12 de janeiro de 2007

meada

acorda. a despedida do calor da pele. o frio a vestir. voar às costas de um anjo. frio que corta. espera e café de saco. carrinha. o meu tamanho não carrega plasmas de 44 polegadas. o caminho é por aqui. música do mundo. falta um dvd. pequeno almoço com guia. folhear o Y, "olha tu!". regresso com sotaques. "sou o único que nunca teve um acidente com a carrinha". manobra perigosa, desvia, acidente. pára que pára pára na calçada. triângulo. esperar e praguejar. arrancar o pedaço de plástico. regresso à base, telefones malditos. "venho pela presente informar V. Exa.". o spot de rádio ainda não saiu. os plasmas não são assim. os convites estão a esgotar. "solicitamos o envio de um fax de confirmação até à data limite". a tua mãe já reservou? sim, sim, é ao estilo teatro de rua. não te estou a falar desse, do outro. falta um logo. muda o lettering. afinal tenho de te dar mais um parágrafo. pára. almoço, dividir a dose. cheira a fumo, está calor, tenho frio. fecha a janela. abre a janela, não vês que estou na menopausa. mas quantas vezes tenho de dizer que isto é co-produção? a Sephora já respondeu? falta assinarem as declarações. mas onde é que eles estão? já reservaste os teus bilhetes? mas como não viste o convite? desde quando é que temos limite para a estreia?! já tem música! és um génio. sim, logo às 21h. "detesto ir para o chiado sozinha". quando é que estreia? mas não recebeste o convite? sms. já temos o orçamento? o champagne. etiquetas, faz-me umas etiquetas. mas porque é que estas crianças não se calam, não páram quietas? vou lá calar os estupores. tens o contacto? água. mas vê o mail outra vez. laura, já te disse que não se entra assim no escritório dos senhores, larga a bolacha, desculpe lá, sim, pede desculpa às senhoras. descansa agora que os últimos 3 dias são de morte. eu sei, eu sei. bom fim de semana ainda ficas, eu fico.
pára.
o romeu fala comigo. soa a carros no trânsito.

atentamente,

quarta-feira, 10 de janeiro de 2007

diários da perna de pau #4


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ph.t. ms | txt polegar


palavras e fotos.
há histórias incontadas por detrás de um produto final.
poucos saberão, no fim de contas, o que foi dito. o que foi realmente dito e apontado num caderno velho, com letra apressada, depois de dias a implorar uma hora de atenção para cumprir prazos. de tópicos trôpegos de um génio, ao "pesquisa tu que eu não tenho tempo", como se chega a 28 páginas de simples papel?

poucos, porventura, terão acesso a uma imagem que teve de ser - para tristeza geral - retirada. os motivos são compreensíveis, claro [por uma vez?]. outras imagens igualmente geniais perdurarão, chegarão a ser folheadas, apreciadas, disfrutadas. para meu orgulho, com os devidos créditos em letras garrafais.

esta é a página perdida. de histórias que ficarão por contar. do equilíbrio ténue entre vitórias agarradas com unhas e dentes e sabores amargos de letras que faltam. de um trabalho de equipa que, como sempre, como em tudo, funciona como poucos. é, de facto, uma questão de sintonia.

segunda-feira, 8 de janeiro de 2007

cosmética

temos de encontrar aquele que nos hidrate as asperezas da vida. camufle as preocupações. e tonifique os desânimos.

de outras equipagens

uma manhã, cheia de nervos de segundo dia para dois actores. dia normal para os outros, sem descréditos nem diferenças. maquilhagem, roupas, frio e cigarros. o rádio só apanha a RCP e isso são risos e playbacks acrescidos.
na torre, no camarim, recebo um telefonema esbaforido da assistente de produção: um dos alunos que vem hoje está numa cadeira de rodas e os professores não tinham avisado. e agora, e agora? faltam 10 minutos para começar. o espectáculo decorre nos claustros superiores, não há elevadores. ainda penso depressa: vamos passar o cenário e charriot com roupa para o claustro de baixo. ainda me surpreendem os outros: sem queixas, sem resmunguices, todos acorrem, todos trabalham, todos carregam. telefonema para as altas entidades que de sentadas à secretária são demasiado burocráticas e não suportam ondas: temos de agir depressa, temos de ter autorização para ocupar os claustros do piso térreo. primeiro um não que gela o sangue, depois o sim. para dar tempo para alguns se vestirem, pede-se a um dos actores que já lá estava do ano passado para fazer uma pequena visita guiada. ele, que detesta fazer visitas guiadas, só perguntou de que falava: fala da fonte, das marcas na parede. coisa rápida só para as transições.

a adrenalina não deu tempo para considerações. só depois. todos, os lentos, os implicantes. os que no ano passado só arranjavam problemas, e os novos, que vieram este ano e não sabem que chão pisam. todos agiram sem pensar, sem umbilicalismos. eu ainda soluciono. ainda mobilizo. e no teatro, em alguns sítios recônditos, ainda há espírito de equipa. deo gratias.

sexta-feira, 29 de dezembro de 2006

terra queimada

sempre me fascinou o teu cheiro a lenha queimada. olhando-te à primeira impressão dir-se-ia que a tua pele branca de princesa cheiraria a algo como maçãs acabadas de cortar ou loção de bebé. mas tu nunca gostaste de regras nem de preconceitos. sempre fizeste questão de os quebrar. até a tua pele tem essa atitude. cheiras a queimado, a escuro, quando muito a brasas e cinza. e o teu cheiro entregou-te. não me apercebi ao início, quando apenas me sentia confortado. quando o teu lado negro me seduzia em noites agrestes e violentas. quando o jocoso e o irónico, o amargo e o irreverente me envolviam em abraços tão apertados que sentia os espinhos cravados e saboreava o sangue das nossas gargalhadas. mas agora tenho medo. das tuas chicotadas e da minha reacção. já não me satisfazem as nossas noites em que és rainha e esperas que te sirva. e os nossos dias em que violentas os meus pensamentos como se eu não fizesse nada como deve ser. na cama como na vida. sufoca-me a tua política de terra queimada, com que devastas os nossos lençóis e as minhas vontades. com que me humilhas ao sol e esperas às escuras. agora a tua pele incomoda-me. de tão fria, corta. de tão branca, fere. tu feres. não sabes fazer mais nada senão ferir. ficarás aí, dona e senhora das tuas dores. porque as que me inflingiste não são tuas para viveres. deixo-te com os teus troncos secos. deixo-te nessa supremacia de árvore torta, morta, torpe. de pé. altiva, sem mel. hoje dar-me-ei uma prenda de natal. vou-me embora. vou procurar a calma dos silêncios. onde a tua voz não me alcance com as suas navalhadas musicais. vou procurar terra fértil e quente. vou procurar uma trepadeira que me enrole, que me envolva, que me precise. que me pontilhe de flores na primavera. que implore um abraço quente no inverno.
porque agora abraças-me e tenho frio.

sexta-feira, 22 de dezembro de 2006

por detras dos montes



criação: Teatro Meridional
concepção | direcção cénica: Miguel Seabra
interpretação: Carla Galvão, Carla Maciel, Fernando Mota, Mónica Garnel, Pedro Gil, Pedro Martinez, Romeu Costa
no Teatro Meridional até 23 de Dezembro
4ª a Sexta às 22:00, Sábado às 17:00 e 22:00
Rua do Açúcar | Poço do Bispo
reservas: 218 689 245


o ar é frio e corta. na zona de armazéns estranhos para os lados do Beato, o grupo do Teatro Meridional já tem a sua casinha pronta. um edifício industrial todo recuperado, em tijolo vermelho. lá dentro, um tecto alto de traves pintadas, decoração simples onde apetece estar. bonito, acolhedor, com bom gosto. velas e aquecedores a gás [bom investimento], café de saco à discrição em self-service. o sorriso do rapaz da bilheteira também aquece. o programa é de borla e oferecem um livrinho com turismo de habitação da região de Trás-os-Montes. dá para ir lendo e fumar um cigarro, encontrar casinhas bonitas com preços apetecíveis. já começou a viagem e nem nos demos conta.
depois, entra-se na sala pequena de palco raso, muito fria. mas não faz mal. estamos em Trás-os-Montes. e começa. com sons, numa penumbra onde se recorta apenas o que nos deixam ver, em azuis e laranjas. sons de instrumentos estranhos, tocados à nossa frente. depois as vozes. e depois o turbilhão de pessoas, de transmontanos.
sem "deixas", sem texto, sem "dramaturgia"... muito trabalho de corpo e uma concentração notável digna do momento fantástico que supostamente acontece apenas uma vez em que um improviso sai genial. aqui não há improvisos. há uma contradança milimetricamente marcada, o som conjugado com cada movimento. há coreografias de maneirismos, de expressões, de cacofonias, de cantares, de objectos que são músicas. há fantoches que são pessoas e pessoas que são fantoches. há o sotaque assobiado e as canções que arrepiam. há as velhinhas. há os pastores. há os passos que não fazem barulho e que assim é que fazem sentido. há ilusionismo feito com os corpos e com os rostos e com figurinos que, a par dos objectos e do som e daquelas pessoas, nos levam no espaço e no tempo. sentimos o toque dos xistos, das madeiras, dos artefactos, dos fios tecidos à nossa frente, o crepitar de uma lareira que nunca vimos nas bochechas. invade-nos. em silêncios e sons compassados. em respirações e traços desenhados com o pincel do instinto, com a tinta das entranhas.
são sessenta e cinco minutos sensoriais, em que vemos, ouvimos, sentimos nitidamente retalhos. poesias visuais. recortes de vidas que este grupo - na verdadeira acepção da palavra - por lá absorveu e para cá veio tecer.
assim sim, vale a pena ver uma companhia subsidiada.

estão nas últimas representações mas merecem, ou nós merecemos, uma alteração nas agendas e nas compras para nos embriagarmos com estes licores de raízes e gestos.

quinta-feira, 21 de dezembro de 2006

os desejos do costume por estas alturas


[ms]

coisas doces, abraços quentes, as pessoas que realmente interessam, luzes indirectas e um pinheirinho enfeitado com gosto...
é preciso pouco para um natal simpático.
que o vosso seja bem aconchegado.
até já.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2006

diarios da perna de pau #3

o figurinista vai ao sapateiro. a produtora pede - como sempre - para ele trazer factura. ele telefona.

- o sapateiro não sabe escrever e o surdo-mudo que é vizinho dele e que lhe preenche as facturas não está em casa.

sexta-feira, 15 de dezembro de 2006

diarios da perna de pau #2

no calça descalça, numa peça de marinheiros, à última da hora decide-se que vão calçados. a Polegar trata de conseguir sapatos à borla. o chamado apoio, portanto. depois é a escolha dos ditos, não é?
conversa telefónica do Patrão-Encenador com o Figurinista, que estava na loja:


- tu agora vê lá que botas é que escolhes! não te ponhas com modas finas! eles têm de conseguir andar! isto não é teatro quieto, assim paradinho! isto não é teatro dos aloés! isto é teatro físico! teatro do corre lá para trás! é teatro de cenas de pancadaria! é teatro do amarinha pela rampa! pela tua saúde: é teatro do sobe ao mastro de 8 metros!

ah... já agora, e meses de orçamentações, negociações, estica-daqui-corta-dali-para-poder-pagar, contactos e trabalho manual do prop master depois, o grande Actor decide que já não quer a perna de pau. diz que é - e passo a citar - um "instrumento de tortura"... quem?, atrevo-me eu a perguntar...

segunda-feira, 11 de dezembro de 2006

diarios da perna de pau

estamos em fase de ensaios, num armazém, com cenário já montado [sim, tiveram de se chegar à frente com as madeiras]. entretanto, figurinos e adereços estão a ser concebidos e provados.
o artigo do momento é a perna de pau. para um actor genial - diz o encenador - e hipocondríaco - digo eu.
cá vem, todas as semanas, o mestre de adereços [prop master, como eu lhe chamo], de boina francesa e saco dos chineses recheado de coisas estranhas. o actor experimenta a dita perninha, e queixa-se.
- está muito alta, não consigo apoiar o pé no chão.
o prop master abre o saco dos chineses e tira de lá um serrote. serra a coisa.
- não, afinal é do ângulo, percebes?
o prop master tira da chave inglesa e chave de fendas. desaparafusa-aparafusa.
- agora está-me a magoar o joelho
o prop master abre o saco dos chineses e tira um rolo de espuma.
- e eu vou usar uma bengala, não é? é que assim não temos bem a noção de como vai ser o andar...
inventa-se uma canadiana. enquanto isso, fala-se de como vai ser a bengala. sai-se o patrão-produtor:
- a minha avó tem uma colecção de bengalas antigas fantásticas, podemos ver disso.
- então liga-lhe.
- ela já morreu.
patrão-encenador parte-se a rir durante dez minutos, impossibilitando-me de conseguir falar ao telefone e ao actor de se queixar.
- isto até parece porreiro, mas tenho aqui esta dor na canela, no sítio onde apoia...
explora-se o armário, encontra-se uma joelheira que serve lindamente de almofada para o apoio da canela
- ah, muito melhor. muito melhor. como é que estou? hã? estou direito?
- ó Actor, os tipos que têm pernas de pau não andam direitos.
- pois é, pois é. mas isto está muito melhor. agora é só forrar estes ferros que me estão a cravar a carne...

sexta-feira, 8 de dezembro de 2006

fazer farinha - redux

comigo não fazem farinha. mas oportunamente, mais uma vez, não é comigo que a querem fazer.
citando - com o devido consentimento - alguém próximo: temos pena...


- uuuh... amazing! did you come up with that all by yourself?

quinta-feira, 7 de dezembro de 2006

é depois


[ms . um ano depois]

contava os dias e nem dei que os dedos deram várias voltas ao teu corpo. estava entretida com os entretantos. com os rasgões que o cinzento, o frio e os desesperos abriam em mim. que tu selavas e cicatrizavas com sopros ferventes. enquanto ias e vinhas na minha pele, preparavas uma gota de suor à parte. então é que percebi, era a teia, uma teia de fios leves, espessos e húmidos, curandeiros como os lábios que se tocam com mais do que desejo e carne. e enquanto dormia, tu tecias. de repente - tão de repente que foi de rompante - arrancaste-me das cinzas que me rasgavam, do cinzeiro de vidro onde jazem as beatas já gastas. arrancaste-me e empurraste-me com força, sem me largar a mão. deixaste-nos cair. num puff vermelho com olhos azuis. e conforme caímos, o puff apanhou-nos, secou-nos à lareira, fez-nos dar três voltas no ar e desaparecemos.

e estávamos ali como quem vai para o rio, duas ruas à esquerda, depois da viela adormecida nas luzes de uma porta, contam-se três candeeiros depois do início do quarteirão. fica bem perto da loja de brinquedos antigos de grades fechadas, de moldura de madeira azul escura. ali, onde se dispersam quentes no gelo do ar os laranjas dos prédios e dos seus recantos.
nas vielas de traços que já vou apanhando no teu bloco de notas. assim em azuis escuros para cima e amarelos para baixo. quando não só a preto e branco com o nariz frio. sem medo de me enganar, porque lambemos a meias o selo e enviamo-las de volta para a caixa do correio da casa às cores. porque são nossas, já, segunda casa como a primeira, em que as linhas às cores não nos enganam mais que as que riscam as palmas das mãos.
e as bátegas do rio soam estranhamente a uma nova bateria movida a gargalhadas, ali para os lados do 17. a serões quentes de palavras cansadas incansáveis. café. para ti simples. para mim com um assalto ao açucareiro espantado.

outro salto. e à nossa frente as princesas com quem canto em coro. e como as conheço, puxo-te agora eu o braço. e tu abres os olhos de espanto e dizes "eu não vi isto!". eu rio-me e arde. arde de vitória.
antes do salto final, com absorção de impacto no tal puff dos olhos azuis, a fada dos aniversários no estrangeiro deixa-me gin tónico para ler debaixo da almofada.

a meias palavras a meias, feitas as contas, foi isto. consta-me que será sempre isto.

terça-feira, 5 de dezembro de 2006

chico et les croissants


[ph.t.s :: ms | design & supporting arm :: polegar]

mais uma vez, escondeu-se nas mochilas de dois jovens errantes. e, nos momentos mais inusitados, saltou cá para fora. sim, o nosso repórter especial está sempre em cima do acontecimento. e veio provar que a três também pode ser romântico...

terça-feira, 28 de novembro de 2006

homenagem

uma pausa. na azáfama feliz - e em azert - de uma semana de descanso. de surpresas, de vendas nos olhos.
para agradecer a mobilização de uma mão cheia de dedos que surgiram de todos os lados num conluio secreto que se revelou num abraço denso e quente. internacional. movidos pela batuta do maestro do meu coração. sorriso.

ainda não fiz anos, mas posso dizer que esta prenda ficará e-ternamente tatuada na minha pele.

sexta-feira, 24 de novembro de 2006

bagagem

enrolo as meias e a roupa interior. viro as peças delicadas do avesso. faço uma marca em cada item que já está. não esquecer o pente e o amaciador. puxo com força os esticadores e transformo a mochila no mais redonda possível. depois, estendo um braço e o outro. os dedos tocam o esboço de ar que já não me pertence. espreguiço-me feita gata preguiçosa. em pontas de pé, soam os acordes da caixa de música. chão negro. madeira macia aquece os pés. deslizo numa dança minha, de melodias incertas. as ancas vagueiam, o peito arqueja. o cabelo perde-se no caminho. então, lentamente, a música estende-se, envolve-me. e no seu colo ondulo. ondas cada vez mais encaracoladas. espirais apertadas. toda a minha pele perde as noções da sua geografia, entrega-se nesse abraço aconchegado onde o cheiro é das pintas de canela e me respira ao ouvido. baila, bailarina, baila. pequenina pequenina. já cabes na bagagem.
vamos?
vamos.

sexta-feira, 17 de novembro de 2006

monte redondo, 14 de novembro de 2006


[ms]

Palavras soltas: "espectacular", "fantásticos", "puro deleite", "adorei", "quem me dera vê-los outra vez", estas foram algumas das expressões proferidas pelo grupo de alunos [...] que assistiram, no dia 7 de Novembro, à vossa representação [...].
O entusiasmo, desde a recepção invulgar à correria informal ou "infernal", foi a nota constante nos rostos dos nossos adolescentes ávidos por um texto que nunca pensaram diverti-los tanto. As nossas aulas ganharam um novo "sabor", pois a motivação e a compreensão é já outra, por isso o nosso muito obrigada, já que não nos foi possível fazê-lo no final do espectáculo.
Não obstante, a nós, professores, veio-nos à memória o outro extenso grupo de alunos que, por razões diversas, não puderam fruir desse momento único, daí que tivemos a veleidade, quiçá o atrevimento, de almejar a vossa presença na nossa instituição. Sabemos que o pedido é ambicioso, mas a nossa vontade é maior e, talvez, a "nossa simpreza nos abaste" para convidar o vosso Grupo a brindar-nos com mais uma representação aqui[...]
Atenciosamente, a professora


e é assim, por fax, que às vezes nos enchem o bandulho do ego...

a porta do lado



entrava de manhã e ao meu "bom dia" já tinha a madalena e a italiana à minha frente na mesa. o rapaz do antiquário já lá estava, na mesa ao pé da porta, virado para a rua, com silêncio e um cigarro. eu chegava normalmente à hora em que acabavam de preparar os almoços e as sobremesas e se sentavam na mesa do fundo com as suas canecas e o jornal ou o catálogo da perfumaria. tomavam, por assim dizer, o pequeno-almoço comigo. muita conversa trocada. viravam as cadeiras na direcção da minha mesa e perguntavam opiniões. sobre tudo e sobre nada. por vezes estavam mais silenciosos e eu então prendia os cantos do meu livro no pires do bolo e saboreava os primeiros momentos do cigarro e das letras, antes de respirar fundo e seguir para a tortura.
ao almoço sempre foi a confusão total. os turistas e os habituées, o cheiro forte da comida. eu ia sempre para a sala do fundo, era mais calmo. sozinha ou acompanhada, era em modo automático que me aparecia o tentador cheesecake à frente, o café e o cinzeiro no fim. o João é meu vizinho. vive ali no mesmo bairro que eu. nos suores da azáfama, parava sempre um bocadinho ao pé da minha mesa e queixava-se do cansaço, da patroa e contava a última do cãozinho que lhe ofereceram. o João teve uma pneumonia. enviámos-lhe um cartão. contaram que chorou e tudo.
a Sónia chegou depois, muitos meses depois, para substituir a Carla. sempre calada, de rosetas e duplo queixo.
a Ana é a filha da dona, redonda como ela, de enormes olhos castanhos. tem uma filha e um curso de tapeçaria.
a dona, cujo nome nunca consegui fixar, é enorme, jocosa e gulosa, apesar dos diabetes. era um espaço para se estar, que nunca fechava para mim. a salinha do fundo, de toalhas às risquinhas, luzes suaves, assistiu a ataques de fúria, a confissões, a lágrimas irrequietas e risadas altas, a brincadeiras dos empregados com a minha gulodice e os quindins. as mãos trocadas em cima da mesa, os sorrisos e a cabeça encostada à parede. faziam fiado, mandavam a comida para fora em pacotes de alumínio e não tinham multibanco.

hoje receberam-me de olhos turvos de lágrimas, com as vozes desconsoladas e os gestos atabalhoados. o "meu" restaurante vai hoje fechar.
citando o João, o mais triste e choroso de todos, "quando chegar a segunda-feira, o que é que eu faço?"

terça-feira, 14 de novembro de 2006

curtas dum regresso ao passado

numa passagem pelo bairro da minha infância a comprar o melhor frango assado do mundo, uma paragem para aquecer os beiços [congelados pelo vento frio] com um café e a melhor delícia folhada do mundo. sentada nas cores, sons e pessoas do meu tempo das papoilas, ouço o talhante [ainda por ali anda, ainda lá vai beber o café quando fecha o estaminé] dizer: "custa três mil reis" com a dicção perfeita de época: mérreis.

à saída do café, uma menina brinca rodando agarrada a um sinal de trânsito. espalha-se no chão de palmas das mãos directas na calçada. senti perfeitamente o ardor da gravilha a cortar-me a pele, como me acontecia com frequência, na estrada da praceta, no tempo das papoilas. gemi e tudo.

já a caminho de casa, nariz no ar. o nevoeiro acumulava-se em gotas nas pestanas. com o reflexo dos candeeiros parecia que tinha chorado daqueles choros de antigamente. em que a alma se despejava toda no sal sincero de um qualquer amuo sentido.
o nevoeiro cheirava nitidamente a um outro velho companheiro... o aerossol.

segunda-feira, 13 de novembro de 2006

horario de inverno

porque é que como ser humano, animal de hábitos, não consigo habituar-me a estas noites que começam antes de o meu dia terminar? porque é que acordo demasiado cedo, com aquela espertina de já haver muita luz? porque é que, mal se vai a luz, eu me quero ir daqui para fora? olhar para o relógio e... não, ainda falta muito tempo. tempo que se arrasta e o céu cada vez mais escuro.
o consolo está apenas no cheiro cortante do frio ao sol, quando saio de casa. e das castanhas, quando saio do emprego. salvam-se[-me] as noites de chá, Chet Baker e manta polar... o meu gato enroscado em mim...

diziam-me, se calhar para me consolar, que este horário era para os meninos que moravam longe da escola acordarem cedo e não ser de noite. ora eu nunca percebi isto, nem os meninos. eu também me levantava cedo para ir para a escola e preferia ir de noite e voltar para uma tarde inteira de brincadeiras na praceta. e não ter de fazer os TPCs à luz do maldito candeeiro.

pais revoltados

não, não me refiro aos problemas do encerramento de escolas por esse país, nem às culpas que sempre se depositam nos professores por os meninos não aprenderem nada a não ser asneiras. nem sequer da revolução cultural com que tenho sonhos semi-eróticos em que os pais proibiriam os filhos de ver as Floribellas e os Morangos e eles iam á falência e as produtoras eram obrigadas a fazer coisas de jeito... falo da reacção do meu público-alvo-patronato à gravação do cd do Ruca.

chego ao escritório às 9 da noite de 5ªfeira, venho buscar trabalho para fazer durante a madrugada, tendo em conta que terei de faltar a tarde de 6ª e tenho um projecto para paginar [poupem-me os comentários tipo "és mesmo parva, porque é que levaste trabalho para casa? o patrão P. nem vai ler isso, é sexta-feira!"]. ao chegar, encontro o patrão Porthos, o patrão P. e a madame M. [mãe-galinha-agente-produtora de uma das nossas jovens vedetas e nova colaboradora em certos projectos], todos ainda de volta dos computadores. algum santo deve estar para cair do altar. não me perguntaram porque é que eu estava ali às 9 da noite. pois se eles lá estavam... eu é que informei logo: "fiquei no casting de voz, vou gravar o Ruca, tenho de faltar amanhã de tarde, vim buscar as coisas para o proj..."
- como??? - intervém o Patrão Porthos - vais gravar o Ruca como?
- então, eles querem fazer um cd com as músicas do boneco e escolheram-me para fazer o Ruca.
- como é que te escolheram? aquilo não é um rapazinho, mesmo um puto que faz?
- é. mas parece que tiveram problemas de negociação. os papás estão a ficar gananciosos. além disso, é preciso interpretar e é complicado pedir isso ao puto. e mais: ele parece que está a mudar de voz e portanto já não serve...
- mas mas! como é que isso é possível??!!?!? vais matar o Ruca!
- ó Porthos, mas que é que queres?
intervém o patrão P.
- parece-me que para conseguires o trabalho baixaste os valores e estás a desvalorizar os profissionais... - ri-se à gargalhada
continua o Porthos
- e como é que vai ser se houver espectáculo cá?
- pois que parece que se o cd ficar bom, os ingleses quererão que sejamos nós a fazer as vozes do esp...
- não pode ser! não percebes? o meu filho identifica os bonecos pelas vozes! se eu o levar a ver, ele vai perceber o embuste! estás a enganar as crianças! estás a destruir o meu descanso em casa!
- então suponho que não vais querer convites, se eu arranjar...?
silêncio.
- bem, vou-me embora para casa. mas vou chateado e em protesto.

quinta-feira, 9 de novembro de 2006

I'm a rock star... kind of

e se eu começasse a conversa com: "vou gravar um cd!"
perguntariam: "um cd? de música?!"
eu responderia: "sim, sim..." faria um sorriso malicioso. continuaria: "ligaram-me em desespero de causa. precisavam de uma voz feminina com características muito precisas. vou para estúdio já amanhã."
provavelmente receberia uma cara entupida de surpresa, sem saber bem o que dizer. sairia algo como "ena pá! que fixe... parabéns, pá!" depois, um algo mais recomposto "então e é para sair quando?"
ao que eu, sempre confiante e sorridente, responderia: "no Natal..."
perguntar-me-iam, obviamente "já? caramba! e a banda é conhecida?"
eu soltaria uma gargalhada: "é tua conhecida... a banda sou eu... sou a vocalista. com um coro a fazer backgroud vocals e uma participação especial."
"bolas, que fantástico... e é novo, o projecto?"
eu diria: "não é novo, teve início em Inglaterra já há uns tempos. mas agora quiseram gravar cá, também."
já numa pose mais refeita, sairia: "ena, ena... e como é que se chama o álbum, já sabes?"
sorriso. olhar. trejeito de boca...
"ainda não têm o nome final. mas vai ser qualquer coisa como 'As músicas do Ruca'..."

quarta-feira, 8 de novembro de 2006

simple pleasures


[ms]

romper com cuidado a embalagem. enfiar os dedos e sentir a macieza do bloco de folhas de tabaco ainda prensado. apanhar um pedaço e devagar ir desfiando as folhas em pequenos fios aromáticos.

segunda-feira, 6 de novembro de 2006

ela aos sabados de manha


[ms]

nalguma poça mergulhava o pente. desdentado. alisava o cabelo à força de cuspo, empurrava-o, prensava-o de mãos decididas para o que no espelho de águas turvas e folhas secas acreditava ser o seu lugar. depois ajeitava o xaile e seguia para a igreja. na barriga sempre uma irrequietação. esperava. observava as emoções sempre iguais. os ciumentos, os jocosos, os beatos, os orgulhosos, os divertidos, os ansiosos, os enfastiados. mas ela mantinha-se à sua distância de cheiros azedos e sussurros ininteligíveis. falava consigo, à flor da pele. esperava pelo branco que lhe turvasse os olhos e os farrapos em cintilantes gotas de fantasia. os fantasmas chegavam, um a um. desfilavam pelo corredor de tapete vermelho. ouvia a música. a banda sonora de outras vidas diluía-se no ritmo badalado no seu peito, das suas cantigas. levantava o pescoço e fechava com força os dedos nos galhos secos. no cetim feito teia de aranha de um laço de fios chorões. os seus passos haviam deixado de fazer diferença nos ecos. assim a luz a recortou para logo a fundir nas paredes de pedra. um único olhar lá do fundo reconhecia-a para passar a ignorá-la, dirigindo-se de novo a quem de facto existia. mas na sua mente nada disso fazia realidade. seguia direita ao seu desejo, ao semblante nublado que só ela reconhecia entre o cal, os santinhos e os azulejos. no seu desfile delicado nem o soçobrar dos folhos murchos conseguia penetrar a redoma da sua verdade. embrulhava-se no véu do odor forte das velas, da cera derretida de tanta promessa, dos pedidos e das vãs esperanças, que perscrutava de olhar indiferente. as promessas já tinham morrido e ainda não sabiam, os infelizes. depois de contar as novas chamas sentava-se de joelhos juntos e olhos brilhantes, atenta à homilia. sussurrava de cor as juras lá do fundo. eu a ti, tu a mim. pertenço-te e és meu. esmagava mais um pouco o ramo morto na ansiedade do beijo, o beijo no vácuo. o mesmo vácuo das noites de núpcias que lhe rasgava as veias em sonos ausentes. depois a vaga. de soluços num silêncio esmagador, quando a trovoada de sons e arroz a deixava em paz, os ecos abrandavam e os aleluias cessavam.
tirava o lenço bordado da manga e limpava os olhos. porque uma noiva não pode esborratar o rímel.

sábado, 28 de outubro de 2006

dos regressos



daqueles que os mapas não marcam, nem as linhas da mão têm a certeza de apontar. não há estrela polar neste céu agreste de luzes falsas que orientam aleatoriamente as suas caudas de cometas.
divago.

a minha ausência reverte a favor de um regresso. temido. muito mais temido do que poderia esperar. de momento ainda se tacteiam estratégias para contar uma história tão antiga e [re]contada com escadotes. sim, escadotes. eu tenho medo das alturas, tenho medo quando não estou em contacto com o chão. tenho vertigens. tenho pouca força de braços. tudo num mundo de testosterona onde sou o único elemento feminino. um metro e meio e uns trocos desajeitado no meio de gaijos...

ah, mas para carregar sacos de roupa e caixotes ainda sou da produção. e na produção, curiosamente só trabalham mulheres [no sentido de bulir a sério, não é recostar o rabo à cadeira o dia todo]. tenho, sempre, de regressar à base e tratar das papeladas, das reservas, dos telefonemas e não me esquecer que esta quase-estreia é só um fogo fátuo. ainda muita coisa há a fazer para a temida prova de fogo do [pretende-se] grande espectáculo que há-de sair em Janeiro... o tal das madeiras. bom...

como está a correr? colegas bem dispostos, cooperantes, excepto um que ainda não decorou o texto e não percebe que todos temos desculpas para não termos o trabalho de casa feito. mas há-de desenrascar-se.
laivos de genialidade de um homem que normalmente só diz disparates. estou a falar do encenador. um homem que precisa de uma grande dose de "risa" para ter embalo para encenar. um homem tão divertido como inconsistente. tão criança como irritante. tão alegre como mimalha.

estramos dentro de poucos dias, já com imensas reservas feitas. as marcações ainda estão frágeis - de mais a mais equilibradas em escadotes...
nota: não há palco, há claustros. não há música, é à capela e com coreografias de fazer chorar a Floribela. não há camarim, há "mudanças de roupa coreografadas". bah.
ah... o meu pânico de cantar? pois que à força do medo de me baldar dos malditos coisos de alumínio, já canto sem tremer a voz...
qu se lixe a minha mania de "o cantar é para quem tem um dom": já sei que, se algum dia me chamarem para fazer um musical, o truque é porem-me numa situação de equilíbrio precário e queda desastrosa eminente...

segunda-feira, 23 de outubro de 2006

na carimbolandia

loja do cidadão, para tratar de todos os documentos que perdi aquando do roubo da minha querida carteira. em chica-esperta, lá fui passar a tarde de sexta, porque "pode ser que o pessoal vá todo de fim de semana e esteja mais vazio". até às 4 e meia da tarde era verdade...

tirar fotografias - pimba, paga. fiquei amarela. ó senhora fotógrafa que mete as chapinhas na máquina e faz trocos que é um mimo, afine o cyan...

BI, comprar impressos - pimba, paga. é preciso certidão de nascimento. não faça aqui, que demora 2 dias. vá à Fontes Pereira de Melo que lha fazem na hora. então para que é que vocês existem aqui, mesmo?

certidão de nascimento - afinal onde é que eu fui registada? errrr... mãee... esperar que os senhores saiam do chá das 3 e meia que acaba às cinco para as 4, já que o santo serviço fecha às 4. pimba, paga. e que tal digitalizar isso tudo para bases de dados com acesso para toda a rede de registos, hã? não há excedentes na função pública? há, estão na hora do chá.

fotocopiar certidão de nascimento e declaração da polícia "não vá o diabo tecê-las" - pimba, paga.

BI, entregar impressos e certidão - espera. espera. espera. preciso de um cartão seu. minha senhora, fui roubada, os únicos cartões que tenho são as segundas vias dos do banco e o da Medis [estranhamente os privados, portanto]. mas ó menina preciso de um cartão, esses não servem. minha senhora fui roubada, está aqui a declaração da polícia, não lhe posso dar mais nada. suspiro de mártir. fotocópia do cartão da médis [mas se servia, porque é que me dificultou a vida?]. cagar dedinho, impressão digital[para que é que serve, ainda me hão-de dizer]. já agora alteração de morada, sim? suspiro de mártir. daqui a 7 dias mais ou menos está pronto. [mais ou menos? claro, vou tirar a semana para vir passando por cá...]. já agora, quando é que o nosso BI passa a ser Simplex? como o passe...

carta de condução - senha para os impressos. pagar os impressos e a minha colega já a atende. senha para a colega que já atende, preencher impressos. enganei-me. senha para a senhora que vende os impressos outra vez. olhe, enganei-me neste. tome lá outro, são mais 17 cêntimos. e já agora ao preencher tenha cuidado para a letra da assinatura não sair fora do quadrado. mas tem de ser igual à do BI. claro. a colega que já atende atende-me, rever os impressos, recortar o picotado. já agora alteração de morada, sim? claro, mas assim demora mais. [não que tenha alterado em nada o que quer que seja ao trabalho da senhora que me atende] agora espera que a minha colega [a quem se paga os impressos] a chame para lhe dar a guia. a carta segue para casa dentro de um mês e meio - maizoumenos, claro, maizoumenos. esperar pela colega a quem paguei os impressos. esperar. esperar. tome a guia. ah, claro! a "guia" é a merda do impresso que EU preenchi, com dois carimbos e uma rúbrica. como é que eu não me lembrei que atrás do biombo estará um senhor doutor para carimbar e rubricar? honrada função que exige tanto aprumo, dedicação e tempo como montar um puzzle de 10 mil peças? [porque é que não disseram logo? eu já agora também carimbava...] pimba, paga a guia. pensar que estas novas cartas já nem implicam a senhora que dactilografa os dados e cola com UHU as fotografias no cartão cor de rosa. é o mesmo sistema do passe que, oh curiosidade, fazem na hora.

documento único do carro - impressos de borla. ai que isso deve trazer água no bico. atendem na hora. medo. preciso do seu BI. está a ver aí a cruzinha no "furto"? fui roubada. mas preciso do BI. tem aqui o papelinho da encomenda do BI e a declaração da polícia. mas eu preciso do BI. fui roubada, senhora. olhar entre o implorante e o psicopata homicida. suspiro de mártir. teclar meia dúzia de bujardas no computador. 30 euros pelo novo documento, mais 30 pela alteração de morada. olhe, se eu fizesse as duas coisas em separado tinha desconto? eu sei, que como pobre ser da geração recibo verde, que lida com computadores todos os dias, não estou ao nível intelectual para perceber porque é que a alteração de um campo numa base de dados e um "print" [dois clics ou ctrl + P... não sabia, senhora?] num papel devidamente criado para o efeito, mais um selo especial terá de tanta ciência. é, mais uma vez, a arte do carimbo. recebe o documento dentro de um mês maizoumenos, claro, maizoumenos.

cartão de contribuinte - a Loja do Cidadão informa que o sistema fod... está temporariamente indisponível. portanto aqui já não se faz nada.

cento e tal euros depois, sobram à conta os trocos para um geladinho. para adormecer a língua, a ver se não digo mais palavrões hoje.

terça-feira, 17 de outubro de 2006

chove e faz sol


[ms]

as luzes às vezes não são quentes, só deixam um hálito agridoce na pele. percebes? não interessa. às vezes o espaço entre dois corpos completa os fragmentos que faltam. dizia que as luzes arrepiam. como que nos estremecem. reconheci em mim um medo novo. e este é mesmo, assim, assustador. não sabia que o acordar da dormência seria tão doloroso, confesso. julguei que em mim encontraria nova alegria, novo impulso, desta feita aliviado, concretizado. livre, entendes? não, de facto não. acordo enrolada sobre mim mesma e cheia de dores que ainda não senti, depois das que senti e que me enrolaram. são dores por vir, que nem sei se virão. faz sentido? desenrolo-me a medo e cada pedaço de mim que sai para fora é como um fio de um novelo que se puxa e vai-me desfazendo. mas encontra nós, pelo caminho. o pisar não é novo. vejo as folhas que o outono vai soprando das árvores e é mesmo isso. um caminho que já percorreram, que sabem. voltam ao chão, sugadas serão pela terra e voltarão a verde e flores daqui a uns meses. mas o cair. o cair. há sempre medo de ficar esmigalhada no asfalto. a borracha queimada faz mal à fotossíntese. nos veios estão marcados os percursos, como as linhas na palma da mão. são tatuagens, são. marcas que por mais que cerremos os punhos não desaparecem e as mãos ficam dormentes do medo. do medo de cair, sem rede, como todas as quedas a sério. porque é suposto a lei da gravidade amparar-nos pelo contrabalanço do peso da alma. mas nem sempre o vento sopra a favor. e agora as luzes que se acendem na sala verde são-me estranhas. são estranhos. a mochila das perguntas pesa-me. inclina-me. e tenho de ter as costas direitas. em pontas dos pés, assim, subo à armação de alumínio. será que ainda me vale o ballet? e os fantasmas? ter-se-ão esquecido de mim?

não sei como cheguei aqui, mas juntar palavras faz-me bem. encontro-lhes o sentido à medida que as saboreio. assim como um chocolate que prefiro deixar derreter na língua em vez de morder.

segunda-feira, 16 de outubro de 2006

para avaliar o seu grau de loucura

sábado, dia de passeios, de descontracção. porque os ensaios inibem de dormir até tarde, aproveite-se o dia.

almoço reconfortante no restaurante das avós, matar saudades das palavras com diminutivos, da força calórica de comida cozinhada na hora e das batatas fritas às rodelas. depois, descer a rua e segurar o queixo perante a exposição do world press photo. lutas intermináveis com um par de velhas que não compreendiam o conceito do pequeno corredor que separa as pessoas da fotografia. elas metiam-se à frente e punham-se a explicar as legendas uma à outra, indiferentes a quem queria ver os bonecos. considerações tecidas sobre o "molhar o pãozinho no sangue", sobre a parca qualidade dos nossos premiados, sobre as opções do júri, sobre a imponente reportagem sobre uma mulher vítima de cancro, sobre as delícias das fotos das bailarinas de leste, sobre o photoshop descaradamente mal amanhado em algumas imagens.
de regresso a casa, bandulho intelectual bem refastelado, estacionar na garagem [porque está de chuva]. reparar que os vizinhos [cujo único veículo estacionado é uma bicicleta] têm encostadinho à parede um par de raquetes de badminton e uma pena. troca de olhares tresloucados.
ficar a jogar badminton na garagem até desaparecer a luz do dia.

e assim se trama um dia que podia ser tão pseudo...

sexta-feira, 13 de outubro de 2006

happy birthday?

pois que descobri agora que este blog já fez dois aninhos.
parabéns, pá!


[ou... haja paciência...]

do estudo de texto

[re]começaram os ensaios. este ano com escadotes ao barulho - quem sabe para breve acrobatas e lançamento de anões. Gil Vicente, já se sabe, tem de ser trabalhado para se perceber o que é que as frases querem dizer... português arcaico tem muito que se lhe diga. bem como as personagens, a estudar e contextualizar historicamente para depois encontrar paralelos actuais.
fica uma pequena recolha de pérolas, da autoria do encenador...

das personagens
o Onzeneiro é dealer... mas só nós é que sabemos porque não passa para o público...
o Parvo é um wannabe. é daqueles putos brancos que querem ser pretos e começam a falar com sotaque, a usar aquelas calças e cantam rap.
as pessoas pensam que a Brízida [leia-se Brízeda] é uma puta, mas não. ela cria as meninas para os padres, é rica e vai às festas, tem muitas funções e não se percebe bem no meio qual é o trabalho dela. e só quando se esquece é que lhe vai pró chinelo [leia-se chenélo]. é como a Maya. a Brízida é a Maya.
o Sapateiro é... olha, é um estudante de Belas-Artes da António Arroio. daqueles que só desenham olhos... olhos e fetos!

dos subtextos
"vai tu muitieramá, e atesa aquele palanco e despeja aquele banco pera gente que virá" - o diabo está, portanto, a assear o barco, não é?
"embarque vossa doçura" - embarca, amori!
"dix" - foda-se!
"nom praza a Barrabás" - não lembra ao diabo... ou... puta que o pariu!
"que é desta glória, emproviso?" - mas nós andamos a brincar?

terça-feira, 10 de outubro de 2006

the pillowman

teatro Maria Matos
até 15.Out.06
4ª a Sáb. 21H30 | dom. 17H
encenação de Tiago Guedes
com Gonçalo Waddington, Albano Jerónimo, João Pedro Vaz e Marco D'Almeida

bilhetes: 15 €, regra geral. todas as informações no site do teatro


prometido é devido e à primeira oportunidade, uma visita ao Maria Matos renovado, cuja programação e grafismos de divulgação me têm deixado de água na boca.

The Pillow Man não é uma história fácil. desengane-se quem acha que se vai rir a bandeiras despregadas [houve umas quantas meninas nervosas que se escangalhavam a cada deixa até levarem o soco no estômago. é incrivelmente triste o poder de um "foda-se" num espectáculo]. desengane-se também quem pense que vai lá ficar de mão no queixo, com um circunspecto "hummm" intelectual. é uma história simples. ou melhor, é uma história contada de forma simples, sem ser simplista. em que as emoções provocadas vão do riso sádico, à simpatia, ao ódio, ao confrangimento, ao enternecimento, à tristeza, ao torpor, passando pelo riso incomodado de quem sabe que se está a rir de algo que só tem piada porque - epá - é a fingir... não é...? [... e depois alguém lá em cima nos olha com um daqueles olhares que nos cala...] um drama com laivos de comédia de situação em tom amargo, salpicada de um humor negro que nos gela e aquece de riso ao mesmo tempo. sobre um escritor de contos mórbidos - excepto o do porquinho verde - que se apercebe que estão a acontecer...

o cenário é extremamente clean e apelativo [lembrando vagamente Frank Miller, não fossem dois dos personagens usar roupa de cor], com soluções muito boas, a utilização de perspectivas interessantes complementadas com uma iluminação invisível [o que é positivo] e de - mais uma vez - adereços simples e pequenos apontamentos de multimedia, que não se impõem. são mais uma personagem.

uma encenação também transparente, com marcações naturais, nota-se que ditadas muito pelo instinto dos actores na movimentação do texto. uma esmerada direcção de actores, em que o texto ficou não só à superfície da pele, mas foi esventrado com corte cirúrgico. todos sabiam bem o que estavam a fazer, sentir, pensar. como eu gosto... nhami!

o que não é simples, neste espectáculo, é o gráfico emocional para os actores. não é simples no sentido em que não temos ali "bonecos". temos seres humanos, com defeitos, qualidades, forças, fraquezas, silêncios, segredos, pensamentos, ideais, histórias passadas. todas as personagens são absolutamente humanas.
é portanto, uma peça de actores. [um dos meus "estilos" preferidos]. ali, o desafio vai para eles, de se concretizarem em cada respiração, em cada deixa, em cada contracena, em cada momento de confronto com uma realidade estranha. e respiram realidade dos poros.
a todos e a cada um deles, um grande aplauso de pé. daqueles de peito cheio de orgulho, em que se agradece que nos mostrem afinal porque é que vale a pena continuar a tentar neste meio cão.

há quem considere a peça, em dado ponto, algo longa. cíclica em termos de conteúdo. confesso que estava demasiado absorvida a deliciar-me com as interpretações para dar pelo assento rijo. mas foi unânime que as cenas que ensanduicham o espectáculo [as fatias de pão, portanto o início e o fim] arejam nos tempos certos o que podia tornar-se demasiado longo mas não chega a ser. na proporção certa, diria.

um espectáculo a não perder. cuidado que a sala está na moda, portanto para os últimos dias já deve ser difícil conseguir bilhete. não temeis, caros seguidores d'A Palavra deste Blog, os lugares da fila da frente. a distância do palco é perfeita para absorver tudo sem um torcicolo.

mas isto sou eu...

quarta-feira, 4 de outubro de 2006

|| pause still


[ms]

às vezes o tempo anda feito gato avariado. corre de um lado para o outro de encontro às paredes, não conseguimos perceber o que anda a fazer, o que persegue ou sequer o que vê.
nesses dias apetece obrigar a sentá-lo à minha frente, e dizer-lhe para ter calma e olhar-me nos olhos. vamos lá conversar...
[... nem que seja para...]
- então e o Benfica...?

segunda-feira, 2 de outubro de 2006

as vampiras lesbicas de sodoma

pela Companhia Teatral do Chiado
Teatro-Estúdio Mário Viegas
supostamente a semana passada foi a última semana, mas nunca fiando, que eles são danados para a aldrabice e já "estenderam" até dia 7 de Outubro.
entre 13,50€ e 18,50€ [excepto condições especiais]
reservas e actualização de datas no site da companhia
fotos no blog do espectáculo
com Rita Lello, Simão Rubim, Tobias Monteiro, João Carracedo, Manuel Mendes e João Craveiro


não é um espectáculo certinho. quem viu As obras completas de William Shakespeare em 97 minutos sabe perfeitamente que a ideologia não é essa. é uma paródia "off-Parque Mayer". é uma história de duas vampiras actrizes ao longo dos tempos [o fio cronológico lembrou-me vagamente o "Entrevista com o Vampiro" - com as devidas distâncias]. que passam grande parte da sua eternidade em Lisboa. que por acaso são lésbicas. e também só por acaso várias personagens femininas são interpretadas por homens ao estilo "tão-traveca-quanto-se-pode-ser". quebra-se a quarta parede. ou melhor, rebenta-se com a quarta parede. com muita dinamite da Acme. os actores sabem a linha condutora mas para ligarem o princípio, ao meio, ao fim, entram numa desgarrada de improviso. cujo objectivo, à primeira vista, parece ser fazer os colegas em palco a desmancharem-se.

isto dito assim é uma perfeita palhaçada, sem qualquer respeito pelo público, pela história que se está a contar ou até pelo trabalho de meses de ensaios e pelos cabelos brancos do encenador.
mas o "problema" é que, no caminho, somos completamente envolvidos por esta teia de disparates. somos enrolados, virados de cabeça para baixo, e não faz mal se o Simão perdeu uma pestana postiça. ou se o encenador ao fazer uma apresentação no início da peça, se esqueceu - outra vez - do endereço do site. são apenas mais motivos de galhofa dissecados a corte cirúrgico.

admire-se, no entanto - se conseguirem abstrair-se de tanta maluqueira - meia dúzia de pontos:
o trabalho fenomenal de caracterização. a coragem daqueles homens para estarem todos os dias absolutamente depilados [eeek], com cintas daquelas que espremem os respectivos abonos de uma forma que podemos apenas suspeitar. a capacidade de improvisação inacreditável de todo o elenco, que não se esgota numa piada que funcionou no primeiro dia. o brio nessa improvisação. o espaço que dão uns aos outros para brilhar - e para gozarem com as suas caras - coisa rara e nunca vista. têm de ter um trabalho inimaginável no que diz respeito à base do texto, para não se perderem no meio de tanta liberdade. o facto de estarem a vibrar a cada minuto. especialmente porque nós estamos a gostar e a rir com eles. a generosidade de um encenador que deixa - gosta! - que todos os dias esventrem mais um pouco o trabalho de mesa. a possibilidade de num espectáculo destes senhores podermos sempre ter uma visita guiada aos bastidores sem darmos conta. ali estão expostas aquelas fraquezas que a maioria das companhias tenta esconder para poder levar um espectáculo a bom porto. é delicioso reconhecê-las à distância e vê-los brincar com isso também. é outro lado da medalha. ali, um cd estragado na altura de um playback é... mais um motivo de improviso. é um actor, em vez do grande número de dança e canto que ia fazer, começar a soluçar ao som dos "riscos". e no fim, ao ter um achaque, dizer explicitamente: "ainda não despediram o técnico de som?"

não é uma obra de arte digna de um intelectual levar a mão ao queixo e expressar o seu cogitante "hummm"... é um espectáculo franco, directo, parvo, non-sense. e é assumido nisso tudo.

a cada estilo as suas características. à Companhia Teatral do Chiado apenas o objectivo de fazer as pessoas passarem um bom bocado. e saírem de dores na barriga e nos cantos da boca. de preferência ainda a limpar a última lagriminha no canto do olho.

mas isto sou eu...

quarta-feira, 27 de setembro de 2006

sem senso


foto de ms

deixou o poema numa amálgama de vidros partidos. soltou-os no cinzeiro com as mãos em concha. preencheu os fios de neblina com aromas doces, gelatinosos. teceu-lhes a música do silêncio chuvoso. espalmou os dedos como carimbos queimados de encontro ao tecto. saiu, fechou a porta e os olhos aos peixes voadores e ao homem do cachimbo. o cheiro. batia-lhe nos sentidos como uma franja violentada pela brisa. escalou a calçada rezando para não cair num buraco. já se sabe que os buracos são fundos e não é fácil sair deles. entre o zigue e o zague era outono. as paredes acastanhavam e aguardou o toque rosa do fim do dia. a árvore velha escureceu-lhe as válvulas da alma, deixando coágulos de luz pendurados no chão. pensou em fazer um quadro de serradura para poder ver o céu. o vento soprou-lhe qualquer coisa ao ouvido. penteou uma madeixa solta.
não se apercebeu de que agora o cabelo brilhava com estilhaços de palavras.

detesto produçao II

- um apoio [bla bla bla]
- apoio? para apoiarem a nossa empresa?!
- não, para fornecerem material para a construção de cenário com retorno de 130% nos imp...
- oh senhora, nós darmos coisas? oh senhora, peça ao Sócrates que ele ganha bem!
- ...
- ou o Cavaco! peça ao Cavaco!

segunda-feira, 25 de setembro de 2006

o furto


foto tirada em Londres, para exposição, antes da compra

não sei o que me falta mais...
este fim de semana, animação no CCB, para ganhar uns trocos extra. saíram-me caros, devo dizer.
guardadas as coisas que não iam ser necessárias na apresentação numa despensa, lá fomos vender "Pharmaton" para um público ao princípio hesitante, depois contagiado... pelas vitaminas, claro.
regressando à tal despensa, pegar nas coisas para sair. deito a mão à mala para tirar uma coisa da carteira e zás! não está lá.
simplesmente desapareceu. claro, como sou cabeça no ar, pus em causa o facto de me lembrar de já ter mexido na carteira nessa manhã, e pus a hipótese de ter ficado caída no carro ou em casa.
pois que não.
foi-se. evaporou-se. os telemóveis [pois, são antigos] permaneceram intocáveis, bem como a restante mochilagem dos outros elementos da equipa.
contactada a organização do CCB dizem-me que vão "perguntar à equipa". peço muita desculpa, mas nestes casos eu revistava a equipa sem apelo nem agravo... são todos inocentes até prova em contrário, mas quem não deve não teme, não é? além disso, é o bom nome da empresa que está em causa... alguém lá de dentro roubou uma carteira... mas nããão, vamos esperar que o dia chegue ao fim, para lhes dar tempo de se livrarem das provas, perguntar e esperar que alguém comece a tremer o queixo, se atire ao chão de joelhos, e grite em lágrimas e ranho "eu confesso, eu confesso! torture-me, eu mereço!"...
ainda andaram a ver os caixotes do lixo, mas nada.
depois de cancelar os cartões, dei 12 horas para me dizerem qualquer coisa. ai ninguém sabe de nada? que estranho... bom, então vou à polícia. a quem tiro o chapéu, uns senhores como já não se fazem, pacientes, simpáticos, eficientes, informatizados[!], com quem deu para ter inclusive uma conversa sobre um delicioso rádio velhinho que estava numa prateleira. disseram-me para esperar 10 dias antes de ir tratar dos documentos, "pode ser que apareça a carteira num caixote de lixo"... deram-me uma declaração para confirmar que existo e que me roubaram todas as provas disso.

contas feitas, foi isto:
a minha carteira, uma querida recordação de Londres, fabrico artesanal português, comprada na banca de um amigo meu, no Sunday Up Market, em Londres. feita de sacos de plástico, exterior verde-alface [sacos da Bershka e da Área], fecho em velcro.
todos os documentos possíveis e imaginários, cartão de crédito, de débito, BI, carta de condução, documentos do carro, passe, cartão de contribuinte, da segurança social, do posto médico, da Médis, de eleitor, do banco online... eu sei lá... basicamente quando eu entrar na Loja do Cidadão, não pensem que desapareci se não der notícias ao fim de uns dias... ainda lá estou a recuperar o plástico perdido.
a minha foto preferida: eu bebé com a minha avó. a moeda da sorte que a V. me trouxe de Itália. e mais umas papeladas de grande valor sentimental.
e, claro, o dinheirinho... que, por acaso, a minha mãe me enfiou no bolso na noite anterior, para ajudar à gasolina...

lindo serviço. agradeço desde já à pessoa que me escolheu para este acontecimento. espero que se divirta com os cartões [cancelados] de contas com saldo negativo às quais eu não vou ter acesso durante uma semana, que é o tempo que as segundas vias demoram a chegar... isto se não se extraviarem como de costume.

... espero também que lhe nasça uma verruga no rabo que lhe tolha a capacidade de se sentar durante o resto da vida. que permaneça de pé até ter uma infecção muscular, que se transforme em gangrena.

sexta-feira, 22 de setembro de 2006

a um amigo

cada dia é mais raro dizer que se ama.
honro-te a ti, que o fazes, de peito aberto.
porque de mãos dadas é mais fácil sorrir.
e chorar, também.
porque o sorriso dela é o sítio perfeito para descansares.
há momentos que não têm palavras.
este vai ser um deles...

hoje é o primeiro dia do resto da tua vida...

o assobio da cobra

São Luiz Teatro Municipal, até 26 de Novembro.
Quarta a Sábado às 21h, Domingos às 17:30
um musical encenado por Adriano Luz


foi o meu primeiro convite oficial e directo para uma estreia deste teatro [a/c Polegar e tudo], fruto de uma colaboração que teremos num futuro próximo. peguei em mim e aproveitei, que os bilhetes estão pela hora da morte...

primeiro que tudo, uma nota: as vedetas por favor cheguem uma hora a trinta minutos antes do início do espectáculo sob pena de deixarem os anónimos na sala à espera enquanto voscenças são fotografadas para a posteridade do dia a seguir... é de muito mau tom fazer um espectáculo começar 20 minutos atrasado só porque a Catarina teve de ser fotografada e depois ainda teve de dar um beijinho ao Moniz e à Bocas...

a história: pois que não se percebe muito bem... passa-se numa noite, num bar desses de periferia, algures entre os dias de hoje e os anos 50, onde vão só os habitués beber até terem sangue no álcool em vez de álcool no sangue. cada personagem tem pequenos segredos. nesta noite específica, duas pessoas "estranhas" vêm destabilizar os frequentadores habituais e, supostamente, criar conflito. mas o texto foi criado a partir do CD, basicamente para estabelecer uma ligação entre as músicas... ora o que é que se faz quando não se sabe bem como colar músicas com texto? opta-se pelo "ambiente denso", os "mistérios implícitos", "as verdades ocultas" e... deixa-se o final em aberto... o problema é que o entretanto também está mal tecido, cheio de buracos. chegamos ao fim e ficamos absolutamente na mesma. os conflitos existirem ou não é o mesmo que deitar uma colher de água no mar. além disso é tanta música [que não adianta nada à história, simplesmente páram para cantar], que por vezes corta o fio lógico das cenas.

a música: ponto fulcral do espectáculo, ou não fosse um musical. dado o desconto dos nervos da estreia, temos uma banda fantástica, revelações de alguns actores como cantores [ou simplesmente bons profissionais da voz], letras bonitas. chateiam os microfones, que não estão calibrados para a projecção necessária do cantar, e fazem com que se ouçam pequenos estalidos durante a peça. coreografias simpáticas, mas o facto de terem metido um par de bailarinos na figuração desequilibra a coisa para os outros.

o cenário: girinho, dentro do estilo quase-cabaret. o espelho que revela os segredos mais profundos das personagens é uma mariquice... toda a gente percebe que o travesti vive na dúvida de quem é e no pânico de ser apanhado, que o abandonado queria casar com a que o deixou, que o cómico queria ter piada, que a velha queria ser nova...

os actores [estala os dedos, cospe nas palmas das mãos]: são demasiados. aquilo fazia-se com metade, e ainda se ficava a ganhar porque havia menos ruído visual nas cenas.

duas das senhoras mais velhas, por terem de cantar em palco fazem aquilo em tom revisteiro. cruzes, apetece dizer-lhes: olhe, desça até aos restauradores e atravesse para o outro lado... peça para falar com o senhor LaFéria.

puseram dois bailarinos carecas a fazer de machões... não convence.

a menina grávida [Adriana Queirós] é... indiferente. é o "vai benzinho"... o mesmo se aplica ao resto do elenco secundário que não encanta nem desencanta. o João Reis lá tem um acesso de fúria dramática, a passar-se por bêbado irado... mas até isso é desadequado.

destaca-se o Pedro Laginha [o D. Pedro de "Pedro e Inês" da RTP que ia tão mal, tão mal, que quando estava irado parecia apenas estar com um grave ataque de diarreia], uma surpresa em palco, num delicioso loser cujo único objectivo é ser comediante, tendo escolhido os "amigos" como público... eheheh má escolha, tão má que é tão boa de ver...

a Patrícia Vasconcelos, essa grande diva dos castings que diz que também é cantora... podia ficar-se a fazer os castings... um cepo, um cepo, um cepo... imagine-se uma Jessica Rabbit... agora imagine-se uma cantora de tasca de fados com a roupa da Jessica Rabbit. pronto. uma mulher que numa coreografia de braços parece a personagem do Monchique no saudoso C.R.E.D.O.. aplica-se: credo! não sabe porque é que está a fazer as coisas, os gestos saem maquinais e sem o mínimo de sensualidade... e desafina!

o Diogo Infante: salva o dia... uma delícia. a personagem mestramente construída, o homem que é travesti, que dá grandes espectáculos sem nunca saberem quem ele é, e que vive no pânico de ser apanhado, portanto, fazendo-se de machão. e o homem é isso tudo. e continua a contar-nos a sua história enquanto dança, só com os olhares, enquanto canta, ao descair-se... só vendo. um dos poucos que, de facto, não se preocupou só com as cantorias. bravo a ti, mais uma vez, que sempre tiveste o condão de me despoletar um arrepio que me sobe pelas costas e rebenta em lágrimas, só pelo bom que é ver-te trabalhar.

posto isto, nota final: vê-se, é levezinho, é rápido [1h20], é colorido. não aquece nem arrefece. para maníacos do acting com dinheiro para gastar, vale a pena pelo senhor Diogo Infante. só não levem em conta a sinopse...

mas isto sou eu...

quinta-feira, 21 de setembro de 2006

calçada de carriche

sobe polegar, sobe a calçada
sobe lenta porque isto não anda nada
ponto de embraiagem
travão de mão
puxa, baixa, acelera, tanto não
pára arranca um metro à vez
chegarás ao destino amanhã, talvez
dói o joelho do acelerador
convive, polegar, convive com a dor
a besta do lado meteu-se à bruta
vai-te a ele polegar
chama-lhe filho da puta
sobe polegar, sobe a calçada
em dia de greve e chuva é piada
a espera, as unhas, cigarros e fome
é bom saber que o povo não dorme
sobe que sobe
sobe a calçada

adaptação livre - e extremamente fraca em termos de métrica ou criatividade - do poema de António Gedeão

hoje, ao sair de casa, recebo uma sms: "se tivesse a minha casa [em Lisboa], não estava há duas horas na Padre Cruz. V."
lembrei-me de um episódio... à nossa ;)

há uns anos, em dia de greve geral dos transportes públicos, o meu jipinho resolveu simplesmente entrar em coma em plena entrada da Calçada de Carriche, fila do meio, à beira da placa que dizia Lisboa.
foi uma manhã épica: eu e a V, fechadas no carro, a ver os outros passarem com má cara porque não conseguíamos meter o meu na berma, à espera do reboque que demorou duas horas a chegar porque, claro, também apanhou com a fila.
estávamos sem tabaco.
éramos jovens.
começámos por muito profissionalmente ligar para os respectivos trabalhos [a minha patroa das nails, com BMW e casa na Av. de Berna não compreendeu muito bem o conceito de greve geral dos transportes públicos...].
falámos, enervámo-nos, momentos de silêncio.
angústia.
depois... música em altos berros [o problema não era, portanto, da bateria...], a dançar feitas parvas. uma gaja tem de fazer qualquer coisa para que o tempo passe.
começou a agravar-se a ressaca da nicotina. descemos ao mais baixo: abri as janelas e pedíamos aos carros que passavam/paravam ao nosso lado se nos dispensavam um cigarrinho...
estranhamente, no trânsito de um dia de greve geral, perante duas raparigas desesperadas num carro avariado, o mundo suburbano meteu a mão na consciência e deixou de fumar... e de ter tabaco.
daí a pouco fomos notícia nacional. toda a gente sabia, pela rádio, que "está um carro avariado na faixa do meio do acesso à Calçada de Carriche, o que está a piorar ainda mais as coisas". insensíveis.
quem deu um cigarrinho à Polegar e à V, quem foi? o senhor polícia que chegou de mota, e muito simpático, com o colega nos ajudou a empurrar o carro até à berma, parando o trânsito para podermos atravessar as faixas.
lá se foram embora, aconselhando cautela [só faltava dizer "olhe lá a velocidade, hem?"], e nós ficámos à espera até sermos salvas pelo reboque.
um dia bem passado, que me foi parcialmente cortado do ordenado, com possibilidades de recuperar o dinheiro fazendo dois turnos de unhas de seguida...

p.s.: uma nota para os senhores grevistas: se querem a simpatia do povo para com a vossa causa, que tal mudarem de estratégia? em vez de pararem a cidade e lixarem a vida a toda a gente, mantenham o metro a funcionar mas deixem as portas abertas e desliguem as máquinas de bilhetes... prejudicam os senhores patrões maus e deixam os pobrezinhos ir ganhar a vida... hem? que tal?

terça-feira, 19 de setembro de 2006

detesto produçao

contactar empresas de madeiras. que possam dispensar material, mesmo que com defeito. com retorno de 130% nos impostos. 93 números de telefone de empresas. reuniões, horas de almoço, não está. depois há os que estão...

- [voz de velha ranzinza] tou?!!!!
- estou sim, muito boa tarde, seria possível falar com alguém do departamento comercial?
- é pró quê?
- estou a ligar-lhe da produtora XXXX. estamos neste momento à procura de apoio, em madeira para cenário, para um espectáculo que vai estrear em Janeiro com a Maria Rueff...
- ah nós não fazemos cá disso. a essa, a gente vê na televisão. [como se recitasse a bíblia] temos de cortar nas despesas [job, 3:45].
- eu não sei se tem ideia, mas terá um retorno de 130% do que investir...
- isso dos espectáculos não nos interessa.
- ..... pronto, então muito boa tarde........

[nem 5 minutos depois]

- [bla bla apoio em madeira para o cenário, Maria Rueff, Miguel Guilherme, 130% de retorno nos impostos bla bla...]
- sim... [suspiro pesado] sabe, isto hoje em dia recebemos muitos pedidos... ele é as irmãs samaritanas, é a associação Sol... este país está a ficar um país de [enojado] pedinchas.
- ...
- [enojado-tipo-comi-um-macdonalds-fora-do-prazo-que-cheirava-a-pés-com-chulé] as pessoas só sabem pedinchar...
- [irada] por isso é que o Estado, para projectos culturais, vos reembolsa a totalidade MAIS 30% do investimento. para não perderem dinheiro e ainda terem lucro. não são pedinchices, é mecenato [ca%$#@o]!
- [silêncio. muda de tom] posso falar com o meu sócio, ligue amanhã para lhe dar uma resposta.

passei-me. passei-me. estou-me a passar. e estou com medo de voltar a pegar no maldito telefone.

segunda-feira, 18 de setembro de 2006

olé

A Espanha é o primeiro país a aplicar normativas que regulam o sector da moda, proibindo manequins profissionais demasiado magras e abaixo de valores considerados "nutricionalmente" saudáveis, apostando na definição de padrões comuns para o tamanho da roupa. [...] Nas últimas semanas, dois certames de moda, entre eles a conceituada Pasarela Cibeles em Madrid, proibiram o desfile a mulheres demasiado magras - ou seja, modelos profissionais com parâmetros abaixo de 18 por cento de massa corporal, o que corresponde a 56 quilos para uma altura de 1,75metros. [...] a Esquerda Republicana da Catalunha [ERC]anunciou que vai apresentar uma moção para que a União Europeia aplique a todos os Estados-membros padrões idênticos nos tamanhos da roupa [...] O documento inclui medidas no sentido de impedir a participação de jovens modelos, com menos de 18 anos, e para evitar que a maquilhagem usada simule rostos demasiado magros ou "doentios".

in Público | 16 Set 06


diz que sim, diz que Milão achou graça à coisa. diz que um porradão das meninas nem sequer quiseram ser pesadas. diz que as agências falam de... discriminação! ah! oh! inclemência!

será? uma ponta de esperança? hoje Espanha, amanhã o mundo! hoje o peso... amanhã a altura!!! hoje os cabides... er, modelos, amanhã os actores! ponham-se a pau, morangos, que qualquer dia começam a pegar mesmo em real people! se calhar até começam a escolher gente que saiba falar! ou, loucura das loucuras, que saiba representar!

- Carmen, come la sopa.
- Que no quiero mama... dejame comer solo la lechuga...
- No. La sopa, el pollo y la ensalada! Todo!
- Que no quieroooo
- Coño! Mira que si no comes, no puedes ser modelita!

muahahahahahah!

sexta-feira, 15 de setembro de 2006

a day without a night

passou por mim no jardim. o carro de janelas abertas e som demasiado alto. estava embebida em verdes, crianças a brincar, o homem estranho que pinta quadros do quiosque, as vedetas na esplanada, os turistas de nariz no ar, os velhos, os hippies, os intelectuais, a tia a passear o beagle. mas olhei para trás, seguindo o rasto de som que ainda restava no asfalto.
alguns cigarros ardidos depois, na esperança de esfumar o resto da tarde, a janela aberta para receber a chuva na corrente de ar. já saíram todos. ainda cá estou.
perdi-me em lembranças, porque me perguntei "o que estava eu a fazer há um ano". passou-se, assim de repente, desde que pisei um palco com as palavras de outros. desde aqueles dias que valem a pena, que nos esgotam de prazer. desde que pude contar uma história. desde as borboletas a esvoaçar no peito, o calor das luzes e dos olhos, os espíritos que nos ensinam segredos e as fadas que perdem brilhos se não batermos palmas.

reli as conversas, as histórias que contei. dá-me para isto às vezes. reencontrei-me com os meus fantasmas.
deslizei pelas letras todas, contadas de trás para a frente. choradas de novo porque o que se perde não se recupera e as forças não chegam para tudo. revivi-me. emoções instantãneas, ao alcance de um dedo.

não tive oportunidade de reflectir.
passou de novo o mesmo carro - só pode ser o mesmo. da janela dele para a minha, de novo a mesma música. o Romeu de papel estremeceu. é o vento. eu fiquei estática. são demasiados flashbacks num dia...

al fresco

Praça de Espanha, 10 da manhã. 22ºC. ventinho. humidade. semáforo.

no passeio ao lado distribuem o "Metro". duas raparigas em nada mais que lingerie, botas e chapéu de cowboy e o corpinho que deus lhes deu, correm entre a pilha de jornais debaixo de um chapéu de chuva - para proteger o papel da humidade - e os carros que vão parando na fila. os olhos estão vazios. não apelam à cuequinha de algodão com padrão de ganga, não simpatizam com quem olha.
horrorizada, abro o vidro no instinto básico do "dê cá isso para ver se o molho de jornais acaba depressa para você poder vestir-se... e vá para casa beber um cházinho quente"

o ponto a que chegam as campanhas de publicidade neste país começa a repugnar-me. já não basta o "ELES não gostam de celulite" - as gajas adoram os buraquinhos nas pernas, mas se eles estão desagradados, vamos lá enfiar agulhas no rabo; os anúncios de cerveja em que só há corpinhos bem feitos a serem galados, e a gordinha a passear na praia a ouvir "pssssst" e a pensar enganosamente que por uma vez na vida vale a pena ser gordinha e passear na praia - só para nos[?] fazer rir...

eu sei que o outono chegou contra as indicações maiores dos Deuses da publicidade. e que era suposto estas meninas passearem-se glamorosas nas novas Sloggi Wild Jeans, a fazer babar os do costume: os merdas que páram para apitar qualquer coisa que se mexa, quanto mais meninas em roupa interior - e que, convenhamos, a última coisa de que se lembram é de comprar uma prendinha para as respectivas.

ver duas raparigas a gelar em plena Praça de Espanha logo pela manhãzinha, naqueles propósitos que de tão degradantes perdem qualquer ponta de sensualidade... é a genial ideia da grande campanha de lançamento de uns soutiens foleiros.

haja estômago.