domingo, 16 de setembro de 2007

alcatrão

disse para mim mesmo: não. isto não. e o pragmatismo caiu-me aos pés, ficou a mirar-me lá de baixo, do chão raspado, enrolado nas pernas da maca para não cair nos solavancos. era o cabelo. espalhado na miséria de almofada, soltava o teu cheiro e o que eu adivinhava ser a tua textura. emanavas dali, daquele corpo inerte, apesar de não seres tu. e eu só podia olhar para os monitores e ver aquilo a esvair-se. via-te a ti a esvaíres-te. puxava o cérebro para o comando das operações, tinha de estar alerta e no entanto duvidava agora de quem precisaria mais de medicação. delírio, confusão. vi os teus olhos raiados de verde naquele rosto pálido de olhos baços castanhos, revirados. vi-te. a surgir na rua que o meu sonho recorrente desenhava numa geometria apurada. uma rua que nunca vi na vida, mas ali era a minha rua. a única rua que interessava. porque estavas lá todas as manhãs, perto da hora de acordar. caminhavas para mim em passo lento e encostavas-te a mim. do que mais gostava era da minha completa incapacidade de agir. empurravas-me contra a parede e ficava ali a absorver esse teu cheiro, e a tua pele e de repente estávamos nus na rua onde passavam pessoas que não nos viam. encostavas-te a mim e depois nua desmanchavas-te em milhares de vidros que me perfuravam. era assim, todas as manhãs a minha mão a subir pela tua saia e a tua pele a arranhar-me e eu a gritar de qualquer coisa. sempre acordei encharcado em suor e certezas. tinha de perceber como parar aquilo. és daquelas coisas que para um gajo como eu só existe ao longe, à hora da cerveja antes de ir para casa. agora eras tu ali, eu a delirar com uma vida nas mãos, que não era a tua mas eu via-te e não conseguia fazer nada com medo que morresses. o Vicente já conhecia demasiado bem o som da máquina. os pings e os bips que dizem sim, não, talvez. não precisou do meu aviso para abrandar a ambulância. abranda-se para a alma não se descolar com a velocidade. assim um bocado como os panfletos das discotecas que nos prendem no vidro do carro, que se soltam mal aceleramos. e eu, foda-se, em vez de pensar, em vez de fazer o que faço demasiadas vezes ao dia, entrei em parafuso e só te via a ti na maca e não sabia onde me meter. depois percebi que só podia fazer uma coisa. dar-te o beijo que nunca tive coragem, porque não temos coragem para estas coisas, quando é a sério. baixei-me e encostei a minha boca à tua. hoje era eu que tinha iniciativa, a chupar-te a saliva para ver se voltavas cá para fora, para a realidade. fiquei pegado a ti à espera dos vidros. só acordei quando o Vicente me espetou um banano na tromba. atirou-me para fora da ambulância com um puxão e eu, que sou duas vezes o tamanho dele, deixei-me voar e aterrar com as mãos no asfalto. fiquei a olhar para as palmas raspadas não sei quanto tempo. voltei lá para dentro e tinhas desaparecido. restava aquela tipa de cabelo parecido com o teu e o monitor com uma linha a direito. foda-se, disse-me o Vicente, que é que te deu pá? não sei, meu, bloqueei. epá, no meu turno não, no meu turno não. depois calou-se e ficou a olhar para a rapariga. disse qualquer coisa como antes isto que ficar vegetal. acho que era para me consolar.
saiu e fechou a porta. arrancou e não falou mais. assobiava as músicas da rádio, como costuma fazer para desopilar. eu deixei-me abanar pelos solavancos. apoiei os cotovelos nos joelhos e o queixo nas mãos. fiquei a cheirar o alcatrão da pele. a olhar para a morta. hoje à hora da cerveja a ver se falo contigo.

terça-feira, 11 de setembro de 2007

simplex, pastilha!

o simplex supostamente simplifica. há um ano atrás, quando me roubaram a carteira, passei um dia no parque de diversões do estado que é a Loja do Cidadão mas consegui fazer quase tudo [continuo sem cartão de contribuinte porque de cada vez que lá vou as Finanças têm o sistema em baixo]. agora, um ano depois, a história repete-se, desta vez com o namorido, que desastrosamente perdeu a carteira no nosso subúrbio encantado. que se revelou não tão encantado porque a carteira [apesar de também vazia de tudo excepto de documentos] não apareceu.

se há um ano atrás, entre filas e momentos de humilhação a implorar por um rasgo de inteligência e compreensão aos funcionários, as coisas se faziam num único prédio - escada acima escada abaixo, com muito dinheiro, originais e fotocópias -, em praticamente 365 dias o simplex complicou.

senão vejamos:
para pedir o B.I., agora a coisa não vai lá com a certidão de nascimento. além deste maldito papelinho [que tem de ser tirado na Fontes Pereira de Melo ou então fica mais caro e demora mais] carimbado entre horas de chá, baixas por unhas encravadas e greves , é preciso apresentar o Bilhete de Identidade de uma pessoa de família. ah pois claro. olhe senhor, tem aqui o papel a dizer que fui roubado, mais outro a dizer que existo e que nasci em sítio tal, sendo filho desta e do outro. tem as fotografias e o dinheirinho. alto lá! mas me está a dar prova de que você existe, baseada na existência de uma esta e um outro que não estão presentes?! preciso do B.I. da esta ou do outro, porque isso da certidão de nascimento diz que nasceu desta e do outro mas não é beeeem a prova provada. é só um papel! só porque está carimbado por um Alto Funcionário das Certidões, como é que eu, Alto Funcionário dos Bilhetes de Identidade, sei que esta e o outro existem, de facto? hum? pesquisa no computador?! base de dados?! rede de informação, cruzamento de dados?! tenha tento na língua, ouviu?! eu não tenho culpa dos seus problemas! fale com jeitinho, agora palavrões... cruzamento de dados e internetes... cá não há dessas coisas, ouviu? e mais! eu não tenho nenhuma obrigação de saber mexer nisso dos ratos. eu sou uma pessoa decente! cruzamento de dados é para os das Finanças! quanto a identidades é outra conversa, são precisas provas! inculto! vê-se logo que você nunca ouviu falar de geração espontânea! vá, vou-lhe fazer um favor: se não pode apresentar o B.I. da pessoa da família, então vá ao Areeiro tratar do B.I. sim, ao Areeiro, onde já não vai chegar à hora de menor fluxo de clientes, onde vai ter 126 pessoas à frente, mas onde lhe tratam disso sem o B.I. do familiar! eu tenho soluções para os seus problemas! tudo se resolve! e olhe, esta é de graça: para tratar da carta de condução talvez ainda lhe aceitem a certidão de nascimento, mas para tudo o resto não vale a pena tentar sem o B.I. portanto vá já ajeitando a agenda para voltar cá um par de vezes. ah... quem é amigo, quem é? eu, o Alto Funcionário Formatado dos Bilhetes de Identidade, que até dá umas dicas simpáticas depois de duas horas numa fila que, afinal, não dá em nada mas a vida é assim e se você trabalha e não tem vida para isto, então viva ilegal! não fosse roubado! malandro!

na Loja do Cidadão pode tratar de vários dos seus assuntos burrocráticos num só espaço... mais rápido, mais eficiente, sem tanta papelada, simplex!

e a carta de condução, onde se trata? na DGV, não é? e há uma DGV na Loja do Cidadão Incauto, não há? sim, sim sim! não. quer dizer, há uma DGV nesse espaço maravilhoso, mas para tirar a carta precisa de... ir à sede da DGV, porque na DGV da Loja do Cidadão nós já não tratamos das cartas de condução. tratamos de outros assuntos. mas de cartas não. que outros assuntos? assim de repente não estou a ver, mas de cartas de certeza que não tratamos. e para tirar segunda via da carta, já se sabe, não serve de nada o papel a dizer que foi roubado, a certidão de nascimento e o certificado de pedido do B.I. não senhores. precisamos do seu B.I.

vão lá oferecer computadores e listas de espera via sms para o raio que os parta a todos. só proponho aos senhores ministros que resolvem simplificar a nossa vida que experimentem ser roubados e resolvam tratar - sem assessores nem representantes - da sua documentação. que percam horas de vida e de trabalho a serem empurrados que nem bolas de ténis, de uma repartição para outra, escada acima, metro abaixo. e que no fim lhes apresentem a conta e eles tenham de pensar em como, recebendo os flexiseguros 500 euros por mês a recibo verde, entre descontos para a segurança social, retenções de IRS, a renda, as contas e as compras do supermercado, não se vão sentir roubados pelo Estado [de sítio e pouco de direito] em que estão metidos.

sabemos que um roubo de documentos é uma chatice, que já implica despender tempo e paciência nas filas. aturar gente estúpida e pouco solícita porque sem formação [são, eles também, mais baratos assim]. mas pronto, suporta-se. no entanto, pensamos que, bolas, num roubo, num pedido de segunda via de documentos por uma situação a que somos alheios, as coisas sejam realmente simplificadas. caramba, hoje em dia podemos entregar IRS pela internet e pagar por multibanco. o mesmo para o selo do carro, para as contribuições da segurança social. não temos de por os cotos nas filas. podemos pagar as multas com transferências online, for crying out loud! mas curiosamente, o sistema simplex SÓ não está preparado para resolver os problemas dos únicos que não tiveram culpa nenhuma da situação em que estão.

para todas as informações [que são nenhumas - por exemplo apresentar o B.I. do familiar consta apenas como uma hipótese e não como uma obrigação], há sempre o Portal do Cidadão. não obstante, seremos sempre obrigados a ter um longo e prazenteiro téte-à-téte com os senhores dos balcões das várias instituições burrocráticas...

sexta-feira, 7 de setembro de 2007

schmooze



v. intr.
to converse casually, especially in order to gain an advantage or make a social connection.
"to chat intimately," 1897, from Yiddish shmuesn "to chat," from shmues "idle talk, chat," from Heb. shemu'oth "news, rumors." Schmooozer is from 1909.

ganhei um prémio, o prémio do Schmooze [santinho]. diz esta senhora que eu schmoozo muito. que tenho o chamado poder de schmoozar.
lendo a definição de schmooze do dicionário, concluo que terá a ver com, vá, conversas da treta, mas daquelas que sabem bem.
depois diz ela que devem nomear-se outros, mais ou menos num obrigadinhos por vir cá meter conversa com a pobre blogger abandonada.

aqui a pobre blogger abandonada anda a portar-se mal. escreve pouco, poucos nadas inundam esta paginita virtual. daí o abandono da caixa de comentários. sabendo que no mundo do teatro não há justificações, mas que no mundo da vida elas existem, cá vai a minha desculpinha: agora tenho dois trabalhos. se num deles ainda aturo o chamado patrão do beicinho em dia de pagamento, se ainda faço projectos e queimo pestanas para converter grunhidos em palavras; no outro danço 6 horas por dia, aturo outro género de desorganizações, tenho de aprender a cantar sozinha, e decorar texto por 5 pessoas. não almoço, porque estou a fazer os 45 minutos de autocarro que separam as minhas duas mecas laborais. não janto porque saio demasiado tarde e acabo o dia com os pés de molho em água quente, creme e sal grosso. e é isto.

posto isto, remeto então a lista dos premiados - a.k.a. alguns dos que ainda não me abandonaram:
espanta-espíritos (se bem que também anda ausentezito)
m.p.r.
joão (este não me abandona porque agora andamos colados no mesmo cabaz)
colher de chá
intruso
nuno
o estranho (estes dois últimos, desde o primeiro ano. impressionante)

e um muito obrigadinhos a todos os outros que ainda fazem com que a minha barrinha do stat counter não esteja tão plana como a minha conta bancária.

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

mimi...

ainda sobre o canto, e descobrindo no blog do meu Mr. Bojangles a perfeita ilustração da situação - por alguma razão somos irmãos gémeos -, roubo-lhe o marreta e mostro ao mundo como [também eu] me sinto quando tenho de, vá, chamemos-lhe "cantar"...

sexta-feira, 31 de agosto de 2007

hoje à noite

cine-lençol.
filme projectado à antiga, num [para quem não tinha percebido] lençol. no meu jardim preferido.

eu acho que vou regressar aqui ao Príncipe Real esta noite, trazer umas almofadinhas e uns agasalhinhos e ver o que me espera. às 21h.

toda a informação aqui...obrigada Público [o jornal]

quinta-feira, 30 de agosto de 2007

da voz

para mim, há algo de tenebroso num estúdio de gravação. apesar de ser a minha casa quando faço os bonecos [e aí ninguém me pára], quando se trata de fazer música com a minha voz, parece que o meu mundo está a sofrer um tremor de terra. e os meus sons saem aos saltinhos.
e não me salvam mezinhas, propolis, euphons, chás de perpétuas roxas, copos e copos de água ou exercícios de respiração. não me salva vizualizar-me sozinha no carro com o velho cd do Chicago aos berros e eu a fazer coro com a Zeta-Jones.
é que ali ouço-me... e a fantasia vai ganhando forma, porque estou a cantar uma coisa meio Broadway, e já estou num palco escuro com uma cartola e com o follow spot em cima e o público está ao rubro e a minha voz sai densa e intensa e... pimba, a nota sai ao lado, não consigo fazer a ponte para o maldito - agudo - tipo - dedo - no - chamado - orifício.
e então vejo as caras do outro lado do vidro duplo, vejo-os mas não os ouço e por isso penso logo que não têm mais nada para fazer que não seja estar a falar mal de mim, eu sei que estão a perguntar-se de onde é que saiu esta pobre alma desafinada.
aí maldigo a pobreza, a falta de aulas de voz que sempre quis ter e a minha imuno-deficiência ao canto.
deve ser o único trauma que não sei de onde raio é que me saiu.
ficam sempre espantados quando digo que não sei cantar. como não? porquê? és afinada, tens ouvido, sentido de ritmo, tens uma voz linda...
oh, senhores: a minha voz é linda para falar. falar, eu falo bem... e falo muito e tudo...

quarta-feira, 22 de agosto de 2007

vela

isqueiro ou fósforo. cera. bruxinhas. vento e ventania por dentro.
conversa de olhos nos olhos. assertividade. franqueza. fraquezas sem vergonha.
depois o vinho, o brinde, a alegria, a verdade de um salto sem rede mas com vontade.
revelações. revoluções.
o meu corpo terá de reaprender a dançar.
a minha voz terá de reaprender a musicar.
a minha caixa de sentimentos terá de ser reaberta.
hoje foi o meu último dia inteiro na janela com vista para o Príncipe Real.

vou fugir. o vento não me levou com ele mas soprou-me um pouco de ar. enfunou-me as velas. vai-se devagarinho, de cabelos nos olhos. e braço dado com os amigos.

obrigada a todos. não me deixaram cair. não vos irei desiludir.

terça-feira, 21 de agosto de 2007

ventania II


montagem a partir de fotos de espanta-espíritos

depois da queda, os braços, doridos, que me agarram. sempre eles. pisca para a direita e agora não vamos para casa. hoje a terapia não será papel de parede. e o tempo arrefece e as árvores que também abraçam. a terra dos feitiços. segue-se o labirinto e deixo que quem conhece aquelas artérias nos navegue pelo sangue verde de asfalto e silêncio. aos poucos o encanto vai descendo, à medida que subimos. subir até ver as nuvens a cair. não pairam, rodopiam, entram pelos ramos e chamam. e ali não há sol nem calor neste pleno verão tão tremido. no reduto, no local secreto que me dás. está ali, como da outra vez, todo o meu estado de espírito. se antes havia luz, azul e vista limpa, hoje não se vê nada. o vento vergasta, uiva, puxa e empurra, faz de nós joguetes de vontade, que sim, chegarão lá acima só porque querem ou seriam derrubados num sopro. equilíbrio precário. frio e adrenalina que não dão espaço ao fraquejar da carne. rajadas que nos calam o medo dos dias úteis, dos dias sempre iguais sem luz de saída, da música amargurada que nos canta e sorri. e as nuvens que envolvem tudo, tomam o território da terra e dos pés e humedecem o espírito. naquela tormenta gritámos, ouvimos, ficámos até a alma estar um pouco mais sossegada. embatida, batida do esforço que foi mantermo-nos de pé.

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

sorriso-tupperware


imagem montada por mim a partir daqui, com foto deste senhor

alô? estou, estou aqui. não. não sei. vais ou voltas, adias e afinal tu não és bem tal e qual. mas eu aviso, prometo que aviso. apitou? sabes, é que há outras coisas em jogo e a tua saúde mental não entra na equação. cartão "saia da cadeia". pois, deve ser. espera. desespera. preocupaste-te? sentes-te ridícula, tanta pena tiveste, tanto medo de fazer mal, de tudo ser em cima da hora. medo de estar nas tuas mãos. deixa-me rir. esta história só pode ser tua. espera. mais logo. espera, agora só amanhã. garanto-te. nada garante é que valha a pena. até foste melhor mas não vale a pena. sentes-te ridícula? queria ser daquelas que não deixa margem para dúvidas. mas devo ter uma margem. dessas das dúvidas que todos têm, que tudo é diferente no que toca a ti. não és suficiente. nunca foste. isto é estranho, nem sei o que pensar. como me devo sentir? não sei. ah não? pois, temos pena. ao menos isso, temos pena, podiam dizer. não.
espera.
já passou da hora. que fazes à espera?

nada.

ponho o sorriso tupperware: flexível sem perder a forma, útil e nunca inconveniente. é de marca, é fiável. tem muita arrumação, fica bem com tudo e nunca desilude. abre e fecha e deixa tudo bem escondido selado hermético sem odores lá dentro. por fora estão as cores, o que sempre alegra o ego do potencial cliente. o que interessa é ser assim, uma puta de plástico profissional.

olá, sou a Polegar e sou um tupperware. sou uma república das bananas. vem gozar comigo.

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

ventania



saio em reboliço e lá fora o tempo azul brilhante parece de acordo comigo. rebelam-se folhas em círculos, pairam sacos de plástico, o meu cabelo já acompanha a dança. o vento levantou vôo. está a estender-me a mão. são noites brancas, a preparar as asas. tenho medo que estejam enferrujadas, tenho noção do agora ou nunca, entre o desespero de querer fugir e o terror de já não saber como se faz, espero ser forte e conseguir apanhar a próxima rajada. não quero magoar os teus braços com uma nova queda, nem desiludir o vento que me espera. acima de tudo, quero saber que ainda consigo voar.

imagem de Maria Flores e Fernando Figueiredo, resgatada daqui

terça-feira, 14 de agosto de 2007

granada sem cavilha

o telefonema chegou. e pôs-me entre a espada e a parede.

interrompo neste momento a emissão para um escarcéu vergonhoso de auto-comiseração

porque é que comigo tudo é assim? porque é que as coisas me saem das mãos e me chegam feitas ultimato, e me obrigam sempre, sempre, sempre, a fazer o que não quero? não se pode fazer isto às pessoas, eu não sou assim, eu não funciono assim. não quero maus ambientes, não quero que me olhem assim. outra vez não, não tenho forças. porque não têm razão. eu não quero que seja assim. mas nunca vão saber isso porque o que é, é o que aparece. pensa em ti, pensa em ti, lixa-te nos outros. não. pois. sim. terá de ser. não posso rebentar mais comigo. e agora tenho na mão a granada sem cavilha e só tenho de escolher para onde a atiro.

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

agulhas de crochet

são pequenas rendas de imagens, que me surgem à velocidade dos dedos da minha avó a fazer crochet, com aquela agulha retorcida na ponta e gestos hábeis de quem se esquece da idade no passeio pelas linhas brancas. era assim que me aparecia aquela dança e eu muito atenta aconchegava os óculos de massa cor de rosa - éramos tão pirosos nos idos 80 - na cana do nariz e absorvia o "vês, é assim, passas por aqui e dás a volta" e eu de língua de fora passo por aqui e dou a volta. depois é a minha mãe, agora aprendo a fazer malha, e o barulhinho suave das agulhas que já não são retorcidas a roçarem uma na outra e a lã a queimar-me o pescoço porque me entusiasmo e vou por ali fora até quase estar enforcada na minha obra de arte que nunca chegará a ser mais que um semi-cachecol preso a um pau de metal.

assim se desenroscam os novelos da minha ideia, maldita a hora em que o homem e a mulher são animais racionais, só pensam quando não devem, no que não devem, eu, animal racional com fantasmas de bolso de estimação que não me estimam. saem-me em catadupa dos dedos e dos olhos todas as pequenas coisas que não consigo organizar, deixo-as cair como fios de algodão-doce colados em teias de aranha desordenadas mas que, se formos a ver bem, tudo liga com tudo. só não se consegue explicar tudo ao mesmo tempo. por exemplo, como explicar pequenas vitórias como conseguir dormir uma noite inteira sem o teu corpo às pintas por perto? a noite é comprida mas eu quero conseguir dormi-la toda, porque é menos um peso nesses olhos redondos de menino quando falamos nisso à medida que te aparo a barba e componho os caracóis. assim sabe-te melhor saber que te acompanho mesmo que à distância nessas caminhadas que te levam para longe e até vou deixar-te ao comboio. sempre gostei de comboios, andam no chão e embalam. fica a promessa de passearmos os dois em breve, sem chatices de gasolinas e portagens, só embalados pelo pouca-terra eléctrico a caminho de um qualquer sítio. e, sabes, aquele nosso amigo já voltou ao qualquer sítio.

assim se avalancha tudo, entre malhas bem apertadinhas como os nossos abraços do fim de noite ou a meio do dia porque é assim sempre que apetece e apetece tantas vezes. o teu lábio a tremer e eu a tentar secar-me num sorriso naquele cais, plataforma 4 carruagem 21, porque tens de saber que não me importo nada, que estou orgulhosa, que sei que vais em trabalho e voltas cansado mas feliz. tal como sei qual é a sensação, a vida que nos preenche e que poucos percebem como é que isso importa assim tanto. mas eu sei como é, o cansaço de um corpo preenchido porque tem a alma completa. somos diferentes dos outros e já me habituei aos olhares de lado, mesmo daqueles que fingem que olham de frente. desgastamo-nos mais depressa porque sabemos ao que sabe um balão cheio de ar, uma boca cheia de chocolate da vida de profissional liberal, vida de artista gente esquisita que basicamente são uns mimados que não sabem o que custa. tontos, sabemos o que custa, mais que todos, mas sabemos ao que sabe quando é bom, e que somos bons. assim te dou espaço às tuas vitórias, porque sei.

não me importo de esperar por ti, gostava de fazer a espera mais produtiva como no ano passado que te desenhei um Corto Maltese para pores na parede. gosto esperar por ti. mais me irritam as esperas por telefonemas que não sei se chegam enquanto definho devagar a cada passa de cigarros baratos neste sítio onde não se faz nada além de ouvir falar mal dos outros.

o ser humano é um animal de hábitos, dizia o outro - lembras-te? - e eu sempre concordei, mas acho que, pelo menos este animal, além de se habituar a quase tudo também tem dificuldade em pensar em habituar-se ou pelo menos a preparar-se para a mudança enquanto ela não vem. e se não vier? troca-se o relógio pelo anel polegar - faz companhia olhar para ti enquanto vejo as horas.

curiosa, esta coisa dos relógios, há uns tempos eram nossos inimigos, mas agora são as noites inteiras que dão gozo. apesar das rasteiras do prazer que o tempo nos prega. dantes, no tempo dos escorregas de areia de São Martinho e das tardes na praceta, então nem os dias nem as férias nem a vida nunca acabavam. agora abranda, a voracidade dos ponteiros, eu sei que é psicológico, mas podia jurar que fazem de propósito, os malandros, agora que não estás, que será mais uma noite de monólogos dialogados interiormente debaixo do mosquiteiro a olhar para a nossa pin-hole iluminada pelo televisor sem som "ó estúpida, dorme antes que o teu corpo dispare em todas as direcções, tu até tens sono, porque é que não dormes. ó estúpida que mania a tua de não gostares de estar sozinha". confesso que me maltrato porque não gosto de mim. mas isso são outros quinhentos e tenho quem me queira e me goste assim muito, tu de longe de voz cansada a bater na vontade de dormir só para enganar a distância metálica do telemóvel, para eu ficar melhor. eu estou bem, eu sei que estou.

a S. hoje vai lá jantar. vai fazer vegetariano para mim, vai-me mimar porque lhe pediste que não me deixe sozinha e ela mima-me e eu adoro-a e adoro-te por teres ultrapassado a minha mania de que tenho de tomar conta dos outros e não tenho de pedir para tomarem conta de mim. vamos comprar courgettes, quem sabe beber vinho tinto, vamos entretecer conversas e fumar cigarros dos baratos com a música a tocar baixinho, de luzes vagas na sala cor de laranja porque nós temos as duas medo do escuro mas assim de palavras dadas sabe bem. ela vem tomar conta de mim, que tento tomar conta dela. ela vem com a sua roupa às cores e a franjinha brilhante, a cara às pintas - como as tuas costas - e o sorriso em riste, apostada em jogarmos ao mimo. hoje não vou esperar sozinha e vou deixar, prometo, que ela me embale e que o vinho me deixe mole para ir pesada para a cama e que seja o que o João - o Pestana - quiser.

e vai ser assim de quentinho, de aconchegado o meu sono porque, sim, tenho amigos que aparecem para acender uma luzinha nas noites em que eu tenho medo do escuro e não contei a ninguém. são dedos seguros a que me vou habituando, a não ter medo de pedir ajuda, como as tuas, como as da S., como aquelas mãos macias que já não estão cá e que tão suavemente - como só elas souberam e as vossas vão aprendendo [agora, que eu deixo] - me faziam festinhas e se deixavam estar presentes só assim, a ver-me cair no sono sem medo - que eu sempre gostei de dormir - vigiando o passeio pelo rio dos sonhos e que só saíam da beira da minha cama muito depois de eu deixar de conseguir dar conta do que quer que fosse porque entretanto já tinha chegado ao cais do outro lado, onde os bichos falavam e eram de cores fortes, como os marretas, os vestidos de princesa e o mercuriocromo nos meus joelhos esfolados.

acabei agora as últimas palavras. acredites ou não começou neste preciso momento uma senhora a cantar fado lá em baixo. aqui. aqui por baixo das janelas com persianas de bambu no prédio amarelo mais feio da Dom Pedro Quinto. as janelas da minha torre - de - marfim - até - telefonema - em - contrário. é fado, sim. daquele sem sílabas, só sons gemidos. é uma senhora que [me] canta de voz trinada e me lembra com uma pontadinha pequenina no coração - que anda meio amachucado - aquela voz que cantava só para mim enquanto lavava a louça e eu, de língua de fora, tentava fazer crochet.

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

na alegria e na tristeza

esta manhã, a caminho do trabalho

- uff, ter ataques de choro logo de manhã é chato. fica-se sem forças e ainda nem começou o dia.
- mas limpa-te a alma. ficas mais leve. hoje pelo menos estás mais animada que ontem.
- achas?
- sim. ontem estavas com cara de gases.

quinta-feira, 9 de agosto de 2007

connect the dots


imagem de Quino, obviamente.

acordar todos os dias com o nó na garganta. deitar todos os dias num pleno vácuo de força anímica, esgotada em ansiedades. entre cá e lá, não me encontro em lado nenhum.

um lápis, de carvão macio. que me junte, finalmente, os pontos. transforme as reticências em linhas sinceras. e me trace os caminhos na palma da mão.

eu depois preencho os espaços com tinta da china e aguarelas de cores vivas.

I'm Jack's inflamed sense of rejection

quarta-feira, 8 de agosto de 2007

bajji



não tenho por costume fazer posts ambientalistas, excepto quando me chateio com o trânsito.
mas hoje ouvi na rádio que o golfinho branco desapareceu. assim. não há mais. morreu o último, no prato de algum chinês que não gosta de chop suey de galinha. ou de crepes de vegetais. ou de arroz.
e aquilo fez-me impressão. doeu cá dentro. não sei se, por achar muita graça a esta espécie, a coisa não me terá afectado ainda mais, confesso.

o que importa reter é que os golfinhos brancos andavam por cá há 20 milhões de anos. e um senhor predador, mais jovem do que todos os outros predadores dos golfinhos brancos, conseguiu acabar com eles sozinho. e por puro e simples capricho - não foi de certeza por não ter mais nada para comer... por acaso o senhor predador até é omnívoro.

apesar de pensar que tento dar o meu pequeno contributo para aguentar este nosso mundinho por mais uns tempos [carro "verde" e utilizado só em casos de real necessidade, reciclagem, sistemas de poupança de água, banhos curtos, lâmpadas economizadoras, não largar beatas na praia e por aí fora], não posso deixar de me perguntar... o que é que andamos a fazer?

oi, pessoal!... quando não houver mais nada para matar, se não antes, NÓS VAMOS MORRER.
percebem ao menos isso, ou não?

foto retirada daqui

quinta-feira, 2 de agosto de 2007

sweet fifteen

segundo este teste, tenho um corpinho de 15 anos e vou viver até aos 86.

isso explica muita coisa, inclusive a medida do soutien... eheheh

através do caríssimo frutos de sombra

segunda-feira, 30 de julho de 2007

família feliz

sentam-se falando alto, de comida. a mãe é enorme e tem a voz aguda. parece "uma bola de berlim com um berlinde em cima". a filha é um ser sobrenutrido de sobrancelha farta e testa curta, com "corpo de trintona com 2 filhos" mas que gosta do Noddy e do Ruca. o senhor, que não parece ser o marido|pai, é grisalho e usa pólos brancos com uma risca e bolsinho no peito, à antiga. dá cotoveladas brutas na rapariga, mostrando que é um velhadas-à-maneira, percebe de tudo e da vida de todos e nada o impressiona.

atacam uns bitoques oleosos enquanto discutem não sei quem, que está gordo e devia ter cuidado. diz que não era assim, que foi depois de largar o futebol. mas tem de ter cuidado com o que come, caraças, já não é novo. entrementes o senhor comenta que não gosta do Macdonas, que não é pessoa de ambrugas nem de sande. só assim para ir para a praia é que o convencem à sande. a moça atalha que até gosta do Macdonas, mas não vai muito. a mãe torce o nariz. nada bate a comidinha caseira.

terminado o bife vai-se palitando os dentes com a esquina do guardanapo. pedem-se sobremesas. mal chegam à mesa, a senhora enumera os defeitos. porque ela já fez doces para fora. que esta receita não é tão boa. que está mole, demasiado doce e pouco frio. a sobrenutrida diz à mãe que "é por isso que se chama semi-frio" e ela e o senhor riem-se muito. está muito esperta, esta miúda. repare-se que o seu bolo de bolacha, o último a chegar, já desapareceu do pratinho, enquanto que a mãe e o senhor ainda se degladiam com o semi-frio que está pouco frio. a mãe aplica-se como uma valente, uma mártir como já não se fazem, com esgares e caretas, mastigando de boca aberta deformada em desagrado, para que se saiba num raio de 300 metros o sacrifício que foi comer o semi-frio até ao fim. que isto não é gente de deixar comida num prato, que é pecado, só por isso.

a discussão subiu de tom, um tema grave que implica um forte brainstorming: o gato, aquele que é o Garfield, às riscas pretas e brancas, ah, sim, o Tómi do Jérri, pois, preto e branco, não que o Jérri era um rato castanho e o Tómi era cinzento, então sou eu que sou daltónica, não, é o outro do pintainho, o do Mimi, ah, não é esse o nome, esse é o do coiote. Pipi, é isso, Pipi, o pintainho que havia uma velhinha e tinha um gato preto e branco.

grave dilema desvendado. venham os cafés.
com adoçante.

salvar a pátria

a colega - que é a que trata dos dinheiros e pagamentos - andava atrás dele com o livro de cheques desde a semana passada. a resposta já podia gravar um disco:
"hoje não me apetece assinar nada".
a colega ia de férias durante 15 dias. na sexta-feira a cena repetiu-se: não lhe apetecia - ao outro - assinar nada. nem mesmo os nossos cheques - cócegas no meio de ivas e i-érre-cês.

lá foi ela de férias, deixando-me o nib dela para lhe fazer o depósito do ordenado e, claro, a lista dos pagamentos a fazer quando se soltassem os apetecimentos do outro.
o meu habitual "mas eu sou de letras" sacou uma gargalhada na despedida, um encolher de ombros cúmplice e dorido de uma batalha mensal sempre igual, mas de pouco mais adiantou.

hoje ele chega-me a suar muito, conta histórias de como o chão da casa dele ferve. rimos todos. ele diz que quer comprar uns sapatos. os meus alarmes disparam, isto é um sinal de pairanço [s.m., forma de estar do patronato num escritório quando há pouco que fazer, está demasiado calor para pensar e já se viu todos os vídeos do youtube; direito patronal de ir laurear a pevide durante o horário laboral só porque sim - in 'dicionário sindical polegarês das artes do espectáculo pobre mas wannabe'].

uma estranha força toma conta de mim. talvez por não me lembrar da última vez que fui cortar o cabelo, jantar fora com amigos, ir dançar com o namorido, comprei um livro, um dvd, um cd ou um creme para a cara, dei uma passa num Davidoff. ou por me lembrar que tenho a despensa vazia, que devo 4 anos de segurança social [viva os recibos verdes e a valorização do trabalho qualificado], que a mota deu inexplicavelmente o berro e por isso ando a assar dentro de um carro sem ar condicionado que devia ter feito a revisão há quase 4 mil quilómetros.

levanto-me da secretária, dou os três passos que nos separam, estendo-lhe o livro de cheques.
"hoje não me apetece assinar nada"
isto pede um golpe ninja. a explosão de raiva saiu-me docemente, numa gargalhada cúmplice e uma piscadela de olho. assim:
- estou solidária com a tua dor. mas, sabes, aqui para estes lados já começa a ser uma questão de fome.
ele abre o livro e assina.

vou ao banco, volto já.

sexta-feira, 27 de julho de 2007

a história verdadeira

era uma vez uma formiga e uma cigarra que eram muito amigas, apesar de terem feitios muito diferentes.

no Outono, a formiguinha trabalhou incansavelmente, a armazenar comida para o Inverno. não parou para descansar, não aproveitou os fins de tarde nem o pôr-do-sol, não esteve com amigos, não se foi divertir... já a cigarra passou o Outono na rambóia: ele era festas, estar com os amigos... andava sempre de guitarra debaixo do braço e toca de cantar em todo o lado e divertir-se comme il faut.

chega o inverno e a formiguinha lá vai para a sua toca quentinha e confortável, recheada de provisões. está ela a ver se descansa um bocadinho as pernas quando batem à porta. é a cigarra, que lhe aparece num lindo casaco de vinil todo pimpão, guitarra debaixo do braço, óculos escuros e lenço na cabeça.

- então! tá-se? - pergunta a cigarra
- tá, tá. - diz a formiga espantada - e tu, como estás?
- fofa, vou-me pisgar por uns tempos e precisava que me tomasses conta da toca. regar os bonsais, ver o correio, essas cenas... pode ser?
- pode... mas onde é que vais?
- nem m'imaginas esta cena. tava eu muito bem uma daquelas parties q'as revistas arranjam à gente com bubas à pala, a mandar uns sons pró ar, 'tás a ver, numa d'improviso só pr'á curtição c'as minhas amigas lá da linha, quando vem ter comigo um gajo que diz qu'é produtor e que gostou de mim, qu'eu tinha uma imagem espectacular e a voz e assim. dois dias depois tava a assinar contrato! vou gravar um cd e dar concertos numa tour de 6 meses. na França! provavelmente também pode ser que venha aí um convite p'uma novela musical. não sei falar francês mas também... faço d'emigra pobrezinha. é mais cenas de nus e tal, é só gemer e cantar umas músicas. mas é um começo de estala!
- ah... boa! fico tão feliz por ti, minha amiguinha!
- iá. pode ser que entretanto escreva uns livros sobre a cena da tour e isso. era curtido, não achas? depois mandava-tos textos pa fazeres revisão, fazias-misso?
- pois, pode ser, claro...
- olha, e já agora fofa, qués'alguma cena da França?
- até queria. se não te importasses, fazias-me um favor enorme: se encontrares um tal de La Fontaine manda-o sodomizar-se por um elefante sifilítico.

um disparate baseado neste, com uma expressão - a do elefante - "roubada" a este senhor. retomaremos a emissão dentro de momentos.

quinta-feira, 26 de julho de 2007

etiqueta 1.0.1.

não pedir a uma pessoa a quem pagas por mês um quarto do que recebes por semana - de outro sítio - para fazer o teu trabalho... desse outro sítio.

confuso? pois, deve ser...