segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

blog em suspensão temporária


[musiqueta de natal em bom[b] pelo meu Donaldim preferido, Achmed, the dead terrorist]

porque:
é Natal e as prendas são todas feitas à mão [grande agradecimento à Air pela dica da cola quente: elevou a velocidade do nosso trabalho a um patamar nunca antes conseguido]
como as prendas são feitas à mão, a roupa está por lavar, a loiça por arrumar, o lixo por levar para a rua, o chão por aspirar.
só parei de trabalhar ontem [dia 23], depois de várias maratonas durante semanas a fio, e tive jantar de natal da peça. hoje tenho prendas para terminar e só vou começar a dormir mais de 5 horas por noite amanhã.
estou a aproveitar os últimos momentos de liberdade de fumar neste país para poluir o mais possível, enquanto não vedam aos fumadores o acesso aos cafés e esplanadas.
os meus tios chegam de Espanha e quero aproveitar ao máximo esta visita-relâmpago.

por isso, ficam os desejos costumeiros da época: aconchego, mimo, as pessoas que realmente interessam, e paz... pás pás. ;)

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

por uma fatia de pão-de-ló

eu e a Câmara Lenta conhecemo-nos há muitos anos. desde um projecto de leitura dramatizada na escola que ganhou tais dimensões que teve de subir para um palco. com lata para reposição e tudo. tempos de reuniões de 20 pessoas, em que todos fazíamos tudo, planeando minuciosamente os desastres à volta de uma mesa com pão-de-ló da avó desta mesma "pequenita". já na altura, se revelava moça com um humor desmedido e uma maturidade acima da média. desde sempre a chateei. escreve. escreve. insiste. nós fazemos, nem que seja num vão de escada. quando acredito no talento das pessoas tenho este problema. e ela muito hesitante, a dar passinhos de bebé. e eu a chateá-la sempre que a apanhava a jeito. mas a acreditar que um dia ia acontecer.

e chegou o dia. um telefonema: um piloto. sem garantias, logo se vê no que dá.
a minha resposta?
"sim, sim, e há pão-de-ló da tua avó?"
havia...

este fim de semana acordei às 9 da manhã, contentinha como uma criança com um caderno novo. [eu, pelo menos, delirava com cadernos novos. mas pronto, vamos ao básico: como uma criança em noite de natal, vá.]

ia gravar um texto da minha amiga, com um elenco sem vedetas, cheio daquela energia a que sempre estive habituada e de que já tinha saudades: a garra do querer fazer, do gostar de fazer, da equipa pequena que desenrasca tudo, da criatividade desembestada, incensurada, das gargalhadas incontidas do puro prazer de estar ali, a fazer acontecer.

melhor: o meu namorido também foi convidado para participar da demência, com a personagem mais sui géneris do naipe de gente esgroviada que são aquelas personagens... sim, além de um genial fotógrafo, de um talentoso webdesigner, de um acrobático assistente de produção d'O Cinema Português, este senhor esconde na manga também uma deliciosa faceta de actor...

e a cereja no topo do bolo: íamos ter dois convidados especiais daqueles... basicamente quando surgiu um dos nomes caí literalmente da cadeira onde estava sentada. e a minha amiga fuzilou-me com um dos seus olhares compadecidos.
e de repente lá estávamos. a fluir sem entraves maiores do que ataques de riso. a cair de quatro perante uma Noémia Costa que fez a sua cena brilhantemente em cinco minutos. a partir daquele momento, criámos um novo conceito que, acreditamos, constará nos manuais de cinema - fazer uma cena brilhantemente à primeira é "fazer uma Noémia".
e quando eu pensava que o patamar não podia subir mais, dei por mim a não conseguir gravar uma cena em condições porque o senhor Nuno Markl e uma campainha conseguem deitar por terra 8 anos de experiência de interpretação. ai a risa, senhores.


[para os mais distraídos, o cocuruto de cabelo castanho do lado esquerdo é meu]

aqui fica o meu mais terno agradecimento à minha querida Perche Romero/ Virtuosa Autora/ Doce Amiga, por se ter lembrado de mim. por me dar esta prendinha de anos atrasada deliciosa.
àquela equipa de produção, por ter catering, águas, cobras quando faltou a iguana, tanto gosto, tanto talento, e tanta paciência.
à equipa de actores que criou logo ali o clima que esperamos que se prolongue por muitas temporadas, qual Friends e Seinfeld e Dr. House e quejandos.
aos dois convidados especiais. por virem ali - também eles - por uma fatia de bolo. participar sem dramas nem manias no "lugar às novas".
e ao senhor Markl em particular, por me ter oferecido um robe há muitos anos, que virou inestimável figurino desta mesma série. e por já estar desavergonhadamente a fazer publicidade a este trabalho e a tecer elogios à malta.
de facto, e citando o supracitado humorista, que por sua vez cita um autor de cujo nome não se recorda, esta é "a maior diversão que uma pessoa consegue ter sem tirar as calças". ou a saia. ou o robe.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

polegar no cinema português

hoje foi o dia da "rodagem da cena com deixas". o nervoso miudinho ainda não tinha acordado, já eu tinha gravado. é que o despertar foi às 6 da manhã, entenda-se. chegar, comer uma sandocha, maquilhagem, cabelos, troca de mimos com o ex-patrão no cigarro da espera ["você nem imagina as saudades que eu tenho de si, minha cara", disse-me ele, e eu de lágrima de crocodila - oh - que - peninha - que - saudades - tenho - eu - do - escritório - e de - sua - azia - matinal quase quase a rolar-me pelo rosto se não fosse a pintura poder esborratar]. em bela diva meio acabada vou ao guarda-roupa e lá está o meu fardamento de criadinha insular do século passado antes do século que já é passado mas que eu não me habituo. vestidinha a preceito, já temos a perfeita mulher do campo, delicada mas vigorosa, com rosetas fornecidas pela secção das pinturas, e só me lastimei de não ter deixado crescer a sobrancelha-monocelha para ficar mais autêntico. e de não me deixarem fazer a coisa como deve ser, com sotaque madeirense...

a actriz principal terá uma cena comigo. mano a mano, só as duas. não, não me enganei. explico: é uma questão de me mentalizar que ainda sei fazer isto. portanto: a cena é minha. ela só participa. quero lá saber que o filme seja praticamente só com ela.
a moça, ainda mais franzina que eu, com o seu ar delicadíssimo, o pacote todo, pele transparente, mão trémula e olhar de eterno tédio, fastio, oh inclemência, recordou-me alguém, mas rapidamente afastei esse pensamento quando ela me abriu um sorriso e calorosamente me pegou na mão num cumprimento mais que de ocasião.

sei ao que vou: é cinema português. leeeento. planos looongos do género "mas - porque - é - que - esta - pessoa - não - se - dedica - à - fotografia?". um realizador muito querido, mas bipolar. ora está todo doçuras a dirigir as actrizes, ora está aos berros com a luz. boa luz vai ter, de certeza... só em ensaio muda-me a marcação umas 5 vezes. lá ando eu de trás para a frente, de roupa de época e um blusão de penas para não morrer de frio. lá se decide e pôem-me a fitinha no chão [sim, sim, é tudo batota, somos meros fantoches e, quando muito, Marretas]. imediatamente a seguir resolvem mudar o tapete de sítio. que era onde estava colada a fitinha. e quando volta a fixar a marcação, muda a outra moça de sítio. quando vai para gravar, afinal já não posso estar ali porque fico sem luz [sim, houve gritos de "porque é que a polegar não tem luz, carago" e tudo]. lá se orientam e eu em minha bonacheirice troco olhares divertidos com a minha parceira de cena. ela vai à maquilhagem a correr tirar uns rolos da cabeça e de caminho pega-me na mão e diz-me meio segredando que eu que não tenha receio, que o realizador grita muito mas não é nada. eu respondo a rir que já o conheço e que não me incomoda nada. e de facto não incomoda mesmo. siga para o plateau, já sem rolos e sem casacos. conseguem finalmente tirar do plano o assistente de decoração que anda há horas de rabo para o ar a limpar abnegadamente o chão com Pronto. vamos filmar.

"som!" berra o realizador
"som pedido!" berra o assistente
"'tá a andar!" responde o técnico
passa um camião
ouve-se um "'dasssssse" sumido
o perchista levanta a respectiva... perche
o assistente diz lá aquelas coisas com a claquete em frente à câmara "cena 30 primeira" e assim.
esperamos
esperamos
passa outro camião
"dasse"
esperamos
"acção!" berra o realizador
e lá fazemos. e refazemos, porque passam muitos camiões. e porque a moça levanta demasiado o cotovelo e me tapa a luz ["a luz da polegar, carago, filha, tem paciência, tens de baixar o braço"]. e porque eu falho a marca duas vezes [give me a break, eu estou com uma enorme saia rodada, vou a medir a coisa só com visão periférica e tenho de adivinhar se estou com o pé em cima da marca, à frente da marca, atrás da marca. isto, senhores, é uma ciência milimétrica]

corre bem, parece que estou dispensada. mas não. afinal querem que eu entre em mais uma cena, depois do almoço. porque, e cito, "isto criadagem de qualidade não se arranja assim do pé para a mão e portanto é melhor continuarmos com esta". ena pá. assim almoço à borla.
e fico na mesa dos actores e tudo, com o realizador à minha frente a roubar-me bacalhau com natas. que isto é assim.

e descubro que a cena que tenho à tarde é com um velho habituée dos décores portugueses, e meu velho habituée - dor - de - cabeça dos tempos de produtora - actriz no Mosteiro dos Jerónimos. isto vai ser interessante. pedem-me que lhe faça um ar de comiseração. e pronto, é a galhofa. porque, enquanto esperamos para ensaio, eu digo-lhe o meu subtexto em madeirense. e faço-lhe um olhar de comiseração de que não se há-de esquecer tão cedo. e depois gravamos. passam poucos camiões depois da hora do almoço.

tenho uma pequena surpresa: no fim da cena, sai de lá um berro do realizador:
"a polegar terminou hoje, obrigado minha querida, salva de palmas para a polegar!"
e bateram-me palmas e tudo, como se faz aos actores que não vão só fazer figurações especiais. fui cine-baptizada.

e pronto, antes de despir a personagem [sim, até fui vestida de sopeira-antiga para o restaurante], faço à socapa mais um recuerdo para a M. e acabo por ter uma participação especial do meu colega de olhares.
aqui têm, o meu mais recente contributo, a obra "criada em auto-violação triste e solitária até que patrão se apercebe e resolve dar uma mãozinha em trágicos":



foto de espanta-espíritos, montagem à pressa por polegar

domingo, 9 de dezembro de 2007

cabo verde



teatro Meridional
até 15 de Dezembro
4ª a 6ª às 22h; Sábado às 17h e 22h
rua do Açúcar 64 - beco da mitra, Poço do Bispo, Lisboa
bilhetes - 10 euros, vários descontos.

eu não dava para crítica de teatro. ia ser acusada de ser amiga deste e do outro. de ser uma vendida a certas companhias.

chega-nos uma compilação de textos de autores caboverdianos. prosa, verso, música.
uma actriz, um músico. isolados numa ilha de caixas de madeira, uma enorme lua de papel e um espanta-espíritos para deixar aproximar apenas as almas boas.
ele faz mar com arroz. ela faz um povo com o corpo.
começa com "deus abençoa este espectáculo". e parece que sim, que há uma qualquer força que deixa que cada som, cada palavra e gesto saiam abençoados e contagiem todas as pessoas ali sentadas.
são histórias. são coisas pequeninas, gestos de um quotidiano, de um imaginário - bem real - que ali se nos apresenta. são símbolos reconhecíveis por todos, são pequenos contos que lemos como num livro em que as letras são o rosto de Carla Galvão, as páginas onde se deitam são os sons de Fernando Mota.
nada ali há mais do que uma interpretação pura, intensa, verdadeira, um fabuloso trabalho de equipa em que os pormenores são tão pequeninos mas contam tudo. nada parece marcado, nada tem só forma. é num rosto iluminado, afogueado, que de repente quebra em mil rugas, num corpo que passa de uma dança frenética à fragilidade digna da velhice que nos sentimos apresentados à essência de todo um país.
são histórias de pessoas, que se nos transmitem com essa mesma franqueza, e não é Dezembro em Lisboa,não está frio, não há trânsito, há peles escuras, há um tempo lento, há passadas dengosas, há "sodade", há mornas, há cachimbos e todo o mundo dos adereços num lenço.
é um estudo de pessoas, feito com alma. em cada poro há vida e sinceridade. em cada som há um ambiente, uma emoção. uma hora assim, colada à cadeira, em total assombração, em completa devoção.
sabem aqueles momentos que são tão bonitos que nos dão vontade de chorar?
saí de lá abazurdida. o corpo dorido como se tivesse apanhado uma tareia. e a voz incapaz de verbalizar o que me ia na alma. ainda agora, não consigo fazer qualquer comentário inteligente, digno de nota.
só posso agradecer.
e dizer: vão ver.

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

gestão de recursos ou a piada do dia

um membro da produção, antes de beber o primeiro café da manhã, para um elenco de 13 pessoas
- vocês têm de parar de se assoar aos kleenexes. para a maquilhagem tudo bem, mas para se assoarem façam lá como quiserem, tragam lenços de casa.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

no dia dos meus anos

desta vez ficámos por cá. e pela primeira vez em 28 anos, trabalhei no dia do meu aniversário. antes de parecer mal, digo que é feriado.

levantar cedo, depois da tradicional meia-noite com os meus infalíveis e de doses inacreditáveis de amor até às 3 da manhã, que incluíram uma surpresa muito kinky-pinky e tentar afinar uma guitarra de ouvido.



apaguei as olheiras com base e pó e cores e riscos. era dia de dose dupla. dos corredores de correntes de ar disparavam abraços, apertadelas, beijos repenicados e puxões de tranças. porque as pessoas do teatro são assim, expressivas. e eu gosto. o namorido levou-me à porta de artistas e entregou-me na mão do meu mr. bojangles. "seguro a minha mão na tua", já dizia o outro. e na mão de um e na lente de outro dancei a menina. e depois, ainda no palco, cantaram-me os parabéns. o público também, desconhecidos e quatro vozes que cantavam mais alto que as outras porque, já se sabe, a família. "não chora", dizia-me bojangles, sempre de mão apertada. e chorava ele e chorava eu. que isto dos artistas somos uns sentimentalõezinhos... foi receber as mãozinhas rechonchudas estendidas dos pequenitos que querem sempre abraçar muito a "Ana". e voltar para bolo na sala de fumo.



vestir e sair para o frio, correr para a casa às cores. depois foi abrir os braços e deixar-me cair. no vinho, na conversa, nos risos, no calor do meu clã. e - nunca esquecer - fazer a foto da praxe de "violados em aniversário de polegar", para enviar à M., que ainda não pôde subir 3 andares sem elevador.



no dia seguinte, acordei tarde e refastelada como uma grande gata preguiçosa. o único senão é que acordei também com a voz de Achmed, the dead terrorist, na parte do "I kill you". mas isso é outra história...

todas as imagens são da autoria de espanta-espíritos.

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

auto-dedicação


foto de espanta-espíritos

para mim, aos meus fantasmas de bolso, com banda sonora ou silêncios, sem dúvida em fôlegos apertados. caminhadas na minha cidade de vento frio a baralhar-me o cabelo. as imagens escorrem apesar de não serem chamadas. simplesmente estão lá. vivas, de bocas riscadas para baixo e palavras amealhadas em meias ilusões que almofadam a queda. é tempo. é tempo de as agarrar com os dedos e ignorar punhos cerrados. para que as sinta sem me magoar. para que não me esqueça. mas para que repouse. servir a gosto.

mudemos de casa; porque é preciso
arrumar as dores de outra maneira,
certificarmo-nos da existência do corpo
em novos lençóis, voltar a ter ilusões,
lugar propício para a curiosidade
de alguns que nos fazem acreditar
que a vida é um amplo anfiteatro
para as mãos.

jorge gomes miranda

agradeço à lebre e à menina limão, que me ajudaram a arrumar as ideias.

terça-feira, 27 de novembro de 2007

the extra

pediram-me que escrevesse, e escrevi. afeiçoei-me ao senhor e foi com um gostinho adocicado na boca que soube que ele tinha conseguido levar a sua avante e que os meus dedos tinham dado um pequeno contributo para isso. depois fugi, como se sabe, dos dias cinzentos, à procura de luz e de pinturas que me devolvessem a cor à cara. não sei por quanto tempo, mas isso agora não interessa à conversa.
há pouco tempo inscrevi-me numa nova agência, onde trabalha uma colega minha.
"procuramos actriz entre 20 e 30 anos, sem madeixas" - não se vê logo que sou eu?
conhecendo a minha história, não hesitou em ligar-me: há aqui a hipótese de uma participação pequena no filme do teu amigo. o cachet é uma merda. queres?

por acaso até quero. se andei com o bebé ao colo, agora, se posso, quero ajudá-lo a andar.

fui, assim, conhecer o glamoroso mundo do cinema. num ambiente bastante aconchegado, ou não conhecesse eu mais de metade da equipa. incluindo os senhores do topo. todos acharam imensa graça a eu ter caído lá de pára-quedas. a nos reencontrarmos assim. tão gira que estás, minha querida. eu pacientemente à espera durante horas, de cabelo apanhado em complicadas tranças, vestida de criada madeirense de finais do século dezanove, rendinhas na cabeça e tudo, a tentar aquecer-me num alpendre em Sintra, com o meu livrinho nas mãos. quando o sol se começou a finar é que se lembraram que tinham uma cena de exteriores para gravar. e pronto, lá fui eu receber os meus patrõezinhos. a bater os pés entre "cortas" porque deixei de os sentir com o frio.
foi dia de burros, cavalos brancos e ratazanas domésticas que também eram meus colegas figurantes.

dentro de alguns dias, volto lá, para gravar uma cena pequena, com falas.

e a modos que é isto.

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

flippers

dá aqui, leva do outro lado, o que importa é não parar, não pares, senão perdemos o jogo e por isso agora toma lá mais porrada, tens de ir para cima, para a esquerda, não, não é essa esquerda é a outra, oh mas será que não percebes nada do que te digo, foda-se? e sim agora quero que deslizes devagar, mais devagar, porque tenho de te dar a traulitada na altura certa, és uma bolinha tão fixe, tás mesmo a jeito vá lá vá lá vá vá tá quase e... toma! agora vai lá, desvia-te da luz e entra lá ao fundo, naquele túnel. não, não percebes o bónus é se fores para ali, merda. mas que coisa, é preciso dar-te mais porrada para fazeres o que eu quero? plim plim plim, sim senhora, agora sim, desvia-te... mais... para... ali! toma, vá caraças, que merda, anda lá com isso, tenho mais que fazer que ficar à espera que acumules os pontos... parece que nunca sabes qual é o teu lugar. vá, mais uma, para ali, tás quase, pimba! eheheh rebola aí que eu gosto. espera, não! calma, se te der um safanão agora... oh. perdi o jogo. a culpa é tua.

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

transições

daqui



para aqui


imagens de espanta-espíritos

terça-feira, 6 de novembro de 2007

3

parabéns, namorido :)

sábado, 27 de outubro de 2007

goodbye my monochromatic friend



entraste-nos pela vida adentro assim de repente. um dia, de manhã, numa casa ainda meio inventada, meio improvisada, tecida aos poucos num terceiro andar, ouvia-se miar em plenos pulmões. abrimos a porta e nem pensaste duas vezes. entraste de rompante e encolheste-te a um canto.
ainda guardamos os cartazes que não afixámos a perguntar de quem eras.
evidentemente quiseste ser nossa.

pinguim. porque sim. porque eras uma monochromatic friend com um ar apatetado.

e pronto, seguiram-se os pêlos, os espirros, o acordar contigo em cima do ombro com um ar maquiavélico, as tuas marradas assassinas, o teu miado desesperado quando te cheirava a carne crua, o teu ar patusco quando nos olhavas, o teu constante ronronar de britadeira, os teus saltos cómicos quando nos mexíamos, a tua atracção fatal pelas minhas botas de trabalho ao fim do dia, os teus berreiros nas manhãs de fim de semana, a tua mania de quereres subir para o sofá, a tua paixão pela tenda azul três meses depois de ta comprarmos, os ataques ao poste de arranhar [sempre deitada, em diva] seis meses depois de to comprarmos e com o sofá já todo destruído, a tua fixação pelo colchão velho que não deitámos fora porque gostavas de te empinar nele a ver as vistas, a tua obsessão pelas almofadas de sentar os convidados, a tua actividade motora diária de dez minutos atrás de botões fantasma no chão, o papel de parede que arrancaste cinco minutos depois de estar perfeitamente colocado a esconder os azulejos, os sustos porque te escondias e pensávamos que tinhas fugido - o meu pai bem sofreu num dia de obras.
inventámos-te uma história: a velhinha pacífica que te tinha e que morreu, o abandono, a tua temporada na rua à procura de casa, o teu encontro connosco.

estiveste connosco quase dois anos.

hoje, numa operação de rotina adormeceste para nunca mais acordar, e descobrimos que estavas há muito doente. e que foi melhor assim porque em breve começarias a definhar, a sofrer. e tu não merecias.
assim seja. descansas agora, pinguças, no jardim onde dormem todos os meus bicharocos - que me orgulho de dizer que são muitos - na companhia do meu primeiro amigo, o bugui, da pachola nelly, do irrequieto joy, de todas as quatro ou cinco gerações de felídeos que resolveram adoptar o quintal dos meus pais.

ficam connosco as recordações, meia dúzia de objectos de que não nos desfaremos, o orgulho de saber que te demos dois anos extra de vida plena e cheia de mimo.

e o desejo de voltar a ser adoptados por alguém como tu.
purrrrrrr.

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

animais - post com palavrões

um filho da puta com pretensões a artista de merda resolveu fazer a seguinte exposição / performance-instalação / peresfíncter como gosto de lhe chamar:
perseguiu e capturou um cão vadio doente [o que justifica tudo], prendeu-o num espaço, perante uma parede onde se lia a frase "és o que lês" escrita com comida de cão. o bicho [o cão] morreu de fome ali. como forma de arte.

o punheteiro intelectual chama-se Habacuc. os que permitiram a exposição não sei, mas gostava de saber, para fazer uma petição para lhes fechar a loja. assim como ir a casa de quem pagou bilhete para ver isto com um pau bem grosso e... bem. o cão está morto, não há nada a fazer sobre isso. resta apenas uma petição para que não o deixem participar na Bienal Centroamericana Honduras 2008.
é o mínimo, não?

soube disto pelo blog da Manel, e lá encontram links para imagens da coisa. eu recuso-me a divulgar mais esta merda, apenas apelo a que assinem a petição.

terça-feira, 23 de outubro de 2007

a vedeta

simples. eu sou simples.
protagonista dos meus filmes, bem disposta e efusiva quando o vento me corre de feição. mas claro, conhece alguém que o não seja? se sim, mente. e que divertido é, arranhar as paredes dos dois lados a ver qual cede primeiro. mas claro que cede. acabam sempre por ceder. se souber fazer as coisas, obviamente.

surjo assim sem se dar por ela.
por mim.
uma comichão que se tenta ignorar mas que saltita de vez em quando. acabarão por ter de coçar. vai-se devagarinho em discreto. como as cicatrizes que se queixam do tempo. oh, lá estás tu dor, ainda não te foste embora? não, ia lá agora se aqui estou tão bem. sou assim qual doença urbana, rastejante, temperamental e fulminante.

com paciência e olhar cínico
perdão,
clínico.

se não espirra, há-de tossir.
eu tenho é de saltar cá para fora em tcharã.

andar assim modestinha e encolhidinha,
ai de mim
,
até deitar a unha bem arranjada de fora. com um inocente relampejar de pestanas que por acaso atordoa. já se sabe: sem darem por ela, já está feito. sem eu pedir.

mas havia alternativa?

no fundo,
reivindico. o que é meu por direito, está claro. mas sem aquele alarido inconveniente que fica sempre mal.

porque nunca se sabe como é que as pessoas vão interpretar a verdade dos factos. é preciso ter cuidado com isso. são capazes do pior, as pessoas. temos de as esclarecer como deve ser. nem que tenha de ser uma a uma. para perceberem como deve ser.

o segredo, eu conto, é hastear a bandeira da modesta, fraquejante e brilhante-ainda-assim entidade superior que sou.
mártir da minha própria excelência, compreende?

e depois dá-me a veneta. o chilique, percebe? repito: o que é meu por direito, está claro. mas sem a parte do alarido.

ora a palavra-chave é vulnerabilidade. de quem tem mais pena? da presa ou do predador? a vítima, aí está, poque isto é tudo um jogo de forças, não seja ingénuo. e as aparências iludem. surripiar uns tiques, torná-los meus, e depois dá-los nas vistas. eternos desconhecidos para além do meu tão fantástico cunho pessoal.

repare.

ali entre o assoberbada e o perturbada, a angústia, a náusea,
deixem estar, eu fico bem.
e venha a águinha importada, a toalhinha do turco da turquia, o açúcar mascavado do egipto para o chá de perpétuas roxas com gengibre e limão, a florinha da ásia que ajuda à sinusite e dá boas energias do feng shui, o tecido que não amarrota nem me faz alergia, a bainha da saia, a marca de pó compacto à minha espera no camarim. o camarim exclusivo.

ah, o exclusivo. meu, meu, só meu.

serve bem assim, a anca bamboleante em desnorte do seu magnetismo natural, o olhar desprotegido e inquieto no seu assombro. pode-se dizer quase tudo assim. como quem não quer a coisa.
e depois, já vê.
eu? mas se eu não fiz nada! vá, coreografe-se o encanto: ombrinho levantado, cabeça inclinada no pescoço elegante e ar delico-surpreendido quase quase indignado com a vaga alegação. e que não aleguem com muita força, porque como imagina tenho de esclarecer tudo imediatamente, mas o que é isto? agora faltas de respeito? não tolero.

não admito.


é uma frase muito minha. o não admito. sou assim, directa, franca, pão pão queijo queijo e pronto. se não me quiserem assim, que dispensem a minha presença, ora essa. agora não me obriguem é a aturar pobres de espírito. há ocasiões para tudo. mas claro, com classe tudo se resolve sem perder a pose. aquela pose que já lhe mencionei. não volto a repetir tudo porque eu sou de poucas palavras, tímida, está a ver? dizem que como todos os bons artistas. não sei de onde me vem esta aura. talvez das minhas raízes.
que não renego, as minhas raízes.
afinal, histórias que não importam à parte, fizeram-me assim, com esta aura de que lhe falava. simples, dócil, briosa, com uma enorme capacidade de sacrifício, uma discreta sofisticação e apenas uma pitada de mau génio, que no fundo dá sempre jeito para não nos fazerem as papas na cabeça. e, repare, apenas se me dispara o mau génio artisticamente, não é?
que eu considero-me uma pessoa bastante razoável, até.
o génio, bem vê, a par da minha notável melancolia, dá um toque de cor mas nunca me reflecte como inacessível. só distante, mas nunca inalcançável. fresca, por vezes até parecendo fria, mas nunca frígida.
nas palavras, quero dizer.
sou muitíssimo espirituosa. para quem me compreende, claro está. porque eu sou muito generosa. já viu o que seria de um grupo sem mim, sem a minha iniciativa para guiá-los?

não me interessa se é ambíguo. ambíguo é bom. eu nunca me desmancho. eu não me contradigo, refaço-me conforme a situação.
mas voltando ao assunto.

nunca esquecer, contudo, que há um único crédito próprio que se pode e deve assumir: eu sou apenas uma lutadora. contra todas as tempestades que me quiseram vergar. porque o mundo pode ser tremendo, inclemente e injusto. bonito, não acha? o resto foram vocês que me deram. vocês são uns amorosos, todos.

estúpidos, mas amorosos.

e ninguém tem acesso aos bastidores. vão lá saber que eu cá não é água do cano se me posso afiambrar. que se me apetece até me entretenho a fazer teatro só para mim.

sou de tal forma que às vezes até eu acredito em mim.

é do que mais gozo me dá. fazer assim os meus números em privado e deixar a porta entreaberta. a ver se espreitam, a ver se caem.

comentários sobre a passadeira da fama? está a ver mal a situação. a questão são os sapatos de salto alto... e a sua relação fugaz e descomprometida com a passadeira da fama. que tem mais é de estar quieta e comportar-se como simples tapetinho que é, que por acaso até é encarnado, vai bem com o vestido, é conveniente. não se esqueça: peça secundária, cenário contextualizante para passear o ego.

livre-se de perguntar o que seria do ego se não tivesse um tapetinho para pisar. não seja ridículo. não é essa a questão.

oh, mas para quê falar de mim? insiste? vejamos o que lhe posso dizer...

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

é ali

que no momento antes de tudo está escuro e não sentes nada mais que pequenos arrepios dormentes. que tudo te passa pelos olhos
sem te recordares exactamente do quê.
então abres caminho
e as luzes.
e o frémito de queres mais e mais, de tomares conta daquilo, e de aquilo tomar conta de ti. choques eléctricos. passam a voar, arrancam-te a pele que sobra e levam-na para fazer casacos. estás ali em carne viva, o sangue a escorrer pela madeira gasta. e uns olhos vagos postos nos teus, no que dizes, no que mexes, na voz que dás.
cuidado para não pingar,
não te podem ver a esvair em sangue, enquanto tentas agarrá-lo o melhor que sabes. não podem ver que carregas também essa tua aflição do sangue na contagem decrescente para voltares ao escuro.
só te podem ver a ti, brilhante e fugaz, nessa figura triste de sorriso contente.

e tudo não passa agora de uma penumbra, de um fumo de cigarro pós-coital
que já foi consumido
antes de entrares nessa modorra cansada, alagada
satisfeita.

olham para ti com olhos de choro que lá no fundo é uma pitada de sofrimento afogado no orgulho - porque as melhores receitas têm sempre um ingrediente secreto, uma pitada de qualquer coisa que só tu sabes.
- é mesmo ali, não é?
é.

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

gentes : ligue os três pontos com linha azul

passo largo ritmado de passeio. shuffle no leitor
na lateral ainda bate o sol.

fatos novos, linhas sóbrias, tailleurs, lencinhos ao pescoço, stilettos, preto, azul escuro, cinza, malinhas de mão. apanhados práticos, escadeados, brincos pequenos. verniz rosa transparente, manicure francesa. laptops. PDAs. alianças. agendas. a amiga de rabo de secretária em dieta, a amiga magra com o pastel de nata. argolas, fivelas. pilates. já viste o meu telemóvel novo, já ouviste dizer da Isabelinha, não sei que faça àquele miúdo. ângulos rectos, narizes para o céu, movimentos angulosos, direitos, directos. cheira a laca, a loção de barbear, Chanel, bmw.

a primeira sapataria barata. atravessar para a sombra.

calças de pinças coçadas nas bainhas, saias largas e turbantes. chinelas e saltos compensados. calças demasiado justas, pneuzito de fora, sapatos de descanso. sacos de compras com rodas. xadrez com riscas, meias de losangos, casacos de malha largos, xailes. cabelos lambidos, rabos de cavalos, raízes pretas em caracóis amarelos, extensões, apliques. plásticos. flores, bolas. ó boa eu cá fazia-te, já passou o 58, já vistes o benfica. músicas. sotaques. correntes e bonés. movimentos ondulados. pesam as ancas, pesa a idade, pesa a preguiça, pesam os sacos. cheira a pele, a suor, a verduras, a graxa, e a protector solar borrado nos mapas vindo dos lados do Nicola.

virar à direita. subir a rua. não quero responder ao inquérito.

retro - urbano - chique - contemporâneo - alternativo. túnicas, gangas, vestidos, florinhas, padrões quase étnicos, quase abstractos, quase psicadélicos. ténis-sapatilhas, sabrinas. boca de sino. justas nos tornozelos. beatnic. rastafari. calções. sobreposições. riscos florescentes. com um toque de. estruturado-desalinhado, cristas, aparentemente descontraído, espetado, despenteado de propóstito. casual chic. trendy. indie hype. pseudo. freak. lenços largos, desencontro de padrões, havaianas, a parecer coçado acabado de comprar, malas de crochet ou militares, ou a imitar o antigo ou o anúncio de. cultura na etiqueta. correntes de pensamento nas solas. mangas cavas. óculos de sol. já leste o livro do, queres beber um chá no, és tão parva. movimentos soltos, mãos nos bolsos. livros nas mãos, desenhos nas mãos, piercings, acordes de Amália, mãos estendidas. cheira a chá verde, a cera para cabelo, a papel, a Nespresso.

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

grumpf bah argh grrau

quem tiver o meu "Despertar da Mente" que se acuse.

já não se pode ser querida e querer partilhar os filmes da vida... ó raça ingrata de amigos da onça... raisparta...

obrigada, menina-limão, pela ideia. sempre se poupa em telefonemas. a ver se resulta ;)

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

petição - propriedade intelectual

porque neste momento são os artistas que estão na berlinda lá para os lados de São Bento. porque somos explorados por todas as formas e feitios, apesar de ninguém se parecer importar com o facto de não podermos ser oficialmente desempregados, mas eternos "entre projectos a recibo verde mas que têm de pagar segurança social na mesma" - e agora querem tirar-nos os nossos direitos de propriedade intelectual.
porque muita coisa está errada e ao menos uma assinaturazita online não deve custar muito a fazer.
deixo aqui o endereço de uma petição que pode ser do vosso interesse analisar e subscrever [ou não].

os artistas até são considerados intelectualóides e tudo. já que temos a fama, que continuemos a ter o proveito, não?

domingo, 14 de outubro de 2007

antes que se desvaneça

pode ser que não dure, mas as coisas boas são para se gravar. para tatuar e lembrar no que dão tantas dores e tristezas.
que fique aqui registado, antes que as garras transparentes voltem a atacar-me, antes que outra praga caia sobre esta casa, antes que chova, antes que venha uma tempestade de areia sabe-se lá de que buraco, antes que o tapete volte a sair-me de debaixo dos pés.
antes que
porque há sempre
mas antes de tudo, que se registe aqui um momento, um meu momento de sorriso rasgado, de felicidade extrema. um momento fútil, podem chamar-lhe. ou demasiado comum para tanta gente. mas é um momento como eu não tinha há mais de dois anos. como nós não tínhamos há mais de dois anos, em que contámos, pensámos, ponderámos, hesitámos e evitámos. hoje houve lágrimas e vontade de gritar que é para já. foi empilhar nos braços contentes. assim, sem olhar para o lado, sem pensar alto, sem perguntar
e se

hoje fomos à Fnac. e enquanto os Clã cantavam ao vivo, comprámos 3 livros, uma colecção de exercícios de teatro e 2 dvds.

toma lá e embrulha.
é para oferecermo-nos.

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

notícias do outro lado

o outro natal
o dia em que encontramos o cenário, os adereços, os figurinos pela primeira vez. nesse dia reinventa-se tudo o que se criou até agora, com o novo peso, a nova forma. solta-se a fúria nas tábuas velhas, desgastadas, com pouca alma para além daquela companhia que as habita seis meses por ano. aqui estou, a cantar em tons de blues sobre dentes podres...


fotos de carina_menina

violação em massa
M., entre tantas outras personagens de uso exclusivo em brincadeiras entre amigos criou A Violada. pode parecer ferir susceptibilidades mas não é mais do que um disparate bem-disposto, com direito a caretas e risos, que vai coleccionando fotos de auto-violações nos sítios mais estranhos, nas oportunidades mais raras [e toda a gente se pode juntar a este movimento, é só mandar as suas fotos por mail...].
assim, no momento em que nos apercebemos realmente da figurinha que íamos fazer ao cantar sobre a pobreza no mundo vestidos de legumes, resolvemos entrar em histeria colectiva. e, claro, nada melhor do que uma auto-violaçãozita. nada temeis, não haverão represálias: o senhor mais em baixo nesta imagem sem roupagem a preceito é o próprio encenador...


foto de xico_biscoito