terça-feira, 6 de janeiro de 2009

ano novo, peça... velha

dez da noite é sempre uma boa hora para receber uma chamada do antigo trabalho a pedir para ir lá amanhã fazer uma substituição. no dia em que tinha combinado com os novos colegas ir assistir ao namorido. assim, um quatro-em-um: sei que há sítios onde ainda faço falta e onde faz sempre sentido regressar, volto por um dia ao mosteiro e aos bons dias de camarim demente na torre, tenho público "amigável" e vou fazer uma personagem que nunca fiz.

assim, do pé para a mão.

há coisas que nunca mudam. aqui entre nós, que ninguém nos lê, ainda bem ;)

vou para dentro. tenho de acabar de roer os cotos...

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

a posta de natal

este ano a coisa anda complicada. embora às vezes até tenha algum tempo, nesse mesmo tempo encontro-me num estado vegetativo de fazer inveja a muito tubérculo. a nível mental, também, vaziazinha de ideias ou de memórias de momentos destacáveis para colar por cá.
no entanto, muni-me de uns fiapos de força que encontrei por aí, arrastei comigo o namorido, e aqui está o nosso vídeo de natal. com música, animação e, claro, gorros vermelhos.

fiquem bem. aconchegados, a entupirem-se de doces como manda a tradição :)
eu vou ali recolocar-me a soro a ver se recupero.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

29


foto roubada à Manel

meia-noite com a alcateia, pequeno-almoço na cama, estrelas de feltro ao lanche com a boneca.

passeio de mãos dadas a olhar para a nossa amiga que, só hoje, trazia brincos*.
seria para a minha festa?

*vénus e júpiter, amor e criação do dia, segundo uma especialista da coisa.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

bonjour

o ambiente no meu camarim é geralmente épico. língua afiada e pouca cafeína, acho eu. portanto entro, maquilho-me a contar até duzentos para não rebentar com as enormidades que se vão acumulando no ar, e saio a abrir para aquecer no corredor.

no entanto, hoje aconteceu um pequeno milagre.
os clássicos da disney, em brasileiro, salvaram a minha manhã.
e por isso, agarrei a oportunidade e cantei tudo o que me lembrava, fazendo as vozes de todos os personagens incluídos em cada número.
em plenos pulmões.
eu, que não canto.

só por um bocadinho de paz, de gargalhadas com gosto enquanto pintava [literalmente] o focinho.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

tu és tão grande



deixa-me ver a tua mancha.
mas és uma pessoa, não és?
vais sair daí?

mais ou menos.
[isso de] ir ou ficar.
onde estaria?

descansar. sim. só.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

são martinho


foto de espanta-espíritos

por estes lados a rua fria ainda cheira a lume.
em casa, uma manta, o aquecedor e a nossa mistura perfeita das melhores tradições: castanhas no forno e vin chaud.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

pânico combustível

na bomba de gasolina, ouve-se a voz roufenha de uma rapariga da caixa:
- senhor da bomba cinco, desligue o telemóvel.
começam a rodar cabeças à procura do imbecil. volta a voz, um pouco mais alterada:
- senhor da bomba cinco, por favor desligue o telemóvel.
vemos o imbecil, continua imperturbável - vá, talvez o barulho do intercomunicador esteja a chatear um bocadinho, mas pronto -, telemóvel numa mão, mangueira de abastecimento na outra. esbracejamos, mas nada. eu começo a gritar na direcção do imbecil, tentando comunicar pelo único meio que acho que ele compreenderá: "ó senhor! trrim-trrim não! gasolina! fssst cabum! morrer! explosão! dói!" a menina da caixa insiste, cada vez mais nervosa:
- senhor da bomba cinco, é proibido falar ao telemóvel. está a ouvir? desligue o telemóvel. senhor da bomba cinco?
o meu namorido começa a encaminhar-se na direcção do imbecil, fazendo-lhe sinais para parar. abana-o para ele levantar os olhos. ele lá se apercebe que a conversa é com ele e desliga. no ar, a última frase em pânico da rapariga da caixa:
- senhor da bomba cinco, sou muito jovem para morrer.

os senhores da bomba seis têm um ataque de riso no meio da estação de serviço.

domingo, 9 de novembro de 2008

quando se pensa que já se viu tudo

vai-se comprar farinheira ao supermercado e vê-se numa estante um Trivial Pursuit edição DVD...
porque deve dar muito trabalho às novas gerações essa coisa de atirar os dados ou mexer o queijinho.

chega-se a casa e, abananadamente, descobre-se que até há a versão digital do bicho, tipo Game Boy, ou para os mais modernos, vá, PSP, para acabar com o incómodo dos cartões...

medo...

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

um pedaço de história americana

nos bastidores de um teatro em Lisboa, uma colega estava quase histérica no camarim, de contente. durante o aquecimento, em vez de "força, merda", gritou-se "Obama".
soube por fonte fiável que noutro espectáculo uma "menina" da Brízida Vaz também gritou, mas em cena, pelo Obama [aqui entre nós, lixando um bocado toda a dramaturgia do Gil Vicente, eheh]...

hoje está tudo parvo em bom.
faço parte desse sentimento.
sei que um homem não resolve uma crise mundial, mas identifico-me mais com as suas intenções e planos práticos do que com outros.
e sei que, acima de tudo, um povo inteiro que vivia arreigado numa pequenez de espírito assustadora deu um passo incrível por cima dos costumeiros preconceitos fúteis para acreditar na força e propostas desse homem.
e como, por acaso, esse povo tem uma influência gigantesca em tudo o que se passa por todo o lado, eu agradeço.

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

adenda do dia não senhor

descobri entretanto que a causa de o meu despertador não ter tocado foi, literalmente, isso: o altifalante do telemóvel [meu despertador] pifou. assim, da noite para o dia. portanto agora o piqueno não toca, só vibra. também não posso falar em altavoz no carro. o que me vale é que com auscultadores ainda posso ouvir música no metro...
para breve, o enterro do dito pequenito, que não sei bem como vou substituir...

ADENDA DA ADENDA:
o namorido lá me esventrou o telelé e arranjou-o! iupi!

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

dia não senhor

acordo com um telefonema, a patroa a perguntar onde estou. no momento em que pego no telemóvel começo a hiperventilar. faltam 20 minutos para a peça começar. gaguejo qualquer coisa como "ah uh ah ghlagh tou ah a ir agh" e desligo. 3 minutos depois, estou montada na mota a repetir autisticamente "faltam 17 minutos, faltam 17 minutos, eu não acredito nisto, faltam 17 minutos", de dedos cravados nas costas do namorido - ensonado, atordoado e petrificado de medo porque nunca por nunca gostou de conduzir a mota à chuva e, claro, hoje choveu, daquela chuva que transforma o chão em manteiga, mas por isso há mais trânsito, por isso nem tempo para carro nem para metro.

na antónio augusto de aguiar atendo outra chamada da patroa e tento explicar, agora mais articulada, que o despertador não tocou, que a única coisa que me separa do teatro são os semáforos - todos vermelhos, como convém. explico que se não me caracterizar para a primeira cena, são 30 segundos para me vestir e estou pronta. ela acalma-se.

chego ao teatro 5 minutos depois da hora a que devia começar o espectáculo, visto-me num relâmpago e alguém me traz o microfone, já ligado, que coloco no cinto, fecham-me dentro da camisa de forças que é a minha girafa e corro pelo corredor de patas da frente levantadas no ar. passo por um colega em cuecas e penso, pronto, vou ficar à espera deles. claro, estavam todos à minha espera, claro, e não valia a pena estarem todos a postos. chego a bastidores e fico mais quase 10 minutos à espera que esse colega e os outros acabem de se vestir de elefantes.
a peça começa 15 minutos atrasada. no fundo, à hora do costume. só que hoje, de todos os dias, era o que tinha menos público, portanto os putos já estavam todos sentados há mais tempo. e hoje os do costume têm um bom novo pretexto para não fazer o trabalho como deve ser: eu. vá, o resto do elenco vale a pena. tem calma, acontece a todos, dizem-me. entro de voz fria, corpo enregelado e rezo para que o dracalon do fato faça o efeito que deve, de me pôr a suar antes que as articulações dêem de si comigo a sentir tudo. a peça flui. o colega que não é mau rapaz mas tem a mania que é engraçado e um tacto do caraças, mete duas buchas sobre a girafa chegar atrasada a todo o lado. buchas de qualidade, portanto, que valem a pena, porque engrandecem o espectáculo. e me fazem sentir ainda melhor do que já estou. faço que ignoro.

depois da peça há ensaio para correcções. eu de jejum e a subir às paredes por um cigarro. mas diz que é já. esquece o cigarro. o já prolonga-se. claro. de repente, chamam-nos com urgência urgente ao palco. para lá ficarmos mais 15 minutos à espera. faz-se o ensaio, ouço mais duas bocas sobre atraso do mesmo [e único, e sempre extremamente profissional, que nunca se atrasou] engraçadinho. faço que ignoro. estás chateada? [em tom de "esta não aguenta uma piadinha de categoria"] não, pá, está tudo fino [em tom de "continua, que estás a melhorar a minha auto-estima assim upa-upa"]. vou tomar banho.

enrolada na toalha, recebo a notícia de que o único cartão multibanco da única conta que contém os únicos 40 euros deste agregado familiar pifou. subo às paredes mais um bocado, seco-me e agradeço ao Senhor do Visa, que me vai comer couro e cabelo pelos levantamentos, mas que me vai salvar até poder ir ao banco.

numa pilha de nervos, não consigo visualizar a viagem básica de carro [que o namorido entretanto foi buscar] até à outra ponta da cidade [para onde não há transportes], onde tenho um casting de voz. resolvo que já dei o tilt, que vou de táxi e que fica ele com o carro e pronto, que já não consigo pensar. e desato a chorar.

pronto. já passou.

beber um café, comer meia sandes que não entra mais. e falar com os colegas sobre filmes durante meia hora, achar que descontraí.

sair para o meio do trânsito na boleia inesperada do namorido, cujo compromisso foi adiado e por isso pode levar-me de carro ao casting. a única boa notícia do dia.
nota: num edifício de funcionários públicos, não se conhecem entre eles apesar de trabalharem no mesmo piso. que isto não há misturas. como não há misturas, demoro um bocado mais a perceber onde é que me vou encontrar com a senhora que me chamou, mas lá me arranjo e sento-me à espera. a ler. a tentar ler, porque as mãos ainda me tremem da descarga de adrenalina. casting. dirigido por uma senhora simpática, mas directora de programas que pelos vistos não gosta de dobragens e não sabe como dirigir actores. mas faz-se. pergunta-me como estou de disponibilidade. explico-lhe que depende do cachet. pimba. sim, que para abdicar de trabalho para fazer trabalho para a função pública, nos termos deles, é preciso pagar o estorvo. saio às 16:30 do casting, com a senhora directora também de malas aviadas, e já estava a despegar do trabalho atrasada. coitadinha.

ala para o centro comercial, comprar umas coisas que faziam falta, pegar no carro e pimba, trânsito da hora de ponta para demorar 45 minutos a fazer 15 quilómetros. carro esse que, na fila, se começa a queixar de sobreaquecimento quando levou líquido de refrigeração novo há pouco tempo. roer as unhas até a luz se apagar. olhar para os esgares monocelulares assassinos nos carros ao lado e pensar que, apesar de tudo, é boa esta vida que consegui, que não tem [normalmente] filas estúpidas, prestações de plasmas, trabalho sedentário, imbecilizante e monocromático. mal paga na mesma, mas com gosto, porra.

chegar a casa, vestir o pijama e escrever este post com medo de que o computador entre em combustão espontânea.
que isto ainda faltam umas horas para o dia acabar...

terça-feira, 28 de outubro de 2008

sonoro

descia descuidada a avenida, restituída à ordem natural depois do fim de semana de sete milhões de euros que legalizaram - temporária e exclusivamente - as corridas de carros, o tuning e o barulho excessivo em áreas residenciais.
[by the way, o público surpreendeu-nos, recusando os apelos da grunhice intrínseca de cada zé tuga, enchendo-nos a sala apesar do circo à porta, das estradas fechadas, do incómodo de mudança da hora, do sol lá fora e nós aqui. amén a todos vocês, benditos anónimos, que nos forraram a plateia com mais de seiscentas almas receptivas e bem dispostas.]

mas dizia eu que descia a avenida. passando o nevoeiro das castanhas na esquina, evito que uma senhora seja atropelada na passadeira e continuo na luta interna de conseguir chegar à mala apesar das várias camadas de roupa, do capacete, do desastre natural da minha pequena estatura que não me permite equilibrar tudo nos braços. tiro o sete colinas e o telemóvel, carrego no play. já vai a meio a canção e é das que dão para abanar a cabeça. que levanto.

à minha frente, emperiquitadas no alto dos saltos, um duo dinâmico de capilares reflexos vermelhos nitidamente acabado de sair do Beauté, aqui ao lado. na minha cabeça atropelam-se etiquetas como a brigada da laca ou esquadrão da mise. assim, cabelos em Peter Pan da alta, tufados, flutuantes, alheios às leis da Gravidade, como que suspensos por molas. molas, também, os brincos demasiado grandes para uma cara enrugada mas disfarçada em betume, perdão, base, os cachuchos em cada dedo disponível - mais houvessem, a crise não chega às mãos -, as pulseiras que davam cintos. o cinto do casaco estampado de leopardo em roxos, o outro em pretos discretos mas com correntes, o andar de gazela em botim de pele [da própria, quem sabe] em perfeita dislexia da pochette e da bolsa de cabedal, e a lapela altiva de gabardine que [des]compensa a falta de altura. e no alto, esse corolário inevitável, que reclama todas as atenções apesar de tanto onde perder os olhos, a farta cabeleira no que se adivinha ser um ridículo pau de giz se, bem vistas as coisas, a cabecinha fosse demolhada e lhes decapassem todo o spray fixador.

abro a agenda, desesperada, e escrevo umas linhas para me lembrar mais tarde. desenho outras tantas - linhas - para não me esquecer de outros tantos movimentos.

e nos ouvidos, dispara, sozinha, por ordem aleatória do abecedário da tecnologia móvel, esta canção.

Listen "Seu jorge Burguesinha"


dispara-se-me a gargalhada no meio da rua. disparam os olhos das emperiquitadas, perturbada a redoma não insonorizada do âmago umbilical da conversa. pulverizadas, as conversas emperiquitadas, pelas minhas ondas sonoras.
sonoras, pois. que na vida há alturas em que está tudo ligado, e há mesmo bandas sonoras, não me lixem.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

do que há-de vir

a caminho do trabalho, um taxista pára para deixar a mota passar. dois tiochos daqueles que costumam ser pedantes e nem olhar para o lado [desses que aparentam não ter problemas de créditos, euribores, nem de combustíveis a julgar pela assentadura] abrem as alas dos espelhos - eléctricos - também para nos deixar passar.
ao telefone, massajam-me o ego profissional. duas vezes.
e, já em casa, um senhor da cabo liga a oferecer um desconto na factura mais telefone grátis durante um ano.
o namorido põe-se a arrumar as gavetas.
e isto. que não sei se ria, se chore.

e tudo faz sentido quando uma senhora no intercomunicador do prédio me pergunta se eu acho que Deus vai resolver o problema do aquecimento global e da bacarrota da Islândia.

mais descansada.
afinal são só sinais do apocaliptro...

terça-feira, 14 de outubro de 2008

paracetamol

o corpo em descanso, pela primeira vez de dois meses de tensão, em vez de ficar agradecido, vinga-se da negligência com dores absurdas em sítios que pensava que não tinham terminações nervosas, a cabeça pesa mais do que o pescoço aguenta, os olhos querem saltar das órbitas e é toda uma moleza inominável que me prende impotente ao sofá. assisto às mudanças de luz na sala, que lambe as paredes devagarinho, destaca e esconde os títulos dos dvds, dos livros. e penso que devia ir aspirar o chão.
tinha coisas para fazer.
apetecia-me sair de mão dada, apanhar ar, comer travesseiros ou castanhas ou sushi, comprar um casaco, ler um livro de fio a pavio, acabar o quadro grande, e essas coisas que andei a adiar. apetecia-me convidar amigos para um café, um filme, qualquer coisa que me fizesse sentir acompanhada, descontraída, com vida pessoal outra vez.
tudo engolido por uma dolorosa apatia. quebrada apenas pelo ritual de, às 8 da manhã, dar um salto na cama a pensar que estou atrasada para os ensaios.

não te preocupes, diz a voz na minha cabeça, a partir de amanhã já tens peça outra vez...

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

contagem decrescente ou it's a jungle out there



um elefante com uma luxação, um impala com um torcicolo, uma tribette com os ombros inflamados, outra tribette a recuperar de uma pneumonia, uma elefanta bebé com quebras de tensão, uma criança-mona com alergias e um elefante-macaco substituto que tem dores só de vestir o fato.

a girafa mais pequena do mundo com os dedos dormentes.

faltam 3 dias...

domingo, 5 de outubro de 2008

malas aviadas



começa agora a contagem decrescente.
fazer as malas para viver 5 meses num teatro é muito parecido com a preparação de uma viagem de campismo. mas leva-se mais mariquices de gaja...

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

funny face ou havia muito a dizer acerca disto






You Scored as Audrey Hepburn

Audrey Hepburn

75%
Betty Page

69%
Mae West

69%
Betty Grable

63%
Jayne Mansfield

50%
Marilyn Monroe

44%

which 1950's pin-up girl are you?

terça-feira, 23 de setembro de 2008

seis horas



de suor a derreter no peito de asfixia de ácaros na garganta de cinzento de pó de pés em meia ponta de costas encaracoladas de pontadas nas mãos de deixas penduradas de dedos esvaziados de recusas de vontade de noites de tinto de incongruências de gripes de ânimo enfraquecido de ego que nem com muletas de ausências de desorientações de cadeiras partidas de cigarros a meio de fitas de amuos de idiotices de palermices de risos cansados de dias que já se esvaíram quando se sai para a rua sem os ter visto.

domingo, 14 de setembro de 2008

cabaret

teatro maria matos até 28 de Dezembro
Adriana Queiroz, Ana Cláudia Ribeiro, Ana Lúcia Palminha, Bernardo Gama, Carlos Gomes, David Ripado, Dima Pavlenko, Fernando Gomes, Henrique Feist, Isabel Ruth, Meredith Kitchen, Paula Fonseca, Pedro Laginha, Sandra Rosado e Sara Campina.
encenação de Diogo Infante
bilhetes entre 15 e 25€

já toda a gente sabe que a minha vida é um musical, que nasci na época errada e com um estranho pânico, vá, respeitinho encolhido por cantar em palco.
sendo este musical um off-La Féria, não me podia escapar.
aviso já que neste género quero ser bem servida, quero tudo - porque já vi o tudo - mas, mais do que esperar cantores exímios e dançarinos exemplares, vou à procura de representações poderosas que elevem as notas musicais ao tão estimado arrepio.

já se sabe que vamos entrar numa Alemanha quasi-nazi, num submundo boémio e nas relações e ralações dos vibrantes seres desse mundo e dos que o rodeiam. não querendo ser acusada de fornecer spoilers, fico-me por aqui.

em termos de ambiente, senti falta da sujidade, da confusão dos bastidores, do fumo de cigarros [mas é normal, o encenador deixou de fumar], da deliciosa decadência, do tal abraço que nos envolve, agarra e só cospe no final. houve algo de frio e quase asséptico nesta encenação que nunca me permitiu entrar realmente no tão afamado cabaret. só me salvou o corpo de baile e seu Emcee, cheio de energia e vontade de nos cravar as unhas.

a nível de cenário também tudo muito bidimensional, esperava que o espectáculo [me] entrasse pela plateia adentro. acima de tudo, depois de uma Dúvida pelo lápis de João Mendes Ribeiro, esperava uma surpresa. a sorte é que esperei sentada.

as músicas foram uma não-surpresa muito agradável. sim, Ruben Alves e a sua banda levaram-me para os tais outros tempos. a tradução das letras para o português justificava-se [um dos meus medos quando se mexe nestes clássicos] e na sua maioria tinham uma adaptação bastante fiel, se bem que não se apiedavam dos cantores em termos de métrica e espaço para respirar. no entanto - eu sei, há sempre um destes - algumas das letras pareceram-me estranhamente mal traduzidas e adaptadas, como se tivessem resolvido introduzir mais músicas no espectáculo à última hora.

a encenação teve alguns apontamentos de humor quase non-sense que não esperava de um senhor tão bem comportadinho como Diogo Infante. destaco a cena de "two ladies", que considerei soberba e me fez largar boas gargalhadas. ora toma. a primeira aparição de "tomorrow belongs to me", com David Ripado, tem o twist no sítio certo para nos fazer sentir culpados por termos estado a gostar tanto da música. sacanagem da boa.
por outro lado, na sua maioria, as cenas mais dramáticas eram arrastadas ao ponto do suspiro e de sentir a cadeira no rabo.
houve ainda algumas opções artísticas que me fizeram levantar a sobrancelha, questionando-me se aquilo era falta de estudo [o que me recuso a acreditar] ou simples vontade de fazer algo... diferente? por exemplo, a cena de "if you could see her [through my eyes]" foi interpretada com tanta graça pela dupla Hentique Feist e Adriana Queiroz que só por isso me permitiu fazer vista grossa à estranha opção artística da escolha do bicharoco representativo dos judeus.
o final deveria pertencer a Herr Schultz sozinho, encolhido. assim se mataria um público.
ah, e já agora, os homossexuais levavam uma estrela cor de rosa...


os intérpretes, como grupo coeso, funcionam. a nível individual já fia mais fino.

a nível coreográfico e musical são um todo metódico, eficiente, intenso e em certos momentos quase pungente. levam a perna à cabeça sem uma fífia. à excepção de um mocinho muito alto e loiro que em vez de levar a perna à cabeça estava era a tentar não cair da cadeira, servem o espectáculo como um grupo o deve fazer, marcando o nível que todo o musical deveria ter. gostei da mistura de estilos, de corpos, de assimetrias. gostei que não fossem todas altas e espadaúdas, que houvesse, por assim dizer, um tipo de mulher para cada homem. e vice-versa. e vice-vice, está claro. à semelhança do meu imaginário da fauna dos cabarets nos anos 30.

Henrique Feist estava como peixe na água neste seu Emcee: não houve nota ou fio de cabelo a mexer-se se ele não quisesse. agarrou este seu sonho com unhas e dentes. e com aquela voz. e estava tão verdadeiro... um bálsamo.
a dupla sénior, Isabel Ruth e Fernando Gomes tem aquele estilo de representação que, quando sozinhos, nos transporta para um filme português antigo. e só aí [e por isso] consigo esquecer-me que aquela entoação musicada e as pausas longas estão algo descontextualizadas do resto do espectáculo. "It couldn't please more" é das maiores delícias da peça. podiam ter agilizado [vá, cortado em pedaços mais pequenos] duas músicas dramáticas que canta Isabel Ruth e, com isso, poupado a actriz e os espectadores a duas cenas tão compridas e repetitivas, com as naturais falhas de quem não canta pelo meio. Já Fernando Gomes, na sua figurinha pequenina curvada, tom frágil, doce e meio pateta, conseguiu conquistar-me, com uma ternura imensa. apetecia, mesmo naquele seu género "que já não se usa", meter no bolso e levar para casa.
Paula Fonseca, no seu pequeno papel individual, conseguiu também arrancar-me umas gargalhadas e fazer-me crescer a irritação ao ponto de lhe querer bater [como pedia o papel, atenção]. e canta que se desunha.
o senhor que fazia de Ernst Ludwig era tão estranho e desconcertante de uma forma pouco lisonjeira que a única imagem que tenho para o descrever seria um nazi de Alfama. klop.
Pedro Laginha está esforçado. acho-o capaz de muito mais. parece-me que lhe falta uma qualquer coisa. um clic. um deixar-se ir e acreditar naquilo que está a dizer, independentemente de quem está lá para o ouvir.
isto porque - e vamos ao momento mais temido - na minha opinião, Ana Lúcia Palminha não está mais do que sofrível. nada de Liza. está um perfeito boneco da Velma Kelly da versão cinematográfica de Chicago, do figurino aos tiques de corpo. mas falta-lhe a alma, a garra da senhora Catherine Zeta-Jones para isso. a amplitude vocal é bastante limitada, e nota-se mesmo em músicas totalmente adaptadas ao seu tom. brilha nos graves, mas fica sem ar num instante. e sente-se. nos mais graves já só arranha e quando tem de ir para o falsete acabou-se. "money makes the world go round" lá ficou pelo caminho, nitidamente por falta de ar, entregue unicamente a Henrique Feist. compreende-se... ou não...
como actriz - o que, para mim, era o essencial - surpreendeu-me a total falta de verdade na interpretação. na maioria das cenas roça o histerismo frenético, uma musiqueta irritante na entoação, e por lá assenta. sempre na forma. parece que se está a poupar de qualquer coisa. pois agora já nem está nos ensaios, estará a poupar-se de quê? e escolhendo tão obviamente "Life is a Cabaret" para o ponto alto da personagem - Sally em cena num momento de derrota e desespero -, não queria acreditar no que parecia ser a total falta de lembranças da actriz, de experiências próprias, qualquer coisa que a ajudasse a fazer a cena com menos esgares e mais emoção. revirei os olhos e recostei-me, desconsolada. não acreditei nela. deixou-me as músicas sem alma, a roupa sem vida, os olhos sem história, Cabaret sem Sally.

como qualquer actor que sabe fazer tudo na forma, sem se gastar, Ana Lúcia levou o Maria Matos à loucura, e naquela noite ouviram-se bravos e gritos e tudo. eu saí de lá pouco convencida com ela.
estou convencida, sim, que este musical está muitos furos acima de um La Féria. mas ainda a um passador de distância de uma Broadway, de um West End da minha vida.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

mercado alternativo

ando em profundo contacto com África, por estas alturas.

valho 20 camelos, 2 cabras e 9 ovelhas. just in case...

a quanto estará o maço de Davidoff por aqueles lados?