segunda-feira, 2 de novembro de 2009

5º aniversário

este meu bloco de notas nasceu a 11 de Outubro de 2004.

não te arranquei páginas, não te-me escondi, rasuras e tudo, como eu cicatrizes e tudo, o que foi foi para ser o que se é. mudas comigo sem mudar de sítio porque assim sou eu, não fujo, fico, bato o pé e quem vier que venha por bem ou leva porrada. 

polegada há-de ser sempre polegada porque vire por onde virar serei sempre polegar e o meu mundo é uma amálgama de impressões digitais.

para quem cá vem parar por engano, já vai sendo tempo: 1 polegada = 2,54 cm. boa viagem.

para ti, que ficas, que estás, quero que saibas, e apesar da era do facebook ter chegado... gosto-te, blog. parabéns.

sábado, 31 de outubro de 2009

halloween

como tradição, o halloween tem muito mais graça.
mas - e não sendo católica - nossa nossa ainda vai sendo a do pão por deus...

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

beautiful revolution


tirado daqui

terça-feira, 27 de outubro de 2009

assistência técnica ZON em alvoroço

dizer que se usa um mac e que não há pcs em casa para fazer os testes de internet.

sábado, 10 de outubro de 2009

primeiro amor e um punhado de neologimos

apaixonei-me por ti de caixão à cova quando tinha 9 anos. antes disso já me andavas a rondar. aprendi a ler e a escrever e a falar e isso libertou-me. devagar, em pequenos sabores no recreio, ao fim da tarde nos têpêcês em letra ensaiada porque nunca sabemos como há-de vir a ser a letra da nossa vida. sem medo do apagador, direita na cadeira, amarrecava-me para fazer a perninha do 'a'. e as regras todas de como se faz acompanhar o quê de nove, atrás de um bê ou de um pê vem sempre um mê. e eu praticava a letra, uns dias mais espraiada, outras mais arredondada: esfolei demasiado os joelhos para ser feminina, mas sempre gostei de batom, era assim, simples, podia ser-se tudo ao mesmo tempo porque há misturas que não fazem mal ao fígado.
achei graça, dizia eu, a isto das letras, assim o caderno falava comigo e era eu que o punha a falar e sabia como dizer o que me ia na gana.
ria-me muito. sempre me ri muito

- é um problema que tenho, há-de dizer o cinzentista e o intelectual pseudo-atormentado -,

mas também dava caneladas. agora só digo palavrões entredentes e atropelo os outros com assertividade a eito, estou muito mais comedida.

mas dizia que me apaixonei. sabias? eu também não, que isso de paixões era só trocar bilhetes por baixo da carteira e roubar beijos ao Carlos dos olhos verdes. por isso não dei por nada. e quando não se dá por nada, a coisa entranha-se muito mais devagar, e bem mais fundo.

como o outro amor da minha vida que apareceu em simples silêncios no escuro frio e uma pessoa sem dar por nada.

o problema de não se dar por nada é que é como fumar cigarros. sabe bem um de vez em quando, e quando sabe bem uma pessoa volta lá.

às tantas fumo-te um atrás do outro.

mas tu não fazes mal à saúde. quer dizer, até fazes, se formos práticos e isso do dinheiro e dos que controlam. mas hoje não me apetece isso. hoje apeteces-me tu e contar-te como foi.
estiveste lá sempre, simplesmente, a olhar para mim. e eu a olhar para ti e a namorar-te sem saber. começaste, portanto, com o olhar. dizer coisas. começa-se por dizer com os olhos e com o choro e assim. e depois dizem-se coisas e deixamos de chorar tanto. viciou-me sempre aprender a dizer.

então aprendi a falar e a ler e a escrever não necessariamente por esta ordem. e pronto.

e depois vieram dizer-me que havia quem ensinasse a falar melhor e que podia dançar e cantar e descobrir o que é que os poemas querem dizer. nada como um poema para engatar uma miúda de nove anos, já sabes. junta isso com a música. a verdadeira, a que nos pega pelos cornos, dá-nos arrepios sempre, apanha-nos sempre de surpresa, mesmo que a ouçamos ininterruptamente. numa palavra, vá... Piazzolla. percebeste agora?

pronto, na sala 8 às terças e quintas podiam ensinar-me isso tudo e como eu não tinha aulas de Religião e Moral, fui. de caderno novo, em branco, que sempre gostei desse cheiro e do branco e do ritual sagrado de pousar pela primeira vez a caneta no caderno. tem é de ser a caneta perfeita.

adoro descobrir as canetas perfeitas.

muito direita na cadeira olhos esbugalhados e caneta em riste, vinquei a capa do caderno para não me bater na caneta e atrapalhar a letra perfeita da primeira aula da primeira página. bem aberto, o caderno, como a alma. sempre aprendiz.

abriste-te a mim em fotocópias na pontas ovais de unhas nacaradas em dedos enrugados, recortes de livros montados numa só página com um vago cheiro a toner e a laca da professora. e o batom vermelho e eu a gostar de como o batom vermelho se arabescava nas sílabas dela que eram poemas e queriam dizer coisas. mas acho que foram os olhos dela, também. brilham, os olhos destas pessoas apaixonadas que não sabem. brilham de forma diferente porque só têm de falar para fazer amor e isso é especial. eu acho.

porque é tudo falar e explicar os poemas com o corpo. és tão simples que não me dei conta que isso era o que se chama de amor. pensei que era coisa tortuosa, que arranca noites de sono à vida. arrancas, mas isso é quando queremos viver contigo para sempre e não podemos. fora isso, tudo bem.

fora isso, tu por ti como tu és por seres quem és, és simples.

pode-se aprender a dar as mãos e contar histórias e cantar e dançar e é tudo para dar, nada fica só aqui, nada pode ficar fechado, é a lei. sem medo de tocar. eu nunca tive medo de tocar mas depois tinha medo que tivessem medo que lhes tocasse. e contigo dependemos disso, de tocar e de que nos toquem. com os olhos ou com as palavras. no arame, sem rede, no ar ou debaixo de água, só dependemos das palavras e do toque e com essas armas que podem ser de arremesso precisamos de tocar lá, do outro lado do espelho, ou rebentar com a quarta parede, se quiseres ser técnico.
por isso dei por mim contigo todos os dias para te saber de cor.

cor, s.m. coração afecto desejo coragem inclinação. de cor e salteado: muito bem, muito a fundo.

saber muito bem, muito a fundo. sabe muito bem, muito a fundo, é isso mesmo, o dicionário às vezes explica.

tinha nove anos quando me deixaste entrar. e ontem percebi, quando lá voltei, que foi há vinte.

sábado, 3 de outubro de 2009

os carros das eleições

quando era miúda, os únicos carros com música que passavam na rua eram, de facto, os carros dos partidos em época das eleições... e os do PCP e associações sindicais em qualquer época aleatória. por isso, vínhamos à janela, ver o carro enfeitado com bandeiras e "dizeres".
não havia a chamada pegada ecológica e ainda se gostava do festival da canção e, portanto, das canções dos partidos - que, na época, ainda tinham partidos.
eu entretinha-me a decorar as músicas e depois decidia que os meus pais tinham de votar no senhor que tinha a cançoneta mais mexida - coisa que fez corar de fúria a minha mãe um par de vezes e, se eu tivesse na altura um alter ego adulto, far-me-ia dar-me uma eficaz belinha na minha pessoa in [ingénua, inocente e infantil].

hoje em dia é outra fruta. a coisa de um carro passar com música não faz virar [muitas] cabeças, simplesmente calculamos que o dealer está a fazer o giro na nossa rua.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

torre de marfim

a mulher cresce entre as insensatezes da vida. há chão que queria pisar. há forças que fogem da mão. o hesitante equilíbrio entre correr e ficar parado. o simples parece-lhe demasiado complicado, nada corre como nos filmes. ri-se e o amargo outra vez.
retoma-se no espelho, de gestos certos mesmo que falhados e tira o dia do rosto. investiga-se para lá da moldura dos olhos e não sabe o que encontra. há vestidos pendurados na memória do querer, num quarto paralelo, entre os frascos de creme para a solidão. vêem-se nitidamente naquele lago de açúcar queimado. não são gavetas nem imagens confinadas, são espaços imensos de luz, janelas abertas e portas escancaradas, de vento contente rodopiado pelos passos de quem nunca está só. e quase ouve o tilintar de copos na sala. já vago e gasto, o som, de tanto o pensar. recua. está demasiado longe.
já não se esforça tanto, sabe. já não pede ajuda, ironiza. convive consigo e basta-lhe que não lhe baste sem chorar. está crescida, seca, a menina.
de vez em quando dá duas passas num cigarro e fica a ver os seus desenhos crescerem nas paredes. fecham-se mais, as paredes, mais preenchidas, outra vez o estranho equilíbrio. ocupa-se nesse preenchimento como se de gente se tratasse, os amigos mudos, as suas presenças no escuro morno, afinal é para isso que ocupa o espaço, para haver espaço para quem não vem. organizadinho a boa caligrafia num caderno deixado a meio pelo desalento, onde se torna com vontade a cada nova conversa.
senta-se no vazio de madeira corrida, o outro eixo partido, o elo perdido. rasga-se-lhe um pequeno sorriso de dor, na cicatriz do costume. contempla as histórias que já não são suas, pergunta-lhes se voltam. depois lembra-se que não gosta de não ter resposta e vai-se embora com um ardor no peito. já gastou as palavras.
parada dentro de si abre a mão e agarra-se. é pequena, a mão, mas é o que se arranja. há noites de quebra, há quebrantos na noite.
passa um carro e sai porta fora dos olhos a passo acelerado.

uma respiração lá ao fundo recorda-lhe que nem tudo estagna, que há algum consolo na distância.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

da pausa

depois de meses de vozes, alheada do mundo, impôs-se uma pausa.
enquanto esperava, fugi.
sete dias na paz do Alentejo. amor, azul e fotossíntese.
já vi pessoas, assim muito de quando em vez, mas já fui vendo as minhas caras.
e continuo à espera que o trabalho resolva arrancar.
pode ser que quando lhes der a vontade, eu já não esteja disponível.
pode acontecer. porque hoje recebi uma mensagem: ensaios já quinta-feira.
enquanto sim e enquanto não, fica aqui a promessa: tenho de voltar a escrever aqui.
tem de ser. sinto-lhe a falta, apesar de não ter muito para contar...

quinta-feira, 23 de julho de 2009

a formiga avariada

sonho em australiano dobrado em português, com camisas havaianas e tudo. à medida que falam comigo no sonho, além de responder e viver o drama, dei por mim a corrigir batimentos.

é o meu verão possível: ficar a ver praias e ondas e biquinis e bronzeados pelo ecrã, num estúdio escuro. pôr as palavras nas bocas dos veraneantes e mandá-los para quem está de férias poder comparar notas. o mar a sério, esse, vejo-o ao longe entre o glamoroso skyline dos prédios do Dafundo, quando venho à rua fumar um cigarro.

qual formiga avariada, estou a trabalhar para lá do humanamente aconselhável no verão.
e tive de recusar trabalho - comida - que me iria sustentar no inverno.

amigos? nem vê-los. posso sempre aconselhar uma excursão ali para os lados do Dafundo, essa bela localidade.
o que me vale? o namorido ter horários tão avariados como os meus, e os técnicos serem, de facto, os meus melhores amigos, e os actores serem tão extraordinários a gravar como são como pessoas.

sábado, 11 de julho de 2009

fogo de artifício

hoje é o dia das festas.
não estás cá para fotografar as luzes.
por isso, nem me arrasto até à janela para ver.

terça-feira, 30 de junho de 2009

crisis management

taquicardia de cada vez que toca o telefone, respirar é tarefa árdua no fio da navalha.
erradamente, pensei que já estava dispensada de aturar depressões e bipolaridades, pensei que já tinha tido a minha dose, mas afinal ainda terá de haver espaço na paciência para o malabarismo desses tristes fados entre ftps, relatórios de erros, revisões, marcações, remarcações e gravações.
a vida não tem tido banda sonora, de auscultadores nos ouvidos, olhos divididos entre imagem e letras, frases à letra e jargão especializado.
a contrapartida é das 5 à meia-noite, com a melhor equipa que podia pedir, aprender - sempre - vendo fazer, indicando e corrigindo, agudos graves e entoações, rindo sem dúvida às dúvidas e enganos, fechados numa cápsula alheia às confusões.
o bom trabalho faz-se com boas pessoas e pessoas boas.
não há praia, não há sol, há café na esquina se houver tempo, mãos dadas na cama e correr para o próximo ponto.
dentro em pouco o resultado estará à vista, escrutínio de público-alvo e engravatados que acham que sabem do que o público-alvo precisa. [contra mim falo, mas ainda sou a favor das legendas, de aprender a ler e a saber línguas estrangeiras. assim o trabalho será sempre sofrível no meu ver demasiado treinado para o erro].
descubro em mim de vez em quando uma gestora, de crises, de palavras, de jogos de anca e paciências, de exigências descabidas e de gente improvável.
o ridículo nisto tudo é o saber inabalável de que para tudo doer menos, era apenas preciso deixar-nos usar o bom senso.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

entalada

estou entalada entre joguinhos políticos, bichos esquivos, roer a corda e lavar as mãos.
pergunto-me se respire, se faça o que me manda o mau feitio: deixá-los desorientar-se enquanto vou para a rua ler um livro ou acabar de pintar o meu quadro. que me telefonem quando se entenderem, que me digam que já não precisam de mim quando nunca cheguei a poder fazer o meu trabalho, ou que me digam que o faça então nas minhas condições.
... esta última é só para me rir um pouco.

não tenho paciência politizada, não gosto de jogos de anca, do jogo da corda. disse logo que os objectivos eram impraticáveis, perguntei - oh, inocente frontalidade - porque é que não deixam cair este projecto se não têm condições para entregar uma coisa de qualidade. porque sou competente para perceber o que é fazível ou não, raios me partam se não trabalho nisto há 7 anos e se as pessoas que se cruzaram comigo no plano prático não voltam sempre, com um "vai ser um prazer voltar a estúdio contigo". por isso não faço promessas que não consigo cumprir e prefiro dizer que não a dar falsas esperanças. defendo-me e àqueles que vão à luta comigo. é assim que trabalho.

pus as minhas limitações: ou me dão as condições mínimas de prazos e quantidade de material entregue ou não quero. disseram que sim, que diminuíam a "encomenda", para se poder entregar no prazo, que esse não se podia alterar. ponderei que começando impreterivelmente no dia x, seria fazível. aceitei. tratei do que me competia e fiquei à espera da chamada do "está tudo a postos, podem começar". já tenho os actores, os "meus" actores - os rápidos, que não falham, que têm talento. já tenho um plano de horários de estúdio, já vi toda a primeira temporada da série em vez de ir jantar fora, já pesquisei personagens e já queimei as pestanas com a distribuição de vozes - que são metade das que precisava. já me mentalizei que terei pelo menos 13 semanas a trabalhar um mínimo de 12 horas por dia, sem folgas ou fins de semana, que se calhar vou ter problemas se me convidarem para começar ensaios em Setembro. mas isso é problema meu. só preciso que me digam que têm as coisas para se começar a gravar. para eu começar a trabalhar.

eis que não chegam chamadas, ninguém tem previsões, não há prazos e até já me perguntaram "não dá para gravar com o vídeo do youtube"? aí percebi a insanidade do desespero.

chamem-me control freak, que sei que sou, mas quando não tenho controlo sobre o meu próprio trabalho, quando não me dão o material para trabalhar, quando o elo da cadeia se quebra mesmo antes de chegar às minhas mãos e me vejo rodeada de má gestão, eu entro em parafuso. fico para aqui feita barata tonta apesar de não poder fazer nada, a olhar para os dois telemóveis mudos, para os e-mails impávidos e a pensar que mais posso inventar para fazer a roda mexer.

paro e reparo no ridículo. e só me apetece dizer-lhes que enfiem o maldito dinheiro no cu.

rotfl

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eheheheh

terça-feira, 16 de junho de 2009

disco riscado



chega uma pessoa para gravar e está o outro pós-estampado com o braço do rato ao peito.
tu queres ver que os bonecos vão ter ruído?

sexta-feira, 12 de junho de 2009

subúrbio - 03:06 a.m.

da janela vem a brisa fria da madrugada.
pequeno silêncio entre cliques de rato.

- estás a ouvir os sapos?

segunda-feira, 8 de junho de 2009

meias nos pés ou pretérito imperfeito



se há dias que parecem por dizer, é do incompleto pretérito imperfeito onde vives.
onde te vou buscar para um pouco de festas no cabelo ou umas meias porque tenho os pés frios.
os meus pés lembram-se de ti e o coração ainda te ouve cantar. apesar de já não me lembrar da voz sei que era aguda e trinada como nos filmes antigos e não me lembro bem mas era assim. e confesso que se me atravessa um grão na garganta.
há papoilas lá fora. perderam-se da primavera mas fizeram-se à estrada porque as memórias não se esvaem do nosso mapa genético só porque o dia não trouxe sol.
é um consolo pequeno mas é consolo da família do abraço de vento que sinto de vez em quando. não me sais do sangue e da lista das saudades e do riso de miúda pequena e das coisas que dizias que eu digo e que ainda me chamo ao espelho e da obstinação e do revirar de olhos silencioso de quando em vez.
sento-me a conversar com os pés no teu colo.
eu estou bem, sossegada, sossega, em dias azuis como tanto gostavas que eu tivesse. tenho-os aqui, na palma da mão ou não fosse eu polegar das mãos cheias de tinta que sabes que não sou de assim-assim e se não tenho azul vou ali misturar e agarro no pincel com a tua vontade que me sopras no ombro. eu estou bem, já te disse, que os altos e baixos são caminho e os pés doem às vezes mas são os meus pés que o calcorreiam e o peito ainda me deixa recuperar o fôlego. de mãos dadas, contei-te?, sim, contei, que fui logo a correr contar-te desde o primeiro dia em que deixei que me dessem a mão. o que tu te riste, sei que te riste de certeza quando viste os meus olhos espantados a ver, a dizer que deixei que me dessem a mão. por isso o azul, aquele azul, percebes agora?
enrodilho-me meio dorida e olho para as meias nos pés. penso em ti.
feliz aniversário, avó.

domingo, 7 de junho de 2009

paralelismos politicamente incorrectos

devo ter sido das poucas pessoas que em vez de pegar no carro na sexta e só voltar no próximo domingo a casa [isto se não espatifaram o popó nas filas de sexta à tarde], peguei no popó para fazer os 15 km que me separam da junta de freguesia onde ainda estou recenseada, para votar. qual senhor bigodudo pega religiosamente no cachecol, nas bandeiras e na geleira que a Maria encheu de jolas e que vai, ao domingo à tarde - ou à quarta logo a seguir ao trabalho sem passar na casa da partida - para a catedral do seu querido clube, gastar o dinheiro dos livros da escola do mais novo.

devo ter sido das poucas pessoas neste pequeno bairro de subúrbio que ficou a roer as unhas até saírem os resultados da última freguesia, qual bêbado na tasca da esquina já no desempate por morte súbita, enquanto comentava de cigarro no canto da boca os discursos pedantes e desenquadrados daquilo para que foram efectivamente estas eleições, como quem comenta os comentários ao desempenho dos árbitros e os fora de jogo mal assinalados.

e fui com certeza a única pessoa neste pequeno bairro de subúrbio que, assim que viu finalmente as letras maiúsculas no oráculo da SIC Notícias, desatou aos saltos e aos berros como se tivesse ganho o campeonato. só não fui apitar para a janela porque não sou de apitos e a miúda do segundo esquerdo já estava a dormir.

eu sei, são todos uns aldrabões. eu sei, ganham muito e eu não ganho nada com isso. eu sei, não vêm para a porta do teatro com bandeirinhas só porque faço bem o meu trabalho. mas que querem? estava num dia sensível, sei lá.

para quem quiser saber como se portou a sua freguesia, a Comissão Nacional de Eleições está a falhar, mas no site da RTP dá para saber tudo certinho...

[agora aqui entre nós que ninguém me lê: deliciou-me encontrar no rosto de Manuela - apesar do seu impressionante discurso tão bem escrito - resquícios da ministra da educação que outrora conhecemos e amámos, à medida que a sua expressão ia passando de "pronto, vejam, também sou uma cota fixe, também canto PSD olé, desde que não cheire a couratos" para "vá lá agora a sério, essa franja serve para se lembrarem de quem são os vossos pais. e baixem os braços pelo amor de Deus" para "o António Variações - esse famoso ícone do PSD - deve estar às voltas na tumba", para "já me lembro porque é que não posso com menores de 40 anos", com as intervenções etilizadas da claque desembestada, perdão, dos jovens militantes que galhardamente lhe interrompiam o texto].

segunda-feira, 25 de maio de 2009

say it with flowers


© mário sousa

21 de Maio a 6 de Junho . quinta a sábado | 22:00
Lux.Frágil
com | Graciano Dias . Maya Booth . Rita Brutt . Miguel Moreira . Francisco Tavares
encenação | António Pires
texto | Gertrude Stein . tradução | Luísa Costa Gomes
cenário | João Mendes Ribeiro . figurinos | Luís Mesquita
música | Paulo Abelho . João Eleutério . desenho de luz | Vasco Letria
informações no site oficial . espreitem o vídeo no facebook


há coisas que me ultrapassam. não sei porque gosto. sei que gosto. muito.
porque podia ser tudo o que detesto. podia ser frio, asséptico, plástico, estético e só plasticamente estético. podia ser só bonito. podia ser vazio para, como muitos que por aí andam, supostamente pôr-nos a reflectir sobre o vazio. o tal vazio bonito.

mas say it with flowers preenche-me.
não tem uma história para contar. tem algo de burlesco, algo de físico, de coreográfico e, acima de tudo, algo de químico. chamar-lhe-ia a boa e velha alquimia. a alquimia do sentimento sem descrição.
mostra-me, contra todas as minhas resistências, que todo o género de teatro pode ser bem feito. desarma-me olhando-me nos olhos. ri, chora, salta, corre e cai. joga à macaca. descruza-me os braços e depois levanta-me a cara e pede-me um abraço.
o texto de Gertrude Stein não tem histórias. tem música feita com os sons das palavras entrelaçadas. e pronto, é isto. podia ser só isto.
mas através de uma sincronia de estranhos exercícios ou danças de cores e portas de vidro e espelho à vez e a música vibrante entrecortada e a língua que se enrola à volta das letras, 5 actores criam o mundo imaginário de António Pires. e há nele lágrimas a sério, e risos a sério e imagens fictícias de momentos de todos os nossos dias. que arrebatam. mesmo que as palavras não as contem.
é um exercício drenante, o de viver este espectáculo. é sensorial, na total abrangência da palavra.
é estranho gostar disto. mas foi-me estranhamente fácil gostar.
de facto, o Pires é o Pires é o Pires...

aconselho a todos, mesmo aos cépticos à freakalhada como eu.
a temporada - como de muitos espectáculos sem panelinhas - é curta. mas pode-se ficar por lá já a postos para o pézinho de dança.

terça-feira, 19 de maio de 2009

cansaço extremo

durante o dia, estou nas obras em casa de uma amiga. saio de lá para ir dobrar bonecos. volto para as obras. e ensaios a partir das 11 da noite...
a estreia é já na sexta. e as mãos que sentem o tempo que vai escoando devagar, para o momento em que já não poderei fazer nada por eles...

segunda-feira, 4 de maio de 2009

koniec*



obrigada, Vasco Granja.

apesar de agora eu ser a única pessoa no país a admitir (sem medo de calúnias intelectualóides) que na altura achava os bonecos checos uma seca. são, ainda assim, silhuetas vivas que guardo na memória de dias compridos de algodão doce.

enfim, mesmo assim, sempre criança, a gostar de bonecos. a fazer bonecos.

graças a si.

*fim, em checo.