quinta-feira, 29 de novembro de 2007

auto-dedicação


foto de espanta-espíritos

para mim, aos meus fantasmas de bolso, com banda sonora ou silêncios, sem dúvida em fôlegos apertados. caminhadas na minha cidade de vento frio a baralhar-me o cabelo. as imagens escorrem apesar de não serem chamadas. simplesmente estão lá. vivas, de bocas riscadas para baixo e palavras amealhadas em meias ilusões que almofadam a queda. é tempo. é tempo de as agarrar com os dedos e ignorar punhos cerrados. para que as sinta sem me magoar. para que não me esqueça. mas para que repouse. servir a gosto.

mudemos de casa; porque é preciso
arrumar as dores de outra maneira,
certificarmo-nos da existência do corpo
em novos lençóis, voltar a ter ilusões,
lugar propício para a curiosidade
de alguns que nos fazem acreditar
que a vida é um amplo anfiteatro
para as mãos.

jorge gomes miranda

agradeço à lebre e à menina limão, que me ajudaram a arrumar as ideias.

terça-feira, 27 de novembro de 2007

the extra

pediram-me que escrevesse, e escrevi. afeiçoei-me ao senhor e foi com um gostinho adocicado na boca que soube que ele tinha conseguido levar a sua avante e que os meus dedos tinham dado um pequeno contributo para isso. depois fugi, como se sabe, dos dias cinzentos, à procura de luz e de pinturas que me devolvessem a cor à cara. não sei por quanto tempo, mas isso agora não interessa à conversa.
há pouco tempo inscrevi-me numa nova agência, onde trabalha uma colega minha.
"procuramos actriz entre 20 e 30 anos, sem madeixas" - não se vê logo que sou eu?
conhecendo a minha história, não hesitou em ligar-me: há aqui a hipótese de uma participação pequena no filme do teu amigo. o cachet é uma merda. queres?

por acaso até quero. se andei com o bebé ao colo, agora, se posso, quero ajudá-lo a andar.

fui, assim, conhecer o glamoroso mundo do cinema. num ambiente bastante aconchegado, ou não conhecesse eu mais de metade da equipa. incluindo os senhores do topo. todos acharam imensa graça a eu ter caído lá de pára-quedas. a nos reencontrarmos assim. tão gira que estás, minha querida. eu pacientemente à espera durante horas, de cabelo apanhado em complicadas tranças, vestida de criada madeirense de finais do século dezanove, rendinhas na cabeça e tudo, a tentar aquecer-me num alpendre em Sintra, com o meu livrinho nas mãos. quando o sol se começou a finar é que se lembraram que tinham uma cena de exteriores para gravar. e pronto, lá fui eu receber os meus patrõezinhos. a bater os pés entre "cortas" porque deixei de os sentir com o frio.
foi dia de burros, cavalos brancos e ratazanas domésticas que também eram meus colegas figurantes.

dentro de alguns dias, volto lá, para gravar uma cena pequena, com falas.

e a modos que é isto.

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

flippers

dá aqui, leva do outro lado, o que importa é não parar, não pares, senão perdemos o jogo e por isso agora toma lá mais porrada, tens de ir para cima, para a esquerda, não, não é essa esquerda é a outra, oh mas será que não percebes nada do que te digo, foda-se? e sim agora quero que deslizes devagar, mais devagar, porque tenho de te dar a traulitada na altura certa, és uma bolinha tão fixe, tás mesmo a jeito vá lá vá lá vá vá tá quase e... toma! agora vai lá, desvia-te da luz e entra lá ao fundo, naquele túnel. não, não percebes o bónus é se fores para ali, merda. mas que coisa, é preciso dar-te mais porrada para fazeres o que eu quero? plim plim plim, sim senhora, agora sim, desvia-te... mais... para... ali! toma, vá caraças, que merda, anda lá com isso, tenho mais que fazer que ficar à espera que acumules os pontos... parece que nunca sabes qual é o teu lugar. vá, mais uma, para ali, tás quase, pimba! eheheh rebola aí que eu gosto. espera, não! calma, se te der um safanão agora... oh. perdi o jogo. a culpa é tua.

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

transições

daqui



para aqui


imagens de espanta-espíritos

terça-feira, 6 de novembro de 2007

3

parabéns, namorido :)

sábado, 27 de outubro de 2007

goodbye my monochromatic friend



entraste-nos pela vida adentro assim de repente. um dia, de manhã, numa casa ainda meio inventada, meio improvisada, tecida aos poucos num terceiro andar, ouvia-se miar em plenos pulmões. abrimos a porta e nem pensaste duas vezes. entraste de rompante e encolheste-te a um canto.
ainda guardamos os cartazes que não afixámos a perguntar de quem eras.
evidentemente quiseste ser nossa.

pinguim. porque sim. porque eras uma monochromatic friend com um ar apatetado.

e pronto, seguiram-se os pêlos, os espirros, o acordar contigo em cima do ombro com um ar maquiavélico, as tuas marradas assassinas, o teu miado desesperado quando te cheirava a carne crua, o teu ar patusco quando nos olhavas, o teu constante ronronar de britadeira, os teus saltos cómicos quando nos mexíamos, a tua atracção fatal pelas minhas botas de trabalho ao fim do dia, os teus berreiros nas manhãs de fim de semana, a tua mania de quereres subir para o sofá, a tua paixão pela tenda azul três meses depois de ta comprarmos, os ataques ao poste de arranhar [sempre deitada, em diva] seis meses depois de to comprarmos e com o sofá já todo destruído, a tua fixação pelo colchão velho que não deitámos fora porque gostavas de te empinar nele a ver as vistas, a tua obsessão pelas almofadas de sentar os convidados, a tua actividade motora diária de dez minutos atrás de botões fantasma no chão, o papel de parede que arrancaste cinco minutos depois de estar perfeitamente colocado a esconder os azulejos, os sustos porque te escondias e pensávamos que tinhas fugido - o meu pai bem sofreu num dia de obras.
inventámos-te uma história: a velhinha pacífica que te tinha e que morreu, o abandono, a tua temporada na rua à procura de casa, o teu encontro connosco.

estiveste connosco quase dois anos.

hoje, numa operação de rotina adormeceste para nunca mais acordar, e descobrimos que estavas há muito doente. e que foi melhor assim porque em breve começarias a definhar, a sofrer. e tu não merecias.
assim seja. descansas agora, pinguças, no jardim onde dormem todos os meus bicharocos - que me orgulho de dizer que são muitos - na companhia do meu primeiro amigo, o bugui, da pachola nelly, do irrequieto joy, de todas as quatro ou cinco gerações de felídeos que resolveram adoptar o quintal dos meus pais.

ficam connosco as recordações, meia dúzia de objectos de que não nos desfaremos, o orgulho de saber que te demos dois anos extra de vida plena e cheia de mimo.

e o desejo de voltar a ser adoptados por alguém como tu.
purrrrrrr.

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

animais - post com palavrões

um filho da puta com pretensões a artista de merda resolveu fazer a seguinte exposição / performance-instalação / peresfíncter como gosto de lhe chamar:
perseguiu e capturou um cão vadio doente [o que justifica tudo], prendeu-o num espaço, perante uma parede onde se lia a frase "és o que lês" escrita com comida de cão. o bicho [o cão] morreu de fome ali. como forma de arte.

o punheteiro intelectual chama-se Habacuc. os que permitiram a exposição não sei, mas gostava de saber, para fazer uma petição para lhes fechar a loja. assim como ir a casa de quem pagou bilhete para ver isto com um pau bem grosso e... bem. o cão está morto, não há nada a fazer sobre isso. resta apenas uma petição para que não o deixem participar na Bienal Centroamericana Honduras 2008.
é o mínimo, não?

soube disto pelo blog da Manel, e lá encontram links para imagens da coisa. eu recuso-me a divulgar mais esta merda, apenas apelo a que assinem a petição.

terça-feira, 23 de outubro de 2007

a vedeta

simples. eu sou simples.
protagonista dos meus filmes, bem disposta e efusiva quando o vento me corre de feição. mas claro, conhece alguém que o não seja? se sim, mente. e que divertido é, arranhar as paredes dos dois lados a ver qual cede primeiro. mas claro que cede. acabam sempre por ceder. se souber fazer as coisas, obviamente.

surjo assim sem se dar por ela.
por mim.
uma comichão que se tenta ignorar mas que saltita de vez em quando. acabarão por ter de coçar. vai-se devagarinho em discreto. como as cicatrizes que se queixam do tempo. oh, lá estás tu dor, ainda não te foste embora? não, ia lá agora se aqui estou tão bem. sou assim qual doença urbana, rastejante, temperamental e fulminante.

com paciência e olhar cínico
perdão,
clínico.

se não espirra, há-de tossir.
eu tenho é de saltar cá para fora em tcharã.

andar assim modestinha e encolhidinha,
ai de mim
,
até deitar a unha bem arranjada de fora. com um inocente relampejar de pestanas que por acaso atordoa. já se sabe: sem darem por ela, já está feito. sem eu pedir.

mas havia alternativa?

no fundo,
reivindico. o que é meu por direito, está claro. mas sem aquele alarido inconveniente que fica sempre mal.

porque nunca se sabe como é que as pessoas vão interpretar a verdade dos factos. é preciso ter cuidado com isso. são capazes do pior, as pessoas. temos de as esclarecer como deve ser. nem que tenha de ser uma a uma. para perceberem como deve ser.

o segredo, eu conto, é hastear a bandeira da modesta, fraquejante e brilhante-ainda-assim entidade superior que sou.
mártir da minha própria excelência, compreende?

e depois dá-me a veneta. o chilique, percebe? repito: o que é meu por direito, está claro. mas sem a parte do alarido.

ora a palavra-chave é vulnerabilidade. de quem tem mais pena? da presa ou do predador? a vítima, aí está, poque isto é tudo um jogo de forças, não seja ingénuo. e as aparências iludem. surripiar uns tiques, torná-los meus, e depois dá-los nas vistas. eternos desconhecidos para além do meu tão fantástico cunho pessoal.

repare.

ali entre o assoberbada e o perturbada, a angústia, a náusea,
deixem estar, eu fico bem.
e venha a águinha importada, a toalhinha do turco da turquia, o açúcar mascavado do egipto para o chá de perpétuas roxas com gengibre e limão, a florinha da ásia que ajuda à sinusite e dá boas energias do feng shui, o tecido que não amarrota nem me faz alergia, a bainha da saia, a marca de pó compacto à minha espera no camarim. o camarim exclusivo.

ah, o exclusivo. meu, meu, só meu.

serve bem assim, a anca bamboleante em desnorte do seu magnetismo natural, o olhar desprotegido e inquieto no seu assombro. pode-se dizer quase tudo assim. como quem não quer a coisa.
e depois, já vê.
eu? mas se eu não fiz nada! vá, coreografe-se o encanto: ombrinho levantado, cabeça inclinada no pescoço elegante e ar delico-surpreendido quase quase indignado com a vaga alegação. e que não aleguem com muita força, porque como imagina tenho de esclarecer tudo imediatamente, mas o que é isto? agora faltas de respeito? não tolero.

não admito.


é uma frase muito minha. o não admito. sou assim, directa, franca, pão pão queijo queijo e pronto. se não me quiserem assim, que dispensem a minha presença, ora essa. agora não me obriguem é a aturar pobres de espírito. há ocasiões para tudo. mas claro, com classe tudo se resolve sem perder a pose. aquela pose que já lhe mencionei. não volto a repetir tudo porque eu sou de poucas palavras, tímida, está a ver? dizem que como todos os bons artistas. não sei de onde me vem esta aura. talvez das minhas raízes.
que não renego, as minhas raízes.
afinal, histórias que não importam à parte, fizeram-me assim, com esta aura de que lhe falava. simples, dócil, briosa, com uma enorme capacidade de sacrifício, uma discreta sofisticação e apenas uma pitada de mau génio, que no fundo dá sempre jeito para não nos fazerem as papas na cabeça. e, repare, apenas se me dispara o mau génio artisticamente, não é?
que eu considero-me uma pessoa bastante razoável, até.
o génio, bem vê, a par da minha notável melancolia, dá um toque de cor mas nunca me reflecte como inacessível. só distante, mas nunca inalcançável. fresca, por vezes até parecendo fria, mas nunca frígida.
nas palavras, quero dizer.
sou muitíssimo espirituosa. para quem me compreende, claro está. porque eu sou muito generosa. já viu o que seria de um grupo sem mim, sem a minha iniciativa para guiá-los?

não me interessa se é ambíguo. ambíguo é bom. eu nunca me desmancho. eu não me contradigo, refaço-me conforme a situação.
mas voltando ao assunto.

nunca esquecer, contudo, que há um único crédito próprio que se pode e deve assumir: eu sou apenas uma lutadora. contra todas as tempestades que me quiseram vergar. porque o mundo pode ser tremendo, inclemente e injusto. bonito, não acha? o resto foram vocês que me deram. vocês são uns amorosos, todos.

estúpidos, mas amorosos.

e ninguém tem acesso aos bastidores. vão lá saber que eu cá não é água do cano se me posso afiambrar. que se me apetece até me entretenho a fazer teatro só para mim.

sou de tal forma que às vezes até eu acredito em mim.

é do que mais gozo me dá. fazer assim os meus números em privado e deixar a porta entreaberta. a ver se espreitam, a ver se caem.

comentários sobre a passadeira da fama? está a ver mal a situação. a questão são os sapatos de salto alto... e a sua relação fugaz e descomprometida com a passadeira da fama. que tem mais é de estar quieta e comportar-se como simples tapetinho que é, que por acaso até é encarnado, vai bem com o vestido, é conveniente. não se esqueça: peça secundária, cenário contextualizante para passear o ego.

livre-se de perguntar o que seria do ego se não tivesse um tapetinho para pisar. não seja ridículo. não é essa a questão.

oh, mas para quê falar de mim? insiste? vejamos o que lhe posso dizer...

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

é ali

que no momento antes de tudo está escuro e não sentes nada mais que pequenos arrepios dormentes. que tudo te passa pelos olhos
sem te recordares exactamente do quê.
então abres caminho
e as luzes.
e o frémito de queres mais e mais, de tomares conta daquilo, e de aquilo tomar conta de ti. choques eléctricos. passam a voar, arrancam-te a pele que sobra e levam-na para fazer casacos. estás ali em carne viva, o sangue a escorrer pela madeira gasta. e uns olhos vagos postos nos teus, no que dizes, no que mexes, na voz que dás.
cuidado para não pingar,
não te podem ver a esvair em sangue, enquanto tentas agarrá-lo o melhor que sabes. não podem ver que carregas também essa tua aflição do sangue na contagem decrescente para voltares ao escuro.
só te podem ver a ti, brilhante e fugaz, nessa figura triste de sorriso contente.

e tudo não passa agora de uma penumbra, de um fumo de cigarro pós-coital
que já foi consumido
antes de entrares nessa modorra cansada, alagada
satisfeita.

olham para ti com olhos de choro que lá no fundo é uma pitada de sofrimento afogado no orgulho - porque as melhores receitas têm sempre um ingrediente secreto, uma pitada de qualquer coisa que só tu sabes.
- é mesmo ali, não é?
é.

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

gentes : ligue os três pontos com linha azul

passo largo ritmado de passeio. shuffle no leitor
na lateral ainda bate o sol.

fatos novos, linhas sóbrias, tailleurs, lencinhos ao pescoço, stilettos, preto, azul escuro, cinza, malinhas de mão. apanhados práticos, escadeados, brincos pequenos. verniz rosa transparente, manicure francesa. laptops. PDAs. alianças. agendas. a amiga de rabo de secretária em dieta, a amiga magra com o pastel de nata. argolas, fivelas. pilates. já viste o meu telemóvel novo, já ouviste dizer da Isabelinha, não sei que faça àquele miúdo. ângulos rectos, narizes para o céu, movimentos angulosos, direitos, directos. cheira a laca, a loção de barbear, Chanel, bmw.

a primeira sapataria barata. atravessar para a sombra.

calças de pinças coçadas nas bainhas, saias largas e turbantes. chinelas e saltos compensados. calças demasiado justas, pneuzito de fora, sapatos de descanso. sacos de compras com rodas. xadrez com riscas, meias de losangos, casacos de malha largos, xailes. cabelos lambidos, rabos de cavalos, raízes pretas em caracóis amarelos, extensões, apliques. plásticos. flores, bolas. ó boa eu cá fazia-te, já passou o 58, já vistes o benfica. músicas. sotaques. correntes e bonés. movimentos ondulados. pesam as ancas, pesa a idade, pesa a preguiça, pesam os sacos. cheira a pele, a suor, a verduras, a graxa, e a protector solar borrado nos mapas vindo dos lados do Nicola.

virar à direita. subir a rua. não quero responder ao inquérito.

retro - urbano - chique - contemporâneo - alternativo. túnicas, gangas, vestidos, florinhas, padrões quase étnicos, quase abstractos, quase psicadélicos. ténis-sapatilhas, sabrinas. boca de sino. justas nos tornozelos. beatnic. rastafari. calções. sobreposições. riscos florescentes. com um toque de. estruturado-desalinhado, cristas, aparentemente descontraído, espetado, despenteado de propóstito. casual chic. trendy. indie hype. pseudo. freak. lenços largos, desencontro de padrões, havaianas, a parecer coçado acabado de comprar, malas de crochet ou militares, ou a imitar o antigo ou o anúncio de. cultura na etiqueta. correntes de pensamento nas solas. mangas cavas. óculos de sol. já leste o livro do, queres beber um chá no, és tão parva. movimentos soltos, mãos nos bolsos. livros nas mãos, desenhos nas mãos, piercings, acordes de Amália, mãos estendidas. cheira a chá verde, a cera para cabelo, a papel, a Nespresso.

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

grumpf bah argh grrau

quem tiver o meu "Despertar da Mente" que se acuse.

já não se pode ser querida e querer partilhar os filmes da vida... ó raça ingrata de amigos da onça... raisparta...

obrigada, menina-limão, pela ideia. sempre se poupa em telefonemas. a ver se resulta ;)

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

petição - propriedade intelectual

porque neste momento são os artistas que estão na berlinda lá para os lados de São Bento. porque somos explorados por todas as formas e feitios, apesar de ninguém se parecer importar com o facto de não podermos ser oficialmente desempregados, mas eternos "entre projectos a recibo verde mas que têm de pagar segurança social na mesma" - e agora querem tirar-nos os nossos direitos de propriedade intelectual.
porque muita coisa está errada e ao menos uma assinaturazita online não deve custar muito a fazer.
deixo aqui o endereço de uma petição que pode ser do vosso interesse analisar e subscrever [ou não].

os artistas até são considerados intelectualóides e tudo. já que temos a fama, que continuemos a ter o proveito, não?

domingo, 14 de outubro de 2007

antes que se desvaneça

pode ser que não dure, mas as coisas boas são para se gravar. para tatuar e lembrar no que dão tantas dores e tristezas.
que fique aqui registado, antes que as garras transparentes voltem a atacar-me, antes que outra praga caia sobre esta casa, antes que chova, antes que venha uma tempestade de areia sabe-se lá de que buraco, antes que o tapete volte a sair-me de debaixo dos pés.
antes que
porque há sempre
mas antes de tudo, que se registe aqui um momento, um meu momento de sorriso rasgado, de felicidade extrema. um momento fútil, podem chamar-lhe. ou demasiado comum para tanta gente. mas é um momento como eu não tinha há mais de dois anos. como nós não tínhamos há mais de dois anos, em que contámos, pensámos, ponderámos, hesitámos e evitámos. hoje houve lágrimas e vontade de gritar que é para já. foi empilhar nos braços contentes. assim, sem olhar para o lado, sem pensar alto, sem perguntar
e se

hoje fomos à Fnac. e enquanto os Clã cantavam ao vivo, comprámos 3 livros, uma colecção de exercícios de teatro e 2 dvds.

toma lá e embrulha.
é para oferecermo-nos.

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

notícias do outro lado

o outro natal
o dia em que encontramos o cenário, os adereços, os figurinos pela primeira vez. nesse dia reinventa-se tudo o que se criou até agora, com o novo peso, a nova forma. solta-se a fúria nas tábuas velhas, desgastadas, com pouca alma para além daquela companhia que as habita seis meses por ano. aqui estou, a cantar em tons de blues sobre dentes podres...


fotos de carina_menina

violação em massa
M., entre tantas outras personagens de uso exclusivo em brincadeiras entre amigos criou A Violada. pode parecer ferir susceptibilidades mas não é mais do que um disparate bem-disposto, com direito a caretas e risos, que vai coleccionando fotos de auto-violações nos sítios mais estranhos, nas oportunidades mais raras [e toda a gente se pode juntar a este movimento, é só mandar as suas fotos por mail...].
assim, no momento em que nos apercebemos realmente da figurinha que íamos fazer ao cantar sobre a pobreza no mundo vestidos de legumes, resolvemos entrar em histeria colectiva. e, claro, nada melhor do que uma auto-violaçãozita. nada temeis, não haverão represálias: o senhor mais em baixo nesta imagem sem roupagem a preceito é o próprio encenador...


foto de xico_biscoito

terça-feira, 2 de outubro de 2007

dois minutos

faltam para sair daqui. vou voando nas teclas brancas, a olhar para o monitor da maçã. o último post desta torre de marfim no centro daquela a que chamam petulantemente a cinecittà portuguesa. a ver o tempo escorrer e sem saber bem se me faz falta.
o passeio dos cheiros, é o que me ocorre. primeiro das árvores frescas do jardim, do nevoeiro espesso que não apetece saborear, dos bolos da pastelaria, do cimento fresco da loja em obras, da serradura, dos ares condicionados, dos fritos logo de manhã.
as pessoas: a senhora que treme, o japonês que pinta sempre as mesmas imagens, o sr. Oliveira do quiosque e as suas piadas com chávenas, a senhora indiana dos jornais de sotaque cerrado, os empregados doces do Doce Real, o bêbado com o cão, a velhinha com o outro cão velhinho, a rapariga drogada e o namorado arrumador, o outro arrumador de óculos e discurso ainda fluente, o brasileiro do restaurante onde há o melhor bacalhau à lagareiro da cidade, o moço do banco.
e a minha janela.
os cigarros no cinzeiro, as palavras escritas, reescritas, baralhadas. as gargalhadas. as confusões, as discussões, as dores nos músculos de tantas horas nesta cadeira. o desgaste que me estava a matar.
por agora, silêncio. não está cá ninguém.

dentro em pouco fecho o caderno. levo isto tudo lá dentro.

vou para os lados da avenida. durante 6 meses tenho casa nova, com direito a cheiros de palco. sempre fico mais perto do senhor das castanhas...

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

malas aviadas

é inacreditável como dois anos e tal de trabalho se resumem a um saco de plástico com meia dúzia de bugigangas lá dentro: caneca para o café que nunca bebi (porque a máquina foi deixada ligada e estragou-se - e uma nova era demasiado cara), copo para as canetas, dois isqueiros bem feios e pesados para não mos roubarem, o respectivo gás, canetas compradas para escrever o mais depressa e perceptivelmente possível, lapiseira e minas, cadernos e agendas escrevinhados de uma ponta à outra, cds com coisas que fui acumulando no computador, uma pasta que usava para produção "no campo", postais que eu colava na parede, uma caixa de madeira que já teve chocolates, os eternos recibos verdes, pensos higiénicos e uma caixinha de lata com aspirinas. debaixo do braço, se aguentar com tudo, segue um rolo com os mupis das peças que produzi.
para amanhã fica apenas o último caderno.

dois anos e tal arrumam-se nos 5 minutos que a colega tirou para ir à casa de banho. não contei com o nó na garganta. uma amargura silenciosa por parecer que ninguém reparou - ou se importou - que dentro de 24 horas já desapareci. pelos vistos, tão de fininho como entrei. sem fazer mossa. sem fazer falta. tão descartável como o saco de plástico em que levo daqui as minhas traquitanas.

domingo, 16 de setembro de 2007

alcatrão

disse para mim mesmo: não. isto não. e o pragmatismo caiu-me aos pés, ficou a mirar-me lá de baixo, do chão raspado, enrolado nas pernas da maca para não cair nos solavancos. era o cabelo. espalhado na miséria de almofada, soltava o teu cheiro e o que eu adivinhava ser a tua textura. emanavas dali, daquele corpo inerte, apesar de não seres tu. e eu só podia olhar para os monitores e ver aquilo a esvair-se. via-te a ti a esvaíres-te. puxava o cérebro para o comando das operações, tinha de estar alerta e no entanto duvidava agora de quem precisaria mais de medicação. delírio, confusão. vi os teus olhos raiados de verde naquele rosto pálido de olhos baços castanhos, revirados. vi-te. a surgir na rua que o meu sonho recorrente desenhava numa geometria apurada. uma rua que nunca vi na vida, mas ali era a minha rua. a única rua que interessava. porque estavas lá todas as manhãs, perto da hora de acordar. caminhavas para mim em passo lento e encostavas-te a mim. do que mais gostava era da minha completa incapacidade de agir. empurravas-me contra a parede e ficava ali a absorver esse teu cheiro, e a tua pele e de repente estávamos nus na rua onde passavam pessoas que não nos viam. encostavas-te a mim e depois nua desmanchavas-te em milhares de vidros que me perfuravam. era assim, todas as manhãs a minha mão a subir pela tua saia e a tua pele a arranhar-me e eu a gritar de qualquer coisa. sempre acordei encharcado em suor e certezas. tinha de perceber como parar aquilo. és daquelas coisas que para um gajo como eu só existe ao longe, à hora da cerveja antes de ir para casa. agora eras tu ali, eu a delirar com uma vida nas mãos, que não era a tua mas eu via-te e não conseguia fazer nada com medo que morresses. o Vicente já conhecia demasiado bem o som da máquina. os pings e os bips que dizem sim, não, talvez. não precisou do meu aviso para abrandar a ambulância. abranda-se para a alma não se descolar com a velocidade. assim um bocado como os panfletos das discotecas que nos prendem no vidro do carro, que se soltam mal aceleramos. e eu, foda-se, em vez de pensar, em vez de fazer o que faço demasiadas vezes ao dia, entrei em parafuso e só te via a ti na maca e não sabia onde me meter. depois percebi que só podia fazer uma coisa. dar-te o beijo que nunca tive coragem, porque não temos coragem para estas coisas, quando é a sério. baixei-me e encostei a minha boca à tua. hoje era eu que tinha iniciativa, a chupar-te a saliva para ver se voltavas cá para fora, para a realidade. fiquei pegado a ti à espera dos vidros. só acordei quando o Vicente me espetou um banano na tromba. atirou-me para fora da ambulância com um puxão e eu, que sou duas vezes o tamanho dele, deixei-me voar e aterrar com as mãos no asfalto. fiquei a olhar para as palmas raspadas não sei quanto tempo. voltei lá para dentro e tinhas desaparecido. restava aquela tipa de cabelo parecido com o teu e o monitor com uma linha a direito. foda-se, disse-me o Vicente, que é que te deu pá? não sei, meu, bloqueei. epá, no meu turno não, no meu turno não. depois calou-se e ficou a olhar para a rapariga. disse qualquer coisa como antes isto que ficar vegetal. acho que era para me consolar.
saiu e fechou a porta. arrancou e não falou mais. assobiava as músicas da rádio, como costuma fazer para desopilar. eu deixei-me abanar pelos solavancos. apoiei os cotovelos nos joelhos e o queixo nas mãos. fiquei a cheirar o alcatrão da pele. a olhar para a morta. hoje à hora da cerveja a ver se falo contigo.

terça-feira, 11 de setembro de 2007

simplex, pastilha!

o simplex supostamente simplifica. há um ano atrás, quando me roubaram a carteira, passei um dia no parque de diversões do estado que é a Loja do Cidadão mas consegui fazer quase tudo [continuo sem cartão de contribuinte porque de cada vez que lá vou as Finanças têm o sistema em baixo]. agora, um ano depois, a história repete-se, desta vez com o namorido, que desastrosamente perdeu a carteira no nosso subúrbio encantado. que se revelou não tão encantado porque a carteira [apesar de também vazia de tudo excepto de documentos] não apareceu.

se há um ano atrás, entre filas e momentos de humilhação a implorar por um rasgo de inteligência e compreensão aos funcionários, as coisas se faziam num único prédio - escada acima escada abaixo, com muito dinheiro, originais e fotocópias -, em praticamente 365 dias o simplex complicou.

senão vejamos:
para pedir o B.I., agora a coisa não vai lá com a certidão de nascimento. além deste maldito papelinho [que tem de ser tirado na Fontes Pereira de Melo ou então fica mais caro e demora mais] carimbado entre horas de chá, baixas por unhas encravadas e greves , é preciso apresentar o Bilhete de Identidade de uma pessoa de família. ah pois claro. olhe senhor, tem aqui o papel a dizer que fui roubado, mais outro a dizer que existo e que nasci em sítio tal, sendo filho desta e do outro. tem as fotografias e o dinheirinho. alto lá! mas me está a dar prova de que você existe, baseada na existência de uma esta e um outro que não estão presentes?! preciso do B.I. da esta ou do outro, porque isso da certidão de nascimento diz que nasceu desta e do outro mas não é beeeem a prova provada. é só um papel! só porque está carimbado por um Alto Funcionário das Certidões, como é que eu, Alto Funcionário dos Bilhetes de Identidade, sei que esta e o outro existem, de facto? hum? pesquisa no computador?! base de dados?! rede de informação, cruzamento de dados?! tenha tento na língua, ouviu?! eu não tenho culpa dos seus problemas! fale com jeitinho, agora palavrões... cruzamento de dados e internetes... cá não há dessas coisas, ouviu? e mais! eu não tenho nenhuma obrigação de saber mexer nisso dos ratos. eu sou uma pessoa decente! cruzamento de dados é para os das Finanças! quanto a identidades é outra conversa, são precisas provas! inculto! vê-se logo que você nunca ouviu falar de geração espontânea! vá, vou-lhe fazer um favor: se não pode apresentar o B.I. da pessoa da família, então vá ao Areeiro tratar do B.I. sim, ao Areeiro, onde já não vai chegar à hora de menor fluxo de clientes, onde vai ter 126 pessoas à frente, mas onde lhe tratam disso sem o B.I. do familiar! eu tenho soluções para os seus problemas! tudo se resolve! e olhe, esta é de graça: para tratar da carta de condução talvez ainda lhe aceitem a certidão de nascimento, mas para tudo o resto não vale a pena tentar sem o B.I. portanto vá já ajeitando a agenda para voltar cá um par de vezes. ah... quem é amigo, quem é? eu, o Alto Funcionário Formatado dos Bilhetes de Identidade, que até dá umas dicas simpáticas depois de duas horas numa fila que, afinal, não dá em nada mas a vida é assim e se você trabalha e não tem vida para isto, então viva ilegal! não fosse roubado! malandro!

na Loja do Cidadão pode tratar de vários dos seus assuntos burrocráticos num só espaço... mais rápido, mais eficiente, sem tanta papelada, simplex!

e a carta de condução, onde se trata? na DGV, não é? e há uma DGV na Loja do Cidadão Incauto, não há? sim, sim sim! não. quer dizer, há uma DGV nesse espaço maravilhoso, mas para tirar a carta precisa de... ir à sede da DGV, porque na DGV da Loja do Cidadão nós já não tratamos das cartas de condução. tratamos de outros assuntos. mas de cartas não. que outros assuntos? assim de repente não estou a ver, mas de cartas de certeza que não tratamos. e para tirar segunda via da carta, já se sabe, não serve de nada o papel a dizer que foi roubado, a certidão de nascimento e o certificado de pedido do B.I. não senhores. precisamos do seu B.I.

vão lá oferecer computadores e listas de espera via sms para o raio que os parta a todos. só proponho aos senhores ministros que resolvem simplificar a nossa vida que experimentem ser roubados e resolvam tratar - sem assessores nem representantes - da sua documentação. que percam horas de vida e de trabalho a serem empurrados que nem bolas de ténis, de uma repartição para outra, escada acima, metro abaixo. e que no fim lhes apresentem a conta e eles tenham de pensar em como, recebendo os flexiseguros 500 euros por mês a recibo verde, entre descontos para a segurança social, retenções de IRS, a renda, as contas e as compras do supermercado, não se vão sentir roubados pelo Estado [de sítio e pouco de direito] em que estão metidos.

sabemos que um roubo de documentos é uma chatice, que já implica despender tempo e paciência nas filas. aturar gente estúpida e pouco solícita porque sem formação [são, eles também, mais baratos assim]. mas pronto, suporta-se. no entanto, pensamos que, bolas, num roubo, num pedido de segunda via de documentos por uma situação a que somos alheios, as coisas sejam realmente simplificadas. caramba, hoje em dia podemos entregar IRS pela internet e pagar por multibanco. o mesmo para o selo do carro, para as contribuições da segurança social. não temos de por os cotos nas filas. podemos pagar as multas com transferências online, for crying out loud! mas curiosamente, o sistema simplex SÓ não está preparado para resolver os problemas dos únicos que não tiveram culpa nenhuma da situação em que estão.

para todas as informações [que são nenhumas - por exemplo apresentar o B.I. do familiar consta apenas como uma hipótese e não como uma obrigação], há sempre o Portal do Cidadão. não obstante, seremos sempre obrigados a ter um longo e prazenteiro téte-à-téte com os senhores dos balcões das várias instituições burrocráticas...

sexta-feira, 7 de setembro de 2007

schmooze



v. intr.
to converse casually, especially in order to gain an advantage or make a social connection.
"to chat intimately," 1897, from Yiddish shmuesn "to chat," from shmues "idle talk, chat," from Heb. shemu'oth "news, rumors." Schmooozer is from 1909.

ganhei um prémio, o prémio do Schmooze [santinho]. diz esta senhora que eu schmoozo muito. que tenho o chamado poder de schmoozar.
lendo a definição de schmooze do dicionário, concluo que terá a ver com, vá, conversas da treta, mas daquelas que sabem bem.
depois diz ela que devem nomear-se outros, mais ou menos num obrigadinhos por vir cá meter conversa com a pobre blogger abandonada.

aqui a pobre blogger abandonada anda a portar-se mal. escreve pouco, poucos nadas inundam esta paginita virtual. daí o abandono da caixa de comentários. sabendo que no mundo do teatro não há justificações, mas que no mundo da vida elas existem, cá vai a minha desculpinha: agora tenho dois trabalhos. se num deles ainda aturo o chamado patrão do beicinho em dia de pagamento, se ainda faço projectos e queimo pestanas para converter grunhidos em palavras; no outro danço 6 horas por dia, aturo outro género de desorganizações, tenho de aprender a cantar sozinha, e decorar texto por 5 pessoas. não almoço, porque estou a fazer os 45 minutos de autocarro que separam as minhas duas mecas laborais. não janto porque saio demasiado tarde e acabo o dia com os pés de molho em água quente, creme e sal grosso. e é isto.

posto isto, remeto então a lista dos premiados - a.k.a. alguns dos que ainda não me abandonaram:
espanta-espíritos (se bem que também anda ausentezito)
m.p.r.
joão (este não me abandona porque agora andamos colados no mesmo cabaz)
colher de chá
intruso
nuno
o estranho (estes dois últimos, desde o primeiro ano. impressionante)

e um muito obrigadinhos a todos os outros que ainda fazem com que a minha barrinha do stat counter não esteja tão plana como a minha conta bancária.

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

mimi...

ainda sobre o canto, e descobrindo no blog do meu Mr. Bojangles a perfeita ilustração da situação - por alguma razão somos irmãos gémeos -, roubo-lhe o marreta e mostro ao mundo como [também eu] me sinto quando tenho de, vá, chamemos-lhe "cantar"...