quarta-feira, 4 de junho de 2008

de uma assentada

vou ali rever, dirigir, dobrar e ensaiar.
volto já.

ps: doem-me as costas, caramba.

terça-feira, 27 de maio de 2008

banlieue*

há coisas tão boas que se sentem com o sabor do pecado.

sabe a pecado perceber que nos visualizamos a viver ali ou ali. sem dificuldade, acreditamos que simplesmente podíamos ir ficando, por um enquanto indefinido. derrete-se a língua nova na boca, sabe-se que se vira à esquerda e o rio é já ali, que é tão fácil criar raízes entre bancas de roupa vintage. as rotinas são coisas que nascem espontaneamente, o café preferido e o sítio onde comprar a baguette, o restaurante japonês barato, o mercado de rua e o supermercado do leite bom. de repente já são nossos, dados adquiridos como saber que descendo aqui a rua vai dar à tasca onde o vizinho dispensa um pão ao domingo à noite.
gosto de não precisar de um carro para nada. gosto de poder ir a pé ou de bicicleta, do é já ali sem cansaço, gosto de ter transportes para todo o lado, de o passe ser barato e dar para tudo a toda a hora, de a comida ser barata, de os jardins serem para todos e de haver muitos jardins, de se poder pisar a relva, de haver arte no meio da rua, de ver artesanato a torto a direito, e de poder comprar um comprimido para as dores de cabeça ou para as alergias às 11 da noite já na esquina.

o pecado é a rapidez com que tudo se nos entranha. é o nariz no ar a ver que até dava para trabalhar ali ou acolá. fazer as contas e pensar... se tantos conseguem...
é pecado, sim, pensar seriamente que se calhar perdia-se era o amor ao dinheiro já gasto no bilhete de regresso e pairava-se por ali, a duas horas e vinte dos dois pólos dos nossos novos mundos que os passos já conhecem de cor.

é um planisfério pessoal que se desenha a sorrisos. a única dor é nos pés, de 5 quilómetros diários feitos meio de passeio, meio de descoberta.

segue-se a ressaca do regresso, há sempre que pagar a factura do querer.
atenua-se com algum trabalho e o aconchego de ter a certeza - tão absoluta - de que se estou contigo estou bem.
onde quer que seja.

*subúrbio - em francês deriva de "lugar dos banidos". e as notícias mostram-me cada dia mais sentidos nesta palavra quando aplicada de uma forma geral a este pequeno rectângulo à beira-mar plantado...

domingo, 11 de maio de 2008

banho de cultura



vou ali tomar um banho de cultura e já volto...

:)

sexta-feira, 2 de maio de 2008

senhora directora

de um dia para o outro, a uma semana de desaparecer por uns tempos, vira-se-me a vida do avesso. quando pensava que tinha uma semana de descanso, para preparativos, entregas de IRS e dormir o dia todo... pam!
de novo os bonecos. e agora, a gerir os dois lados da barricada.

é no que dá um "padrinho" que tem uma fé cega no meu talento e me recomenda a torto e a direito, salvaguardando:"achas que dei o teu nome só porque és gira?"
e é no que dá um namorido que tem um poder, o tal do tão afamado secret. que quando digo que se calhar não passei no casting de voz porque estou enferrujada, me responde que até vou progredir na carreira. que me vai levar de uns lados para os outros "porque de mota é mais rápido", abdicando de merecidas horas de descanso até no próprio dia de anos. e que está ali à minha espera com um lanche de leite fresco e pão com tulicreme para me acalmar do dia inacreditável que foi este...

a minha vida é muito bonita. podia era ser menos intempestiva, bolas. pedir licença não custa...

mas é tão bonita... :)

segunda-feira, 28 de abril de 2008

wall [air] street

acompanhar as mudanças de preço dos vôos das low cost assemelha-se, em arritmias e mudanças de estratégia, a jogar na bolsa de valores...

quarta-feira, 23 de abril de 2008

o canto da rosa


foto de Martim Ramos, tratada por mim

bar do Teatro da Trindade
11 de Abril a 3 de Maio, sextas e sábados às 23h
* bar do Teatro da Malaposta . 16 e 17 maio às 23h.

criação e encenação colectivas
dramaturgia e direcção: Ana Sofia Paiva
com: Ana Sofia Paiva, Anabela Tomás, Cristina Andrade, Luciana Ribeiro
músicos: Tiago Morna e Rodrigo Augusto
produção: Kalpa Comunicação e Cultura
preço: 8€ [vários descontos disponíveis]

quem me conhece sabe que tenho por princípio, neste blog, fazer as minhas pseudo-críticas a espectáculos a que tenha assistido mas nos quais não trabalhe ninguém que eu conheça. maioritariamente para evitar ferir susceptibilidades [com a minha maldita mania de dizer o que realmente acho] e já agora para não parecer que só faço publicidade aos amiguinhos e mesquinhices parecidas.

no entanto, hoje faço excepção. uma grande amiga minha faz parte deste elenco.

entramos na casa de fados de D. Maria da Rosa, que nos vem receber à entrada. a gerente da casa dá por aberta a noite de fados enquanto a jovem Rosinha nos vai servindo os cafézinhos. é apresentada a grande vedeta da casa, Rosa Maria, acompanhada pelos seus músicos [um deles é o marido]. numa mesa de lado, atenta ao espectáculo, está a fadista - prata - da - casa - já - aposentada, uma boémia trocista sempre com o remate pronto [cujo nome não recordo, mas também é arraçado da rainha das flores].

ao longo de uma hora, somos simplesmente brindados com um espectáculo de fados enquanto assistimos a revelações da vida daquelas personagens, dignas de uma trama de novela de faca e alguidar, ilustradas passo a passo, claro está, com músicas a preceito. para nos compensar de uma noite tão constrangedora e atípica daquela casa de renome, ainda temos direito a uns copitos de vinho e chouriço assado no fim.

é um espectáculo canalha e castiço. é simples, ligeiro, disparatado e muito divertido. sem nunca ser brejeiro ou estupidificante. para quem já esteve em casas de fado e conhece o ambiente de bairro, reencontra ali as personagens típicas [ou tipo], obviamente com tiques e deixas bem condensados, como requer uma construção baseada em caricaturas. muito bem cantado, com interpretações algo desiguais, mas que se enquadram nos seus jeitos sem comprometer o espectáculo ou a verdade do que ali se faz. o destaque vai para [e agora vou mesmo parecer tendenciosa, bite me] Luciana Ribeiro, que tem uma garra, uma voz, uma parvoíce inata e uma capacidade de improviso fora do normal, e para Ana Sofia Paiva, que faz uma velha glória fabulosa em termos de corpo, voz e tempos de comédia.

aconselho vivamente a quem passe pelo Bairro Alto a caminho da noite, a ir aconchegar o estômago e a alma no bar do Trindade. a lotação é limitada, portanto reservem com alguma antecedência. e lembrem-se que, como muitos artistas da nossa praça, eles estão ali sem ordenados, à bilheteira e por amor à camisola, mas com todo o profissionalismo. não se acanhem.

terça-feira, 22 de abril de 2008

conjecturas de inspiração vagamente escatológica*

*que se transformou num romântico dueto de classe - ou dinâmica de um relacionamento condenado à partida a um abanamento de cabeça enquanto se rumina entredentes o[s] ditado[s] "só se estraga uma casa" e|ou "um diz mata, o outro diz esfola"

eu só disse mata:

há qualquer coisa de big brother nas engenhocas públicas demasiado modernas.
eu já brincava com os parques de estacionamento em que uma voz diz "bem vindo ao parque não sei do quê, insira o seu cartão. obrigado e boa viagem". dizia "a senhora deve sofrer muito, ali enfiada todo o dia". ou "diz-se obrigadA, ó estúpida".
mas pronto, passava. agora mais tétrico é nas casas de banho...
não sei. aquela coisa de uma pessoa fazer o xixizito [meio de pé para não contactar com nada daqueles cubículos] e ainda está a subir a calça já o autoclismo, por sua auto-recreação, faz a descarga, no "exacto momento preciso".
não sei.
fico sempre a pensar se o sensor não será uma aldrabice. se não haverá por ali uma câmara e se não estará alguém do lado de lá a observar os rabiosques ao léu, especificamente treinado para avaliar o ângulo de inclinação da pessoa para no momento certo puxar no autoclismo...


vai o outro e diz esfola:

soube de fonte próxima que não há câmara nenhuma pois isso aumentaria muito os custos de manutenção da casas de banho. há sim um pequeno corredor atrás das sanitas onde anda uma pessoa com um balde a espreitar pelo suposto "sensor", que fica um pouco acima da sanita, a despejar água por um funil no cano do suposto autoclismo.
como todos os trabalhadores de centro comercial e artes, este sujeito trabalha a recibos verdes, durante 12 horas por dia e aufere 500€ mensais brutos.

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Ella e um cigarro

a melancolia de um abril a cântaros a lamber o vidro. a precisão de um suave berbequim nas fontes adivinha que a rinite dos fenos terá rima. pobre, mas rima. aguardo com dois comprimidos e um carioca de limão a que está por vir. a anunciada pelo esforço de me fazer ouvir em claustros com ventanias e trocas de roupa em pele ainda assim suada. a anunciada, a que rima... não? não rima propriamente, mas há um qualquer arabesco de som que me avaria a percepção perfeccionista.
rinite... gripe.

sigamos
enquanto o vinil não se cura - mesmo assim - um crepitar... a música a raspar pela chuva adentro. um pequeno vazio ao canto. quase microscópio, o vazio. da poeira, o canto. encosto os pensamentos à parede e a língua solta-se menos literária.

não desfazendo.

tenho saudades de certas palavras. daquilo que sei que sei fazer. de fazer de conta a sério.

a sério?
tenho saudades subir por ali acima, ir por ali afora e

deixando-me de rodeios
dar valentes pontapés na genitália emocional de uma sala cheia.

pois, isso
how high the moon

domingo, 13 de abril de 2008

wc cheap&chic makeover

ora passámos disto



para isto



quem diz que uns pés-descalços do subúrbio não podem ter um Roy Lichtenstein na banheira?
com direito a um armário exclusivo para viagens sensoriais ao passado, recheado de pequenas antiguidades da higiene e cosmética por nós coleccionadas através de incursões a drogarias de bairro.

trabalho feito por uma equipa de dois, em 8 dias, por um terço do preço que custaria mandar fazer por "profissionais".

há por aí alguém que precise dos nossos serviços de consultoria? fazemos orçamentos grátes e vamos a casa...

terça-feira, 8 de abril de 2008

megalomania

após uma visita ao Ikea na passada semana, por ocasião das obras na casa de banho, concluem-se três coisas:

o meu namorido é o mestre do tetris
eu posso vir a ganhar a vida como contorcionista
o meu C1 é um camião, carago!

terça-feira, 1 de abril de 2008

extreme makeover - bathroom edition

é desta. vai daí, saídos dos lençóis para um café na tasca do lado, aproveitando a folga e a tarde solarenga, voltamos a casa com uma estranha vontade violenta.
tantas guerras, tantos baldes de tinta, tanta martelada no dedo, havia no entanto uma divisão que nos estava atravessada: a casa de banho.
desistimos dos grandes projectos, não encontrámos quem nos assentasse uma mão cheia de pastilha por um preço acessível. por isso terá de ser como tem sido até agora. a dois, inventando do ar, imaginando e rabiscando os meus cadernos cheios de raspas de lápis de cera, como as cores fortes da casa, recorrendo ao engenho e ao "gosto disso".
tudo medido de mãos dadas pelos azulejos acima, com risos e chaves de fendas a caírem nos pés descalços, decorreu hoje a cerimónia de início da remodelação da casa de banho.
com uma vontade e uma mestria saídas não sabemos bem de onde, encaixotámos pertences, arrancámos móveis e loiças e vedámos saídas de água em poucas horas.
e agora que já só temos a banheira e sanita a funcionar, já não podemos mesmo "ir fazendo"...

eheheh

quinta-feira, 27 de março de 2008

feliz dia, dia feliz


ph.t. de espanta-espíritos

a quem se enterra em dúvidas toda a vida, com a paixão como único guia. a quem vive de borboletas, tecidos e pós que se desvanecem nalguma curva do caminho. a quem renasce a cada luz que se acende. a quem se alimenta de dar. a quem tem apenas o corpo para dar. e nele recebe o suor de almas que não existem. mas acredita. a quem se rasga para caber mais qualquer coisa que não se vê, para que se veja.
e a quem acende as luzes, a quem carrega nos botões, costura, constrói, inventa, pinta, escreve, captura, estende o adereço e orienta os passos. a quem conta histórias. a quem faz sentir.
hoje é o nosso dia.
feliz dia mundial do teatro.

quarta-feira, 26 de março de 2008

ar

são os pontos de encontro da respiração. tudo está ligado, todos os lábios se beijam.
cruzámo-nos. tu viste-me, não te vi.
levantaste os olhos por momentos dos teus pés que acompanhas com devoção para não teres o mundo por perto, ombros descaídos sob o peso da mochila e da vida que escolheste. levantaste os olhos vagos, vagueantes, imensos, imersos, submersos, subterrâneos. triste momento despejado por ti abaixo, gelado. desenraizado. viste-me na minha distracção abstracta com as músicas enfiadas nos ouvidos, as letras nos olhos, o livro nos dedos hesitados, sem saber o que me leres na tal aura em que acreditas. e por ali ficaste, sem um gesto, sem uma inalação, à espera que essa suspensão me sugasse direito a ti. à espera que me vaporizasse em mil estilhaços que se te arrastassem pela cara, te cortassem as veias e a escultura do perfil, para ser culpa minha outra vez. nada. só os ecos. invadiram-te. mas não eram teus, eram só perspectivas distorcidas do espaço em volta, que te tocava e não querias que te tocasse. invadiram-te, assim, sem pena nenhuma, os passos e o cérebro, a carne a rasgar-se para jorrar no chão e nas paredes tudo o que guardaste e coseste a fio grosso com agulha ferrugenta. tudo o que crias suturado. tudo o que querias queimado. cheirou-te a carne queimada. e assim a tua divindade apodrecida, e assim os véus de chumbo, os ventos de dúvidas e a tua causa em causa. o ego tem sustentos frágeis, carcome a realidade, a carne da certeza, para se manter de pé. assim fechaste os olhos e assim o altar da tua veneração te inalou. a tua cara semicerrou-se num punho altivo e desengonçou-se na estranha dança que evocas quando te assombras. sempre te disse: nada pior que os teus fantasmas para te aninhares na solução dos medos. o medo de não seres como te constróis. conhecem-te demasiado bem para te dar conforto. conheces-te demasiado bem. já não te conheço. por isso nem te vi.
desapareci no fundo da escada, alheado dos espinhos que já não procuro.
nunca foste húmido ou hidratado. choras sem água, devagar, degustando o ritmo dos teus soluços. são pequenos sulcos ressequidos, intervalos de ar grave que te soam perfeitos, como tudo na tua tristeza.
não te vi. mas todas as peles se tocam, todas as almas se respiram.

segunda-feira, 24 de março de 2008

cinco

noites de olhos abertos porque o calor não está e eu com os pés frios não consigo dormir. não está ninguém?
acendo a luz de presença, o sol desgasta-se à entrada.
o refúgio são as cores. as velharias, os livros, os cartazes, a manta de polar.
música.
e o filme antigo que o amigo me deu como amêndoa para me adoçar os olhos.
deixo que se derreta nas horas, devagar.
sorrio. não me farto de esperar por ti.

domingo, 16 de março de 2008

desacordo ortográfico

a mulher olhava-me de esguelha. de cada vez que eu abria a boca, a minha visão periférica denunciava um movimento amarelo da cabeça da senhora na minha direcção. não sei se interessadíssima na veemência da minha posição, defendida em voz alta apesar de a rapariga que nos servia o chá ser brasileira, ou se incomodada por o meu discurso ser inflamado e pelo facto de eu esbracejar, estando certamente a distraí-la da apatia do seu próprio acompanhante.
só sei é que quando peguei no jornal que estava disponível para consulta no bar, procurava o suplemento de cultura para saber em que sala e horário encontrar um determinado filme. mas o dito suplemento estava a descansar na mesa da tal loira, aberto e negligenciado, enquanto ela folheava uma revista de decoração, e eu fiquei-me pelos cabeçalhos do Expresso. como não tenho conseguido acompanhar a actualidade, pude finalmente pôr-me a par das novidades acerca do tal acordo ortográfico. e portanto a culpa de a estar a distrair é totalmente dela...

lamento, não concordo. não consigo conceber que neste país se autorize que um fato seja um facto. não percebo como é que agora uma mulher sensualmente umedece os lábios [olha, o sublinhado do corrector ortográfico]. não concebo que o hífen vá dar uma curva nas palavras compostas em que o segundo elemento comece por "r" ou "s". e no "há-de" também... que as consoantes mudas desapareçam do mapa. pior, faz-me uma comichão desgraçada que palavras como crêem e vêem fiquem carecas, ou seja, sem o acento circunflexo. porque só de olhar para elas sem chapéu, ouço-me a dizê-las mal, qualquer coisas como vâiem... ou crâiem...

a justificação de que assim se unifica a aprendizagem da língua em todas as comunidades lusófonas não me satisfaz. a coisa dos 50 milhões e a globalização e mais não sei quê. não engulo. as raízes da língua e da sua música são privilégios de cada povo. cada comunidade tem as suas adaptações fonéticas e isso obviamente tem de se reflectir ortograficamente. não sou purista, acho que se devem abraçar neologismos, estrangeirismos... ainda hoje me custa escrever instintivamente "sítio de internet" ou "mesa digitalizadora", prefiro os velhinhos site e scanner... não entro na guerra do "o português nasceu em Portugal, por isso eles que se adaptem a nós". acho é que tudo tem de ter o seu espaço, o seu respeito, e não temos de nos vergar uns aos outros. até agora temo-nos entendido lindamente assim. tentando ser racional, olho para os números. mas ainda assim, a alteração de 1,4% das palavras do português de Portugal parece-me um assassinato. como percebo que assim o pareça a alguns brasileiros, na sua alteração de 0,45% das palavras. ui, provavelmente a expressão "português de Portugal" vai passar a ser politicamente incorrecta. porque denota diferenciação. e eu pergunto-me: porque é que temos de ser todos iguais? ser diferente, ser único, é assim tão mau?

ah, e se até agora encontrar livros técnicos em português de cá era complicado, temei caros tradutores! o desemprego vai adensar-se. porque se dantes só haviam traduções brasileiras e podíamos queixar-nos e esperar que abrissem os nichos de mercado, agora foi-se toda a réstia de esperança.

o meu brio e o meu esforço por escrever como deve ser passarão a ser ridículos. vence a geração educada com revistas da Mónica e do Cascão e que tinham as cruzes vermelhas nos testes de português por causa dos então chamados brasileirismos. só me vem à cabeça a imagem da minha querida Professora Fernanda e o seu apagador que nunca me cruzou as palmas das mãos nos ditados nem nas composições. se neste momento ainda exercesse, palpita-me que andaria de apagador em riste a tentar acertar em muitas cabecinhas pensadoras governativas deste país...

não sei, se calhar habituo-me, mas por enquanto é uma dor cá dentro... a língua é a minha ferramenta de trabalho, um dos meus veículos de expressão. e a comunicação é a minha vida. ler e escrever são as minhas viagens. gosto tanto de palavras, dos seus sons, das suas manhas, de compreender os seus arabescos, que pensar que terei de desaprender nem que seja 1,4% delas me dá um aperto na alma.

enfim...

lamento então informar os caros seguidores d'A palavra deste Blog, que provavelmente terei muitas dificuldades em adaptar-me a este novo sentido das coisas. que este estaminé, até 2014 pelo menos, passará a ter, pelos vistos, muitos erros de português...

quinta-feira, 13 de março de 2008

círculo

os claustros, as personagens antigas, as pedras que me quebram os passos.
e parecia que não tinha saído dali. como se ao descer as escadas com os figurinos se estivessem a apagar os últimos 6 meses.
é tudo cíclico, dizia-me eu a mim. saltei, fugi, corri, bati o pé, desviei-me, mas a espiral encontrou-me outra vez.
mas encontrou-me diferente. encontrou de mim apenas o que eu quis dar, nas minhas condições. sem teclas, sem dias de passos arrastados, de cinzas macilentas.
e pela primeira vez nestes anos todos, estou a trabalhar unicamente naquilo que sou.
será que consigo manter-me à superfície? logo se vê. agora? aproveito para respirar. logo se vê para quanto dá o fôlego.
borboletas na barriga. hoje vi papoilas. jogo à macaca, salto à corda, que linda falua, um dois três macaquinho do chinês.
avó, vou brincar para a rua.

segunda-feira, 10 de março de 2008

orgulhosicamente

há anos que não assistia ao Festival da Canção. o meu regresso foi de coração apertado, num espírito de missão. suportei estoicamente o rol de músicas óbvias e a roçar o pimba, aliviei-me na número 7 quando a "Canção Pop" do Nuno Markl interpretada pelo Ricardo Soler me fez bater palmas e dizer "ah, isto sim". e continuei em deprimidas, à espera de mãos cerradas, pela que seria a última da noite.
estavam lá três amigos meus, parceiros de cesta de frutas, numa versão non sense do que pode ser este evento. claro está que o espírito passou incompreendido, mas eu fiquei a noite toda a cantarolar.
parabéns. há anos que não sentia este cheiro de coragem e alegria. a contrariar o tal espírito luso das tristezas, o épico deprimido, o mar e o amor incompreendido.
até gastei os tais dos 60 cêntimos mais IVA... :)

sábado, 1 de março de 2008

bons vizinhos

não tenho razão de queixa. a cusca do lado, para além de povoar a escada com uma selva amazónica, não chateia mais do que ouvi-la a espreitar à porta de cada vez que abro a minha. no rés-do-chão, o homem-torre e a esposa de cabelo vermelho são caladinhos, têm um gato engraçado que já salvámos um par de vezes e só se vestem com fatos de treino ao fim de semana. o bêbedo do benfica só tem conversas um bocado longas e de bafo etilizado quando o encontramos na tasca, mas está fora no Brasil e tudo. os velhotes do segundo andar nem piam, e o outro velho esquisito só é massacrante nas conversas das teorias da conspiração nas reuniões de condomínio, uma vez por ano, ou quando teima que quando não consegue estacionar o carro dele na garagem não é por ser um azelha a quem devia ser retirada a carta de condução, mas porque o resto dos condóminos arrumam mal os carros deles. por fim, o Vasco está a administrar condomínio há 3 anos porque toda a gente se descarta e ele até faz um bom trabalho. razões de queixa do Vasco? só o facto de ter forrado a casa a tijoleira branca. de resto, é um porreiro pachola.
todos acham muita graça ao facto de terem um casal de artistas no prédio, a actriz e o fotógrafo, a quem por isso perdoam os horários fora do vulgar e o barulho da porta da garagem à hora do sono dos comuns mortais, as cantorias sobre legumes em tempos de ensaios e outras pequenas situações.
damo-nos todos bem, até se for preciso vamos bater à porta do lado a pedir emprestado um comando da garagem se o nosso parar de funcionar, pagamos cafés de vez em quando uns aos outros quando nos cruzamos na tasca, a coisa é pacífica, quase de pequena aldeia.
agora temos um novo vizinho, que veio ocupar a casa por baixo da nossa, sucessor da senhora que gritava com o marido a toda a hora e dizia coisas de um português que eu desconhecia. o vizinho é simpático, tem uma filhota (como quase todos neste prédio), apresentou-se na reunião de condomínio e disse logo que adora música.
gostei da sinceridade, até pisquei o olho porque tenho o mesmo problema.
agora deparo-me com uma "situação". o senhor é um querido, mas ouve kuduro e morangos do nordeste toda a santa tarde de sábado. num volume que nos faz pensar que se calhar isto é festa da junta de freguesia no largo do café... mas não, é já aqui por baixo...

aaaaii, é a dooooor, ai ai ai é a doooor, é a dooor :S

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

frases a reter

"está maluca"
"temos uma situação"
"se te deixares enganar, parece que os barcos estão no céu"
"vais entrar em palco no último dia, sim senhora"
"desculpa a confusão em que te meti quando te convenci a fazeres o casting"
"anima-te, dentro em pouco estaremos com os nossos amores"
"este teatro é mais bonito do que os olhos conseguem ver"
"tu, aqui!"
"sinto-me como se fosse domingo à noite e tivesse acabado o MacGuyver: não sei o que hei-de fazer agora"

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

a roda dos alimentos de pantanas

de repente, regressa a maldição do pé torcido. e eu, que já me tinha despedido das minhas personagens, que adivinhava uma estadia pacata, a contra-regrar e a sentar miúdos daqueles que ainda sobem escadas de gatas, tenho de voltar.
e encarar aquelas dificuldades que julgava engavetadas [por agora]
hoje estou ainda em choque. cansada, moída.
e os olhos cheios de sono que não se fecham para descansar. ao menos a cabeça limpa para relativizar. vou tentar dormir. quem sabe amanhã corra tudo pelo melhor.
e daqui p'rá frente...