Avançar para o conteúdo principal

general programme coordinator

saio para o ar quente que me sufoca a pele entre o suor e os raios de sol. fim de tarde mais que soalheiro, este. olho em volta... apetece-me... sim... descer.
hoje não passo pelo jardim. no miradouro um homem lava cerejas no chafariz, três rapazes de t-shirts suadas jogam à bola na sombra das árvores e uma senhora passeia um cão castanho. o engraxador espera um par de sapatos e um velhote dorme no banco de jardim com um jornal nos joelhos. alguém toca percussão.
já há quem tenha saído do trabalho, mas neste bairro não se sabe bem o que leva as pessoas pelos passeios empedrados.
chegando ao pé do elevador páro. uma geribéria cor de laranja. é mesmo isso que me apetece.
desço, sem esperar pelo elevador. cai-me a flor da mão, mas uma menina loira que subia corada o passeio íngreme com uma mochila maior que ela às costas corre para ma apanhar e devolver. não evitei o sorriso. três velhotas desafiam a quebra de tensão, também não esperaram pelo elevador. outra senhora à minha frente corre para atravessar a rua antes que o enorme bicho amarelo a atropele. a calçada está escorregadia e as minhas sabrinas têm sola fina.
restauradores. praça enorme, cheia de luz, não me protege com sombras amigas como lá em cima os prédios velhos coloridos onde queria morar. atravesso. nesta altura já o sol me ensopou a roupa. entro na rua do Coliseu, na azáfama de camiões da televisão, cartazes do La Féria, turistas de olhos turvos. vem aí o ballet russo. cheira a sardinhas mas todas as esplanadas estão cheias de pires com caracóis. o verão saiu à rua. ainda é cedo para o assédio dos empregados dos restaurantes, mas estão cá fora, a ver passar os passeantes.
vou subir a minha calçada. já sei que me vai faltar o ar, ainda antes de chegar às escadinhas. entro naquele mundo à parte do tal bairro onde há conversas de janela para janela, discussões entre senhoras à porta das suas lojas, cenas de porrada, o bêbado assobiador, os melhores bolinhos de Belas e o grito de guerra da turminha de miúdos que passa ali às 2 da tarde.
reconheço o cheiro que percorre as paredes daquela sala de tectos baixos e chão de madeira polida, as pilhas de dossiers azuis, o inevitável pauzinho de incenso. nas paredes fotos de tantos sorrisos, de cores e credos diferentes que nos passaram pelas mãos, pela paciência. um arrepio brincalhão percorre-me, ao lembrar-me que na primeira gaveta estão os formulários para os passes da Carris. posters de Lisboa, recordações, bandeirinhas de escolas de locais longínquos. mapas, calendários, listas desorganizadas.
aqui deixei uma caneca da Polónia, o frasco das bolas de sabão que soprava aos miúdos e a minha janela sobre a calçada.
hoje, trago uma geribéria cor de laranja para celebrar a orgulhosa passagem deste testemunho.

Comentários

Anónimo disse…
E nada melhor que uma qualquer flôr para nos acompanhar por essa Lisboa fora.
Agora quente e abrilhantada por um Sol que quase nunca a abandona. Que linda é a Lisboa com todo esta diversidade de gentes; Velhos e Novos, Nativos e Estrangeiros, Poetas e Filósofos e aquele café, bebida numa qualquer esplanada duma qualquer praça ensombreada.

Que linda é a minha Lisboa.
polegar disse…
é linda sim senhor!! temos dias de sol, temos dias de orgulho!

Mensagens populares deste blogue

writer's block

considerando o Polegadas, imaginem que faziam um post para aqui. sobre o que seria e porquê? se quiserem, enviem mesmo um texto. quem sabe não sai publicado... ;)

wc cheap&chic makeover

ora passámos disto para isto quem diz que uns pés-descalços do subúrbio não podem ter um Roy Lichtenstein na banheira? com direito a um armário exclusivo para viagens sensoriais ao passado, recheado de pequenas antiguidades da higiene e cosmética por nós coleccionadas através de incursões a drogarias de bairro. trabalho feito por uma equipa de dois, em 8 dias, por um terço do preço que custaria mandar fazer por "profissionais". há por aí alguém que precise dos nossos serviços de consultoria? fazemos orçamentos grátes e vamos a casa...

conjecturas de inspiração vagamente escatológica*

*que se transformou num romântico dueto de classe - ou dinâmica de um relacionamento condenado à partida a um abanamento de cabeça enquanto se rumina entredentes o[s] ditado[s] "só se estraga uma casa" e|ou "um diz mata, o outro diz esfola" eu só disse mata : há qualquer coisa de big brother nas engenhocas públicas demasiado modernas. eu já brincava com os parques de estacionamento em que uma voz diz "bem vindo ao parque não sei do quê, insira o seu cartão. obrigado e boa viagem". dizia "a senhora deve sofrer muito, ali enfiada todo o dia". ou "diz-se obrigadA, ó estúpida". mas pronto, passava. agora mais tétrico é nas casas de banho... não sei. aquela coisa de uma pessoa fazer o xixizito [meio de pé para não contactar com nada daqueles cubículos] e ainda está a subir a calça já o autoclismo, por sua auto-recreação, faz a descarga, no "exacto momento preciso". não sei. fico sempre a pensar se o sensor não será uma aldrabice. s...