quinta-feira, 16 de outubro de 2008

do que há-de vir

a caminho do trabalho, um taxista pára para deixar a mota passar. dois tiochos daqueles que costumam ser pedantes e nem olhar para o lado [desses que aparentam não ter problemas de créditos, euribores, nem de combustíveis a julgar pela assentadura] abrem as alas dos espelhos - eléctricos - também para nos deixar passar.
ao telefone, massajam-me o ego profissional. duas vezes.
e, já em casa, um senhor da cabo liga a oferecer um desconto na factura mais telefone grátis durante um ano.
o namorido põe-se a arrumar as gavetas.
e isto. que não sei se ria, se chore.

e tudo faz sentido quando uma senhora no intercomunicador do prédio me pergunta se eu acho que Deus vai resolver o problema do aquecimento global e da bacarrota da Islândia.

mais descansada.
afinal são só sinais do apocaliptro...

terça-feira, 14 de outubro de 2008

paracetamol

o corpo em descanso, pela primeira vez de dois meses de tensão, em vez de ficar agradecido, vinga-se da negligência com dores absurdas em sítios que pensava que não tinham terminações nervosas, a cabeça pesa mais do que o pescoço aguenta, os olhos querem saltar das órbitas e é toda uma moleza inominável que me prende impotente ao sofá. assisto às mudanças de luz na sala, que lambe as paredes devagarinho, destaca e esconde os títulos dos dvds, dos livros. e penso que devia ir aspirar o chão.
tinha coisas para fazer.
apetecia-me sair de mão dada, apanhar ar, comer travesseiros ou castanhas ou sushi, comprar um casaco, ler um livro de fio a pavio, acabar o quadro grande, e essas coisas que andei a adiar. apetecia-me convidar amigos para um café, um filme, qualquer coisa que me fizesse sentir acompanhada, descontraída, com vida pessoal outra vez.
tudo engolido por uma dolorosa apatia. quebrada apenas pelo ritual de, às 8 da manhã, dar um salto na cama a pensar que estou atrasada para os ensaios.

não te preocupes, diz a voz na minha cabeça, a partir de amanhã já tens peça outra vez...

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

contagem decrescente ou it's a jungle out there



um elefante com uma luxação, um impala com um torcicolo, uma tribette com os ombros inflamados, outra tribette a recuperar de uma pneumonia, uma elefanta bebé com quebras de tensão, uma criança-mona com alergias e um elefante-macaco substituto que tem dores só de vestir o fato.

a girafa mais pequena do mundo com os dedos dormentes.

faltam 3 dias...

domingo, 5 de outubro de 2008

malas aviadas



começa agora a contagem decrescente.
fazer as malas para viver 5 meses num teatro é muito parecido com a preparação de uma viagem de campismo. mas leva-se mais mariquices de gaja...

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

funny face ou havia muito a dizer acerca disto






You Scored as Audrey Hepburn

Audrey Hepburn

75%
Betty Page

69%
Mae West

69%
Betty Grable

63%
Jayne Mansfield

50%
Marilyn Monroe

44%

which 1950's pin-up girl are you?

terça-feira, 23 de setembro de 2008

seis horas



de suor a derreter no peito de asfixia de ácaros na garganta de cinzento de pó de pés em meia ponta de costas encaracoladas de pontadas nas mãos de deixas penduradas de dedos esvaziados de recusas de vontade de noites de tinto de incongruências de gripes de ânimo enfraquecido de ego que nem com muletas de ausências de desorientações de cadeiras partidas de cigarros a meio de fitas de amuos de idiotices de palermices de risos cansados de dias que já se esvaíram quando se sai para a rua sem os ter visto.

domingo, 14 de setembro de 2008

cabaret

teatro maria matos até 28 de Dezembro
Adriana Queiroz, Ana Cláudia Ribeiro, Ana Lúcia Palminha, Bernardo Gama, Carlos Gomes, David Ripado, Dima Pavlenko, Fernando Gomes, Henrique Feist, Isabel Ruth, Meredith Kitchen, Paula Fonseca, Pedro Laginha, Sandra Rosado e Sara Campina.
encenação de Diogo Infante
bilhetes entre 15 e 25€

já toda a gente sabe que a minha vida é um musical, que nasci na época errada e com um estranho pânico, vá, respeitinho encolhido por cantar em palco.
sendo este musical um off-La Féria, não me podia escapar.
aviso já que neste género quero ser bem servida, quero tudo - porque já vi o tudo - mas, mais do que esperar cantores exímios e dançarinos exemplares, vou à procura de representações poderosas que elevem as notas musicais ao tão estimado arrepio.

já se sabe que vamos entrar numa Alemanha quasi-nazi, num submundo boémio e nas relações e ralações dos vibrantes seres desse mundo e dos que o rodeiam. não querendo ser acusada de fornecer spoilers, fico-me por aqui.

em termos de ambiente, senti falta da sujidade, da confusão dos bastidores, do fumo de cigarros [mas é normal, o encenador deixou de fumar], da deliciosa decadência, do tal abraço que nos envolve, agarra e só cospe no final. houve algo de frio e quase asséptico nesta encenação que nunca me permitiu entrar realmente no tão afamado cabaret. só me salvou o corpo de baile e seu Emcee, cheio de energia e vontade de nos cravar as unhas.

a nível de cenário também tudo muito bidimensional, esperava que o espectáculo [me] entrasse pela plateia adentro. acima de tudo, depois de uma Dúvida pelo lápis de João Mendes Ribeiro, esperava uma surpresa. a sorte é que esperei sentada.

as músicas foram uma não-surpresa muito agradável. sim, Ruben Alves e a sua banda levaram-me para os tais outros tempos. a tradução das letras para o português justificava-se [um dos meus medos quando se mexe nestes clássicos] e na sua maioria tinham uma adaptação bastante fiel, se bem que não se apiedavam dos cantores em termos de métrica e espaço para respirar. no entanto - eu sei, há sempre um destes - algumas das letras pareceram-me estranhamente mal traduzidas e adaptadas, como se tivessem resolvido introduzir mais músicas no espectáculo à última hora.

a encenação teve alguns apontamentos de humor quase non-sense que não esperava de um senhor tão bem comportadinho como Diogo Infante. destaco a cena de "two ladies", que considerei soberba e me fez largar boas gargalhadas. ora toma. a primeira aparição de "tomorrow belongs to me", com David Ripado, tem o twist no sítio certo para nos fazer sentir culpados por termos estado a gostar tanto da música. sacanagem da boa.
por outro lado, na sua maioria, as cenas mais dramáticas eram arrastadas ao ponto do suspiro e de sentir a cadeira no rabo.
houve ainda algumas opções artísticas que me fizeram levantar a sobrancelha, questionando-me se aquilo era falta de estudo [o que me recuso a acreditar] ou simples vontade de fazer algo... diferente? por exemplo, a cena de "if you could see her [through my eyes]" foi interpretada com tanta graça pela dupla Hentique Feist e Adriana Queiroz que só por isso me permitiu fazer vista grossa à estranha opção artística da escolha do bicharoco representativo dos judeus.
o final deveria pertencer a Herr Schultz sozinho, encolhido. assim se mataria um público.
ah, e já agora, os homossexuais levavam uma estrela cor de rosa...


os intérpretes, como grupo coeso, funcionam. a nível individual já fia mais fino.

a nível coreográfico e musical são um todo metódico, eficiente, intenso e em certos momentos quase pungente. levam a perna à cabeça sem uma fífia. à excepção de um mocinho muito alto e loiro que em vez de levar a perna à cabeça estava era a tentar não cair da cadeira, servem o espectáculo como um grupo o deve fazer, marcando o nível que todo o musical deveria ter. gostei da mistura de estilos, de corpos, de assimetrias. gostei que não fossem todas altas e espadaúdas, que houvesse, por assim dizer, um tipo de mulher para cada homem. e vice-versa. e vice-vice, está claro. à semelhança do meu imaginário da fauna dos cabarets nos anos 30.

Henrique Feist estava como peixe na água neste seu Emcee: não houve nota ou fio de cabelo a mexer-se se ele não quisesse. agarrou este seu sonho com unhas e dentes. e com aquela voz. e estava tão verdadeiro... um bálsamo.
a dupla sénior, Isabel Ruth e Fernando Gomes tem aquele estilo de representação que, quando sozinhos, nos transporta para um filme português antigo. e só aí [e por isso] consigo esquecer-me que aquela entoação musicada e as pausas longas estão algo descontextualizadas do resto do espectáculo. "It couldn't please more" é das maiores delícias da peça. podiam ter agilizado [vá, cortado em pedaços mais pequenos] duas músicas dramáticas que canta Isabel Ruth e, com isso, poupado a actriz e os espectadores a duas cenas tão compridas e repetitivas, com as naturais falhas de quem não canta pelo meio. Já Fernando Gomes, na sua figurinha pequenina curvada, tom frágil, doce e meio pateta, conseguiu conquistar-me, com uma ternura imensa. apetecia, mesmo naquele seu género "que já não se usa", meter no bolso e levar para casa.
Paula Fonseca, no seu pequeno papel individual, conseguiu também arrancar-me umas gargalhadas e fazer-me crescer a irritação ao ponto de lhe querer bater [como pedia o papel, atenção]. e canta que se desunha.
o senhor que fazia de Ernst Ludwig era tão estranho e desconcertante de uma forma pouco lisonjeira que a única imagem que tenho para o descrever seria um nazi de Alfama. klop.
Pedro Laginha está esforçado. acho-o capaz de muito mais. parece-me que lhe falta uma qualquer coisa. um clic. um deixar-se ir e acreditar naquilo que está a dizer, independentemente de quem está lá para o ouvir.
isto porque - e vamos ao momento mais temido - na minha opinião, Ana Lúcia Palminha não está mais do que sofrível. nada de Liza. está um perfeito boneco da Velma Kelly da versão cinematográfica de Chicago, do figurino aos tiques de corpo. mas falta-lhe a alma, a garra da senhora Catherine Zeta-Jones para isso. a amplitude vocal é bastante limitada, e nota-se mesmo em músicas totalmente adaptadas ao seu tom. brilha nos graves, mas fica sem ar num instante. e sente-se. nos mais graves já só arranha e quando tem de ir para o falsete acabou-se. "money makes the world go round" lá ficou pelo caminho, nitidamente por falta de ar, entregue unicamente a Henrique Feist. compreende-se... ou não...
como actriz - o que, para mim, era o essencial - surpreendeu-me a total falta de verdade na interpretação. na maioria das cenas roça o histerismo frenético, uma musiqueta irritante na entoação, e por lá assenta. sempre na forma. parece que se está a poupar de qualquer coisa. pois agora já nem está nos ensaios, estará a poupar-se de quê? e escolhendo tão obviamente "Life is a Cabaret" para o ponto alto da personagem - Sally em cena num momento de derrota e desespero -, não queria acreditar no que parecia ser a total falta de lembranças da actriz, de experiências próprias, qualquer coisa que a ajudasse a fazer a cena com menos esgares e mais emoção. revirei os olhos e recostei-me, desconsolada. não acreditei nela. deixou-me as músicas sem alma, a roupa sem vida, os olhos sem história, Cabaret sem Sally.

como qualquer actor que sabe fazer tudo na forma, sem se gastar, Ana Lúcia levou o Maria Matos à loucura, e naquela noite ouviram-se bravos e gritos e tudo. eu saí de lá pouco convencida com ela.
estou convencida, sim, que este musical está muitos furos acima de um La Féria. mas ainda a um passador de distância de uma Broadway, de um West End da minha vida.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

mercado alternativo

ando em profundo contacto com África, por estas alturas.

valho 20 camelos, 2 cabras e 9 ovelhas. just in case...

a quanto estará o maço de Davidoff por aqueles lados?

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

cinzentamente

sair porta fora e o mundo está pendurado nas pálpebras, pressiona-as de maneira a que tudo se veja apenas por entre as aranhas das pestanas, em cinzas vários e cada um mais desinteressante que o outro.
terá sido falta de café, mas há dias despojados de toda a boa intenção. que nos é sugada por antecipações, previsões, confirmações. interjeições. sim, essas são as piores.
a interjeição do ego, essa cabra. que salta e arranca um braço a quem já estava de mãos preparadas para a defesa - dizem que é o melhor ataque, mas tinham de conhecer certas interjeições.
e a dor de cabeça, claro está. terá sido falta de café. ou falta de força. ou repressão de força para um bem maior que já não se sabe bem qual.
e palavras ditas em desdém, e desdenhadas e desenhadas com tanta força que a ponta do lápis parte. cansa. a doença alheia que calcorreia corpos, suga e cospe os despojos do que fomos.
há coisas que nos absorvem e não nos devolvem e vamos para casa à procura de onde estamos.
mas deve ter sido falta de café.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

wiiiiiiii!




os senhores do Imposto Redutor de Sorrisos demoraram demasiado a mandar a cartinha da cobrança. por isso, e fazendo orelhas moucas ao bom senso, fizemos foi o gosto ao dedo.
mais fãs de jogos de tabuleiro [mas com poucas visitas aos "arrabaldes" para dar asas à loucura como deve ser] e de longas noitadas de mikados e scrabble a dois, tínhamos no entanto uma pequena fraqueza. branquinha e sem fios.
andávamos há demasiado tempo a namorar uma coisa destas. a minha primeira desde a Nintendo Super Set, e a única que nos fazia sentido: faz-se exercício e é perfeita para jogar em grupo.

desde há um tempinho que as noites são passadas a jogar. ou a fazer ginástica.

curiosamente, desde a divulgação do Advento da Compra, um pequeno grupo de peregrinos - anteriormente estranhos a este local, mais conhecidos como a irmã e os amigos da irmã da Polegar - ruma frequentemente à nova Meca, para estabelecer contacto com a estranha consola imaculada, assaltando frigoríficos pelo caminho.

nós dizemos: visitas? wiiiiiiiiiiiiii!

domingo, 17 de agosto de 2008

profilaxis

há coisas absurdamente geniais. num dos meus sotaques preferidos, com as doses perfeitas de "testemunho danone", clipping vintage, comédia da mais fina, mesmo que escatológica, e, claro, actores fabulosos. 9-minutos-e-tal desconcertantes.

se eu tivesse forma de sacar isto, dava-me ao trabalho de legendar.
onde encontrei? mesmo depois de Studio 60 on the Sunset Strip ou antes de Flight of the Conchords no canal FX, que está a passar curtas espanholas entre programas, aparentemente de forma aleatória, sem os identificar no menu da programação. nem todas são do meu agrado, mas esta... foi de parar tudo para tentar perceber se eles estavam mesmo a contar a história que eu achava que estavam... quero gritar ao mundo que existe.

enjoy :)



profilaxis, produção de 2003 de prosopopeya producciones

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

três quilos e trezentas


ph.t. e mão conquistada de Simão

por três quilos e trezentas desatámos aos pulos na cozinha, abraçámo-nos e demos vivas.
três quilos e trezentas de uma pessoa nova, doce, decidida e delicada, de olhinhos já atentos, a quem o mundo ainda não faz confusão.
por três quilos e trezentas de gente há lágrimas e um sorriso de leste a oeste cá em casa. porque também é um bocadinho nossa.
a nossa família emprestada de Paris está, agora, mais-que-perfeita. chegaste, Joana.
sim, Joana, mais-que-perfeita, sem pretérito mas com travessões para ficar tudo juntinho, porque é tanto o amor que se respira desses dois que te fizeram que a tua casa é sempre assim quentinha para quem por lá passa, cheia de abraços e gargalhadas.

e sim, Joana, fomos nós que te andámos a fazer festinhas e sussurrar disparates num francês macarrónico este Maio que passou. fomos nós que levámos os teus pais para as escadas exteriores - de que eles só se lembram quando lá estamos - para ficarmos todos à conversa até às tantas com vista para os telhados, a vie en rose, a primavera e a gata da vizinha. a beber cafés - e chá para a tua mamã -, a falar português, a fazer teatradas com um troll e uma vaca perdida.

e agora as saudades? com um novo motivo para voltar... e agora as saudades? quem é que as atura?

bonjour, Joana de Paris :)

por onde, mesmo?

uma pessoa tem uma consulta no médico, para a qual vai ter de faltar a uma parte considerável de um ensaio. para lá ir ter o mais rapidamente possível, pondera utilizar os transportes públicos porque não quer caos, poluição, perdas de tempo em filas, taxistas enraivecidos e essas coisas.
por isso, vai ao site da Transporlis [linkado no da Carris] informar-se do melhor percurso, e de quais os transportes a utilizar.
insere como ponto de partida a Avenida 5 de Outubro, e o de chegada a Avenida Gomes Pereira. pois que manda pesquisar e o bicho diz que falta inserir ponto de partida ou de chegada. depois de estouradas várias tentativas de "vai buscar", recebendo sempre o mesmo recado, a exasperada pessoa resolve ignorar o bug e usar como alternativa o mapa disponibilizado no site para indicar per se - ou à la pata - os ditos pontos. perde-se por vielas e ampliações de ruas estranhíssimas, num mapa que indica que o Hospital de Santa Marta fica a norte do Parque Eduardo Sétimo. mas como a pessoa é abnegada, lá finalmente dá com os ditos pontos.
a primeira sugestão [pedida como "menos transbordos"] sugere um autocarro, mais de 300 metros a pé e 43 minutos de percurso.
vá, se calhar é melhor pedir a sugestão "mais rápido". e a que surge é mais rápida, sim senhor. 3 autocarros e umas poucas dezenas de metros a pé. o percurso tem uns estonteantes 2 minutos a menos que o anterior.
mas não é que a pessoa não goste de andar, ou não suporte autocarros. a pessoa tem a tal pressa para chegar ao ensaio.
a pessoa recebe a sugestão de sua cara-metade de ir de metro até Entrecampos e lá apanhar o comboio para Benfica.
depois de um "como é que não pensei nisso antes", vem a apoquentação, seguida da já conhecida obstinação. porque é que esta porcaria de site não me sugeriu isso? já sei, vou obrigá-lo a responder-me assim. vou pedir a opção de percurso utilizando só metro e comboio.
tick tick. enter.

e sai esta resposta:

ir até à estação Campo Pequeno (Metro) 355 metros
apanhar linha Amarela - direcção Rato (Metro)
sair na estação Marquês de Pombal
apanhar linha Azul - direcção C. Militar (Metro)
sair na estação São Sebastião
apanhar Linha Azul - direcção Amadora Este (Metro)
sair na estação Jardim Zoológico
ir até à estação Sete Rios (CP)
apanhar linha Roma Areeiro - Mira Sintra Meleças
sair na estação Benfica
ir a pé até ao destino (580 metro)

tempo de percurso: 45 minutos

[suspiro]
nota mental: pedir ao tal médico uns Xanaxs

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

mimo

disto, assim.
acordar com um elogio profissional. um buraquinho-para-café sem hora marcada na tarde do Chiado [como há tanto tempo]. um corte de cabelo. um livro e filmes para a colecção. e o regresso a casa com as mãos nas tuas costas.

domingo, 3 de agosto de 2008

outtake


ph.t. espanta-espíritos

quarta-feira, 30 de julho de 2008

o homem, o gato, e o bicho mau

gato foge. dono pede ajuda. vizinho homossexual prontifica-se e resgata-o. dono vê vizinho com o gato. dono pensa que vizinho não salva gato. dono pensa que vizinho sodomizará o gato. dono pensa que pela sodomia vizinho homossexualizará gato. dono dá tiros no vizinho. dono não acerta no vizinho. dono acerta na vizinha.
stop*

*via ondas marklianas

sexta-feira, 25 de julho de 2008

sic mulher

entalado entre os anúncios a detergentes e desodorizantes, deparo-me com um "new look", à laia de extreme makeover dos pobrezinhos, em que um senhor cheio de não-me-toques que nunca esboça um sorriso porque enruga, aplicou uns reflexos acobreados foleiros tipo anos 80 e cortou 2 cm às pontas do cabelo da mocinha. isto depois de lhe aplicar um champôm intense repére.

outro, mais simpatiquito, aplicou à Carla [a mocinha] uma sombra nos olhos, enquanto dizia: "agora aplicas com a esponja assim, queres ver? fecha os olhos"

a consultora de moda - a.k.a dona de uma loja ali no Fonte Nova - sugere à funcionária pública [ou será estagiária, ou será reciba-verde?] do IPJ um versátil... vestido de cocktail beringela, um casaquinho de malha com apliques de pérolas e umas sandálias de salto agulha prateadas para a mocinha levar para o trabalho. como alternativa tem sempre umas alpercatas com sola de cortiça e vime de salto compensado.

e a Carla diz que se sente muito bonita. que é tudo lindíssimo. que não tem palavras.

cada um tem o que merece.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

sim

tenho dias.
e aí questiono-me.
se será sensato tanto instinto.
tão pouco estudo das coisas, tão pouca dissertação. tão pouco pretenso pretensiosismo.
se de tanto apreciar o que é simples não me tornarei simplória.
nunca fui disso dos estudos. não fui de debitar nem dissertar. tinha de perceber. simplesmente perceber. o sentido, único ou não, mas o meu, o que lhes dava, o que me davam. era disso que eu gostava.
saía-me assim. saía-me sempre.
e depois, claro, cansou-me.
e foi assim. foi por isso que voltei ao que gostava. dos bonecos e não dos rótulos.

para falar, saboreio. é que bastam-me as palavras.

em vez de pensar, cheiro.
em vez de medir, abraço.
em vez de olhar, mergulho.

não hei-de eu ser chanfrada...

quinta-feira, 17 de julho de 2008

big band


Glenn Miller - imagem tirada daqui

ontem à noite estava uma big band no Rossio.
podia comentar aqui uma série de defeitos que encontrei, especialmente na falta de profissionalismo e humildade de algumas pessoas.

mas o poder daquele som, da harmonia de metais, contrabaixo, bateria e piano, o fumo do cigarro, o arrepio constante e a lua.
a viagem no tempo incomparável. a saia-suspiro ou bem travada. e o risco nos olhos. a boquilha, as luvas, os saltos altos.

cada vez mais estou convencida que nasci na época errada...
ou que vi demasiados filmes em miúda...

quinta-feira, 10 de julho de 2008

acordaste, Lisboa?

tenho-me queixado frequentemente que a Baixa está moribunda. por falta da dedicação de... todos. falta-lhe uma pulsação própria fora do horário de expediente. falta-lhe gente que a viva. e também me queixo das pessoas, da apatia, do comodismo, da falta de vontade de sair dessa modorra que assola tudo e todos. da mania de se queixarem e de não se mexerem para fazerem o que querem. da incapacidade de se unirem no que realmente interessa. da incapacidade de se levarem menos a sério e de se entregarem mais uns aos outros.

ontem ouvi falar nisto. já conhecia algumas iniciativas dessa maravilhosa arte urbana do improviso com multidões, da espontaneidade deliberada em cheio na testa do quotidiano, a que se chama flash-mob. e quis fazer parte.

armada em agente infiltrada, com o rádio sintonizado na antena 2 e uma câmara na mão, fui ver como era.
e dei por mim submersa.
e soube bem.

soube bem porque à minha frente eram velhos e novos, deitados no chão a ouvir as trepidações dos passos. deitados no meio do chão. a sentir as reentrâncias das pedras que pisam a caminho de casa. estavam mornas, as pedras, mornas, com rugas, macias e polidas como pele humana.
andar de olhos fechados, sem medo de chocar, sem pensar no jantar mais logo. a rodopiar, sim, senhoras bem postas de salto alto a rodopiar, tão tontas como as donas de casa que rodopiavam mesmo ao lado.
estátuas, vivas, com o gesto que queremos que seja. faço eu, fazes tu, tira-me uma foto para não me esquecer que era isto que eu queria hoje.
colar-se aos vidros das montras, está fresco, e os reflexos, "olhe desculpe, o meu rádio deixou de funcionar, dá-me uma ajuda que eu estou-me a divertir tanto".
a cumprimentar-se sem se conhecerem, a tocar-se, as pessoas tocaram-se. e era isto tudo que eu lhes queria explicar, que é bom tocar, trocar, entregar, receber.
a correr rua Augusta abaixo, velhos e novos. os velhos tão entusiasmados como os novos, os novos tão compenetrados como os velhos, esquecem o vizinho que chateia com a música alta e esquecem a consola, esquecem as contas, o empréstimo, o sono, só um bocadinho. era isto, era isto.
dançar ao som de uma música que só nós ouvíamos. dançar, em bailarico, passos lentos, passos enraivecidos, está sol, estou vivo, e bater palmas - essa foi a verdadeira revolução, o motim às palavras da rádio, ninguém mandou bater palmas, mas isto de dançar sem bater palmas é maldade.

e os olhos, os olhos de quem não tinha rádio divertidos, confusos, deliciados. porque é estranho, é de loucos, é mesmo disparatado. mas estamos juntos, não nos conhecemos, tocamo-nos, rimo-nos, esquecemos, fazemos o que pensámos "um dia eu faço", vemos o céu deitados no chão porque parece uma boa sugestão.
e é.
brincar, simplesmente brincar. sem pensar no que estarão a pensar.

sim, era isto. era disto que eu falava. este é um outro sabor de liberdade.



video editado por mim, [quase toda a] imagem de espanta-espíritos
pedimos desculpa pela falta de qualidade, mas ainda somos amadores no rendering de videos...