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Mensagens

cartas de amor . procuram-se

das antigas, daquelas de autores portugueses às suas amadas [ou de autores portugueses aos amados, ou delas para eles, ou delas para elas, não sou esquisita], onde escreviam os seus dedos e não os dedos dos fantasmas das suas personagens. daquelas que eram caneta e lápis e papel e mata-borrão. das que eram saliva e selos e tinta manchada de sal. ando em pesquisas e falta-me o tempo, sempre o tempo. fica o apelo. sirvam-se de mail e comentários a gosto. como recompensa, há-de pensar-se em qualquer coisinha. muito agradecida.

frios

é acordar um dia com a parangona da TVI: "Portugal a bater o dente!" e ao domingo de manhã com uma mensagem da irmã a dizer "está a nevar!" - note-se a semelhança de pontuação entre uma irmã entusiasmada e um telejornal nacional. aliás, quando lançaram o alerta laranja, esqueceram-se de mencionar um pequeno apartamento às cores ali para os lados do subúrbio lisboeta... os dias fazem-se de várias camadas de roupa [hoje é uma long sleeve e 3 camisolas], de parecer um repolho farfalhudo com pernas, de abdicar de algum bom gosto no vestir em prol de ter o mínimo de arrepios possível. são lábios brilhantes de baton de cieiro, salas abafadas de fumo porque abrir uma janela é suicídio. é o ataque de asma porque está frio e depois o ataque de asma porque o novo aquecedor-ventilador queima o ar. são, portanto, pesadas bilhas cremes escada acima porque a Galp se esqueceu de preparar as novas Plumas-das-pernas-boas para os aquecedores a gás antigos. é também a noite de bastido...

oioai-ai

costumo dizer que o mundo do espectáculo é um penico. mais um exemplo: um jantar de - espera-se - trabalho é o mote para uma noite que se prolonga porque, afinal, a companhia é tão agradável que não apetece ir já embora. pessoas que entram, passam, sentam-se, bebem um copo e voltam a sair ou ocupam de vez mais um lugar arranjado à pressa. aquele lugar é como mala de mulher. é como coração de mãe: cabe sempre mais alguém... conversas cruzadas com gente estranha e, de repente, um casal discreto - e até ao momento apenas semi-descontraído - perde a pose. eu - tu??? és o vocalista??? vb - s... sou... ee - epá, parabéns, pá, adoro esse single. eu - o Fred! o Fred trabalhou comigo nas dobragens! vb - fixe, gostaste? ah sim, conhece-lo? eu - quem é que não conhece o Fred... está metido em trezentas coisas ao mesmo tempo. vb - é verdade eheh... ee - deviam começar a fazer uma lista das bandas em que o fred não entra... [gargalhada] ee - epá, eu não gosto de músicas românticas, mas se ouço est...

diários da perna de pau #5 . o princípio do fim

hoje é o princípio do fim. o grosso do nosso trabalho termina aqui. começa agora a verdadeira comunicação. a parte visível. não é um espectáculo fácil. tem, para mim, como mais-valia, um cenário chamativo, música forte, texto denso e interpretações com momentos muito bons. criticar, estando cá dentro, é muito fácil. desculpar também. tenho as minhas considerações, mas neste caso específico não quero ser tida nem achada "publicamente", porque pecaria. por excesso ou por defeito. acho que lhe chamaram ética profissional, eu chamo-lhe simplesmente bom senso. lembro-me do primeiro "ditado melódico" do patrão-encenador, que converti em projecto. lembro-me de tudo o que foi calcorreado, telefonado, enviado, recebido, reunido, viajado, investigado. as pessoas, tantas pessoas, tantos braços e gritos e chatices, sorrisos e motivações, injustiças e preocupações. tanta unha roída, tanta auto-estrada. sorriso. o papel e as palavras foram, em grande percentagem, o meu pedaço nes...

d'O Método

fui ver um ensaio, daqueles tipo treino à porta fechada mas para gente da arte. subiu-me até certo ponto a expectativa porque eram pesos pesados a trabalhar, com um peso pesado a dirigir, com uma técnica supostamente peso pesado. foi pesado de digerir. não no sentido de um texto forte com interpretações marcantes e encenação de choque. foi pesado de digerir como aqueles almoços de cozido à portuguesa desenxabido que nem sabem bem e ficam a trabalhar no estômago o dia todo. foi pesado de digerir porque foi... uma seca. compriiido, com má encenação, atabalhoada e com cortes injustificados longuíssimos, actores em overacting constantemente, sem um estudo dramatúrgico do texto feito como deve ser, que se notava nas variações de personalidade completamente desenquadradas... uma contra-regra que fazia trabalho desnecessário se os actores se dessem ao sacrifício de mexer uma cadeira e trazerem na mão os adereços, um texto que podia ser forte se não fosse tudo o resto ser mau ao ponto de nos d...

meada

acorda. a despedida do calor da pele. o frio a vestir. voar às costas de um anjo. frio que corta. espera e café de saco. carrinha. o meu tamanho não carrega plasmas de 44 polegadas. o caminho é por aqui. música do mundo. falta um dvd. pequeno almoço com guia. folhear o Y, "olha tu!". regresso com sotaques. "sou o único que nunca teve um acidente com a carrinha". manobra perigosa, desvia, acidente. pára que pára pára na calçada. triângulo. esperar e praguejar. arrancar o pedaço de plástico. regresso à base, telefones malditos. "venho pela presente informar V. Exa.". o spot de rádio ainda não saiu. os plasmas não são assim. os convites estão a esgotar. "solicitamos o envio de um fax de confirmação até à data limite". a tua mãe já reservou? sim, sim, é ao estilo teatro de rua. não te estou a falar desse, do outro. falta um logo. muda o lettering. afinal tenho de te dar mais um parágrafo. pára. almoço, dividir a dose. cheira a fumo, está calor, tenh...

diários da perna de pau #4

clic para aumentar ph.t. ms | txt polegar palavras e fotos. há histórias incontadas por detrás de um produto final. poucos saberão, no fim de contas, o que foi dito. o que foi realmente dito e apontado num caderno velho, com letra apressada, depois de dias a implorar uma hora de atenção para cumprir prazos. de tópicos trôpegos de um génio, ao "pesquisa tu que eu não tenho tempo", como se chega a 28 páginas de simples papel? poucos, porventura, terão acesso a uma imagem que teve de ser - para tristeza geral - retirada. os motivos são compreensíveis, claro [por uma vez?]. outras imagens igualmente geniais perdurarão, chegarão a ser folheadas, apreciadas, disfrutadas. para meu orgulho, com os devidos créditos em letras garrafais. esta é a página perdida. de histórias que ficarão por contar. do equilíbrio ténue entre vitórias agarradas com unhas e dentes e sabores amargos de letras que faltam. de um trabalho de equipa que, como sempre, como em tudo, funciona como pouco...

de outras equipagens

uma manhã, cheia de nervos de segundo dia para dois actores. dia normal para os outros, sem descréditos nem diferenças. maquilhagem, roupas, frio e cigarros. o rádio só apanha a RCP e isso são risos e playbacks acrescidos. na torre, no camarim, recebo um telefonema esbaforido da assistente de produção: um dos alunos que vem hoje está numa cadeira de rodas e os professores não tinham avisado. e agora, e agora? faltam 10 minutos para começar. o espectáculo decorre nos claustros superiores, não há elevadores. ainda penso depressa: vamos passar o cenário e charriot com roupa para o claustro de baixo. ainda me surpreendem os outros: sem queixas, sem resmunguices, todos acorrem, todos trabalham, todos carregam. telefonema para as altas entidades que de sentadas à secretária são demasiado burocráticas e não suportam ondas: temos de agir depressa, temos de ter autorização para ocupar os claustros do piso térreo. primeiro um não que gela o sangue, depois o sim. para dar tempo para alguns se ves...

terra queimada

sempre me fascinou o teu cheiro a lenha queimada. olhando-te à primeira impressão dir-se-ia que a tua pele branca de princesa cheiraria a algo como maçãs acabadas de cortar ou loção de bebé. mas tu nunca gostaste de regras nem de preconceitos. sempre fizeste questão de os quebrar. até a tua pele tem essa atitude. cheiras a queimado, a escuro, quando muito a brasas e cinza. e o teu cheiro entregou-te. não me apercebi ao início, quando apenas me sentia confortado. quando o teu lado negro me seduzia em noites agrestes e violentas. quando o jocoso e o irónico, o amargo e o irreverente me envolviam em abraços tão apertados que sentia os espinhos cravados e saboreava o sangue das nossas gargalhadas. mas agora tenho medo. das tuas chicotadas e da minha reacção. já não me satisfazem as nossas noites em que és rainha e esperas que te sirva. e os nossos dias em que violentas os meus pensamentos como se eu não fizesse nada como deve ser. na cama como na vida. sufoca-me a tua política de terra que...

por detras dos montes

criação: Teatro Meridional concepção | direcção cénica: Miguel Seabra interpretação: Carla Galvão, Carla Maciel, Fernando Mota, Mónica Garnel, Pedro Gil, Pedro Martinez, Romeu Costa no Teatro Meridional até 23 de Dezembro 4ª a Sexta às 22:00, Sábado às 17:00 e 22:00 Rua do Açúcar | Poço do Bispo reservas: 218 689 245 o ar é frio e corta. na zona de armazéns estranhos para os lados do Beato, o grupo do Teatro Meridional já tem a sua casinha pronta. um edifício industrial todo recuperado, em tijolo vermelho. lá dentro, um tecto alto de traves pintadas, decoração simples onde apetece estar. bonito, acolhedor, com bom gosto. velas e aquecedores a gás [bom investimento], café de saco à discrição em self-service. o sorriso do rapaz da bilheteira também aquece. o programa é de borla e oferecem um livrinho com turismo de habitação da região de Trás-os-Montes. dá para ir lendo e fumar um cigarro, encontrar casinhas bonitas com preços apetecíveis. já começou a viagem e nem nos demos conta. depo...

os desejos do costume por estas alturas

[ms] coisas doces, abraços quentes, as pessoas que realmente interessam, luzes indirectas e um pinheirinho enfeitado com gosto... é preciso pouco para um natal simpático. que o vosso seja bem aconchegado. até já.

diarios da perna de pau #3

o figurinista vai ao sapateiro. a produtora pede - como sempre - para ele trazer factura. ele telefona. - o sapateiro não sabe escrever e o surdo-mudo que é vizinho dele e que lhe preenche as facturas não está em casa.

diarios da perna de pau #2

no calça descalça, numa peça de marinheiros, à última da hora decide-se que vão calçados. a Polegar trata de conseguir sapatos à borla. o chamado apoio, portanto. depois é a escolha dos ditos, não é? conversa telefónica do Patrão-Encenador com o Figurinista, que estava na loja: - tu agora vê lá que botas é que escolhes! não te ponhas com modas finas! eles têm de conseguir andar! isto não é teatro quieto, assim paradinho! isto não é teatro dos aloés! isto é teatro físico! teatro do corre lá para trás! é teatro de cenas de pancadaria! é teatro do amarinha pela rampa! pela tua saúde: é teatro do sobe ao mastro de 8 metros! ah... já agora, e meses de orçamentações, negociações, estica-daqui-corta-dali-para-poder-pagar, contactos e trabalho manual do prop master depois, o grande Actor decide que já não quer a perna de pau. diz que é - e passo a citar - um "instrumento de tortura"... quem?, atrevo-me eu a perguntar...

diarios da perna de pau

estamos em fase de ensaios, num armazém, com cenário já montado [sim, tiveram de se chegar à frente com as madeiras]. entretanto, figurinos e adereços estão a ser concebidos e provados. o artigo do momento é a perna de pau. para um actor genial - diz o encenador - e hipocondríaco - digo eu. cá vem, todas as semanas, o mestre de adereços [prop master, como eu lhe chamo], de boina francesa e saco dos chineses recheado de coisas estranhas. o actor experimenta a dita perninha, e queixa-se. - está muito alta, não consigo apoiar o pé no chão. o prop master abre o saco dos chineses e tira de lá um serrote. serra a coisa. - não, afinal é do ângulo, percebes? o prop master tira da chave inglesa e chave de fendas. desaparafusa-aparafusa. - agora está-me a magoar o joelho o prop master abre o saco dos chineses e tira um rolo de espuma. - e eu vou usar uma bengala, não é? é que assim não temos bem a noção de como vai ser o andar... inventa-se uma canadiana. enquanto isso, fala-se de como...

fazer farinha - redux

comigo não fazem farinha. mas oportunamente, mais uma vez, não é comigo que a querem fazer. citando - com o devido consentimento - alguém próximo: temos pena... - uuuh... amazing! did you come up with that all by yourself?

é depois

[ms . um ano depois ] contava os dias e nem dei que os dedos deram várias voltas ao teu corpo. estava entretida com os entretantos. com os rasgões que o cinzento, o frio e os desesperos abriam em mim. que tu selavas e cicatrizavas com sopros ferventes. enquanto ias e vinhas na minha pele, preparavas uma gota de suor à parte. então é que percebi, era a teia, uma teia de fios leves, espessos e húmidos, curandeiros como os lábios que se tocam com mais do que desejo e carne. e enquanto dormia, tu tecias. de repente - tão de repente que foi de rompante - arrancaste-me das cinzas que me rasgavam, do cinzeiro de vidro onde jazem as beatas já gastas. arrancaste-me e empurraste-me com força, sem me largar a mão. deixaste-nos cair. num puff vermelho com olhos azuis. e conforme caímos, o puff apanhou-nos, secou-nos à lareira, fez-nos dar três voltas no ar e desaparecemos. e estávamos ali como quem vai para o rio, duas ruas à esquerda, depois da viela adormecida nas luzes de uma porta, contam-se t...

chico et les croissants

[ph.t.s :: ms | design & supporting arm :: polegar] mais uma vez, escondeu-se nas mochilas de dois jovens errantes. e, nos momentos mais inusitados, saltou cá para fora. sim, o nosso repórter especial está sempre em cima do acontecimento. e veio provar que a três também pode ser romântico...

homenagem

uma pausa. na azáfama feliz - e em azert - de uma semana de descanso. de surpresas, de vendas nos olhos. para agradecer a mobilização de uma mão cheia de dedos que surgiram de todos os lados num conluio secreto que se revelou num abraço denso e quente. internacional. movidos pela batuta do maestro do meu coração. sorriso. ainda não fiz anos, mas posso dizer que esta prenda ficará e-ternamente tatuada na minha pele.

bagagem

enrolo as meias e a roupa interior. viro as peças delicadas do avesso. faço uma marca em cada item que já está. não esquecer o pente e o amaciador. puxo com força os esticadores e transformo a mochila no mais redonda possível. depois, estendo um braço e o outro. os dedos tocam o esboço de ar que já não me pertence. espreguiço-me feita gata preguiçosa. em pontas de pé, soam os acordes da caixa de música. chão negro. madeira macia aquece os pés. deslizo numa dança minha, de melodias incertas. as ancas vagueiam, o peito arqueja. o cabelo perde-se no caminho. então, lentamente, a música estende-se, envolve-me. e no seu colo ondulo. ondas cada vez mais encaracoladas. espirais apertadas. toda a minha pele perde as noções da sua geografia, entrega-se nesse abraço aconchegado onde o cheiro é das pintas de canela e me respira ao ouvido. baila, bailarina, baila. pequenina pequenina. já cabes na bagagem. vamos? vamos.