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Mensagens

trezentos e quinze quilómetros

vinte e um dias. já as malas vão de viagem, ainda me fico por aqui a deambular nos fios que me cosem ao meu chão. pouco me falta, nada me falta, já falta pouco. passo o dia na cama, deixo o corpo dormir quando quer, comer qualquer coisa nos intervalos. olhas-me sonolento e nessa lassidão recupero-me devagar. para o que me há-de desgastar. são demasiadas horas longe do meu porto, lá no Porto. vou-me desenterrando dos lençóis e pensando no que falta levar, as pontas soltas que não me apetece atar. recordo quem fica com um peso no coração, entre bolsas e bolsinhas livros e cartões de memória. se por cada bolsa mil beijos e um olhar cúmplice. depois de amanhã lá me solto, sem muita vontade, à estrada dos meus vinte e um dias. conto, sim, com as mãos de sempre que me farão companhia, este ano o Porto é nosso e o Artes em Partes e a Miguel Bombarda e Serralves e a Ribeira e pôres do sol na piscina. este ano, Bojangles, tomas conta de mim e eu tomo conta de ti, mostras-me o teu Porto que aind...

depois da apneia

já com a órbita mais estabilizada, depois de tudo o que podia correr mal correr bem, depois de ver o meu pai de volta ainda meio grogue mas de sorriso em riste e cheio de fome, posso preocupar-me com pormenores. e depois de passar um dia inteiro num hospital, a fazer de conta que não estava nervosa, que até conseguia ler e essas coisas, posso declarar que devia haver uma nova lei: os senhores que fornecem ares condicionados para os hospitais deviam financiar a distribuição gratuita de anti-histamínicos a todos os utentes e acompanhantes. raistaparta, filhos da mãe que me puseram outra vez com o cérebro a sair pelo nariz, um peso de toneladas nos olhos e a voz toda lixada. assépticos, assépticos ma non troppo...

génios

quem foi o néscio que inventou a campanha dos Açores que consiste em deixar três vacas a apanhar frio e gases de tubos de escape [e um camadão de nervos*] em plena Praça de Espanha?! [*os senhores dizem que preveniram situações de stress, e as vacas não são Açorianas. já se sabe que as de cá já estão a Xanax há duas décadas]

agenda

ando desencaixada das horas que me rodeiam. demasiado, demasiado. preparar uma ausência e estar já ausente de onde não devia. mas estar presente onde posso, quando posso, que são as horas que me sobram do dia, as desoras da madrugada. para levar avante promessas antigas que calharam em prazos apertados, para recriar uma passagem de ano que não houve. entre compromissos, há o subentendido de presenciar descoordenações emocionais que me desgastam por osmose, tentar desligar-me para me manter onde tenho de estar. e tudo tão relativo. quase que dá para uma gargalhada amarga, ali, entre as três e as quatro. a cabeça estala. o cansaço deita-se cá dentro e aninha-se. e penso se aguentarei o mês da ausência, sem o porto seguro, e sem aguentar o forte que devia aguentar. e penso, sempre, que não estou agora onde devia estar. que tudo tem uma razão, mas que não concordo comigo.

a garrafa partida

cabeça quente, mãos geladas, terceira ou trigésima reclamação no banco, o vapor sai-me da boca, passos largos, não sinto os dedos dos pés. dois homens discutem. penso que talvez a típica disputa territorial dos arrumadores, sigo em frente. mas os meus olhos agarram uma mão que aperta uma garrafa partida. páro e alerto. ele tem uma garrafa partida. as palavras chegam-me vagas, um sotaque, um torvelinho entre os berros de um e os sussurros lunáticos do outro. queres-me matar? este é redondo e escuro, de casaco verde que deve ser pouco consolo neste frio. tem uma faca. o outro tem uma ponta-e-mola, aninhada no punho. o outro, de fato, gravata e cachecol mas cabelo desalinhado e óculos demasiado grossos, um olhar demasiado perdido, mais perdido, tem uma ponta e mola. percebo a garrafa partida. para arrumador de espírito enevoado de vícios ou só demasiado azar na vida, até teve presença de espírito. procuro um polícia. desespero, o frio a cortar-me os olhos e o medo que se corte algo mais...

ano novo, peça... velha

dez da noite é sempre uma boa hora para receber uma chamada do antigo trabalho a pedir para ir lá amanhã fazer uma substituição. no dia em que tinha combinado com os novos colegas ir assistir ao namorido. assim, um quatro-em-um: sei que há sítios onde ainda faço falta e onde faz sempre sentido regressar, volto por um dia ao mosteiro e aos bons dias de camarim demente na torre, tenho público "amigável" e vou fazer uma personagem que nunca fiz. assim, do pé para a mão. há coisas que nunca mudam. aqui entre nós, que ninguém nos lê, ainda bem ;) vou para dentro. tenho de acabar de roer os cotos...

a posta de natal

este ano a coisa anda complicada. embora às vezes até tenha algum tempo, nesse mesmo tempo encontro-me num estado vegetativo de fazer inveja a muito tubérculo. a nível mental, também, vaziazinha de ideias ou de memórias de momentos destacáveis para colar por cá. no entanto, muni-me de uns fiapos de força que encontrei por aí, arrastei comigo o namorido, e aqui está o nosso vídeo de natal. com música, animação e, claro, gorros vermelhos. fiquem bem. aconchegados, a entupirem-se de doces como manda a tradição :) eu vou ali recolocar-me a soro a ver se recupero.

29

foto roubada à Manel meia-noite com a alcateia, pequeno-almoço na cama, estrelas de feltro ao lanche com a boneca. passeio de mãos dadas a olhar para a nossa amiga que, só hoje, trazia brincos*. seria para a minha festa? *vénus e júpiter, amor e criação do dia, segundo uma especialista da coisa.

bonjour

o ambiente no meu camarim é geralmente épico. língua afiada e pouca cafeína, acho eu. portanto entro, maquilho-me a contar até duzentos para não rebentar com as enormidades que se vão acumulando no ar, e saio a abrir para aquecer no corredor. no entanto, hoje aconteceu um pequeno milagre. os clássicos da disney, em brasileiro, salvaram a minha manhã. e por isso, agarrei a oportunidade e cantei tudo o que me lembrava, fazendo as vozes de todos os personagens incluídos em cada número. em plenos pulmões. eu, que não canto. só por um bocadinho de paz, de gargalhadas com gosto enquanto pintava [literalmente] o focinho.

tu és tão grande

deixa-me ver a tua mancha. mas és uma pessoa, não és? vais sair daí? mais ou menos. [isso de] ir ou ficar. onde estaria? descansar. sim. só.

são martinho

foto de espanta-espíritos por estes lados a rua fria ainda cheira a lume. em casa, uma manta, o aquecedor e a nossa mistura perfeita das melhores tradições: castanhas no forno e vin chaud .

pânico combustível

na bomba de gasolina, ouve-se a voz roufenha de uma rapariga da caixa: - senhor da bomba cinco, desligue o telemóvel. começam a rodar cabeças à procura do imbecil. volta a voz, um pouco mais alterada: - senhor da bomba cinco, por favor desligue o telemóvel. vemos o imbecil, continua imperturbável - vá, talvez o barulho do intercomunicador esteja a chatear um bocadinho, mas pronto -, telemóvel numa mão, mangueira de abastecimento na outra. esbracejamos, mas nada. eu começo a gritar na direcção do imbecil, tentando comunicar pelo único meio que acho que ele compreenderá: "ó senhor! trrim-trrim não! gasolina! fssst cabum! morrer! explosão! dói!" a menina da caixa insiste, cada vez mais nervosa: - senhor da bomba cinco, é proibido falar ao telemóvel. está a ouvir? desligue o telemóvel. senhor da bomba cinco? o meu namorido começa a encaminhar-se na direcção do imbecil, fazendo-lhe sinais para parar. abana-o para ele levantar os olhos. ele lá se apercebe que a conversa é com ele e...

quando se pensa que já se viu tudo

vai-se comprar farinheira ao supermercado e vê-se numa estante um Trivial Pursuit edição DVD... porque deve dar muito trabalho às novas gerações essa coisa de atirar os dados ou mexer o queijinho. chega-se a casa e, abananadamente, descobre-se que até há a versão digital do bicho, tipo Game Boy, ou para os mais modernos, vá, PSP, para acabar com o incómodo dos cartões... medo...

um pedaço de história americana

nos bastidores de um teatro em Lisboa, uma colega estava quase histérica no camarim, de contente. durante o aquecimento, em vez de "força, merda", gritou-se "Obama". soube por fonte fiável que noutro espectáculo uma "menina" da Brízida Vaz também gritou, mas em cena, pelo Obama [aqui entre nós, lixando um bocado toda a dramaturgia do Gil Vicente, eheh]... hoje está tudo parvo em bom. faço parte desse sentimento. sei que um homem não resolve uma crise mundial, mas identifico-me mais com as suas intenções e planos práticos do que com outros. e sei que, acima de tudo, um povo inteiro que vivia arreigado numa pequenez de espírito assustadora deu um passo incrível por cima dos costumeiros preconceitos fúteis para acreditar na força e propostas desse homem. e como, por acaso, esse povo tem uma influência gigantesca em tudo o que se passa por todo o lado, eu agradeço.

adenda do dia não senhor

descobri entretanto que a causa de o meu despertador não ter tocado foi, literalmente, isso: o altifalante do telemóvel [meu despertador] pifou. assim, da noite para o dia. portanto agora o piqueno não toca, só vibra. também não posso falar em altavoz no carro. o que me vale é que com auscultadores ainda posso ouvir música no metro... para breve, o enterro do dito pequenito, que não sei bem como vou substituir... ADENDA DA ADENDA: o namorido lá me esventrou o telelé e arranjou-o! iupi!

dia não senhor

acordo com um telefonema, a patroa a perguntar onde estou. no momento em que pego no telemóvel começo a hiperventilar. faltam 20 minutos para a peça começar. gaguejo qualquer coisa como "ah uh ah ghlagh tou ah a ir agh" e desligo. 3 minutos depois, estou montada na mota a repetir autisticamente "faltam 17 minutos, faltam 17 minutos, eu não acredito nisto, faltam 17 minutos", de dedos cravados nas costas do namorido - ensonado, atordoado e petrificado de medo porque nunca por nunca gostou de conduzir a mota à chuva e, claro, hoje choveu, daquela chuva que transforma o chão em manteiga, mas por isso há mais trânsito, por isso nem tempo para carro nem para metro. na antónio augusto de aguiar atendo outra chamada da patroa e tento explicar, agora mais articulada, que o despertador não tocou, que a única coisa que me separa do teatro são os semáforos - todos vermelhos, como convém. explico que se não me caracterizar para a primeira cena, são 30 segundos para me vestir e ...

sonoro

descia descuidada a avenida, restituída à ordem natural depois do fim de semana de sete milhões de euros que legalizaram - temporária e exclusivamente - as corridas de carros, o tuning e o barulho excessivo em áreas residenciais. [by the way, o público surpreendeu-nos, recusando os apelos da grunhice intrínseca de cada zé tuga, enchendo-nos a sala apesar do circo à porta, das estradas fechadas, do incómodo de mudança da hora, do sol lá fora e nós aqui. amén a todos vocês, benditos anónimos, que nos forraram a plateia com mais de seiscentas almas receptivas e bem dispostas.] mas dizia eu que descia a avenida. passando o nevoeiro das castanhas na esquina, evito que uma senhora seja atropelada na passadeira e continuo na luta interna de conseguir chegar à mala apesar das várias camadas de roupa, do capacete, do desastre natural da minha pequena estatura que não me permite equilibrar tudo nos braços. tiro o sete colinas e o telemóvel, carrego no play. já vai a meio a canção e é das que dã...