segunda-feira, 5 de abril de 2010

há algo que me rasga

agito os farrapos.
esbofeteio o ar.
estremeço.
quão frenética me conheces?
agora vibra. agora galopa.
é suor? é sal.
danço.


Portishead - Chase The Tear from Mintonfilm on Vimeo.

terça-feira, 23 de março de 2010

because people have a way of blinking and missing the moment

it was awfully nice sharing these most unpleasant milestones with you...

. californication .

terça-feira, 16 de março de 2010

algo

algo denso, escuro, escorre nas paredes. acumula-se de baixo para cima, espessando as paredes que incham na direcção uma da outra. algo crepita, vago, ao longe, uma cacofonia desencontrada, desconcertada. vai-se calando devagarinho, desaparece como aquela baforada de fumo no peso de uma manhã fria. é a sensação que fica. um eco, talvez. bata-se na parede e regressará talvez um sopro. pingado. não vale, assim não vale, é preciso barulho e já não há voz. desde quando é preciso nadar para se ficar seco? e quem gostava de, uma vez, ficar quieto?
uma medida. de quantos passos se faz a claustrofobia. já se medem a dedos, não passos. seriam polegadas, eventualmente, no sorriso irónico de quem cá passa.
e de quantos passos se faria o abraço. esses são largos, com botas de sete léguas. afastam-se. pois. afastam-se e o algo escuro e denso escorre goteja agarra-se e fica. já esse, fica.

outro sorriso irónico.
afinal, o abraço é a cura para a claustrofobia.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

pequeno almoço

comme il faut.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

coisas que me danam

esclareça-se: o teatro e a dança são artes vivas [como em "ao vivo"]. contando histórias ou não-histórias, vivem|existem da|na comunicação a outrem-em-massa [chamemos-lhe público]. devem ser, no final de contas, um serviço público não obrigatório e não são totalmente auto-suficientes.

esclareça-se ainda mais: uma grande percentagem das companhias mais badaladas não põe um "ovinho" cá fora [entenda-se por ovinho, espectáculo] sem "choco" valente [leia-se por choco, subsídio].
esclareça-se que os subsídios vêm dos nossos impostos e são distribuídos de acordo com certos e determinados critérios de avaliação em concursos públicos [e não nos alonguemos por aqui, para eu não ficar com urticárias].
esclareça-se ainda que a maior parte das salas de espectáculos de Lisboa [convencionais] são pertença de empresas semi-públicas, públicas, ou das próprias companhias. a programação é efectuada com base em critérios de avaliação que... vamos encurtar - nos ultrapassam a todos mas conhecemos de cor. basicamente relembremos que uma companhia pequena|desconhecida não encontra espaço que não seja no vão de escada de alguma associação recreativa, ou numa sala "convencional" ali entre as 7 e as 8 da manhã de um 29 de Fevereiro. 
esclareça-se que um espectáculo demora meses exaustivos a ser criado, ensaiado, montado, afinado. que o dinheiro de um subsídio desaparece efectivamente - entre cenários e equipamento e divulgação e ordenados [de todos ou só de alguns] -, e que portanto deveria ser do interesse de todos que o espectáculo estivesse pelo menos um mês em cena [para deixar surgir o efeito da divulgação "boca-a-boca" - para vir então o público isento, começar a fazer algum na bilheteira e, obviamente saber o veredicto final: isto interessa ou não às pessoas?].

relembremos antes de avançar que o teatro e a dança devem ser serviço público - é para isso que lhes pagam. e as salas deveriam estar ao serviço do público - é para isso que lhes pagam.

alguém me explica então a nova moda dos espectáculos [das "grandes" companhias - subsidiadas] que estão em cena [nas tais salas grandes, boas, equipadas, sem pulgas e cheias de salamaleques] 3 dias-e-é-se-queres? 

domingo, 31 de janeiro de 2010

credo

apercebi-me no outro dia, ao passar numa livraria, que a partir de agora só poderei comprar dicionários em alfarrabistas...

do alcatrão . actualização non troppo

queria actualizar o post anterior com mais novidades, notícias, avanços.
mas depois do clássico "sacuda a água do seu capote", as notícias cessaram. que isto de serviço público não é para o jornalismo. nem para o site da Brisa.

era aterro, tinha problemas geológicos, mas afinal já sabiam disso tudo, mas ninguém foi ver porque a responsabilidade é sempre de alguém mas de ninguém em especial.
já têm lá as escavadoras e continuam a ver se a terra continua a cair.

agora esperem.
sentados, na segunda circular.
todos vocês, os 40 mil utilizadores.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

do alcatrão ou a importância do tom

a A9 - CREL é, na minha vida, a diferença entre demorar hora e meia ou meia hora a chegar ao trabalho. um percurso entre duas zonas sem transportes públicos que as unam.

na passada sexta feira houve um aluimento de terras na dita Cintura Regional Externa de Lisboa, de manhã.
soube pela rádio que cortaram uma faixa, no sentido oposto ao que eu seguia.
pensei... tudo bem, aquilo com umas vassouradas vai ao sítio até ao fim do dia, logo à tarde estou safa. estúpida. estúpida.
no regresso ouço pela rádio - já tarde demais - que afinal já ia em duas faixas cortadas e 4 km de fila.
e eu na fila. durante uma hora e vinte minutos.

quando finalmente passo pelo "sucedido", vejo primeiro que tudo uma fila de uns trinta - não estou a exagerar - topos de gama lindos e brilhantes estacionados ao longo da berma. mais à frente um ajuntamento de uns trinta senhores e senhoras, de fatos de corte impecável, sapatinho bicudo, pasta no braço e mão no queixo, visual profissionalizado pelo colete amarelo e o capacete da praxe. todos  observavam, sem mexer uma palha, o monte caído no meio da estrada.
monte de terra de seu nome, com M de Monte Grande, enorme e que ocupava toda uma faixa de rodagem, numa imagem curiosíssima porque ainda estava coberto de erva tenra verdejante e moitas. parecia que a montanha tinha esticado o pé gigante, para não ficar dormente, e o tinha assentado na faixa da direita.
bem, e o grupinho lá observava. nem uma pá à vista. um ancinho, ao menos um serviçal daqueles que fica parado na berma da obra de enxada em punho, qualquer coisa... nada.
receosa pelo meu regresso ao trabalho, vou ouvindo na rádio. o monte foi esticando a patinha e já vai na terceira faixa da auto-estrada.

bem, mas o que é que vão fazer quanto a isto? ainda não sabem. o tom vago mas assertivo - gostava de saber como se consegue, mas parece-me arte e dom apenas d'Os Escolhidos do Ramo da Análise, Construção e Orçamentação. usam muito os graves para a coisa parecer cabal e séria, mas algo carefree porque, por favor, não podemos falar de prazos numa situação destas...
primeiro uns dias para análise da progressão do aluimento. a prioridade é - dizem - o aqueduto das águas livres. percebe-se que não se ataque a coisa à idiota para ser pior a emenda que o soneto [ou a ementa que o cimento], mas nem uma vaga ideia do que vão fazer? não. o plano - assertivamente - é ficar a observar o movimento da terra durante tempo indeterminado. e depois - vai para os agudos, arrasta as vogais - logo se vê. portanto, já vê, - regressa ao assertivo - pelo menos umas semanas de observação.

eu penso de mim para mim... então se é assim, se eu mandasse,  os senhores do grupinho ficavam de castigo: sem os popós até resolverem o assunto. só para estimular a análise. 
e só por ter usado a expressão "derivado a" na rádio,  fica já sem a carta, não vá tentar surripiar o carro da esposa. mas isso sou eu.

mas alto, descrentes! para desengano de quem achava que eles não estavam a fazer mais que ver terra mexer, um laivo de esperança, de proactividade:
dizem que já contactaram o proprietário do terreno! [do Monte Caído, não da CREL, bem entendido]

...
pois, é isto
...

podia parecer que é para terem autorização para acesso à zona para agilizar as obras de limpeza e reforço da estrutura. podia.
mas é o tom, senhores, o tom em que o constatam. o tom acusatório e algo consternado de quem acha que o proprietário tem um pacto com extraterrestres; o tom "nós estamos a fazer tudo o que podemos e o que podemos fazer é limitado porque no fundo já não está nas nossas mãos"; o tom que exonera os senhores de fato da decisão, da escolha daquele sítio para fazer passar a estrada após - suponho - vastas análises e estudos; o tom que afasta a possibilidade de saberem que ali passava um leito de água subterrâneo; o tom que explica que isso foi afastado como problema porque na altura dos ditos estudos o tal leito estava seco; o tom que os iliba, no meio de tanto estudo, do planeamento da inclinação da construção, ou da previsão da interferência geológica a médio-longo prazo.

bom, meus caros, se foi necessário o uso desse tom, então está tudo compreendido, venham de lá esses ossos...

a minha cabeça, em tempo de desespero e adivinhando a fila IC22 - Calçada de Carriche - Eixo Norte-Sul - 2ª Circular - IC19 - IC17 CRIL, não pára. imaginou logo o telefonema consternado, a virar o bico ao prego.

"tecnicamente o monte é seu. portanto ou varre o senhor aquilo dali, ou vamos ter de fechar a auto-estrada"...

domingo, 17 de janeiro de 2010

o bilhete

entraste, simplesmente. recortaste-te na luz contra a penumbra atrás de ti. a noite já se fundia no céu azul. o outono é assim. recortaste-te não pela tua figura imponente, mas pelo vermelho da gabardine, subitamente incendiado pelos néons do restaurante. olhaste em volta e em cada resquício de movimento li que o sistema da loja não te era familiar. estavas mais próxima, agora. encostaste-te ao balcão. levaste a mão ao bolso enquanto esperavas que a velha dos sacos à tua frente fosse atendida. tiraste um pequeno leitor de mp3 de marca branca e carregaste num botão. levantaste o olhar e o empregado esperava-te. esticaste o pescoço para a frente, levando os dedos aos phones e tirando-os dos ouvidos. fizeste o teu pedido. as bebidas são self-service. seguiste-lhe o dedo indicador espetado e dirigiste-te aos copos, de passo hesitante. uma cola. lá do fundo ele perguntava-te mais coisas. quer queijo? quer salada? a tudo respondias com um sorriso cansado.
sentaste-te a comer isolando os olhos do mundo no aconchego familiar de um livro de capa usada, os pensamentos embalaste com essa qualquer música que voltaste a pedir ao leitor. estavas desajustada.

dei comigo com a sandes fria, só de ficar a adivinhar-te. não consegui. inventei-te uma história. mas precisava de pormenores.
por enquanto digo-te a música: Dead Combo. não tem letra, acompanha as palavras com mais discrição.

comeste a sandes com a lentidão suave de quem ainda tem tempo. sei isso porque viste as horas por duas vezes no telemóvel e parecias indecisa, já com o canto do pão na mão, se ficavas ou saías. saíste. e eu contigo, sem me notares porque não se notam tanto os fantasmas quando a música toca alta dentro da nossa cabeça. achei que devias ter medo da cidade à noite, também os ladrões passam mais discretos, assim.

radiohead - no surprises

sabias para onde ias. paraste nos semáforos vermelhos, mesmo que a estrada não tivesse carros. encostavas-te aos postes, num misto de espera dengosa, cansaço e tempo para consumir. nunca olhaste para trás. percebi onde ias. mas a poucos metros da porta paraste. abriste a mala e do que me pareceu ser uma agenda tiraste um bilhete. o candeeiro explicou-me que havia outro, que ficou ali, preso num clip. percebi-te. chegaste à porta e no mesmo gesto elástico encostaste-te a um separador do passeio. ali puxaste de um cigarro.

nouvelle vague - I melt with you

viste de novo as horas. e deixaste-te ficar, observando em volta os carros a chegar e parar à porta, largando gente de roupa fina. outros que passavam e abrandavam como se estivessem a ver um acidente no meio da auto-estrada. olhaste com atenção a formação de grupos, as pessoas que entravam orgulhosamente de envelope na mão, como que exibindo um troféu. os casais curiosos, as velhas cheias de laca, as gentes mais novas de roupas pendonas coloridas e penteados despenteados. lado a lado com as meninas de rabos de cavalo, argolas, camisa dentro das jeans e sapato de salto agulha.
indiferente às aparências, abanavas agora a cabeça com algo mais mexido com um meio-sorriso irónico nos lábios.

divine comedy - generation sex

lá dentro, os flashes, o burburinho que não ouvias, a reverência dos porteiros e a agitação que se notava nas janelas de vidro, de mulheres bem vestidas agarradas a telemóveis. apercebias-te de tudo com a naturalidade de quem sabe o que é mas sempre foi transparente. viraste-te de costas para a entrada e olhaste para o céu. ali quis que pedisses um desejo. viste as horas uma última vez, tiraste da algibeira o leitor e desligaste-o. o fio ficou preso nas hastes dos óculos de sol, que trazias ali também. empunhaste o bilhete e no mesmo andar lento e decidido entraste. não desapareceste na turba das lantejoulas. a gabardine não deixou. percebi o teu à vontade no meio de olhares jocosos porque sabias - achavas - que ninguém te olharia duas vezes. só deixei de te ver quando desceste as escadas. mas soube que voltarias, minutos depois, o cabelo mais sedoso e as mãos húmidas. resolveste-te então a entrar. estendeste o bilhete ao primeiro senhor careca de bigode que te apareceu, solícito, ignorando a figura pública atrás de ti. seguiste-o com um sorriso para fora da minha vista.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

crise no peito

hoje recebi um postal que me doeu no peito.
a crise em Espanha é tão real que já não se bebe café. e os meus tios, donos de um café, não podem, por isso, vir passar cá o natal este ano. pela primeira vez em... sempre...
a casa vai estar mais vazia. só nós. nós, sós. só.
se calhar não se justifica o bolo-rei. nem talvez a lareira. e a conversa solta perderá as vogais abertas e adocicadas.
não vai haver o momento da corrida para o quintal para ajudar a descarregar as malas, e embrenharmo-nos no perfume forte e na gargalhada da minha tia, nas bochechas frescas e olhos enormes da minha prima, na pacatez sossegada e brincalhona do meu tio. não se afogará a distância de quase um ano num prato de presunto com 1000 quilómetros, cortado por mim com a língua de fora.

inspiro forte e atiro-me à costura. as prendas não se poupam só pela distância. em breve, no correio, um embrulho grande com um bocadinho de amor alinhavado na nova máquina de costura.

um feliz natal para quem está desse lado. espero que estejam com todos aqueles que vos fazem falta.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

balançar

não gostei de dar por mim a fazer balanços quando pisei a terceira década.
de que serve encostar-me à ombreira da porta e olhar para a sala a ver o que lá está e o que sempre pensámos que por esta altura já devia lá estar? sabemos bem que o que está foi o que se conseguiu, que luta não falta por estes lados.

ponho de lado esses balanços e enveredo por outros, que o que me faz falta é rir. nesta vida que se me apresenta, há sempre factos curiosos...

ainda posso fazer compras na secção juvenil, mas quando acho que algo está mal, ainda armo arraial como se tivesse 2 metros de altura
ainda não tenho celulite
apesar de já estar na idade de usar creme anti-rugas, ainda estou a lutar contra o acne eventual
ainda sei de cor grande parte da primeira peça que fiz há... uns bons 10 anos. mas não sei o que é que comi ontem ao almoço. (bem, se calhar foi porque não almocei)
com meia dúzia de anos de vida nas dobragens, já dirigi uma boa dose de dinossauros com resultados extremamente positivos
ainda não me levo demasiado a sério, mas encho-me de medos a cada novo trabalho
ainda morro de medo de cada vez que tenho de cantar em público mas a minha vida não deixou de ser um musical
ainda gosto de cerelac
quando danço ainda faço coup de pied
ainda choro quando vejo um bom espectáculo de teatro
sou adepta ferrenha da utópica meritocracia
ainda prefiro papel e caneta, apesar de ter aderido aos computadores
apesar do facebook, ainda escrevo no blog
da empresa de onde me despedi há três anos - a bem da minha saúde mental e profissional - ainda me telefonam de tempos a tempos para pedir um código de internet que, já avisei mil vezes, não faço ideia de onde ande.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

elo

o regresso a casa faz-se de passos inseguros de quem não toma as coisas por garantidas.
são séculos debaixo dos pés. são vidas na roupa. são palavras que se atropelam à saída.
há um sorriso familiar da parte da tarde, há gargalhadas a que já tínhamos esquecido o gosto.
o corpo frio, falta de treino, estende-se para voltar ao elástico destes dias de pedras amareladas.
tem-se como prenda um encenador que fica e ri.
as articulações doem, estremecem. e a vaga lembrança sorri, cansada: amanhã há mais...

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

5º aniversário

este meu bloco de notas nasceu a 11 de Outubro de 2004.

não te arranquei páginas, não te-me escondi, rasuras e tudo, como eu cicatrizes e tudo, o que foi foi para ser o que se é. mudas comigo sem mudar de sítio porque assim sou eu, não fujo, fico, bato o pé e quem vier que venha por bem ou leva porrada. 

polegada há-de ser sempre polegada porque vire por onde virar serei sempre polegar e o meu mundo é uma amálgama de impressões digitais.

para quem cá vem parar por engano, já vai sendo tempo: 1 polegada = 2,54 cm. boa viagem.

para ti, que ficas, que estás, quero que saibas, e apesar da era do facebook ter chegado... gosto-te, blog. parabéns.

sábado, 31 de outubro de 2009

halloween

como tradição, o halloween tem muito mais graça.
mas - e não sendo católica - nossa nossa ainda vai sendo a do pão por deus...

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

beautiful revolution


tirado daqui

terça-feira, 27 de outubro de 2009

assistência técnica ZON em alvoroço

dizer que se usa um mac e que não há pcs em casa para fazer os testes de internet.

sábado, 10 de outubro de 2009

primeiro amor e um punhado de neologimos

apaixonei-me por ti de caixão à cova quando tinha 9 anos. antes disso já me andavas a rondar. aprendi a ler e a escrever e a falar e isso libertou-me. devagar, em pequenos sabores no recreio, ao fim da tarde nos têpêcês em letra ensaiada porque nunca sabemos como há-de vir a ser a letra da nossa vida. sem medo do apagador, direita na cadeira, amarrecava-me para fazer a perninha do 'a'. e as regras todas de como se faz acompanhar o quê de nove, atrás de um bê ou de um pê vem sempre um mê. e eu praticava a letra, uns dias mais espraiada, outras mais arredondada: esfolei demasiado os joelhos para ser feminina, mas sempre gostei de batom, era assim, simples, podia ser-se tudo ao mesmo tempo porque há misturas que não fazem mal ao fígado.
achei graça, dizia eu, a isto das letras, assim o caderno falava comigo e era eu que o punha a falar e sabia como dizer o que me ia na gana.
ria-me muito. sempre me ri muito

- é um problema que tenho, há-de dizer o cinzentista e o intelectual pseudo-atormentado -,

mas também dava caneladas. agora só digo palavrões entredentes e atropelo os outros com assertividade a eito, estou muito mais comedida.

mas dizia que me apaixonei. sabias? eu também não, que isso de paixões era só trocar bilhetes por baixo da carteira e roubar beijos ao Carlos dos olhos verdes. por isso não dei por nada. e quando não se dá por nada, a coisa entranha-se muito mais devagar, e bem mais fundo.

como o outro amor da minha vida que apareceu em simples silêncios no escuro frio e uma pessoa sem dar por nada.

o problema de não se dar por nada é que é como fumar cigarros. sabe bem um de vez em quando, e quando sabe bem uma pessoa volta lá.

às tantas fumo-te um atrás do outro.

mas tu não fazes mal à saúde. quer dizer, até fazes, se formos práticos e isso do dinheiro e dos que controlam. mas hoje não me apetece isso. hoje apeteces-me tu e contar-te como foi.
estiveste lá sempre, simplesmente, a olhar para mim. e eu a olhar para ti e a namorar-te sem saber. começaste, portanto, com o olhar. dizer coisas. começa-se por dizer com os olhos e com o choro e assim. e depois dizem-se coisas e deixamos de chorar tanto. viciou-me sempre aprender a dizer.

então aprendi a falar e a ler e a escrever não necessariamente por esta ordem. e pronto.

e depois vieram dizer-me que havia quem ensinasse a falar melhor e que podia dançar e cantar e descobrir o que é que os poemas querem dizer. nada como um poema para engatar uma miúda de nove anos, já sabes. junta isso com a música. a verdadeira, a que nos pega pelos cornos, dá-nos arrepios sempre, apanha-nos sempre de surpresa, mesmo que a ouçamos ininterruptamente. numa palavra, vá... Piazzolla. percebeste agora?

pronto, na sala 8 às terças e quintas podiam ensinar-me isso tudo e como eu não tinha aulas de Religião e Moral, fui. de caderno novo, em branco, que sempre gostei desse cheiro e do branco e do ritual sagrado de pousar pela primeira vez a caneta no caderno. tem é de ser a caneta perfeita.

adoro descobrir as canetas perfeitas.

muito direita na cadeira olhos esbugalhados e caneta em riste, vinquei a capa do caderno para não me bater na caneta e atrapalhar a letra perfeita da primeira aula da primeira página. bem aberto, o caderno, como a alma. sempre aprendiz.

abriste-te a mim em fotocópias na pontas ovais de unhas nacaradas em dedos enrugados, recortes de livros montados numa só página com um vago cheiro a toner e a laca da professora. e o batom vermelho e eu a gostar de como o batom vermelho se arabescava nas sílabas dela que eram poemas e queriam dizer coisas. mas acho que foram os olhos dela, também. brilham, os olhos destas pessoas apaixonadas que não sabem. brilham de forma diferente porque só têm de falar para fazer amor e isso é especial. eu acho.

porque é tudo falar e explicar os poemas com o corpo. és tão simples que não me dei conta que isso era o que se chama de amor. pensei que era coisa tortuosa, que arranca noites de sono à vida. arrancas, mas isso é quando queremos viver contigo para sempre e não podemos. fora isso, tudo bem.

fora isso, tu por ti como tu és por seres quem és, és simples.

pode-se aprender a dar as mãos e contar histórias e cantar e dançar e é tudo para dar, nada fica só aqui, nada pode ficar fechado, é a lei. sem medo de tocar. eu nunca tive medo de tocar mas depois tinha medo que tivessem medo que lhes tocasse. e contigo dependemos disso, de tocar e de que nos toquem. com os olhos ou com as palavras. no arame, sem rede, no ar ou debaixo de água, só dependemos das palavras e do toque e com essas armas que podem ser de arremesso precisamos de tocar lá, do outro lado do espelho, ou rebentar com a quarta parede, se quiseres ser técnico.
por isso dei por mim contigo todos os dias para te saber de cor.

cor, s.m. coração afecto desejo coragem inclinação. de cor e salteado: muito bem, muito a fundo.

saber muito bem, muito a fundo. sabe muito bem, muito a fundo, é isso mesmo, o dicionário às vezes explica.

tinha nove anos quando me deixaste entrar. e ontem percebi, quando lá voltei, que foi há vinte.

sábado, 3 de outubro de 2009

os carros das eleições

quando era miúda, os únicos carros com música que passavam na rua eram, de facto, os carros dos partidos em época das eleições... e os do PCP e associações sindicais em qualquer época aleatória. por isso, vínhamos à janela, ver o carro enfeitado com bandeiras e "dizeres".
não havia a chamada pegada ecológica e ainda se gostava do festival da canção e, portanto, das canções dos partidos - que, na época, ainda tinham partidos.
eu entretinha-me a decorar as músicas e depois decidia que os meus pais tinham de votar no senhor que tinha a cançoneta mais mexida - coisa que fez corar de fúria a minha mãe um par de vezes e, se eu tivesse na altura um alter ego adulto, far-me-ia dar-me uma eficaz belinha na minha pessoa in [ingénua, inocente e infantil].

hoje em dia é outra fruta. a coisa de um carro passar com música não faz virar [muitas] cabeças, simplesmente calculamos que o dealer está a fazer o giro na nossa rua.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

torre de marfim

a mulher cresce entre as insensatezes da vida. há chão que queria pisar. há forças que fogem da mão. o hesitante equilíbrio entre correr e ficar parado. o simples parece-lhe demasiado complicado, nada corre como nos filmes. ri-se e o amargo outra vez.
retoma-se no espelho, de gestos certos mesmo que falhados e tira o dia do rosto. investiga-se para lá da moldura dos olhos e não sabe o que encontra. há vestidos pendurados na memória do querer, num quarto paralelo, entre os frascos de creme para a solidão. vêem-se nitidamente naquele lago de açúcar queimado. não são gavetas nem imagens confinadas, são espaços imensos de luz, janelas abertas e portas escancaradas, de vento contente rodopiado pelos passos de quem nunca está só. e quase ouve o tilintar de copos na sala. já vago e gasto, o som, de tanto o pensar. recua. está demasiado longe.
já não se esforça tanto, sabe. já não pede ajuda, ironiza. convive consigo e basta-lhe que não lhe baste sem chorar. está crescida, seca, a menina.
de vez em quando dá duas passas num cigarro e fica a ver os seus desenhos crescerem nas paredes. fecham-se mais, as paredes, mais preenchidas, outra vez o estranho equilíbrio. ocupa-se nesse preenchimento como se de gente se tratasse, os amigos mudos, as suas presenças no escuro morno, afinal é para isso que ocupa o espaço, para haver espaço para quem não vem. organizadinho a boa caligrafia num caderno deixado a meio pelo desalento, onde se torna com vontade a cada nova conversa.
senta-se no vazio de madeira corrida, o outro eixo partido, o elo perdido. rasga-se-lhe um pequeno sorriso de dor, na cicatriz do costume. contempla as histórias que já não são suas, pergunta-lhes se voltam. depois lembra-se que não gosta de não ter resposta e vai-se embora com um ardor no peito. já gastou as palavras.
parada dentro de si abre a mão e agarra-se. é pequena, a mão, mas é o que se arranja. há noites de quebra, há quebrantos na noite.
passa um carro e sai porta fora dos olhos a passo acelerado.

uma respiração lá ao fundo recorda-lhe que nem tudo estagna, que há algum consolo na distância.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

da pausa

depois de meses de vozes, alheada do mundo, impôs-se uma pausa.
enquanto esperava, fugi.
sete dias na paz do Alentejo. amor, azul e fotossíntese.
já vi pessoas, assim muito de quando em vez, mas já fui vendo as minhas caras.
e continuo à espera que o trabalho resolva arrancar.
pode ser que quando lhes der a vontade, eu já não esteja disponível.
pode acontecer. porque hoje recebi uma mensagem: ensaios já quinta-feira.
enquanto sim e enquanto não, fica aqui a promessa: tenho de voltar a escrever aqui.
tem de ser. sinto-lhe a falta, apesar de não ter muito para contar...