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Mensagens

vida de artista

quando preencho a minha declaração de IRS, toda eu sou suores frios e tremores. há um ritual: duas pessoas lado a lado com máquinas calculadoras, somar todos os valores duas vezes para ter a certeza ao cêntimo, cinzeiro a abarrotar de beatas, não saber onde encaixar os rendimentos desta coisa estranha que é ser artista, ler em voz alta a "ajuda" e ficar com a sensação de que afinal somos analfabetos. depois fica aquele aperto na barriga, um misto de fraqueza e descarga de adrenalina e de "será que foi este ano que cometi a argolada mestra e me vêm bater à porta para me empalar e penhorar os meus dedinhos em praça pública...?" queria ser rica, só para não ter problemas com isto dos impostos...

da construção de uma personagem

há dias na vida de uma "dobradeira" em que aparecem personagens e situações fora do normal. não me refiro a cães ou monstros. refiro-me a isto: a profissional da voz pára, inspira e questiona-se profundamente. ao que soa uma amêijoa em pânico? como será a personalidade da a mosca paranasal 1, e ainda como será essa personalidade por contraponto à mosca paranasal 2?

um mano de cama

o serviço nacional de saúde tem destas coisas e só agora, uns... errr... dois anos depois da primeira crise é que o homem ficou com os olhos amarelos o suficiente para chamar a atenção dos médicos. agora já só operando, mas antes só esperando que a infecção estabilize. antes disso, a médica tinha de ir almoçar à uma e meia, por isso mandou-o para casa esperar por uma consulta no posto. agora já está de scrubs azul cuequinha, dieta zero no soro, droga legal e as manhãs da Fátima. [ai as dores, dona Fátima] já lhe levei o bloquinho e a caneta e convenci-o a ir-nos actualizado das suas aventuras com a vesícula numa cama nos Capuchos via sms... fico eu meio desorientada, com uma direcção de actores que só estava a resultar a quatro mãos. é que eu só tenho o dom da estalada e ele o dom de repetir o que já se disse mil vezes de uma forma nova e convincente... ai, que é dos Coen sem um? hã, mano Coen?!

valor

há algo de reconfortante no cheiro daquele mofo, naquela subida claustrofóbica torre acima, nas dores das escadas que nunca acabam, no arrastar das palavras em cuecas, na dança das partículas com arabescos de fumo. são os "já tinha saudades disto" na boca de todos, não só de um ou dois. depois de tão-só duas semanas de ausência. depois de seis meses todos juntos. sem [a]pesares.

a cadela fala e a dona canta

vá de nova série de animação, com estreia na RTP. vá. agora vá de ter de cantar... vá. chama-se terapia de choque ao bloqueio mental. de auscultadores nos ouvidos, a ouvir-me a mim e à voz guia, a ler uma métrica duvidosa e vai de suores frios. mas vai de fazer. olaré se foi. a ver se começa agora a minha carreira musical eheheheh

como seria de esperar

com as pressas e as atrapalhações e os gritos com o blogger, acabei por apagar as minhas listas de links. peço a todos os que estavam linkados e que tenham interesse em manter-se aqui na lista do lado mas que a minha memória abandonou, que me dêem uma grande reprimenda aí na caixa dos comentários... bah... [isto é... se é que alguém ainda lê esta coisa...]

limpeza facial

quis fazer uma limpeza facial ao polegadas. claro que, como não nasci para sopeira, isto não me está a correr de feição... portanto, apesar de o template ser do mais básico que há e já ter feito isto noutro blog , desta vez não estou a conseguir pôr a barra de imagem no topo do blog, nem o texto justificado como pré-definição, enfim... andarei de volta de html, tanto quanto o tempo me permite. entretanto vai ficando como está, liso, azul-céu e antracite. a ver é se recomeço a escrever mais frequentemente, caramba. se calhar é por isso que não me deixa inserir a imagem, está chateado comigo pela falta de atenção...

o sangue novo

ontem viajámos no tempo. devagarinho, primeiro de passos envergonhados. os olhos são os mesmos, terão apenas outras histórias para contar. os gestos e os abraços pareciam não ter conhecido mais um segundo. parecia que tínhamos parado no tempo, ou recuado mas no bom sentido. a ida e a volta e as pedras que nos reúnem sem podermos pisá-las outra vez. foi estranha, a sensação. mas familiar, quente e desenvolta. de pantufas, pode dizer-se. no chão empedrado mas de pantufas. com os fantasmas colados às costas. estávamos assim, como sempre e há tanto tempo que não. isso não devia ser possível nestas dinâmicas de grupo. pergunto-me como teria sido se tivesses deixado este sangue novo correr-te nas veias, nos corredores, sem medo de nós, percebendo que caminhávamos todos no mesmo sentido e com o mesmo respeito. com diferenças mas o amor intacto. onde te queríamos incluído. pergunto-me se pensarás nisso, lá longe disto tudo mas com essa aura pegajosa que deixaste que nos afastasse. que te menti...

lndn . shortstop

Santa Apolónia . 13:45 com o befe bem assentado já estamos no pouca-terra. parte dentro de 15 minutos, está só a repôr o carvão. vamos no vagão da frente, a levar com o fumo... Oriente . 14:12 os iogurtes em promoção do Pingo Doce de Santa Apolónia são para consumir até Agosto de 2004 ou Abril de 2008... Porto . 18:00 sem congestão pelos iogurtes, paragem digestiva pelos preços da bica no magestic Porto . 18:30 em toda a parte encontramos gente. muita merda, M@nel :) Porto . 20:30 matraquilhos na sala de embarque, matraquilhos na sala de embarque, matraquilhos na sala de embarque! Ar . 21:40 bless you diazepam! Stansted . 00:20 não fuma, corre para o comboio. comboio vomitado. não fuma, mas também não respira. Lndn . Liverpool St . 01:50 autocarro de madrugada, de 15 em 15 minutos. cheio, utilizado. ah, isto é civilização. Lndn . Camden Town . 02:20 um homem já aviado pára em trip onírica a olhar para as bolas do meu casaco. outro está em movimento interno a olhar para um copo pousad...

um fósforo

cheguei para o colo do meu encenador: "O senhor presidente entrou por aqui adentro e disse logo, antes de pôr os olhos na exposição da Agustina: vim ver a Puligari". risos. cumprimentar os amigos de sempre, que por acaso ou não, partilhariam a tela comigo . fugir dos flashes e baixar a cabeça nos discursos. e alea jacta est . a cadeira já doía no rabo, ainda nem íamos a meio. o senhor presidente velava-nos lá do camarote. aguardava-me, com certeza, ri-me. o fado de Simone de As Vedetas cumpriu-se em grande escala: ou puta ou criada, a criada já está. reconheço o ensemble da cena. enfio-me pela cadeira abaixo, sapatos adentro. os meus 20 segundos. o resto é o resto é o resto. cinema português é cinema português é cinema português. sair porta fora a rir à gargalhada, de coisas pequeninas se torce o pepino. puxam-me pelo braço. estavas tão bonita. como assim? ias tão bem! mas mal se vê. diz quem sabe - ou acredita - que a magia se fez nas pequenas coisas. não sei, mal vi, enfiad...

Black Vox - histórias negras em teatro de terror

textos e encenação . Ana Lázaro, Patrícia Andrade, Ricardo Neves-Neves com . Ana Lázaro, Patrícia Andrade, Ricardo Neves-Neves, Sílvia Figueiredo, Vítor Oliveira vídeo . Dora Carvalhas curta de animação . Solange Santos e Mário Sousa [polegarfilmes] a partir do texto de Ana Lázaro Casa Conveniente | 6 a 15 de Março | todos os dias às 21:30 Teatro da Trindade | 29 de Abril a 17 de Maio | 4ªa a Sáb às 22h . Dom às 17h bilhetes . 7,5€ . normal | 5€ . para jovens até 30 anos, maiores de 65 anos, profissionais do espectáculo, grupos de mais de 10 pessoas, coveiros, talhantes e médicos legistas info e contactos: 964096484 | 913938899 | www.teatrodoelectrico.com chegada de Braga, passei a última semana e meia a recuperar um trabalho de 3 semanas que se tinha evaporado no éter digital de um velho programa de computador. quinta-feira à noite, depois de várias madrugadas e uma directa a trabalhar ininterruptamente [saindo apenas de frente dos fumegantes computadores para ir fazer espectá...

trezentos e quinze quilómetros

vinte e um dias. já as malas vão de viagem, ainda me fico por aqui a deambular nos fios que me cosem ao meu chão. pouco me falta, nada me falta, já falta pouco. passo o dia na cama, deixo o corpo dormir quando quer, comer qualquer coisa nos intervalos. olhas-me sonolento e nessa lassidão recupero-me devagar. para o que me há-de desgastar. são demasiadas horas longe do meu porto, lá no Porto. vou-me desenterrando dos lençóis e pensando no que falta levar, as pontas soltas que não me apetece atar. recordo quem fica com um peso no coração, entre bolsas e bolsinhas livros e cartões de memória. se por cada bolsa mil beijos e um olhar cúmplice. depois de amanhã lá me solto, sem muita vontade, à estrada dos meus vinte e um dias. conto, sim, com as mãos de sempre que me farão companhia, este ano o Porto é nosso e o Artes em Partes e a Miguel Bombarda e Serralves e a Ribeira e pôres do sol na piscina. este ano, Bojangles, tomas conta de mim e eu tomo conta de ti, mostras-me o teu Porto que aind...

depois da apneia

já com a órbita mais estabilizada, depois de tudo o que podia correr mal correr bem, depois de ver o meu pai de volta ainda meio grogue mas de sorriso em riste e cheio de fome, posso preocupar-me com pormenores. e depois de passar um dia inteiro num hospital, a fazer de conta que não estava nervosa, que até conseguia ler e essas coisas, posso declarar que devia haver uma nova lei: os senhores que fornecem ares condicionados para os hospitais deviam financiar a distribuição gratuita de anti-histamínicos a todos os utentes e acompanhantes. raistaparta, filhos da mãe que me puseram outra vez com o cérebro a sair pelo nariz, um peso de toneladas nos olhos e a voz toda lixada. assépticos, assépticos ma non troppo...

génios

quem foi o néscio que inventou a campanha dos Açores que consiste em deixar três vacas a apanhar frio e gases de tubos de escape [e um camadão de nervos*] em plena Praça de Espanha?! [*os senhores dizem que preveniram situações de stress, e as vacas não são Açorianas. já se sabe que as de cá já estão a Xanax há duas décadas]

agenda

ando desencaixada das horas que me rodeiam. demasiado, demasiado. preparar uma ausência e estar já ausente de onde não devia. mas estar presente onde posso, quando posso, que são as horas que me sobram do dia, as desoras da madrugada. para levar avante promessas antigas que calharam em prazos apertados, para recriar uma passagem de ano que não houve. entre compromissos, há o subentendido de presenciar descoordenações emocionais que me desgastam por osmose, tentar desligar-me para me manter onde tenho de estar. e tudo tão relativo. quase que dá para uma gargalhada amarga, ali, entre as três e as quatro. a cabeça estala. o cansaço deita-se cá dentro e aninha-se. e penso se aguentarei o mês da ausência, sem o porto seguro, e sem aguentar o forte que devia aguentar. e penso, sempre, que não estou agora onde devia estar. que tudo tem uma razão, mas que não concordo comigo.

a garrafa partida

cabeça quente, mãos geladas, terceira ou trigésima reclamação no banco, o vapor sai-me da boca, passos largos, não sinto os dedos dos pés. dois homens discutem. penso que talvez a típica disputa territorial dos arrumadores, sigo em frente. mas os meus olhos agarram uma mão que aperta uma garrafa partida. páro e alerto. ele tem uma garrafa partida. as palavras chegam-me vagas, um sotaque, um torvelinho entre os berros de um e os sussurros lunáticos do outro. queres-me matar? este é redondo e escuro, de casaco verde que deve ser pouco consolo neste frio. tem uma faca. o outro tem uma ponta-e-mola, aninhada no punho. o outro, de fato, gravata e cachecol mas cabelo desalinhado e óculos demasiado grossos, um olhar demasiado perdido, mais perdido, tem uma ponta e mola. percebo a garrafa partida. para arrumador de espírito enevoado de vícios ou só demasiado azar na vida, até teve presença de espírito. procuro um polícia. desespero, o frio a cortar-me os olhos e o medo que se corte algo mais...