o sangue novo
ontem viajámos no tempo. devagarinho, primeiro de passos envergonhados. os olhos são os mesmos, terão apenas outras histórias para contar. os gestos e os abraços pareciam não ter conhecido mais um segundo. parecia que tínhamos parado no tempo, ou recuado mas no bom sentido. a ida e a volta e as pedras que nos reúnem sem podermos pisá-las outra vez. foi estranha, a sensação. mas familiar, quente e desenvolta. de pantufas, pode dizer-se. no chão empedrado mas de pantufas. com os fantasmas colados às costas. estávamos assim, como sempre e há tanto tempo que não. isso não devia ser possível nestas dinâmicas de grupo.
pergunto-me como teria sido se tivesses deixado este sangue novo correr-te nas veias, nos corredores, sem medo de nós, percebendo que caminhávamos todos no mesmo sentido e com o mesmo respeito. com diferenças mas o amor intacto. onde te queríamos incluído.
pergunto-me se pensarás nisso, lá longe disto tudo mas com essa aura pegajosa que deixaste que nos afastasse. que te mentisse sobre nós. se tens consciência que essa aura é pegajosa e que te mentiu. que te afastou de um novo fôlego. em que seria novo mas contigo. como daquela primeira vez em que nos pediste para não deixarmos o teatro morrer.
ontem senti esse sangue acordar. doeu, que as cicatrizes avisam sempre o tempo.
acordou logo, o sacana. entre frango, alho francês à brás e duas de tinto...
tu, aí, lá do outro lado do oceano, sentiste? é que, num erro de logística, até se pôs a mesa a contar contigo.


