quarta-feira, 8 de agosto de 2007

bajji



não tenho por costume fazer posts ambientalistas, excepto quando me chateio com o trânsito.
mas hoje ouvi na rádio que o golfinho branco desapareceu. assim. não há mais. morreu o último, no prato de algum chinês que não gosta de chop suey de galinha. ou de crepes de vegetais. ou de arroz.
e aquilo fez-me impressão. doeu cá dentro. não sei se, por achar muita graça a esta espécie, a coisa não me terá afectado ainda mais, confesso.

o que importa reter é que os golfinhos brancos andavam por cá há 20 milhões de anos. e um senhor predador, mais jovem do que todos os outros predadores dos golfinhos brancos, conseguiu acabar com eles sozinho. e por puro e simples capricho - não foi de certeza por não ter mais nada para comer... por acaso o senhor predador até é omnívoro.

apesar de pensar que tento dar o meu pequeno contributo para aguentar este nosso mundinho por mais uns tempos [carro "verde" e utilizado só em casos de real necessidade, reciclagem, sistemas de poupança de água, banhos curtos, lâmpadas economizadoras, não largar beatas na praia e por aí fora], não posso deixar de me perguntar... o que é que andamos a fazer?

oi, pessoal!... quando não houver mais nada para matar, se não antes, NÓS VAMOS MORRER.
percebem ao menos isso, ou não?

foto retirada daqui

quinta-feira, 2 de agosto de 2007

sweet fifteen

segundo este teste, tenho um corpinho de 15 anos e vou viver até aos 86.

isso explica muita coisa, inclusive a medida do soutien... eheheh

através do caríssimo frutos de sombra

segunda-feira, 30 de julho de 2007

família feliz

sentam-se falando alto, de comida. a mãe é enorme e tem a voz aguda. parece "uma bola de berlim com um berlinde em cima". a filha é um ser sobrenutrido de sobrancelha farta e testa curta, com "corpo de trintona com 2 filhos" mas que gosta do Noddy e do Ruca. o senhor, que não parece ser o marido|pai, é grisalho e usa pólos brancos com uma risca e bolsinho no peito, à antiga. dá cotoveladas brutas na rapariga, mostrando que é um velhadas-à-maneira, percebe de tudo e da vida de todos e nada o impressiona.

atacam uns bitoques oleosos enquanto discutem não sei quem, que está gordo e devia ter cuidado. diz que não era assim, que foi depois de largar o futebol. mas tem de ter cuidado com o que come, caraças, já não é novo. entrementes o senhor comenta que não gosta do Macdonas, que não é pessoa de ambrugas nem de sande. só assim para ir para a praia é que o convencem à sande. a moça atalha que até gosta do Macdonas, mas não vai muito. a mãe torce o nariz. nada bate a comidinha caseira.

terminado o bife vai-se palitando os dentes com a esquina do guardanapo. pedem-se sobremesas. mal chegam à mesa, a senhora enumera os defeitos. porque ela já fez doces para fora. que esta receita não é tão boa. que está mole, demasiado doce e pouco frio. a sobrenutrida diz à mãe que "é por isso que se chama semi-frio" e ela e o senhor riem-se muito. está muito esperta, esta miúda. repare-se que o seu bolo de bolacha, o último a chegar, já desapareceu do pratinho, enquanto que a mãe e o senhor ainda se degladiam com o semi-frio que está pouco frio. a mãe aplica-se como uma valente, uma mártir como já não se fazem, com esgares e caretas, mastigando de boca aberta deformada em desagrado, para que se saiba num raio de 300 metros o sacrifício que foi comer o semi-frio até ao fim. que isto não é gente de deixar comida num prato, que é pecado, só por isso.

a discussão subiu de tom, um tema grave que implica um forte brainstorming: o gato, aquele que é o Garfield, às riscas pretas e brancas, ah, sim, o Tómi do Jérri, pois, preto e branco, não que o Jérri era um rato castanho e o Tómi era cinzento, então sou eu que sou daltónica, não, é o outro do pintainho, o do Mimi, ah, não é esse o nome, esse é o do coiote. Pipi, é isso, Pipi, o pintainho que havia uma velhinha e tinha um gato preto e branco.

grave dilema desvendado. venham os cafés.
com adoçante.

salvar a pátria

a colega - que é a que trata dos dinheiros e pagamentos - andava atrás dele com o livro de cheques desde a semana passada. a resposta já podia gravar um disco:
"hoje não me apetece assinar nada".
a colega ia de férias durante 15 dias. na sexta-feira a cena repetiu-se: não lhe apetecia - ao outro - assinar nada. nem mesmo os nossos cheques - cócegas no meio de ivas e i-érre-cês.

lá foi ela de férias, deixando-me o nib dela para lhe fazer o depósito do ordenado e, claro, a lista dos pagamentos a fazer quando se soltassem os apetecimentos do outro.
o meu habitual "mas eu sou de letras" sacou uma gargalhada na despedida, um encolher de ombros cúmplice e dorido de uma batalha mensal sempre igual, mas de pouco mais adiantou.

hoje ele chega-me a suar muito, conta histórias de como o chão da casa dele ferve. rimos todos. ele diz que quer comprar uns sapatos. os meus alarmes disparam, isto é um sinal de pairanço [s.m., forma de estar do patronato num escritório quando há pouco que fazer, está demasiado calor para pensar e já se viu todos os vídeos do youtube; direito patronal de ir laurear a pevide durante o horário laboral só porque sim - in 'dicionário sindical polegarês das artes do espectáculo pobre mas wannabe'].

uma estranha força toma conta de mim. talvez por não me lembrar da última vez que fui cortar o cabelo, jantar fora com amigos, ir dançar com o namorido, comprei um livro, um dvd, um cd ou um creme para a cara, dei uma passa num Davidoff. ou por me lembrar que tenho a despensa vazia, que devo 4 anos de segurança social [viva os recibos verdes e a valorização do trabalho qualificado], que a mota deu inexplicavelmente o berro e por isso ando a assar dentro de um carro sem ar condicionado que devia ter feito a revisão há quase 4 mil quilómetros.

levanto-me da secretária, dou os três passos que nos separam, estendo-lhe o livro de cheques.
"hoje não me apetece assinar nada"
isto pede um golpe ninja. a explosão de raiva saiu-me docemente, numa gargalhada cúmplice e uma piscadela de olho. assim:
- estou solidária com a tua dor. mas, sabes, aqui para estes lados já começa a ser uma questão de fome.
ele abre o livro e assina.

vou ao banco, volto já.

sexta-feira, 27 de julho de 2007

a história verdadeira

era uma vez uma formiga e uma cigarra que eram muito amigas, apesar de terem feitios muito diferentes.

no Outono, a formiguinha trabalhou incansavelmente, a armazenar comida para o Inverno. não parou para descansar, não aproveitou os fins de tarde nem o pôr-do-sol, não esteve com amigos, não se foi divertir... já a cigarra passou o Outono na rambóia: ele era festas, estar com os amigos... andava sempre de guitarra debaixo do braço e toca de cantar em todo o lado e divertir-se comme il faut.

chega o inverno e a formiguinha lá vai para a sua toca quentinha e confortável, recheada de provisões. está ela a ver se descansa um bocadinho as pernas quando batem à porta. é a cigarra, que lhe aparece num lindo casaco de vinil todo pimpão, guitarra debaixo do braço, óculos escuros e lenço na cabeça.

- então! tá-se? - pergunta a cigarra
- tá, tá. - diz a formiga espantada - e tu, como estás?
- fofa, vou-me pisgar por uns tempos e precisava que me tomasses conta da toca. regar os bonsais, ver o correio, essas cenas... pode ser?
- pode... mas onde é que vais?
- nem m'imaginas esta cena. tava eu muito bem uma daquelas parties q'as revistas arranjam à gente com bubas à pala, a mandar uns sons pró ar, 'tás a ver, numa d'improviso só pr'á curtição c'as minhas amigas lá da linha, quando vem ter comigo um gajo que diz qu'é produtor e que gostou de mim, qu'eu tinha uma imagem espectacular e a voz e assim. dois dias depois tava a assinar contrato! vou gravar um cd e dar concertos numa tour de 6 meses. na França! provavelmente também pode ser que venha aí um convite p'uma novela musical. não sei falar francês mas também... faço d'emigra pobrezinha. é mais cenas de nus e tal, é só gemer e cantar umas músicas. mas é um começo de estala!
- ah... boa! fico tão feliz por ti, minha amiguinha!
- iá. pode ser que entretanto escreva uns livros sobre a cena da tour e isso. era curtido, não achas? depois mandava-tos textos pa fazeres revisão, fazias-misso?
- pois, pode ser, claro...
- olha, e já agora fofa, qués'alguma cena da França?
- até queria. se não te importasses, fazias-me um favor enorme: se encontrares um tal de La Fontaine manda-o sodomizar-se por um elefante sifilítico.

um disparate baseado neste, com uma expressão - a do elefante - "roubada" a este senhor. retomaremos a emissão dentro de momentos.

quinta-feira, 26 de julho de 2007

etiqueta 1.0.1.

não pedir a uma pessoa a quem pagas por mês um quarto do que recebes por semana - de outro sítio - para fazer o teu trabalho... desse outro sítio.

confuso? pois, deve ser...

terça-feira, 24 de julho de 2007

na soleira da porta



perdi os olhos no rio, à minha direita. perdi-me. em cogitações sobre os efeitos da luz do entardecer na água. como parecia uma amálgama de recortes de papel de alumínio colados com cola de batom UHU, no chão, para reflectir o céu. perdi-me nisto tudo. só no fim do percurso me apercebi que o meu corpo se recusara terminantemente a virar-se para a esquerda, a encarar as luzinhas bonitas da cidade do outro lado. a encarar o regresso.
acordei e vi uma nódoa. por mais que a esfregasse não saía e uma aflição tomou conta de mim de tal forma que chorei. chorei por uma nódoa e cheguei atrasada.

recuperei e esvaí-me a um só fôlego, parece-me. ou não me consigo reservar espírito para os dias úteis-inúteis. a ordem das coisas está ao contrário, isso é certo, mas o inconformismo desgasta-me e, mais uma vez a um só tempo, não consigo ser de outro modo.

fazes-me falta. há demasiado tempo que não te tenho, que não me tens. faz-me falta o teu cheiro e as nossas noites longas. o esforço, o suor, e os meus dedos a tocar toda a tua amplitude. tu devagar, começavas a dedilhar-me e a minha voz soltava-se. primeiro tímida, depois explosiva. porque contigo eu sei que era perfeita. ias aumentando de intensidade e eu encontrava-me coisas que não conhecia e ria alto. percorríamo-nos algures entre o lento saborear e a pressa de chegar. um dia fazíamos uma música inteira. e eu dançava com passos marcados pelo instinto. pelo teu chão, pelo chão que era meu, o meu palco. gostava tanto de quem eu era quando vivia plena no nosso abraço. o que me dói não ter esse abraço.

releio o que escrevi e sorrio. há várias cambiantes para um desgosto de amor. se o que digo fosse dirigido a uma pessoa, vendia-se que nem pãezinhos quentes.

quinta-feira, 19 de julho de 2007

humming

promessa cumprida, para uma amiga.
pinta de artolas à parte [inimitável], agora já sabes o que andámos a cantar naqueles loucos 4 dias ;)

I’m gonna sing this song with all of my friends
and we’re I’m from Barcelona
Love is a feeling that we don’t understand
but we’re gonna give it to ya

We’ll aim for the stars
We’ll aim for your heart when the night comes
And we’ll bring you love
You’ll be one of us when the night comes

I´m from barcelona | we're from barcelona


segunda-feira, 16 de julho de 2007

volver


três mil e sessenta e nove quilómetros, quarenta e cinco horas e quinze minutos de estrada.
cinco etapas, ao longo de quinze dias.
o asfalto comprido, os ventos, os cheiros, os mosquitos, os ataques dementes dos condutores espanhóis, a curiosidade por uma casa caber em dois pares de alforges e em sorrisos felizes apesar da distância.
uma pequena cidadela com uma praça curiosa, rodeada de história e um teatro secular, o mais antigo da zona ibérica. igual ao que era, tratado como devia ser. o primeiro café-bombom e catalana do itinerário.
os caminhos de Dom Quixote. e um só moinho.
a aldeia perdida na montanha, a casa no campo, a praia, o descanso, a família, as guloseimas, as agua-cebadas, os percalços, a aflição e a determinação em seguir caminho. os picos, a areia. rincón de santi. a entorse. o mar da minha infância, ainda quente, ainda turquesa. vambú. noche hache, caiga quien caiga. breathe. crisis-is de celulitis-is. gilipollas!
a primeira metrópole do caminho. um sorriso às sardas no meio das árvores, o duche frio, as dores nas pernas, nos pés, o pensinho com bonecos, Gaudi, antiguidades, o apelo consumista, recordações, noites de gargalhadas em segredo, à luz da lanterna numa Sintra inventada. tão perto. daquelas vielas com música em cada esquina. tango no meio da rua. já mencionei Gaudi? a minha saia nova. assobios.
última paragem. no centro do centro do centro. o design e as bagagens. o sono vigiado por Lorca. de mãos dadas pelas ruas, a cinco minutos de tudo. descer o Prado, subir Van Gogh, descobrir Estes. as praças, as arcadas, o mundo parado ás quatro da tarde. o calor, as cañas e barrigadas de Fatigas del Querer. contas saldadas com um certo bar de jazz onde finalmente entro, tantos anos depois. às vezes é preciso passar o tempo certo para tudo fazer sentido. finalmente estou.

três mil e sessenta e nove quilómetros, quarenta e cinco horas e quinze minutos de estrada.
cinco etapas, ao longo de quinze dias.
tanto sorriso, tanto, meu amor.

venho pela presente solicitar a beatificação dos meus quartos traseiros.
com os melhores cumprimentos

sexta-feira, 29 de junho de 2007

estranhas bandas sonoras

há estradas com músicas próprias. este ano, percorro caminhos de menina. em que as horas eram demasiado compridas e as curvas demasiado apertadas para um estômago sensível. a alternativa era sempre a música. cantar sempre me fez bem aos enjôos e quejandas indisposições da alma. quando acabavam as pilhas no walkman, sobravam-me ainda horas infindas de músicas de gosto duvidoso que ecoavam nas 4 paredes viajantes do carro. Roberto Carlos, Paulo Bragança, Demis Roussos, Beach Boys, Righteous Brothers, The Shadows e sei lá que mais sons do passado. e um dia, surge-nos do outro lado da estrada El Consorcio. e lado A, lado B, quilómetros atrás de horas, rodava no auto-rádio-com-leitor-de-cassetes. a minha memória selectiva não se lembra do que almoçou ontem. mas lembra-se das letras e das melodias. a minha avó cabeceava, com as pernas da minha irmã no colo [que a miúda ainda cabia deitada no banco da frente]. a minha mãe punha os pés no tablier [vício que escorre no código genético], e o meu pai assobiava. reencontrei-os há pouco tempo e não pude deixar de rir. para mim, serão sempre um disparate deliciosamente kitsch. é mais forte que eu. rasga-se-me um sorriso. desta vez, de oeste a leste :)



até daqui a 15 dias...

terça-feira, 26 de junho de 2007

na véspera de não partir nunca



para breve a vida compactada num par de alforges, os cheiros do vento e os riscos do mapa feitos rugas nas palmas das mãos. eu nas tuas e tu nas minhas. gosto disso.
a tenda vai sair do esconderijo e o pó do caminho vai fazer-nos a cama. é o chamar do asfalto.
para breve o tinir da colher na chávena de alumínio, a cozinha em pacotes, os pássaros, as ondas mornas, a relva, a areia, o cimento e a terra batida, as agua cebadas, os sotaques açucarados, as multidões e os silêncios de três mil quilómetros. o calor e o cansaço, o arrepio do suor, o aperto dos músculos, o estado alerta onde me reinvento de tantos meses de dormência.
levo creme para as dores no corpo e anseio por elas. é sinal que estou, finalmente, viva. e longe, tão longe...

segunda-feira, 25 de junho de 2007

ficção para quê?

um homem vai levar a mulher ao trabalho. faz uma inversão de marcha, manobra de sempre, em consciência de que não infringe as regras de trânsito.

logo a seguir é interceptado por dois polícias que o acusam de manobra proibida. olhe que não, senhor guarda. mas eles insistem de tal forma, e o homem, que não é de ferro e acha que tem razão e que estamos em democracia - somos inocentes até prova em contrário -, acaba por pedir para os guardas se identificarem, para ele poder apontar nomes e números de distintivos. os polícias, em gestos vagos, para não dizerem que não se identificaram, passeiam os distintivos de maneira que não se leia nada.

mas aquilo não cai bem e resolvem que o homem está a desautorizar a autoridade. chamam reforços, imobilizam o homem à bruta, algemam-no e ainda dão um encontrão à mulher. que por acaso está grávida. de 7 meses.

ela começa a pedir aos transeuntes que, já que estão a molhar o pão no sangue, deponham como testemunhas do abuso. todos baixam as cabeças e tiram as mãos do molho. seguem para as suas vidas com mais uma história para contar à hora do telejornal, - "nem imaginas o que vi, maria".

enquanto isso, os polícias atiram com o homem para uma carrinha fechada e vão de sirenes ligadas e a alta velocidade para uma esquadra que não é a mais próxima. quando ele diz que as algemas o magoam ou que está a ficar mal disposto com a condução "de emergência", chamam-no menina.

largam-no numa cela, diante do cartaz que enumera os direitos do recluso. ele pede um, poder ligar ao advogado. não deixam, agora esperas, ó menina. já estás de bitola baixa, é? agora já não te safas, ó menina. ficam ali perto, em azafamada reunião, de volta de papéis. o homem apercebe-se que os senhores realizaram [só] agora que afinal o homem não infringiu mesmo regra de trânsito nenhuma. não vão pedir desculpa, têm é de desculpar o facto de ele estar agora ali, encarcerado. portanto, estão a tentar dar a volta aos depoimentos que têm de redigir.

só depois de assinar o papel é que o deixam telefonar. não lê, assina, ó menina. o homem ainda se consegue aperceber que suprimiram a parte da suposta infracção, e que ele pediu a identificação dos guardas. mas assina, para poder telefonar, para ouvir um "não assines nada". demasiado tarde.

depois ainda é transportado para um sítio que não lhe dizem bem o que é. só sabe que vai falar com um juiz. no dia seguinte. passa, portanto, a noite numa cela, à espera. a ouvir uivar um drogado em ressaca. no dia seguinte, consegue saber, por um guarda de outro turno, que a "marcha de emergência", as sirenes, as algemas, não é costumeiro. depois de ser "ouvido" - o papel está assinado, não é -, é libertado com termo de identidade e residência. aguarda julgamento, acusado de desrespeito à autoridade e resistência à ordem de prisão. tem os pulsos marcados e os olhos enevoam-se, algures entre a fúria, a vergonha e a impotência, quando conta tudo isto.

o homem é meu irmão.

sexta-feira, 22 de junho de 2007

um remendo

a cada passo descai-te uma linha, os alinhavos parecem desfazer-se em pequenos vazios soprados sem som. os barulhos confundem-se e penetram nos poros do tecido, rimbombando-te esgares mudos nos botões do casaco. as cores empalideceram aos teus olhos de contas porque, já se sabe, a água salgada debota. os remendos que te enrolam o coração esgaçaram e pulsam com a trepidação do andar.

apetece-te parar. agarrar nos farrapinhos e formar uma simples bolinha de linhas. não o faças, bonequinha. ainda és a mais bonita explosão de colorido. ainda tenho muitos carrinhos de linha. ainda as tuas formas deliciam o ar.

não te encolhas. é mais difícil realinhavar-te se não te esticares. os sons não saem, os remendos emaranham-se. por isso abre as mãos. não te esqueças de abrir as mãos.

quinta-feira, 21 de junho de 2007

urgências do patrão

- ó polegar, estou aqui numa angústia. vai aí na internet a esse sítio onde passas a vida a falar com milhões de pessoas e pergunta se alguém sabe a origem do bitoque.

terça-feira, 19 de junho de 2007

lógica da bat.I.A.ta

ou o dia em que perdi toda a fé no meu discernimento...


clicar na imagem para aumentar.

quinta-feira, 14 de junho de 2007

quando o inverno chegar

São Luiz Teatro Municipal
7 a 30 de Junho às 21h; Domingo dia 24 de Junho às 17:30 (sessão com interpretação em língua gestual portuguesa)
Encenação: Marco Martins
Texto: José Luís Peixoto
Interpretação: Beatriz Batarda, Dinarte Branco, Gonçalo Waddington, Nuno Lopes
Telefone: 21 325 7640

O mundo fechado de um sanatório para problemas respiratórios no virar do século XIX é o espaço da vida suspensa de 3 homens. O mundo ali não vive, “a vida é lá em baixo, na planície”. Mas será que querem realmente viver? As rotinas já estão instituídas, os dias estão demarcados em coreografias compassadas, confortáveis, onde a esperança e a mudança são apenas palavras distantes. Uma estranha cumplicidade entre os três, alicerçada em relações de liderança insondáveis, coordena-lhes os passos vagueantes por entre a floresta que circunda a instituição. Até que encontram uma espécie de “Alice”. Figura feminina, ingénua e frágil em pleno precipício emocional, numa absurda procura de algo que não se sabe bem se será. Parece que caiu do lado errado de um espelho estilhaçado, onde o ar da montanha lhe tolheu – também a ela – a vontade. Esta figura meio tonta pode abalar os passos rotineiros, as improbabilidades, a estrutura das relações destes homens e dar um sabor agridoce - nem sempre conveniente - aos seus passeios pelos bosques. Porque pode fazer cair as máscaras.

O bosque – outro protagonista – é frondoso e musicado. Uma estrutura imponente, um labirinto de árvores, o chão coberto de galhos e folhas que crepitam com o andar e uma luz bucólica inserem-nos no mais improvável cenário. Para mim, lindíssimo.

O elenco masculino, confesso, foi o meu canto da sereia. E não me desiludiu. Nuno Lopes, Gonçalo Waddington e Dinarte Branco numa perfeita esgrima de palavras e sentimentos, roçando os bonecos sem nunca serem marionetas sem vida. Num equilíbrio precário mas perfeitamente dominado, Gonçalo Waddington é de uma força intensa mas não imposta; Nuno Lopes é um ex-boémio cândido e matreiro; Dinarte o doce zé-ninguém subestimado. Mas, repito-me, não são bonecos. Nunca deixamos de sentir que são mais do que aparentam, têm muito mais a revelar-nos. E é neles que suspendemos a respiração, é neles que viajamos na sua demência.

Não posso falar bem de Beatriz Batarda, lamento. Se plasticamente me deliciou a sua “Alice” – Lena –, não me mostrou nada para além de um boneco vazio de intenções. Monocórdica, com uma entoação demasiado “agudinha” e falsa [especialmente a comparar com os seus colegas], movimentos lentos e marcados como se de um boneco – de – corda – sem – corda se tratasse, e um registo de voz que não lhe permite fazer mais do que o mesmo, ela não me transmite a menina-mulher frágil, algo tonta mas tortuosa. Resume-se a uma “coisa” básica, oca e bacoca, de que[m] tenho dificuldade de ter pena. Pode-se ser burrinha mas muito querida. Mas para se ser querida, temos de o sentir. Não senti nada vindo daqueles lados. Excepto uma vaga irritação. No único momento em que a emoção tomou conta dela, a voz caiu e a “personagem” desfez-se. Depois recuperou-as – à voz e à “personagem” – e perdeu de novo a emoção, que tão bem nos daria murros no estômago – e me poria a chorar copiosamente – se ela deixasse que lhe ocupasse o corpo e as cordas vocais. Uma pena.

O texto, não sendo brilhante, tem momentos de diálogos absolutamente deliciosos, roçando o irreal – surreal – absurdamente – Becketiano. Aí somos levados pelo riso e pela suspensão da realidade. As histórias das personagens são interessantes e a forma como se entrelaçam também. Mas o enredo é um compasso de espera demasiado grande. Encerra certas “revelações” finais que tomam o tom de novela mexicana, completamente desnecessárias. O texto tem momentos mágicos misturados com outros mastigados e repetitivos, provavelmente desvantagens de se lidar com o “autor vivo” – a eterna hesitação do corte.
A encenação é, quanto a mim, o ponto mais fraco deste espectáculo. Talvez demasiado cinematográfica – no mau sentido, no sentido do tempo arrastado. Muitos tempos mortos, muitas transições lentas, uma orquestra e uma cantora lírica – no meio da palha - que não me enchem as medidas porque me parecem desnecessários e, ouso dizer, quase elitistas. Movimentações demasiado rígidas, a tal repetição e mastigação de texto e um porquê tão grande de se estar com a cadeira marcada no rabo se isto tinha tudo para correr tão bem... E, se houve direcção de actores, como é possível fazer as opções que criam um tão grande hiato entre os três personagens masculinos e a estranha boneca vazia que é a mulher? Pretende-se, este contraste? Lamento, a meu ver não resulta. Esvaziando uma personagem de sentidos, fazendo-a papaguear um texto que não vive, como se pode acreditar que emociona e altera as vidas de outros, que têm tanto conteúdo, que vivem a cada gesto?

Um reparo acerca do público: estavam mais tísicos que os tuberculosos em cena.

Gostei. Mas saí de lá com um gosto amargo na boca.
Suspiro.
Repetiria, sim, num absurdo instinto algo masoquista, só para pedir de novo àquele trio que me leve para o bosque e me ensine a fazer magia com palavras.

segunda-feira, 11 de junho de 2007

road hogs

há vários espíritos para pegar numa mota. não falo hoje de quem tem uma para andar a fazer slalom entre os carros a uma velocidade estonteante, capazes de fazer corar qualquer "mercedeiro". também não falo de quem faz 300 metros por dia [casa - trabalho - trabalho - casa] só para dizer que tem uma vespa. nem dos senhores que se passeiam nos seus aspiradores de escapes rotos sem outro objectivo na vida que não pôr-nos a todos surdos.

falo hoje da simples e arrebatada paixão pela mota. uma paixão que se comprova pela via sacra que é, de facto, fazer longos percursos num veículo de duas rodas. quem anda nestes bichos tem prazeres que facilmente nos escapam quando vamos no casulo metálico. os cheiros, as cores, as paisagens, o próprio ângulo de visão, as texturas do vento são coisas de cuja intensidade não temos bem noção nos carros, mesmo com as janelas escancaradas.
no entanto, quando falei em via sacra, quero mesmo dizer que andar de mota em percursos longos é uma tortura, na maior parte das vezes totalmente incompreendida. são pequenos detalhes que normalmente passam despercebidos e para os quais peço a vossa atenção da próxima vez que andarem por aí.

os motards geralmente vestem-se com roupa quente e rija. abafam-se em capacetes, luvas e sapatos fechados, mesmo no verão. porquê? não só pela vã tentativa de evitar danos maiores numa colisão, nem pelo vento que arrefece e soca o corpo, mas também... lembram-se, da última vez que foram passear, dos bichinhos e pedras cravados no vidro? imaginem o que custa quando eles se auto-tatuam num corpo desprotegido. daí o "suar para não esburacar".

os motards não levam bagagem, levam um par de cuecas, uma bucha e a escova de dentes. excepto naquelas motonas de estrada que são autênticas casas com poltrona, cómoda, rádio e que tiram bicas e assim, claro. por isso, já temos aqui a explicação das barbas compridas e os lenços na cabeça.

se repararem, nas estações de serviço há sempre uns quantos. em todas. passo a explicar: não é fisicamente possível aguentar mais de 100 km seguidos numa mota [excepto nas tais poltronas com rodas, mas isso é batota]. uma viagem de 3 horas pode demorar 5. numa mota não se muda de posição, aguenta-se. numa mota não se pode pôr os pés no tablier. quer dizer, até pode, mas morremos. numa mota, qualquer remendo na estrada entra pelo cóccix e só pára no capacete. e neste país os motards pagam portagens para serem constantemente... estimulados. numa mota, em dia de ventania, se se quiser mexer a cabeça pode-se ter a certeza de que o pescoço será partido em 5 sítios diferentes. hão-de reparar que quando eles saem de cima das motas, parece que congelaram na posição sentada. não é para mostrarem que têm um pesado equipamento genital ou rabinhos torneados, é porque não se conseguem mexer.

e depois há os outros. a eterna falta de [in]formação de quem conduz os carros e não se lembra que uma mota é um veículo como outro qualquer e tem direito ao seu espaço na faixa de rodagem. não. se uma mota não anda aos ziguezagues entre os carros, se por acaso o seu condutor quer ir a uma velocidade de cruzeiro dentro da lei e manter-se calmamente na sua faixa, é certo e sabido que haverão razias dos popós, porque querem continuar a andar a 220 km/h e vem aí um gajo atrás que dá 250. é o "sai da frente, ó minorca. chega para lá que tu cabes na berma". deixem que vos explique uma coisa: já se vai a lutar contra a natural velocidade e o vento que vem ora de um lado, ora de outro, ora de frente, ora de trás, a tentar manter o estupor do bicho de duas rodas direito e o pescoço e os ombros num sofrimento sofrível. uma razia de um carro não dá muito jeito. porque causa mais deslocação de ar. e a mota abana por todos os lados. na pior das hipóteses, uma pessoa até tem de se desviar de repente. isso desequilibra. muito. e entre o "minorca" e o alcatrão há apenas ar. por isso, se não pelo código da estrada ou por civismo, por piedade, mantenham-se à distância de segurança.

da próxima vez que forem passear, descubram os pequenos pormenores. reparem que eles se cumprimentam, independentemente das marcas e valores comerciais das viaturas. é uma seita secreta... que sabe o prazer da estrada e a dor de usufruí-la. respeite-se, há malucos para tudo.

quando virem o próximo típico gordo barbudo, reparem no ar satisfeito que leva, apesar de a máquina ir apenas a 100 à hora e estar coberto de roupa em dia pleno de sol. agora já sabem o segredo. o sorriso é um esgar. está a implorar secretamente que venha uma pedra a voar directa à rótula para se esquecer, por momentos, da dor nos quartos traseiros.

terça-feira, 5 de junho de 2007

para um amigo

já uma vez te dediquei meia dúzia de palavras. hoje é mais um motivo para seres feliz. e eu contigo.
começarás a saborear um novo léxico secreto. novas sensações que só o impacto na onda de gente te podem oferecer. aquela energia estranha que eles sem saber emanam, como uma teia doce onde te sentes cair, impactar, onde os sentes reagir sem um movimento. sei que, pelo menos para mim, é das coisas mais fortes que se podem sentir numa vida. e que nos podem mudar de formas misteriosas. que te fazem acreditar em seres de outros mundos porque começas a vê-los materializar-se à tua frente. não tenhas medo. dá-lhes a mão.

transforma-te. diverte-te. vive as palavras. totalmente. nunca menos.

e, já agora, leva-me contigo nessa algibeira transparente, para matar as saudades de os ver daí ;)

sexta-feira, 1 de junho de 2007

nota mental

fase de dúvidas e a facilidade de sempre em pôr-me em causa por causa dos outros. outros que não o merecem, mas isso nunca vem ao caso da minha auto-estima.
espiral decrescente, teia labiríntica que desagua na hipótese de fechar de vez a porta que o meu livre-arbítrio abriu e de cuja soleira, no fundo, nunca passei. aí impediram-me o raciocínio antes que eu sangrasse de vez as veias do sonho. felizmente existes. se não fosses tu, não seria mais ninguém. porque estás presente. e assim, como me pediste, fica para a posteridade. acima de tudo, para eu não me voltar a perder. venha o que vier.

sou actriz. dou voz a desenhos animados e documentários. até já ganhei 600 euros em 10 minutos. o resto são migalhas, possíveis porque eu tenho capacidade intelectual para mais do que um ofício dentro das palavras e da comunicação.

no meio do caos há sempre uma constante. e se tudo o que faço está em causa, lembraste-me que não me esqueça do que sou.


sempre com a[hu]mor . espanta-espíritos

mais outra

1995-1997. uma menor é abusada por um vizinho. mas não gritou. arquive-se. aqui.

um dia explique-se ao senhor juiz [sugiro que com um pau grosso enrolado em arame farpado] a capacidade que muita gente descobre de simplesmente alhear-se do mundo e desaparecer do corpo enquanto ele é usado.

feliz dia da criança

quinta-feira, 31 de maio de 2007

raiva

há em mim dias de raiva em que sinto tanto e tão forte que fico assim com o peito como que entupido. de tal forma que não consigo dizer nada. assisto impávida. a banda a passar por mim mas a música não me chega.
a dor escava-me em silêncio. a invisibilidade não é um super-poder.
nestes momentos, entre um cigarro e outro, entre a vontade de desabar ou de partir tudo à minha volta, de berrar a plenos pulmões o que está por dizer ou simplesmente desaparecer, fico apenas assim, quieta, cara fechada, sentidos fechados.

com medo que algo me toque e eu desafine.

"amanhã não vais ter outro encanto"

terça-feira, 29 de maio de 2007

do STJ

vamos lá ver se percebi. um homem tentou manter contactos sexuais com 4 rapazes. com outro, só chegou à conversa do "fazia-te e acontecia-te". conseguir, conseguir, foi com um miúdo de 13 anos, lá para o lado das Beiras.
foi apanhado, preso e julgado. condenado a essa eternidade que são 7 anos e meio de prisão. ora tanto recorreu da sentença que o nosso mui nobre Supremo Tribunal de Justiça resolveu atenuar-lhe a pena.
porque era uma criança de 13 anos e, vá, já é capaz de ter erecções.
porque tinha 13 anos e não 3 ou 4, e violar uns e outros não é beeeem violar assim tal e qual. vá, é abusar. assim da confiança. com mais ou menos roupa, isso não interessa. não lhe bateu, não é?
porque o senhor, coitadinho, já sofreu o suficiente com a estigmatização de violador de crianças e papão e essas coisas feias e que marcam uma pessoa, porque não é agradável quando falam mal de nós, e portanto, vá,vamos deixar o senhor ir dois anos e meio mais cedo para casa, para o pé de outros meninos de 13 anos que, vá, até têm corpinho de 14 portanto não se queixem.

diria alguém mais distraído: uma criança de 13 anos é uma criança. não? eu era. aos 13 anos era uma criança. vejam lá que até nem tinha maminhas. será que isso pesa na decisão do Supremo? se já tem maminhas ou pelos nas pernas?

por esta ordem de ideias, uma mulher que seja violada, vamos a ver... se é capaz de aguentar a depilação com cera é porque tem corpinho para aguentar uma violaçãozita. nem violação é, porque uma mulher é isso mesmo, já está desenvolvida, e até é capaz de ter orgasmos. se fizer um esforcito, até é capaz de gostar.

é a estes senhores que recorremos quando já tudo falhou. a última esperança para que se reponha justiça. mas só se formos violadores.

"um juiz não tem de ser asséptico", diziam hoje no jornal. pois não. a criancinha é que convém que esteja bem lavadinha, para uso pessoal do senhor juiz.
porque ninguém me tira da cabeça que um painel de excelsos senhores que decide que um violador é menos violador consoante a capacidade para erecções de uma criança [será que testaram o menino?, só para ter a certeza?] tem os seus próprios meninos no armário.
deve fazer muito calor debaixo daquelas togas.

não espero que compreendam as minhas razões muito pessoais para achar que no que toca a violadores era acabar com eles na hora. dentro da nossa realidade jurídica, limito-me a achar que as penas são demasiado leves. mas há quem lute para as tornar ainda mais irrisórias.

como li algures... pode-se dizer foda-se num blog? já disse. foda-se!

dark motives

desde que esta empresa produziu a última peça que há muita gente a enviar currículos, a oferecer os seus serviços, a, vá, pedir trabalho.
a menina aqui, encarregue do e-mail geral, é que os recebe a todos. e como sabe o que custa não ter resposta, vai respondendo aquelas coisas nem-carne-nem-peixe: de momento não estamos à procura mas se surgir essa necessidade eporaífora...

bem, o que eu queria mesmo dizer era "pela tua saúde mental e financeira, pela tua capacidade intelectual, pela tua auto-estima, pela necessidade básica de comer que todos temos, agarra-te aos neurónios e foge! que nunca ninguém venha a saber que querias trabalhar aqui." mas não dá jeito...

ora... hoje recebo um mail de um actor. como sempre, vou espreitar o cv, ver se o conheço. o que descubro acerca das habilitações e percurso desta pessoa leva-me a responder o seguinte:

"se viermos a necessitar de actores pessoas na sua área, o seu currículo será tido em conta."

eu sei, sou uma menina má. mas já estou tão cansada...

segunda-feira, 28 de maio de 2007

para bom encenador...

há uns dias o patrão-produtor deu-me para ler um texto e dizer-lhe o que achava. eu li e disse, o mais polidamente que consegui, que aquilo, pronto, vá, não tinha muita acção e que não estava bem a ver como poderia encenar-se um mono-diálogo muito mortiço em que se conta em vez de se fazer...
mas isto sou eu, não é? como a opinião não era grande coisa e o autor é amigo do patrão, deixou de interessar.

portanto vá de dar o texto ao especialista: o patrão encenador.
ele às tantas pergunta-me:
- tu leste isto?
- li. o Porthos pediu-me para lhe dar uma opinião.
- e o que é que lhe disseste?
- o que é que achas?
gargalhada

entra o Porthos
- então, o que é que achaste do texto?
- olha, só vejo uma maneira de encenar isto. divides o palco em dois. de um dos lados pões os gajos a falar. do outro metes mulheres nuas.

sexta-feira, 25 de maio de 2007

pipocas?!

esta noite fui ao cinema. ver um filme que não interessa ao caso. nem interessa de maneira nenhuma. adiante.
chego cedo, estão a começar os anúncios. subo quase até lá acima para encontrar uma fila vazia. quando a percorro para me sentar o mais ao centro possível, reparo que está uma senhora na fila de cima com os pés descalços - em alvas peúgas - assentes nas costas da cadeira. ignoro-a e sento-me. ela fica ofendida por lhe ter abanado o encosto para os pés e muda de lugar mais o seu querido.
acomodo-me e fico à espera do filme.
o filme começa e quando ainda estamos a decorar o nome das personagens, vejo um senhor sozinho a subir pela coxia à procura de lugar. achou que na minha fila é que se estava bem, sentou-se a uma cadeira de mim. trazia um gelado, que ia comendo sem fazer grande barulho. o filme tinha partes com graça, e ele lá se ria e dizia baixinho "ai, ele agora esteve bem" e batia na perna. mas dizia baixinho e eu tudo bem. lá para o meio do filme, aquilo engonha um bocado e começam os silêncios. penso que agora ou se dá um bom twist ou um twist à típico filme americano - que era o caso - e entre o som das minhas cogitações e das vozes dos actores, surge um outro som peculiar. de chupar qualquer coisa. com muita saliva e pequenos estalinhos. penso "mas o velho ainda estará a chuchar o pau do gelado...?!". ignoro. não ignoraria se estivesse a alguém falar com alguém, a falar ao telemóvel depois de o deixar tocar alarvemente, a comer de boca aberta, ou aos pontapés à minha cadeira - coisas corriqueiras com que embirro mas que não estavam a acontecer, nesta noite em particular, à minha volta.
o que estava a acontecer era a subida de volume dos "chups chups" do senhor. até que olho para o lado. no preciso momento em que ele está a tirar a cremalheira de dentro da boca e a passeá-la pelo ar. rebolei-me toda ali [em silêncio], mas ele não deve ter reparado que reparei e continuou a meter e a tirar o estupor da placa da boca. tossiquei. ele lá meteu aquilo para dentro, mas continuou com uns discretos "chups chups" filme afora. até chegar à penúltima cena e sair, antes de acabar o filme.

o mundo está de pernas para o ar, de peúgas brancas, a tirar próteses dentárias da boca.
as pessoas queixam-se... das pipocas?!

quinta-feira, 24 de maio de 2007

olha! olha!


[ph.t. | espanta-espíritos]

vai uma pessoa, cansada de um dia de trabalho e uma dose de dobragens nocturnas, ao supermercado... sendo essa pessoa alguém que não sai muito, aproveita-se sempre para dar uma voltinha a ver se se encontram pechinchas. eis senão quando - oh surpresa! -, na zona dos brinquedos, se dá de caras com uma pilha de caixinhas coloridas, qual instalação, com uma pista e, no centro um televisor que passa imagens [demasiado] familiares.
estão a vender - e passo a citar - "os carros dos teus personagens de tv favoritos!!" [assim, com muito ponto de exclamação]. ora claro que uma pessoa desata aos saltos no meio do corredor, a soltar exclamações em japonês e falar numa linguagem técnica que só o seu interlocutor percebe.
"sukéé*! o saber! ah, e ali está o spin axe! mas espera, não têm o beat magnum? epá, e não vendem os motores de torque em separado? será que têm o G.P.Chip e carroçaria ZMC? mas olha ali o sonic!"

isto ser doença no Japão, com adultos vestidos de personagens de desenhos animados com calções brancos e fitas na testa ainda vá. agora encontrar este mundinho ali no Carrefour de Loures...

conclusão: vai a pessoa ao corredor do pão com um sorriso [literalmente] de leste a oeste e uma das tais caixinhas devotamente apertada contra o peito, observada por quem passa com a estranheza habitual de quem pensa "mas não é suposto ser o gajo da relação a gostar de carrinhos...?"
não, senhores... porque EU é que sou o Gou! e EU é que tenho um Cyclone Magnum! tá bem?

ora foi ir para casa, comer a correr e vai de montar o carro nas suas ínfimas pecinhas muito à japonês, arranjar umas pilhas, colar os autocolantes [muito traquejo dos tempos da Barbie] e zás! corridas no hall de entrada! com uma almofadinha à frente dos pés porque o sacana do carro anda na bisga... e voltaram a ouvir-se, noite dentro, expressões de um mundo altamente secreto:
- Sá! Lédi..... Go!
- Iké Mágnum!
- Sukéééé!
- Nani?
- Páua busta!
- Ike gueguessu!
- Dji pi chip... **

antes de se arrumar o novo brinquedo na estante, como um diz mata e o outro diz esfola, vai de chamar a gata com bons modos, esperar que ela se sente com ar de parva no meio do hall de entrada e soltar-lhe o magnum... aquilo é que foi vê-la fazer exercício para um mês... eheheh...

*fonética do japonês para "fixe"
** japonês para: "Então! ready, go!, "força Magnum!", "Fixe!", "o quê?", "power booster", "força!", e "G.P. Chip"

segunda-feira, 21 de maio de 2007

"se fosse...

uma cidade, seria..." era como começava um "exercício" que costumávamos fazer num certo bar com cheiro a palco, noites fora. veio ter comigo sob a forma de desafio da pinky. tarde mas não falham, aqui estão as respostas.

hora do dia | um início de noite em dia de verão [que sabe a longo, morno e pleno]
astro | lua
direcção | onde o dedo calhar no mapa
móvel | algum móvel bem disposto desenhado por mim :)
líquido | água para mergulhar e vinho tinto para vaguear
pecado | todos e cada um, em pequenas doses de insanidade. sou uma pessoa, não um sacrossanto tupperware.
pedra | uma pedra do fundo do rio, polida e encontrada pelo acaso
árvore | o pomar todo, com perfume de limões e maçãs. e com um plátano da minha infância.
fruta | morango. com chocolate quente... [se calhar é melhor começar a repensar aquilo dos pecados eheh]
flor | papoila para a melancolia, girassol para as gargalhadas
clima | morno e temperado. que dê para andar de vestido.
instrumento musical | nunca conseguiria optar entre piano, guitarra, sax ou bateria
elemento | diz que é o fogo, diz que sim
cor | azul intenso, o da parede do meu quarto
animal | cavalo
som | o riso. para o bem e para o mal.
música | já alguma vez disse que a minha vida é um enorme e eclético musical?
estilo musical | talvez o jazz, talvez swing, talvez...
sentimento | paixão
livro | disseram-me [há muitos anos] que seria um do Rui Zink. agora ando mais Rodrigo Guedes de Carvalho. depende das tais luas.
comida | massonga! mas com direito a sobremesa.
lugar | onde quer que esteja aquele abraço... mas vá: um certo e determinado quarto de hotel numa certa e determinada água furtada de certa e determinada cidade onde se fala francês...
gosto | doce!
cheiro | a pele, depois de fazer amor. a palco, quando posso lá viver
palavra | te-a-tro
verbo | viver
objecto | podia dizer o meu anel mas... seria o meu estojinho de aguarelas
peça de roupa | com um simples vestido preto... :)
parte do corpo | olhos. e boca. os dois em mim funcionam como um só
expressão facial | sorriso. tem de ser
desenho animado | aieeee... só um? pronto, processa-me, pinky, mas eu tenho uma secreta tara pelo mau feitio e pela sensualidade obscura e saltitante da fada sininho ;)
um filme | qualquer coisa simples, de argumento rico e grandes actores, com um toque obrigatório de sotaque e humor britânico
forma | de S
número | já fui o 23. agora não sei. eu sou mais de letras
estação | do ano? primavera . de partir ou ficar? uma de comboio no meio do nada.
frase | "nobody expects the spanish inquisition"

era suposto passar a outras pessoas. mas fica aqui para quem quiser vir "pescar", com a condição de que me avisam para eu ir cuscar.

sexta-feira, 18 de maio de 2007

pelo amor da santa

domingo, 13 de maio... algures no subúrbio


se quiserem mesmo saber, é só clicar na imagem... boa sorte...


ps: peço desculpa pela pouca actualidade do post. as ideias chegam a tempo, o tempo é que não...

segunda-feira, 14 de maio de 2007

curta

patrão entra na sala, pergunta se eu tenho um adaptador para jacks.

respondo que não, que sou uma rapariga séria. e que os únicos cabos que havia estavam numa caixa em cima da mesa dele.

patrão sai, ouvindo-se ainda um "parece que não tenho cá nada..."

patrão entra passados uns segundos. dirige-se à mesa dele, de onde tira um cabo com cara de ter adaptadores de jacks.

sai a cantar a versão bissilábica do "Indiana Jones", como em tatarata-tataraaa.

eu quase que lhe vejo o chapéu a nascer dos caracóis, os suspensórios a transformarem-se num sexy casaco de cabedal suado e o cabo a transformar-se em chicote.

sexta-feira, 11 de maio de 2007

diva [gações]*








desenhos [ou, vá, esboços] de polegar

*ou... vontade de bater com a porta em grande estilo, tempo livre e uma caneta...

quarta-feira, 9 de maio de 2007

libelinhas


[foto extraordinária de espanta_espíritos | artwork polegar]


numa peça que nunca chegou a ser, eu era uma libelinha. e cantava.

libelinha ajeita as asas
põe as asas no ar
libelinha, alinha alinha
que o vento vai passar

terça-feira, 8 de maio de 2007

a náusea

imaginemos, vá lá, um esforcinho, que o mundo está podre e queremos falar disso. passar o aviso. para o tornar explícito e apelativo, os recursos são variados: um microfone, palavras, música, dança, imagens.
simples.


agora o que é que pode correr mal? hum...
fazer-se poemas de intervenção com frases tão geniais como “porra! é porreiro!” [sic] e declamá-los aos berros, sem sentido de tempo ou decibeis. enquanto dois senhores fardados de pintores-das-obras-simbolizando-o-cataclismo, com uma máscara como convém, tocam – cada um para o seu lado e sem qualquer objectivo melódico ou harmónico – percussão e violoncelo. emoldurados por uma tela que vai passando imagens de uma moça de peruca loira desgrenhada a lamber a montra de um talho, onde repousa a cabeça de um porco [porco esse que deve estar a rebolar na tumba. ou no estômago de alguém.] mas estamos a afastar-nos do tema. falta a piéce de résistance e com essa é bom que tenhamos cuidado. largue-se duas gaiatas de calças largas e wife beaters a rebolar-se à beira do palco, a atirar-se ao chão, contra as paredes e uma contra a outra. fazendo o público arredar-se cautelosamente do pretendido “diálogo de convergência artística” para “reflexão poética e crítica” [duplo sic], não vá um desses “temas pertinentes do quotidiano” [sic] cair-lhe em cima ou vazar-lhe uma vista. seria talvez uma demasiado dura “projecção do sonho sobre a realidade” [sic]. porque o público deve “absorver de olhos vidrados” [sic], mas à devida distância do altar intelectual e moral de onde emana a sacrossanta sabedoria quase divina – não fosse um dos messias chamar-se Jota Cê. e no que toca ao Jota Cê, há que ter respeitinho.


pergunte-se agora porque é que quando se fala de artistas, 80% dos tugas torce o apêndice nasal ou opina que artista é o Quim Barreiros.

porque essa gente – o público – é inculto. é uma cambada de pobrezinhos de espírito, a quem a poesia declamada não diz grande coisa, que não compreendem dança moderna e que tem umas noções muito vagas do que será música e de como parece uma imagem. e que, perante uma tão explícita explicação [passo a redundância] da podridão do mundo, não percebe, não percebe. a angústia.

bem, queriam fazer o público pensar, não era?... conseguiram. não estariam era, por certo, a querer forçosamente que este público partilhasse da visão deles. pelo menos no que toca a metodologias para a eficiência da comunicação pela arte.

suspiro... nestas alturas chego a compreender os Gervásios.

este texto não é pura ficção e inspira-se numa... errr... hum... performance que a Associação Cultural [dêem-me dois segundinhos para me rir à maluca] Conflito Estético levou a palco no MusicBox no passado sábado, num momento único e epifânico da minha vida, enquanto [desesp]esperava pelo concerto de Norton, que, graças a tão elaborada preparação e apresentação, atrasou em, vá lá, uma hora e meia. e eu sóbria.
resta dar os louros a quem os merece [qual povo madeirense tem o Alberto João que merece]: esta é a segunda performance desta associação e têm-nas levado [às performances] em digressão pelo país. é uma ideia original dos "mentores" [sic] poetas e declamadores Sara Évora Ferreira e J.C. Jerónimo.

sábado, 5 de maio de 2007

bem-me-queres



confessar baixinho o soluço. é difícil perder-me do que me aperta. respirar. azul. o diálogo é um tesouro desprendido. mesmo que se fale em silêncio.
por vezes articula-se melhor com a pele da ponta dos dedos, o arredondamento dos olhos, o restolhar das pestanas.


[ph.t. | espanta-espíritos]

redoma. uma cama que amansa, cobre, envolve e torna transparente - sem possessivo.
o vento dos movimentos entorpece a vontade, sussurra que não vás. e espera-se.



pôr-me em perspectiva. estou. estás. estamos. ali. aqui. raiz. onde?

cheira a lume. já é noite. é. hoje a música é o silêncio.

dancemos.

abraça-me.

segunda-feira, 30 de abril de 2007

feliz[es] aniversário[s]



este ano não há páginas enrugadas de um mapa, mochilas pesadas prevenidas penduradas, não há línguas estranhas, banhos de saberes, de gentes diferentes, de espíritos surpreendentes, ruas perdidas onde nos encontramos e ponderamos como seria. não há tea cosies nem vin chaud, não há east enders nem patisseries nem a parada das princesas. por isso te peço desculpa.

no entanto, há a fuga. sempre a fuga, para a frente, onde fica o caminho, onde fica o regresso. há a estrada, sempre a estrada, que desembrulhas de vento e de prados que vais conhecendo de cor, no trilho das mãos que já não se separam. há regressos e silêncios pejados dos sons e dos cheiros que não te comprimem o espírito. há os dias que passam lentos mas não doem ao roçar-nos. haja paz.

quinta-feira, 26 de abril de 2007

fechos e cadeados

cerrou-se outro pano, hoje, sem haver pano para me fazer desaparecer. não há cortina nas pedras, apenas passos que desaparecem ao fundo da escada em caracol. depois dos últimos aplausos, a sensação de vazio que por enquanto consegue ser racionalizada. juntar as cartolas e coelhos dentro de um saco de feira, empilhar escadas que são barcos e fechar a porta com a chave de ferro.
devagar, em passos mansos e decididos chegará o resto, o aperto dormente da repetição de dias sem grande sentido para uma alma que não se consegue encaixar na mala de viagem que a vida lhe preparou. de há algumas vidas para cá, em cada vazio com que me deparo, sempre me salga o rosto a dúvida. se dependerá ou não de mim fechar a cadeado estas páginas de felicidade, de peixe na água. se não me estarei a desperdiçar em esperanças, procuras e esperas vagas. se não estarei a arrastar mais dolorosamente do que o necessário a inevitável presença de um futuro que num compasso cada vez mais decidido parece que me rodeia os atalhos em círculos cada vez mais apertados. a cada passo, um tropeção. a cada muro, um buraquinho para o outro lado.
não sei.

antes de fecharmos as portas da torre, ainda houve espaço para uma música. surgiu do nada. banda sonora de encantamentos antigos, que na altura eram banhados de certeza de que nada acaba já ali. era a música do fim de uma peça. e para cada fim havia um regresso no dia a seguir. e foi sempre canção de embalar de feridas que se foram lambendo a ritmo lento. de esperas com a certeza de um ponto de resolução. de revolução. foi esta a tua teoria. fiquei assim, naquela incerteza de sempre. e era eu que acreditava em sinais. será que eles querem mesmo dizer que esta é my place?


assaltam-me as palavras. as mesmas palavras. how long must [we] wait for it?

terça-feira, 24 de abril de 2007

diz que estimula o neurónio, diz que sim



fui galardoada com o chamado prémio do estímulo do neurónio. houve um gajo qualquer que se lembrou disso - uma espécie de "olhós meus favoritos" -, e que acrescentou, com grande visão, um logótipo para a coisa. depois foi passando em cadeia até chegar à blogolândia lusa. pois que assim abordou os ecrãs de dois imberbes [este e este] que, de forma totalmente imparcial [cof cof], me nomearam a mim como uma blogueira que, obviamente, pela sua mui espectacular escrita, verborreia mental, vivências originais, cáustica ironia, acutilante informação cultural, assiduidade admirável e apontamentos de ficção em prosa poética da mai' fina, estimula-os a pensar na vidinha... provavelmente na vidinha mais simples, culta, bonita e mentalmente sã que teriam se não me tivessem conhecido, coitados...

ditam as regras deste... errr... passatempo virtual, digamos, que agora nomeie eu [a mui venerável e laureada autora] cinco, e só cinco, "belogues*" que estimulam os meus queridos Tico e Teco [à vez, que eles fazem turnos].

ora vejamos, assim de repente e sem desprimor para os meus queridos favoritos, aqui ao lado elencados [sempre quis usar esta expressão! eya!] como "sopros", eis os autores [e não belogues] que me excitam a massa cinzenta:

o espanta-espíritos por atira-te ao chão e levanta-te, pela forma como me faz rir e por me fazer pensar literalmente na minha vida, porque também é ela que está ali retratada, e por espanta os espíritos, porque é do meu namorido, e eu penso muito nele eheh
o joão, porque ali tenho uma alma prima-gémea que conta coisas que nos são tão comuns que dói
a colher de chá, porque, ela sim, escreve lindamente e vive na mesma galáxia que eu [a das fadas, dos pós do palco e mariquices assim]
mpr, porque é o chamado aprendiz desta minha nobre e depenada arte e eu gozo que nem uma perdida com a sua surpresa ao dar os "primeiros passos", porque escreve crítica de cinema e me ajuda a ponderar qual o filme que vou ver a seguir... e discutir com ele os gostos, ai os gostos eheh
o nuno west, porque é sempre uma delícia conhecer o mundo pelas palavras dele.

*expressão do joão supra-citado

sexta-feira, 20 de abril de 2007

assim seja

agora paraste de respirar. agora evadiste-te das paredes já desgastadas do teu peito. arrastou-se o tempo e agora parou. ela, que nunca te abandonou nem quando a mataste de cansaço, estará lá à tua espera. e, para onde vais, andar não custa. respirar não custa.
as dores, as marcas, as horas, ficam.
agora não importa. que descanses em paz, avô.

terça-feira, 17 de abril de 2007

terapia do impulso



estou cansada. farta, de olheiras pesadas e tornozelo torcido. dias de passos impassíveis ao desespero pedem medidas drásticas de vontade de largar tudo o que obrigue a pensar. uma paragem para encontrar o branco e logo impera o impulso do vermelho. seja assim, sempre, em dança improvisada de apetecimentos. entornam-se os jorros de sangues e vestidos, tangos e coca-cola, o brilho e o cheiro e começar por onde não manda a regra porque é premente ver os muros mudar. e porque sim desenha-se infâncias e verdades na parede por pintar, porque sim, se ficar marcado é só mais uma história para contar. depois é a língua de fora no compasso certo da trincha, porque o risco tem de ficar perfeito, porque assim não se pensa no que não interessa à alegria. essa vive aqui. de corpo pesado, no crepitar de gotas de tinta no jornal, nas solas dos pés a colarem ao chão, no suave roçagar dos pincéis, na companhia infinita de duas almas cansadas e sorridentes que a traços largos esboçam as cores do "para sempre".

segunda-feira, 16 de abril de 2007

corte e costura

falava-se de certas pessoas para cuja presença começo a ter muito pouca paciência. aliás, no sítio onde desperdiço a maior parte do meu dia, a paciência já desistiu há muito... ficou-se-me o instinto de sobrevivência... até ver.

corte - é a parvalhona da (não se pode mencionar o nome), q só sabe falar da gorda da XXX como se fosse a maior actriz que já pisou a terra

costura - lol e um dia pode vir a ser

corte - ah, sim. no dia em que APRENDER A REPRESENTAR!

costura - porquê?

corte - oh, pelo amor da santa. só tem duas velocidades: rápido e rapidíssimo. só tem duas entoações: jocosa e bruta como as casas. só tem duas expressões: olhos semi-cerrados e olhos fechados. é uma pessoa dual, portanto eheh

costura - pera lá... mas estamos a falar de ela ser a melhor ou a maior actriz do mundo... ? é que tinhas dito a maior... :P

café cheio bem quente

seguia pela rua como qualquer outra pessoa, nem mais gorda nem mais magra, nem mais feia nem mais bonita. quase me acompanhava os passos. quando começou a falar:
- é que ninguém faz nada. são uns assassinos. eles são uns assassinos e matam tudo e não deixam ninguém. matam as mães com os filhos lá dentro, e a mim também.
não consegui evitar um esgar surpreendido.
- pois, agora olhas para mim, pensas que eu não vi, não? mas os assassinos andam aí. eu sei, eu sei e toda a gente sabe.
entrei directa no café, alheando-me da ladainha. mas ela veio atrás de mim. parou ao balcão logo à entrada e não esperou que a atendessem.
- é um café cheio bem quente.

quarta-feira, 11 de abril de 2007

os milagres acontecem

a contagem decrescente é a parte angustiante de quem não tem vida certa e jogos de anca a fazer com o destino. nunca se sabe que cartada ele puxa a seguir. neste momento já sinto escorrer pelos dedos os últimos grãos de areia deste pequeno castelo de migalhas que me foi concedido para não me esquecer de quem sou. faltam meia dúzia de espectáculos. um punhado de ilusões e depois de volta ao fosso de onde me impeço, por vezes, de sair.
entre dúvidas - as de sempre - de continuar ou esquecer, e o que vai ser de mim depois, há momentos em que algo nos prega ao chão do presente com garras docemente violentas.
o medo de encontrar 230 miúdos era enorme. a garganta e a boa vontade, muitas vezes, não prendem a atenção de cem deles irrequietos.
a turba foi-se aproximando e quando pensávamos que o grupo estava completo, lá víamos atravessar os claustros mais uma manada. mas quando chegaram perto de nós, o silêncio. as gargalhadas. o respeito. a diversão. o olhá-los nos olhos e vê-los beber-nos. e nós. um "nós" como já não conhecia há muito. o improvisar em cenas que já estavam gastas, o tomar o tempo para respirar e reinventar. pregar sustos com olhares cúmplices. o parar no momento para nos divertirmos com o colega.
há muito que não sentia assim.

e saí dali com um nó na garganta, peito cheio, uma sensação de fé quase religiosa e uma frase a ecoar nos sentidos:
ah, então é por dias como este que eu faço o que faço.

terça-feira, 10 de abril de 2007

let's and go



janeiro de 2005: toda cheia de razões e valores profissionais, calhou em estrebuchar acerca do estado em que os textos dos desenhos animados chegavam ao estúdio. passava-se mais tempo a corrigi-los do que a gravar. e na pós-produção passavam mais tempo a tentar colmatar falhas do que a... pós-produzir.
propuseram-me que fizesse a revisão dos textos da bonecada seguinte.
aceitei. era dinheiro extra e, achava eu, coisa que não tomaria muito do meu [parco] tempo.
acabaram os ursos carinhosos, chegaram os let's and go.
durante a primeira série, entregava 4 episódios por semana, ao domingo. quando as tradutoras começaram a perceber que traduzir para desenhos animados é um bocadinho diferente de traduzir documentários e é para crianças, levava-me à volta de 4 horas do meu fim de semana.
na segunda série, tive de entregar 7 por semana. faseado em duas doses. mais duas noites para ir, realmente, gravar os ditos bonecos. durante alguns meses não tive vida. saía para casa para rever ou para o estúdio gravar. nunca me deitei antes da 1 da manhã [há que dizer que sou um rabo de sono].
no dia em que me apanhei com um amigo e a jantar e conversar ao sabor do improviso, parecia drogada de alegria. "desculpa lá, eu não saio muito" era a frase do momento.

os bonecos... bem, são engraçados em alguns apontamentos nonsense. muita corrida de carros, muita corda vocal escafiada com os "Força Magnum!" todos...

agora acabaram. estes. felizmente veio uma série nova para ajudar ao [também parco] orçamento familiar, com prazos menos loucos.
fica um suspiro de alívio. com um sabor agri-doce. já adulta, ainda consigo afeiçoar-me aos bonecos...

terça-feira, 3 de abril de 2007

pisar os calos

há gente que gosta de cuspir para o ar. pode ser que lhe caia na testa.
gosto de encarar este blog como uma esplanada ensolarada por onde passam ocasionalmente ou ritualmente umas quantas pessoas e se conversa sobre tudo. o mote, sendo este o meu espaço, são os temas que me rodeiam. gosto de argumentações acesas, pontos de vista diferentes. mas com tolerância e informação acima de tudo. não censuro comentários. esses tempos já passaram, nem nunca foram os meus tempos. felizmente. mas dá-me engulhos a atitude de certos comentadores que ocupam os seus tempos demasiado livres a saltitar de blog em blog à procura de luta. normalmente respondo e passo à frente. mas esta está arrematada. e a partir de agora peço desculpa pelo meu francês.

adenda - como o senhor disse que era anónimo, eu chamo-lhe o que entendo.

Gervásio, pá: andaste a correr as capelinhas todas, a espetar umas farpinhas, qual toureiro garboso, defensor de uma curiosa causa com slogan à laia Playstation 3. a tua falta de tomates [vês, também digo palavrões e tudo!] para te identificares é fantástica e coaduna-se com a personagem que criaste. tens de limar umas arestas, ainda. é que está muito repetitiva. "mais um blog de um pseudo-actor frustrado" e pouco mais. não tem sumo, sabes? aliás, se somos pseudo-actores é porque no teu léxico existem uns a sério. quem são? a Floribella? tu?

atiras em todas as direcções. escreva-se sobre trabalho, amizade, putas [olha, outro palavrão, Gervásio!] ou azulejos de cozinha, se é de actor, não presta.

essas pessoinhas horrorosas que não fazem nada o dia todo, andam nos copos e de vez em quando saltam para cima de um palco e dizem umas coisas. sanguessugas, é o que é. porque é que havemos de pagar para um actor fazer um papel numa peça? temos os cinemas. temos as consolas. temos a bola.

ficas a saber que ali entre os intelectuais que fazem espectáculos estranhos e que poucos percebem e os que andam aí pela fama, há uma enoooorme quantidade de gente que realmente tem talento, gosta do que faz e fá-lo [esta não é ordinarice, Gervásio] para o público. por vocação e não porque o papá mandou. e - pasme-se - há público para os ver. os estúpidos gostam, vê lá tu. não há mais público porque, além da falta de dinheiro para tudo - quanto mais para a cultura -, andam por aí uns Gervásios castrados [esta podes interpretar como quiseres, tá?], incultos, intolerantes, sem nenhuma noção do que se passa para lá do seu umbigo e obviamente [mal] acomodados na vidinha.

custa-me o facto de haver gente que não encara o trabalho de actor como um trabalho normal. não daqueles trabalhos das 9 às 5 com o computador, mas é um trabalho que custa e dói e cansa, como os outros todos. cada um com a sua função nesta vida. há quem não tenha jeito para advogado.

e um actor é assim como uma pessoa que também gosta de comer e pagar as contas.

mas custa-me, pronto, assim de fazer-me azia, quando me pedem convites ao desbarato, quando eu trabalhei, gastei gasolina, pele, músculo e neurónios e só vou receber uma percentagem de bilheteira [sim, Gervásio, há muito espectáculo não subsidiado. acreditas nesta merda? eles insistem mesmo sem chular o estado!].

não há trabalhos menores, desde varrer o lixo a C.E.O. de multinacional, a conselheiro do Ministério da Justiça [se bem que... hummm, falando em desperdício de impostos... bem, passa à frente].
mas eu encaro as pessoas menos informadas como simplesmente isso: alheadas de mundos que são realmente paralelos. é que o espectáculo aparece feito. a comidinha já está feita e quase mastigada, é só engolir. ninguém gosta de ir à cozinha ver o pessoal a prepará-la. é chato.
a essas pessoas aconselho uma temporada num workshop, ou a conviver com um grupo de teatro daqueles em que todos se desunham.

já tu dás-me vontade de rir. e de te bater, claro.

mas eu sou pequenina. metro e meio e uns trocos e pronto, tenho pouca força de braços.

então uso a cabeça.
por isso quero agradecer-te. num momento da minha vida em que vejo tudo posto em causa todos os dias, em que me vejo dormente e a mirrar por dentro, a questionar se devo continuar, vem um idiota mandar umas bocas e lá regressa a Polegar inflamada a defender com unhas e dentes aquilo em que acredita.

obrigadão, Gervásio, pá.

segunda-feira, 2 de abril de 2007

abrigo

deves estar a chegar. eu é que não dou pelos teus passos. a tua pele já não se faz avisar pelo aroma delicado que viajava antes de ti pelos corredores. eu sei, deves estar aí mesmo a aparecer. estou no sítio de sempre. a enrolar o tempo entre os dedos. a desenhar-lhe telhados. sempre gostei de telhados.

sexta-feira, 30 de março de 2007

I.A. iá, yeeehaaaa


cortesia espanta-espíritos

para quem não está enquadrado: o I.A. é o instituto das artes. são os senhores que dão os subsídios, vulgo dinheirinho, aqui aos pobres dos artistas. para a droga e assim.

uma vez por ano [excepto aquela vez do "ah e tal, esqueci-me"] abrem concursos para o pessoal mandar um projecto para uma peça. se eles gostarem do projecto, dão dinheirinho. se não, lá têm as suas razões. mesmo que se ameace com tribunal, o IA não se engana.

apesar de os apoios irem parar quase sempre aos mesmos [se bem que com outros nomes, e para isso vai uma menção honrosa, nem todos conseguem inventar tanto nome seguido], os senhores estão a tentar acompanhar os tempos. e por isso foram evoluindo.

dantes entregavam-se 5 calhamaços com todos os quês, comos, porquês, currículos, objectivos, articulação dos objectivos com os objectivos do I.A., metodologia dos objectivos, unhas encravadas do objectivos e... iada iada iada. resumindo, uns bons 10 kg de papel.

depois resolveram que queriam em cd. giro, dá jeito. mas na mesma acompanhado das 5 cópias em papel...

no ano passado, ah pois é, acharam que umas companhias ficavam em desvantagem porque não dominavam a arte do design gráfico e tal, e portantos pois que criaram uns formulários de formato fechado. não há cá privilégios, não há cá fotografias, não há desenhos, capas bonitas, esquemas de cenário nem mariquices dessas, que a gente das artes tem de se dar ao respeito e ser todos iguais, assim prá esquerda benetton. até porque já se sabe que a gente das artes é assim suja e feia e desgrenhada e veste-se toda de igual. vai tudo despejado para dentro daqueles campos, letra em corpo 9, times, e... e pronto. e não se armem em espertos a remeter o pessoal para os anexos, porque chumbamos o projecto.

este ano, entraram na era informática. agora é tudo virtual, digital. insere-se o projecto nos diversos campos, no site dos senhores. lindo, não é? pois. não. é que os campos devem ser de pasto. não reconhecem acentos nem cedilhas, nem símbolos [fantástico, parece mesmo que estamos no estrangeiro], o site crasha quando estamos a carregar os dados e simplesmente passa tardes inteiras inactivo.
os senhores do I.A.? iá, tá-se bem. não atendem telefones. extensões ocupadas. dá jeito, porque senão a turba reclamava e pedia um prolongamento do prazo...

aqui fica uma sentida homenagem a todos os que estão neste momento a queimar as pestanas. ou simplesmente a tentar entregar os seus projectos.
r.i.p. r.i.p. hurra...

post scriptum: muahahahah... vão mesmo prolongar os prazos, visto que o site está crashado desde as 3 da tarde de ontem...

quinta-feira, 29 de março de 2007

the fallen

momento de pressão extrema, com formulários electrónicos demoníacos, currículos idiotas, protagonistas idiotas, textos idiotas, um projecto incoerente inventado em cima do joelho, os responsáveis pelos mesmos a quilómetros [e continentes] de distância, conversão de textos de reivindicação política pseudo-esquerdina do género "vocês são uns vendidos e eu quero mais é que vão levar no rego" em polidas declarações de "ó por favor dê-me lá o dinheirinho que eu quero fazer uma pecinha freak".
o corpo com demasiados meses de serões de revisões de texto, traduções e dobragens em cima, já suplica piedade e eu tenho de suplicar-lhe que não ceda... já.
nesse momento, cai uma das poucas coisas que ainda me incluía. que ainda me dava gozo.
talvez em Outubro. a recibos verdes, sem segurança social, a receber o recebo, talvez já não esteja cá em Outubro. [essa era a maior ironia.]

mas o concurso, não te esqueças do concurso.
argh... you could have it so much better...

puxo o volume aos Franciscos Fernandos enfiados quase até perfurarem os tímpanos e simulo uma bateria transparente. porque não posso usar uma bateria aérea...
e suspiro por um serão de wine in the afternoon.

terça-feira, 27 de março de 2007

retalhos

lençóis de muitos metros. pés descalços na madeira. cantar enquanto se cose. cantar enquanto se espera. cantar enquanto se transporta. espalhar cartazes de madrugada. o carro cheio de cola. a carrinha cheia de cenário. olhos que já vêem mal, mas querem ver o fundo do túnel. frio, pés descalços e pedras seculares. o calor das luzes e de roupa pesada. acupunctura no cenário. respiração, diafragma, postura, projecção. raízes. tecido. charros e bolos. digressão, viagem, estrada, carrinha, pés. abraços de vocalizos que fazem cócegas na alma. um galão para o jantar. esquecer o texto. beijar o desconhecido. cabelos loiros. cabelos curtos. cabelos longos. cabelos pretos. rímel. pó de arroz. baton no espelho. mãos dadas na penumbra. choro, riso. cheiro de tinta, serradura, livros, roupas e mofo. perucas. máscaras. desenhos de figurinos. discussões. black-out e ovação. entra a música. cd riscado. cortes de papel. oriemirp. moça, inês, norma jean, marilyn, preguiça, lara, mulher, ela, ana, rita, castro, margarida, brízida. tu, eu, nós, quem? teia. bambolina. projector. filtro. voz. desgaste. gosto. sublinhado. prazer. intenção, interjeição, precisão, sudação, sensação, emoção. borboletas na barriga. seres secretos do pó do palco. magia. perda. dor. saudade. a-m-o-r. esquecimento. a alma carregada de gente. as mãos cheias de coisa nenhuma. acreditas em fadas? bate palmas, depressa.



hoje é o dia do teatro.

segunda-feira, 26 de março de 2007

a-m-i-g-o

amigo escreve-se com todas as letras. engloba todos os nomes. de cada vida. têm bandas sonoras, também.

e, muito simplesmente, "amigo" às vezes soletra-se assim:

[...] lembro-me de ter começado por te ameaçar de tareia... nada demais, apenas um "queres levar?" querido e disse ainda que não te daria palmadinhas nas costas porque, como tenho uma força desmedida, podia magoar-te. Escrevi também que o que podia fazer era agarrar-te por trás (aqui não há qualquer espécie de conotação erótica meus queridos... "um charuto às vezes é só um charuto" e não sei mais o quê que o Freud disse... muito importante e lálálá) e assim agarrados começava a fazer vocalizos e tu rias-te muito e passava-te tudo. [...]

my very own mr. bojangles

segunda-feira, 19 de março de 2007

riscos

não me fales em ir mais devagar, agora que finalmente as luzes se desfazem em riscos esboçados nos vidros, nos teus cabelos, nos teus olhos assustados. não percebes nada, não vês. assim sim, o mundo escorre-nos pela frente e pelos lados e não temos de o ver. não como ele é, não assim. não me digas que é perigoso, que olha o carro ali, que faz pisca, que vamos morrer. não sentes? o estremecimento do motor como se fosse o teu corpo enrolado ao meu em noites violentas que já não voltam. sim, vai-se a cidade pelo vidro, pelo cano abaixo. num único risco rasgado deixamos de ver os fragmentos, os pedaços, os pormenores, a descrição aberrante das construções, dos viadutos, do urbanismo falhado de sociedade. vão-se, são riscos como podiam ser rabiscos. mas nunca perfeitos, nunca certos, nunca lisos e discretos. são raios raivosos. dilaceram-se e multiplicam-se a cada ressalto. assim destroçamos, diluímos, e não está lá o palco da tua vaidade, da minha indiferença. ficam apenas longas pernas de neon, tão compridas que não lhes vemos as saias. não abrando, não, não quero, porque senão já consigo ouvir os outros. os carros, os velhos a escarrarem, a velhas com os cães e os sacos das compras, os drogados das moedinhas e os senhores dos fatos ao telemóvel e as mulheres das lacas e das malinhas de mão. não quero ouvir nada e vou colar o pé ao fundo até deixar de sequer ouvir a tua voz a pedir-me por favor, pára, ao menos mata-te a ti e deixa-me sair. até as tuas lágrimas já fazem esse risco perfeito de imperfeito pelo rosto, misturam-se negras nas tuas orelhas. és bonita, assim, aqui fechada, minha, de vento a riscar-te a cara enquanto gritas.

terça-feira, 13 de março de 2007

maus fígados

mas será que nesta vida não me vou cruzar profissionalmente nem uma vez com alguém com poder decisivo que dê valor a quem está a dar o litro? a quem está sempre lá?
será que vou ter de deixar isto tudo para trás de uma vez e desistir de acreditar que alguém um dia vai apostar nas minhas verdadeiras capacidades de trabalho?
será que vou ter de dar razão aos meus pais... e a desilusão maior de, afinal, todas as desilusões que estão para trás, a minha carolice, o "my fucking way", não valeram a pena?
será que tanta vontade, tantas noites sem dormir, tantas pontas remendadas... não servem para absolutamente nada?

ai, vida, que ando com o rabo virado para a lua...
espero que não se avizinhe de novo a depressão, porque agora não tenho mesmo tempo nem paciência para isso...

segunda-feira, 12 de março de 2007

não

não se chega assim e se vira tudo do avesso.
não se faz assim. não é decente. não depois de tudo, de toda a ajuda e dedicação.
as pessoas não são lenços de papel por que imploram só até conseguirem tirar a cocaína das bordas do nariz. nem pastilhas dessas que derretem na boca para ver a realidade a cores.
não se avisa, não se conversa, corta-se assim, de repente, porque numa noite de bebedeira assim se decide para agradar ao novo melhor-amigo-por-meia-hora?
e os outros?
não se pode contar com ninguém para nada. para nada. como é que num momento há gestos tão dignos que até abrem um sorriso nos lábios e noutro colapsam o chão só por humores e agradinhos?
são horas a mais, já. dissabores a mais. e mais uma gota que daqui a nada entorna o copo. um dia, quando menos esperarem. porque nas costas dos outros vejo as minhas.
posso não guardar rancores, dar segundas oportunidades feita parva. mas não esqueço.

sabem que mais? bardamerda.

sábado, 3 de março de 2007

braços caídos

é apenas uma hora, se formos a ver bem as coisas. apenas uma hora de cada vez. duas horas, nos dias em que são duas doses. duas doses de espectáculo para, provavelmente, o mais estranho dos públicos: adolescentes. hormonas aos saltos, buços, bigodes, pelos públicos, massas adiposas e borbulhas a florescer. meninos ricos, putos de bairro, patos-bravos. do norte, do sul, do interior, do litoral. com professores que fazem ainda menos ideia do comportamento a ter durante um espectáculo do que os alunos. professores sem qualquer rédea sobre os putos. meninos bem-postos de farda, de risos tímidos atrás das gravatas. putos de calças descaídas que fazem rap enquanto cantamos. miúdos de aldeia que não percebem a noção de "está a acontecer um espectáculo, não se pode fazer perguntas aos actores se eles estão em cena". miúdos atentos que murmuram o nosso texto de uma forma assustadoramente metódica. silêncios contidos que explodem em gargalhadas e em aplausos. outros que não se guardam e extravasam demolidoramente, devorando-nos as cordas vocais. só reconhecem gente da televisão, só comparam este e aquele com os morangos. aqueles cintos brilhantes, as roupas femininas demasiado curtas justas, mascam pastilhas de boca aberta, alguns não se coíbem de mandar bocas e chamar nomes a quem está ali a trabalhar para eles.

os piores de todos foram, sem dúvida, na quinta-feira. não havia ninguém que os calasse. não havia maneira de os fazer acalmar. nem falar baixo a ver se tentavam ouvir, nem falar por cima das vozes que se levantavam. não havia garganta que o conseguisse. a peça era unicamente um campo de batalha, em que em tempo real eram comentadas as atitudes dos personagens em voz alta, em que se metiam com os actores. até preservativos voaram. não pararam de gritar enquanto a Brísida não aceitou um papel de uma discoteca.
o corpo colapsou a caminho da torre, a cabeça zunia, a roupa enrolada nos braços. a partir daí, a vida passava-me pelos olhos como quem vê um filme em câmara lenta. já não daria mais uma para a caixa até dormir. e só a distância desse facto me pesava ainda mais nas pálpebras.

saio. pernas trôpegas, a tentar receber um bocadinho de sol na cara e pensar positivo no caminho de regresso ao escritório. à porta do Mosteiro, reparo numa galhofa. uma série de miúdos a rir desalmadamente e o que parecia ser um professor divertidíssimo a tirar fotografias. sigo o ângulo da lente e os olhares sorridentes. à porta da igreja, estão sempre um ou dois pedintes. naquele momento estava um. penso que era o velhote sem pernas. não tive tempo para reparar. porque sentado ao lado dele, um miúdo bem vestido com cerca de 10 anos estendia a mão em concha aos turistas e ria-se para o professor e para os coleguinhas, mandando olhares envergonhados e divertidos ao velhote, para ver se estava a imitá-lo bem. não sei se o homem tentava ignorar a dolorosa atitude da criança - porque é uma criança, coitadinha -, ou se estava de facto demasiado concentrado nos turistas que passavam a quem implorava uma moeda com o gesto silencioso do braço estendido com um copo da MacDonalds.

fiquei parada, incrédula. a minha fé nas crianças desvaneceu-se toda ali. e pela primeira vez, não fui capaz de fazer nada. fiquei ali, a olhar de braços caídos para o miúdo, e logo a seguir virei-me para o professor a tentar perceber se realmente ele estava divertido a fotografar o que eu achava que ele estava a fotografar tão divertido. fiquei ali, a fitá-lo, a assistir à mudança conveniente no seu rosto, enquanto baixava a máquina de forma atabalhoada e transformava como podia o sorriso num mal disfarçado esgar de reprovação. não consegui fazer nada, não consegui dizer nada.

eu, a "toda-poderosa" que está sempre a cuspir postas de pescada sobre os "could've would've should've" deste mundo. o tipo de pessoa que não tem noção do tamanho e só se apercebe dos riscos que correu depois de a frase-tiro já estar a pairar sobre as cabeças de quem estiver num raio de cem metros.

mais tarde pensei no que me apeteceu dizer ao miúdo. apeteceu-me fazê-lo ver no mendigo a mãezinha dele. sem pernas, com fome, a pedir ajuda. sei que seria capaz de o pôr a chorar em minutos. tenho essa capacidade argumentativa e de "psicologia, e esse sangue frio. mas mais que tudo apeteceu-me partir a boca ao professor com o capacete que tinha pendurado no braço. não sem antes fazê-lo passar uma gradecíssima vergonha, em forma de escandaleira que eu calmamente teria, numa situação normal, provocado.

mas não fui capaz de fazer nada. passava o filme em câmara lenta nos meus olhos, as gargalhadas distorciam-se nos meus ouvidos e eu só olhava.

só me ocorria: o que é que pode correr tão mal?

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2007

em cadeia

eya! já não me mandavam uma destas há que tempos... obrigada, raio de sol :)

sete coisas que faço bem:
(não entrando nas poucas-vergonhas)
1. bolos e massas
2. conduzir (sim, sou gaja mas conduzo bem :P)
3. conversar/ouvir
4. dormir horas a fio
5. rir feita parva
6. estrebuchar e logo a seguir passar-me
7. representar

sete coisas que não posso/não sei fazer:
1. aturar gente demasiado umbilical
2. dizer não (esta já vinha de origem e aplica-se, especialmente no acto de deixar de ser parva e esquecer o teatro)
3. controlar a minha bocarra
4. escolher o jantar
5. não transformar dinheiro em prendas e mimos, se recebo algum extra
6. resistir a sapatos ou a casacos (certa e determinada pessoa diz que devia aderir aos casacos-e-sapatos-anónimos: "olá, sou a polegar e não namoro um casaco há 3 horas")
7. estrebuchar no trânsito com o mais suburbano português

sete coisas que digo:
1. raisparta (também tu?!)
2. eya!
3. yellow (a atender o telefone ou no msn - coisa pegajosa do espanta)
4. assim em bom...
5. pelo amor da santa!
6. poucas-vergonhas
7. e eu tudo bem! (em agudo)

sete coisas que me atraem no sexo oposto:
1. um sorriso franco e bonito
2. vontade de partir à aventura
3. pescoço e linha dos ombros viris
4. pele às pintas ;)
5. sinceridade
6. inteligência e vontade de não morrer estúpido
7. muito sentido de humor e tendência para a parvoíce

sete pessoas para serem celebridades:
1. eu... desculpem a falta de chá, mas estou farta de falsas modéstias e trabalho deitado à rua
2. o espanta, que também já convinha ser lançado no estrelato como grande fotógrafo que é
3. o Jota, o melhor actor que conheço e o mundo ainda desconhece
4. a colher de chá, outra grande actriz
5. o Guinho, também actor
6. o MPR - ainda por confirmar, mas cheira-me...
7. assim de repente... a minha "mai nova", que tão piquenita já escreve tão bem...
8. o meu pai. devia [citando e bem a minha irmã] ser consultado para quaisquer decisões políticas deste país. e é tão charmoso... ;))

sete pessoas a quem quero passar esta brincadeira:
1. espanta-espíritos
2. MPR
3. colher de chá
4. pinky
5. mary mary
6. LFM
7. wicahpi
e mais quem lhe apetecer roubar... é só avisar para eu ir lá cuscar :)