terça-feira, 21 de agosto de 2007

ventania II


montagem a partir de fotos de espanta-espíritos

depois da queda, os braços, doridos, que me agarram. sempre eles. pisca para a direita e agora não vamos para casa. hoje a terapia não será papel de parede. e o tempo arrefece e as árvores que também abraçam. a terra dos feitiços. segue-se o labirinto e deixo que quem conhece aquelas artérias nos navegue pelo sangue verde de asfalto e silêncio. aos poucos o encanto vai descendo, à medida que subimos. subir até ver as nuvens a cair. não pairam, rodopiam, entram pelos ramos e chamam. e ali não há sol nem calor neste pleno verão tão tremido. no reduto, no local secreto que me dás. está ali, como da outra vez, todo o meu estado de espírito. se antes havia luz, azul e vista limpa, hoje não se vê nada. o vento vergasta, uiva, puxa e empurra, faz de nós joguetes de vontade, que sim, chegarão lá acima só porque querem ou seriam derrubados num sopro. equilíbrio precário. frio e adrenalina que não dão espaço ao fraquejar da carne. rajadas que nos calam o medo dos dias úteis, dos dias sempre iguais sem luz de saída, da música amargurada que nos canta e sorri. e as nuvens que envolvem tudo, tomam o território da terra e dos pés e humedecem o espírito. naquela tormenta gritámos, ouvimos, ficámos até a alma estar um pouco mais sossegada. embatida, batida do esforço que foi mantermo-nos de pé.

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

sorriso-tupperware


imagem montada por mim a partir daqui, com foto deste senhor

alô? estou, estou aqui. não. não sei. vais ou voltas, adias e afinal tu não és bem tal e qual. mas eu aviso, prometo que aviso. apitou? sabes, é que há outras coisas em jogo e a tua saúde mental não entra na equação. cartão "saia da cadeia". pois, deve ser. espera. desespera. preocupaste-te? sentes-te ridícula, tanta pena tiveste, tanto medo de fazer mal, de tudo ser em cima da hora. medo de estar nas tuas mãos. deixa-me rir. esta história só pode ser tua. espera. mais logo. espera, agora só amanhã. garanto-te. nada garante é que valha a pena. até foste melhor mas não vale a pena. sentes-te ridícula? queria ser daquelas que não deixa margem para dúvidas. mas devo ter uma margem. dessas das dúvidas que todos têm, que tudo é diferente no que toca a ti. não és suficiente. nunca foste. isto é estranho, nem sei o que pensar. como me devo sentir? não sei. ah não? pois, temos pena. ao menos isso, temos pena, podiam dizer. não.
espera.
já passou da hora. que fazes à espera?

nada.

ponho o sorriso tupperware: flexível sem perder a forma, útil e nunca inconveniente. é de marca, é fiável. tem muita arrumação, fica bem com tudo e nunca desilude. abre e fecha e deixa tudo bem escondido selado hermético sem odores lá dentro. por fora estão as cores, o que sempre alegra o ego do potencial cliente. o que interessa é ser assim, uma puta de plástico profissional.

olá, sou a Polegar e sou um tupperware. sou uma república das bananas. vem gozar comigo.

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

ventania



saio em reboliço e lá fora o tempo azul brilhante parece de acordo comigo. rebelam-se folhas em círculos, pairam sacos de plástico, o meu cabelo já acompanha a dança. o vento levantou vôo. está a estender-me a mão. são noites brancas, a preparar as asas. tenho medo que estejam enferrujadas, tenho noção do agora ou nunca, entre o desespero de querer fugir e o terror de já não saber como se faz, espero ser forte e conseguir apanhar a próxima rajada. não quero magoar os teus braços com uma nova queda, nem desiludir o vento que me espera. acima de tudo, quero saber que ainda consigo voar.

imagem de Maria Flores e Fernando Figueiredo, resgatada daqui

terça-feira, 14 de agosto de 2007

granada sem cavilha

o telefonema chegou. e pôs-me entre a espada e a parede.

interrompo neste momento a emissão para um escarcéu vergonhoso de auto-comiseração

porque é que comigo tudo é assim? porque é que as coisas me saem das mãos e me chegam feitas ultimato, e me obrigam sempre, sempre, sempre, a fazer o que não quero? não se pode fazer isto às pessoas, eu não sou assim, eu não funciono assim. não quero maus ambientes, não quero que me olhem assim. outra vez não, não tenho forças. porque não têm razão. eu não quero que seja assim. mas nunca vão saber isso porque o que é, é o que aparece. pensa em ti, pensa em ti, lixa-te nos outros. não. pois. sim. terá de ser. não posso rebentar mais comigo. e agora tenho na mão a granada sem cavilha e só tenho de escolher para onde a atiro.

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

agulhas de crochet

são pequenas rendas de imagens, que me surgem à velocidade dos dedos da minha avó a fazer crochet, com aquela agulha retorcida na ponta e gestos hábeis de quem se esquece da idade no passeio pelas linhas brancas. era assim que me aparecia aquela dança e eu muito atenta aconchegava os óculos de massa cor de rosa - éramos tão pirosos nos idos 80 - na cana do nariz e absorvia o "vês, é assim, passas por aqui e dás a volta" e eu de língua de fora passo por aqui e dou a volta. depois é a minha mãe, agora aprendo a fazer malha, e o barulhinho suave das agulhas que já não são retorcidas a roçarem uma na outra e a lã a queimar-me o pescoço porque me entusiasmo e vou por ali fora até quase estar enforcada na minha obra de arte que nunca chegará a ser mais que um semi-cachecol preso a um pau de metal.

assim se desenroscam os novelos da minha ideia, maldita a hora em que o homem e a mulher são animais racionais, só pensam quando não devem, no que não devem, eu, animal racional com fantasmas de bolso de estimação que não me estimam. saem-me em catadupa dos dedos e dos olhos todas as pequenas coisas que não consigo organizar, deixo-as cair como fios de algodão-doce colados em teias de aranha desordenadas mas que, se formos a ver bem, tudo liga com tudo. só não se consegue explicar tudo ao mesmo tempo. por exemplo, como explicar pequenas vitórias como conseguir dormir uma noite inteira sem o teu corpo às pintas por perto? a noite é comprida mas eu quero conseguir dormi-la toda, porque é menos um peso nesses olhos redondos de menino quando falamos nisso à medida que te aparo a barba e componho os caracóis. assim sabe-te melhor saber que te acompanho mesmo que à distância nessas caminhadas que te levam para longe e até vou deixar-te ao comboio. sempre gostei de comboios, andam no chão e embalam. fica a promessa de passearmos os dois em breve, sem chatices de gasolinas e portagens, só embalados pelo pouca-terra eléctrico a caminho de um qualquer sítio. e, sabes, aquele nosso amigo já voltou ao qualquer sítio.

assim se avalancha tudo, entre malhas bem apertadinhas como os nossos abraços do fim de noite ou a meio do dia porque é assim sempre que apetece e apetece tantas vezes. o teu lábio a tremer e eu a tentar secar-me num sorriso naquele cais, plataforma 4 carruagem 21, porque tens de saber que não me importo nada, que estou orgulhosa, que sei que vais em trabalho e voltas cansado mas feliz. tal como sei qual é a sensação, a vida que nos preenche e que poucos percebem como é que isso importa assim tanto. mas eu sei como é, o cansaço de um corpo preenchido porque tem a alma completa. somos diferentes dos outros e já me habituei aos olhares de lado, mesmo daqueles que fingem que olham de frente. desgastamo-nos mais depressa porque sabemos ao que sabe um balão cheio de ar, uma boca cheia de chocolate da vida de profissional liberal, vida de artista gente esquisita que basicamente são uns mimados que não sabem o que custa. tontos, sabemos o que custa, mais que todos, mas sabemos ao que sabe quando é bom, e que somos bons. assim te dou espaço às tuas vitórias, porque sei.

não me importo de esperar por ti, gostava de fazer a espera mais produtiva como no ano passado que te desenhei um Corto Maltese para pores na parede. gosto esperar por ti. mais me irritam as esperas por telefonemas que não sei se chegam enquanto definho devagar a cada passa de cigarros baratos neste sítio onde não se faz nada além de ouvir falar mal dos outros.

o ser humano é um animal de hábitos, dizia o outro - lembras-te? - e eu sempre concordei, mas acho que, pelo menos este animal, além de se habituar a quase tudo também tem dificuldade em pensar em habituar-se ou pelo menos a preparar-se para a mudança enquanto ela não vem. e se não vier? troca-se o relógio pelo anel polegar - faz companhia olhar para ti enquanto vejo as horas.

curiosa, esta coisa dos relógios, há uns tempos eram nossos inimigos, mas agora são as noites inteiras que dão gozo. apesar das rasteiras do prazer que o tempo nos prega. dantes, no tempo dos escorregas de areia de São Martinho e das tardes na praceta, então nem os dias nem as férias nem a vida nunca acabavam. agora abranda, a voracidade dos ponteiros, eu sei que é psicológico, mas podia jurar que fazem de propósito, os malandros, agora que não estás, que será mais uma noite de monólogos dialogados interiormente debaixo do mosquiteiro a olhar para a nossa pin-hole iluminada pelo televisor sem som "ó estúpida, dorme antes que o teu corpo dispare em todas as direcções, tu até tens sono, porque é que não dormes. ó estúpida que mania a tua de não gostares de estar sozinha". confesso que me maltrato porque não gosto de mim. mas isso são outros quinhentos e tenho quem me queira e me goste assim muito, tu de longe de voz cansada a bater na vontade de dormir só para enganar a distância metálica do telemóvel, para eu ficar melhor. eu estou bem, eu sei que estou.

a S. hoje vai lá jantar. vai fazer vegetariano para mim, vai-me mimar porque lhe pediste que não me deixe sozinha e ela mima-me e eu adoro-a e adoro-te por teres ultrapassado a minha mania de que tenho de tomar conta dos outros e não tenho de pedir para tomarem conta de mim. vamos comprar courgettes, quem sabe beber vinho tinto, vamos entretecer conversas e fumar cigarros dos baratos com a música a tocar baixinho, de luzes vagas na sala cor de laranja porque nós temos as duas medo do escuro mas assim de palavras dadas sabe bem. ela vem tomar conta de mim, que tento tomar conta dela. ela vem com a sua roupa às cores e a franjinha brilhante, a cara às pintas - como as tuas costas - e o sorriso em riste, apostada em jogarmos ao mimo. hoje não vou esperar sozinha e vou deixar, prometo, que ela me embale e que o vinho me deixe mole para ir pesada para a cama e que seja o que o João - o Pestana - quiser.

e vai ser assim de quentinho, de aconchegado o meu sono porque, sim, tenho amigos que aparecem para acender uma luzinha nas noites em que eu tenho medo do escuro e não contei a ninguém. são dedos seguros a que me vou habituando, a não ter medo de pedir ajuda, como as tuas, como as da S., como aquelas mãos macias que já não estão cá e que tão suavemente - como só elas souberam e as vossas vão aprendendo [agora, que eu deixo] - me faziam festinhas e se deixavam estar presentes só assim, a ver-me cair no sono sem medo - que eu sempre gostei de dormir - vigiando o passeio pelo rio dos sonhos e que só saíam da beira da minha cama muito depois de eu deixar de conseguir dar conta do que quer que fosse porque entretanto já tinha chegado ao cais do outro lado, onde os bichos falavam e eram de cores fortes, como os marretas, os vestidos de princesa e o mercuriocromo nos meus joelhos esfolados.

acabei agora as últimas palavras. acredites ou não começou neste preciso momento uma senhora a cantar fado lá em baixo. aqui. aqui por baixo das janelas com persianas de bambu no prédio amarelo mais feio da Dom Pedro Quinto. as janelas da minha torre - de - marfim - até - telefonema - em - contrário. é fado, sim. daquele sem sílabas, só sons gemidos. é uma senhora que [me] canta de voz trinada e me lembra com uma pontadinha pequenina no coração - que anda meio amachucado - aquela voz que cantava só para mim enquanto lavava a louça e eu, de língua de fora, tentava fazer crochet.

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

na alegria e na tristeza

esta manhã, a caminho do trabalho

- uff, ter ataques de choro logo de manhã é chato. fica-se sem forças e ainda nem começou o dia.
- mas limpa-te a alma. ficas mais leve. hoje pelo menos estás mais animada que ontem.
- achas?
- sim. ontem estavas com cara de gases.

quinta-feira, 9 de agosto de 2007

connect the dots


imagem de Quino, obviamente.

acordar todos os dias com o nó na garganta. deitar todos os dias num pleno vácuo de força anímica, esgotada em ansiedades. entre cá e lá, não me encontro em lado nenhum.

um lápis, de carvão macio. que me junte, finalmente, os pontos. transforme as reticências em linhas sinceras. e me trace os caminhos na palma da mão.

eu depois preencho os espaços com tinta da china e aguarelas de cores vivas.

I'm Jack's inflamed sense of rejection

quarta-feira, 8 de agosto de 2007

bajji



não tenho por costume fazer posts ambientalistas, excepto quando me chateio com o trânsito.
mas hoje ouvi na rádio que o golfinho branco desapareceu. assim. não há mais. morreu o último, no prato de algum chinês que não gosta de chop suey de galinha. ou de crepes de vegetais. ou de arroz.
e aquilo fez-me impressão. doeu cá dentro. não sei se, por achar muita graça a esta espécie, a coisa não me terá afectado ainda mais, confesso.

o que importa reter é que os golfinhos brancos andavam por cá há 20 milhões de anos. e um senhor predador, mais jovem do que todos os outros predadores dos golfinhos brancos, conseguiu acabar com eles sozinho. e por puro e simples capricho - não foi de certeza por não ter mais nada para comer... por acaso o senhor predador até é omnívoro.

apesar de pensar que tento dar o meu pequeno contributo para aguentar este nosso mundinho por mais uns tempos [carro "verde" e utilizado só em casos de real necessidade, reciclagem, sistemas de poupança de água, banhos curtos, lâmpadas economizadoras, não largar beatas na praia e por aí fora], não posso deixar de me perguntar... o que é que andamos a fazer?

oi, pessoal!... quando não houver mais nada para matar, se não antes, NÓS VAMOS MORRER.
percebem ao menos isso, ou não?

foto retirada daqui

quinta-feira, 2 de agosto de 2007

sweet fifteen

segundo este teste, tenho um corpinho de 15 anos e vou viver até aos 86.

isso explica muita coisa, inclusive a medida do soutien... eheheh

através do caríssimo frutos de sombra

segunda-feira, 30 de julho de 2007

família feliz

sentam-se falando alto, de comida. a mãe é enorme e tem a voz aguda. parece "uma bola de berlim com um berlinde em cima". a filha é um ser sobrenutrido de sobrancelha farta e testa curta, com "corpo de trintona com 2 filhos" mas que gosta do Noddy e do Ruca. o senhor, que não parece ser o marido|pai, é grisalho e usa pólos brancos com uma risca e bolsinho no peito, à antiga. dá cotoveladas brutas na rapariga, mostrando que é um velhadas-à-maneira, percebe de tudo e da vida de todos e nada o impressiona.

atacam uns bitoques oleosos enquanto discutem não sei quem, que está gordo e devia ter cuidado. diz que não era assim, que foi depois de largar o futebol. mas tem de ter cuidado com o que come, caraças, já não é novo. entrementes o senhor comenta que não gosta do Macdonas, que não é pessoa de ambrugas nem de sande. só assim para ir para a praia é que o convencem à sande. a moça atalha que até gosta do Macdonas, mas não vai muito. a mãe torce o nariz. nada bate a comidinha caseira.

terminado o bife vai-se palitando os dentes com a esquina do guardanapo. pedem-se sobremesas. mal chegam à mesa, a senhora enumera os defeitos. porque ela já fez doces para fora. que esta receita não é tão boa. que está mole, demasiado doce e pouco frio. a sobrenutrida diz à mãe que "é por isso que se chama semi-frio" e ela e o senhor riem-se muito. está muito esperta, esta miúda. repare-se que o seu bolo de bolacha, o último a chegar, já desapareceu do pratinho, enquanto que a mãe e o senhor ainda se degladiam com o semi-frio que está pouco frio. a mãe aplica-se como uma valente, uma mártir como já não se fazem, com esgares e caretas, mastigando de boca aberta deformada em desagrado, para que se saiba num raio de 300 metros o sacrifício que foi comer o semi-frio até ao fim. que isto não é gente de deixar comida num prato, que é pecado, só por isso.

a discussão subiu de tom, um tema grave que implica um forte brainstorming: o gato, aquele que é o Garfield, às riscas pretas e brancas, ah, sim, o Tómi do Jérri, pois, preto e branco, não que o Jérri era um rato castanho e o Tómi era cinzento, então sou eu que sou daltónica, não, é o outro do pintainho, o do Mimi, ah, não é esse o nome, esse é o do coiote. Pipi, é isso, Pipi, o pintainho que havia uma velhinha e tinha um gato preto e branco.

grave dilema desvendado. venham os cafés.
com adoçante.

salvar a pátria

a colega - que é a que trata dos dinheiros e pagamentos - andava atrás dele com o livro de cheques desde a semana passada. a resposta já podia gravar um disco:
"hoje não me apetece assinar nada".
a colega ia de férias durante 15 dias. na sexta-feira a cena repetiu-se: não lhe apetecia - ao outro - assinar nada. nem mesmo os nossos cheques - cócegas no meio de ivas e i-érre-cês.

lá foi ela de férias, deixando-me o nib dela para lhe fazer o depósito do ordenado e, claro, a lista dos pagamentos a fazer quando se soltassem os apetecimentos do outro.
o meu habitual "mas eu sou de letras" sacou uma gargalhada na despedida, um encolher de ombros cúmplice e dorido de uma batalha mensal sempre igual, mas de pouco mais adiantou.

hoje ele chega-me a suar muito, conta histórias de como o chão da casa dele ferve. rimos todos. ele diz que quer comprar uns sapatos. os meus alarmes disparam, isto é um sinal de pairanço [s.m., forma de estar do patronato num escritório quando há pouco que fazer, está demasiado calor para pensar e já se viu todos os vídeos do youtube; direito patronal de ir laurear a pevide durante o horário laboral só porque sim - in 'dicionário sindical polegarês das artes do espectáculo pobre mas wannabe'].

uma estranha força toma conta de mim. talvez por não me lembrar da última vez que fui cortar o cabelo, jantar fora com amigos, ir dançar com o namorido, comprei um livro, um dvd, um cd ou um creme para a cara, dei uma passa num Davidoff. ou por me lembrar que tenho a despensa vazia, que devo 4 anos de segurança social [viva os recibos verdes e a valorização do trabalho qualificado], que a mota deu inexplicavelmente o berro e por isso ando a assar dentro de um carro sem ar condicionado que devia ter feito a revisão há quase 4 mil quilómetros.

levanto-me da secretária, dou os três passos que nos separam, estendo-lhe o livro de cheques.
"hoje não me apetece assinar nada"
isto pede um golpe ninja. a explosão de raiva saiu-me docemente, numa gargalhada cúmplice e uma piscadela de olho. assim:
- estou solidária com a tua dor. mas, sabes, aqui para estes lados já começa a ser uma questão de fome.
ele abre o livro e assina.

vou ao banco, volto já.

sexta-feira, 27 de julho de 2007

a história verdadeira

era uma vez uma formiga e uma cigarra que eram muito amigas, apesar de terem feitios muito diferentes.

no Outono, a formiguinha trabalhou incansavelmente, a armazenar comida para o Inverno. não parou para descansar, não aproveitou os fins de tarde nem o pôr-do-sol, não esteve com amigos, não se foi divertir... já a cigarra passou o Outono na rambóia: ele era festas, estar com os amigos... andava sempre de guitarra debaixo do braço e toca de cantar em todo o lado e divertir-se comme il faut.

chega o inverno e a formiguinha lá vai para a sua toca quentinha e confortável, recheada de provisões. está ela a ver se descansa um bocadinho as pernas quando batem à porta. é a cigarra, que lhe aparece num lindo casaco de vinil todo pimpão, guitarra debaixo do braço, óculos escuros e lenço na cabeça.

- então! tá-se? - pergunta a cigarra
- tá, tá. - diz a formiga espantada - e tu, como estás?
- fofa, vou-me pisgar por uns tempos e precisava que me tomasses conta da toca. regar os bonsais, ver o correio, essas cenas... pode ser?
- pode... mas onde é que vais?
- nem m'imaginas esta cena. tava eu muito bem uma daquelas parties q'as revistas arranjam à gente com bubas à pala, a mandar uns sons pró ar, 'tás a ver, numa d'improviso só pr'á curtição c'as minhas amigas lá da linha, quando vem ter comigo um gajo que diz qu'é produtor e que gostou de mim, qu'eu tinha uma imagem espectacular e a voz e assim. dois dias depois tava a assinar contrato! vou gravar um cd e dar concertos numa tour de 6 meses. na França! provavelmente também pode ser que venha aí um convite p'uma novela musical. não sei falar francês mas também... faço d'emigra pobrezinha. é mais cenas de nus e tal, é só gemer e cantar umas músicas. mas é um começo de estala!
- ah... boa! fico tão feliz por ti, minha amiguinha!
- iá. pode ser que entretanto escreva uns livros sobre a cena da tour e isso. era curtido, não achas? depois mandava-tos textos pa fazeres revisão, fazias-misso?
- pois, pode ser, claro...
- olha, e já agora fofa, qués'alguma cena da França?
- até queria. se não te importasses, fazias-me um favor enorme: se encontrares um tal de La Fontaine manda-o sodomizar-se por um elefante sifilítico.

um disparate baseado neste, com uma expressão - a do elefante - "roubada" a este senhor. retomaremos a emissão dentro de momentos.

quinta-feira, 26 de julho de 2007

etiqueta 1.0.1.

não pedir a uma pessoa a quem pagas por mês um quarto do que recebes por semana - de outro sítio - para fazer o teu trabalho... desse outro sítio.

confuso? pois, deve ser...

terça-feira, 24 de julho de 2007

na soleira da porta



perdi os olhos no rio, à minha direita. perdi-me. em cogitações sobre os efeitos da luz do entardecer na água. como parecia uma amálgama de recortes de papel de alumínio colados com cola de batom UHU, no chão, para reflectir o céu. perdi-me nisto tudo. só no fim do percurso me apercebi que o meu corpo se recusara terminantemente a virar-se para a esquerda, a encarar as luzinhas bonitas da cidade do outro lado. a encarar o regresso.
acordei e vi uma nódoa. por mais que a esfregasse não saía e uma aflição tomou conta de mim de tal forma que chorei. chorei por uma nódoa e cheguei atrasada.

recuperei e esvaí-me a um só fôlego, parece-me. ou não me consigo reservar espírito para os dias úteis-inúteis. a ordem das coisas está ao contrário, isso é certo, mas o inconformismo desgasta-me e, mais uma vez a um só tempo, não consigo ser de outro modo.

fazes-me falta. há demasiado tempo que não te tenho, que não me tens. faz-me falta o teu cheiro e as nossas noites longas. o esforço, o suor, e os meus dedos a tocar toda a tua amplitude. tu devagar, começavas a dedilhar-me e a minha voz soltava-se. primeiro tímida, depois explosiva. porque contigo eu sei que era perfeita. ias aumentando de intensidade e eu encontrava-me coisas que não conhecia e ria alto. percorríamo-nos algures entre o lento saborear e a pressa de chegar. um dia fazíamos uma música inteira. e eu dançava com passos marcados pelo instinto. pelo teu chão, pelo chão que era meu, o meu palco. gostava tanto de quem eu era quando vivia plena no nosso abraço. o que me dói não ter esse abraço.

releio o que escrevi e sorrio. há várias cambiantes para um desgosto de amor. se o que digo fosse dirigido a uma pessoa, vendia-se que nem pãezinhos quentes.

quinta-feira, 19 de julho de 2007

humming

promessa cumprida, para uma amiga.
pinta de artolas à parte [inimitável], agora já sabes o que andámos a cantar naqueles loucos 4 dias ;)

I’m gonna sing this song with all of my friends
and we’re I’m from Barcelona
Love is a feeling that we don’t understand
but we’re gonna give it to ya

We’ll aim for the stars
We’ll aim for your heart when the night comes
And we’ll bring you love
You’ll be one of us when the night comes

I´m from barcelona | we're from barcelona


segunda-feira, 16 de julho de 2007

volver


três mil e sessenta e nove quilómetros, quarenta e cinco horas e quinze minutos de estrada.
cinco etapas, ao longo de quinze dias.
o asfalto comprido, os ventos, os cheiros, os mosquitos, os ataques dementes dos condutores espanhóis, a curiosidade por uma casa caber em dois pares de alforges e em sorrisos felizes apesar da distância.
uma pequena cidadela com uma praça curiosa, rodeada de história e um teatro secular, o mais antigo da zona ibérica. igual ao que era, tratado como devia ser. o primeiro café-bombom e catalana do itinerário.
os caminhos de Dom Quixote. e um só moinho.
a aldeia perdida na montanha, a casa no campo, a praia, o descanso, a família, as guloseimas, as agua-cebadas, os percalços, a aflição e a determinação em seguir caminho. os picos, a areia. rincón de santi. a entorse. o mar da minha infância, ainda quente, ainda turquesa. vambú. noche hache, caiga quien caiga. breathe. crisis-is de celulitis-is. gilipollas!
a primeira metrópole do caminho. um sorriso às sardas no meio das árvores, o duche frio, as dores nas pernas, nos pés, o pensinho com bonecos, Gaudi, antiguidades, o apelo consumista, recordações, noites de gargalhadas em segredo, à luz da lanterna numa Sintra inventada. tão perto. daquelas vielas com música em cada esquina. tango no meio da rua. já mencionei Gaudi? a minha saia nova. assobios.
última paragem. no centro do centro do centro. o design e as bagagens. o sono vigiado por Lorca. de mãos dadas pelas ruas, a cinco minutos de tudo. descer o Prado, subir Van Gogh, descobrir Estes. as praças, as arcadas, o mundo parado ás quatro da tarde. o calor, as cañas e barrigadas de Fatigas del Querer. contas saldadas com um certo bar de jazz onde finalmente entro, tantos anos depois. às vezes é preciso passar o tempo certo para tudo fazer sentido. finalmente estou.

três mil e sessenta e nove quilómetros, quarenta e cinco horas e quinze minutos de estrada.
cinco etapas, ao longo de quinze dias.
tanto sorriso, tanto, meu amor.

venho pela presente solicitar a beatificação dos meus quartos traseiros.
com os melhores cumprimentos

sexta-feira, 29 de junho de 2007

estranhas bandas sonoras

há estradas com músicas próprias. este ano, percorro caminhos de menina. em que as horas eram demasiado compridas e as curvas demasiado apertadas para um estômago sensível. a alternativa era sempre a música. cantar sempre me fez bem aos enjôos e quejandas indisposições da alma. quando acabavam as pilhas no walkman, sobravam-me ainda horas infindas de músicas de gosto duvidoso que ecoavam nas 4 paredes viajantes do carro. Roberto Carlos, Paulo Bragança, Demis Roussos, Beach Boys, Righteous Brothers, The Shadows e sei lá que mais sons do passado. e um dia, surge-nos do outro lado da estrada El Consorcio. e lado A, lado B, quilómetros atrás de horas, rodava no auto-rádio-com-leitor-de-cassetes. a minha memória selectiva não se lembra do que almoçou ontem. mas lembra-se das letras e das melodias. a minha avó cabeceava, com as pernas da minha irmã no colo [que a miúda ainda cabia deitada no banco da frente]. a minha mãe punha os pés no tablier [vício que escorre no código genético], e o meu pai assobiava. reencontrei-os há pouco tempo e não pude deixar de rir. para mim, serão sempre um disparate deliciosamente kitsch. é mais forte que eu. rasga-se-me um sorriso. desta vez, de oeste a leste :)



até daqui a 15 dias...

terça-feira, 26 de junho de 2007

na véspera de não partir nunca



para breve a vida compactada num par de alforges, os cheiros do vento e os riscos do mapa feitos rugas nas palmas das mãos. eu nas tuas e tu nas minhas. gosto disso.
a tenda vai sair do esconderijo e o pó do caminho vai fazer-nos a cama. é o chamar do asfalto.
para breve o tinir da colher na chávena de alumínio, a cozinha em pacotes, os pássaros, as ondas mornas, a relva, a areia, o cimento e a terra batida, as agua cebadas, os sotaques açucarados, as multidões e os silêncios de três mil quilómetros. o calor e o cansaço, o arrepio do suor, o aperto dos músculos, o estado alerta onde me reinvento de tantos meses de dormência.
levo creme para as dores no corpo e anseio por elas. é sinal que estou, finalmente, viva. e longe, tão longe...

segunda-feira, 25 de junho de 2007

ficção para quê?

um homem vai levar a mulher ao trabalho. faz uma inversão de marcha, manobra de sempre, em consciência de que não infringe as regras de trânsito.

logo a seguir é interceptado por dois polícias que o acusam de manobra proibida. olhe que não, senhor guarda. mas eles insistem de tal forma, e o homem, que não é de ferro e acha que tem razão e que estamos em democracia - somos inocentes até prova em contrário -, acaba por pedir para os guardas se identificarem, para ele poder apontar nomes e números de distintivos. os polícias, em gestos vagos, para não dizerem que não se identificaram, passeiam os distintivos de maneira que não se leia nada.

mas aquilo não cai bem e resolvem que o homem está a desautorizar a autoridade. chamam reforços, imobilizam o homem à bruta, algemam-no e ainda dão um encontrão à mulher. que por acaso está grávida. de 7 meses.

ela começa a pedir aos transeuntes que, já que estão a molhar o pão no sangue, deponham como testemunhas do abuso. todos baixam as cabeças e tiram as mãos do molho. seguem para as suas vidas com mais uma história para contar à hora do telejornal, - "nem imaginas o que vi, maria".

enquanto isso, os polícias atiram com o homem para uma carrinha fechada e vão de sirenes ligadas e a alta velocidade para uma esquadra que não é a mais próxima. quando ele diz que as algemas o magoam ou que está a ficar mal disposto com a condução "de emergência", chamam-no menina.

largam-no numa cela, diante do cartaz que enumera os direitos do recluso. ele pede um, poder ligar ao advogado. não deixam, agora esperas, ó menina. já estás de bitola baixa, é? agora já não te safas, ó menina. ficam ali perto, em azafamada reunião, de volta de papéis. o homem apercebe-se que os senhores realizaram [só] agora que afinal o homem não infringiu mesmo regra de trânsito nenhuma. não vão pedir desculpa, têm é de desculpar o facto de ele estar agora ali, encarcerado. portanto, estão a tentar dar a volta aos depoimentos que têm de redigir.

só depois de assinar o papel é que o deixam telefonar. não lê, assina, ó menina. o homem ainda se consegue aperceber que suprimiram a parte da suposta infracção, e que ele pediu a identificação dos guardas. mas assina, para poder telefonar, para ouvir um "não assines nada". demasiado tarde.

depois ainda é transportado para um sítio que não lhe dizem bem o que é. só sabe que vai falar com um juiz. no dia seguinte. passa, portanto, a noite numa cela, à espera. a ouvir uivar um drogado em ressaca. no dia seguinte, consegue saber, por um guarda de outro turno, que a "marcha de emergência", as sirenes, as algemas, não é costumeiro. depois de ser "ouvido" - o papel está assinado, não é -, é libertado com termo de identidade e residência. aguarda julgamento, acusado de desrespeito à autoridade e resistência à ordem de prisão. tem os pulsos marcados e os olhos enevoam-se, algures entre a fúria, a vergonha e a impotência, quando conta tudo isto.

o homem é meu irmão.

sexta-feira, 22 de junho de 2007

um remendo

a cada passo descai-te uma linha, os alinhavos parecem desfazer-se em pequenos vazios soprados sem som. os barulhos confundem-se e penetram nos poros do tecido, rimbombando-te esgares mudos nos botões do casaco. as cores empalideceram aos teus olhos de contas porque, já se sabe, a água salgada debota. os remendos que te enrolam o coração esgaçaram e pulsam com a trepidação do andar.

apetece-te parar. agarrar nos farrapinhos e formar uma simples bolinha de linhas. não o faças, bonequinha. ainda és a mais bonita explosão de colorido. ainda tenho muitos carrinhos de linha. ainda as tuas formas deliciam o ar.

não te encolhas. é mais difícil realinhavar-te se não te esticares. os sons não saem, os remendos emaranham-se. por isso abre as mãos. não te esqueças de abrir as mãos.