domingo, 15 de março de 2009

um fósforo

cheguei para o colo do meu encenador: "O senhor presidente entrou por aqui adentro e disse logo, antes de pôr os olhos na exposição da Agustina: vim ver a Puligari". risos.
cumprimentar os amigos de sempre, que por acaso ou não, partilhariam a tela comigo.
fugir dos flashes e baixar a cabeça nos discursos.
e alea jacta est.
a cadeira já doía no rabo, ainda nem íamos a meio. o senhor presidente velava-nos lá do camarote. aguardava-me, com certeza, ri-me.
o fado de Simone de As Vedetas cumpriu-se em grande escala: ou puta ou criada, a criada já está.
reconheço o ensemble da cena. enfio-me pela cadeira abaixo, sapatos adentro.
os meus 20 segundos.
o resto é o resto é o resto. cinema português é cinema português é cinema português.
sair porta fora a rir à gargalhada, de coisas pequeninas se torce o pepino.
puxam-me pelo braço. estavas tão bonita. como assim? ias tão bem! mas mal se vê.
diz quem sabe - ou acredita - que a magia se fez nas pequenas coisas. não sei, mal vi, enfiada lá em baixo, dentro dos sapatos apertados.
ficar em cigarros com os de sempre, assinar dois autógrafos para amigos "desta tua estrela sem créditos", sorrir ao realizador querido, não querendo incomodar em noite de tantos abraços mais importantes. um destes dias cruzamo-nos por aí num café ou uma cerveja e logo lhe agradeço não me ter cortado a cena.

aparecer no grande écran - check.
mais um para a história da menina dos fósforos.

domingo, 8 de março de 2009

Black Vox - histórias negras em teatro de terror



textos e encenação . Ana Lázaro, Patrícia Andrade, Ricardo Neves-Neves

com . Ana Lázaro, Patrícia Andrade, Ricardo Neves-Neves, Sílvia Figueiredo, Vítor Oliveira
vídeo . Dora Carvalhas
curta de animação . Solange Santos e Mário Sousa [polegarfilmes] a partir do texto de Ana Lázaro


Casa Conveniente
| 6 a 15 de Março | todos os dias às 21:30

Teatro da Trindade | 29 de Abril a 17 de Maio | 4ªa a Sáb às 22h . Dom às 17h

bilhetes . 7,5€ . normal | 5€ . para jovens até 30 anos, maiores de 65 anos, profissionais do espectáculo, grupos de mais de 10 pessoas, coveiros, talhantes e médicos legistas

info e contactos: 964096484 | 913938899 |
www.teatrodoelectrico.com


chegada de Braga, passei a última semana e meia a recuperar um trabalho de 3 semanas que se tinha evaporado no éter digital de um velho programa de computador. quinta-feira à noite, depois de várias madrugadas e uma directa a trabalhar ininterruptamente [saindo apenas de frente dos fumegantes computadores para ir fazer espectáculos], finalmente entregámos o material.

valeu a pena.
não fazia ideia de como iria resultar no enquadramento final do espectáculo. sabia apenas o contexto, muito por alto. deram-nos o texto e fechámo-nos em copas com ele e maços de cigarros e café e dores nas articulações. nem a autora opinou grande coisa depois do storyboard.

assim, nesta sexta-feira, lá fomos para a Casa Conveniente ver se as peças encaixavam.
e encaixaram.
Black Vox é um espectáculo de pequenas peças curtas de terror, escritas e encenadas por alguns elementos do grupo que lhes dá corpo. com muito humor negro, daquele de que gosto. despretensioso, bem dito, bem interpretado, com variações entre a poesia, o corpo, o vídeo, a animação e a comédia. todos os textos são bons, e nem os nervos da estreia atabalhoaram o andamento. a Casa Conveniente, com o seu ar baffon [podia dizer urbano-decadente-chic, mas não me apetece a freakalhada], é o cenário perfeito e Hugo Franco fez magia com a simplicidade de algumas lâmpadas espalhadas pelos recantos do espaço.
são todos bonecos pálidos, estranhos, figuras conhecidas do nosso imaginário. e brincam bem com isso, sente-se que gostam de nos provocar e de lamber sangue das paredes como quem diz um poema bucólico. não há que ter medo de que nos façam rir: o mórbido saboreia sempre dois lados e um é o ridículo dos nossos medos. consequências de uma geração Tim Burton...
há sempre os preferidos mas nem entro por aí. não é preciso destaques, essencialmente esta peça é um corpo só. com cabeça, apesar do tema.

recomendo a todos que a apanhem ainda na Casa Conveniente. o ambiente é qualquer coisa. para quem não sabe, o espaço leva pouco mais de 20 pessoas de cada vez, portanto apressem-se.
o mais provável é cruzarmo-nos por lá, que eu vou voltar.

ah, e depois contem coisas acerca de uma curta de animação que por lá aparece... muahahah ;)

sábado, 7 de fevereiro de 2009

raffe... gi raffe

há qualquer coisa de libertador em correr pelo corredor de um hotel de 4 estrelas de pistolas de dedo em punho a fazer de agente secreto...

domingo, 1 de fevereiro de 2009

trezentos e quinze quilómetros

vinte e um dias.
já as malas vão de viagem, ainda me fico por aqui a deambular nos fios que me cosem ao meu chão. pouco me falta, nada me falta, já falta pouco.
passo o dia na cama, deixo o corpo dormir quando quer, comer qualquer coisa nos intervalos. olhas-me sonolento e nessa lassidão recupero-me devagar. para o que me há-de desgastar.
são demasiadas horas longe do meu porto, lá no Porto. vou-me desenterrando dos lençóis e pensando no que falta levar, as pontas soltas que não me apetece atar. recordo quem fica com um peso no coração, entre bolsas e bolsinhas livros e cartões de memória. se por cada bolsa mil beijos e um olhar cúmplice.
depois de amanhã lá me solto, sem muita vontade, à estrada dos meus vinte e um dias.
conto, sim, com as mãos de sempre que me farão companhia, este ano o Porto é nosso e o Artes em Partes e a Miguel Bombarda e Serralves e a Ribeira e pôres do sol na piscina. este ano, Bojangles, tomas conta de mim e eu tomo conta de ti, mostras-me o teu Porto que ainda não vi e estancamo-nos as feridas em chás e cigarros e cervejas tardias enquanto os nossos amores não vêm. que eu até levo um fervedor eléctrico e o cinzeiro portátil em honra do frio.

mas não quero melancolia, o vento já é cinzento que chegue e isto é para crianças. por isso vou-me devagarinho, descolando do abraço só mais um bocadinho nos lençóis levanta o queixo e beija-me de caminho. com uma melodia que me apaixonou à primeira porque é tão minha que assim até podia gostar de mim.



Oren Lavie . her morning elegance

Sun been down for days | A pretty flower in a vase | A slipper by the fireplace | A cello lying in its case

Soon she's down the stairs | Her morning elegance she wears | The sound of water makes her dream | Awoken by a cloud of steam | She pours a daydream in a cup | A spoon of sugar sweetens up

And She fights for her life | As she puts on her coat | And she fights for her life on the train | She looks at the rain | As it pours | And she fights for her life | As she goes in a store | With a thought she has caught | By a thread | She pays for the bread | And She goes... Nobody knows

Sun been down for days | A winter melody she plays | The thunder makes her contemplate | She hears a noise behind the gate | Perhaps a letter with a dove | Perhaps a stranger she could love

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

depois da apneia

já com a órbita mais estabilizada, depois de tudo o que podia correr mal correr bem, depois de ver o meu pai de volta ainda meio grogue mas de sorriso em riste e cheio de fome, posso preocupar-me com pormenores.
e depois de passar um dia inteiro num hospital, a fazer de conta que não estava nervosa, que até conseguia ler e essas coisas, posso declarar que devia haver uma nova lei:

os senhores que fornecem ares condicionados para os hospitais deviam financiar a distribuição gratuita de anti-histamínicos a todos os utentes e acompanhantes.

raistaparta, filhos da mãe que me puseram outra vez com o cérebro a sair pelo nariz, um peso de toneladas nos olhos e a voz toda lixada. assépticos, assépticos ma non troppo...

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

breathe

há dias que custam a passar. este vai ser um desses.
respirar, devagarinho, e ocupar a cabeça.
é como andar de avião... :)

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

génios

quem foi o néscio que inventou a campanha dos Açores que consiste em deixar três vacas a apanhar frio e gases de tubos de escape [e um camadão de nervos*] em plena Praça de Espanha?!

[*os senhores dizem que preveniram situações de stress, e as vacas não são Açorianas. já se sabe que as de cá já estão a Xanax há duas décadas]

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

o subúrbio é que é fixe!*

há neve na calçada de carriche!


[*ora aqui está uma coisa que nunca pensei vir a dizer...]

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

agenda

ando desencaixada das horas que me rodeiam. demasiado, demasiado. preparar uma ausência e estar já ausente de onde não devia. mas estar presente onde posso, quando posso, que são as horas que me sobram do dia, as desoras da madrugada. para levar avante promessas antigas que calharam em prazos apertados, para recriar uma passagem de ano que não houve.
entre compromissos, há o subentendido de presenciar descoordenações emocionais que me desgastam por osmose, tentar desligar-me para me manter onde tenho de estar. e tudo tão relativo. quase que dá para uma gargalhada amarga, ali, entre as três e as quatro.
a cabeça estala. o cansaço deita-se cá dentro e aninha-se. e penso se aguentarei o mês da ausência, sem o porto seguro, e sem aguentar o forte que devia aguentar.
e penso, sempre, que não estou agora onde devia estar. que tudo tem uma razão, mas que não concordo comigo.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

a garrafa partida

cabeça quente, mãos geladas, terceira ou trigésima reclamação no banco, o vapor sai-me da boca, passos largos, não sinto os dedos dos pés.

dois homens discutem. penso que talvez a típica disputa territorial dos arrumadores, sigo em frente. mas os meus olhos agarram uma mão que aperta uma garrafa partida.
páro e alerto. ele tem uma garrafa partida. as palavras chegam-me vagas, um sotaque, um torvelinho entre os berros de um e os sussurros lunáticos do outro. queres-me matar? este é redondo e escuro, de casaco verde que deve ser pouco consolo neste frio. tem uma faca. o outro tem uma ponta-e-mola, aninhada no punho. o outro, de fato, gravata e cachecol mas cabelo desalinhado e óculos demasiado grossos, um olhar demasiado perdido, mais perdido, tem uma ponta e mola.
percebo a garrafa partida. para arrumador de espírito enevoado de vícios ou só demasiado azar na vida, até teve presença de espírito.
procuro um polícia. desespero, o frio a cortar-me os olhos e o medo que se corte algo mais, à procura no meio de tanto sobretudo, tanto fato e gravata, tanto salto agulha, procuro uma merda de uma farda azul escura. não. está demasiado frio para se estar na rua. e os centros comerciais até têm segurança privada.

por isso aproximamo-nos. continuam a esbracejar, mas vêem-nos chegar. o homem redondo parece aliviado por não ser transparente. castanho transparente como os cacos da garrafa que leva na mão. o outro fica desnorteado, contrariado. diz meia dúzia de ininteligências e contrafeito lá se vai afastando. fica do lado de lá da fila de carros, finge que se vai embora. mas ainda lhe vemos a cabeça desalinhada a aproximar-se de novo. vai. vem. finge que olha para os carros. estranho homenzinho pequeno de olhos perdidos e cabelo embaraçado, estranho homem que veste um fato mas que veste aqueles olhos e a mão em volta da ponta-e-mola.

ficamos de guarda. de pé, no meio do estacionamento, o homem pequeno a desistir, a sumir-se no meio dos outros fatos e gravatas, e nós a ouvir aquele sotaque do homem redondo aliviado, repetitivo, em ladainha exaltada.

uma hora aqui. olha as coisas, os carros. tem uma faca. meu peito queria matar. é maluco.

a minha cara não tem nada a dizer. pouco interessa. mesmo que bem articulado, nunca me conseguiriam explicar o que aconteceu ali.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

ano novo, peça... velha

dez da noite é sempre uma boa hora para receber uma chamada do antigo trabalho a pedir para ir lá amanhã fazer uma substituição. no dia em que tinha combinado com os novos colegas ir assistir ao namorido. assim, um quatro-em-um: sei que há sítios onde ainda faço falta e onde faz sempre sentido regressar, volto por um dia ao mosteiro e aos bons dias de camarim demente na torre, tenho público "amigável" e vou fazer uma personagem que nunca fiz.

assim, do pé para a mão.

há coisas que nunca mudam. aqui entre nós, que ninguém nos lê, ainda bem ;)

vou para dentro. tenho de acabar de roer os cotos...

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

a posta de natal

este ano a coisa anda complicada. embora às vezes até tenha algum tempo, nesse mesmo tempo encontro-me num estado vegetativo de fazer inveja a muito tubérculo. a nível mental, também, vaziazinha de ideias ou de memórias de momentos destacáveis para colar por cá.
no entanto, muni-me de uns fiapos de força que encontrei por aí, arrastei comigo o namorido, e aqui está o nosso vídeo de natal. com música, animação e, claro, gorros vermelhos.

fiquem bem. aconchegados, a entupirem-se de doces como manda a tradição :)
eu vou ali recolocar-me a soro a ver se recupero.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

29


foto roubada à Manel

meia-noite com a alcateia, pequeno-almoço na cama, estrelas de feltro ao lanche com a boneca.

passeio de mãos dadas a olhar para a nossa amiga que, só hoje, trazia brincos*.
seria para a minha festa?

*vénus e júpiter, amor e criação do dia, segundo uma especialista da coisa.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

bonjour

o ambiente no meu camarim é geralmente épico. língua afiada e pouca cafeína, acho eu. portanto entro, maquilho-me a contar até duzentos para não rebentar com as enormidades que se vão acumulando no ar, e saio a abrir para aquecer no corredor.

no entanto, hoje aconteceu um pequeno milagre.
os clássicos da disney, em brasileiro, salvaram a minha manhã.
e por isso, agarrei a oportunidade e cantei tudo o que me lembrava, fazendo as vozes de todos os personagens incluídos em cada número.
em plenos pulmões.
eu, que não canto.

só por um bocadinho de paz, de gargalhadas com gosto enquanto pintava [literalmente] o focinho.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

tu és tão grande



deixa-me ver a tua mancha.
mas és uma pessoa, não és?
vais sair daí?

mais ou menos.
[isso de] ir ou ficar.
onde estaria?

descansar. sim. só.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

são martinho


foto de espanta-espíritos

por estes lados a rua fria ainda cheira a lume.
em casa, uma manta, o aquecedor e a nossa mistura perfeita das melhores tradições: castanhas no forno e vin chaud.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

pânico combustível

na bomba de gasolina, ouve-se a voz roufenha de uma rapariga da caixa:
- senhor da bomba cinco, desligue o telemóvel.
começam a rodar cabeças à procura do imbecil. volta a voz, um pouco mais alterada:
- senhor da bomba cinco, por favor desligue o telemóvel.
vemos o imbecil, continua imperturbável - vá, talvez o barulho do intercomunicador esteja a chatear um bocadinho, mas pronto -, telemóvel numa mão, mangueira de abastecimento na outra. esbracejamos, mas nada. eu começo a gritar na direcção do imbecil, tentando comunicar pelo único meio que acho que ele compreenderá: "ó senhor! trrim-trrim não! gasolina! fssst cabum! morrer! explosão! dói!" a menina da caixa insiste, cada vez mais nervosa:
- senhor da bomba cinco, é proibido falar ao telemóvel. está a ouvir? desligue o telemóvel. senhor da bomba cinco?
o meu namorido começa a encaminhar-se na direcção do imbecil, fazendo-lhe sinais para parar. abana-o para ele levantar os olhos. ele lá se apercebe que a conversa é com ele e desliga. no ar, a última frase em pânico da rapariga da caixa:
- senhor da bomba cinco, sou muito jovem para morrer.

os senhores da bomba seis têm um ataque de riso no meio da estação de serviço.

domingo, 9 de novembro de 2008

quando se pensa que já se viu tudo

vai-se comprar farinheira ao supermercado e vê-se numa estante um Trivial Pursuit edição DVD...
porque deve dar muito trabalho às novas gerações essa coisa de atirar os dados ou mexer o queijinho.

chega-se a casa e, abananadamente, descobre-se que até há a versão digital do bicho, tipo Game Boy, ou para os mais modernos, vá, PSP, para acabar com o incómodo dos cartões...

medo...

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

um pedaço de história americana

nos bastidores de um teatro em Lisboa, uma colega estava quase histérica no camarim, de contente. durante o aquecimento, em vez de "força, merda", gritou-se "Obama".
soube por fonte fiável que noutro espectáculo uma "menina" da Brízida Vaz também gritou, mas em cena, pelo Obama [aqui entre nós, lixando um bocado toda a dramaturgia do Gil Vicente, eheh]...

hoje está tudo parvo em bom.
faço parte desse sentimento.
sei que um homem não resolve uma crise mundial, mas identifico-me mais com as suas intenções e planos práticos do que com outros.
e sei que, acima de tudo, um povo inteiro que vivia arreigado numa pequenez de espírito assustadora deu um passo incrível por cima dos costumeiros preconceitos fúteis para acreditar na força e propostas desse homem.
e como, por acaso, esse povo tem uma influência gigantesca em tudo o que se passa por todo o lado, eu agradeço.

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

adenda do dia não senhor

descobri entretanto que a causa de o meu despertador não ter tocado foi, literalmente, isso: o altifalante do telemóvel [meu despertador] pifou. assim, da noite para o dia. portanto agora o piqueno não toca, só vibra. também não posso falar em altavoz no carro. o que me vale é que com auscultadores ainda posso ouvir música no metro...
para breve, o enterro do dito pequenito, que não sei bem como vou substituir...

ADENDA DA ADENDA:
o namorido lá me esventrou o telelé e arranjou-o! iupi!